Estaquia e concentração de reguladores vegetais no enraizamento de Campomanesia
adamantium
Introdução
Os frutos nativos do Cerrado apresentam sabores especiais, com elevados teores
de açúcares, proteínas, vitaminas, minerais e fibras, possuindo grande
aceitação popular (Campos et al., 2012). Perspectivas promissoras para
exploração de frutos tropicais não tradicionais devem-se aos níveis
consideráveis de vitamina C, antocianinas, carotenoides e compostos fenólicos,
além da capacidade antioxidante destes frutos (Rufino et al., 2010).
As espécies de Campomanesia (Myrtaceae), popularmente chamadas de guavira ou
gabiroba, são espécies nativas brasileiras mais comuns na região Centro-Oeste,
sendo encontradas as espécies: Campomanesia sessiliflora(O. Berg) Mattos,
Campomanesia xanthocarpaO. Berg e Campomanesia adamantium (Cambess) O. Berg.
São plantas pouco exigentes quanto ao tipo de solo e algumas delas crescem
naturalmente em solos pobres em nutrientes. A Campomanesia adamantium
(Myrtaceae) é encontrada nos estados de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do
Sul e, em alguns casos, ultrapassa os limites do Brasil para alcançar as terras
do Uruguai, Argentina e Paraguai (Lorenzi et al., 2006).
As folhas e os frutos deste género possuem algumas propriedades medicinais
comprovadas (Rodrigues e Carvalho, 2001). Os frutos possuem sabor sui generise
são ótimos alimentos por apresentarem baixo teor energético, devido à reduzida
concentração de macronutrientes, especialmente lipídios, e contém bons
conteúdos de cálcio, zinco, ferro e fibras (Silva et al., 2008). Podem ser
consumidos in natura, sendo considerados muito saborosos, suculentos, ácidos e
levemente adocicados. Na indústria de alimentos podem ser utilizados como
flavorizantes na indústria de bebidas, na fabricação de licores, sumos, doces e
sorvetes (Piva, 2002; Freitas et al., 2008).
No entanto, as espécies nativas geralmente apresentam heterogeneidade no
processo de maturação dos frutos e as sementes possuem algum tipo de dormência
e muitas são recalcitrantes, o que compromete a formação de mudas em escala
comercial (Melchior et al., 2006; Dousseau et al., 2011). A desflorestação e o
extrativismo predatório causam perdas de materiais genéticos de características
desejáveis, que podem colocar em risco real a sobrevivência de algumas espécies
(Luis, 2008).
A propagação das espécies via sementes resulta em mudas desuniformes e sujeitas
à baixa qualidade em virtude da variabilidade genética, o que pode ser
prejudicial à produtividade dos plantios (Dias et al., 2012). Por outro lado,
as técnicas de propagação vegetativa, e, dentre elas a estaquia, constituem uma
alternativa de superação das dificuldades na propagação de espécies nativas,
podendo ser utilizadas para fins comerciais, assim como auxiliar no resgate e
conservação de recursos genéticos florestais (Bandeira et al., 2007; Xavier et
al., 2009). O uso da estaquia na formação de mudas poderá garantir a
antecipação do período reprodutivo, que é uma vantagem da propagação
vegetativa, e contribuir para a exploração económica da gabirobeira. Além
disso, a propagação proporciona a manutenção das características da planta-
matriz nos descendentes, assegurando a formação de pomares comerciais
homogéneos, facilitando a gestão da plantação (Sasso et al., 2010).
Dentre os principais fatores envolvidos no enraizamento de estacas, destacam-se
a ocorrência de injúrias; o balanço hormonal; a constituição genética da planta
matriz; o nível endógeno de inibidores; as condições nutricionais e hídricas da
planta doadora de propágulos (Alfenas et al., 2009; Xavier et al., 2009); a
maturação/juvenilidade dos propágulos; a época do ano de colheita; fatores
abióticos (temperatura, luz, humidade); o uso de reguladores de crescimento e a
qualidade do substrato (Xavier et al., 2009).
As auxinas são normalmente consideradas as principais substâncias promotoras do
enraizamento adventício, principalmente para espécies que apresentam
dificuldade em enraizar. Dentre as auxinas, a mais utilizada para essa
finalidade e que tem apresentado melhores resultados para a maioria das
espécies é o ácido indol-3-butírico (AIB) (Cunha et al., 2008; Valmorbida et
al., 2008).
Diante do exposto, o trabalho teve como objetivos avaliar diferentes épocas de
enraizamento de estacas, tipos de estacas, reguladores vegetais e concentrações
na indução do enraizamento de estacas de gabiroba.
Material e Métodos
A condução do estudo ocorreu em estufa localizada na Regional Jataí/
Universidade Federal de Goiás (UFG), no município de Jataí, GO, a 17º 52' 53?
de latitude Sul e 51º 42' 52? de longitude Oeste e 696 metros de altitude, com
temperatura média anual entre 23 e 26 ºC e uma precipitação média anual
variando de 1650 a 1800 mm.
O ensaio foi montado a partir de plantas matrizes georreferenciadas presentes
no 41ª Batalhão de Infantaria Motorizado (41°BIMtz) no município de Jataí, GO.
Estacas herbáceas (apicais) e lenhosas (medianas) foram retiradas com 20 cm de
comprimento, cortadas em bisel na base e reto no ápice, mantendo-se um par de
folhas com a área reduzida pela metade. Em seguida, as estacas receberam os
seguintes tratamentos com AIB (Ácido Indol Butírico) ou AIA (Ácido Indol
Acético): as bases das estacas foram imersas antes da plantação por 10 segundos
em solução aquosa contendo AIB ou AIA em duas concentrações (1000 e 2000 mg L-
1). Para o tratamento testemunha, as bases das estacas ficaram imersas em água
por 10 segundos. A plantação foi efetuada em tubetes de prolipropileno com
capacidade de 53 cm3 contendo substrato comercial Plantmax Florestal®.
As estacas ficaram em nebulização intermitente, e o tempo de nebulização foi de
10 seg a cada intervalo de 5 minutos, sendo determinado de modo a manter uma
fina camada de água sobre a superfície das folhas no momento de maior
evapotranspiração, sem causar escorrimento. Após 30 dias, as estacas receberam
adubação consistindo em 10g de sulfato de amónio em 20 L de água.
O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, em
esquema fatorial 2x2x3 (2 tipos de estacas, 2 tipos de reguladores e 3
concentrações), com quatro repetições e dez estacas por unidade experimental.
Os ensaios foram montados em três épocas distintas (dezembro de 2012, fevereiro
e maio de 2013). As estacas foram avaliadas a cada 7 dias a partir da
emergência do primeiro gomo, e aos 50 dias, foram analisadas as seguintes
variáveis: percentagem de enraizamento, percentagem de abrolhamento,
percentagem de estacas mortas e número de gomos. Para testar a homogeneidade
das médias utilizou-se o teste de Bartlett e para a comparação de médias, os
dados foram submetidos ao Teste de Duncan a 5% de probabilidade. Para a análise
dos dados foi utilizado o programa estatístico SISVAR® (Ferreira, 2011).
Resultados e discussão
A partir dos dados do estaqueamento feito no mês de dezembro com estacas
herbáceas, observou-se que o tratamento 2000 mg L-1 AIA foi o que obteve maior
percentagem de enraizamento e a menor percentagem de estacas mortas, sendo
superior aos demais tratamentos estudados. Para o tratamento com 2000 mg L-
1 AIB não houve enraizamento de estacas. Para as características percentagem de
abrolhamento e número de gomos/estaca não foram constatadas diferenças
significativas entre os tratamentos estudados (Quadro_1).
Ocorreu baixa percentagem de abrolhamento e também de número de gomos. A
percentagem de enraizamento variou de 2,5 a 20%, sendo superior aos resultados
apresentados por Sasso (2009), propagando a jabuticabeira açú por estacas
herbáceas, que obteve percentagem de enraizamento em torno de 7,1%. Segundo o
autor este fato pode estar relacionado com a menor concentração de reservas da
planta matriz, uma vez que as colheitas coincidiram com o término da
frutificação.
Com estacas lenhosas colhidas e estaqueadas em dezembro (Quadro_2), verificou-
se que a testemunha apresentou maior percentagem de enraizamento, maior
percentagem de abrolhamento e menor percentual de estacas mortas, sendo
superior aos demais tratamentos. Quanto ao número de gomos/estaca não houve
diferença entre os tratamentos.
Em todos os tratamentos foram observados abrolhamentos, no entanto, também foi
verificado que o sucesso na propagação está relacionado com a capacidade de
emissão de raízes pelas estacas, fato este observado somente nos tratamentos
Testemunha e 2000 mg L-1de AIB. Tofanelli et al. (2003), em pessegueiro,
verificaram uma máxima percentagem de enraizamento em imersão lenta de 3,0% e
imersão rápida de 9,0%.
Com estacas herbáceas colhidas e estaqueadas em fevereiro (Quadro_3), observou-
se que o tratamento 1000 mg L-1 de AIA foi o que apresentou maior percentagem
média de enraizamento. Não houve diferença entre os tratamentos para a
percentagem de abrolhamento e o número de gomos/estaca.
Já para as estacas lenhosas colhidas e estaqueadas em fevereiro (Quadro_4)
houve aumento substancial na percentagem de enraizamento, abrolhamento e número
de gomos/estaca, e observou-se uma pequena redução na percentagem de estacas
mortas. Os tratamentos com AIA foram superiores aos demais quanto à percentagem
de enraizamento. Esta percentagem variou de 15 a 30%, sendo superior aos
resultados apresentados por Cassol et al. (2009), para jabuticabeira, onde a
percentagem média de estacas enraizadas não foi superior a 3% dentre todos os
tratamentos estudados. Não houve diferença entre os tratamentos testemunha,
1000 mg L-1 AIA, e 2000 mg L-1 AIB para a percentagem de abrolhamento. O número
de gomos foi inferior para o tratamento 2000 mg L-1 AIA, e para os demais não
houve diferenças entre os tratamentos. Especificamente, para estacas lenhosas
colhidas em fevereiro, pode ter havido uma mudança do balanço hormonal endógeno
de citocianinas e auxinas. Segundo Antunes et al. (1996), o abrolhamento antes
do enraizamento é prejudicial à formação de raízes nas estacas, devido ao
consumo de reservas. Consequentemente o menor enraizamento levou a uma maior
percentagem de estacas mortas.
Com estacas herbáceas colhidas e estaqueadas em maio (Quadro_5), observou-se
que para a percentagem de abrolhamento e número de gomos/estaca não houve
diferença entre os tratamentos estudados. Nessa época, o tratamento com 1000 mg
L-1 de AIB apresentou maior percentagem de enraizamento (15%), seguido pela
testemunha com 10% e pelos demais tratamentos sem diferença entre eles. O
tratamento com 1000 mg L-1 de AIB apresentou também menor percentual de estacas
mortas (72,5%), que diferenciou-se dos demais. Franzon et al. (2004), em
goiabeira-serrana, obtiveram 14,99% de estacas sobreviventes e 8,33% de estacas
abrolhadas.
Para as estacas lenhosas colhidas e estaqueadas em maio (Quadro_6), observou-se
os melhores resultados das três épocas. Para a percentagem de abrolhamento e
número de gomos/estaca não houve diferença entre os tratamentos. A maior
percentagem de enraizamento (57,5%) e a menor percentagem de estacas mortas
(32,5%) foram observadas na testemunha que foi superior aos demais tratamentos,
provavelmente pela disponibilidade de hormona endógena suficiente para o
enraizamento (Wareig, 1982). A menor percentagem de enraizamento e a maior
percentagem de estacas mortas com 27,5 e 55%, respectivamente, foram
encontradas no tratamento 2000 mg L-1 de AIB. Em todos os tratamentos foram
observados maior quantidade de gomos/estaca e de percentagem de enraizamento.
Já a percentagem de estacas mortas foi reduzida nesta colheita em todos os
tratamentos. A formação de raízes em estacas lenhosas pode ser atribuída à
maior disponibilidade de substâncias nutritivas, pois a auxina pode influenciar
na acumulação basal de açúcares junto aos locais de desenvolvimento radicular
como descrito por Wareig (1982).
O aumento da dose de auxina exógena aplicada em estacas provoca efeito
estimulante de raízes até um valor máximo, a partir do qual qualquer acréscimo
de auxinas tem efeito inibitório (Fachinello et al., 2005). Norberto et al.
(2001) trabalharam com épocas de estaquia e aplicação de AIB (100 mg L-1) no
enraizamento de estacas de figueira (basal e mediana) e notaram que, para todas
épocas de estaquia testadas (abril, maio, junho, julho e agosto), houve aumento
da percentagem de estacas enraizadas com o uso de AIB. Nota-se também o
diferencial das concentrações deste trabalho em função das espécies utilizadas.
A época de colheita influenciou no enraizamento e na capacidade de abrolhamento
de estacas de gabiroba. Os dados da primeira colheita (dezembro) foram
inferiores, e isto pode ser explicado em parte pelo fato da colheita ter sido
realizada após o período de frutificação, época de menor concentração de
reservas na planta matriz.
Segundo Dutra e Kersten (1996), a influência da época de estaquia no
enraizamento de estacas ocorre por causa das variações no conteúdo dos co-
fatores na formação e na acumulação de inibidores do enraizamento. De acordo
com Zuffellato-Ribas e Rodrigues (2001), em estacas herbáceas retiradas no
verão, os ramos estão em pleno crescimento e apresentam maiores doses de
auxinas em relação àquelas que são retiradas no outono e inverno (semilenhosas
e lenhosas). O potencial de enraizamento pode ter sido também influenciado
pelas condições climáticas, sendo a temperatura um dos elementos mais
importantes do clima. O enraizamento de estacas envolve divisões mitóticas com
gasto de energia que tem origem em inúmeras reações químicas cuja velocidade e
eficiência dependem da temperatura.
Na comparação de estacas lenhosas com herbáceas em gabiroba, observou-se que
estacas lenhosas possuem maior percentagem de enraizamento e de abrolhamento,
maior número de gomos/estaca e menor percentagem de estacas mortas. Isto
provavelmente se deve à maior disponibilidade de nutrientes em estacas mais
linhificadas, fazendo com que as estacas se mantenham vivas.
Conclusões
Nas condições em que foi realizado o ensaio, pode-se concluir que: (i) estacas
lenhosas de gabiroba são mais aptas a serem usadas na propagação vegetativa da
espécie quando comparadas com estacas herbáceas; (ii) a época de colheita
influencia o enraizamento e o abrolhamento das estacas de gabiroba, destacando-
se assim o mês de maio como a melhor época; e (iii) a indução hormonal varia em
eficiência de acordo com a época de colheita, sendo mais eficaz o tratamento de
1000 mg L-1 de AIA.