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Representação em texto

EuPTCVAg0871-018X2010000100038

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0871-018X
ano2010
Issue0001
Article number00038

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Disponibilidade de Cu, Pb e Zn nas áreas mineiras de Canal Caveira e São Domingos - Faixa Piritosa Ibérica

INTRODUÇÃO A contínua actividade mineira na Faixa Piritosa Ibérica (FPI), em algumas áreas desde o período pré-romano, contribuiu para a degradação ambiental dessas áreas com a disposição no terreno de extensas escom­breiras, em grande parte despidas de vegeta­ção, que contêm concentrações elevadas de elementos contaminantes. A influência des­tes materiais nas águas e solos das áreas de exploração e sua envolvente traduz-se na possível contaminação destes meios. Actualmente, a maioria das minas da FPI estão abandonadas e apresentam elevados níveis de perigosidade ambiental (Oliveira et al., 2002; Matos & Martins, 2006).

Embora o valor máximo admissível esta­belecido, por várias organizações interna­cionais, para cada metal/metalóide seja baseado na concentração total do elemento no solo este, nem sempre é o mais correcto indicador da perigosidade que representam para o meio. De facto, a concentração total do elemento pode não corresponder àquela que na realidade está disponível para ser absorvida pelos organismos, não sendo por isso susceptível de provocar toxicidade e afectar a biodiversidade (Pichtel & Salt, 1998).

No solo os elementos distribuem-se pelas diferentes fases constituintes; fase líquida (em solução), ou associados à fase sólida através de vários mecanismos, tais como adsorção (específica e/ou não específica), co-precipitação e complexação (Navas & Lindhorfer, 2003; Adriano et al., 2004). Os elementos vestigiais podem estar presentes no solo sob formas disponíveis para as plan­tas: solúveis na solução do solo e em posi­ção de troca associados a colóides inorgâni­cos e orgânicos (Alloway, 1990; Tavares et al., 2003). Porém, uma fracção importante da concentração total dos elementos pode estar, a curto ou médio prazo, numa forma não mobilizável, associada a fases sólidas (óxidos e hidróxidos de Fe, Al e Mn, etc.), formando complexos de superfície de esfera interna, ou sob forma quelatada, associados à matéria orgânica, ou ainda co- precipitados em fases sólidas pouco solúveis (Kabata-Pendias & Pendias, 2001; Adriano et al., 2004).

As extracções simples ou sequenciais dos elementos químicos nos solos usando solu­ções extractantes específicas é essencial para avaliar a distribuição dos mesmos nas várias fracções do solo (solúvel, complexo de troca, associada à matéria orgânica, aos óxidos de Fe e Mn e à fracção residual). Indirectamente, avalia-se o tipo de ligações químicas estabelecidas e consequentemente a potencial mobilidade e disponibilidade dos elementos em relação ao conteúdo total dos mesmos no solo (Armienta et al., 1996). Assim, a identificação das fases às quais os elementos no solo estão associados permite um melhor conhecimento dos processos geoquímicos envolvidos para a avaliação da sua potencial disponibilidade e indução de riscos no ambiente e na saúde pública (Kaa­salainen & Yli-Halla, 2003; Kabata-Pendias, 2004; Adriano et al., 2004).

O presente trabalho teve como objectivo avaliar a disponibilidade e a distribuição do Cu, Pb e Zn pelas diferentes fases suporte em solos das áreas mineiras de São Domin­gos e Canal Caveira, ambas na FPI.

MATERIAIS E MÉTODOS Área de Amostragem e Materiais As minas de São Domingos (concelho de Mértola) e Canal Caveira (concelho de Grândola), actualmente abandonadas, situam-se na FPI e foram exploradas desde os tempos pré-romanos e romanos. Na pri­meira, a actividade mineira iniciou-se com a extracção de Ag, Au e Cu a partir do gos­san. Posteriormente, nos séculos XIX e XX, a exploração incidiu nos sulfuretos maciços de cobre com teores elevados de As, Zn e Pb (Quental et al., 2002). Na mina de Canal Caveira, a exploração mais recente ocorreu, de forma irregular, de 1854 a 1919, na parte superficial das massas de sulfuretos. Poste­riormente, entre 1936 e 1970, a exploração baseou-se na produção de enxofre e ácido sulfúrico (Matos & Martins, 2006).

Devido à variabilidade dos materiais de escombreira seleccionaram-se duas áreas de amostragem na mina de São Domingos e uma área de amostragem na mina de Canal Caveira. Estas áreas foram subdivididas em três parcelas mais ou menos contíguas. Em cada parcela colheram-se amostras compó­sitas de solo (~ 20 cm de profundidade). Uma das áreas de São Domingos (parcelas SD1, SD2 e SD3) situa-se numa escombrei­ra constituída fundamentalmente por mate­riais de gossan e de rochas encaixantes. Os solos, colhidos na Primavera, são incipien­tes e desenvolveram-se sobre os materiais da escombreira. Nas outras parcelas de São Domingos (SD4, SD5 e SD6) colheram-se, no Outono, amostras de solos, também inci­pientes que se desenvolveram sobre mate­riais heterogéneos compostos por escórias, cinzas de pirite e materiais do gossan. As parcelas da mina de Canal Caveira (C1, C2 e C3) foram amostradas no Outono numa área com solos incipientes de granulometria muito grosseira e essencialmente desenvol­vidos sobre escórias modernas.

Métodos Os solos (fracção <2 mm) foram caracte­rizados fisica e quimicamente, usando as metodologias descritas em Póvoas & Barral (1992): pH em água na proporção 1:2,5 (m/v); análise granulométrica por crivagem e sedimentação de acordo com a Lei de Sto­kes; carbono orgânico por oxidação por via húmida; capacidade de troca catiónica (CTC) e catiões de troca pelo método do acetato de amónio a pH 7; azoto total pelo método de Kjeldahl; P e K assimiláveis pelo método de Egner-Riehm. Os óxidos de Fe e de Mn foram determinados, respectivamen­te, pelos métodos de De Endredy (1963) e de Chao (1972).

A determinação do Cu, Pb e Zn total dos solos (fracção <2 mm) foi realizada nos Laboratórios Actlabs no Canadá (Activation Laboratories, 2006), por espectrofotometria de emissão atómica por plasma acoplado indutivamente (ICP- EAS) após digestão ácida com HF, HClO4, HNO3 e HCl. A fracção disponível dos mesmos metais (solúvel em água e a fracção associada ao complexo de troca do solo) foi extraída com acetato de amónio 1 M (Schollenberger et al., 1945; Kabata-Pendias, 2004). Para determinar a fracção dos metais associada aos óxidos de Mn, óxidos de Fe e matéria orgânica realizou-se uma extracção química parcial, em modo paralelo ou também designada por extracção simples, respecti­vamente com cloridrato de hidroxilamina (Chao, 1972), reagente Tamm, sob radiação U.V. (De Endredy, 1963) e pirofosfato de sódio (Gommy, 1997). A fracção residual foi obtida por diferença entre o teor total dos metais e o somatório das respectivas con­centrações nas fases suporte anteriormente descritas. As soluções resultantes das extracções realizadas nas amostras SD1, SD2 e SD3 foram posteriormente analisadas por espectrofotometria de absorção atómica em chama (F-AAS) e em câmara de grafite (GF-AAS) enquanto que, as das restantes amostras foram analisadas por espectrofoto­metria de emissão por plasma induzido aco­plado a espectrometria de massa (ICP-MS).

A análise estatística dos resultados, nomeadamente as correlações bivariadas de Pearson para p<0,05 entre as várias fracções dos elementos químicos e as características físico-químicas dos solos, foi realizada no programa SPSS 16.0 para o Windows.

RESULTADOS E DISCUSSÃO As características dos solos de São Domingos e Canal Caveira constam do Quadro 1.

Quadro 1' Caracterização dos solos nas diferentes parcelas provenientes das áreas mineiras de São Domingos (SD) e de Canal Caveira (C).

Os solos amostrados em São Domingos apresentam maior heterogeneidade que os de Canal Caveira, devido à diversidade dos materiais originários dos solos.

Relativa­mente ao pH, em São Domingos observa­ram-se valores baixos (pH <5), devido a serem solos desenvolvidos sobre materiais que resultaram da oxidação da mineraliza­ção (gossan) ou de britados de pirite, contu­do o solo da parcela SD4 apresentou pH neutro. Este facto pode estar associado à existência, nesta parcela, de cinzas e escó­rias que fazem parte dos materiais de substrato do solo. Em Canal Caveira, os valores de pH dos solos (5,1 ' 6,2) são rela­tivamente superiores aos da maioria de São Domingos pois, os materiais originários foram fundamentalmente escórias e even­tualmente cinzas.

A capacidade de troca catiónica é média­baixa na maioria das parcelas de São Domingos (8,5 ' 17,0 cmolc kg-1) e relati­vamente alta na parcela SD4 e em Canal Caveira (SD4: 47,4 cmolc kg-1; C: 22,1 ' 28,8 cmolc kg-1) (Anónimo, 2000). Os valo­res mais altos de CTC devem estar relacio­nados com a mineralogia da fracção argilosa que será uma consequência dos materiais originários que, conforme referido, são mui­to semelhantes na parcela SD4 e em Canal Caveira. Estes materiais, essencialmente escórias e cinzas são também responsáveis pelos valores elevados do Ca e Mg de troca nestes solos.

Nutricionalmente os solos de ambas as áreas mineiras são pobres, com excepção dos solos da parcela SD4 e das parcelas de Canal Caveira relativamente ao P e K assi­miláveis (Anónimo, 2000), no entanto as plantas que crescem, fundamentalmente dos géneros Cistuse Ericanão evidencia­vam sinais exteriores de carências. Os solos de São Domingos apresentam concentra­ções elevadas de Fe, na forma de óxidos, em particular os desenvolvidos sobre materiais de gossan, o que está de acordo com os materiais de origem (produtos de oxidação dos sulfuretos da mineralização). As con­centrações de óxidos de Fe nas restantes parcelas de São Domingos e nas de Canal Caveira são relativamente semelhantes, variando entre 11,3 e 14,7 mg kg-1. Os solos de São Domingos são relativamente mais pobres em óxidos de Mn do que os de Canal Caveira (SD: 3 ' 304 mg Mn kg-1; C:760 ' 1631 mg Mn kg-1). Na Mina de São Domingos, e ainda em relação aos óxidos de Mn, os solos desenvolvidos sobre gossan(SD1 a SD3) apresentaram os teores mais baixos (<5,3 mg Mn kg-1), porém o solo da parcela SD4 apresenta um comportamento que se aproxima do dos solos de Canal Caveira.

Quanto à textura, os solos desen­volvidos sobre gossan(SD1 ' SD3) apre­sentam textura franco-argilosa, sendo os res­tantes solos da área de São Domingos de textura franco-arenosa. Os solos de Canal Caveira apresentam textura franca. De uma maneira geral, as diferenças existentes entre os solos das diferentes parcelas são resultan­tes dos materiais que lhes deram origem.

No Quadro 2 apresentam-se as concentra­ções totais e da fracção disponível do Cu, Pb e Zn nos solos das duas áreas mineiras e na Figura 1 estão representadas as percenta­gens relativamente ao total dos mesmos metais distribuídos pelas várias fracções do solo. Os solos apresentam teores totais em Cu, Pb e Zn elevados que ultrapassam, em regra, os valores máximos admissíveis pela legislação portuguesa (Quadro 2). São parti­cularmente elevados os valores de Pb em todas as amostras e os de Cu nos solos desenvolvidos sobre escórias ou cinzas de pirite (C1 ' C3 e SD4 ' SD6). Estes valores indicam a necessidade de intervenção nestas áreas com o objectivo da sua remediação.

Quadro 2' Concentrações totais e da fracção disponível (mg kg-1de peso seco) de Cu, Pb e Zn nos solos das diferentes parcelas das áreas mineiras de São Domingos (SD) e de Canal Caveira (C).

Figura 1 'Distribuição do Cu, Pb e Zn pelas fases suporte dos solos (residual, MO-matéria orgânica, Ox. Fe-óxidos de ferro, Ox. Mn-óxidos de manganês e disponível) da mina de São Domingos (SD) e de Canal Caveira (C).

A fracção disponível de Cu nos solos de ambas as minas não está correlacionada com o teor total e representa menos de 0,6 % da concentração total, estando este metal associado maioritariamente à fracção resi­dual (~50 % do total). Na parcela SD4, a distribuição do Cu pelas fases suporte do solo é diferente e indica, a médio prazo, maior risco ambiental, embora 0,02 % do total esteja disponível. Isto deve-se ao facto de 37 % do total de Cu estar associa­do à matéria orgânica (MO), não represen­tando risco imediato para os organismos, porém a mineralização da MO pode criar condições que levam à disponibilidade do elemento.

A fracção disponível de Pb nos solos de São Domingos (0,37 ' 19,98 mg kg-1), excepto na parcela SD4, é menor que nos de Canal Caveira porém, para ambas as áreas não existe correlação com o teor total do elemento. De maneira geral, parece existir baixo risco ambiental para o Pb em São Domingos devido à baixa disponibilidade do metal no solo relativamente ao teor total (<0,2 %). Contudo, o mesmo não se verifica na parcela SD4 (~21 % do Pb total) e em duas das parcelas de Canal Caveira (3 ' 4,5 % do Pb total). Em São Domingos este metal está maioritariamente associado à fracção residual (61 ' 85 % do teor total) contudo, em Canal Caveira cerca de 60 % do teor total do Pb está associado à MO, o que pode traduzir um potencial risco para o ecossistema aquando da decomposição da mesma. De facto, a variabilidade observada na associação do Pb à MO nas duas áreas mineiras (<1,68 % do teor total para São Domingos e ~60 % para Canal Caveira) parece relacionar-se com o conteúdo em MO (SD: r=0,45; C: r=0,88), podendo no caso de Canal Caveira ser uma fonte de dis­persão para o ambiente. Para ambas as áreas, a contribuição dos óxidos de Fe para a adsorção do Pb foi maior que a dos óxidos de Mn (14 ' 34 % do teor total nos Ox. Fe; 0,05 -10 % do teor total nos Ox. Mn), o que contraria Mckenzie (1980) quando refere que o Pb é mais adsorvido nos óxidos de Mn do que nos óxidos de Fe.

Embora os solos de São Domingos sejam muito heterogéneos em termos de concen­tração total de Zn este não se relaciona com a fracção disponível. No entanto, em Canal Caveira verificou-se uma forte correlação negativa entre esta fracção e o teor total (r=-0,96). A fracção disponível de Zn nos solos de São Domingos é menor que nos de Canal Caveira (São Domingos: 0,71-2,72 mg kg-1; Canal Caveira: 3,84-11,01 mg kg­1). O Zn está maioritariamente associado à fracção residual (42 ' 74 % do teor total) em ambas as áreas mineiras, excepto para a parcela SD4. Estes resultados estão de acor­do com os obtidos por Maskalland & Thornton (1998) e Kashem et al. (2007), para solos contaminados com Zn. Na parce­la SD4 da mina de São Domingos, as frac­ções associadas aos óxidos de Fe e à matéria orgânica atingem cada uma cerca de 40 % do teor total de Zn. Tal facto estará prova­velmente relacionado com o tipo de matéria orgânica presente neste solo e a consequente formação de complexos organo-metálicos com o Zn (Kashem et al., 2007). Esta frac­ção orgânica pode, como foi referido, ser mineralizada e libertar, a curto prazo os elementos metálicos para o meio (Zhang et al., 1997). Nos solos destas áreas mineiras, a fracção de Zn associada à matéria orgânica e aos óxidos de Mn relaciona-se (r~0,9) com as concentrações respectivas de matéria orgânica e óxidos de Mn.

CONCLUSÕES O conhecimento da disponibilidade dos elementos químicos vestigiais para os orga­nismos é o primeiro passo para uma imple­mentação eficiente de um programa de remediação de áreas contaminadas e da ava­liação do potencial de dispersão desses ele­mentos no meio. Os solos das áreas minei­ras de São Domingos e Canal Caveira apre­sentam, de uma maneira geral, teores totais em Cu, Pb e Zn elevados que ultrapassam os valores máximos admissíveis pela legis­lação portuguesa. Contudo, nestes solos o Cu e o Zn apresentam baixo risco ambiental (possível lixiviação e absorção pelos orga­nismos vivos) pois que estes elementos estão maioritariamente associados à fracção residual. Relativamente ao Pb apenas os solos de Canal Caveira podem, eventual­mente, apresentar risco ambiental pois este elemento está essencialmente associado à matéria orgânica.

Uma das parcelas de São Domingos (SD4) tem, para os três elemen­tos químicos, comportamento diferente de todos os outros solos. As diferenças obser­vadas na fracção disponível das áreas de amostragem parecem estar relacionadas com as características de cada solo e a con­sequente distribuição dos elementos pelas diferentes fases suporte.


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