Evolução das estratégias de investigação do arroz no INIA - Portugal
INTRODUÇÃO
A necessidade de produzir alimentos em maior quantidade e com melhor qualidade
constitui o desafio actual do agronegócio (Organisation for Economic Co-
Operation and Development - OECD, 2008). A análise retrospectiva da oferta de
alimentos demonstra que o agronegócio tem conseguido aumentos de produtividade
e produção. A produção de alimentos duplicou nos últimos 40 anos (Tilman et
al., 2001), crescimento em parte atribuível ao aumento em 12% da área utilizada
no entanto os principais ganhos são oriundos da inovação tecnológica,
nomeadamente pelo uso de variedades de alto rendimento, fertilizantes químicos,
agrotóxicos, mecanização e irrigação (Tilman et al., 2001; Foley et al., 2005).
Por outro lado, a degradação dos recursos socioambientais também tem sido
associada predominantemente às mesmas tecnologias. Problemas como a erosão dos
solos, contaminação da água (Tilman et al., 2001; Foley et al., 2005)
contaminação dos alimentos e do ser humano (Souza Filho, 2001) mudanças
climáticas (IPCC, 2007) são exemplos de degradação socioambiental associadas ao
agronegócio. Essas constatações criam uma situação paradoxal, se por um lado há
a necessidade de aumentar a produção de alimentos, por outro este crescimento
tende a degradar os recursos necessários para sustentar essa produção. Sobre
esse paradoxo, (Foley et al., 2005) afirmam que a produção agrícola parece
estar a dar preferência a aumentos da produção a curto prazo, com perda de
sustentabilidade que é importante para a manutenção do agronegócio.
Vários autores defendem uma tomada de decisão e acções políticas em múltiplas
escalas geográficas para a mudança de foco no desenvolvimento das inovações,
reivindicando que sejam incorporados os elementos socioambientais (Tilman et
al., 2001; Hart, 2004; Foley et al., 2005; Sachs, 2005; Lovins, Lovins e
Hawken, 2007; FAO, 2008a, 2008b; Caraça, Lundvall e Mendonça, 2009).
Nesse contexto, um dos principais desafios a ser superado pelas organizações de
investigação é a necessidade de incorporar nas suas estratégias a perspectiva
de práticas inovadoras com vista à sustentabilidade. Para isso, as organizações
devem implementar estratégias que integrem inovação e desenvolvimento
sustentável, de modo a dar resposta às pressões sociais, ambientais e
económicas o que não é irreconciliável com o crescimento económico (Hart e
Milstein, 2003).
Especificamente para a fileira do arroz, foram estabelecidos três objetivos
para as organizações de investigação. O primeiro deles foi aumentar a
produtividade do arroz e de valor para as classes sócio económicas mais
desfavorecidas, num contexto de mudança climática, por meio da aceleração da
procura e, através de variedades melhoradas e outras tecnologias ao longo da
cadeia de valor. O segundo objetivo foi tornar os sistemas de produção de arroz
mais sustentáveis, tornando-os mais eficientes, adaptados às mudanças
climáticas e com menor produção de externalidades; por fim, o terceiro objetivo
implica melhorar a qualidade e o acesso às informações para a cadeia de valor,
aprimoramento das políticas de desenvolvimento agrícola e de pesquisa (Global
Rice Science Partnership, 2010).
Outro fenómeno importante da economia moderna, que se soma às exigências por
mais sustentabilidade, tem sido identificado nos estudos sobre estratégia,
prende-se com a velocidade das inovações. A competição tradicional,
caracterizada pelo equilíbrio no desempenho das empresas e ambiente estável tem
sido alterada por inovações disruptivas, comportamento competitivo agressivo,
globalização, desregulamentação, indicando uma mudança para um novo tipo de
comportamento organizacional, que exige a necessidade de reposicionamento
rápido das organizações pela inovação (D'Aveni, 1999; Thomas e
D'Aveni, 2009). Os estudos com o propósito de caracterizar o processo de
mudança são muitos escassos e mais atenção deveria ser dada à análise da
diversidade de processos utilizados ao nível empresarial, inter e intra
sectorial, o que contribuiria também para a compreensão dos factores chave que
determinam a evolução da inovação (Hobday, 2005).
A Teoria Micro-meso-macro integrada na economia evolucionária, permite aos
investigadores desenvolver uma matriz analítica para clarificar o processo de
aparecimento das inovações em sistemas económicos (Dopfer et al. 2004; Dopfer,
2005; Dopfer e Potts, 2009). Dopfer et al. definem um sistema económico como
uma estrutura de regras complexas, que se relacionam ao longo do tempo. Os
processos pelos quais novas regras se originam, são adotadas e difundidas
dentro do sistema económico, constituem o direcionador económico da evolução.
Neste momento a aplicação e desenvolvimento da teoria Micro-meso-macro no campo
da inovação tem sido aplicada predominantemente em sistemas nacionais e
regionais de inovação (Iammarino, 2005; Rodriguez-Pose e Crescenzi, 2008;
Castellacci, 2009; Uyarra, 2010) e na discussão sobre a eficiência e eficácia
das organizações públicas de investigação (Potts, 2009). Contudo, a literatura
apresenta uma lacuna relativa à aplicação desta teoria numa organização de
investigação que contribua para a compreensão sobre a dinâmica do surgimento
das regras e distúrbios ambientais associados à evolução das estratégias de
investigação organizacionais.
Quando se analisa o contexto do agronegócio orizícola português, verifica-se
que este passou por mudanças significativas. Portugal é o país que possui o
maior consumo de arroz per capita da Europa, com 15 kg/habitante (Ministério da
Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007). As empresas e os
agricultores começam a inserir-se num contexto de menor protecção económica,
resultantes dos diversos acordos comerciais que a União Europeia realizou com
outros blocos económicos. Esta abertura comercial tem produzido forte
concorrência de produtos importados, que tem favorecido a mudança de consumo do
arroz subespécie Japonica (Tipo Carolino) produzido em Portugal para o arroz
subespécie Indica (Tipo Agulha) importado, e paralelamente no aumento da
procura por tipos exóticos de arroz (basmati, selvagem, thai, entre outros) e
ainda por refeições pré-preparadas. Ao mesmo tempo, estes elos do agronegócio
têm sido exigidos e incentivados, considerando as preocupações com as questões
ambientais e sociais.
Este estudo pretende contribuir para a compreensão da dinâmica do aparecimento
das regras e distúrbios ambientais e a evolução das estratégias de pesquisa
organizacionais no Instituto Nacional de Investigação Agrária - INIA, uma das
principais organizações de investigação aplicada ao agronegócio do arroz. Em
termos pragmáticos, pretende-se identificar as estratégias, retratar a evolução
e contribuir para a tomada de decisões nas organizações envolvidas neste
agronegócio, bem como para o desenvolvimento de políticas públicas.
METODOLOGIA
A metodologia de investigação escolhida foi a de estudo de caso. Esta decisão
baseou-se no pressuposto de Yin (2009) de que questões do tipo "como", induzem
ao uso de estudos de caso.
Para esta etapa foi utilizado como método de recolha de dados, entrevistas com
especialistas e investigação em documentos.
A utilização de entrevistas suportou-se também nos pressupostos de Yin (2009)
de que estas além de fornecerem ao investigador percepções e interpretações
sobre o estudo, podem também sugerir fontes de investigação adicionais. De
acordo com este autor as entrevistas devem ser encaradas como relatórios
verbais e nesse sentido, estão sujeitas a preconceitos, falhas de memória do
entrevistado, e articulação fraca ou imprecisa, de que resulta a necessidade de
não se criar dependência de um informante chave único. Para esta investigação
foram realizadas dez entrevistas. A instituição e a formação dos respondentes
estão descritos no Quadro 1.
Quadro 1 - Instituição e formação dos entrevistados.
A consulta de documentos foi realizada antes e depois das entrevistas com os
especialistas, com o intuito de permitir a familiarização prévia do
investigador. De acordo com Yin (2009) os documentos podem ser cartas,
memorandos, relatórios de eventos, documentos administrativos, e recortes de
jornais ou outros artigos publicados nos media. Os pontos fortes deste tipo de
recolha de dados são a estabilidade, exactidão, ampla cobertura e discrição,
no sentido de que não foi produzida para o estudo de caso. Os pontos fracos
prendem-se com o facto da recolha poder ser tendenciosa se a selectividade não
for completa, do acesso poder ser negado e de que relatos possam refletir
idéias tendenciosas, desconhecidas do autor (Yin, 2009).
A análise realizada foi de conteúdo, que prevê três fases fundamentais
denominadas de pré-análise, descrição analítica e interpretação referencial
(Bardin, 1977). Para a análise destes dados foi utilizado o software NVivo
(NVivo qualitative data analysis software).
Evolução da investigação aplicada no INIA ao Agronegócio Orizícola Português
Fase 1: O INIA provedor da investigação agrícola aplicada para o sistema de
produção agrícola do arroz
Na década de 50 havia muitos centros de investigação agropecuárias, denominados
Estações Agronómicas (Enptalvar, 2010). Dedicada especificamente ao arroz,
existia a Comissão Reguladora do Comércio do Arroz que regulamentava os preços
e a investigação sobre o arroz. Esta comissão tinha a possibilidade de cobrar
um valor por cada quilo de arroz produzido em Portugal e financiar os trabalhos
de melhoramento, que era a linha de investigação mais importante para o arroz
na época (Enptalvar, 2010). Durante este período, Portugal foi um dos mais
importantes centros de melhoramento do arroz, o que gerou muitas variedades
novas para os agricultores portugueses (Enptalvar, 2010). Mas o INIA não
pesquisava somente na área de melhoramento. Outras áreas importantes foram os
fertilizantes, botânica, biologia e fisiologia, genética e citologia, pragas,
plantas nocivas, pesticidas e estudos económicos e sociais (Silva, 1984).
Simultaneamente a pesquisa funcionava em Salvaterra de Magos um centro de apoio
que divulgava a tecnologia desenvolvida (Enptjomu, 2010; Enptmarco, 2010).
Com a mudança de governo, em Abril de 1974 modificou-se o modelo
descentralizado de organização, tendo sido criado um único organismo, o
Instituto Nacional de Investigação Agrária (INIA). Neste período foram
contratados muitos investigadores. A descolonização portuguesa em África levou
à vinda dos investigadores de Angola e Moçambique que foram absorvidos por esta
nova instituição contribuindo para uma grande expansão da instituição,
fortalecendo-a. Neste período também foi criado o Ministério da Agricultura,
que previamente funcionava como uma secretaria do Ministério de Economia
(Enptalvar, 2010).
Fase 2: O INIA mínimo na investigação aplicada no sistema de produção agrícola
do arroz
Esta fase teve início com a entrada de Portugal na União Europeia ' U.E., em
1986. O cenário económico português era considerado de forte défice orçamental
e alta inflação (Enptalvar, 2010). A partir deste momento, iniciaram-se os
cortes no orçamento do INIA o que impossibilitou a renovação do quadro de
pessoal existente (Enptalvar, 2010). Esta fase começou com muitos fundos
comunitários que apoiavam os investigadores e os incentivavam a fazer parcerias
com as Escolas Superiores de Agronomia e com Institutos de Investigação. Esse
tipo de financiamento e apoio durou aproximadamente 10 anos paralelamente aos
da Fundação da Ciência e Tecnologia (Enptalvar, 2010).
No caso específico da investigação de arroz, a equipa de melhoramento perdeu os
seus dois principais investigadores que não foram substituídos, e por isso, foi
interrompida a investigação em melhoramento no final da década de 80
(Enptalvar, 2010). O INIA perdeu o relevo que detinha na investigação aplicada
ao arroz e os agricultores e as indústrias começam a importar variedades. O
Centro de Apoio a Investigação de Arroz em Salvaterra de Magos foi privatizado
e deu origem ao Centro de Orizicultura, mantendo o Estado uma posição de
supervisão (Enptjomu, 2010).
A entrada na U.E. colocou o agronegócio orizícola português num contexto de
maior concorrência de preços e a análise que se fazia era de que Portugal era
pouco competitivo, pois apresentava preços internos muito superiores aos preços
médios da União Europeia (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e
das Pescas, 2007). Para compensar esta menor competitividade e considerando a
importância da cultura do arroz para Portugal, o arroz foi incluído no sistema
de transição de preços (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e
das Pescas, 2007). Em Dezembro de 1990 foi publicado o Regulamento (CEE) n.
3653/90, que previa disposições transitórias relativas ao arroz em Portugal.
Este regulamento previu a concessão de uma compensação, que consistia numa
ajuda directa e específica para os produtores de cereais portugueses, paga por
quantidade produzida e colocada no mercado, co-financiada em 75% pelo orçamento
da CEE e 25% pelo orçamento nacional português, denominada ajuda co-financiada,
permitindo assegurar a descida dos preços dos cereais em Portugal para o nível
dos preços comuns e que funcionou até 2002 (Ministério da Agricultura do
Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
Portugal, inserido na Comunidade dos Económica Europeia (CEE), começou a
conviver com os reflexos da alteração da Política Agrícola Comum - PAC, que
ocorreu em 1992 e que teve origem no acordo da Organização Mundial do Comércio
(OMC), obtido em 1986, no Uruguai. Esta mudança tornou o agronegócio orizícola
Português mais concorrido.
A reforma de 1992 instituiu um regime comum de apoio aos cereais, oleaginosas e
proteaginosas ' COP que incluiu o arroz e assentou em três princípios
fundamentais (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas,
2007):
· redução do apoio via preços: os preços de intervenção dos cereais foram
simplificados e unificados num único preço e reduzidos em aproximadamente, um
terço;
· pagamentos compensatórios: a fim de compensar a redução ou a supressão dos
preços de intervenção, foram definidos com base nos rendimentos históricos
regionais, pagamentos específicos por hectare, concedidos directamente aos
produtores;
· instrumentos de gestão da oferta: baseada na fixação permanente da superfície
elegível para pagamentos compensatórios, em áreas de base que não podem ser
superadas e na obrigação dos produtores retirarem de produção uma parte das
suas terras elegíveis. A taxa de retirada de terras tornou-se o principal
instrumento de gestão da oferta, sendo adaptada em todas as campanhas de
comercialização em resposta à situação de mercado.
Com esta reforma verificou-se uma mudança no tipo de subsídios recebidos pelos
produtores, menos dependente do preço de intervenção e mais dependente dos
subsídios vinculados à área semeada. Apesar desta mudança a avaliação é de que
o resultado económico da propriedade agrícola aumentou (Ministério da
Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007). Entretanto, os
produtores e por conseqüência a indústria viu limitada a possibilidade de maior
rentabilidade económica pelo aumento da área plantada, ficando sujeitos aos
preços de mercado pela redução dos preços institucionais, limitando o ganho de
escala ao aumento de produtividade.
As condições de solo e água também não permitem aumentos significativos. Com
estas restrições de recursos naturais é possível chegar ao máximo de 27.000 ha,
enquanto nos anos de seca estão permitidos apenas 23.000ha ou 24.000 ha, para
manter as barragens cheias, o que compromete a irrigação (Enptalvar, 2010).
Este novo modelo introduzido pela reforma, com ênfase nos subsídios baseados na
área plantada estipulada, desencadeou um sentido crítico na opinião pública
principalmente pela imagem "pouca amiga" do ambiente da produção agrícola. A
produção de cereais continuou a aumentar enquanto o consumo interno está
sujeito a influências adversas, e as exportações estão limitadas pelo Acordo
Agrícola da OMC resultante da reviravolta da OMC no Uruguai (Ministério da
Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
Em 2003 (Quadro 2), uma nova reforma da PAC foi aprovada pelo Conselho de
Ministros da Agricultura da U.E e que afectou fortemente o agronegócio do arroz
português. Neste sentido, o principal aspecto de mudança traduziu-se na descida
do preço de intervenção do arroz que passou de 298,35 €/t para 150 €/t, em
paralelo com um limite máximo de entregas de intervenção: 100 000 t em 2004 e
75 000 t a partir de 2005.
Quadro 2 - Principais mudanças entre as reformas da PAC de 2000 e 2003.
Para compensar os produtores de arroz pela descida dos preços de intervenção
foi concedido um aumento da ajuda de superfície, de 318.53 €/ha para 453.75 €/
ha. As superfícies máximas garantidas sofreram uma redução para a média das
áreas cultivadas no período de referência, sendo atribuída a Portugal uma
superfície de 24 667 ha. Qualquer ultrapassagem implica uma diminuição
proporcional da ajuda específica (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento
Rural e das Pescas, 2007).
Neste contexto, a maioria dos subsídios passou a ser concedida através de um
pagamento único por exploração, independente do volume de produção e
condicionado ao respeito pelas normas ambientais, de segurança alimentar, de
saúde animal e vegetal e de bem-estar dos animais. Esta nova regulamentação
orientou o agronegócio orizícola português para um contexto mais amigo do
ambiente.
Na óptica do agricultor, as relações com o ambiente podem ser avaliadas numa
perspectiva restritiva, de que a mais importante são as normas da
condicionalidade, de carácter obrigatório ou numa perspectiva voluntária,
normalmente sob a forma de contratualização de determinado tipo de práticas
amigas do ambiente, de que as mais importantes são as medidas agro-ambientais
(Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
As medidas mais restritivas ou de condicionalidade, consistem num conjunto de
exigências estabelecidas, inicialmente, para as ajudas incluídas no regime de
prêmio único. Este quadro de exigências, afecta as explorações agrícolas tanto
pela redução das ajudas diretas, quer pela própria elegibilidade às ajudas
diretas, a qual, tal como estabelecido no n.º 1 do artigo 4.º da Portaria n.º
1202/2004, está dependente do cumprimento das boas práticas agrícolas e
ambientais (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas,
2007).
As medidas voluntárias ou agro-ambientais constituem-se como um conjunto
complexo de medidas, com níveis de ajudas variáveis em função da região e /ou
da dimensão da exploração, e com níveis de adesão diferenciados. Trata-se de
compromissos com a duração de cinco anos com o propósito de obter os resultados
positivos esperados em termos ambientais (Ministério da Agricultura do
Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
Uma análise possível é de que a existência de uma grande adesão a estas medidas
poderá traduzir-se em benefícios vários, além dos ambientais, e que residem no
reconhecimento duma "qualidade industrial" pelo utilizador da matéria-prima e/
ou consumidor final, na constituição de uma maior relação de confiança por
parte dos consumidores, desde que cumpridas e incentivadas as regras de
rastreabilidade e rotulagem (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural
e das Pescas, 2007).
O preço de intervenção para os estados não membros da União Europeia foi
reduzido em 50%. Esta alteração significou uma diminuição da protecção externa
do agronegócio orizícola português. Ocorreram também alterações no regime de
importação, em particular para os fornecedores mais importantes, EUA e a
Tailândia, traduzidas na diminuição dos direitos de importação e no
estreitamento do diferencial dos direitos de importação entre as formas de
arroz em película e branco. Os direitos de importação são revistos
semestralmente, em função dos volumes importados, tem variado entre 30, 45 ou
65 €/t para o arroz em película e 145 a 175 €/t para o arroz branco (Ministério
da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
Estas mudanças permitiram às grandes redes de supermercado fazerem parte das
suas compras de arroz diretamente a indústrias estrangeiras, possibilitando-
lhes vender arroz importado mais barato do que a indústria portuguesa (Enptvi,
2010). Esta situação está patente no aumento das importações de arroz, com
crescimento superior no arroz branco em prejuízo do arroz em película,
conseqüência do ajustamento no regime comercial com países terceiros.
Relativamente às variedades, entre os dois triênios em análise, verifica-se um
aumento continuado das importações de Indica (+19%) e uma redução (-25%) nas
importações de variedades Japonica (sub-espécie de arroz produzida em
Portugal). Em termos relativos, as importações de Indica correspondem a 80%. Em
números absolutos, as importações chegaram a 81 000 t/ano no triênio 2003/05,
um aumento em volume de 6% face ao triênio anterior, com base essencialmente
num acréscimo de 17% nas importações de países terceiros, em oposição a um
decréscimo de 6% das importações de origem dos países da União Europeia
(Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
Outro desdobramento dessa política foi um incentivo para a alteração na
preferência pelo arroz Carolino para o Agulha (Enptjovi, 2010), situação que
tem persistido. Esta evidência é corroborada pela indústria que:
[...] está a verificar-se hoje a transferência do consumo do Carolino para o
Agulha, ou seja, hoje há uma valorização maior do Agulha do que do Carolino,
entretanto, no passado, era o contrário, havia uma tendência maior do consumo
do Carolino e menos do Agulha (Enptjovi, 2010).
Além disso, as pesquisas de mercado (Quadro 3) também mostram a maior
participação do arroz Indica (Agulha) polido nos anos de 2009 e 2010 em relação
ao arroz polido Carolino.
Quadro 3 - Pesquisa de mercado sobre o tipo de consumo de arroz em Portugal.
Quanto às novas formas de consumo de arroz, os dados disponibilizados indicam
que estas estão actualmente em torno de 10%.
Uma explicação possível para este fenómeno está relacionada com a maior
dificuldade de confecção do arroz Carolino. De acordo com (Enptalvar, 2010):
[...] se deixarmos o arroz Carolino cozer 10 minutos ele ainda se come bem, se
deixarmos cozer 20 minutos fica em papa e não pode ir ao microondas que não
resolve o problema". Acrescenta-se ainda que "a dona de casa agora prefere, o
arroz agulha, porque é mais fácil de cozinhar.
Esta opinião é partilhada por outro entrevistado que diz que:
[...] agora muitos preferem os Agulhas aos Carolinos, porque é muito mais
fácil de cozinhar e aproveita-se na totalidade, porque depois vai ao
microondas e se sobrar alguma coisa, o arroz fica sempre solto. No caso dos
Carolinos é um arroz com outras características, muito mais saboroso do que os
agulhas, mas que se não for bem cozinhado, aglomera e perde apresentação ao ser
reaquecido (Enptvi, 2010).
Este novo contexto tornou-se mais complexo pela dificuldade em produzir arroz
Indica (Agulha) de qualidade em Portugal. Só é possível obter arroz Indica na
zona de Alcácer, que tem um clima mais favorável, no entanto não é de boa
qualidade (Enptalvar, 2010). Quando se compara a qualidade arroz Indica
produzido em Portugal com o arroz importado as referências são de que "o agulha
nacional" não se compara aos agulhas das Guianas ou do Suriname, não se compara
rigorosamente nada" (Enptvi, 2010).
Além dos aspectos qualitativos adiciona-se que é muito mais barato e fácil para
a indústria operacionalizar o arroz Indica importado (Enptvi, 2010). O que se
justifica pelo facto de que quando se importa o arroz Indica, importa-se uma
variedade única, que permite operacionalizar uma grande quantidade de arroz em
pouco tempo, ao contrário do arroz português, de que se recebe muitas
variedades, o que implica muitos armazéns, exige muito mais tempo, além de
maiores custos de transporte, tornando toda a operação mais cara por tonelada
comprada (Enptvi, 2010).
A tendência de liberalização de importações deve manter-se face aos acordos
multilaterais em andamento da União Europeia na Organização Mundial do Comércio
- OMC, com os Países Menos Avançados (PMA) e com o Mercado Comum do Sul
(MERCOSUL), com tendência a crescer. As negociações em curso da Agenda de Doha,
interrompidas desde Julho de 2006, poderão vir a implicar ajustamentos
consideráveis no sector de arroz de acordo com as propostas submetidas pelos
principais blocos negociais. Apesar das incertezas subjacentes às actuais
negociações, é praticamente certa a eliminação das restituições a partir de
2013, fruto de decisão, ainda que condicionada, tomada durante o VI Conferência
Ministerial da OMC (Hong-Kong, Dezembro 2005). Entretanto, em conseqüência da
reforma da PAC de 2003, se as negociações fecharem, não são esperadas grandes
dificuldades de ajustamento ao nível das ajudas aos agricultores. Contudo,
espera-se uma redução significativa ao nível do acesso aos mercados (direitos
de importação), tomando como referência as reduções médias de direitos de
importação apresentadas durante as negociações, e que oscilam entre os 39 e os
66% que tornarão inevitavelmente o mercado comunitário mais permeável a
importações de países terceiros, o que não deixará de acarretar dificuldades
acrescidas de competitividade face à previsível maior concorrência externa
(Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
A negociação da U.E. em 2001 com os 48 países menos avançados (PMA), resultou
num compromisso comercial EBA - Everything But Arms (Ministério da Agricultura
do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007) que permite a exportação para a
União Europeia de todos os produtos, incluindo produtos agrícolas, entre os
quais o arroz, sem direitos de importação, excluindo-se apenas o comércio de
armas (Ministério Da Agricultura Do Desenvolvimento Rural E Das Pescas, 2007).
A negociação do Acordo Inter-regional de Associação entre a UE com o Mercosul
(Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e, mais recentemente, Venezuela) está
agora a ser retomada. Em termos comerciais, o objectivo do acordo contempla a
criação de uma zona de comércio livre entre os dois blocos comerciais grandes
produtores mundiais: Brasil e Argentina (Ministério da Agricultura do
Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007).
Actualmente, quando se analisa a possibilidade de competição do agricultor
português com o mercado internacional, a avaliação é de que não consegue
competir com o mercado mundial (Enptjomu, 2010). Este entrevistado referiu que
há sempre um país que consegue exportar arroz para Portugal a um custo menor,
nem que isso implique em faltar o produto no país exportador (Enptjomu, 2010).
O entrevistado argumenta que em Portugal há muitas exigências de qualidade,
compromissos com a segurança social, etc., que não existem na maior parte dos
países exportadores (Enptjomu, 2010). Nesta mesma direção, um segundo
entrevistado diz que Portugal só poderá competir em qualidade e na diferença,
porque o custo dos outros será sempre menor do que o produzido em Portugal
(Enptoti, 2010).
A aplicação da PAC em Portugal foi determinante para a evolução do agronegócio
orizícola e traduziu-se numa alteração profunda da forma como a União Europeia
apóia a agricultura comunitária. Excluíndo as ajudas agro-ambientais é possível
inferir que os agricultores portugueses enfrentam, pela primeira vez, um
enquadramento muito menos orientador e regulamentador e mais determinado pelas
regras do mercado (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das
Pescas, 2007).
Esta última análise também é compartilhada por um dos entrevistados que diz que
com a nova medida os agricultores ficaram muito mais suscetíveis às oscilações
do preço do arroz no mercado. Cita por exemplo, que no 1º ano os produtores
venderam a sua produção por 175 euros, entretanto os factores de produção
estavam mais baixos. Depois disso, o preço dos adubos, dos combustíveis e da
água subiu. O adubo quase duplicou de preço, os pesticidas e os herbicidas, a
semente também subiu o que criou um impacto na rentabilidade dos produtores
(Enptalvar, 2010). Os custos de produção superaram a facturação produzida por
um hectare de produção de arroz, isso sem adicionar os subsídios, entretanto
considerando estes últimos a margem é positiva (Ministério da Agricultura do
Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007). Neste sentido um entrevistado cita
que actualmente o preço mínimo do arroz teria que ser 300 euros por tonelada,
lembrando que há poucos anos atrás, os agricultores recebiam 400 euros
(Enptalvar, 2010).
Estas mudanças também aumentaram os riscos da indústria na aquisição da
matéria-prima. Um dos entrevistados explica que a indústria compra o arroz
produzido em Portugal e que será comercializado ao longo do ano no período
compreendido entre Setembro e o início de Dezembro. A indústria necessita
comprar o arroz nestes meses porque o agricultor português quer fixar o preço e
não quer arriscar possíveis oscilações de preços ao longo do ano (Enptalvar,
2010). Há excepções, pois alguns agricultores entregam o arroz sem preço e
definem o preço mais tarde. Pelo fato da compra ser concentrada, a indústria
compra toda a produção nacional portuguesa, a um preço praticamente único
(Enptalvar, 2010). Uma outra pequena variação também ocorre porque o arroz é
avaliado pela qualidade (Enptdio, 2010).
Para ilustrar os problemas que os agricultores poderiam ter, caso não
definissem o preço de venda no período de Setembro a Dezembro, um dos
entrevistados cita o exemplo dos agricultores espanhóis.
Por exemplo, em Espanha, em Setembro de 2008, o arroz estava a 400, no mercado
internacional subiu para 800 euros. Os espanhóis pediram à indústria espanhola
500 e eles não quiseram e foram comprar a outro lado. Depois, em Agosto de
2009, os agricultores tiveram de se sujeitar e vender ao preço dele, a 200. É
um risco (Enptalvar, 2010).
Por outro lado, se o agricultor português não quer correr riscos, é a indústria
que corre todo o risco da negociação uma vez que desconhece o preço de mercado
ao longo do ano (Enptalvar, 2010).
Essa situação cria um problema para valorizar o preço pago ao agricultor, pois
a indústria estabelece um preço, normalmente baixo, para minimizar os riscos de
baixa dos preços no mercado ao longo do ano. Mas há produtores que possuem
capacidade de armazenamento e secagem e que querem negociar baseados nos preços
internacionais. Um dos entrevistados relata que já presenciou discussões onde
os agricultores pediam às industrias que acompanhassem os preços da bolsa de
cereais italianas, mas sem resultado (Enptalvar, 2010).
Mesmo procurando minimizar os riscos, a indústria já teve problemas com este
sistema de compras. Há dois anos a indústria portuguesa comprou o arroz a 400
€/t, porque uma indústria, ligada a uma multinacional italiana, comprou o arroz
para mandar para Itália e fez subir muito o preço do arroz em Portugal. As
demais indústrias tiveram de acompanhar o preço dessa indústria, se não ficavam
sem comprar arroz nacional. Ao longo do ano, o mercado não comportou este preço
e a indústria teve que vender o arroz beneficiado quase ao preço do arroz em
casca que tinham comprado o que causou grandes prejuízos às indústrias
portuguesas (Enptalvar, 2010).
Neste mesmo período, outro fenómeno que paralelamente começou a ganhar
importância em Portugal e causou maior pressão sobre os preços para as
indústrias e produtores, foi a concentração das grandes redes de supermercados.
Esse fenómeno cresceu sem parar até aos dias de hoje e tem possibilitado a
estas redes exercerem grande força contratual, pressionando as indústriais do
arroz a baixar os seus preços de venda e por conseqüência os dos produtores
(Enptdio, 2010). Actualmente há três grandes grupos retalhistas em Portugal que
juntos possuem 80% da participação e que impõe um preço às indústrias sob pena
de deixarem de vender os seus produtos (Enptalvar, 2010). Considerando que o
arroz é um bem essencial, com baixas margens de lucro, uma pequena diferença no
preço pode ser muito significativa para todo o agronegócio (Enptalvar, 2010).
Um exemplo desta força é a força contratual que estas redes possuem ao dizer
que estas cobram "tanto pelo espaço, tanto pelo local onde está o produto, se é
ali à frente, se é um bocado mais abaixo e tudo isso é pago a peso de ouro"
(Enptdio, 2010).
Este comportamento impositivo não considera as necessidades dos demais elos da
fileira do arroz para uma acção mais coordenada de interesse mútuo.
[...] a indústria é obrigada a baixar os preços porque os grandes supermercados
são os grandes ditadores neste momento e ainda por cima como o gestor de
compras do supermercado não percebe nada do que está a fazer, no sentido de que
lhes dizem: você só pode pagar 50 e por muito que o outro lado lhe explique por
A+B que não pode ser 50, que não chega, ele cumpre, segue as ordens, nem sequer
vai dizer ao chefe olha que não pode ser, se receberam ordens para dar 50, dão
50 e se receberem ordens para dar 30, dão 30, agora isto tem de se perceber que
não pode ser, estar a dizer eu dou 30 porque me apetece, tem de haver uma
lógica (Enptalvar, 2010).
Este tipo de comportamento revela a necessidade de que o estado interfira
nestas relações para o bem de toda a fileira.
[...] é preciso regulamentar o poder negocial que essas grandes empresas detêm,
ou seja, o estado não pode continuar a permitir que essas empresas sejam
autênticos ditadores porque para eles, como o arroz é um produto que se vende
muito, eles não querem o arroz caro, não percebem que se um café custa 50
cêntimos, ou 60 e eu bebo dois ou três por dia porque não hei-de dar um euro
por 1 kg de arroz, mesmo que eu consuma 17 kg por ano? (Enptalvar, 2010).
Fase 3: O INIA incentivador da coordenação da fileira e agregação de valor no
arroz
Em 2003, existia um consenso entre os produtores e empresários de que a
investigação em arroz realizada pelo INIA não conseguia contribuir para a
solução dos problemas presentes no contexto da fileira do arroz. Argumentava-se
que o trabalho de melhoramento que foi feito até a década de noventa estava a
perder-se. As variedades continuavam, mas não se fazia mais nada praticamente
na investigação em arroz em Portugal (Enptjomu, 2010; Enptmarco, 2010). Outro
argumento que se apresentava era a impossibilidade dos elos da fileira do arroz
evoluírem de maneira independente. Neste sentido, um entrevistado diz que:
A indústria é muito dependente da agricultura e a agricultura da indústria.
Vamos ter de conviver, aliás, isto é um fenómeno que se vai dar no mundo
inteiro. Historicamente nós dizíamos que não tínhamos nada a ver com a
agricultura, cada um por si, de fato é um erro, um erro crasso (Enptmarco,
2010).
Com base nestes argumentos dos produtores e empresários, o INIA extinguiu o
Centro de Orizicultura e mobilizou estes e outros recursos disponíveis e os
interessados para dar início a uma nova fase da investigação (Enptjomu, 2010).
Foi criado o Centro Operativo e Tecnológico do Arroz - Cotarroz em que
participam todos os agentes da fileira, onde a agricultura e a indústria são a
base e tem 70% dos votos e os 30% restantes são divididos pelas empresas de
investigação; de serviços; comerciantes de adubos; o Instituto de Agronomia; as
universidades e as associações de irrigação (Enptjomu, 2010).
O objectivo geral do centro é a promoção do desenvolvimento da fileira
orizícola especialmente através da investigação aplicada, melhoria do nível de
conhecimentos no sector, aprofundamento da cooperação e parceria e da
dignificação e qualificação dos agentes e produtos (Cotarroz, 2010).
Este objectivo surge com base no pressuposto de que entre os membros da fileira
do arroz é preciso agregar valor ao arroz Carolino produzido em Portugal:
[...] não podemos continuar em Portugal a vender arroz a 70, 60, 50 cêntimos,
senão o produtor não consegue sobreviver. É preciso apostar em variedade e
qualidade, fazer um arroz Carolino muito bom, de qualidade, para vender, por
exemplo, a 1,5€ mas fazer perceber ao consumidor que vale a pena pagar esse
valor (Enptalvar, 2010).
[...] devemos valorizar aquilo que é nosso, aquilo que dá trabalho aos nossos,
que dá trabalho ao mercado nacional, e nesse sentido devemos comprar aquilo que
é nosso, não vamos dar dinheiro, temos que fazer o dinheiro girar, pelo menos
essa é a minha opinião, fazer o dinheiro girar dentro do nosso país e não ir a
outros países (Enptalvar, 2010)
A partir desta mudança, o INIA conseguiu realocar recursos para reiniciar o
programa de melhoramento junto do Cotarroz. Nomeou um investigador da
instituição para fazer melhoramento em arroz. O inicio do trabalho também
contou com o apoio de investigadoras do Instituto de Tecnologia Química e
Biológica ' ITQB. A investigação começou com a sementeira de 1400 linhas para
ver o comportamento de cada uma das variedades, se tinham interesse comercial,
identificando algumas com boa qualidade para serem progenitores, outras com
características interessantes que podem ser essenciais. No Cotarroz também são
desenvolvidas técnicas culturais, selecção de herbicidas e estudos de densidade
de semeadura (Enptalvar, 2010).
O programa de melhoramento já existe há seis anos sem nenhuma variedade nova e
outros seis serão necessários para lançar alguma variedade, entretanto a
avaliação parcial é de que há muitas linhas promissoras (Enptjomu, 2010). Este
programa de melhoramento é financiado com fundos próprios do Cotarroz oriundos
da comercialização do arroz proveniente da lavoura de 40 ha. A receita do
Cotarroz também é utilizada para o pagamento dos funcionários do Centro
(Enptjomu, 2010), pois nos últimos 3 a 4 anos os fundos de investigação
comunitária terminaram e a Fundação de Ciência e Tecnologia Portuguesa está
mais interessada na medicina e na biotecnologia e na tecnologia de ponta,
desvalorizando a agricultura. O entendimento político é que se não existir
arroz nacional importa-se, esquecendo-se de que quando não houver produto no
mercado internacional o país poderá sofrer de escassez (Enptjomu, 2010).
Sobre as limitações de financiamento para a investigação, o entendimento é de:
Neste momento o financiamento da investigação em Portugal baseia-se na
aprovação de projectos. Durante muitos anos havia fundos comunitários que nos
apoiavam e nos incentivavam a fazer parcerias com as escolas superiores e
Institutos e com as Direções Regionais de Agricultura e o sector privado. Há
aproximadamente 10 anos existiram financiamentos desse tipo além do
financiamento da Fundação da Ciência e Tecnologia. O problema é que esta
parcela que era a maior que financiava os nossos trabalhos acabou há 3 ou 4
anos e desde essa altura não tem havido financiamentos, não só para a este
instituto, mas em toda a área agrícola [...] (Enptalvar, 2010).
É necessário um esforço para explicar aos governantes que a actividade de
investigação agrícola precisa de mais recursos (Enptalvar, 2010). A falta de
recursos reduz as possibilidades de trabalhar mais com biotecnologia associada
ao melhoramento do arroz em mais larga escala, o que poderia acelerar o
programa de melhoramento (Enptsone, 2010).
O Cotarroz deveria evoluir para uma organização interprofissional, podendo
começar a cobrar uma taxa para financiar a investigação científica aplicada e
campanhas de divulgação necessárias e aplicadas ao agronegócio do arroz
(Enptalvar, 2010). A dificuldade está na atual política da União Europeia para
criação das organizações interprofissionais, que é de difícil
operacionalização. As actuais associações de agricultores e cooperativas que
apoiam os agricultores a comprar e a vender arroz, não podem ser sócias duma
organização interprofissional, pois numa organização deste tipo só podem
participar organizações sem actividade comercial e representativas do sector, o
que dificulta a implementação da norma (Enptalvar, 2010).
Além das estratégias de coordenação da fileira, investigação e difusão em
melhoramento vegetal e em manipulação da cultura, há necessidade de definir com
mais precisão o que é a variedade Carolino, divulgar o arroz Carolino através
de campanhas de mar-keting, vender variedades únicas de arroz Carolino,
divulgar práticas ambientais na produção agrícola e agregar valor através das
práticas ambientais industriais.
Actualmente a legislação define a variedade Carolino, com base no comprimento e
largura do grão. Esta definição não reflecte as características de qualidade do
arroz produzido em Portugal, o que tem dificultado a possibilidade de agregar
mais valor ao arroz (Enptalvar, 2010; Enptcarbr, 2010). Por exemplo, os
agricultores portugueses plantam uma variedade denominada Albatroz, que se
analisada à luz da legislação em vigor, não tem um comportamento uniforme.
Quando analisada quimicamente a quantidade de amilose é constante e
caracteriza-se por ser do tipo Japonica (Carolino) (Enptalvar, 2010). No
entanto, em determinados ambientes, existe falta de conformidade com a
legislação no que respeita à biometria.
Outro exemplo da ineficácia da legislação está na possibilidade de outros
países produzirem e exportarem arroz com as dimensões previstas na lei que
caracterizam o Carolino. O Uruguai, a Grécia e França produzem arroz com as
dimensões previstas na lei que caracterizam o Carolino e que até foram
comprados como tal para responder ao mercado nacional (Enptalvar, 2010).
As campanhas de marketing para divulgar o arroz Carolino devem passar por
explicar aos consumidores, que as receitas tradicionais portuguesas, como por
exemplo, de arroz doce ou arroz de marisco são melhores com o arroz Carolino.
É preciso ensinar a cozinhar o arroz Carolino que tem um modo de cozedura
diferente para não empapar (Enptalvar, 2010). Outro argumento é de que a
cozinha tradicional portuguesa é uma cozinha que normalmente inclui molhos e
normalmente as pessoas usavam o Carolino porque é o arroz nacional e porque
adquire o sabor dos cozinhados e isso é preciso explicar (Enptdio, 2010). Uma
ressalva se faz é de que o sucesso só será alcançado se o produto português
alcançar uma qualidade Premium (Enptcarbr, 2010)
A estratégia de vender variedades únicas de arroz Carolino resulta da
constatação que dentro do grupo de Carolino há variedades que cozinham em 5
min. e outras em 10 min. e se estiverem todas juntas não há um padrão de
cozimento. (Enptalvar, 2010). Entretanto para se ter uma variedade única no
pacote, os processos pós-colheita devem melhorar, principalmente na propriedade
agrícola. Deve haver cuidados na colheita, transporte, secagem e armazenamento
para que não ocorram misturas nestes processos. É preciso limpar as
graneleiras, camiões e secadores evitando restos de outras variedades (Enptdio,
2010). Um entrevistado sugere que estes processos poderiam ser incluídos nos
processos actuais de certificação existentes (EnPtDio, 2010). Esta é uma
estratégia que já começa a ser implantada pela associação de produtores
Orivárzea, entretanto avalia-se como será difícil ampliar esta estratégia. Uma
possibilidade seria as empresas começarem a pagar um acréscimo pelas variedades
que mais lhe interessam (Enptalvar, 2010). Ainda sobre esta estratégia, julga-
se necessário comunicar bem para que se tenha sucesso, já que o consumidor de
arroz ainda não conhece bem os benefícios que poderia ter em cozinhar um arroz
monovarietal (Enptdio, 2010).
Outra estratégia que precisa ser desenvolvida é a divulgação das práticas
ambientais na produção agrícola, que cada vez mais vem sendo valorizado pelos
consumidores (Enptjomu, 2010). Há vários programas incentivados pela Direcção
Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural ' DGDAR, como produção integrada,
proteção integrada, redução da lixiviação de agrotóxicos para aqüíferos,
semeadura direta (Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das
Pescas, 2007). Os agricultores cada vez estão mais informados, muitos já têm
estudos de nível superior, já sabem a justificação dos produtos utilizam, como
e quando os devem utilizar (Enptdio, 2010).
A estratégia de divulgação das práticas ambientais na produção agrícola soma-se
às exigências dos consumidores em termos de higiene e segurança alimentar nas
indústrias. Estas normas referem-se ao facto do arroz estar isento de pedras,
de metais, etc., assim como com a segurança da indústria, do produto e com as
garantias que esse alimento dá ao consumidor (Enptdio, 2010).
A outra estratégia que precisa ser melhor desenvolvida é a de reconhecimento
da Indicação Geográfica Protegida (IGP). Portugal possui 3 regiões geográficas,
circundantes dos estuários dos rios Sado, Tejo e Mondego, com capacidade e
especificidade para classificação de IGP. Uma delas, a do Tejo já foi
reconhecida e corresponde ao arroz Carolino de lezírias ribatejanas (EnptcarBr,
2010).
Outra estratégia pode passar por promover visitas de estudo de crianças e
jovens à Cotarroz para conhecerem noções básicas de agricultura. Se
perguntarmos a uma criança da cidade como é que se faz o arroz, esta dirá que é
como uma massa preparada, desconhecem que é uma semente. Esta estratégia seria
complementada com a história do arroz Carolino. Entende-se que muitas pessoas
não valorizam o arroz português porque não sabem a sua origem (Enptjomu, 2010).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados indicaram a presença de três fases no desenvolvimento da
investigação em arroz no INIA (Quadro 4). Estes resultados, em termos teóricos,
contribuem como uma primeira aplicação da Teoria Micro-meso-macro no campo dos
agronegócios para a compreensão da dinâmica de organizações de investigação.
Esta contribuição dá-se pela identificação da dinâmica de elementos da teoria:
regras genéricas, distúrbios (Quadro 4) e regras de ordem zero (Quadro 5). Em
termos pragmáticos, estes resultados contribuem para a tomada de decisões para
todas as organizações envolvidas no agronegócio orizícola português, bem como
para o desenvolvimento de políticas públicas.
Quadro 4 - Síntese da descrição das regras genéricas, distúrbios e estratégias
ligadas às fases de evolução da investigação do arroz no INIA, Portugal.
Quadro 5 - Síntese da descrição das regras de ordem zero ligadas às fases de
evolução da investigação do arroz no INIA de Portugal.
A limitação da investigação está na aplicação de apenas parte dos conceitos da
teoria. Esta limitação remete a um conjunto de perguntas que ficam por
responder, como: quais os factores internos à organização que contribuem para a
evolução das regras genéricas e suas estratégias associadas? Como estes
factores internos e externos poderiam ser classificados? Como os factores
internos e externos se configuraram na evolução das regras genéricas? Como é a
freqüência de adopção das regras genéricas no INIA? Espera-se que respondendo a
estas perguntas seja possível avançar na aplicação da teoria e trazer novos
contributos