Práticas de marketing interno nas organizações de saúde e a sua influência na
motivação dos colaboradores
Introdução
Face à evolução e às transformações sociodemográficas e políticas dos últimos
anos, as organizações sentiram necessidade de transformar os seus modelos de
gestão em modelos mais eficientes e adequados às reais necessidades dos
mercados1. O potencial humano passa a ser considerado um dos principais
recursos da organização2,3, sendo os colaboradores considerados fundamentais
para que a organização atinja o sucesso3. Assim, é necessário atender e
satisfazer as suas necessidades, afigurando-se necessária a sua motivação4
através do marketing direcionado para o seio da empresa, o marketing interno
(MI), devendo este preceder a qualquer processo de marketing externo5,6,7. O MI
surge como um meio para alcançar os objetivos das organizações através da
motivação dos colaboradores1,8, pois este ajuda na conquista e manutenção do
cliente interno9.
Apesar de ainda nem todas as empresas adotarem este conceito, diversos estudos
demonstraram a relação do MI com a satisfação dos colaboradores10 e com a sua
motivação e retenção11. Contudo, trabalhos que tenham estudado o MI no âmbito
das organizações de saúde são ainda escassos.
Por sua vez, a influência do MI na área da motivação do trabalho, também no
caso português, tem sido pouco estudada, sobretudo no contexto das organizações
de saúde. Neste sentido, a presente investigação tem como objetivo geral
verificar se a existência de práticas de MI influencia a motivação dos
colaboradores e ainda se estas práticas bem como a motivação divergem consoante
a organização tenha um modelo de gestão pública ou inovador.
Marketing interno
O conceito de MI associado às organizações surgiu na literatura de marketing e
gestão de serviços, no final da década de 7012. Foi mais tarde referido por
George13, Thomphson et al.14 e Murray15, mas só entrou no discurso de gestão
quando este definiu o MI como a consideração dos colaboradores como clientes
internos1,16.
Segundo Ahmed e Rafiq1 e Schuttz17, este termo foi proposto por Berry et al.2
para solucionar o problema da prestação de serviços de qualidade. No entanto,
apesar da crescente literatura existente sobre MI, poucas são as organizações
que colocam este conceito em prática, sobretudo devido ao facto de existir uma
grande variedade de definições18.
Assim, Ahmed e Rafiq1,19 referem que é necessário clarificar as definições de
MI para que este possa ser operacionalizado como um paradigma de mudança
organizacional. Segundo estes investigadores, o conceito de MI terá começado
por uma focalização na motivação e satisfação dos colaboradores. A principal
razão residiu no facto das raízes do MI se centrarem no esforço para melhorar o
serviço de qualidade1,19,20,21.
Posteriormente, o conceito de MI foi desenvolvido além dos níveis de motivação
e satisfação dos colaboradores, englobando a perspetiva de se ter profissionais
motivados, centrados no cliente e focalizados para vendas19,22. Assim, o
objetivo do MI passou a ser motivar e ter colaboradores conscientes
relativamente às necessidades do cliente23,24.
Mais tarde, o MI começou a ser visto como uma ferramenta de gestão dos
colaboradores para concretizar os objetivos organizacionais1, englobando a
motivação e satisfação dos profissionais, a orientação para o cliente e a sua
satisfação, a coordenação interfuncional e a integração, bem como a
implementação de estratégias funcionais e empresariais.
Em suma, o MI é "um conceito vasto, definindo uma estratégia de gestão
que tem por objetivo essencial desenvolver uma organização virada para o
cliente, capaz de compreender o seu próprio negócio e produtos e de se
relacionar com os clientes servindo-os com qualidade"25.
Práticas de marketing interno
A aplicação de práticas de marketing nas organizações de saúde é um fenómeno
relativamente recente26 e para que estas práticas de MI funcionem
convenientemente este deve estar integrado na filosofia da gestão das empresas,
mas deve também oferecer aos seus clientes internos algo pelo qual eles se
interessem e acreditem e que faça com que estes "comprem o
produto"25.
No sentido de alcançar este objetivo deve recorrer-se a um conjunto de práticas
de forma continuada, coerente e integrada25. Assim, Jou, Chou e Lu27, partindo
das 4 práticas de MI enunciadas por Collins e Payne28, chegaram à conclusão que
o mesmo é determinado por 6 tipos de fatores, nomeadamente: (i) a empatia e
consideração (dizem respeito às necessidades pessoais dos profissionais); (ii)
o benchmarking (determina o que os concorrentes oferecem aos seus empregados e
é uma forma de compreender as expetativas dos clientes internos/profissionais);
(iii) a qualidade do trabalho (este aspeto envolve o valor financeiro e
emocional associado ao trabalho dos clientes internos); (iv) a comunicação
ascendente (considera a oportunidade dos colaboradores no sentido de
comunicarem as suas insatisfações e sugestões); (v) a relação e partilha de
informações (são os programas internos utilizados pelos gestores para
transmitirem mensagens, missões e valores aos seus colaboradores); e (vi)
atividade promocional (visam promover atividades que envolvam os colaboradores
e que os levem a alcançar os objetivos organizacionais). Estes 6 fatores,
posteriormente medidos por diversas variáveis, constituem o instrumento
desenvolvido por Jou, Chou e Lu27.
Jou, Chou e Lu27 afirmam que o MI influencia a satisfação profissional, o
comportamento orientado para o cliente, o suporte organizacional, o
comprometimento organizacional e a socialização dos grupos de trabalho, o que
por sua vez irá influenciar a satisfação do cliente. Estas variáveis serão
potenciadas pela estratégia da organização orientada para o cliente, a
delegação e a avaliação do comportamento29,30.
Deste modo, a motivação devido à sua estreita relação com a satisfação dos
colaboradores1,31 aparece como uma grande preocupação das organizações e deve
ser trabalhada e mantida através da implementação de práticas de MI.
Motivação
As organizações têm como desafio a motivação dos colaboradores, ou seja, fazer
com que os seus colaboradores se tornem decididos, confiantes, comprometidos,
estimulados e, fundamentalmente, que consigam atingir os objetivos da
organização através do trabalho desenvolvido32. Fazendo uma breve revisão da
literatura verifica-se que a motivação é um dos fatores que mais afetam a
produtividade nas organizações4 e, por outro lado, é um dos mais importantes
meios para que os colaboradores atinjam os objetivos organizacionais através do
bom desempenho das suas funções33. No sector da saúde, equipas de enfermagem
motivadas e comprometidas com a organização criam estabilidade que, por sua
vez, constrói uma base sólida para o desenvolvimento estratégico, sobretudo nas
áreas de melhoria da qualidade e mudança organizacional34,35.
Segundo diversos autores36,37,38, motivação são forças internas ao indivíduo
que iniciam, conduzem e direcionam o comportamento de um indivíduo, bem como o
seu nível de intensidade face a determinados objetivos.
Os colaboradores motivados atingem a autorrealização laboral, sendo para isso
necessário que a organização demonstre respeito pelo seu trabalho, crie
incentivos para que desenvolvam novas ideias e aumentem o seu empenho e
qualidade no trabalho realizado. Estudos sobre a motivação no trabalho
consideram as condições no trabalho o elemento chave responsável pelo alcance
de objetivos, qualidade e intensidade do comportamento no trabalho39.
A motivação encontra-se associada a necessidades, expetativas, incentivos e
objetivos individuais, reforços positivos, reconhecimento, tomada de decisão no
seu grupo de trabalho. Neste sentido, cada vez mais estas medidas são adotadas
pelos gestores das organizações de forma a motivar os seus colaboradores e
diminuir a distância entre o nível hierárquico40.
Teorias da motivação
Nas últimas décadas, as teorias que surgiram baseiam-se fundamentalmente na
identificação dos fatores pessoais desencadeadores da motivação das pessoas41 e
a investigação realizada tem tido como principal objetivo perceber a origem da
motivação, os contextos dos quais a mesma resulta42,43 e os contributos no
contexto das organizações.
Segundo Rego40,44, as várias teorias que procuram estudar e compreender a
motivação podem ser classificadas em 2 tipos: teorias do conteúdo e teorias de
processo.
As teorias do conteúdo procuram perceber o que motiva as pessoas no trabalho,
ou seja, os seus autores procuram a "identificação das necessidades
versus impulso que as pessoas têm e como nesse processo necessidades/impulsos
são estabelecidas as prioridades, de forma a identificar na prática com que
tipo de incentivos ou objetivos as pessoas se esforçam por alcançar e obter
satisfação e bom desempenho"39. Por sua vez, as teorias do processo
descrevem e analisam o processo pelo qual o comportamento é ativado, dirigido,
mantido ou paralisado32,40. Estas procuram explicar a dinâmica de
desenvolvimento da motivação, através da análise intrínseca das atitudes
humanas. Desta forma, as principais teorias do conteúdo são: a Teoria da
Hierarquia das Necessidades, a Teoria ERG (Existence Relatedness and Growth),
Teoria das Necessidades, Teoria dos 2 Fatores, Teoria do Work Design, enquanto
dentro das teorias do processo se distinguem a Teoria das Expetativas, a Teoria
da Motivação Intrínseca e do Envolvimento e a Teoria dos Objetivos (Tabela_1).
Segundo Steers, Mowday e Shapiro40, as teorias mais marcantes na área da
motivação organizacional são as descritas na Tabela_1, pois os trabalhos mais
recentes têm sido apenas desenvolvimentos destas teorias ou baseados nestas
teorias e representam a investigação neste campo relativa às últimas décadas.
As teorias do conteúdo representam uma visão da motivação no trabalho de uma
forma estática e apenas preocupada com a identificação dos fatores associados à
motivação, enquanto as teorias do processo representam uma análise mais
dinâmica da motivação no trabalho, levando em consideração relações causais
através do tempo e de determinados eventos.
Desenho da investigação
Hipóteses
Segundo Steers, Mowday e Shapiro40 são diversas as teorias que pretendem
explicar a motivação, sendo que algumas se centram no conteúdo da função e
outras no processo inerente à função. Contudo, pode observar-se na Tabela_1 que
praticamente todas elas envolvem dimensões ou variáveis que são consideradas
por Jou, Chou e Lu27 como fazendo parte das práticas de MI. Neste sentido,
parece plausível estabelecer a seguinte hipótese:
Hipótese 1
A existência de práticas de MI nas organizações de saúde aumenta a motivação
dos colaboradores.
Por outro lado, dado que diferentes organizações possuem diferentes modelos de
gestão, parece também plausível que as práticas de MI existentes nessas
organizações possam ser diferentes e que, desta forma, a influência das
práticas de MI sobre a motivação dos colaboradores também seja diferente.
Segundo os Decretos-Lei n.° 233/2005 e 101/200645,46, as principais diferenças
entre os modelos de gestão pública e gestão inovadora, podem ser sintetizadas
nos seguintes aspetos: capital estatutário, modelos de gestão, regime de
contratação, financiamento e população-alvo.
Por forma a compreender a adoção de práticas de MI é necessário fazer uma
clarificação da definição do modelo dos cuidados continuados e dos hospitais
EPE, respetivamente. Com base nos Decretos-Lei n.° 233/2005 e 101/200646,47, as
principais diferenças entre os 2 modelos de gestão podem ser sintetizadas nos
seguintes aspetos:
• Capital estatuário, ou seja, os hospitais EPE são um bem público e os CCI são
um bem privado;
• Modelo de gestão centralizado nos hospitais EPE, verificando-se que o
Ministro das Finanças e da Saúde tem superintendência e tutela, pelo contrário
nos CCI existe descentralização do modelo de gestão o não se verifica qualquer
regime de tutela. Consoante o modelo de gestão adotado poderão surgir
implicações em termos de autonomia nas decisões e adoção nas práticas de MI;
• O regime de contratação de recursos humanos nos hospitais EPE é realizado
segundo o Código de Trabalho e legislação em vigor, enquanto nos CCI,
relativamente a esta matéria, se refere apenas que a política de recursos
humanos tem em conta profissionais devidamente qualificados e prevê a formação
inicial e contínua, não fazendo qualquer referência ao regime de contratação.
Assim, de um modo geral, observa-se que nas UCC o vínculo profissional é de
prestação de serviços, enquanto nos hospitais EPE predominam o regime de
contrato;
• O financiamento nos hospitais EPE é realizado mediante a Lei de Bases,
enquanto nos CCI o financiamento é da responsabilidade do Ministério da Saúde,
comparticipado pela Segurança Social e em alguns casos suportado pela pessoa
com dependência, segundo a tipologia da rede;
• Apesar do objetivo base ser o mesmo, na prestação de cuidados de saúde
existem algumas diferenças em termos de população-alvo e de tipologia de
cuidados de saúde. A principal população das CCI são pessoas idosas com
dependência funcional, enquanto nos hospitais EPE são pessoas de todas as
faixas etárias que se encontrem em situação de doença aguda.
Considera-se assim, que nos hospitais de modelo de gestão pública estão
previstas estratégias e políticas de recursos humanos por decreto-lei,
contrariamente ao verificado nos modelos de gestão inovadora, em que não estão
previstas ou definidas quaisquer estratégias de recursos humanos. Dentro das
estratégias de recursos humanos, poderemos identificar as relacionadas com as
condições de trabalho, com a avaliação de desempenho, com perspetivas de
carreira e com a realização pessoal e profissional. Logo, especula-se que os
colaboradores estejam mais motivados numa organização que lhe ofereça melhores
condições de trabalho, em que haja perspetivas de carreira e valorização
pessoal e profissional. Neste sentido propõe-se a seguinte hipótese:
Hipótese 2
Nos hospitais de modelo de gestão pública os colaboradores sentem-se mais
motivados do que nos modelos de gestão inovadora.
Por outro lado, o Sistema Nacional de Saúde, ao qual pertencem os hospitais de
gestão pública, organizou-se de forma a garantir a otimização e eficiência.
Como tal, as suas grandes preocupações foram em termos de gestão eficiente quer
a nível económico quer a nível de recursos humanos. No entanto, nos sistemas de
gestão inovadora não estão previstas estas necessidades de organização.
Desta forma, sendo o MI uma estratégia de gestão de recursos humanos47(George,
1990) e havendo uma maior preocupação e rentabilização dos mesmos recursos,
especula-se que nos hospitais de gestão pública adotem práticas de MI mais
desenvolvidas dos que nos modelos de gestão inovadora. Pelo que se pode
estabelecer a seguinte hipótese:
Hipótese 3
Os hospitais de modelo de gestão pública têm práticas de MI mais desenvolvidas
do que nos modelos de gestão inovadora.
Definição da amostra
De entre as várias tipologias de modelos de gestão pública escolheram-se os
hospitais EPE por serem os que representam o maior número de hospitais em
Portugal e, dentro do inovador, optou-se pela tipologia dos cuidados
continuados integrados (CCI), uma vez que são um modelo em expansão e com
representatividade, atualmente existem 5.000 camas em Portugal48.
Assim, no sentido de alcançar o objetivo proposto, optou-se por uma amostra não
probabilística por conveniência e por redes ou também conhecida como bola de
neve. A amostra é constituída por 234 enfermeiros, dos quais 135 trabalhavam em
hospitais EPE e 99 em UCC, sendo maioritariamente (68) indivíduos do sexo
feminino, tanto nos hospitais EPE como nas UCC. Em termos de idade, a amostra
estudada é constituída por enfermeiros com idades compreendidas entre os 22-58
anos. Em ambas as organizações de saúde a amostra é considerada jovem, embora
nos hospitais EPE existam elementos em praticamente todas as faixas etárias,
contrariamente às UCC.
Método de recolha de dados
Sendo esta uma pesquisa descritiva, optou-se por recorrer a um inquérito por
questionário, visto que se pretendia recolher grande número de informação de
carácter particular49.
O questionário aplicado neste estudo era constituído por 3 partes. Na primeira
parte do questionário pretendia-se recolher informações genéricas, de carácter
sociodemográfico. Na segunda parte pretendia-se recolher informações sobre as
práticas de MI, como tal recorreu-se ao questionário de MI &- adaptado do
instrumento desenvolvido por Jou, Chou e Lu27. Aos inquiridos foi-lhes
apresentado um conjunto de 26 proposições, sob a forma de escala tipo Likert
com 7 pontos, cujos extremos variavam entre 1 ("Discordo
Completamente") e 7 ("Concordo Completamente"). Na terceira
parte pretendia-se recolher informações sobre a motivação e para isso recorreu-
se à escala Multi-Moti &- Escala Multi-fatorial de motivação no trabalho de
Ferreira, Diogo, Ferreira e Valente50. Esta escala é constituída por um
conjunto de 28 afirmações sob a forma de escala tipo Likert com 5 graus, indo
de: 1 ("Discordo Totalmente") a 5 ("Concordo
Totalmente").
Após definido o instrumento de recolha de dados foi realizado um pré-teste a 20
enfermeiros com o objetivo de assegurar que as expetativas da investigação
fossem alcançadas e diminuir possíveis erros existentes51.
No presente estudo optou-se inicialmente por selecionar 2 organizações de saúde
(hospital EPE e UCC), às quais depois de pedida a devida autorização se
aplicaram os questionários. Contudo, devido ao número reduzido de respostas
nestas 2 instituições, optou-se por recorrer a outra técnica de amostragem &- a
técnica bola de neve &- aplicada de acordo com o seguinte critério: enfermeiros
que trabalhassem há pelo menos ano e cuja antiguidade na instituição fosse
superior a um ano, uma vez que se entendeu que só a partir de um ano o
colaborador poderia ter um entendimento da sua instituição. O questionário foi
aplicado entre dezembro de 2009 e fevereiro de 2010.
Apresentação e discussão dos resultados
Caracterização da amostra
A amostra é constituída por enfermeiros que trabalhavam em 7 unidades de
cuidados continuados (nas regiões de Braga, Aveiro, Coimbra, Guarda e Setúbal)
e 11 hospitais EPE (nas regiões de Coimbra, Guarda, Castelo Branco, Portalegre,
Lisboa e Faro). Na amostra em estudo predomina a categoria profissional de
enfermeiro com 33,3 nos hospitais EPE e 41 nas UCC, seguida das categorias dos
enfermeiros graduados e especialistas, com 15,4 e 6,8 (da amostra total nos
hospitais EPE, respetivamente). Nas UCC praticamente só existe a categoria de
enfermeiro.
Em termos de vínculo, a categoria mais representada é a existência de contrato
com a instituição (29,1 nos hospitais EPE e 15 nas UCC). Nos hospitais EPE
cerca de 27,8 da amostra pertence ao quadro da instituição (contra apenas 3,4
nas UCC). Verifica-se ainda que nas UCC cerca de 12,8 da amostra são
prestadores de serviços e 11,1 são estagiários, sendo estas categorias
residuais para os inquiridos que trabalham nos hospitais EPE.
No que diz respeito à antiguidade profissional verifica-se que os inquiridos
que trabalham nos hospitais EPE têm mais variabilidade em termos de
antiguidade: (i) 14,1 trabalha no serviço entre 1-3 anos; (ii) mas há também
quem trabalhe no serviço há mais de 30 anos. Por sua vez, os inquiridos que
trabalham nas UCC têm pouca antiguidade profissional: (i) 38 da amostra está no
serviço entre 1-3 anos; (ii) dos restantes 2,6 está no serviço entre 4-6; e
(iii) só 1,8 está no serviço entre 10-12 anos.
Níveis de perceção de marketing interno e motivação
Como se pode observar na Tabela_2 as variáveis do MI em ambas as organizações
de saúde são semelhantes, havendo um ligeiro aumento das mesmas nas UCC.
A média de respostas é aproximadamente 3. Deste modo, constata-se que a
perceção que os colaboradores têm, em média, das práticas MI é baixa nas
organizações de saúde estudadas, pois o seu valor está abaixo do valor médio
considerado. Como pode ser comprovado pelo valor da média global de MI que é de
aproximadamente 3,1.
Relativamente às variáveis que caracterizam a motivação, observa-se (Tabela_3)
que a média de motivação nos hospitais EPE foi ligeiramente inferior com 3,4,
sendo a média de motivação nas UCC 3,5.
Por último, analisando o nível de motivação em geral nas organizações de saúde
estudadas, verifica-se que existe um bom nível de motivação, uma vez que a
média para a variável motivação é de 3,55.
Análise das dimensões relacionadas com o marketing interno
Para analisar as dimensões subjacentes às atividades de MI procedeu-se a uma
análise fatorial. A Tabela_4 mostra os indicadores de validade da análise
fatorial, relacionado com as dimensões de MI. Segundo, o valor encontrado no
índice Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) conclui-se que os resultados da análise
fatorial são excelentes 50,52. Quanto ao Teste de Esferecidade de Bartlett,
este é significativo ao nível de 0,000, demonstrando que existe um grau elevado
de correlação entre as variáveis, pelo que a aplicação da análise fatorial é
adequada53.
Através dos resultados da análise fatorial recorrendo ao método dos componentes
principais para extrair os fatores, conclui-se que as variáveis de MI se
agrupam em 4 fatores, todos com valor próprio superior à unidade e que explicam
no conjunto 68,58 de variância total. A fim de facilitar a interpretação dos
dados, procedeu-se à rotação dos fatores segundo o método Varimax, resultando
em 4 fatores.
Os valores de Alpha de Cronbach obtidos (Tabela_5) demonstram que para as
variáveis relacionadas com o MI, os fatores apresentam bons níveis de
consistência interna 54.
Analisando as variáveis mais correlacionadas com cada um dos fatores, pode
concluir-se que: o primeiro fator irá relacionar-se com a "Comunicação
entre empresa e colaborador"; o segundo fator tomou a designação de
"Empatia e consideração", o terceiro relaciona-se com o
"Benchmarking e recompensas" e o quarto fator relaciona-se com
"Atividades promocionais".
Análise das dimensões relacionadas com a motivação
Da mesma forma, procedeu-se a uma análise fatorial para encontrar as dimensões
subjacentes à motivação. A Tabela_6 mostra os indicadores de validade da
análise fatorial, relacionado com as dimensões de motivação. Segundo, do valor
encontrado no índice KMO conclui-se que os resultados da análise fatorial são
médios53. Quanto ao Teste de Esferecidade de Bartlett, este é significativo ao
nível de 0,000, demonstrando que existe um grau elevado de correlação entre as
variáveis, pelo que a aplicação da análise fatorial é adequada54.
Através da análise fatorial recorrendo ao método dos componentes principais
para extrair os fatores, conclui-se que as variáveis de motivação se agrupam em
4 fatores, tendo sido eliminados outros 4 fatores por apresentarem índices de
fiabilidade fraca. Os fatores finais explicam no conjunto 65,121 de variância
total.
Relativamente à fiabilidade dos fatores, esta foi medida através do Alpha de
Cronbach. Os valores obtidos demonstram que para as variáveis relacionadas com
a motivação, o primeiro fator apresenta bons níveis de consistência interna e
os restantes fatores apresentam níveis de consistência interna satisfatória54,
como se pode verificar na Tabela_7.
Analisando as variáveis mais correlacionadas com cada um dos fatores, pode
concluir-se que o primeiro fator se relaciona com "Motivação com as
condições de trabalho"; o segundo fator com "Motivação de
desempenho", o terceiro fator com a "Motivação para a
progressão" e o quinto fator tomou a designação de "Motivação de
realização".
Assim sendo, os fatores encontrados vão de encontro ao defendido pelos autores
Ferreira et al.51, nomeadamente motivação com a realização e poder, motivação
com a organização do trabalho e motivação com o desempenho, havendo somente
diferenças no fator motivação associada ao envolvimento.
Teste às hipóteses
Teste da hipótese 1
A existência de práticas de MI nas organizações de saúde aumenta a motivação
dos colaboradores.
Para testar esta hipótese optou-se por realizar uma regressão linear múltipla,
no sentido de verificar a relação funcional entre a variável dependente
(motivação global) e as variáveis independentes (neste caso, as dimensões do MI
resultantes dos fatores obtidos na análise fatorial). Assim, assumiu-se o
pressuposto da independência tendo em conta que não estamos perante uma série
temporal e a seleção das observações foram aleatórias.
Por sua vez, a normalidade dos resíduos foi testada de acordo com o preconizado
por Maroco54, tendo-se verificado a linearidade entre as 2 variáveis. Já o
pressuposto da homogeneidade da variância (homocedasticidade) foi testado
graficamente, recorrendo aos resíduos estudantizados. Rejeitou-se a hipótese de
heterocedasticidade e aceitou-se o pressuposto da homocedasticidade.
Relativamente ao pressuposto da distribuição normal dos erros, também foi
averiguado através de um gráfico de probabilidade normal, como recomenda
Maroco55, verificando-se que os erros possuíam uma distribuição normal.
Recorreu-se, ainda, a testes de inferência estatística para identificar se a
relação estimada é significativa, bem como para determinar a qualidade das
predições feitas55.
Na Tabela_8 apresentam-se os dados relacionados com o modelo de regressão
linear múltipla proposto a fim de determinar se o MI aumenta a motivação.
Assim, como se pode observar na Tabela_8, o valor de R mostra que o coeficiente
de correlação entre a motivação geral e as práticas de MI é de 0,374. Deste
modo, a percentagem de variação total na motivação explicada pelas práticas de
MI (R2) é de 14. Apesar de um valor reduzido este é significativo, pois como se
pode observar na tabela da ANOVA (Tabela_9) o valor de F é significativo para
um nível de significância de 0,000, o que significa que as práticas de MI
ajudam a reduzir o erro na estimação da variável motivação global em 14.
Seguidamente, determinou-se se todos os fatores pertencentes à variável de MI
contribuem de igual forma para o modelo. Os resultados podem ser observados na
Tabela_10.
Deste modo, analisaram-se os coeficientes de regressão estandardizados ou
"coeficientes beta", verificando-se que são os fatores 1 -
Comunicação entre empresa e colaborador e fator 2 - Empatia e consideração do
MI, os que apresentam as maiores contribuições relativas para explicar a
motivação. Observa-se ainda que apenas o fator 4 - Atividades promocionais não
afeta significativamente a motivação 55. Deste modo, a Comunicação entre a
Empresa e os colaboradores, a Empatia e consideração e o Benchmarking e
recompensas aumenta a motivação dos colaboradores nas organizações de saúde
estudadas. Dado o facto da multicolinearidade entre os fatores de MI poder ser
um problema, testou-se a multicolinearidade através do Variance Inflaction
Factor (VIF), concluindo-se que os valores encontrados estavam dentro dos
valores considerados normais56, mostrando não existir multicolinearidade entre
os diversos fatores da regressão. Confirmando-se parcialmente a hipótese 1
inicialmente formulada, ou seja, "O MI nas organizações de saúde aumenta
a motivação dos colaboradores", tal como afirmam Grönroos23, Helman e
Payne11, Lindon et al.57 e Schwepker e Good24.
Teste da hipótese 2
Nos hospitais de modelo de gestão pública os colaboradores sentem-se mais
motivados do que nos modelos de gestão inovadora.
A fim de testar a hipótese 2 recorreu-se ao teste da ANOVA para verificar se
existem diferenças nas médias dos 2 grupos (hospitais EPE e UCC). Assim, e dado
que a amostra estudada apresenta uma dimensão razoável para evitar preocupações
com a normalidade das variáveis, de acordo com o recomendado por Hair et al.
57, testou-se o pressuposto da homogeneidade da variância para as médias dos
fatores de motivação nas organizações de saúde estudadas, antes de proceder à
análise de variância. Na Tabela_11 podem observar-se os resultados do teste de
Homogeneidade de Levene para as variáveis em estudo.
Como se pode observar pelos resultados da Tabela_11, o teste de homogeneidade
de Levene mostrou que a variância é homogénea para as variáveis dos fatores
relacionados com a motivação. Visto que o pressuposto da homogeneidade foi
cumprido para as médias de todos os fatores de motivação estudados,
seguidamente apresenta-se o teste da análise de variância (ANOVA) (Tabela_12).
Através da análise da ANOVA (Tabela_12), verifica-se que existem apenas
diferenças significativas na média do fator 1, para um nível de significância
de 0,1, não se verificando nas restantes médias. Pode assim concluir-se que
apenas existem diferenças relativamente à motivação com as condições de
trabalho entre os colaboradores que trabalham nos hospitais EPE e nas UCC,
sendo que a média deste fator nas UCC é de aproximadamente 3,05 e nos hospitais
EPE é de aproximadamente 2,90, pelo que se rejeita a hipótese 2, que
pressupunha que nos hospitais EPE os colaboradores se sentem mais motivados do
que nas UCC. Contrariamente ao esperado pela revisão da literatura, a hipótese
2 inicialmente formulada não se confirmou.
Estes resultados poderão ser vistos à luz da amostra estudada, uma vez que os
colaboradores das UCC são profissionais no início de carreira, com pouca
experiência profissional e como tal valorizam as condições de trabalho
oferecidas, não conhecendo ou ambicionando senão um trabalho. No entanto, no
que diz respeito aos hospitais EPE, os profissionais na sua maioria já têm
alguma experiência profissional e já trabalham há alguns anos, como tal o
sentido de valorização mudou e existe a necessidade de quererem mais e melhor.
Por outro lado, apesar da aparente estabilidade dos hospitais EPE, estes têm
sofrido grandes alterações estruturais com o fim de mostrar eficiência,
eficácia, após a sua transição para este modelo de gestão e por isso os
colaboradores podem sentir-se mais pressionados, menos seguros e
consequentemente menos motivados. Como tal, este tipo de alterações sofridas
poderá afetar diretamente as condições de trabalho dos profissionais de saúde
que poderão apresentar níveis de motivação inferiores aos esperados.
Teste da hipótese 3
Os hospitais de modelo de gestão pública têm práticas de MI mais desenvolvidas
do que nos modelos de gestão inovadora.
Com o intuito de verificar se existem práticas de MI distintas entre os
hospitais EPE e as UCC recorreu-se à análise da variância (ANOVA) e aos testes
de robustez de Welch e Brown-Forsyth em casos de ausência de homogeneidade da
variância das médias dos fatores de MI como seguidamente se explica.
Para Hair et al.54, a homogeneidade da variância é um dos pressupostos mais
importantes na análise de variância. Ao analisarmos a homogeneidade da
variância entre os colaboradores que trabalham nos hospitais EPE e nas UCC, no
que respeita às médias dos fatores de MI, verificamos que a variância é
homogénea para as médias dos fatores 2 e 3 (Tabela_13).
Como tal, foi cumprido o principal pressuposto necessário para a realização da
análise de variância (ANOVA). Da análise da ANOVA (Tabela_14) verifica-se que
não existem diferenças significativas na média do fator 2 e 3.
Como os fatores 1 (Comunicação entre empresa e colaborador) e 4 (Atividades
promocionais) não cumpriam o pressuposto da homogeneidade da variância,
procedeu-se à realização dos testes de robustez de Welch e Brown-Forsythe a fim
de verificar se as médias da variável MI diferem significativamente entre os
colaboradores dos hospitais EPE e UCC, de acordo com o recomendado por Pestana
e Gageiro56.
Através da interpretação do teste de robustez de Welch e Brown-Foryth (Tabela
15), conclui-se que não existem diferenças significativas entre as médias do
fator 4 (Atividades promocionais) do MI entre os hospitais EPE e as UCC em
estudo.
Assim, observa-se que apenas a média do fator 1 das variáveis do MI é
significativamente diferente, sendo de aproximadamente de 3,3 nos hospitais EPE
e de aproximadamente 3,7 nas UCC. Como tal, conclui-se que apenas existem
diferenças significativas entre os hospitais EPE e as UCC no que diz respeito
às práticas de MI referentes ao primeiro fator que diz respeito à
"Comunicação entre empresa e colaborador", pelo que se rejeita a
hipótese 3 que pressupunha que os hospitais EPE têm práticas de MI mais
desenvolvidas do que as UCC, contrariando o esperado.
Estes resultados poderão ser apoiados atendendo a que as UCC são consideradas
modelos inovadores cuja semivida é muito recente, assentam na competitividade e
qualidade58 e, como tal, este tipo de organizações poderão apostar numa
política de recursos humanos mais virada para práticas de MI direcionadas para
a comunicação. Por outro lado, são consideradas na sua maioria organizações de
saúde de menores dimensões e com menor número de níveis hierárquicos e, como
tal, a comunicação poderá realizar-se através de melhores canais de comunicação
e sem barreiras.
Conclusões, limitações e sugestões
Pela análise descritiva das variáveis de MI e motivação conclui-se que a
perceção das práticas de MI é baixa. Contrariamente, verificou-se um bom nível
de motivação percecionada por parte dos colaboradores nas organizações de saúde
estudadas.
No sentido de determinar as dimensões do MI procedeu-se à análise fatorial,
tendo sido obtidas 4 dimensões com bons níveis de consistência interna,
nomeadamente "Comunicação entre empresa e colaborador",
"Empatia e consideração", "Benchmarketing e
recompensas" e "Atividades promocionais", com um valor de
variância total explicada de 68,58 sendo que as 2 primeiras dimensões explicam
21,690 e 18,446 da variância explicada, respetivamente. Pelo que se conclui que
o instrumento de avaliação utilizado é um bom instrumento para avaliar a
perceção de práticas de MI.
Procedeu-se também à análise fatorial para determinar as dimensões de
motivação, tendo sido obtidas inicialmente 8 dimensões que depois de excluídas
as variáveis não significantes deram origem a 4 dimensões (sendo a primeira com
bom nível e as restantes com nível satisfatório de consistência interna) e que
explicam no seu conjunto 65,121 da variância total. As 4 dimensões/fatores que
caracterizam a variável de motivação estão associadas à "Motivação com as
condições de trabalho", "Motivação com o desempenho",
"Motivação com a progressão" e "Motivação com a
realização", sendo o primeiro fator "Motivação com as condições de
rabalho" o mais representativo com 13,7 da variância explicada. Conclui-
se assim que, apesar da escala Multi-Moti ser uma escala de motivação no
trabalho devidamente testada e validada para a população portuguesa, esta
escala não é indicada para avaliar a motivação no trabalho neste contexto de
cuidados de saúde, devido ao fraco nível de fiabilidade interna dos fatores,
explicando apenas 65,121 de variância.
No que diz respeito ao MI, identificou-se a existência de procedimentos de MI
nas organizações de saúde estudadas (hospitais EPE e UCC) através da aplicação
do questionário de MI adaptado do instrumento desenvolvido por Jou, Chou e
Lu27. Esta escala apresentou bons níveis de fiabilidade, com níveis de
consistência interna (Alpha de Cronbach) dos fatores entre os 0,875-0,924.
Verificou-se também que existem diferenças significativas nos procedimentos de
MI no que respeita à comunicação entre a empresa e o colaborador nos hospitais
EPE e nas UCC, nomeadamente que nas UCC esses procedimentos de MI são mais
desenvolvidos.
Conclui-se ainda que existem diferenças significativas em relação ao nível de
motivação no que respeita à motivação com as condições de trabalho entre os
colaboradores dos hospitais EPE e nas UCC, verificando-se que nesta dimensão os
colaboradores das UCC estão mais motivados do que nos hospitais EPE. Sendo que
nas restantes dimensões não se verificaram diferenças estatisticamente
significativas entre os hospitais EPE e as UCC.
No que respeita às hipóteses formuladas, confirmou-se parcialmente a hipótese 1
&- a existência de práticas de MI nas organizações de saúde aumenta a motivação
dos colaboradores. Através do teste de regressão linear verificou-se ainda que
os 3 primeiros fatores de MI, "Comunicação entre empresa e
colaboradores", "Empatia e consideração", "Benchmarking
e recompensas", respetivamente, influenciam a motivação dos colaboradores
das organizações de saúde estudadas. Por sua vez, a adoção das práticas de MI
relacionadas com "Atividades promocionais" não influenciam a
motivação dos colaboradores das organizações de saúde estudadas.
No entanto, a "Comunicação entre empresa e colaboradores" é a
variável de MI que mais aumenta a motivação dos colaboradores das organizações
de saúde estudadas.
Relativamente à hipótese 2 &- que sugeria que nos hospitais de modelo de gestão
pública os colaboradores se sentem mais motivados do que nos modelos de gestão
inovadora &- esta foi rejeitada. Concluindo-se que nas UCC estudadas os
colaboradores se sentem mais motivados no que diz respeito à motivação com as
condições de trabalho do que os colaboradores dos hospitais EPE.
Por último, não se confirmou a Hipótese 3 &- os hospitais de modelo de gestão
pública têm práticas de MI mais desenvolvidas do que nos modelos de gestão
inovadora. Como tal, verificou-se que existem práticas de MI mais desenvolvidas
no que respeita à comunicação entre empresa e colaborador nas UCC do que nos
hospitais EPE.
Perante os resultados e as conclusões obtidas parece existir influência do MI
na motivação dos colaboradores nas organizações de saúde estudadas, havendo, no
entanto, práticas de MI que depois de melhor exploradas e aplicadas poderão ser
uma ferramenta importante na estratégia de recursos humanos nas organizações de
saúde estudadas e que, por sua vez, poderão ir ao encontro dos objetivos
organizacionais estabelecidos, nomeadamente aumento de eficácia, eficiência,
sustentabilidade e prestação de cuidados de saúde de qualidade.
Os resultados parecem também contrariar aquilo que à partida se pressupunha no
que respeita às diferenças entre os modelos de gestão pública e modelo de
gestão inovadora. De facto, esperava-se inicialmente que o modelo de gestão
pública, que por lei assegura condições de trabalho que oferecem maiores níveis
de segurança, estivesse associado a maiores níveis de motivação e de práticas
de MI. Contudo, tal não se verificou, indiciando que talvez as restruturações
que este modelo tem sofrido nos últimos anos tenha conduzido a estes resultados
e, consequentemente, a menores níveis de motivação e menor perceção de práticas
de MI por parte dos enfermeiros que trabalham nestas organizações. Por outro
lado, como já anteriormente referido, a menor dimensão e flexibilidade das
unidades de cuidados continuados pode também conduzir a estes resultados, bem
como os menores níveis etários dos profissionais que aí trabalham possam criar
menores expetativas e, como tal, uma perceção mais realista das condições de
trabalho.
Limitações e futuras linhas de investigação
Após a realização da investigação e análise dos resultados, que se espera serem
mais um contributo para o aprofundamento da temática de MI no contexto de
cuidados de saúde, deve dizer-se que foi um dos poucos estudos realizados neste
contexto em Portugal, pelo que seria importante a realização de outras
investigações a fim de confirmar as hipóteses rejeitadas, bem como apoiar as
conclusões retiradas.
Uma das limitações do presente estudo prendeu-se com a escolha das organizações
de saúde, uma vez que poderiam ter-se selecionado as organizações de saúde
mediante alguns critérios, nomeadamente localização geográfica, antiguidade
profissional/serviço ou categoria profissional.
O horizonte temporal foi visto como uma limitação e, como tal, não foi possível
aceder a todas os hospitais EPE e todas as UCC do país a fim de se poder
caracterizar e generalizar os resultados. Assim, como uma eventual linha futura
aponta-se a replicação do estudo a todas as organizações de saúde do país,
mantendo-se o critério diferenciador entre os 2 modelos de gestão.
Por outro lado, a escala Multi-Moti &- escala Multi-fatorial de motivação no
trabalho &- acabou por se revelar uma limitação, pois, embora seja uma escala
validada para a população portuguesa, verificou-se não ser adequada para este
contexto de cuidados de saúde, pelo que nos próximos estudos se deverá optar
por outra escala mais adequada para avaliar a motivação dos colaboradores em
organizações de saúde.
Outra limitação prendeu-se com o facto de a motivação ser explicada ou
determinada por vários fatores e neste estudo ter sido condicionada apenas ao
MI, pelo que em futuros estudos poder-se-ia verificar quais são as outras
determinantes ou variáveis para além do MI que influenciam a motivação dos
colaboradores nas organizações de saúde estudadas.
Verificou-se ainda outra limitação relacionada com o tipo de abordagem
realizada. Eventualmente poder-se-ia ter realizado também uma abordagem
qualitativa para perceber melhor o que os colaboradores sabem e esperam das
organizações em termos de práticas de MI, as mudanças que ocorreram com a
transição para os hospitais EPE e de que forma essas transformações
contribuíram ou não para a sua motivação.