Satisfação profissional dos enfermeiros em Cuidados de Saúde Primários: o caso
do Centro de Saúde de Barcelos/Barcelinhos
Introdução
A satisfação profissional tem sido, nas últimas décadas, encarada como condição
importante, se não mesmo essencial, para lograr melhorar o funcionamento de
empresas e demais organizações. Actualmente, os gestores começam a encetar
estratégias que promovam o aumento da satisfação laboral dos trabalhadores,
visando assim obter dividendos ao nível da criatividade, empenho e
produtividade destes elementos.
No que diz respeito aos profissionais de saúde, níveis altos de satisfação
laboral traduzem-se em elevados índices de qualidade de atendimento. A
avaliação periódica da satisfação laboral dos profissionais de saúde torna-se
essencial para a monitorização da qualidade organizacional nos Centros de
Saúde2.
O Plano Nacional da Saúde 2004-2010, no intuito de melhorar os indicadores de
desempenho e apoio à decisão refere, como Estratégia para a Gestão na Mudança,a
avaliação do grau de satisfação dos profissionais de saúde3.
A Lei de Bases da Saúde4, na Base XXX, aponta a satisfação dos profissionais
como sendo um dos quatro critérios de avaliação periódica do Serviço Nacional
de Saúde (SNS), a par da satisfação dos utentes, da qualidade dos cuidados e da
eficiente utilização dos recursos numa óptica de custo-benefício1.
Em síntese, a avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde é
descrita como elemento preponderante para a melhoria da qualidade de cuidados
prestados ao cidadão.
Convém ressalvar que a satisfação profissional tem sido alvo de várias
abordagens ao longo dos últimos anos e que foram vários os autores a contribuir
com novas perspectivas teóricas nesta área, tais como Taylor (1911), Maslow
(1954), Herzberg (1959) e Vroom (1964), citados por Robbins5, aos quais se faz
referência de seguida.
Satisfação profissional
Segundo Pérez-Ramos et al, citado por Lino6, p. 11, a satisfação profissional
pode ser traduzida como sendo "um sentimento agradável ou estado emocionalmente
positivo do trabalhador, resultante da percepção/avaliação da sua experiência
de trabalho, conforme as suas metas e valores pessoais perante a vida, podendo
ser modificado ou influenciado por forças internas ou externas ao trabalho".
Da mesma forma, Santos7, p. 17 refere que "a satisfação profissional é a pedra
basilar no desenvolvimento organizacional assim como no conhecimento e
aceitação da filosofia institucional adoptada".
Para Graça1,8,9, a satisfação profissional deve ser vista não só como um
importante indicador do clima organizacional como também, e sobretudo, um
elemento determinante da avaliação da qualidade das empresas.
Na perspectiva de Robbins5, a importância da satisfação profissional é óbvia.
Os gestores devem preocupar-se com o nível de satisfação no trabalho por várias
razões: existe a clara evidência de que os trabalhadores insatisfeitos faltam
mais ao trabalho, são mais propensos a assumir comportamentos destrutivos e a
pedir a demissão. Por outro lado, a satisfação no emprego estende-se à vida do
empregado fora do seu local de trabalho.
Mais especificamente, na área da saúde, Donabedian (1966), citado por Santos7,
p. 99, refere que "a satisfação profissional é um elemento fundamental no
atendimento do utente e no relacionamento dentro da equipa de saúde, isto é,
funciona como elemento preponderante na qualidade de atendimento das pessoas
... e no relacionamento interpessoal no local de trabalho".
Apesar de tudo, a satisfação profissional, que poderá ser definida como grau de
realização de objectivos, valores, necessidades e expectativas profissionais1,
é um constructo difícil de operacionalizar porque parte de avaliações
subjectivas, muito pessoais e individuais. Contudo, a (in) satisfação
profissional, apesar de individual, poderá afectar todo um conjunto de
interacções que o enfermeiro realiza. Deste modo, um elemento (in)satisfeito
profissionalmente irá afectar todo um grupo de trabalho, quer seja ao nível de
relações quer seja ao nível do exercício das suas funções.
Fazendo, ainda, referência ao Manual do Sistema de Avaliação e Monitorização da
Qualidade Organizacional dos Centros de Saúde2, este estabelece no seu primeiro
ponto (Organização e Gestão) que é responsabilidade dos órgãos de gestão
promover um bom nível de prestação de cuidados. Este nível, que se quer óptimo,
só é possível se existirem profissionais motivados e satisfeitos, ou em que
pelo menos os motivos de satisfação ultrapassem os motivos de insatisfação.
Compilando estas definições, pode dizer-se que a satisfação profissional está
intimamente ligada às expectativas do trabalhador e às suas motivações como ser
holístico. Um trabalhador satisfeito irá promover o desenvolvimento
organizacional da sua empresa, tornando-a mais eficaz, eficiente e dinâmica. Ou
seja, torna-se essencial que o produtor, assalariado, não seja visto apenas
numa vertente economicista, cabendo à empresa disponibilizar os meios
necessários à satisfação das suas necessidades e expectativas como pessoa e
trabalhador.
Historicamente, os primeiros estudos de satisfação no trabalho remontam ao
início do século XX. Um dos primeiros modelos a ser gerado foi o
modelotaylorista (idealizado por Taylor em 1911), no qual era feita uma
estreita associação entre satisfação laboral e produtividade do trabalhador.
Para Taylor, um operário satisfeito seria um operário mais produtivo4. Apesar
de vanguardista, esta filosofia organizacional acabaria por ser refutada por
diversos autores na medida em que reduzia o nível de satisfação do trabalhador
à quantidade de dinheiro que este auferia.
Mais tarde, em 1954, Maslow (citado por Lucas10, p. 64) vem afirmar que a
satisfação laboral de um indivíduo decorre da resposta que este obtém em
relação às suas necessidades. Este modelo de satisfação de necessidades refere
que "o comportamento humano, num dado momento, é determinado pela necessidade
que é percebida como mais forte", ou seja, de satisfação mais premente. Haveria
uma hierarquia de necessidades humanas, em forma de pirâmide, e são estas
necessidades que motivam o trabalhador a progredir, de uma escala mais baixa
(por ex., necessidades básicas) para uma escala mais alta (por ex, necessidade
de auto-realização). A principal valia deste modelo reside no facto de
demonstrar que as necessidades já satisfeitas, de maneira contínua e durável,
não são passíveis de motivar o comportamento.
Herzberg et al.11, por seu turno, vem afirmar que a satisfação de necessidades
básicas não é fonte de motivação, mas sim de movimento. Passa então a conceber
a motivação apenas como fruto da satisfação de necessidades complexas, como
estima e auto-realização. Propôs, para a motivação no trabalho, o
enriquecimento de tarefas (job enrichment), como forma de satisfazer estas
necessidades complexas. Para este autor, a única forma de fazer com que o
indivíduo sentisse vontade própria de realizar a tarefa seria proporcionando-
lhe satisfação no trabalho. Em outras palavras, a motivação aconteceria apenas
através dos factores motivadores(intrínsecos) e não dos factoreshigiénicos
(extrínsecos)
Em 1964, Victor Vroom apresenta a sua teoria da expectativa. Segundo este
modelo "um empregado estará motivado a empregar um alto nível de esforço quando
acreditar que o esforço levará a uma boa avaliação de desempenho; que uma boa
avaliação de desempenho levará a recompensas... e que as recompensas satisfarão
as metas pessoais do empregado"5, p. 118.
Estudos sobre a satisfação profissional dos profissionais de saúde
Em 1998, Graça e Sá efectuaram um estudo sobre a satisfação laboral dos
profissionais de saúde dos 14 Centros de Saúde (CS) da então Sub-Região de
Saúde (SRS) de Beja (médicos, enfermeiros e administrativos; N = 620). Como
instrumento de recolha de dados foi utilizada a primeira versão do questionário
em uso no presente estudo. O total de respostas foi de 320, representando 51,6%
da população alvo. Os resultados obtidos revelaram que os médicos apresentavam
níveis de satisfação profissional superiores aos enfermeiros, administrativos e
os outros profissionais. Da mesma forma verificou-se que os enfermeiros
constituíam o grupo profissional que revelava maior segurança quanto à escolha
da sua profissão, ou seja, se tivessem a oportunidade de voltar ao princípio,
aproximadamente 78% referiram que continuariam a escolher a mesma actividade
laboral (enfermagem)12.
Um ano mais tarde, em 1999, um dos mesmos investigadores, efectuou um outro
estudo no qual, utilizando a versão actualizada do questionário1, procurou
definir o perfil de satisfação profissional dos médicos de família do SNS
português. Relativamente aos scores de satisfação profissional, analisados por
dimensão, observou-se que os médicos (n = 273) apresentavam níveis de
satisfação profissional mais baixos relativamente às Condições de Trabalho
& Saúdee à Remuneração. Em contrapartida, os níveis mais altos de
satisfação laboral relacionavam-se com a Relação Profissional/Utente e com a
Segurança no Emprego13.
Num outro estudo, efectuado pelo Núcleo de Qualidade e Humanização do CS de
Carnaxide, em 2004, no âmbito MoniQuOr, que utilizou um questionário adaptado
de Graça1 e que abrangeu todas as classes profissionais do respectivo CS
(médicos, enfermeiros, auxiliares, administrativos, outros profissionais; n =
131), os enfermeiros (n1 = 33) eram os profissionais que apresentavam o
índice de satisfação mais baixo na sua globalidade e em todas as dimensões da
satisfação profissional estudadas. Esta investigação, apesar de usar uma
adaptação do questionário do presente estudo, apenas abordou quatro das oito
dimensões que constituem o instrumento original. Da mesma forma, as médias (ou
scores) de satisfação profissional foram obtidas unicamente através da
percepção que os profissionais tinham da sua realidade laboral, não utilizando
a média de discrepância entre as expectativas e as realidades.
Os scores que revelavam maior satisfação dos enfermeiros relacionavam-se com a
percepção da garantia de qualidade dos cuidados prestados ao utente e com a
cooperação e a colaboração por parte dos colegas de profissão. Os scores mais
baixos estavam relacionados com a protecção contra riscos profissionais, a
prevenção de situações indutoras de stress no trabalho, a participação em
reuniões multidisciplinares, a existência de protocolos e o sistema de marcação
de consultas utilizado14.
Por sua vez, Santos7 realizou um estudo sobre a satisfação profissional dos
enfermeiros nas instituições de saúde mental e psiquiatria do distrito de
Coimbra. Foram inquiridos, através de um questionário, enfermeiros de seis
instituições (n = 75). O autor conclui que, apesar de nenhum enfermeiro ter
revelado o máximo valor de "não satisfação", o seu valor médio era de 4,30,
numa escala de intervalos que ia dos valores zero a seis. Todavia, e analisando
a "não satisfação" por tipo de necessidades (Santos7, p. 185), concluí que "a
menor satisfação se encontra relacionada com as necessidades de subsistência,
seguindo-se, por ordem crescente de satisfação, as necessidades de autonomia,
de segurança, de auto-realização, sociais e de estima".
De acordo com a literatura revista, tem-se dado mais atenção à prática da
enfermagem em contexto hospitalar15-18. Por outro lado, a satisfação
profissional também pode (e deve) ser vista como um bom indicador de saúde
mental da população trabalhadora19-22.
Objectivo e metodologia, local, população e amostra
O objectivo da presente investigação foi conhecer as principais razões que
condicionam a satisfação profissional dos enfermeiros que actuam nos Cuidados
de Saúde Primários (CSP), nomeadamente do Centro de Saúde (CS) de Barcelos/
Barcelinhos.
O local de estudo deste trabalho foi o CS de Barcelos/ Barcelinhos. Esta
Unidade de Saúde tem como área geodemográfica de influência as 89 freguesias
que constituem o Concelho de Barcelos, correspondendo a uma área de 379 km2 e
com uma população residente de 122 096 habitantes23. O CS de Barcelos/
Barcelinhos tem, para além da sua sede, outras 17 Extensões de Saúde da sua
dependência, assim como o Serviço de Atendimento a Cuidados Urgentes (SACU).
Segundo os dados obtidos através da aplicação informática SINUS estavam
inscritos, em 2006, no referido CS, 125 510 utentes, distribuídos pelas
diversas unidades de saúde.
A população à qual se efectuou o referido estudo era constituída por
75 enfermeiros que, à data, exerciam funções no CS de Barcelos/Barcelinhos e
respectivas extensões (n = 75), independentemente do vínculo e da categoria
profissional.
Este grupo incluía enfermeiros com contrato a termo certo e com vínculo
definitivo. Incluía também enfermeiros, enfermeiros graduados, enfermeiros
especialistas e enfermeiros chefes.
Relativamente à hierarquia profissional dos enfermeiros do CS de Barcelos/
Barcelinhos, será pertinente referir que a sua direcção era, em 2006, composta
por quatro elementos: o director, o coordenador médico, o coordenador de
enfermagem e o coordenador administrativo. Na dependência do enfermeiro
coordenador estavam três enfermeiros chefes, cada um deles com
responsabilidades específicas.
Em cada extensão de saúde, existia também um enfermeiro responsável que, para
além das actividades de enfermagem que visam os cuidados directos aos utentes,
tinha responsabilidades acrescidas de gestão e organização dos recursos humanos
e materiais da respectiva extensão; de interlocução e relacionamento mais
directo com as chefias; de preenchimento e envio mensais de dados estatísticos
para a sede do CS. Outras responsabilidades de interlocução (a nível de todo o
CS) em programas de saúde específicos eram distribuídas por diversos
enfermeiros das extensões.
Instrumento e método de recolha de dados
Esta é uma investigação de tipo quantitativo e descritiva. Com vista à
concretização do objectivo proposto, foi determinada como variável dependente a
"Satisfação profissional dos enfermeiros do CS de Barcelos/Barcelinhos".
Para a avaliação da satisfação profissional, após a obtenção da devida
autorização por parte do autor, foi utilizado o questionário de Graça1. Trata-
se pois de um questionário de resposta individual e confidencial, podendo ser
usado como instrumento de avaliação da qualidade organizacional dos Centros de
Saúde pelo Instituto da Qualidade em Saúde âmbito do MoniQuOr. Este
questionário é constituído por três partes.
Na primeira parte estão listadas e definidas dimensões (ou factores) de
satisfação no trabalho, em que se baseia o modelo de análise do questionário
(tabela 1). Nesta fase, os enfermeiros atribuíram um valor a cada uma destas
dimensões (de um a oito), sendo que o um representa a dimensão mais importante
para a sua satisfação profissional. O oito representa a dimensão menos
importante.
Tabela_1 -Dimensões de satisfação profissional e respectivos conceitos
Na segunda parte estão listados 47 itens que representam as diferentes
dimensões (ou factores) da satisfação profissional.
Em relação a cada um desses itens, foi pedido aos enfermeiros que respondessem
sistematicamente a duas questões (A e B):
A Até que ponto deveria existir? (por ex., a possibilidade efectiva e concreta
de cooperação e colaboração entre os médicos e enfermeiros do meu CS)
B Até que ponto existe? (essa possibilidade efectiva e concreta de colaboração
e cooperação entre os médicos e os enfermeiros do meu CS)
A questão A tem a ver com a percepção das expectativas, desejos, valores ou
preferências (aquilo que o enfermeiro esperaria, desejaria ou gostaria de obter
como recompensa, intrínseca ou extrínseca, pelo seu trabalho, competência,
dedicação, esforço, empenhamento, enquanto profissional de saúde). A questão B,
por sua vez, tem a ver com a percepção dos resultados que o profissional obtém
(ou julga obter) e que podem ficar aquém das suas expectativas.
A resposta a cada uma das questões (A e B) foi feita através de uma escala de
intervalos, representada por números inteiros e compreendida entre o valor
mínimo de "zero" e o valor máximo de "dez".
A terceira parte tem como objectivo a caracterização sociodemográfica e o
conhecimento das intenções comportamentais dos inquiridos. Nesta parte foram
recolhidas e consideradas como variáveis dependentes as características sócio-
demográficas (sexo e idade) e profissionais. Esta escala de satisfação
profissional revela ter uma excelente consistência interna, quer no conjunto
dos seus 47 itens, quer nas suas oito dimensões (Alphade Cronbach > 0,80). Após
a obtenção da devida autorização por parte da direcção do CS de Barcelos/
Barcelinhos, os questionários foram entregues, pessoalmente, a todos os
enfermeiros do CS de Barcelos/Barcelinhos (N = 75), entre o dia 26 e 31 de
Julho de 2006, estabelecendo um prazo de entrega de 7 dias úteis. Conjuntamente
foi (também) entregue: (i) Pedido de colaboração, elaborado pelo grupo,
referindo o enquadramento e os objectivos do trabalho; (ii) Envelope formato
A5, apenas com o nome do destinatário, responsável pela recolha dos
questionários.
Após o seu preenchimento, os questionários foram colocados no respectivo
envelope, sem remetente, e recolhidos pelo motorista do serviço.
Análise estatística
O apuramento dos resultados foi efectuado de acordo com as orientações
metodológicas elaboradas pelo autor do questionário1,9,12,13. Em relação à
primeira parte do questionário, obteve-se a hierarquia de valores no trabalho,
ou seja, a importância ordenada que cada enfermeiro dá a cada uma das oito
dimensões da satisfação profissional, de acordo com a sua motivação.
Relativamente à segunda parte do questionário, foi calculada a diferença entre
a pontuação dada às questões A e B. O valor obtido traduz o grau de
discrepância (C) entre as expectativas (A) e os seus resultados (B). O valor
obtido em cada um dos 47 itens (C) só poderia ser igual ou superior a 0 ou
igual ou inferior a 10. Os valores negativos foram assumidos como sendo iguais
a 0.
Os itens do questionário foram agrupados por dimensão e, depois de efectuada a
sua soma, efectuou-se a divisão pelo número total de itens correspondentes à
respectiva dimensão.
A média obtida corresponde ao scorede satisfação: satisfação específica (em
relação a cada uma das oito dimensões); e satisfação global (resultante da
média dos 47 itens, a dividir por 47). Quanto mais próximo de 0, maior será a
satisfação profissional; quanto mais afastado de 0, maior a sua insatisfação,
ou seja, a discrepância entre expectativas (E) e resultados (R).
Para caracterização da amostra, segundo os perfis sócio-demográficos e
motivacionais, utilizou-se a frequência absoluta e relativa e as medidas de
tendência central, média e moda. Como medida de extensão ou dispersão de
valores foi utilizado o desvio-padrão.
Para uma correcta interpretação dos resultados, foi efectuada: (i) a comparação
entre o perfil de satisfação e o perfil sociodemográfico dos enfermeiros; (ii)
a comparação entre o perfil de satisfação e a sua hierarquia de valores ou
estrutura motivacional.
Os testes estatísticos utilizados para a avaliação do nível de significância
foram o teste qui-quadrado (x2) e o teste de análise de variância (ANOVA). Para
o tratamento dos dados foi utilizado o programa SPSS® for Windows® (Statistical
Package for the Social Sciences).
Resultados
Os questionários foram recolhidos, dentro do período estipulado, num total de
58. Este número representa uma taxa de resposta de 77,3%.
Caracterização sociodemográfica e profissional
Relativamente às características sociodemográficas, representadas na tabela 2,
do total de enfermeiros inquiridos (n = 58) apenas cinco são do sexo masculino.
Tabela 2 - Distribuição numérica e percentual dos enfermeiros segundo as suas
características sociodemograficas
Quanto à idade e ao tempo de serviço será pertinente referir que 70,7% dos
elementos têm idade inferior aos 40 anos (fig. 1), 60,3% têm menos de 15 anos
de serviço e 75,9% exerce funções há menos de 15 anos no CS de Barcelos/
Barcelinhos.
Figura 1 - Distribuição numérica dos enfermeiros por grupo etário.
Pode constatar-se, através dos dados apresentados na figura 1, que estes
elementos, que constituem uma amostra representativa da equipa de enfermagem do
CS de Barcelos/ Barcelinhos, são profissionais relativamente jovens e, na sua
grande maioria, mulheres (n[L50920] = 53).
No que diz respeito ao local de trabalho e à categoria profissional, 32,8% dos
inquiridos exercem funções na sede do CS e 67,2% em extensões de saúde, 84,5%
são enfermeiros de nível 1 e 15,5% enfermeiros de nível 2.
Do total de 57 respondentes, 24,1% dos elementos não têm vínculo definitivo à
função pública, 19% são enfermeiros responsáveis por unidades de saúde, 5,2%
exercem funções como enfermeiro-chefe e 1,7% como membros da direcção do CS.
Por último, 39,7% dos enfermeiros exerce funções de interlocução em programas
de saúde específicos, 39,7% são sindicalizados e 8,6% são sindicalistas
activos.
Intenções comportamentais
No que diz respeito às intenções comportamentais (tabela 3), é pertinente
mencionar que 53,4% dos enfermeiros, nos últimos 12 meses, já pensaram numa
forma de se afastarem, prolongada ou definitivamente, do seu posto de trabalho.
Tabela_3 - Distribuição numérica e percentual dos enfermeiros segundo as suas
intenções comportamentais
Relativamente aos elementos que, no último ano, alguma vez pensaram em se
afastar do seu emprego, existe uma diferença estatisticamente significativa
(p = 0,019) entre aqueles que exercem funções de interlocução em programas de
saúde específicos e aqueles que não o fazem (fig. 2).
Figura 2 - Distribuição numérica dos enfermeiros que exercem funções em
programas de saúde específicos segundo as suas intenções de afastamento.
Após análise da figura 2 verifica-se que, os enfermeiros que exercem funções em
programas de saúde específicos, apresentam uma menor tendência em querer
afastar-se do seu posto de trabalho.
Nenhum dos enfermeiros referiu que, se tivesse a possibilidade de voltar ao
princípio, escolheria o sector privado como principal entidade empregadora. Em
consonância (tabela_3), 53,4% continuariam a escolher o SNS como principal
empregador; 51,7% continuariam a escolher a mesma SRS; e 56,9% continuariam a
escolher a mesma ARS.
Por outro lado, apesar de 74,1% dos enfermeiros referirem que, hoje em dia,
continuariam a escolher a mesma profissão, 17,2% escolheriam como local de
trabalho o hospital, 53,4% escolheriam o CS e 43,1% o CS de Barcelos/
Barcelinhos. Nestes 3 últimos itens, a percentagem de indecisos foi de 25,8%,
25,8% e 38%, respectivamente (tabela_3).
Ordenação das dimensões da satisfação profissional e respectivos scores
Na tabela 4 estão ordenadas as oito dimensões da satisfação profissional
estudadas, de acordo com a importância que lhes é atribuída pelos enfermeiros.
Tabela 4 - Ordenação decrescente das dimensões da satisfação profissional de
acordo com a importância que lhes é atribuída pelos enfermeiros
Pode verificar-se que, em média, a dimensão mais importante para os enfermeiros
corresponde à Realização Pessoal e Profissional & Desempenho Organizacional
(n = 57; m = 2,25) e a menos importante diz respeito ao Status &
Prestígio (n = 57; m = 7,28).
Comparando estes dados com as características sociodemográficas dos
enfermeiros, verifica-se que: (i) os enfermeiros com contrato a termo certo
atribuem maior importância à dimensão da Segurança no Emprego do que os
enfermeiros com vínculo definitivo (p = 0,001); (ii) os enfermeiros com tempo
de serviço inferior a 20 anos atribuem maior importância à dimensão das
Condições de Trabalho & Saúde analogamente aos enfermeiros com tempo de
serviço superior ou igual aos 20 anos (p = 0,003); (iii) os enfermeiros da sede
do CS atribuem maior importância às dimensões Autonomia & Poder (p = 0,025)
e Relação de Trabalho & Suporte Social (p = 0,004), comparativamente com os
enfermeiros das extensões; e, por fim, (iv) os enfermeiros das extensões de
saúde atribuem maior importância à dimensão das Condições de Trabalho &
Saúde do que os enfermeiros da sede (p = 0,012).
Seguidamente, na tabela 5, estão representados os scores médios da satisfação
profissional, desagregados pelas oito dimensões que a constituem, ordenados de
forma ascendente.
Tabela 5 -Scores médios das dimensões da satisfação profissional (m) e
respectivo desvio padrão (dp)
A dimensão que apresenta o nível médio de satisfação profissional mais elevado
diz respeito à Relação Profissional/ Utente(m = 2,47). Em contrapartida, a
dimensão com a média de discrepância mais alta, que corresponde a uma menor
satisfação profissional, diz respeito à Remuneração (m = 4,41) (fig. 3).
Figura 3 -Scoresda satisfação profissional por dimensão estudada.
Após a análise estatística destes dados verifica-se que os homens apresentam,
na sua globalidade, um índice de satisfação profissional superior ao das
mulheres (p = 0,011) (fig. 4).
Figura 4 -Boxplotspor sexo segundo osscorestotais da satisfação profissional.
Os elementos representados na figura 4 como outlierssão enfermeiras que, para
além de apresentarem elevados níveis de insatisfação, revelaram também que no
último ano pensaram em se afastar do seu posto de trabalho. A sua exclusão
desta análise estatística altera o valor de ppara p1 = 0,027.A dimensão na qual
a diferença entre sexos é mais evidente diz respeito à Remuneração (p = 0,001)
(fig. 5).
Figura 5 -Boxplotspor sexo segundo osscoresda dimensão - Remuneração.
Os enfermeiros contratados apresentam índices de satisfação profissional,
relativamente à dimensão da Segurança no Emprego, inferiores aos enfermeiros
com vínculo definitivo (p = 0,001) (fig. 6).
Figura 6 -Boxplotspor tipo de vínculo à instituição segundo osscoresda dimensão
- Segurança no emprego.
Neste caso, o grupo que corresponde a enfermeiros que se enquadram na categoria
de "outro" tipo de vínculo à instituição, constituído apenas por um elemento,
foi excluído desta análise tendo em consideração que, apesar de ser um
enfermeiro com vínculo definitivo noutra instituição de saúde, exerce funções
na direcção deste CS por nomeação provisória. O outlier representado na figura
6 com o número 44 é um elemento que, apesar de pertencer ao quadro do CS,
manifestou a intenção de se afastar do serviço através de pedido de
transferência. A sua exclusão desta análise não altera o valor de p
(p1 = 0,001).
Os enfermeiros com menos idade e com menos tempo de serviço apresentam níveis
de satisfação profissional inferiores na dimensão da Segurança no Emprego
(p = 0,005) (fig. 7).
Figura 7 -Boxplotspor grupo etário segundo osscoresda dimensão - Segurança no
emprego.
Os outliers representados na figura 7, com os números 8 e 40, são elementos
que, para além de apresentarem elevados níveis de insatisfação na dimensão
estudada, referiram também que nos últimos 12 meses já alguma vez pensaram em
se afastar do serviço. O enfermeiro representado com o número 8 refere
inclusivamente que, hoje em dia, não escolheria o mesmo CS, a mesma SRS nem tão
pouco a mesma ARS. A exclusão destes indivíduos da referida análise altera o
valor de ppara p1 = 0,009.
Os outliers representados na figura 8 são coincidentes com os dos gráficos
anteriores. A sua exclusão deste teste estatístico altera o valor de ppara
p1 = 0,002. Os enfermeiros com responsabilidades de chefia, direcção e
coordenação de unidades apresentam um índice de satisfação profissional mais
elevado: na sua globalidade (p = 0,016), na dimensão da Relação Profissional/
Utente (p = 0,005) e na dimensão da Segurança no Emprego (p = 0,001) (figs. 9,
10 e 11, respectivamente).
Figura 8 -Boxplotspor anos de profissão segundo osscoresda dimensão - Segurança
no emprego.
Figura 9 -Boxplotspor tipo de função exercida segundo osscorestotais de
satisfação profissional.
Figura 10 -Boxplotspor tipo de função exercida segundo osscoresda dimensão -
Relação profissional/utente.
Figura 11 -Boxplotspor tipo de função exercida segundo osscoresda dimensão -
Segurança no emprego.
Nos três casos anteriores, mesmo com a exclusão dos outliers, verifica-se que
existe diferença estatisticamente significativa entre os níveis de satisfação
profissional dos enfermeiros com funções de chefia, direcção ou
responsabilidade por unidades e aqueles que não exercem esse tipo de funções,
alterando os valores de p para: p1 = 0,008; p2 = 0,003 e p3 = 0,013;
respectivamente.
Os enfermeiros que já pensaram, no último ano, em se afastar do seu posto de
trabalho (mudando de profissão ou solicitando transferência, licença sem
vencimento ou aposentação) apresentam também um índice de satisfação
profissional na dimensão da Realização Pessoal e Profissional & Desempenho
Organizacionalmais baixo em relação àqueles que nunca pensaram nisso
(p = 0,006) (fig. 12).
Figura 12 -Boxplotspor intenção de afastamento segundo osscoresda dimensão -
Realização pessoal e profissional & Desempenho organizacional.
Omitindo deste teste os outliers representados na figura anterior, o valor de p
altera para p1 = 0,033. Apesar de tudo, continua a observar-se uma diferença
estatisticamente significativa.
Na tabela 6 estão representados os valores das expectativas (E), dos resultados
(R) e da discrepância ente expectativas e resultados (E-R), por item do
questionário1.
Tabela_6 -Expectativas, resultados e scores médios por pergunta e dimensão da
satisfação profissional (ordem crescente)
Ao observar os valores por dimensão, o Status & Prestígioé aquele que
apresenta a média de expectativas mais baixa (mE = 8,43), seguindo-se a
Autonomia & Poder (mE = 9,14), a Realização Pessoal e Profissional &
Desempenho Organizacional (mE = 9,20), as Relações de Trabalho & Suporte
Social(mE = 9,21), a Segurança no Emprego (mE = 9,33), a Remuneração
(mE = 9,35), as Condições de Trabalho & Saúde (mE = 9,38) e, por último, a
Relação Profissional/Utente (mE = 9,42).
Os três itens que revelam um scoremais baixo (o que representa uma maior
satisfação profissional) são: (i) O prestígio que o enfermeiro goza, entre as
pessoas das suas relações (amigos, familiares e outros), devido ao estatuto da
sua profissão ou carreira (score = 0,90); (ii) o sentimento de que está a dar
um contributo importante para a realização da missão e dos objectivos
atribuídos ao CS (e à respectiva SRS) (score = 1,40); (iii) a oportunidade de
ter, no local de trabalho, verdadeiros amigos e não apenas colegas ou simples
conhecidos (score = 1,40).
Em contrapartida, os três itens que apresentam os scores mais altos dizem
respeito à Remuneração, sendo eles: (i) a percepção de se estar relativamente
bem pago, tendo em conta a opção por trabalhar e viver no concelho a que
pertence o CS (score = 4,80); (ii) a percepção de se estar relativamente bem
pago, tendo em conta o nível do desempenho profissional (score = 4,90); (iii) a
percepção de se estar relativamente bem pago, por comparação com outros
funcionários públicos com qualificações e responsabilidades equivalentes
(score = 5,90).
Discussão
Quanto ao sexo, e apesar de apenas cinco dos inquiridos serem homens, verifica-
se que estes últimos estão mais satisfeitos profissionalmente do que as
mulheres. Embora não se tenha logrado obter qualquer fundamentação
cientificamente comprovada para esta diferença entre sexos24, possivelmente
esta dever-se-á ao facto das mulheres, na sociedade portuguesa contemporânea,
continuarem a assumir um papel doméstico muito activo, com responsabilidades
familiares mais exigentes em relação às dos homens, que demandam um esforço
acrescido no seu dia-a-dia.
Por exemplo, no estudo encetado por Schmidt25, que estudou a satisfação
profissional e a qualidade de vida de enfermeiros de serviços de cirurgia de
vários hospitais brasileiros, a investigadora verificou que os profissionais do
sexo masculino apresentavam-se mais satisfeitos em relação à qualidade de vida
do que as profissionais do sexo feminino.
No que concerne ao tipo de vínculo à instituição observa-se que os enfermeiros
com Contrato a Termo Certo (CTC) atribuem maior importância à dimensão da
Segurança no Emprego e apresentam um score desta dimensão mais baixo em relação
aos enfermeiros do quadro. Ou seja, para além da importância que os contratados
atribuem à estabilidade no emprego, a precariedade da sua situação laboral
transforma-se num importante factor de insatisfação profissional.
Nos dias que correm, no nosso país, apesar de se sentir a vontade e o esforço
governamental em aumentar, progressivamente, o número de vagas para o ingresso
aos cursos superiores de enfermagem, visando suprir a falta de enfermeiros nas
instituições de saúde, a verdade é que estes profissionais, após a sua formação
académica, manifestam dificuldades em conseguir emprego que lhes garanta alguma
estabilidade.
No que diz respeito à idade destes profissionais, e excluindo a relação íntima
desta variável com o vínculo à instituição (pois a grande maioria dos
enfermeiros com menos de 30 anos de idade e com menos de cinco anos de serviço
tem Contrato a Termo Certo), observou-se que os enfermeiros mais novos atribuem
maior importância às Condições de Trabalho & Saúde do que os seus colegas
mais velhos. Abordando com mais detalhe o significado desta dimensão,
verificou-se que esta inclui aspectos relacionados com a existência de factores
de risco de natureza física, ambiental, organizacional psicossocial e a
prevenção de acidentes ou doenças profissionais, bem como de outras doenças
relacionadas com (ou agravadas por) o trabalho. Face a estas constatações,
embora não seja possível sustentar esta hipótese, é provável que a menor
experiência profissional dos enfermeiros mais novos esteja na base desta sua
maior preocupação com as condições de trabalho e saúde.
Por outro lado, e abordando agora a questão do local de trabalho, verificou-se
existirem diferenças estatisticamente significativas entre os enfermeiros que
exercem funções na sede do CS e nas extensões. Os primeiros atribuem maior
importância à margem de poder e de liberdade que têm no exercício das suas
funções, incluindo a oportunidade de participação na organização e
funcionamento dos serviços; bem como ao conjunto das relações de trabalho que
estabelecem com os outros (relações hierárquicas, funcionais e cooperativas),
incluindo o suporte social dado pela direcção do CS ou pelos pares. Por sua
vez, os segundos, atribuem maior importância ao ambiente físico e psicossocial
de trabalho com implicações na saúde, segurança e bem-estar físico, mental e
social; bem como à existência de serviços, programas e actividades orientadas
para a prevenção dos riscos profissionais, a vigilância e a promoção da saúde;
a informação e a formação no domínio da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho
(SH&ST).
Esta diferença na ordenação das dimensões da satisfação profissional poderá
estar relacionada com a especificidade do exercício profissional destes dois
grupos de enfermeiros. Por exemplo, aqueles que trabalham na sede contactam com
maior proximidade e frequência com os seus superiores hierárquicos e com os
elementos da direcção do CS (que trabalham do mesmo local). O facto de serem
alvo duma supervisão directa por parte das chefias interfere (positiva ou
negativamente) na sua margem de autonomia, conferindo-lhes também a
oportunidade de participar nas decisões que são emanadas desde o "centro
nevrálgico" da instituição (dependendo da abertura dos superiores
hierárquicos).
Os enfermeiros que trabalham nas extensões lidam com os factores relacionados
com o seu isolamento,nomeadamente a separação física em relação aos órgãos
decisores e os condicionalismos inerentes a uma circulação de informação que
depende, em grande medida, de contactos esporádicos e indirectos (telefone,
correio interno bissemanal, entre outros). Da mesma forma, muitas destas
unidades de saúde apresentam condições físicas precárias e constituem
verdadeiros micro-sistemas, nos quais todos os seus elementos passam a maior
parte da jornada de trabalho numa situação de grande proximidade. Assim, o bem-
estar psicossocial destes enfermeiros dependerá, em grande medida, da adequada
gestão das relações que existem no seio da equipa multidisciplinar.
Quanto ao tipo de funções exercidas, observou-se que os enfermeiros
responsáveis pela direcção, chefia ou coordenação de unidades de saúde
apresentam um índice de satisfação profissional mais elevado. Da mesma forma,
aqueles elementos que integram as equipas de programas de saúde específicos
apresentam menor tendência em querer afastar-se do seu posto de trabalho.
Segundo Herzberg11, a motivação no trabalho depende do enriquecimento de
funções ou tarefas de forma a satisfazer necessidades complexas.
Por sua vez, Maslach19 refere que a participação activa dos técnicos nas
decisões do serviço, poderá ser útil e levar à realização e satisfação
profissional. Deverá existir uma boa comunicação e oportunidades de discussão
dos problemas com os superiores, sendo ela formal ou informal, em grupo ou
individual, mas terá de ser sempre de suporte e de ajuda e nunca de forma
alguma para julgar.
No caso concreto deste estudo verificou-se que os profissionais com cargos
acrescidos, que exigem deles outras competências, responsabilidades de decisão
e uma maior especificidade no trabalho, apresentam maior satisfação
profissional e uma menor disposição para deixar o seu trabalho (ou propensão
para o turnover).
Por outro lado, os enfermeiros que referiram já ter pensado em abandonar o seu
posto de trabalho (mudando de profissão ou solicitando transferência, licença
sem vencimento ou aposentação) demonstram estar mais insatisfeitos com a
concretização das possibilidades de desenvolvimento pessoal e profissional, o
que decorre em grande medida das oportunidades e desafios colocados pela
organização onde trabalham, da profissão que têm, do conteúdo e da organização
do trabalho.
Falando agora em termos globais, observou-se que os enfermeiros do CS de
Barcelos/Barcelinhos estão satisfeitos com as interacções humanas positivas que
se estabelecem com os utentes e insatisfeitos com as recompensas que recebem
pelas funções que exercem, incluindo o vencimento-base e outras remunerações
complementares (por exemplo: as horas extraor di nárias e as gratificações de
chefia). Esta insatisfação acentua-se quando comparam a sua remuneração em
relação a outros funcionários públicos com qualificações e responsabilidades
equivalentes.
Existem três factores determinantes que poderão estar na base desta
insatisfação em relação à remuneração. O primeiro diz respeito ao facto de um
elevado número destes profissionais já ter logrado obter o grau equivalente à
licenciatura, quer através da frequência do Curso de Complemento de Formação em
Enfermagem, quer através do curso de base, e de todavia não serem remunerados
em função destas novas qualificações académicas (como técnicos superiores). Por
outro lado, tanto os parcos aumentos salariais dos últimos anos como o
congelamentodas progressões nas carreiras constituem condições importantes
conducentes à insatisfação relativamente à dimensão da Remuneração.
Apesar disso, apenas quatro, do total de 56 inquiridos, não escolheria a mesma
profissão e nenhum escolheria o sector privado como principal empregador.
Analisando os scores obtidos separadamente (por dimensão da satisfação
profissional) verificou-se que, tal como na investigação efectuada por
Santos7, os níveis mais altos de insatisfação estão relacionados com as
Necessidades Fisiológicas, Básicas e deSegurança, enquanto os níveis mais altos
de satisfação estão relacionados com as Necessidades Sociais, de Estima e de
Autorealização. Segundo Maslow, em 1954, (citado por Lucas10, p. 64), na sua
teoria da Hierarquia de Necessidades, as necessidades básicas manifestam-se em
primeiro lugar, e as pessoas procuram satisfazê-las antes de se preocupar com
as de nível mais elevado.
Quanto às expectativas dos enfermeiros, observou-se que, nas dimensões
estudadas, elas são elevadas e os seus valores homogéneos (mE>9,00; dp = 0,36),
à excepção da dimensão Status & Prestígiocuja média, apesar de alta, é
inferior a 9,00 (mE = 8,43).
Segundo a Teoria da expectativa de Vroom (1964) (citado por Robbins5 e por
Graça13), um empregado só estará motivado se reconhecer que o seu esforço o
aproximará das suas metas pessoais e profissionais (expectativas). No presente
estudo, a média das expectativas dos enfermeiros é elevada o que, à luz desta
teoria, significa que estes elementos estão motivados no seu emprego.
Em termos globais, o nível de satisfação profissional apurado nos enfermeiros
do CS de Barcelos/Barcelinhos é elevado, na escala de 0 a 10 (score
total = 3.20).
Segundo Robbins5, p.103 as "pessoas não-orientadas para o trabalho tendem a não
se envolver emocionalmente com os seus empregos. Esta indiferença relativa
permite que elas aceitem condições de trabalho frustantes com mais boa
vontade... Então, ainda que a satisfação no trabalho possa ser importante para
advogados, cirurgiões e outros profissionais, ela pode ser irrelevante para o
trabalhador médio porque ele está geralmente indiferente aos elementos
frustantes do emprego."
Esta afirmação poderia, no caso deste estudo e face aos resultados obtidos,
constituir uma hipótese plausível para justificar o facto de estes
profissionais (os enfermeiros) apresentarem este perfil global de satisfação
profissional.
Por outro lado, comparando estes resultados com o estudo efectuado por Graça e
Sá12 na SRS de Beja, no qual foi estudada a satisfação profissional de todos os
grupos profissionais dos CS afectos a esta instituição, verificou-se que os
enfermeiros do CS de Barcelos/Barcelinhos demonstram uma menor afinidade em
relação a (ou identificação com) os CSP por comparação com os seus colegas da
SRS de Beja.
Esta diferença de intenções comportamentais poderá ter como causas prováveis
questões de organização institucional de nível regional ou sub-regional (a
nível local, quando questionados se hoje em dia escolheriam o mesmo CS, a
diferença entre as respostas destes dois grupos de enfermeiros é de
aproximadamente quatro pontos percentuais).
Outro facto que se deve ter em consideração diz respeito aos momentos nos quais
os trabalhos foram elaborados. Entre os anos de 1998 e 2006 processaram-se
importantes alterações ao nível do estatuto dos enfermeiros de CSP,
nomeadamente a perda do privilégio de progredir na carreira de forma mais
célere em relação aos homólogos dos CSD (Cuidados de Saúde Diferenciados).
Desta forma é provável que, os enfermeiros que optaram pelos CSP perspectivando
uma progressão na carreira mais rápida, se sintam decepcionados com a sua
escolha e manifestem que, se lhes fosse dada novamente a oportunidade de
escolher, não enveredariam pelo exercício da profissão num CS.
Comparando agora os resultados do presente estudo com os obtidos através da
investigação efectuada por Graça9,13,26, na qual estudou o perfil da satisfação
profissional dos médicos de família do SNS português, empregando o mesmo
questionário, verificou-se que estes médicos apresentavam uma média de
satisfação profissional mais baixa, quer na sua globalidade, quer em sete das
oito dimensões estudadas. A diferença mais significativa diz respeito à
dimensão do Status & Prestígio.
Por sua vez, a única dimensão na qual os enfermeiros apresentam um índice de
satisfação laboral menor, diz respeito à Segurança no Emprego, devendo-se
possivelmente ao facto de existir um maior número de enfermeiros contratados e
uma maior dificuldade destes em conseguir ingressar numa instituição de saúde.
Em termos gerais, estas diferenças tão significativas entre os perfis da
satisfação laboral destes dois grupos profissionais poderão dever-se às
desigualdades amostrais dos dois estudos (idade, sexo, local de trabalho, área
de residência dos respondentes, entre outras) e o facto de terem sido
efectuados com sete anos de diferença. Para que seja possível realizar uma
análise fidedigna da diferença entre a satisfação de médicos e enfermeiros
terá, necessariamente, que ser utilizado um desenho de estudo diferente com
amostras mais homogéneas do ponto de vista sócio-demográfico.
Um outro estudo, realizado em 2004 no CS de Carnaxide, que utilizou como
instrumento o questionário adaptado de Graça1 e que abrangeu todos os grupos de
profissionais, apresentava resultados muito semelhantes aos do nosso estudo.
Assim, apesar de apenas ter englobado quatro dimensões coincidentes (Autonomia
& Poder; Condições de trabalho & saúde; Realização pessoal e
profissional & desempenho organizacional; Relações de trabalho &
suporte social), os itens que apresentam maiores níveis de satisfação
profissional correspondem à percepção da garantia de qualidade dos cuidados que
são prestados aos utentes e à cooperação e a colaboração que existe por parte
dos colegas de profissão.
Da mesma forma, os itens que apresentam menores níveis de satisfação
profissional dizem respeito à inadequada protecção contra os riscos
profissionais, de natureza física, química e/ou biológica e à deficiente
prevenção de situações que possam provocar riscos de stress no trabalho (por
ex., conflitos com os utentes e colegas, sobrecarga de trabalho). No referido
estudo, tal como neste, fica bem patente que as boas relações
intradisciplinares dos enfermeiros e a percepção de prestar cuidados de
enfermagem com qualidade são factores que influenciam positivamente a
satisfação destes profissionais. Em contrapartida, as más condições de trabalho
e a falta de segurança produzem um efeito antagónico.
Conclusões
Apresentam-se as principais razões que condicionam a satisfação profissional
dos enfermeiros que actuam nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), nomeadamente
do Centro de Saúde (CS) de Barcelos/Barcelinhos: (i) apesar de esta ser uma
profissão com grande tradição feminina, os elementos do sexo masculino
apresentam níveis de satisfação laboral superiores; (ii) os enfermeiros estão
satisfeitos com as interacções humanas positivas que se estabelecem com os
utentes e insatisfeitos com as recompensas que recebem pelas funções que
exercem; (iii) os enfermeiros que trabalham nas extensões não se sentem
adequadamente protegidos contra os riscos profissionais de natureza física,
química e/ou biológica, a que estão expostos nem tão pouco consideram existir
uma política efectiva de protecção da saúde e da segurança dos profissionais
que ali trabalham; (iv) os enfermeiros com cargos acrescidos, que exigem deles
outras competências, responsabilidades de decisão e uma maior especificidade no
trabalho, apresentam maior satisfação profissional e uma menor disposição para
deixar o seu trabalho; (v) a precariedade da situação laboral dos enfermeiros
contratados transforma-se num importante factor de insatisfação profissional;
(vi) os factores que condicionam positivamente os níveis de satisfação laboral
dos enfermeiros estão intimamente ligados às relações que encetam com os
utentes aos quais prestam cuidados; e, por fim, (vii) os factores que
influenciam negativamente os índices de satisfação profissional dizem respeito
à actual política laboral que, face à actual conjuntura económica nacional, tem
restringido o acesso dos enfermeiros a vínculos de longo prazo e reduzido os
aumentos salariais.
Assim, os enfermeiros apresentam-se mais insatisfeitos com a Remuneração
auferida no exercicio das suas funções e menos insatisfeitos com a Relação
profissional/utente.
Relativamente à importância que estes elementos atribuem às diferentes
dimensões da satisfação profissional verificou-se que em primeiro lugar se
encontra a Realização pessoal e profissional & o desempenho organizacional
e, por último, a Remuneração e o Status & prestígio.
No que se refere às expectativas destes profissionais constatou-se que o Status
& prestígio é aquele que apresenta a média de expectativas mais baixa e,
por último, a Relação profissional/utente.