Longitudinal Pathways Linking Child Maltreatment, Emotion Regulation, Peer
Relations, and Psychopathology
Acerca da importância da regulação emocional na relação com os pares na origem
de psicopatologia em crianças vítimas de maus-tratos.
COMENTÁRIOS
A regulação emocional tem sido considerada como um conceito fundamental na
compreensão da psicopatologia infantil e em adultos. Esta pode ser considerada
como a capacidade da pessoa modular o seu estado emocional de forma a atingir
um bom nível de actuação com o ambiente. Como exemplo, uma pessoa perante uma
situação ameaçadora deve conseguir uma regulação adequada dos seus níveis de
medo, para conseguir avaliar, pensar e decidir como actuar nessa situação. Esta
competência é adquirida na infância, quando as crianças perante estímulos do
meio ambiente, começam a experimentar as emoções mais básicas como medo, raiva
ou alegria, e aprendem as pistas faciais associadas; depois, a cada expressão
facial irá ligar-se uma palavra que exprimirá essa emoção (Machado Vaz, citando
Widen & Russell)(1). Através deste processo, a criança irá adquirindo uma
maior capacidade de perceber o seu estado emocional e o dos outros, de forma a
poder reagir de forma mais adaptativa: decidir parar de falar quando, na sala
de aula percebe pela expressão da professora que esta está aborrecida, ou
quando avalia como amistoso e não como uma provocação um cumprimento pelo
sorriso que lhe é dirigido por um colega. Cuidadores sensíveis e disponíveis,
que estabelecem uma vinculação segura com a criança, são eficientes a ajudar a
criança nesta aprendizagem de regular as suas emoções na relação com o
ambiente. Perante a dor, a frustração ou o desconforto do bebé, os pais
saudáveis são capazes de apaziguar e acalmar, ajudando-o a experimentar um
estado emocional melhor tolerado. A regulação emocional é um processo que nos
primeiros quatro anos é muito influenciada pelos comportamentos dos cuidadores.
Quando uma criança é sujeita a maus-tratos, todo este processo é comprometido,
pela ausência de interacções sensíveis que respondam adequadamente às
necessidades da criança. Por exemplo, uma criança pequena que nas suas
explorações do ambiente se assusta perante um estímulo estranho e começa a
chorar, poderá receber da parte de uma mãe negligente uma reacção de
indiferença perante esse estado de alarme, ou uma reacção punitiva ao
comportamento de autonomia, da parte de uma mãe que avalia o choro como
irritante e perturbador.
As famílias em que existem maus-tratos são, deste modo, pouco capazes de apoiar
e proteger quando as crianças estão perturbadas, perdendo a oportunidade de
aprender estratégias para lidar com os seus estados emocionais. Assim, irão ter
maior dificuldade na regulação emocional, que se pensa estar intimamente ligada
com a maior ocorrência de psicopatologia: quadros internalizadores como
ansiedade e depressão e quadros externalizadores como problemas de atenção,
hiperactividade, oposição e outros problemas de conduta.
O que este trabalho pretende analisar é o papel da regulação emocional na
origem da psicopatologia em crianças de 6-12 anos, sujeitas a maus-tratos,
focalizando-se nos efeitos mediadores das relações com os pares. Sabe-se que as
crianças com uma boa regulação emocional possuem um leque de respostas variadas
e socialmente aceitáveis, enquanto que aquelas que não a possuem, apresentam
uma reactividade emocional excessiva ou deficitária, fraca empatia ou reacções
afectivas inadequadas ao contexto. Nestas, as reacções de agressividade e
comportamentos disruptivos são frequentes nas suas interacções(2).
O estudo abrangeu 215 crianças vítimas de maus-tratos que foram avaliadas com
vários instrumentos de medida em dois momentos, durante um período consecutivo
de dois anos.
Os resultados apontam que os maus-tratos ' particularmente a negligência, o
abuso físico e/ou sexual e um início precoce ' se associam a má regulação
emocional, que contribui de forma directa para sintomatologia internalizadora e
externalizadora e de forma indirecta através das relações negativas com os
pares.
Curiosamente, o abuso emocional, que neste estudo dizia respeito sobretudo a
frustração persistente ou grave das necessidades emocionais das crianças, como
segurança psicológica e aceitação, não se associava a problemas significativos
na regulação emocional. Estas crianças, quando comparadas com o grupo de
controlo, apresentavam antes problemas no desenvolvimento da sua auto-estima,
sendo um factor de risco preditivo para o desenvolvimento de depressão.
As crianças que mostravam melhor regulação emocional e que dispunham de
comportamentos afectivos adequados, eram melhor aceites pelos pares, e tinham
menos probabilidade de sofrer de sintomatologia internalizadora mais tarde,
constituindo-se com um factor protector. Esta regulação emocional adaptativa
permite à criança mais facilmente estabelecer relações positivas com os outros,
ao fomentar qualidades sociais, como a empatia e ter em conta outras
perspectivas.
Nas que manifestavam uma desregulação emocional, isto tornava-se um factor de
risco para o desenvolvimento de sintomatologia externalizadora e rejeição pelos
pares, já que são crianças que manifestam frequentes comportamentos agressivos
e disruptivos nas suas interacções sociais.
Assim, na intervenção com crianças vítimas de maus-tratos, há que ter em conta
a relevância da aprendizagem de estratégias de regulação emocional e à sua
aplicação na relação com os pares.