A RENTABILIDADE DA BETERRABA SACARINA VS A AGRO-PECUÁRIA
NOS AÇORES
INTRODUÇÃO
Nos Açores a produção de beterraba
sacarina para fins industriais é exclusiva da
ilha de S. Miguel, onde se mantém desde há
cem anos. A produção de beterraba sacarina
ocupa áreas com altitude até 300 metros e
declives inferiores a 7%. Os solos tendem a
acidificar-se com o tempo, sendo necessário
realizar correcções. Sendo possível ter 3 tipos
de solos, solos de boa qualidade (SB), solos
ácidos (SA) e solos ácidos com correcção
(SACC). Ao longo do último século a área
mobilizada por ano variou entre 3000 hectares
na década de sessenta e 200 hectares actualmente, embora isso possa representar uma
mobilização efectiva de área agrícola três
vezes superior devido ao carácter rotativo da
cultura. A produtividade também é muito
variável podendo situar-se entre as 20 e as 90
toneladas por hectare.
A Sociedade de Industrias Agrícolas dos
Açores (SINAGA) é a empresa responsável
pela transformação da beterraba em açúcar.
Actualmente, da produção final de açúcar,
apoiada com importação de ramas de açúcar,
75% destina-se ao consumo regional enquanto
os restantes 25% são orientados para a
exportação. A competitividade da produção,
transformação e comercialização de beterraba
sacarina nos Açores depende de dois tipos de
factores externos à cadeia de valor. A jusante,
o mercado europeu e mundial do açúcar e os
regulamentos que os condicionam. A montante
os usos alternativos do solo agrícola com
aptidão para a cultura da beterraba sacarina.
Neste estudo pretende-se analisar apenas as
questões a montante da unidade fabril estimando a viabilidade económica da cultura da
beterraba sacarina na Ilha de São Miguel face à
actividade agro-pecuária. Para a sua realização
formula-se um modelo de programação linear
que resulta de acrescentar a cultura da beterraba
para vários tipos de solo e de maneio, ao modelo
desenvolvido para as explorações agro-pecuárias dos Açores por Silva (2001) e adaptado por
Calado (2003) para vários tipos de solos e
maneios. É assim possível não só perceber de
uma forma integrada os factores económicos,
políticos e ambientais que influenciaram o uso
do solo, mas também desenhar medidas
coerentes que influenciem a ocupação do solo
e a modificação da produção de beterraba
sacarina na Ilha de São Miguel.
CARACTERIZAÇÃO
Caracterização ambiental
A área agrícola total da Ilha de São Miguel
é 48 mil hectares. (Inquérito à Estrutura das
Explorações Agrícolas, 1997). Destes 4350
hectares são terra arável que se encontra
normalmente abaixo dos 300 metros de altitude
onde clima e os solos permitem a realização de
várias culturas. As culturas forrageiras como o
milho silagem são actualmente dominantes
(40% da área). A área restante é ocupada por
culturas agrícolas, frutícolas e hortícolas e
também por culturas industriais como o tabaco
e a beterraba sacarina.
A Figura 1 representa as áreas com
potencial produtivo para a cultura de beterraba.
As áreas foram calculadas segundo os
seguintes critérios: declive inferior a 7%, protecção face aos ventos dominantes, capacidade
de uso dos solos até 3 (altitude inferior a 300
metros e fora da malha urbana).
Caracterização tecnológica
O maneio geral da cultura envolve a
escolha da rotação, a preparação da sementeira, a escolha da variedade, a fertilização, o
controle de pragas e infestantes e a colheita.
As mais diversas práticas culturais têm sido
utilizadas com sucesso, devendo solos de
textura pesada sofrer mobilizações profundas.
A variedade de semente mais adequada é
escolhida em função de diferentes condicionalismos, nomeadamente clima, condições do
solo, práticas culturais e exigências de sementeira e colheita. A sementeira é a operação
cultural mais importante na produção de beterraba, pretende-se obter um rápido e simultâneo
desenvolvimento inicial das plantas, com
tamanho uniforme, e em bom estado sanitário.
Existem vários métodos de efectuar a sementeira, mas todos pretendem optimizar a relação
número de plantas/produção de açúcar por
hectare (Amaral,1978, Mahn et al. 2003).
Caracterização económica
Ao longo dos últimos cem anos a produção
de beterraba sacarina teve sempre alguma
importância na Ilha de S. Miguel (Figura 2).
No entanto essa importância foi mais
significativa entre o fim da II Grande Guerra e
os meados dos anos setenta, altura em que
produção de leite passou a ganhar um peso
marcante na Ilha e na maior parte das ilhas do
Açores. Na década de sessenta o número de
produtores de beterraba sacarina rondou os
10000 e a área mobilizada média foi de 3000
hectares (Figura 3). Todavia a partir da década
de oitenta e até à actualidade não só se verificou
uma redução acentuada da área (160 hectares e
100 produtores em 2002), como é patente uma
redução da produção média por hectare.
O grau de polarização, ou percentagem de
sacarose ronda os 13 graus, representando 66%
da produção total (Figura 4). Apenas 6% da
produção apresenta um grau superior a 13 %.
A integração da produção de Beterraba Sacarina
na cadeia de valor respectiva pode ser visualizada na Figura 5. A produção actual ocupa
apenas 200 hectares e pouco mais de 100
agricultores. A produção é totalmente utilizada
pela fábrica SINAGA para a produção de 10000
toneladas de Açúcar em respeito às quotas
reguladas pela Política Agrícola Comum. São
importadas 6500 toneladas de ramas de
beterraba por ano, uma vez que a produção local
não é suficiente. Por imposição regulamentar
não é possível importar rama de cana apesar de
o preço ser bastante mais baixo. Também não é
autorizado pelas entidade reguladoras importar
o total da matéria-prima para transformação
pois a produção local deve garantir 40% da
matéria-prima. A produção final de açúcar
destina-se ao consumo em São Miguel, nas
restantes Ilhas e no Continente. A beterraba para
além de fornecer a matéria-prima para as
indústrias do açúcar e do álcool, fornece ainda
subprodutos de valor forrageiro, com importância para a pecuária, actividade predominante
na Região.
Em termos de custos finais a produção terá
de ponderar a distância a que a parcela de
terreno se localiza relativamente a unidade
transformadora. Assim as aptidões edafo-climáticas relevadas pela Figura 1 têm de ser ponderadas pela distância à fábrica, obtendo-se o
mapa da Figura 6.
A capacidade produtiva do solo é limitada,
sendo necessário fazer rotações de forma a não
esgotar o solo. Assim o maneio geral faz
rotações de 3 ou 4 anos, em que as culturas
dominantes são a pastagem, e milho/outono
(forragem melhorada) /beterraba.
As Organizações Comuns de
Mercado (OCM) são as estruturas
criados pela PAC para regular cada
grupo de produtos afins, de forma
a assegurar a plena execução dos objectivos
definidos que assentam em três princípios que
são: a unicidade do mercado, a preferência
comunitária e a solidariedade financeira. Com
estes princípios pretende-se que sejam assegurados e garantidos os seguintes propósitos: um
nível de vida equitativo à população agrícola,
designadamente pelo aumento do rendimento
individual dos que trabalham na agricultura;
aumentar a produtividade da agricultura,
desenvolvendo o progresso técnico e humano;
estabilizar os mercados garantindo preços
razoáveis aos consumidores, assim como
garantir a segurança e qualidade dos abastecimentos.
Regulação do açúcar e regime de preços
O mercado do açúcar na UE é tradicionalmente excedentário, sendo regido por uma
organização comum de mercado desde 1968
que, em alternativa a um regime de intervenção, privilegia o escoamento dos excedentes
para fora do seu território. Sucessivas alterações foram sendo introduzidas reflectindo a
evolução do quadro económico e político da
UE.
A actual OCM do açúcar é regida pelo
regulamento (CE) nº 1260/2001, de 13 de Setembro de 1999, e que teve início na campanha
2001/2002, apresentando como principal
característica a garantia de preços, obtida
através de um regime de auto financiamento
para uma produção de açúcar (Quadro 1).
O montante total de quotas é 14,5 milhões
de toneladas para os 15 estados membros da
Comunidade. Com uma quota A de 82% e uma
quota B de 18%, sendo da competência de cada
Estado membro a distribuição das respectivas
quotas A e B por cada empresa de transformação situada no seu território. Quota A –
corresponde à procura interna Comunitária. A
Quota A dos Açores é de 9,048 toneladas
(Quadro 2). Os Estados Membros podem
efectuar transferências de quotas A e B entre
empresas. Podem reduzir a sua quota em 10%,
para além de poderem reportar as quotas de
uma campanha para a seguinte.
A Figura 7 sistematiza os problemas da
Cadeia de Valor da Beterraba dos Açores. O
problema principal é a redução das vantagens
na produção, transformação e distribuição de
Beterraba Sacarina face à agro-pecuária e a
elevada dependência da competitividade
externa da cadeia de valor da Política Agrícola
Comum em constante revisão. A perda de
competitividade face à agro – pecuária é patente
na redução do número de produtores, e da área
de produção, e é devida à perda de produtividade devido ao esgotamento dos solos, à
concorrência da pecuária pelos solos produtivos
e também às dificuldades da colheita e falta de
correcção dos solos em parcelas pequenas,
dispersas e, por vezes, distantes da fábrica. A
elevada dependência da Política Agrícola
Comum é problemática devido à sua instabilidade e não sustentabilidade. Documentos
recentes das autoridades agrícolas europeias
(IP/03/1286- Bruxelas Setembro de 2003)
apontaram a análise de cenários bastante perturbadores do actual enquadramento da produção,
transformação e distribuição de beterraba. Estes
condicionalismos implicam o subaproveitamento da estrutura e do equipamento da fábrica
que, estando localizada no centro de Ponta
Delgada, fica naturalmente mais vulnerável às
pressões urbanas que se verificam naquela
cidade. Nesta perspectiva os condicionalismos
ao desenvolvimento da produção, transformação e distribuição de beterraba nos Açores
não resultam apenas da competição com outros
usos alternativos do solo num ambiente de
política sectorial fortemente instável mas
também da orientação da economia dos Açores
para os serviços e para o Turismo, o que implica uma menor disponibilidade de recursos
humanos e financeiros para as actividades mais
orientadas para a agricultura.
DIAGNÓSTICO
OBJECTIVOS E ESTRATÉGIA
Os objectivos resultam do confronto dos
problemas com as capacidades. Tendo em
atenção as capacidades do sistema de produção
e colheita os objectivos da cadeia de valor da
beterraba e os cenários que os enquadram
ficam mais claros. Pelo Quadro Lógico apresentado na Figura 8 o objectivo é melhorar a
competitividade da produção, transformação
e distribuição de beterraba através de um
melhor desempenho no sistema de cultura e
pela mobilização de solos mais produtivos. Isto
admitindo que se mantém o enquadramento
de mercado não só da cadeia de valor da
beterraba mas também dos usos alternativos
do solo nomeadamente a agro-pecuária, a
floresta e o uso urbano.
No entanto, estes objectivos e hipóteses de
carácter geral levantam uma série de questões
que importa abordar neste estudo.
- Que margens da beterraba e do leite, fortemente condicionadas pela Política Agrícola Comum, garantem a manutenção e
crescimento da produção de beterraba?
-Que produtividade da terra, fortemente
influenciados pela consultoria técnica,
garantem a manutenção e crescimento da
produção de beterraba dos Açores?
-E finalmente, que estratégia aconselhar
face ao cenário mais provável de preços
da beterraba e do leite, face às produtividades previsíveis de um solo melhorado e
face à evolução previsível da Economia
dos Açores traduzível também no custo da
terra e da mão-de-obra.
METODOLOGIA
Para responder às três questões apresentadas acima formula-se, calibra-se e testa-se um
modelo de programação linear que traduz a
estratégia de optimização do uso do solo por
parte dos agricultores face a diferentes cenários de preços de produtos e de factores e ainda
face a diferentes maneios e produtividades.
Uma vez formulado, calibrado e testado o
modelo, é possível não só perceber de uma
forma integrada os factores económicos, políticos e ambientais que influenciaram a evolução
do uso do solo ao longo da última década mas
também perspectivar o uso futuro desse solo
para diferentes cenários de preços dos produtos
e dos factores bem como disponibilidades de
terra e de mão-de-obra especializada.
FORMULAÇÃO, CALIBRAÇÃO E
ANÁLISE DE SENSIBILIDADE DO
MODELO
Formulação do Modelo
A formulação de um modelo de programação linear envolve a escolha das variáveis
de decisão, a construção da função objectivo
e a formalização das restrições.
Variáveis de Decisão
O modelo é constituído por 54 variáveis
de decisão sistematizadas em cinco grandes
grupos: a) a produção de culturas forrageiras
por tipo de solo; b); a produção e venda de
beterraba; c) a produção de floresta; d) a
compra de ração (concentrado) e a produção
e venda de carne e de leite; e e) a contratação
de mão-de-obra. A alimentação e a mão-de-obra
encontram-se divididas em bimestres = s (I,
II, III, IV, V, VI) (Quadros 3 a 7).
Função Objectivo
Com base num inquérito efectuado aos
produtores de beterraba dos Açores (Viveiros,
1995) concluiu-se que o principal motivo que
justifica a opção pela cultura é a maximização
do rendimento. É assim possível assumir que
o objectivo dos produtores de beterraba é a
maximização da margem bruta que resulta da
soma do produto dos coeficientes das variáveis
de decisão pelo valor que essas variáveis
tomam.
1. Max Z = ∑jikC jik Xjik + ∑gPg Yg + ∑s μs Rs + ∑sws Ls
Em que: Z= margem bruta total; C jik =
margem bruta por actividade j, de intensidade
i, no solo k, Xijk = área de actividade do tipo j
de intensidade i; no solo k, Pg = margem bruta
da actividade g, Yg = actividade animal g; μs =
custo do concentrado por bimestre (s), Rs =
toneladas de concentrado por bimestre (s); ws
= custo da mão-de-obra por bimestre (s), Ls =
horas de mão-de-obra por bimestre (s).
Restrições
As restrições utilizadas no modelo são
relativas aos factores limitativos das respectivas
actividades. O modelo é constituído por 73
restrições referentes à área, à ração (concentrado) mínima, aos nutrientes (Unidades
Forrageiras de Leite - UFL, Proteína
Digestível no Intestino quando a Energia é
limitante, - PDIE, Proteína Digestível no
Intestino quando o Azoto é limitante, - PDIN,
o Cálcio – Ca, o Fósforo – P, a Matéria Seca
– MS) à mão-de-obra geral e especializada,
e às transferências tecnológicas para a
produção de leite, de carne e de beterraba.
Área
2. ∑jik ajikXjik ≤ Ak em que j = 1,…38 actividades, i =
1,…3 intensidades e k = 1,…7 solos.
Em que ajikXjik = área em hectares para a
actividade j de intensidade i e no solo k. Ak =
área total em hectares do solo k.
Trabalho
3. ∑kji ljiks Xjik - wsLs ≤ 0, em que e s = 1,…6 bimestres
Em que l jiks = horas de mão-de-obra
necessárias para a actividade j, de intensidade
i, no solo k, no bimestre s.
4. ∑kji lejiks Xjik - wsLs ≤ 600, em que e s = 1,…6
bimestres.
Em que l ejiks = horas de mão-de-obra
especializada (assistência técnica) necessárias
para a actividade j, de intensidade i, no solo k,
no bimestre s.
Alimentação
5. ∑jik dsbjik Xjik + dsb Rs ≥ ∑gdsbgYsbg , em que e s =
1,…6 bimestres e b=1,.....6 nutrientes.
Em que dsbjik = quantidade de nutriente b,
na actividade j, de intensidade i, no solo k, no
semestre s. dsb Rs = quantidade de nutriente b,
no concentrado R, no semestre s. d sbg =
quantidade de nutriente b necessária para o
animal g, no semestre s.
Equilíbrio alimentar
6. ∑jiks dsIjik Xjik - ∑jiks dsIIjik Xjik + 4 ∑jiks dsIIIjik Xjik + ∑
dsI Rs - ∑ dsII Rs + 4 ∑ dsIII Rs = 0 , em que e s = 1,…6
bimestres; I= PDIN, II=PDIE, III=UFL
Nos Quadros 8 a 14 apresentam-se as 73
restrições do modelo.
Calibração do modelo
Dados
Os dados referentes à agro-pecuária, floresta e mão-de-obra foram obtidos em modelos
anteriores (Silva, 2001) e (Calado, 2003). Os
dados referentes à cultura da beterraba foram
obtidos a partir de informação fornecida pela
SINAGA, e por produtores de beterraba sacarina na ilha de S. Miguel e são esses que
apresentamos neste trabalho.
Para a cultura da beterraba consideram-se
dois tipos de maneio, um relativo a cultura
mecanizada e outro para a cultura manual.
Tem-se ainda em conta as duas épocas em que
se cultiva, Primavera (cultura semestral) e
Outono (cultura anual). Considerou-se que é
possível utilizar terra de boa com elevada
capacidade produtiva e terra má com baixa
capacidade produtiva, sendo contudo possível
efectuar correcção neste tipo de solo e assim
melhorar a produtividade. A terra boa apresenta maior produtividade do que a terra má
com correcção e, por sua vez, a terra má com
correcção apresenta maior produtividade do
que a terra má sem correcção. Assim consideram-se doze formas diferentes de fazer
beterraba, conforme o maneio e o tipo de solo.
Para o cálculo dos coeficientes das variáveis de decisão para a beterraba consideramse as receitas que são contabilizadas como um
factor positivo e as despesas que são contabilizadas como um factor negativo. O valor a
introduzir no modelo resulta do balanço entre
as receitas e as despesas. Para a produção de
beterraba os valores são todos negativos,
havendo diferenças de valores para os diferentes
tipos de maneio. Para a venda de beterraba todos
os valores são positivos (Figura 9).
Com base nas contas de cultura disponibilizadas pela SINAGA e pelos agricultores
foi possível determinar os custos de cada tipo
de maneio e para cada tipo de solo (coeficientes na Função Objectivo), e a produtividade respectiva por hectare (coeficiente na
restrição de transferências).
Os dados das áreas foram obtidos a partir
da aplicação de sistemas de informação
geográfica (SIC) em mapas de S. Miguel
(Figura 3).
RESULTADOS E ANÁLISE DE
SENSIBILIDADE
Preço da Beterraba
O preço da beterraba tem uma influência
relevante na quantidade produzida. A subida
do preço para os níveis que se verificam
actualmente na Europa Central levaria a uma
duplicação da área e a um aumento da
quantidade produzida (Figura 10).
Preço do Leite
O preço do leite tem uma influência
reduzida na quantidade produzida de beterraba. Primeiro porque as zonas com maior
aptidão para a produção de leite, não têm
capacidade para a produção de beterraba.
Segundo porque a produção de leite depende
também muito de subsídios pelo que, mesmo
com a redução acentuada do preço valeria a
pena continuar a produzir (Figura 11).
O maior efeito no aumento de produção é
conseguido com o aumento de área baixa boa
disponível. É manifesto que esta área não é
muito abundante e está sujeita a pressões para
muitos usos alternativos que não são só a agropecuária mas também os usos e especulação
urbana. Como podemos verificar na Figura 12
a disponibilização de mais Área Boa, possibilitada pela recuperação alguns solos agrícolas,
permite recuperar a produção de beterraba.
Cenários de Mercado
O relatório da Comissão das Comunidades
Europeias SEC (2003) sobre a política
açucareira da União Europeia analisa os
problemas da produção e comercialização do
açúcar a nível europeu e mundial, e apresenta
e avalia quatro cenários alternativos de
redefinição da Organização Comum de
Mercado do Açúcar.
Nesse relatório a Comissão refere-se aos
Açores relevando a concorrência da cultura da
beterraba com a agro-pecuária nos seguintes
termos:
“Les Açores produisent dês beterraves et
raffinent du sucre essentiellemet pour la
consomation locale (de 6 à 10000 tonnes).
La culture de beterraves est limitée par
la concurrence de productions plus
profitables et les Açores importent du
sucre brut à raffiner dans le cadre du
régime spécial d’approvisionnement”.
Commission of the European Communities – accomplishing a sustainable
agricultural model for Europe Trhough
the reformed CAP – to tobacco, olive oil,
cotton and sugar sectores, Brussels, 2309-2003, página 31
Os efeitos de cada um dos cenários referidos acima na cadeia de produção, transformação e distribuição de beterraba dos Açores
dependem não só dos cenários do sector a nível
europeu mas também das reacções alternativas
dos agentes açorianos.
Os cenários dependem da regulação ser
baseada em quotas, “Statuo quo” e “Quotas
fixas”, ou em preços, “Redução de preços”
ou “Liberalização de preços”. O Quadro 15
expõe os efeitos de cada um dos cenários à
escala europeia. É patente a redução acentuada dos preços e da produção associado aos
cenários da redução dos preços e da liberalização, a que corresponde eventualmente um
aumento da despesa da União Europeia pela
implementação de ajudas directas aos produtores para compensar a redução do rendimento.
A Figura 13 sintetiza, para o conjunto da
Europa, as vantagens e os inconvenientes dos
diversos cenários. A decisão política terá em
consideração estas vantagens e inconvenientes.
Os produtores e transformadores preferem
as políticas baseadas nas quotas (status quo e
quotas fixas) enquanto que a indústria agroalimentar, os consumidores e os ambientalistas
preferem as políticas baseadas nos preços
(redução de preços e liberalização).
Alternativas de Gestão
As alternativas de gestão da produção para
a SINAGA são duas:
- A manutenção do relacionamento entre
a SINAGA e os agricultores traduzida na
continuação da publicidade dos preços
e na disponibilização dos serviços de
maneio.
A aposta na melhoria da produtividade
dos solos e a criação de seguros de colheita o que permite aumentar a produtividade esperada embora com um preço
de beterraba um pouco mais baixo por
virtude do prémio de seguro. Assume-se
que os agricultores continuarão a ter
acesso aos serviços de maneio e à publicitação dos preços disponibilizados
pela SINAGA.
Qual destas linhas de estratégia têm mais
viabilidade? Que restrições se colocam à sua
implementação? O instrumento que temos para
avaliar os efeitos das diferentes medidas é o
modelo apresentado.
Avaliação
O Quadro 16 apresenta os resultados do
cruzamento dos cenários de política europeia
com as estratégias de relacionamento da
SINAGA com os agricultores.
Os resultados são esclarecedores:
Devido à baixa acentuada de preços, a
verificação do cenário de liberalização dos
mercados, traduzir-se-ia no fim da produção de beterraba em São Miguel.
Devido à concorrência da produção leiteira
e ao carácter monopsonístico da SINAGA
face aos agricultores, a verificação do
cenário de “redução de preços” resultaria
num grande risco para o sector pois os
preços que se registariam estariam no
limiar da sustentabilidade para a produção.
Na verdade só os dois primeiros cenários,
ou a sua aplicação às regiões ultraperiféricas, possibilitam alguma garantia de
sucesso às medidas pró-activas de mobilização de mais área, de aumento da produtividade dos solos e de criação de seguros
de cultura.
CONCLUSÕES
Depois de mais de cem anos de produção
e transformação de beterraba nos Açores
existem factores externos e internos que enfraquecem a sustentabilidade e competitividade
da cadeia de valor.
- Os factores externos mais relevantes são a
concorrência dos países produtores de
rama de açúcar a nível mundial e a pressão
que eles exercem para que seja alterada a
Organização Comum de Mercado do
Açúcar, que protege os produtores europeus, desestabiliza os mercados internacionais do açúcar, e agrava os problemas dos
países em vias de desenvolvimento que
têm mais aptidão para a produção de
açúcar.
- Os factores internos aos Açores que enfraquecem a competitividade da cadeia de
valor da beterraba são a concorrência da
agro-pecuária e a acidificação dos solos
provocada pelo uso intensivo dos mesmos
sendo necessária a recuperação do fundo
de fertilidade. A SINAGA tem estimulado
a melhoria dos solos com a correcção de
acidez, promoção da rotatividade das
culturas e apoio às boas práticas agrícolas
mas isso não tem sido suficiente para
melhorar a produtividade dos solos em
áreas onde a SINAGA não tem intervenção
e que, contudo, são passíveis de utilização
para cultura da beterraba.
Pela análise de sensibilidade do modelo
de programação linear concluiu-se que a
quantidade de beterraba produzida depende
fundamentalmente do preço de aquisição pela
transformação. O preço actual da beterraba,
determinado em sistema monopsonístico, não
é concorrencial face à margem bruta que é
possível obter com a produção de leite. De
facto só é possível aumentar a produção de
beterraba nos Açores se forem adoptadas
as políticas europeias do “status quo” ou
das “quotas fixas” e se for possível adoptar
uma estratégia activa de melhoria da produtividade dos solos e criação de seguros de
colheita.
Relativamente à terra há dois factores a
considerar, um relativo a área disponível e
outro relativo a capacidade produtiva. A área
disponível é um dos principais factores
limitantes e difíceis de contornar face às
condições de mercado actuais. A capacidade
produtiva do solo é menos limitante, uma vez
que é possível corrigir os solos esgotados, e
aumentar desta forma a capacidade produtiva.
Neste caso a consultoria técnica é fundamental
para responder às exigências do melhoramento
do solo e do maneio da cultura de beterraba
sacarina.