A dimensão cultural da imigração
Os conceitos de assimilação e aculturação marcaram alguns dos principais
estudos sobre a imigração no Brasil realizados no âmbito das ciências sociais
até o início da década de 1970. Os pesquisadores estavam interessados nas
mudanças socioculturais e comportamentais envolvidas na inserção dos imigrantes
na sociedade brasileira. No entanto, as análises realizadas apresentaram
evidências da plu-ralidade cultural e da formação de novas identidades fundadas
na diferença cultural, assuntos de pouco interesse quando o foco é o processo
de absorção ou integração dos imigrantes na sociedade nacional. Por outro lado,
as teorias mais recentes sobre processos migratórios deram maior atenção às
questões econômicas e políticas envolvendo a migração em larga escala, em
consonância com a globalização.1
O fenômeno migratório também produz etnicidade, palavra-chave nas análises de
sistemas interétnicos amplamente usada nas últimas décadas com implicações nas
políticas de reconhecimento (inclusive aquelas associadas ao multiculturalismo
e aos direitos de minorias). A delimitação teórica agrega a identidade (e seus
aspectos subjetivos) e a noção de fronteira (social) que delimita o
pertencimento a um grupo ou comunidade. Na prática, são enfatizados
discernimentos sobre a simbólica da diferença cultural e os valores que
orientam comportamentos. Contudo, alguns autores observaram que etnicidade,
identidade e cultura são coisas distintas, não havendo necessariamente uma
relação de causa-efeito entre elas. Mas, paradoxalmente, são fenômenos
entrelaçados, observáveis também nos contextos migratórios.2
As teorias da migração nem sempre contemplam a cultura, assunto tão relevante
quanto as representações da identidade construídas por indivíduos e grupos a
partir dela, formando enunciados simbólicos que apontam a ideologia como
sistema cultural, uma proposição teórica de Geertz (1964) apropriada por
Aronson (1976) para refletir sobre a etnicidade como um tipo particular de
ideologia. Aliás, a noção de diferença cultural, no caso da imigração, remete
às ideologias de pertencimento e seus usos, inclusive políticos, diante das
situações de desigualdade no âmbito do Estado-nação. Cultura e etnicidade,
portanto, estão relacionadas e sua propriedade pode ser observada na proposição
conceitual de Abner Cohen que considerou etnicidade "uma forma de interação
entre grupos culturais operando em contextos sociais comuns" (1974, p. XI).
Este trabalho tem por objetivo analisar a dimensão cultural da imigração, em
consonância com etnicidade, a partir de um "estudo de caso" relativo à
colonização estrangeira no contexto dos deslocamentos mais significativos de
europeus para o Brasil. Trata-se de analisar um segmento abonado de "colonos
alemães" estabelecidos no Vale do Itajaí, em espaços urbanos que, sob a
denominação de Stadtplatz, surgiram em lugares específicos para sediar a
administração de cada núcleo colonial. Nesse caso, destaca-se, principalmente,
a colônia Blumenau, por sua notoriedade como paradigma do "enquistamento
étnico" produzido pela imigração, conforme o entendimento do nacionalismo
brasileiro, sua importância na política estadual a partir da República,
destacando-se lideranças assumidamente teuto-brasileiras em conformidade com
Deutschtum (germanidade) em sua afirmação empírica e simbólica. Além disso, no
Vale do Itajaí em geral, e na colônia fundada por Hermann Blumenau3 em
particular (em parte por causa dos laços com importantes figuras do meio
acadêmico germânico), circularam viajantes, geógrafos e outros cientistas,
migrantes de todos os matizes e, com eles, muitas ideias relacionadas com o
nacionalismo alemão.
O período histórico, portanto, é o da "grande imigração" e da instauração da
República de 1889, que põe em evidência a formação do Estado nacional permeada
por um sistema mundial produzido, entre outras coisas, pela expansão do
colonialismo e do capitalismo, e pela emigração em massa de europeus.
Caracterizou-se por uma exacerbação nacionalista alimentada por um discurso
assimilacionista radical em relação aos parâmetros luso-brasileiros de formação
da nação, que exigia o "caldeamento" dos alienígenas (isto é, todos os
imigrantes e descendentes não abrasileirados, estabelecidos no território
nacional). Por meio deste estudo, que aborda a problemática da imigração alemã,
é possível mostrar a circulação de ideias, saberes e valores e algumas das
bases empíricas de um (sub)sistema cultural produzido pela colonização -
considerado perigoso pelo nacionalismo - que permitiram o surgimento da
etnicidade teuto-brasileira, destacando a perenidade desse fenômeno reportado
ao transnacionalismo.
Cultura e a simbologia da etnicidade
Os primeiros estrangeiros que se fixaram no Vale do Itajaí, em 1836, eram
alemães egressos da colônia de São Pedro de Alcântara (fundada em 1829, pouco
antes do corte de despesas que inviabilizou a colonização com imigrantes). Essa
migração interna, porém, não produziu um núcleo colonial ali: eram poucas
famílias e, de fato, os descontentes com a situação precária em São Pedro de
Alcântara preferiram se estabelecer na capital da província, Desterro
(Florianópolis), ou na vila portuária de Itajaí - duas localidades propícias às
atividades comerciais. A colonização do vale só começou com a fundação de
Blumenau, em 1850, já no contexto de abertura às iniciativas particulares. As
empresas de colonização, formadas para essa finalidade, podiam receber por
compra (ou concessão) áreas de terras devolutas de até seis léguas quadradas,
para demarcá-las em lotes para venda a colonos-imigrantes (arcando também com
as despesas de propaganda na Europa). Dessa forma, Hermann Blumenau, associado
a um comerciante alemão estabelecido em Desterro, requereu terras devolutas e
adquiriu pequenas áreas de particulares no médio vale do rio Itajaí-açu, para
formar ali uma nova Heimat (pátria) com imigrantes de origem germânica. A
colônia ficou conhecida dentro e fora do Brasil por causa do enunciado étnico
do empreendimento, provavelmente inspirado no nacionalismo romântico anterior à
unificação da Alemanha, e das publicações que suscitou, especialmente os livros
escritos pelo fundador com o intuito de atrair imigrantes e outras obras que
destacaram suas características "alemãs", produzidas por visitantes ocasionais,
pastores e outros migrantes temporários e viajantes ocasionais de grande
notoriedade como J. J. von Tschudi; tema presente também na literatura
ficcional de autores teuto-brasileiros que publicaram contos, romances e
poesias em língua alemã antes da intervenção nacionalizadora do Estado Novo
iniciada em 1937.
Hermann Blumenau não tinha motivações econômicas para emigrar e tampouco
possuía recursos que permitissem a realização de um projeto de colonização em
larga escala. Seu interesse pela colonização alemã no sul do Brasil surgiu a
partir de um encontro com o cônsul do Brasil na Prússia, J. J. Sturz, em 1844,
durante uma viagem à Inglaterra. O cônsul julgava possível realizar um grande
projeto de colonização (no Brasil, ou no Uruguai), mas não chegou a fazer uma
proposta formal ao governo brasileiro por considerar incompatível a
coexistência da imigração com o regime escravista.4 Dois anos depois do
encontro, Blumenau obteve o grau de doutor na Universidade de Erlangen, após
concluir o curso de química, talvez pensando numa carreira acadêmica como
naturalista, conforme observação de Fouquet (1999, p. 20). Por meio da inserção
acadêmica e do próprio Sturz, conheceu pessoas notáveis como Humboldt e
Martius, que deram apoio à sua proposta de colonização, recomendando-o às
autoridades brasileiras. Antes de decidir realizá-la em Santa Catarina,
percorreu o sul como representante da Sociedade de Proteção aos Imigrantes
Alemães no sul do Brasil. Chegou à essa organização por intermédio de Alexandre
von Humboldt, com a incumbência de avaliar as condições para uma colonização em
grande escala, mobilizando parte dos emigrantes que tinha como destino os
Estados Unidos da América. Entre os imigrantistas brasileiros, tinha apoio do
marquês de Abrantes, que em 1846 era ministro plenipotenciário em Berlim,
incumbido, entre outras coisas, de obter consentimento do governo prussiano
para a atuação dos agenciadores de emigrantes para o Brasil.
A missão diplomática de Abrantes não foi bem-sucedida pois, em 1859, a Prússia
promulgou decreto que dificultava a emigração para o Brasil. Isso foi motivado
pelas denúncias acerca das condições precárias das colônias no sul, da servidão
associada aos contratos de parceria nas fazendas paulistas e do discurso das
autoridades brasileiras sobre a substituição do escravo pelo trabalhador livre
imigrante, objeto da crítica de Sturz.
Os planos de colonização dessa sociedade não se concretizaram. Era necessário
grande aporte financeiro (que precisava ser captado na Europa) e uma propaganda
eficiente que pudesse "desviar" a corrente emigratória que tinha como destino a
América do Norte, particularmente os Estados Unidos,5 num período em que os
próprios governos alemães, sobretudo o da Prússia, colocavam entraves ao
agenciamento de emigrantes para o Brasil. Além disso, o custo da viagem para a
América do Sul era muito maior, e os riscos da longa travessia marítima na
primeira metade do século XIX eram grandes, registrando-se altos índices de
mortalidade, principalmente entre aqueles que viajavam de forma mais precária.6
Mesmo assim, Blumenau propôs ao governo brasileiro um projeto menos ambicioso,
inclusive porque a "grande escala" pretendida não estava de acordo com o modelo
sancionado para a iniciativa particular. Apesar do interesse no povoamento/
colonização vinculados à imigração europeia, que aponta à questão da formação
do Estado e da consolidação do território nacional, havia certo cuidado,
inclusive no Ministério do Império, em relação a projetos de grande monta,
sendo autorizadas, de acordo com a legislação, as propostas contidas no limite
máximo de seis léguas em quadra. O Vale do Itajaí não foi a primeira opção, mas
aquela que, de fato, deu certo, após um período de quatro anos percorrendo
gabinetes, conversando com ministros e parlamentares na Corte e na Assembleia
Provincial de Santa Catarina.
A pertinácia de Hermann Blumenau é notável, em parte explicada pelo sentido de
missão, defendendo uma "causa" (a formação de "colônias alemãs" cultural e
nacionalmente configuradas), de certo modo inculcada por Sturz, mas também por
Martius, Wappåus e outros que escreveram sobre o Brasil, assim como Humboldt -
todos indivíduos com grande prestígio acadêmico também preocupados com a
emigração dos seus compatriotas e os movimentos sociais que culminaram com a
revolução de 1848. Tratava-se de dar oportunidade aos emigrantes (motivados por
razões econômicas e/ou políticas) de formar uma nova pátria (obviamente
germânica) num outro país - um tipo de territorialização considerado viável no
formato da colonização tendo em vista a sinonímia com povoamento (o que foi o
caso da colônia fundada no Itajaí-açu).
Não pretendo analisar essa colonização, que seguiu as normas da legislação
brasileira;7 deve-se destacar, porém, que Blumenau e seus auxiliares mais
próximos viajaram muitas vezes para a Alemanha para recrutar emigrantes que
pudessem viajar sem subsídios e, em alguns casos, para casar, mantendo contatos
com pessoas notáveis. Por outro lado, o empreendimento foi visitado por um
grande número de compatriotas, muitos dos quais ali permaneceram por vários
anos. O casal Gustav (um pastor protestante) e Therese Stutzer é um bom
exemplo: eles viveram em Blumenau durante quase uma década e, voltando para a
Alemanha, publicaram vários livros sobre a região e também obras de ficção,
acentuando o "caráter" germânico da colônia, que consideravam uma pequena
Alemanha no Brasil.8 Os Stutzer, porém, são apenas um exemplo da vasta produção
em língua alemã sobre o Vale do Itajaí (tão importante quanto os trabalhos
publicados em língua portuguesa) - como pode ser observado nas resenhas
realizadas por Fouquet (1950) e Seyferth (1988).
Assim, a circulação de pessoas entre Blumenau e a Alemanha foi bastante
significativa, mostrando fortes laços com a Urheimat (velha pátria) mesmo na
situação de isolamento enfrentada na primeira década da colonização. Apesar
disso, o empreendimento enfrentou dificuldades, pois, sendo particular,
dependia de um fluxo relativamente intenso de imigrantes para cobrir os gastos
da demarcação, abertura de caminhos, construção de prédios públicos (inclusive
escolas) e outros encargos assumidos pela empresa, através da venda dos lotes
aos colonos. Blumenau não conseguiu atrair um número necessário de
compatriotas, apesar do grande movimento emigratório alemão. A iniciativa não
fracassou porque o governo imperial assumiu a colonização em 1860, ano em que
foi fundada outra "colônia alemã", oficial, no Itajaímirim - Brusque. Não
existia mais o empresário colonizador, mas Blumenau foi mantido na direção da
colônia até sua emancipação política, como município, no início da década de
1880, ocasião em que retornou definitivamente para a Alemanha.
Transformado em região de colonização oficial, o médio Vale do Itajaí passou a
ser o destino de imigrantes alemães atraídos pelos subsídios, via agenciadores
a serviço do governo imperial. Isso mudou o perfil do colono, pois, a partir de
1875, começaram a chegar imigrantes de outras origens nacionais, notadamente
italianos e poloneses. O que antes era um projeto de nova Heimat para alemães
protestantes, criticado com veemência pela igreja católica, agora recebia não
só alemães católicos, mas também gente de outras nacionalidades. Manteve-se,
porém, o epíteto de "colônias alemãs" para os principais núcleos coloniais, até
porque a maioria da população, na virada do século XX, era de origem germânica
e o subsistema cultural ali formado deu respaldo ideológico a essa
qualificação. A notoriedade do Vale do Itajaí como lugar de "colonização alemã"
deve-se, em grande parte, à atuação de Hermann Blumenau e aos viajantes e
outros personagens - aí incluídos os imigrantes "temporários" que retornaram,
caso dos Stutzer - que ajudaram a criar a imagem de um lugar balizado pelos
valores da germanidade (Deutschtum).
Ao tratar do status ontológico do termo etnicidade, Fenton observou que ele diz
respeito à descendência e à cultura. Considera isso um ponto de partida e não
simplesmente uma definição, e o ponto seguinte é pensar que etnicidade "se
refere à construção social da descendência e da cultura, à mobilização social
da descendência e da cultura, e ao significado e implicações dos sistemas
classificatórios construídos em torno dela" (2008, p. 3). Povos não possuem
apenas culturas ou ancestralidade compartilhada, eles elaboram as duas coisas
para compor uma ideia de ancestralidade que cerca as definições de grupos ou
comunidades, procura mostrar que os rótulos étnicos (ou outras categorias) não
estão no vazio, tem uma base real a sustentá-los. De outro modo, Max Weber
(1991, p. 270) também apela a princípios semelhantes ao tratar das
coletividades (ou comunidades) étnicas e de nação, destacando a crença na
afinidade de origem (objetivamente fundada ou não) e os habitus, costumes etc.,
fazendo referências, inclusive, à imigração.
Cultura e etnicidade estão entrelaçados, o que põe em evidência a diferença (em
relação aos "outros") e o embasamento da identidade. Então, no que consiste,
empiricamente, a cultura teuto-brasileira na virada para o século XX, marcada
pela configuração da colônia Blumenau nos seus primórdios (com extensão para
outras "colônias alemãs" da região)? Cabe, fazer referência à política de
colonização voltada para a localização de imigrantes em terras devolutas, um
procedimento que não ameaçava os interesses da grande propriedade monocultora.
Esse regime de povoamento de áreas de florestas e sem vias de comunicação
terrestre - caso das colônias de Blumenau e Brusque - foi idealizado no âmbito
do aparelho de Estado sem incluir potenciais colonos brasileiros. Nas primeiras
décadas, a maior parte dos imigrantes, e mesmo a segunda geração, teve pouco ou
nenhum convívio com a sociedade nacional, e isso teve reflexos na formação
comunitária étnica, tanto quanto a ideia mais geral de, naquele lugar,
territorializar a nova Heimat (na sua associação com o lar). É claro que o
próprio regime de colonização, baseado na pequena propriedade familiar, era bem
diverso do meio rural brasileiro, ajudando a compor a diferença sociocultural,
assim como a "aculturação ergológica" assinalada por Willems (1946) para
referir-se aos novos padrões de alimentação, moradia, vestuário, tecnologia
etc. - mudanças relacionadas com a cultura material e a adaptação ao novo meio
ambiente.
Essa especificidade não tem grande importância quando o assunto são os aspectos
pragmáticos da etnicidade, relativos mais diretamente à dimensão cultural
valorizada, e aí emerge, em primeiro lugar, o caráter distintivo da língua
falada no cotidiano das colônias. Na prática, a ideia de Heimat, e seu
qualificador, a germanidade, supõe o uso comum da língua alemã, uma
característica enfatizada em vários textos e depoimentos, seja de viajantes
ocasionais, seja de colonos comuns. Veja-se, por exemplo, as impressões de
viagem de Wilhelm Lacmann, que esteve no Vale do Itajaí (e em outras áreas de
colonização de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul) em 1903. No livro
publicado em 1906, compara Blumenau a uma "pequena cidade alemã das montanhas",
um lugar onde a língua alemã se preservou, apesar da incorporação de expressões
idiomáticas relativas ao meio ambiente; e acrescenta (numa observação mais
geral): "As colônias, sob o meu ponto de vista, podem ser consideradas
deutsches Gebiet", uma região de caráter alemão. Nestas colônias foram
conservadas a língua, os hábitos e os costumes germânicos. Também não
desapareceu o sentimento de afinidade com o povo alemão".9
De modo mais enfático, Gustav Stutzer também faz questão de destacar o uso
cotidiano da língua alemã em Blumenau, enquanto seus compatriotas que emigraram
para a América do Norte trocaram sua bela língua materna "pelo horrível som da
língua yankee".10
Tais publicações podiam ter eficácia limitada como propaganda, mas muitas vezes
influenciaram a decisão de emigrar. Por outro lado, entre os "documentos
originais" publicados pela revista Blumenau em Cadernos nos contextos
comemorativos do sesquicentenário de Blumenau e do centenário da morte de
Hermann Blumenau, encontram-se memórias, vivências e escritos variados de
imigrantes, em que são delineados, além da questão da língua, outros aspectos
da especificidade cultural. Um bom exemplo é o texto intitulado "Erlebnis von
Klara Hermann"11 (Experiência de Klara Hermann) - um relato sobre a vida na
colônia no início do século XX, precedido pela motivação para emigrar. A
percepção da germanidade local aparece no texto quando descreve sua passagem
por Joinville (uma "colônia alemã") a caminho do Vale do Itajaí:
Em São Francisco me senti como se estivesse em um país estrangeiro,
mas Joinville tirou essa impressão, aqui só se ouvia falar alemão e a
cidade tinha o aspecto de uma cidadezinha alemã. O que nos transmitiu
esta impressão certamente eram os jardins ao redor das casas com suas
flores exuberantes. Também havia belas rosas. Cada qual procurava
reproduzir um pouco a pátria mãe. Apenas a bela Alameda das Palmeiras
lembrava o Brasil.
Aí está a impressão inicial de uma imigrante recém-chegada, que desembarcou em
São Francisco (do Sul), localidade portuária surgida no Brasil-Colônia, e logo
em seguida adentra a região colonizada pela Sociedade Colonizadora de 1849 em
Hamburgo, e cujo polo urbano era a cidade de Joinville. Além da alusão
linguística, é interessante observar que o outro aspecto distintivo destacado
no texto diz respeito à Wohnkultur ou, de modo mais objetivo, ao lar, à casa e
seu entorno (o jardim) - referência básica da ideia de Heimat, termo derivado
de Heim (lar), o que explica a ênfase geral da construção de uma nova pátria no
Brasil. A imagem (elaborada) da chegada ao destino (o lote colonial recebido
pelo marido na colônia Hansa-Humboldt, situado além de Blumenau) também é
significativa:
Chegamos a um vale verde cortado por inúmeros rios, rodeado de
morros, o qual nos trazia à memória a paisagem da floresta da
Turíngia, havendo alemães tanto aqui como lá. No Stadtplatz (centro
da colônia) já havia algumas casas de aparência simpática, três
vendas e um hotel, mas nós continuamos nosso caminho através da mata
virgem e, finalmente, chegamos ao nosso destino. As crianças vizinhas
me aguardavam à beira da estrada com flores. Crianças louras de olhos
azuis, nascidas aqui, vieram dar-me as boas vindas. Nossa casa ficava
em meio a um pasto rodeado de um pequeno jardim.
As duas transcrições falam por si mesmas. O estranhamento em relação à cidade
brasileira desaparece diante da familiaridade da nova Heimat e sua paisagem
(cultural), do encontro com compatriotas, pois havia alemães naquele lugar do
Brasil que mantinham a língua e as tradições. A imigração, afinal, podia se
concretizar sem um rompimento radical com as origens.
A menção à casa já existente nas terras compradas pelo marido-colono pode
parecer estranha, numa situação de colônia nova, ainda cercada pela floresta. A
explicação está no motivo da emigração: o casamento. O marido de Klara Hermann
estava es-ta-belecido ali há 4 anos, a propriedade já estava "desbravada",
tinha casa e jardim. Ele viajou para a Alemanha com o intuito de visitar a irmã
e encontrar uma esposa. Lá (na Alemanha) era identificado como "brasileiro" -
um imigrante. Buscar esposa na Alemanha certamente não era coisa corriqueira,
mas ocorria nos segmentos mais abonados, inclusive entre os colonos. Num
período marcado pelo crescimento econômico da região como um todo, as viagens
para a Alemanha tornaram-se comuns. Além disso, o fluxo imigratório, embora
pequeno, persistiu por causa da continuidade da colonização e do início da
industrialização em Blumenau e Brusque, demandando mão de obra qualificada
recrutada na Alemanha pelos empresários locais. O trânsito de pessoas na dupla
rota da imigração contribuiu para reforçar o ideal de Deutschtum, presente no
texto de Klara Hermann de forma aparentemente prosaica através do Heim (lar).
No entanto, casas e jardins também aparecem como algo diferente, peculiar e
valorizado, em alguns escritos sobre o Vale do Itajaí produzidos por
brasileiros, viajantes ou lá radicados, em tempos mais recentes. A
representação de Klara Hermann sobre a casa está presente num texto
historiográfico de Max Tavares d'Amaral, publicado no ano de comemoração do
centenário da fundação de Blumenau. Segundo o autor:
O alemão, a primeira cousa que faz quando se estabiliza
economicamente, quando começa a produzir, é substituir sua casinha
tosca, primitiva, por outra melhor, até chegar a residência
confortável de tijolos com suas cortinas na janela, seu jardim e seu
pomar que são o seu orgulho e constituem o ornamento por excelência
da paisagem colonial. Parece poder dizer-se que a casa é o traço
característico do colono alemão, o traço que o distingue dos demais.
Ele pode perder todas as características da raça - a língua, as
tradições, mas não perde nunca o hábito de morar em boa casa, quando
suas condições econômicas o permitam (D'Amaral, 1950, p. 63).
Atribui às condições de habitação um valor histórico social, afirmando que a
ideia do Heim como "o mundo do colono", trazida do país de origem, relaciona-se
com a "Wohnkultur, isto é, o hábito de morar bem", diferenciando-se do homem
rural brasileiro e até mesmo de outros colonos europeus. A discussão sobre a
moradia indica sua apropriação como elemento distintivo da "cultura teuto-
brasileira" por causa da sua visibilidade. Willems procurou mostrar que as
casas não têm as mesmas características na Alemanha, sobretudo as construções
de madeira, comuns em todo o sul do Brasil. No entanto, afirma que as
diferenças (em relação aos brasileiros) surgem num dado momento, quando colonos
prósperos utilizam nas construções "as experiências de sua cultura anterior". O
referencial é principalmente a casa no "estilo enxaimel", construída de tijolos
com madeira à mostra. Aparentemente irritado com o discurso generalizado em
torno da moradia, diz:
Quando todos os observadores que mui superficialmente descreveram a
casa dos teuto-brasileiros, como se houvesse sido importada já feita
da Alemanha, em geral ignoram o fato de que não existe uma "casa
alemã" como não existe uma "cozinha alemã" (Willems, 1946, p. 231).
Na lógica da teoria da aculturação, que embasa a análise de Willems, essa
observação faz sentido porque remete à mudança cultural, porém encobre o fato
da apropriação (simbólica, inclusive) de um traço cultural relevante na
construção da diferença étnica com repercussão na identidade teuto-brasileira.
O caráter distintivo da moradia, ou do lar, está presente na literatura sobre o
Vale do Itajaí, sobretudo nos trabalhos orientados pela noção de Deustchtum,
mas também nos discursos de senso comum. A distinção fica ainda mais marcante
na sobreposição entre a casa e a língua alemã. Em suma, além da Wohnkultur, num
Heim alemão deve predominar o uso do idioma alemão. A simbiose lar(casa)-língua
chamou a atenção dos observadores, inclusive os brasileiros, ao longo de boa
parte do século XX. E a casa do discurso folclorista atual é aquela que a
maioria dos observadores chamam de "típica" -construída no modelo enxaimel.12
Num caso extremo de xenofobia em relação ao perfil "germânico" de Blumenau, a
diferença incômoda estava na língua, nas casas, nos cemitérios, nas ruas
batizadas com nomes estranhos, na circulação de um número excessivo de
bicicletas, nas igrejas, no comportamento público das mulheres casadas, em toda
parte. Para Rui Alencar Nogueira, um militar participante da nacionalização
imposta pelo Estado Novo, o Vale do Itajaí era um território dominado por
estrangeiros, onde se justificava o "abrasileiramento" forçado. Daí expressar
seu sentimento de aversão, pois naquele lugar não existia o Brasil (cf.
Nogueira, 1947). A exigência de abrasileiramento, ou assimilação completa nos
cânones da formação luso-brasileira, vinha do final do século XIX, na voz de
Silvio Romero e outros críticos da diversidade étnica produzida pela imigração.
A preocupação com a integridade territorial e cultural do Estado-nação ficou
mais evidente a partir da República de 1889, momento histórico em que Blumenau
(e a colonização alemã em geral) se tornou exemplo de "enquistamento étnico". A
comparação dos textos de Nogueira e Klara Hermann, porém, mostra o mesmo
princípio de estranhamento (e inconformismo) diante do desconhecido e ao mesmo
tempo novo: no primeiro caso, manifesta-se no relato da chegada do batalhão do
exército a Blumenau, que deixou todos "contrafeitos" de estar numa cidade que
não era brasileira; no segundo caso, entra em cena o desembarque em São
Francisco do Sul, uma cidade brasileira, estrangeira, que traz à memória o
rompimento da imigrante com a pátria, mas logo depois reencontrada na região de
colonização alemã.
O lar e a língua são associados de modo direto a uma concepção cultural de
nação, no sentido particularista do nacionalismo romântico postulado por
Herder, autor eventualmente citado na imprensa em língua alemã que se
consolidou no Vale do Itajaí antes da Primeira Guerra Mundial. Isto não
diminuiu a importância da pertença étnica de conteúdo primordial, confundida
com ascendência e subsumida pelo termo "origem", às vezes referido à raça. No
outro extremo da lógica particularista, o modo de vida, os hábitos alimentares,
as atividades econômicas e outros aspectos do complexo colonial compartilhados
com colonos de outras procedências nacionais também são apropriados como
marcadores étnicos no confronto com o "outro" mais distanciado - o brasileiro.
No campo subjetivo, a roça do colono alemão tem sua especificidade associada a
um ethos do trabalho próprio da etnia e não à forma de cultivo; e a
individualidade dos hábitos alimentares permite vincular o consumo da polenta
aos italianos, e o pão, aos alemães, mas na colônia ambos são feitos de milho e
estão na cozinha dos dois grupos.
Por outro lado, no cotidiano não havia muita escolha, conforme mais um
depoimento de Klara Hermann: em vez de batata come-se muito aipim, batata doce
e feijão, e o Mus (doce de frutas) se faz de banana, laranja ou abóbora. No
entanto, os costumes condicionam as formas de adaptação, pois todos têm bananas
e laranjas, mas o Mus é alemão! As práticas cotidianas, habitus, modo de vida,
organização social e outros aspectos da realidade cultural tem importância na
contextualização da etnicidade. Nesse sentido, atribuem-se características
étnicas ao modo de comemorar festas religiosas, como natal e páscoa, que são
comum a todos os cristãos. Nos relatos de imigrantes sobre os tempos pioneiros
na colônia Blumenau, a festa de natal, por causa do costume de armar a árvore e
entoar canções apropriadas em língua alemã, evoca a pátria deixada para trás e
ao mesmo tempo presente nesse outro lugar.13
As alusões à vida cotidiana, aos hábitos e costumes (na definição dos atores
sociais) permitem vislumbrar algumas minúcias da cultura teuto-brasileira (para
usar um conceito de Willems) passíveis de apropriação na contextualização da
etnicidade, inclusive na atualidade. Mas devem ser destacadas também as
instituições comunitárias formadas praticamente desde o início da colonização.
Elas tiveram maior notoriedade como elementos de diferenciação cultural antes
da campanha de nacionalização, iniciada em 1937; algumas conseguiram sobreviver
- caso das sociedades de atiradores -, mantendo a adjetivação étnica. Atribuiu-
se maior importância à "escola alemã", considerada indispensável para perpetuar
o ensino da língua materna, num contexto político (a Primeira República) onde
eram discutidas a assimilação e o abrasileiramento. Na Deutsche Schule o ensino
era dado em alemão e, na percepção dos atores sociais, a escola funcionava como
uma extensão do lar na formação da teuto-brasilidade. Resumindo, o aprendizado
da língua deve começar com a mãe, no lar, e tem prosseguimento na escola, e
essa imagem foi bastante enfatizada na poesia e nos escritos produzidos por
autores teuto-brasileiros sobre Deutschtum. A possibilidade da proibição do
ensino em língua estrangeira, exigida pelo nacionalismo desde o início do
regime republicano, provocou um contradiscurso baseado no direito à diferença,
e esta dependia da existência de um lar e um sistema escolar empenhados na
perpetuação do uso do idioma alemão. Esses elementos (lar, língua), junto com
ascendência (origem), formam a base da própria definição da categoria étnica -
Deutschbrasilianer - tal como aparece nas matérias de jornais e almanaques que
circularam pelo Vale do Itajaí até 1939. A categoria supõe a manutenção da
germanidade em solo brasileiro, daí tanta ênfase na ideia de Heimat. A versão
mais poética presume um bom brasileiro com alma alemã.
As ideias sobre a germanidade circularam pela imprensa, anúncios e pela
literatura ficcional voltada para temáticas relativas à colonização. Dois
importantes jornais foram editados em Blumenau entre a década de 1880 e o
Estado Novo - Blumenauer Zeitung e Der Urwaldsbote - controlados por facções
políticas rivais, mas com uma coisa em comum - a germanidade. Ali também
circularam publicações periódicas vindas de outras regiões coloniais.14 Na
prática, essa circulação repercutiu nas representações da etnicidade voltada
para a dimensão cultural contida na ideia de Heimat, presente também na
correspondência de Hermann Blumenau, onde o Vale do Itajaí é apresentado como
"verdadeira pátria", conservando-se a nacionalidade alemã.15 A nação alemã,
nesse caso, tem uma representação cultural, não política, permitindo equacionar
a germanidade com a territorialização no Brasil.
Por fim, é preciso mencionar as associações recreativas e culturais destacadas
pela maioria dos estudiosos da imigração alemã por causa da sua significância
numérica e sua vinculação com o nacionalismo alemão. Espaços de convivência,
lugares da sociabilidade, eram imaginados como expressão do "espírito
(associativo) germânico". De fato, poucos anos depois da fundação, Blumenau e
Brusque já possuíam sua Schutzenverein, uma associação historicamente vinculada
ao nacionalismo alemão do início do século XIX. Depois das associações de
atiradores vieram outras, igualmente situadas no contexto cultural teuto-
brasileiro - , caso das sociedades de canto (Gesangvereine) e de ginástica
(Turnvereine). Sua importância como expressão de etnicidade pode ser medida
pela intervenção violenta do exército brasileiro nesses espaços durante a
campanha de nacionalização: todas foram fechadas à força e algumas sedes
sociais serviram para acantonar as tropas.
Havia associações em toda parte, nos centros urbanos e nas principais linhas
coloniais (portanto, no meio rural). Não tinham apenas o perfil de agremiações
esportivas ou recreativas, pois neles eram realizadas representações teatrais,
sessões de música e outras atividades relacionadas com a noção de Kultur numa
contextualização germânica que valorizava a "consciência" linguística e o
Deutschtum. Várias sociedades de atiradores e de ginástica sobreviveram à
nacionalização, mas as de canto, mais associadas à Kultur, desapareceram.
A imagem de uma comunidade étnica alicerçada nos valores da germanidade de
certo modo foi reproduzida no volume comemorativo do centenário da imigração
alemã em Santa Catarina (Entres, 1929), que condensa o período anterior à
nacionalização. Ali aparece a poesia que honra a nova pátria, a pertença
étnica; é destacada a vida do colono pioneiro, a escola alemã, as associações,
a paisagem cultural criada pelos imigrantes na Palmenland (a terra das
palmeiras - o Brasil); por fim, faz apologia do desenvolvimento econômico em
textos historiográficos, e numa visão progressista distingue os empreendedores
que tiveram papel importante na economia, na política e na mediação étnica. A
publicação teve apoio de uma editora alemã, significativamente denominada
Ausland und Heimat Verlag - Haus des Deutschtums, coisa que evidencia o
transnacionalismo.
Os empreendedores e a "teuto-brasilidade"
A ideia da formação de uma nova Heimat, ponto de partida do projeto colonizador
de Hermann Blumenau, tem como principal fundamento a existência de uma cultura
e um modo de vida diferenciados naquele contexto colonial. Mas a circulação da
ideologia de pertencimento (a uma etnia alemã), articulada à reivindicação da
legitimidade da diferença cultural diante das exigências assimilacionistas do
nacionalismo brasileiro, põe em evidência os "mediadores" integrantes dos
grupos urbanos em ascensão social, empreendedores distinguidos por uma
identidade teuto-brasileira, e o uso instrumental da etnicidade.
Os aspectos econômicos e políticos das etnicidades têm sido destacados por
vários pesquisadores, desde o surgimento desse neologismo na língua inglesa na
década de 1950. Glazer e Moynihan (1963) discutiram o assunto num estudo
clássico sobre alguns grupos etnicamente identificados da cidade de Nova York.
Fizeram uma crítica à velha concepção de melting-pot, evitando as teorias de
assimilação e aculturação ainda em evidência nos estudos da imigração e das
relações interétnicas, procurando responder a uma pergunta básica: o que
significa para Nova York o fato de a maior parte da sua população estar
composta de pessoas que se pensam através de um pertencimento étnico, e mesmo
assim se consideram norte-americanos? Concluem que existe uma tendência central
no ethos nacional que estrutura as pessoas em grupos de diferentes status e
características, um padrão étnico configurado por forte diferenciação (real ou
imaginada) entre norte-americanos irlandeses, judeus, italianos e assim por
diante, apontando a falência da noção de melting-pot. De fato, interessa reter
da argumentação desses autores o destaque dado à vinculação entre etnicidades e
interesses ou, dito de outra forma, olhar para os usos de identidades
indicadoras de duplo pertencimento a partir da noção de "grupo de interesse",
tendo em vista a dinâmica da recriação contínua do pertencimento grupal por
intermédio de novas experiências, mesmo quando os descendentes de imigrantes,
por exemplo, já perderam a maior parte dos vínculos culturais que os
distinguiam dos outros norte-americanos. A identidade (étnica) permite associar
o indivíduo, ou o grupo, a um passado, uma raça, uma cultura compartilhada,
suscita sentimentos de pertença, mas o interesse comum também une, permitindo
laços concretos de comunidade. Glazer e Moynihan analisaram o jogo político e,
nele, o voto étnico. Outros autores, porém, apontaram para interesses políticos
conformados por organizações corporativas de base econômica, como é o caso do
estudo de Abner Cohen (1969) sobre as redes de comércio dominadas pelos Hausa,
na África Ocidental, e que atravessam as fronteiras dos estados pós-coloniais.
Ali, os Hausa usam e manipulam costumes, valores, mitos e símbolos da sua
tradição cultural para articular uma organização informal, de natureza política
e econômica - grupos definidos por uma etnicidade baseada na noção de cultura
compartilhada e que agem como "grupos de interesse" numa circunstância de
pluralismo étnico. O idioma do costume, nesse caso, é o marcador usado para
delimitar grupos informais cujo poder deriva também (mas não exclusivamente) da
hegemonia de uma atividade econômica.
A etnicidade é um fenômeno empiricamente muito variado, mas as abordagens mais
instrumentais a apresentam como um recurso social, político e cultural para
diferentes grupos étnicos e de status. Algumas versões focalizam a competição
por recursos (econômicos, políticos), outras examinam as estratégias para
maximizar preferências em termos de escolhas racionais. A crítica sobre essa
abordagem aponta para certos excessos que definem "interesses" em termos
exclusivamente materiais e políticos. Mas poucos autores adotam apenas esse
ponto de vista. Afinal, não existe etnicidade apenas por interesse, e nem é
possível minimizar sua importância no mundo moderno.
A relação entre etnicidade, raça e nacionalismo, e sua natureza política e
econômica envolvendo classe e status, já estava esboçada no texto de Weber
(1991) sobre comunidades étnicas. Mas, descuidando da questão mais geral (ou
cultural) da identidade, foi dada maior atenção aos processos políticos e/ou
econômicos, nos quais a etnicidade é uma variável importante de organização
coletiva - o pertencimento a uma etnia, nação etc. como estratégia para a ação
corporativa, um instrumento de poder (cf. Cohen, 1969). Daí a ênfase de certos
autores aos denominados ethnic entrepreneurs, categoria tomada na sua versão
mais geral de "empreendedor" que, no sentido econômico, organiza, possui e
administra um negócio assumindo seus riscos; muitas vezes possui o papel de
mediador. Nos termos de Aronson (1976), a categoria empreendedor (ou
empresário) étnico designa aqueles que formulam e administram ideologias e
observam como as situações são definidas ou reforçadas para sua vantagem.
A colonização alemã no Vale do Itajaí é bastante significativa para tratar
dessa categoria. O objetivo aqui certamente não é focalizar negócios étnicos
(ethnic business) na sua dimensão econômica e individual. Pretende-se olhar
para empreendedores com interesses econômicos e políticos conectados à
etnicidade teuto-brasileira. Existem estudos sobre empresas étnicas, sobretudo
nos Estados Unidos, onde são bastante comuns, que enfatizam a estrutura de
oportunidades confrontando imigrantes nas sociedades capitalistas ocidentais,
assim como a distribuição de recursos e as formas pelas quais são acessíveis às
minorias (imigrantes ou não). Em geral, o enfoque recai no pequeno empresário
que se volta para um mercado específico e onde os atores sociais são
comerciantes, trabalhadores e consumidores étnicos e/ou imigrantes. Os
estudiosos procuram olhar para o funcionamento desse mercado analisando os
laços entre indivíduos e grupos com identidade comum, as redes sociais que
mostram a mobilização dos empresários, as estratégias etc., dando especial
atenção aos contextos imigratórios.16
Os primeiros empresários que se estabeleceram no Brasil após a abertura dos
portos em 1808 eram comerciantes dedicados à exportação de café e à importação
de artigos diversos da Europa. Formavam um grupo coeso no Rio de Janeiro, onde
foi fundada a primeira associação étnica alemã do Brasil - Gesellschaft
Germania - em 1821. Ao longo do século XIX, outros alemães se fixaram em
cidades brasileiras na mesma atividade e também como empresários do transporte
marítimo. Isso aconteceu na capital de Santa Catarina e no porto de Itajaí.
Estes grupos ascenderam socialmente e também fundaram suas sociedades
"Germania", talvez com um sentido mais elitista do que suas congêneres das
áreas coloniais. O crescimento desse comércio pode ser vinculado ao interesse
alemão no mercado sul-americano, expandido no período histórico aqui
considerado. Isso produziu a circulação de bens e capitais, abrindo no país de
acolhida espaço para mercadorias do país de origem. Esse tema teve amplo espaço
na literatura sobre a colonização alemã, sendo defendida uma intensificação da
imigração para tornar tais atividades de natureza econômica mais expressivas.
Autores alemães e teuto-brasileiros que defenderam o aumento da imigração
também falavam da germanidade. Na medida em que a Alemanha unificada entrou na
disputa imperialista, em fins do século XIX, a sobreposição de interesses
econômicos e etnicidade ajudou a dar respaldo ao discurso nacionalista
antigermânico, alimentado também pela doutrina Monroe, em parte criticada, mas
igualmente aceita como defesa contra os interesses europeus na América do Sul.
Falava-se em "perigo alemão" que alardeava o risco de perder o sul do país,
cheio de colonos seduzidos pelo pangermanismo. O interesse econômico existia de
ambos os lados; o mercado, porém, foi "etnizado" nas principais publicações
sobre as colônias que circularam naquele período.
Não foi diferente no Vale do Itajaí, onde as atividades comerciais eram
dominadas por uma elite teuto-brasileira (imigrantes naturalizados). Os
primeiros relatórios sobre a colônia Brusque, por exemplo, parecem indicar a
tendência de predomínio de brasileiros nessa atividade, mas isso não se
confirmou, predominando os empresários teuto-brasileiros. Os projetos coloniais
não atraíram investimentos de brasileiros nessa área, talvez por causa da
situação de frente pioneira, com vias de comunicação precárias. As primeiras
casas comerciais surgiram em lugares destinados ao povoado sede de cada núcleo
colonial. Funcionavam como ponto de abastecimento de alimentos para imigrantes
que aguardavam a concessão de terra e lugar de trocas com os colonos já
estabelecidos (compra dos excedentes da produção colonial e venda de
equipamentos e outros bens). A relação comercial com os colonos estabeleceu uma
polaridade rural-urbana característica de contextos camponeses. Aos poucos,
apareceram pequenos comerciantes nos entroncamentos das linhas coloniais, que
iniciaram suas atividades como proprietários de lote colonial (mantendo, em
alguns casos, as duas atividades). Enfim, desenvolveu-se, com sucesso, uma
exploração agrícola camponesa baseada na pequena propriedade familiar sem
empregados (e também no artesanato), refletida nos relatórios das autoridades
coloniais repletos de estatísticas da produtividade policultora. Nessa
situação, fica evidente a sujeição dos colonos ao monopólio de preços e
transporte imposto por seus compatriotas "vendeiros".
Quem eram esses comerciantes? A política de colonização privilegiou a vinda de
agricultores e artesãos como imigrantes preferenciais. Na prática, entraram
profissionais diversos e, na imigração espontânea, indivíduos que dispunham de
pequenos recursos que permitiram iniciar um negócio. Nas linhas, alguns
imigrantes amealharam dinheiro na atividade madeireira ou operando moinhos que
atendiam a demanda de outros colonos. Por outro lado, a colônia de Blumenau (e,
por extensão, o Vale do Itajaí), por seu perfil identificado com a germanidade,
acentuado por publicações na Alemanha, atraiu imigrantes com perfil de
empresários.
Juntamente com a expansão da área ocupada, e a criação de novas colônias que
adentrou o século XX, formou-se uma rede de comerciantes de origem alemã que
incluía os estabelecidos nas linhas, concentrando as firmas maiores em Blumenau
e Brusque. Houve ampla diversificação com o surgimento de pequenas indústrias e
oficinas de artesãos, mas prevaleceu o estabelecimento dos comerciantes mais
abastados, nas cidades, que iniciaram a industrialização em fins do século XIX.
A relação com os colonos baseou-se na confiança mútua, marcada pelo
pertencimento étnico. A classe dos comerciantes foi a única que enriqueceu no
contexto colonial, mas ela também teve um papel importante na conformação de
uma identidade teuto-brasileira.
O crescimento urbano e a diferenciação social ocorreram ao mesmo tempo num
contexto de desenvolvimento econômico; e a formação de segmentos médios revela
também a heterogeneidade dos imigrantes no que diz respeito à profissão e à
escolaridade. Artesãos de todos os tipos preferiram deixar o lote colonial para
abrir oficinas familiares ou simplesmente atender as demandas por serviços
especializados nas cidades. Por outro lado, a transformação dos produtos
coloniais foi fundamental para a diferenciação interna do campesinato,
envolvendo a posse de moinhos e serrarias. Mas poucos comerciantes de maior
expressão tiveram origem rural ou artesanal. Outros estavam longe do perfil do
imigrante comum porque possuíam recursos e/ou alta escolaridade. A burguesia
industrial teve sua origem na atividade comercial envolvendo importação e
exportação, e possuía uma forte ligação com a Alemanha, e o ponto de partida
para o enriquecimento foi a relação com os colonos. Na prática, os comerciantes
(rurais e urbanos) formaram redes em que, numa ponta, estava o pequeno
"vendeiro" local, muitas vezes um colono, e em outra, aqueles que possuíam o
monopólio dos preços e dos transportes, cuja origem raramente se reportava à
linha colonial.
O crescimento desse comércio, e depois da indústria, reforçou os laços com o
país de origem, apontando para os debates e a literatura sobre os interesses
germânicos no sul do Brasil. Abriu-se o mercado local para produtos alemães, e
o mercado alemão, inclusive o financeiro, para os comerciantes. A
industrialização, por sua vez, abriu o mercado de trabalho especializado para
novos imigrantes mais qualificados. Toda essa movimentação ocorreu após a
emancipação das colônias, com a instalação dos municípios, que trouxe para a
região os "outros" - brasileiros não identificados com a colonização, ocupantes
de cargos públicos e profissionais liberais com interesses políticos na nova
ordem municipal instituída no final do Império.
O advento da República favoreceu a emergência de lideranças políticas teuto-
brasileiras por dois motivos: a naturalização geral, sem burocracia e sem
exigências nacionalistas, assegurada pelo Decreto 58ª de 14/12/1889, e a
permissão de alistamento eleitoral para os naturalizados alfabetizados que não
conheciam a língua portuguesa, via a Decisão 38, de 14/3/1890. Não analisarei
as disputas locais e os interesses políticos das elites teuto-brasileiras
urbanas numa região que se tornou o principal colégio eleitoral do Estado, e de
onde saiu a maioria dos governadores e senadores de Santa Catarina durante a
Primeira República. Mas deve ser observado que tal situação de poder levou o
princípio de germanidade para o campo político17 num momento de exacerbação dos
nacionalismos (alemão e brasileiro) e da influência do pangermanismo com sua
perspectiva transnacional.
Sem dúvida os empresários étnicos formaram grupos de interesse político e
tiveram papel predominante na formatação do Deutschbrasilianertum e da
identidade teuto-brasileira, em consonância com seus congêneres de outras
regiões. Cada grupo com relevância política e econômica tinha um jornal, e as
casas comerciais na rede rural-urbana eram pontos de venda de jornais e outras
publicações periódicas em língua alemã, além de funcionar como locais da
sociabilidade. Dessa forma, o discurso escrito do pertencimento étnico chegou
até o colono comum por intermédio da imprensa e da convivência nas lojas e nas
associações por onde circulava uma ideia de Deutschtum com duplo significado:
econômico, referido ao progresso das colônias como produto do "trabalho
alemão", e principal contribuição de cidadãos exemplares ao país de acolhida; e
étnico, com ênfase na origem alemã e no "direito" de ser cidadão legítimo com
língua e cultura distintas, num país que devia assumir sua pluralidade
cultural.18 A perspectiva da assimilação está ausente do enunciado étnico, e o
duplo pertencimento contido na categoria de identidade (teuto-brasileira)
combina etnicidade (com seu referente de ascendência e cultura) e cidadania (e
seu corolário de fidelidade ao Estado).
Enfim, o uso da etnicidade na política, num momento de consolidação da (então)
pequena burguesia local, evidencia-se na mobilização em torno do cadastramento
eleitoral dos colonos, na medida em que isso foi permitido aos que desconheciam
a língua vernácula, numa rede de relações pessoais dominada por comerciantes e
industriais devidamente naturalizados. No início do século XX, um dos grupos
políticos de Blumenau tentou criar um partido étnico com a rubrica de
Volksverein (ou, em português, União Popular), mas a pressão nacionalista
impediu sua concretização. O Deustschtum entrou na política na voz de teuto-
brasileiros filiados aos partidos convencionais. Seus dois significados podem
ser percebidos no volume comemorativo (o Gedenkbuch) anteriormente mencionado.
Seu editor, Gottfried Entres, era um desses empresários étnicos, proprietário
da Livraria Central, em Florianópolis, com conexões na Alemanha, e que teve sua
empresa depredada numa das manifestações antigermânicas que se seguiram à
declaração da Guerra ao II Reich em 1917. O formato da publicação cumpre o que
está apenso ao título - um olhar sobre o passado e o presente de Santa Catarina
a partir do Deutschtum. O progresso das regiões coloniais (e seu ponto de
partida "pioneiro") sobressai no livro, reforçando o significado prático/
econômico associado à germanidade (na sua versão do "trabalho alemão"); a
política entra em cena por intermédio das lideranças mais em evidência na
época, os irmãos Adolfo e Victor Konder, políticos vinculados ao Vale do
Itajaí, respectivamente governador do Estado e ministro dos Transportes (do
governo do presidente Washington Luis Pereira de Souza). Na formatação da
ideologia étnica, porém, tem maior relevo a reivindicação da diferença
cultural, observada nos diversos poemas distribuídos ao longo do livro, nas
referências enfáticas ao valor das "escolas alemãs", à literatura em língua
alemã, às associações etc. E um breve artigo do editor fecha a publicação
defendendo o Brasildeutschtum, invertendo a prioridade (a outra categoria é
Deutschbrasilianertum, uma referência identitária), mas usando o argumento da
fidelidade do alemão à sua nação de origem (termo tomado no seu sentido
cultural e étnico, sem conotação de pertença política). A ideia de uma nova
Heimat construída, nesse caso em Santa Catarina, perpassa o Gedenkbuch, em que
membros da elite econômica e política teuto-brasileira distinguem-se na ampla
"paisagem cultural" (civilizada) da colonização.
Considerações finais
O transnacionalismo tem sido bastante discutido nos estudos das migrações
contemporâneas, tendo em vista a intensidade dos fluxos e seus reflexos nas
políticas da identidade envolvendo a transposição de fronteiras internacionais.
É considerado um fenômeno distinto da globalização que, nos termos de Kearney
(1995, p. 548), refere-se a processos sociais, econômicos, culturais e
demográficos que tem lugar no interior das nações mas as transcendem. Para
Kearney, o transnacionalismo se sobrepõe à globalização mas tem um alcance mais
limitado. Hannerz (1996, p. 6) também considera o transnacionalismo mais
"modesto" do que globalização, e mais adequado para fenômenos que são muito
variados, mesmo quando eles compartilham a característica de não estar contido
num único Estado. Lembra também que muitas das ligações em questão não são
"internacionais" no sentido de envolver nações, ou Estados, como atores
corporativos; e os atores a considerar são indivíduos, grupos, movimentos,
enfim, a diversidade de organizações. E acrescenta que existe uma certa ironia
no fato do termo transnacional dar atenção ao que ele nega, isto é, a contínua
significação do nacional.
A questão das identidades (nacionais) é crucial na definição do atual Estado-
nação transnacional, como se observa no texto de Schiller e Fouron (2000), mas
este é apenas um dos temas abarcados pelo transnacionalismo. Aqui, a noção de
Estado-nação transnacional não está sendo usada, mas os dados apontam para uma
dinâmica transnacional envolvendo atores sociais que, de alguma forma,
"transitam" entre dois Estados nacionais, desempenhando papel importante na
definição da etnicidade teuto-brasileira. O trânsito pode ser tomado num
sentido mais literal do deslocamento no espaço, ou numa forma metafórica
abrangendo a circulação de ideias. Considero importante destacar essa forma de
transnacionalismo (dada a germanidade do termo) operando no contexto histórico
da imigração alemã, bastante diverso dos fenômenos migratórios atuais porque
estava ligada à colonização e ao povoamento de terras devolutas no sul do
Brasil.
No conjunto de dados sobre a colonização do Vale do Itajaí e nele,
particularmente Blumenau, sobressai o fato de que a imigração, mesmo no século
XIX, não representava necessariamente um rompimento definitivo com o país de
origem. Aliás, o transnacionalismo já estava presente antes mesmo da fundação
da colônia, dadas as conexões de Hermann Blumenau envolvendo o cônsul Sturz, o
marquês de Abrantes e outras autoridades brasileiras, e figuras notáveis dos
meios acadêmicos alemães preocupados com o futuro de seus compatriotas
emigrantes.
As idas e vindas de Hermann Blumenau entre Alemanha e Brasil, antes e depois da
fundação da colônia (em 1850), tinham o propósito de atrair emigrantes e, num
dado momento, o casamento com uma compatriota, objetivo também de colonos
comuns, conforme o relato de Klara Hermann. Se para muitos "colonos" tornar-se
imigrante significava o não retorno à pátria, para outros, certamente os mais
abonados, havia sempre a possibilidade de manutenção dos laços com parentes e
amigos da Alemanha. Além disso, a notoriedade do Vale do Itajaí (como região de
"colonização alemã") está associada à figura pública do seu fundador,
ressaltada nos escritos produzidos sobre seu empreendimento, em geral
publicados na Alemanha. A imagem da territorialização de uma nova Heimat no
Brasil, por sua vez, transformou a região num lugar exemplar, modelo ideal da
germanidade no estrangeiro, assinalado nas publicações de viajantes,
cientistas, pastores (como Gustav Stutzer) etc., e nos poemas e contos
produzidos por literatos alemães e teuto-brasileiros. Aliás, outro personagem
da colônia, tão notável quanto o fundador, foi o naturalista Fritz Müller,
qualificado como "colono alemão" ligado ao Museu Nacional do Rio de Janeiro.
Sua correspondência com Charles Darwin e o reconhecimento de sua obra
científica também tiveram o efeito de tornar a colônia conhecida no exterior.
A persistência do fluxo imigratório e a existência de entidades alemãs voltadas
para os imigrantes, como a sociedade de Proteção que enviou Hermann Blumenau ao
Brasil, e a Haus des Deutschtums, que coeditou o Gedenkbuch organizado por
Entres (1929), contribuíram para a circulação dos ideais da germanidade, assim
como jornais, anuários e outras publicações teuto-brasileiras vendidas nas
casas comerciais, urbanas e rurais. Isso evidencia outros mediadores étnicos -
os comerciantes (e industriais) - que possuíam fortes ligações com a Alemanha,
econômicas ou não, contribuindo para a consolidação de uma identidade teuto-
brasileira. Seu postulado tinha caráter instrumental, político e econômico,
igualmente alimentado pelo mesmo princípio de pertencimento étnico que deu
relevo à crença numa neue Heimat assentada no binômio lar-língua materna e na
percepção da diferença cultural em relação à sociedade nacional receptora. A
dimensão cultural que caracteriza a etnicidade passa pela onipresença da noção
de uma nova pátria territorializada no Vale do Itajaí. E, diante da frequência
com que os literatos teuto-brasileiros usam elementos da paisagem como metáfora
da diferença (cf. Seyferth, 2004), pode-se dizer que na neue Heimat o teuto-
brasileiro é um alemão na sombra da palmeira. Afinal, para Klara Hermann o
único elemento destoante na Joinville colonial (a primeira "cidadezinha alemã"
por onde passou ao chegar ao Brasil) era a Alameda das Palmeiras.
Notas
1 Ver, por exemplo, as coletâneas organizadas por Cohen (1996); Cohen e Layton-
Henry (1997).
2 Os volumes organizados por Barth (1969), Cohen (1974), Glazer e Moynihan
(1975), Hutchinson e Smith (1996), Guiberneau e Rex (1997), e os trabalhos de
Cardoso de Oliveira (1976), Eriksen (1993), Banks (1996) e Fenton (2008)
proporcionam uma visão ampla das abordagens, às vezes conflitantes, a esse
respeito.
3 As biografias ressaltam o título acadêmico (na área da química) e a posição
de classe média (seu pai era engenheiro florestal), bem como a benemerência do
seu projeto de colonização. Ver, Fouquet (1999).
4 Alguns anos depois, Sturz foi demitido do cargo por causa das suas críticas
contundentes à escravidão, apesar da referida incompatibilidade ser
compartilhada por algumas autoridades imigrantistas brasileiras.
5 A emigração de alemães para a América começou ainda no século XVIII, antes da
independência dos Estados Unidos, atendendo à propaganda inglesa que procurou
atrair indivíduos e famílias das denominações protestantes não luteranas.
Havia, portanto, uma tradição de longa duração, continuada ao longo do século
XIX. O verbo "desviar", por sua vez, era conjugado por imigrantistas
brasileiros como o marquês de Abrantes, supondo alguma eficácia da propaganda
de agenciadores e proprietários de empresas de navegação interessados no
transporte dos "colonos".
6 A maioria dos imigrantes tinha poucos recursos, viajando com a família
(portanto, havia crianças e idosos, os mais atingidos pelas doenças decorrentes
da alimentação deficiente). Por outro lado, mesmo ao longo do século XX, a
imigração estava associada à pobreza e, num dado momento (década de 1920), o
imigrante foi (des)qualificado pelo governo brasileiro como aquele indivíduo
que viaja na 3ª classe dos navios.
7 Sobre os princípios que nortearam a colonização baseada na pequena
propriedade familiar, implementado em terras devolutas, ver Roche (1969) e
Seyferth (2009).
8 Os Stutzer são um caso exemplar, entre muitos outros: seus livros tiveram
edições sucessivas entre 1886 e 1924. Num deles (Stutzer, 1886) aponta Blumenau
como destino ideal para os emigrantes alemães.
9 A parte do texto de Lacmann relativa ao Vale do Itajaí foi traduzida e
publicada na revista local Blumenau em Cadernos [XXXVIII (11), 1997], de onde
foi extraído o trecho citado. A expressão deutsche Gebiet - território alemão -
foi mantida no original pela tradutora. A publi-cação original - "Ritte und
Rasttage in Südbrasilien" - foi editada em Berlim por Dietrich Reimer, em 1906.
10 Ver Blumenau em Cadernos [L (6), 2009, p. 17], onde está publicado o
trabalho de Stutzer intitulado "Na Alemanha e no Brasil - Retratos da colônia
Blumenau" (editado originalmente na Alemanha, na forma de opúsculo).
11 As duas efemérides ocorreram, respectivamente, em 2000 e 1999. O trabalho de
Klara Hermann saiu em Blumenau em Cadernos, XLIII (11/12), 2002; XLIV (1/2),
2003.
12 Algumas casas remanescentes, consideradas mais "autênticas" nos padrões
atuais, foram tombadas pelo patrimônio histórico em diversos municípios; e no
contexto arquitetônico de alguns museus, como em Joinville, por exemplo, casas
inteiras foram trazidas das áreas rurais, remontadas e mobiliadas para mostrar
o que era o lar do "colono pioneiro" remediado.
13 Um bom exemplo desse tipo de relato é a história de vida escrita por Karl
Kleine, intitulada "Blumenau de ontem: experiências e recordações de um
imigrante", parcialmente publicada na revista Blumenau em Cadernos, XLI (11/12)
e XLII (1/10).
14 Sobre a importância das publicações periódicas e suas repercussões nas
ideias da germanidade no Vale do Itajaí, ver Seyferth (1982); a literatura,
especialmente a poesia, foi analisada por Huber (1993) e Seyferth (2004).
15 A percepção do "lindo Itajaí" como pátria está assinalada num texto de
Cristina Blumenau, escrito na década de 1930 e publicado em Blumenau em
Cadernos, I (5), 1958.
16 Sobre os modelos de análise relativos aos "empresários étnicos", ver a
coletânea organizada por Waldinger, Aldrich e Ward (1990).
17 Sobre essa questão, ver Seyferth (1994).
18 Nos jornais mais diretamente influenciados pelo pangermanismo - caso do Der
Urwaldsbote - a reivindicação do direito à diferença assumiu contornos
racistas, defendendo a pureza étnica.