Agricultura sustentável III: Indicadores
INTRODUÇÃO
Os indicadores de sustentabilidade são importantes instrumentos de avaliação da
sustentabilidade, quer isolados quer combinados e condensados em forma de
índices quer ainda utilizados de forma estruturada, através dos modelos de
avaliação de sustentabilidade.
O procedimento realizado para a identificação dos indicadores bem como a sua
forma de medição tem induzido a questões relevantes, colocando em risco o valor
obtido e a avaliação da sustentabilidade desenvolvida. Neste sentido,
apresentam-se, neste trabalho, algumas considerações relativas à definição e
objectivos dos indicadores; suas categorias; problemas mais comuns no uso e
selecção dos mesmos; e principais critérios para a selecção de indicadores de
sustentabilidade. Na parte final, acrescenta-se, a título de exemplo, uma
matriz de indicadores passíveis de serem utilizados no contexto de avaliação da
sustentabilidade no sector agro-pecuário, bem como os procedimentos para a sua
mensuração.
INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE: BREVES CONSIDERAÇÕES
Um indicador de sustentabilidade constitui um instrumento que permite, a partir
da sua interpretação, definir a condição de um sistema como sustentável ou não.
Ele é apenas uma medida, cuja avaliação evidencia se o limite, estabelecido de
acordo com os valores e objectivos que regem uma determinada realidade, foi
ultrapassado ou respeitado (Marzall, 1999). Não obstante à simplicidade desta
noção, verifica-se, tal como ocorre sob a problemática dos conceitos de
sustentabilidade e agricultura sustentável, a inexistência de uma definição
universal para o termo indicador. No Quadro 1 encontram-se reunidos alguns dos
significados atribuídos ao termo.
Quadro 1 ' Algumas definições de indicadores de sustentabilidade.
Como indicadores de sustentabilidade, estes devem reflectir a integração do
desenvolvimento social, ambiental e económico bem como a sua inter-relação. A
extensão de indicadores sociais observou-se durante a década de sessenta. No
fim dos anos oitenta, os governos do Canadá e Holanda iniciaram o
desenvolvimento de indicadores ambientais. Os indicadores económicos já existem
há algumas décadas, mas demonstraram-se insuficientes quando da determinação do
bem-estar social ou do nível de desenvolvimento dos povos. Foi na década de
noventa que se verificou um grande impulso na ampliação de indicadores nas mais
diversas áreas relacionadas com o desenvolvimento das sociedades, resultante da
acentuada preocupação com a avaliação da sustentabilidade (Marzall, 1999).
Masera et al. (2000) referem que o desenvolvimento de indicadores é uma
tentativa válida para a identificação de critérios adequados sobre os aspectos
principais que conferem ou não sustentabilidade aos sistemas de produção. Isto
significa, de acordo com Navarro (2002), que o indicador deve ser assumido
conscientemente pelo agricultor como ponto-chave importante na gestão do seu
sistema de exploração. Também num documento da Direcção Geral do Ambiente (DGA,
2000) é referido que os indicadores de desenvolvimento sustentável são,
presentemente, não apenas necessários, mas indispensáveis para fundamentar as
tomadas de decisão aos mais diversos níveis e nas mais diversas áreas. A
informação é assim mais facilmente utilizável por decisores, gestores,
políticos, grupos de interesse ou público em geral.
Estabelecer indicadores, especialmente a nível de explorações agrárias,
apresenta outras vantagens. Pérez (2002) indica a melhor definição de políticas
de âmbito local; a avaliação das consequências de muitos processos que afectam
o ambiente; e a possibilidade de examinar os ecossistemas desde uma perspectiva
local até ao global.
Os indicadores podem, assim, apresentar distintas utilidades, como a
investigação básica ou como instrumentos para a aplicação de políticas agrárias
ou, simplesmente, para gerar pontos de reflexão e servir como instrumentos de
tomada de decisão do próprio agricultor e sua família (Navarro, 2002). Nesse
sentido, podem distinguir-se, de acordo com a sua utilidade, diversas
categorias de indicadores como as que se apresentam no Quadro 2.
Quadro 2 ' Tipo de indicadores.
Cada um dos vários tipos de indicadores apresentam vantagens e desvantagens,
dependendo das circunstâncias em que eles se inserem. Por exemplo, identificam-
se metodologias para a avaliação da sustentabilidade baseadas em indicadores
que apresentam dois procedimentos distintos quanto à selecção dos mesmos.
Existem umas cujos indicadores já se encontram previamente definidos,
resultando num quadro rígido. Noutras abordagens metodológicas aqueles são
definidos de acordo com a realidade e o problema a avaliar. Esta situação
apresenta vantagens, por um lado, e inconvenientes por outro, para a avaliação
da sustentabilidade. O último procedimento apresenta a vantagem de que os
indicadores podem ser adaptados ao problema, à área geográfica, às questões
sócio-económicas, à realidade em estudo, nas suas diversas dimensões, como
defendem Müller (1996) e López-Ridaura et al. (2002). Isto porque não existem
indicadores universais, mas estes devem ser ajustados às necessidades de
informação que pressupõem as decisões que os indicadores devem apoiar. Como
cada sistema é único, os critérios e indicadores que lhe são específicos podem
ser, ou não, relevantes para todos os casos. Van Cauwenbergh et al. (2007)
acrescentam que as estruturas podem modificar-se no tempo, quando o
conhecimento científico aumenta e os valores sociais e preocupações evoluem,
originando a necessidade de indicadores diferentes. Por outro lado, não
existindo indicadores previamente definidos, a sua identificação acentua,
obviamente, o carácter subjectivo da selecção e, portanto, da avaliação da
sustentabilidade. Para ultrapassar esta lacuna, Masera et al. (2000) propõem
que a selecção de indicadores deve ser realizada por uma equipa
multidisciplinar, baseada na selecção participativa dos envolvidos na
avaliação.
Ressalva-se, no entanto, que nem tudo o que venha a influenciar a
sustentabilidade é um bom indicador. Além disso, os indicadores descrevem um
processo específico e são particulares a esses processos e, por isso, não há um
conjunto de indicadores globais adaptáveis a qualquer realidade. Eles devem
reflectir o objectivo dos seus propósitos. Por isso, é fundamental participar
na sua construção (Deponti et al., 2002). Para que a escolha de indicadores
seja coerente com os propósitos da avaliação, é necessário ter clareza sobre:
' O que avaliar? Como avaliar? Por quanto tempo avaliar? Por que avaliar?
' De que elementos consta a avaliação?
' De que maneira serão expostos, integrados e aplicados os resultados da
avaliação para o melhoramento do perfil dos sistemas analisados?
A clareza quanto a estes aspectos é fundamental, pois são eles que devem
orientar a definição quanto ao tipo de indicador recomendado, para a
monitorização do objecto proposto (Deponti et al., 2002). Como é referido no
documento da DGA (2000), a utilização de indicadores é importante para resumir
a informação de carácter técnico e científico na forma original ou bruta,
permitindo transmiti-la numa forma sintética, preservando o essencial dos dados
originais e utilizando apenas as variáveis que melhor servem os objectivos e
não todas as que podem ser medidas ou analisadas.
Os problemas mais comuns ou dificuldades que se associam ao uso ou construção
dos indicadores são resumidas nos pontos seguintes, baseados em Marzall (1999):
' Adições ou omissões: muitas vezes os indicadores seleccionados não reflectem
alguns dos aspectos que se querem avaliar, surgindo o impulso de adicionar mais
alguns à avaliação. Como consequência, o sistema de indicadores pode não
cumprir a sua principal função - simplificar a comunicação. Estes casos, cheios
de detalhes, só fazem sentido para os peritos e não para a comunidade geral;
' Restauração do balanço: é importante não só rever a selecção de indicadores,
como também a construção de todo o seu sistema. Um erro bastante cometido é
enfatizar algumas questões, relativamente às restantes. Se, por exemplo, os
indicadores se relacionam fundamentalmente com o ambiente, no final, estes
aspectos dominarão os resultados. Por isso, é importante estar-se consciente da
necessidade de equilíbrio ou balanço, também em termos de indicadores;
' Definição de indicadores de sustentabilidade: limitada pela lacuna existente
na precisão da noção de sustentabilidade. É a definição do que é a
sustentabilidade que vai determinar o que é importante ser medido, como avaliar
e o significado dos valores obtidos. A ausência de consenso quanto à estrutura
conceptual impede, consequentemente, a existência de consenso quanto à
definição de indicadores. A constatação da complexidade, inerente à realidade,
também pode dificultar a definição de indicadores. Ao considerar-se as
diferentes dimensões da realidade e as suas interacções, a determinação de
indicadores não é a mais imediata, pois aqueles sinais que facilmente se
deduziam de uma interpretação monodisciplinar já não são suficientes;
' Dificuldades de interpretação: as medidas de um parâmetro de um sistema podem
indicar mudanças no sistema, mas explicar as suas causas é, frequentemente, um
exercício especulativo.
Atendendo ao conjunto de problemas aqui expostos, e tendo por base a consulta
da literatura da especialidade, apresenta-se o Quadro 3 onde estão reunidas
algumas características importantes a ter em conta na definição de indicadores.
Quadro 3 ' Critérios para a selecção de indicadores de sustentabilidade.
Os indicadores a seleccionar devem, assim, apresentar cuidados específicos que
permitam que os mesmos apresentem significado, tenham aplicação, sendo o
processo de interpretação um aspecto fundamental à avaliação da
sustentabilidade. Isto porque a medida indicada pelo indicador poderá ser
considerada positiva, negativa ou neutra, de acordo com a sua interpretação.
Neste sentido, para uma correcta acepção do resultado obtido, Marzall (1999)
defende que, previamente à sua monitorização, há que decidir os seguintes
aspectos:
' Definição da base conceptual, isto é, definir o que se entende por
sustentabilidade, que deve ser determinada pela apreensão teórica que se tem do
mundo;
' Definição da escala de interpretação do indicador, com o seu intervalo de
tolerância e limites mínimo e máximo aceitáveis, e os valores que serão
considerados negativos, sendo a determinação desses valores específica para
cada situação avaliada;
' Definição da escala que deverá ser analisada, isto é, do limite do sistema,
bem como definição do usuário a quem a avaliação está destinada.
A forma de medição do indicador é também importante. No documento da DGA (2000)
são identificados três grupos de indicadores, de acordo com o procedimento
utilizado para a sua monitorização: (I) uma fracção considerável dos
indicadores adoptam metodologias testadas e consensuais, susceptíveis de
conduzir à sua determinação; (II) uma parte menos assinalável utilizam
metodologias capazes de adaptação e ajuste metodológico; (III) finalmente, para
uma pequena parte dos indicadores, a metodologia usada para a sua determinação,
embora não se encontre testada, julga-se passível de validação através de
processos geradores de consenso. Outro grupo de indicadores, poder-se-á
acrescentar, cuja forma de medição ou de obtenção de informação poderá suscitar
dúvidas, podendo não ser aceite cientificamente ou induzir a interpretações
erróneas.
INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE PARA O SECTOR AGRO-PECUÁRIO
O Quadro 4 apresenta uma listagem de indicadores/índices estratégicos para a
avaliação da sustentabilidade dos sistemas inseridos no sector agro-pecuário,
organizados por critérios de diagnóstico e estes por atributos de
sustentabilidade. Os atributos são propriedades inerentes aos sistemas que
servem de guia para a análise dos seus aspectos relevantes. Os critérios de
diagnóstico consistem num nível mais detalhado dos atributos, sendo o ponto
intermédio entre atributos e indicadores (Masera et al., 2000).
Quadro 4 ' Critérios de diagnóstico, indicadores e índices estratégicos para a
avaliação da sustentabilidade dos sistemas agro-pecuários, por áreas de
avaliação ambiental (A), económica (E) e social (S).
O quadro de indicadores apresentado resulta da constatação de um conjunto de
pontos críticos que influenciam a sustentabilidade das explorações do
respectivo sector, em Portugal, contemplando, ainda, indicadores definidos em
diversas abordagens metodológicas para a avaliação da sustentabilidade,
encontradas na literatura da especialidade, mostrando, ser assim, um quadro-
resumo de indicadores globais, ajustável à realidade em estudo e esclarecedor
da temática em análise.
Um quadro-resumo permite ter uma visão do conjunto de avaliação, identificar
possíveis inter-relações entre os critérios de diagnóstico e os indicadores das
diferentes áreas e tomar uma decisão final sobre a possibilidade de simplificar
a análise ou de incluir algum outro indicador na avaliação. Ter uma visão do
conjunto garante, ainda, que a avaliação tem coberto todos os pontos críticos
do sistema e os atributos gerais de sustentabilidade (Masera et al., 2000).
Reuniram-se dezanove indicadores/índices ambientais; vinte económicos; e treze
relativos à dimensão social, que totalizam cinquenta e dois indicadores/
índices, agrupados em catorze critérios de diagnóstico, referentes as cinco
conjuntos de atributos de sustentabilidade. Classificaram-se como indicadores/
índices económicos os parâmetros que se destinam a avaliar a rendibilidade
económica dos sistemas em análise, ou que a influenciam directamente. Os
indicadores/índices ambientais são aqueles que proporcionam a informação sobre
a capacidade dos sistemas e das estratégias propostas para serem ambientalmente
produtivos e sustentáveis. Finalmente, os indicadores/índices sociais englobam
as questões relativas à caracterização da sociedade em estudo. Estes últimos
foram incorporados de forma mais fragmentada, porque lhes está associado o
problema de serem, na generalidade, do tipo qualitativo e difíceis de definir
com certa precisão, como já indicado por outros autores (Masera et al., 2000).
Com efeito, os indicadores sociais estão muito menos trabalhados na literatura
agrária que os indicadores económicos e ambientais.
Os diversos critérios de diagnóstico seleccionados expõem-se e justificam-se de
seguida, apresentando-se, em anexo, os métodos seguidos para a medição dos
indicadores/índices. Note-se, no entanto, que não é intenção, com esta
apresentação de indicadores/índices, fornecer um conjunto fechado e definitivo.
Pelo contrário, à semelhança do indicado em documentos diversos sobre esta
temática (DGA, 2000), procura criar-se uma plataforma estruturada de
ferramentas metodológicas que permitam integrar eventuais sugestões e
aperfeiçoamentos, provenientes das diferentes áreas de conhecimento, bem como
tirar partido das vantagens deste tipo de abordagem. Ou seja, pretende criar-se
uma matriz de indicadores global e dinâmica, ajustável à realidade em estudo.
A ' Atributo de Produtividade/Rendibilidade
A Produtividade/Rendibilidade' é a capacidade do sistema em gerar bens e
serviços requeridos num determinado período de tempo (Masera et al., 2000).
i. critério de diagnóstico ' eficiência:A eficiência dos sistemas de
exploração pretende diagnosticar a relação existente entre os resultados
obtidos e os recursos consumidos, bem como alguns factores inerentes que estão
na origem daquela relação. A estimativa da eficiência' é útil para a gestão de
uma empresa, na medida que ajuda na decisão de como melhorar o desempenho ou
introduzir novas tecnologias para aumentar, com racionalidade, a produção;
permite identificar o desnível entre o potencial e o actual nível de produção;
é útil para fins estratégicos, através da comparação com outras empresas; é
importante para fins tácticos, permitindo controlar o desempenho da empresa
pelos resultados obtidos; e é relevante para fins de planeamento, através da
comparação dos resultados do uso de diferentes combinações de factores
(Kalirajan, 1982).
B ' Atributo de Estabilidade/Resiliência/Confiança
A Estabilidade' é a capacidade do sistema em manter um estado de equilíbrio
dinâmico estável, o que implica que seja possível manter os benefícios
proporcionados pelos sistemas num nível não decrescente ao longo do tempo, sob
condições médias ou normais. A Resiliência' é a capacidade do sistema
regressar ao estado de equilíbrio ou manter o seu potencial produtivo, após
submetido a um choque severo. A Confiança' é a capacidade do sistema em manter
a produtividade em níveis próximos ao seu equilíbrio quando em face de
distúrbios no ambiente geral. Devido à estreita ligação entre os três atributos
e pelo facto de muitos indicadores serem comuns à avaliação de cada um deles,
optou-se por agrupar os atributos referidos (Masera et al., 2000).
ii. critério de diagnóstico ' extensificação/intensificação:O incentivo à
extensificação tem vindo a ser defendido em medidas de política várias, devido
às consequências ambientais e económicas que lhe estão inerentes. Aos níveis
mais intensivos associam-se efeitos mais prejudiciais no ambiente e nos
próprios animais, pois o sobrencabeçamento é considerado como factor de
poluição, de compactação do solo e de mau-estar animal (em oposição ao bem-
estar).
iii. critério de diagnóstico ' conservação de recursos naturais: A agricultura
é uma actividade económica que se caracteriza por um processo produtivo que
depende do ciclo da natureza, mas que o influencia ao utilizar um vasto leque
de elementos livremente existentes no ambiente, ao submeter à exploração
espécies vegetais e animais e ao recorrer a um conjunto de processos naturais
que envolvem o aproveitamento da energia solar e do ciclo hidrológico. Deste
modo, a agricultura utiliza como factores de produção um conjunto de recursos
que lhe são essenciais: o solo, a água, o ar e o património genético. Estes
recursos não existem de forma ilimitada na Natureza e vão-se extinguindo a um
ritmo acelerado. Por outro lado, são essenciais a todos os processos que
sustentam as formas de vida na Terra e são, portanto, determinantes para o
equilíbrio e qualidade do meio em que vivemos. Protegê-los é não só uma
condição para a viabilidade técnica e económica da actividade agrária, mas
também, uma forma de garantir a prazo a qualidade ambiental que nos é essencial
(Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e Pescas - MADRP, 2000).
iv. critério de diagnóstico ' diversidade:A diversidade de espécies, de raças e
das actividades produtivas é uma característica intrínseca à sustentabilidade,
por razões várias. Por um lado, é uma forma de reduzir o risco (económico)
associado a cada uma das actividades isoladas. Por outro, trata-se de um
contributo para a preservação da biodiversidade vegetal e animal, sendo a perda
de biodiversidade, a nível dos ecossistemas, espécies e genes, preocupante não
só devido ao importante valor intrínseco da natureza, como também por ter como
resultado um declínio nos serviços ecossistémicos que os sistemas naturais
proporcionam (Comissão das Comunidades Europeias - CCE, 2006). Aliás, a
diversidade de espécies e de práticas agrárias, tais como a associação de
culturas, sistemas de rotação, entre outros, são defendidas e incentivadas por
diversas medidas, como é o caso da agricultura biológica, uma vez que diminui
os riscos de ataque de pragas, doenças e ervas infestantes, além de aumentar a
fertilidade do solo e melhorar a fertilização das culturas (Ferreira et al.,
2002). Para além disso, a multifuncionalidade da exploração, base da
biodiversidade da mesma, tem sido identificada em documentos vários da
Comunidade Europeia como sendo uma característica a preservar e a disseminar no
sentido da sustentabilidade da exploração, do sistema e da região. Neste
contexto, a preocupação com as questões relativas à biodiversidade faz parte
integrante do desenvolvimento sustentável e está subjacente à competitividade,
crescimento, emprego e bem-estar na União Europeia (CCE, 2006).
v. critério de diagnóstico ' vulnerabilidade do sistema: (des)motivação dos
agricultores:Sem agricultores não há sistema de produção agro-pecuário.
Identificar e quantificar os principais factores que (des)motivam a
continuidade da adopção destes sistemas pelos respectivos agricultores revela-
se fundamental para a sustentabilidade do sector.
C ' Atributo de Adaptabilidade
A Adaptabilidade' é a capacidade de encontrar novos níveis de equilíbrio
quando em face de alterações de longo prazo no ambiente (Masera et al., 2000).
vi. critério de diagnóstico ' restrições agro-ecológicas e sócio-económicas:As
condições de exploração reveladas pelo nível de encabeçamento adoptado devem
encontrar-se adaptadas às restrições agro-ecológicas e sócio-económicas reais,
bem como ao aparelho de produção existente, no sentido de um equilíbrio
sustentável.
vii. critério de diagnóstico ' capacidade de alteração e inovação:Verifica-se
uma capacidade distinta da evolução dos diferentes sistemas agro-pecuários no
sentido da alteração e inovação dos mesmos, com vista à passagem de uma
economia de subsistência para uma economia de mercado, aptidão esta que
contribui para a sustentabilidade dos mesmos.
viii. critério de diagnóstico ' capacidade de aprendizagem:O nível de instrução
dos agricultores bem como os cursos de formação profissional realizados por
estes são factores que afectam a capacidade dos mesmos na adaptação a novas
realidades. O baixo ou nulo valor destes indicadores constituem fortes
obstáculos à capacidade de aprendizagem, essencial para a adaptabilidade de um
sistema às condições reais.
ix. critério de diagnóstico ' informação sobre o sector:A informação que um
agricultor obtém sobre o sector onde se insere é factor preponderante para a
análise e planeamento das suas actividades (em qualidade e quantidade), tarefas
essenciais para uma correcta gestão das suas actividades e sua adaptação à
realidade.
D ' Atributo de Equidade
A Equidade' é a capacidade de distribuir de maneira justa, tanto intra como
inter-geracionalmente, os benefícios e custos relativos à gestão dos recursos
naturais (Masera et al., 2000).
x. critério de diagnóstico ' distribuição de custos e/ou benefícios:Os custos e
os benefícios ambientais, económicos e sociais devem ser distribuídos
equitamente entre o agricultor, sua família e sociedade geral, para uma real
acepção do conceito de sustentabilidade.
xi. critério de diagnóstico ' participação social (situação de emprego):As
diferentes necessidades em mão-de-obra, bem com a disponibilidade existente
deste factor de produção e as condições remuneratórias verificadas afectam a
sustentabilidade dos sistemas de exploração, sendo importantes de conhecer para
avaliar a participação social no sistema.
E ' Atributo de Autonomia
A Autonomia' é a capacidade do sistema em regular e controlar as interacções
com o exterior, definindo endogenamente os seus objectivos, prioridades,
identidade e valores (Masera et al., 2000).
xii. critério de diagnóstico ' autosuficiência:A autosuficiência é a capacidade
dos sistemas se manterem sem recorrer ao exterior, propriedade esta
indispensável à sustentabilidade dos mesmos.
xiii. critério de diagnóstico ' organização:A organização e/ou cooperação entre
produtores tem-se mostrado um aspecto-chave para o reforço da competitividade
dos vários produtos finais dos sistemas. Um agricultor devidamente inserido no
sector em que se enquadra, que pertence a uma organização que o represente
condignamente, retira, entre outros, benefícios económicos, no sentido do
reforço da competitividade dos produtos e melhoria da organização da cadeia
comercial, do maior poder reivindicativo por melhores remunerações e condições
de trabalho.
xiv. critério de diagnóstico ' acesso a recursos:O acesso a recursos ou
possibilidade de aplicação dos mesmos em actividades alternativas ao sistema,
pode induzir a baixos níveis de autonomia, com as consequentes faltas de
adaptação ou inovação nos sistemas em análise.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os elementos recolhidos relativos à identificação, selecção e mensuração dos
indicadores de sustentabilidade revelam um conjunto de aspectos principais, que
analisados à luz de várias metodologias onde estes têm sido aplicados
(nomeadamente Müller, 1996; Masera et al., 2000; Reinsch, 2001; SOLAGRO, 2002;
Vergne, 2003; Häni et al., 2007; Van Cauwenbergh et al., 2007; Vilain, 2008),
permitem a enumeração das seguintes conclusões:
' Número demasiado elevado de indicadores ' existem, a nível internacional, uma
infinidade de indicadores de sustentabilidade, que é corroborada pelo número
demasiado elevado de metodologias para a avaliação da sustentabilidade2. No
entanto, um número elevado de indicadores pode não significar uma avaliação da
sustentabilidade mais fiável;
' Indicadores-base comuns e indicadores-diferenciados ' nos vários estudos
consultados verificam-se, na generalidade, um conjunto de indicadores-base que
lhes são comuns, diferenciando-se outro conjunto de indicadores específicos da
problemática em questão;
' .Muitos critérios de selecção de indicadores ' há um conjunto de critérios e
de cuidados aos quais se deve obedecer para a selecção de indicadores. Todavia,
a possibilidade da sua mensuração e o facto do indicador traduzir a
problemática em estudo são, na generalidade, os critérios preteríveis para a
sua selecção, levando à ocorrência de ínumeros problemas posteriores com o uso
dos mesmos;
' Carácter duvidoso dos indicadores' apesar de todos os critérios e cuidados
aos quais se deve obedecer para a selecção de indicadores, verificam-se, na
generalidade, situações duvidosas quanto à veracidade da informação colectada
ou mensurada ou traduzida pelo indicador para a avaliação da sustentabilidade.
Estas dúvidas constituem uma extensão da ausência de consenso quanto à
estrutura conceptual de sustentabilidade, agricultura sustentável e indicadores
de sustentabilidade;
' Metodologias instituídas e únicas para a mensuração de indicadores ' apesar
do procedimento realizado para a recolha de informação e mensuração ou
monitorização dos indicadores de sustentabilidade poder acarretar problemas a
nível da sua interpretação e do valor obtido, como relatados em vários
documentos, verificam-se metodologias quase pré-estabelecidas para a medição
dos diversos tipos de indicadores, mesmo quando a validade científica das
mesmas é colocada em risco. A utilização de inquéritos aos agricultores, por
exemplo, é a situação mais usual, e nalguns casos única, para recolha de
informação, apesar de todos os seus inconvenientes, devido à ausência quase
generalizada de quaisquer tipo de registos da actividade agrária.
Tendo em atenção as considerações alcançadas e avançadas com a temática dos
indicadores de sustentabilidade, apresentou-se, neste trabalho, um quadro de
indicadores de sustentabilidade para o sector agro-pecuário que resulta da
constatação de um conjunto de pontos críticos que influenciam a
sustentabilidade das explorações do respectivo sector, em Portugal,
contemplando, ainda, através da consulta de literatura da especialidade,
indicadores definidos nas diversas abordagens metodológicas para a avaliação da
sustentabilidade, quer do tipo indicadores-rígidos quer do tipo indicadores-
ajustados à realidade, mostrando, ser assim, um quadro-resumo de indicadores
global e dinâmico, ajustável à realidade em estudo, e esclarecedor da temática
em análise.