Percepção de produtores rurais em relação às mudanças climáticas e estratégias
de adaptação no estado de Minas Gerais, Brasil
Introdução
A percepção e o conhecimento das características que direcionam os seres
humanos a tomarem iniciativas e responderem aos eventos de mudanças climáticas
são fatores cruciais para a condução de uma efetiva formulação de políticas
públicas (Blennow et al., 2012). A definição de clima em termos da variação de
temperatura e precipitação, ou seja, fenómenos meteorológicos estatísticos,
torna difícil a sua observação direta por parte da população (Moser e Ekstrom,
2010). Ademais, grandes flutuações aleatórias das variáveis climáticas ao longo
do tempo são responsáveis por tornar menos provável que as pessoas detectem com
precisão as pequenas variações climáticas (Blennow et al., 2012).
Dessa forma, a percepção aos impactos causados pelas mudanças climáticas
configura-se mais como relação causal do que como observação direta do clima
per se.
Alguns estudos têm reportado que fatores pessoais e culturais, como, por
exemplo, a crença nos efeitos locais das mudanças climáticas correlaciona-se
positivamente com as respostas frente a essas alterações (Blennow e Persson,
2009; Leiserowitz et al., 2012), o que reforça a hipótese de que experiências
pessoais podem explicar as respostas às alterações do clima e seus impactos
(Weber, 2006, 2010; Spence et al., 2011). Por exemplo, para a maior parte da
população em regiões tropicais, o principal problema climático não é a
alteração na temperatura, a qual varia muito pouco sazonalmente, mas sim a
variação na precipitação (Hartter et al., 2012). As alterações na quantidade e
nos padrões de precipitação impactarão, por sua vez, a produtividade de áreas
agrícolas, o que torna o conhecimento da variabilidade das chuvas essencial
para a segurança alimentar, recursos hídricos e gestão do uso da terra (Hartter
et al., 2012).
A compreensão dos efeitos das mudanças climáticas exige análises regionais e
para setores económicos específicos, visto que os seus impactos são muito
distintos em termos locais e setoriais.
O setor agrícola, por depender diretamente do clima, é um dos mais vulneráveis
às mudanças climáticas. Mesmo com todos os avanços tecnológicos relacionados à
cadeia produtiva agrícola, tais como técnicas de irrigação, melhoramento
genético, dentre outros, as condições climáticas ainda são fatores-chave que
direcionam a produção agrícola (Deschênes e Greenstone, 2007). Assim, os
produtores rurais são agentes altamente sensíveis às mudanças climáticas, e as
propriedades rurais podem fornecer exemplos valiosos a nível local e/ou
regional de adaptação às alterações do clima, uma vez que os sistemas agrícolas
são expostos e dependem diretamente das condições climáticas operantes. O setor
agrícola é de grande importância para o estado de Minas Gerais, Brasil. Segundo
Barros et al. (2014), o agronegócio mineiro cresceu 0,32% no período de janeiro
a dezembro de 2013, o que elevou a renda estimada em 2012 para R$ 148,76
bilhões. Desse valor, R$ 77,05 bilhões (51,8%) resultam da agricultura e R$
71,7 bilhões (48,2%) resultam da pecuária. Esses valores fazem com que o setor
represente aproximadamente 10% do agronegócio brasileiro. Dentre as atividades
agrícolas, merece destaque a produção de café, já que o estado é o maior
produtor nacional e também é o maior exportador mundial do grão.
Não obstante, o desempenho favorável da agricultura do estado de Minas Gerais
pode ser afetado pelas alterações futuras do clima global. Para o café, por
exemplo, há estimativas de grande redução da produção no estado. De acordo com
Pinto e Assad (2008), o número de municípios que atualmente são aptos para a
produção de café em Minas Gerais pode ser reduzido a metade já em 2020.
Ademais, o estudo de Cunha e Reis (2012) sugere que aproximadamente 60% dos
municípios mineiros poderão sofrer elevadas perdas agrícolas devido aos efeitos
adversos das mudanças climáticas, sendo que essas perdas podem chegar a R$ 24
milhões em 2020.
Assim, torna-se indispensável investigar a percepção ambiental dos produtores
rurais do estado de Minas Gerais para que se possa desenvolver estratégias de
ação que permitam, a curto prazo, promover mudanças diante das dificuldades
locais. De acordo com Menezes et al.(2011), a compreensão da interpretação
ambiental dos agricultores representa uma característica valiosa para os
processos de adaptação dos mesmos, pois ao assumir que as mudanças no ambiente
estão ocorrendo, torna-se possível uma preparação para as adversidades
climáticas futuras.
Dessa forma, foi desenvolvido um estudo para avaliar a percepção e as respostas
às mudanças climáticas (adoção de estratégias adaptativas) de produtores rurais
do estado de Minas Gerais.
Material e Métodos
Os dados foram obtidos por meio da aplicação de um questionário semiestruturado
durante a 83ª edição da Semana do Fazendeiro, na cidade de Viçosa, Minas
Gerais. A Semana do Fazendeiro, promovida pela Universidade Federal de Viçosa
(UFV) desde 1929, foi a primeira atividade extensionista desenvolvida por uma
universidade brasileira e configura-se, atualmente, como o maior evento de
extensão rural do país. A 83ª edição do evento, realizada de 7 a 13 de julho de
2012, contou com a participação de 1081 agricultores inscritos nas diferentes
atividades oferecidas.
O questionário foi baseado no instrumento de coleta de dados do Censo
Agropecuário 2006, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, e contou com 30 questões. As principais categorias de questões
englobaram i) características gerais das propriedades agrícolas, ii)
informações socioeconómicas dos produtores rurais, iii) percepção ambiental
destes produtores frente às mudanças do clima, e iv) medidas adaptativas
implementadas nas propriedades. A forma de abordagem foi individual e os
questionários foram aplicados entre 7 e 13 de julho de 2012.
Os produtores rurais foram selecionados por amostragem aleatória simples. O
tamanho da amostra foi calculado com base na seguinte equação (Triola, 2008):
em que n é o tamanho da amostra para uma população finita; N é o tamanho da
população; p é a proporção com a qual o fenómeno se verifica, ou seja,
percentual de produtores oriundos do estado de Minas Gerais inscritos na Semana
do Fazendeiro; q é a proporção complementar (1 ' p); Za/2 é o grau de confiança
desejado (90% no presente estudo); e E é o erro máximo de estimativa, o qual
indica a diferença máxima entre a proporção amostral e a verdadeira proporção
populacional. Dessa forma, de um universo de 1.081 agricultores inscritos na
Semana do Fazendeiro, selecionou-se uma amostra de 63 produtores rurais
oriundos de Minas Gerais.
A análise dos dados obtidos foi realizada utilizando-se o método de estatística
descritiva por meio de análises gráficas, contendo a distribuição de
frequências relativas das variáveis socioeconómicas dos produtores
entrevistados e das variáveis concernentes à percepção ambiental e medidas
adaptativas analisadas.
Resultados e discussão
Nessa seção serão apresentados e discutidos os principais resultados deste
estudo. Inicialmente, será traçado um perfil socioeconómico dos agricultores
entrevistados, cujas características podem explicar a sua percepção a respeito
de alterações no clima, a qual será discutida em sequência. Por fim, serão
analisadas as principais estratégias de adaptação empregadas pelos produtores
em resposta às mudanças climáticas, bem como os fatores que poderiam justificar
a sua baixa adoção.
A idade média dos produtores rurais entrevistados foi de 58 anos, sendo que o
tempo médio de trabalho com produção agrícola foi de 29 anos, demonstrando grau
elevado de experiência. Com relação ao gênero, 93% dos entrevistados eram do
sexo masculino. A maior parte dos produtores (84%) era proprietários, sendo
que, deste montante, 53% residem na propriedade e 31% residem em outro
estabelecimento rural (Figura_1A). Em relação à escolaridade, 41,4% dos
entrevistados afirmaram ter nível superior, enquanto 33,3% possuem ensino
fundamental e 25,3% ensino médio (Figura_1B). Já no que diz respeito ao acesso
à informação, a maior parte dos entrevistados tem acesso a computador (63%),
internet (50%) e telefone (84%) na propriedade rural (Figura_1C_-_E). Além
disso, apenas 37% dos entrevistados afirmaram ser associados a algum tipo de
cooperativa ou associação, tais como APIVAC (Associação dos Apicultores do Vale
do Carangola), Cocatrel (Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas
Ltda.), sindicatos rurais, dentre outros.
De acordo com a classificação de mesorregiões do estado de Minas Gerais, cerca
de 44% dos entrevistados têm a sua propriedade localizada na Zona da Mata e 28%
no Sul de Minas (Figura_2A), mesorregiões que têm suas economias bastante
dependentes da produção de café arábica. Em relação ao tamanho das propriedades
dos agricultores entrevistados, a maior parte delas (cerca de 58%) se encaixa
dentro da faixa de 10 a 100 ha (Figura_2B), de acordo com a classificação do
Censo Agropecuário 2006 (IBGE, 2006). As principais fontes de renda dessas
propriedades (Figura_2C), por sua vez, compreendem as atividades de agricultura
(40%) e pecuária (38%). Vale ressaltar que a receita bruta obtida pela
agricultura na última safra foi de cerca de R$ 53.000,00, enquanto que a obtida
pela pecuária no último ano foi de aproximadamente R$ 36000,00. Ademais, o
valor médio da terra sem benfeitorias foi de R$ 1.344.000,00.
Apenas 12% dos agricultores entrevistados beneficiaram de fontes de créditos
governamentais, tais como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
Familiar (Pronaf). O valor médio de crédito obtido por esses produtores foi de
R$ 9.872,77. Além disso, apenas 5% afirmaram beneficiar de outras fontes de
créditos, tais como o Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono),
Propflora (Programa de Plantação Comercial e Recuperação de Florestas) ou Banco
do Brasil. Em relação à orientação técnica, tem-se que 54% dos produtores
entrevistados afirmaram receber assistência de algum órgão ou entidade (Figura
2D). Destes, 64% recebem orientação da Empresa de Assistência Técnica e
Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER) e 21% de associações de
produtores rurais (Figura_2E). Observou-se, ainda, que em 92% dos casos
citados, essas visitas técnicas acontecem com pouca frequência (cerca de uma
vez por semestre).
Na maioria das propriedades, há produção de café e milho, sendo que a
agricultura comercial contabiliza 49% do total da produção, enquanto que a de
subsistência representa 24%. A pecuária comercial, por sua vez, representa 16%
da produção dos entrevistados, ao passo que a pecuária de subsistência
contabiliza apenas 11%. Vale ressaltar que a bovino-cultura foi a maior
atividade pecuária relatada pelos entrevistados (54%), seguida pela
suinocultura (17%) e avicultura (16%). A maior parte dos produtores rurais
relatou a utilização de fertilizantes (52%) e defensivos agrícolas (41%), tais
como fungicidas, inseticidas e herbicidas. Por outro lado, apenas 30% afirmaram
a utilização de técnicas de conservação do solo, tais como curvas de nível
(40%), utilização de cobertura morta vegetal (15%), dentre outras.
Ao avaliar a percepção às mudanças climáticas dos produtores rurais, principal
objetivo deste estudo, constatou-se que a maioria dos entrevistados (cerca de
90%) já ouviu falar e/ou discutiu sobre as mudanças climáticas e o seu impacto
sobre o agronegócio (Figura_3A). A maior parte dos agricultores afirmou que se
tem apercebido de alterações no clima da sua respectiva região. A constatação
de que o clima está mudando pelos entrevistados está associada, principalmente,
às alterações na precipitação, além da elevação da temperatura (Figura_3B).
Outro indicativo de percepção das alterações climáticas diz respeito aos
motivos que levaram a mudanças nas datas de plantação entre a última safra/
colheita e a anterior (Figura_3C), a qual foi, na maior parte (75%), atribuída
às mudanças no clima.
Num estudo realizado em dois grupos distintos de agricultores do estado do
Pará, Almeida et al.(2008) observaram que o primeiro grupo não associou as
mudanças na frequência das chuvas e estiagens às mudanças climáticas, enquanto
que o segundo percebeu mudanças no clima, mas não na temperatura.
Hoffmann (2011), procurando avaliar a percepção de atores rurais no Rio Grande
do Sul, relatou que a maioria dos entrevistados (76%) afirmou que o clima na
região mudou, apontando o aquecimento como a principal consequência dessa
mudança, além da intensificação de eventos extremos como secas, chuvas intensas
e geadas. As mudanças no clima também foram observadas por agricultores noutros
países, tais como Etiópia, onde a maioria dos entrevistados do estudo de
Mengistu (2011) observou, principalmente, alterações nos padrões de chuvas, bem
como a frequência de tempestades e secas. Diversos estudos apontam que o
principal problema climático relatado por agricultores localizados em regiões
tropicais é a instabilidade dos padrões de precipitação, em detrimento das
alterações na temperatura, a qual varia muito pouco sazonalmente (Hartter et
al., 2012). Verifica-se, portanto, que mesmo em regiões com diferentes
condições edafoclimáticas e particularidades culturais, há um alto nível de
percepção das alterações no clima, notadamente nos padrões de precipitação,
como também evidenciado no presente artigo.
Respostas à percepção de mudanças do clima incluem estratégias adaptativas aos
potenciais impactos negativos. De acordo com a Política Nacional sobre Mudança
do Clima ' PNMC (Brasil, 2013), o termo adaptação é definido como o conjunto
de iniciativas e estratégias que permitem adaptação, nos sistemas naturais ou
criados pelos homens, a um novo ambiente, em resposta à mudança do cli-ma atual
ou esperada. A capacidade de adaptar-se é dinâmica e é influenciada pela base
produtiva da sociedade, em particular, pelos bens de capital, capital humano,
instituições, tecnologia e disponibilidade de recursos naturais (IPCC, 2007).
As principais estratégias adaptativas para o setor agrícola incluem
diversificação de culturas, alterações das datas de plantação e colheita,
aumento do uso de irrigação, implementação de técnicas de conservação de solo,
sombreamento e abrigo e, por fim, melhoramento genético, por meio do
desenvolvimento de cultivares mais resistentes à seca e, ou ao estresse
térmico. Dessa forma, a questão da adaptação ao clima, crucial para
agricultores de países em desenvolvimento, também foi considerada neste estudo.
A Figura_3D apresenta técnicas de produção já adotadas pelos produtores
entrevistados que se configuram como medidas adaptativas às alterações do
clima, tendo sido implementadas com esse intuito ou não. Pode-se observar que a
irrigação (40%) e o plantação direto na palha (35%) foram as estratégias mais
citadas. A irrigação é considerada como uma medida adaptativa, no contexto de
mudanças climáticas, pois permite o controle da deficiência hídrica na produção
agrícola, constituindo uma ferramenta indispensável para o incremento da
produtividade, principalmente em regiões nas quais a variabilidade climática
caracteriza-se por baixa precipitação (Cunha et al., 2013, 2014). Já o sistema
de plantação direta na palha, praticado sobre os restos culturais da lavoura
anterior, principalmente sobre adubos verdes ou sobre as ervas espontâneas,
constitui-se num sistema alternativo à preparação convencional do solo (Souza e
Rezende, 2006). Tal sistema contribui para que o solo não seja levado pela
erosão e armazene mais nutrientes, fertilizantes e corretivos.
A diversificação de culturas foi citada por 23% dos agricultores entrevistados
(Figura_3D). A rotação sazonal entre feijão e milho foi a estratégia mais
citada, seguida por soja e milho, café e milho, e, por último, mandioca e
milho. Diversos estudos demonstram que a diversificação de culturas traz uma
série de benefícios à produção, tais como, a melhor exploração dos recursos
produtivos, diminuição da incidência de pragas e agentes patogénicos, maior
capacidade de controle de ervas daninhas, maior produção por área e maior
estabilidade da produção frente às pressões ambientais, configurando-se,
também, como medida adaptativa (Altieri, 2002; Santos, 2005). Dessa forma, a
diversificação de culturas baseia-se na combinação sazonal e espacial de
espécies de diferentes famílias botânicas, e deve atender às interações entre
as suas características fisiológicas e o clima local (Santos, 2005). Ademais,
procura-se inserir nessas combinações espécies leguminosas, para a adição de
nitrogénio (Altieri, 2002). Isso foi observado no presente estudo, visto que a
combinação entre feijão e milho foi a estratégia mais citada pelos produtores.
A fixação biológica de nitrogénio é fator importante para a sustentabilidade da
agricultura brasileira, visto o fornecimento de nitrogénio às culturas com
baixo custo económico e reduzido impacto ambiental (Hungria et al., 2007),
configurando-se uma das medidas de mitigação elencadas pelo Plano Setorial da
Agricultura para redução de gases de efeito estufa (GEE's), denominado Plano
ABC.
Dentre as medidas adotadas especificamente para aliviar os impactos das
alterações na temperatura e na precipitação sobre a produção nos últimos cinco
anos (Figura_4A), destacam-se o uso de técnicas de irrigação (cerca de 21%), a
alteração de práticas culturais (cerca de 21%), tais como diminuição do uso de
agrotóxicos, correção da acidez do solo, entre outros, bem como a antecipação
e/ou atraso da época de colheita (cerca de 21%). Mais uma vez a irrigação
apresenta-se como a estratégia adaptativa mais comumente utilizada pelos
produtores rurais. De acordo com Dillon (2011), projetos de irrigação de
pequena escala podem gerar diversos benefícios, particularmente em termos de
eficiência, baixos custos de participação e mais influência sobre a gestão dos
recursos hídricos. Ademais, a irrigação pode ser uma poderosa medida adaptativa
no Brasil devido à disponibilidade de água e solos adequados (Cunha et al.,
2013).
As estratégias de antecipação e/ou atraso da época de colheita, por sua vez,
podem ser ferramentas eficazes na tentativa de evitar a instabilidade dos
padrões de precipitação. Em relação à produção de grãos, por exemplo, o momento
ideal para a colheita seria na maturidade fisiológica, ou seja, imediatamente
após as sementes se desligarem fisiologicamente da planta mãe, visto que, a
partir desse estádio, não ocorrem acréscimos significativos na massa seca das
sementes (Terasawa et al., 2009).
Por outro lado, o adiamento da colheita após as sementes atingirem a sua
maturidade fisiológica pode influenciar negativamente a sua qualidade devido à
exposição às condições, geralmente, desfavoráveis do ambiente. Com isso, a
antecipação da colheita reduz os riscos de deterioração no campo e permite a
obtenção de sementes de boa qualidade, colhidas mais próximo da maturidade
(Terasawa et al., 2009).
Ao avaliar os impactos sobre a produção decorrentes de alterações na
temperatura e na precipitação nos últimos cinco anos (Figura_4B) pode-se
observar que as perdas na lavoura (44%) e perdas relacionadas às pastagens
(19%) foram aquelas mais citadas pelos produtores, as quais podem significar
reduções de renda significativas. Por outro lado, vale ressaltar que, mesmo
percebendo alterações no clima (Figura_3B), apenas 24% dos agricultores
entrevistados têm adaptado as suas práticas agrícolas para lidar com impactos
das mudanças climáticas. Resultados como os do presente estudo têm sido
observados noutros países em desenvolvimento, como demonstram as análises de
Gbetibouo et al. (2010) e Di Falco et al.(2011), que estudaram,
respectivamente, agricultores da África do Sul e da Etiópia, e também
verificaram baixos níveis de adaptação. A baixa adoção de estratégias
adaptativas pode comprometer sobremaneira a produção agrícola diante de
cenários futuros de mudanças climáticas, uma vez que há consenso na literatura
de que sistemas adaptados são mais resilientes (Seo, 2010; Kurukulasuriya et
al., 2011; Cunha et al., 2014).
A baixa frequência de assistência técnica, a falta de acesso ao crédito ou
mesmo à informação podem ser considerados importantes fatores inibidores da
adoção de atividades adaptativas (Di Falco et al., 2011). Os resultados do
presente estudo confirmam essa realidade. Por exemplo, entre os produtores com
acesso à Internet (importante fonte para obtenção de informações no período
atual), aproximadamente 33% realizaram medidas de adaptação; já entre aqueles
que não possuíam Internet, esse valor cai para 14%. Além disso, verificou-se
que 78% dos agricultores que não tiveram acesso a nenhuma fonte de crédito
também não implementaram estratégias adaptativas. Por fim, embora a diferença
seja menos expressiva, observou-se que 26% dos entrevistados que receberam
assistência técnica adaptaram a sua produção às alterações do clima; por outro
lado, entre aqueles que não tiveram orientação técnica, apenas 20% adotaram
adaptação.
É preciso considerar que mudanças nos sistemas de produção e atividades de
adaptação não são simples para os produtores, pois implicam custos e riscos
adicionais que precisam ser considerados, os quais poderão (ou não) ser
compensados futuramente pelo aumento do retorno financeiro.
É necessário, também, que esse aumento de rendimentos seja elevado o suficiente
para compensar os riscos associados à transição para sistemas sustentáveis.
Ademais, os sistemas não convencionais, como os agroflorestais, orgânicos,
entre outros, são mais complexos, envolvem custos mais altos, administração
especializada e exigem mão de obra capacitada. Dessa forma, a transição para
esses sistemas, em geral, é lenta, exige acesso a mercados diferenciados e os
retornos económicos só aparecem a longo prazo (Sambuichi et al., 2012).
Conclusões
O presente artigo procurou avaliar a percepção dos agricultores do estado de
Minas Gerais, Brasil, às mudanças climáticas, bem como investigar a adoção de
medidas adaptativas. Foi realizado um estudo, cujos dados foram obtidos por
meio de questionários aplicados durante a 83ª Semana do Fazendeiro (7 a 13 de
julho de 2012), realizada pela Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais.
Verificou-se que a maior parte dos produtores rurais entrevistados tem
conhecimento das discussões sobre mudanças no clima global. Além disso, assim
como evidenciado pela literatura especializada, a percepção é mais elevada
quando se trata de alterações nos padrões de precipitação. Os agricultores têm
respondido a tais mudanças principalmente por meio de alterações em datas de
plantação e colheita, uso de irrigação ou plantação direta na palha. Todavia, a
adoção de estratégias adaptativas ainda é muito baixa. Essa é uma tendência de
diversos países em desenvolvimento, muitas vezes explicada pelo baixo acesso ao
crédito, informações, assistência técnica, entre outras dificuldades que
comprometem a adaptação. A não adoção de sistemas adaptados pode comprometer
sobremaneira a agricultura, uma vez que os produtores estarão expostos a níveis
mais altos de vulnerabilidade. Esse resultado pode ser útil para o
direcionamento de políticas públicas que tenham como objetivo melhorar a
capacidade adaptativa de agricultores.
Por fim, deve-se deixar claro que o presente artigo não pretende esgotar a
discussão acerca da percepção das mudanças climáticas. Trata-se de uma
tentativa de compreender melhor um tema que ainda é pouco explorado na
literatura nacional. Sendo assim, sugere-se que estudos futuros avancem em
direção a um maior nível de abrangência geográfica, de modo a considerar as
diferentes realidades do setor agrícola brasileiro.