Experiência social e crítica em André Gorz e Axel Honneth
O presente artigo tem como objetivo apresentar algumas reflexões em torno do
conceito de experiência social a partir de alguns textos de André Gorz e Axel
Honneth. Pretendemos mostrar que o conceito de experiência cumpre um papel
significativo para a teoria crítica da sociedade, desde o seu momento
originário na Escola de Frankfurt. A experiência pode se constituir, no
contexto de uma nova etapa do capitalismo tardio, como um conceito-chave para
que a teoria social mantenha presente seu horizonte emancipatório e normativo,
bem como para que possamos, em face de um estágio hoje avançado e diferenciado
de dominação capitalista, pensar ainda sobre a emancipação humana e a ideia de
utopia.
O conceito de experiência social revela um latente conteúdo normativo e utópico
que demarca, embora nem sempre explicitamente, diferentes momentos da Teoria
Crítica. Importante para a primeira geração de pensadores da Escola de
Frankfurt, o conceito de experiência tem assumido novas conotações na obra de
pensadores que, de maneiras distintas, empreendem uma teoria crítica da
sociedade. Entendemos que as obras recentes de André Gorz e de Axel Honneth
fornecem elementos teóricos pelos quais podemos reelaborar o conceito de
experiência tomando como referência, de um lado, os problemas originários
suscitados pela Teoria Crítica e, de outro, um contexto histórico marcado por
severas transformações no capitalismo mundial, principalmente ao longo das três
últimas décadas.
No âmbito da Teoria Crítica o conceito de experiência adquire sentido próprio
em relação ao modo com que é postulado, pois visa precisamente afastar-se da
ênfase positivista, que situa tal conceito como decorrência da aplicabilidade
do método como instância superior do processo de investigação da realidade, ou,
como critério, a partir das regras positivas da ciência, para se chegar à
verdade. A Teoria Crítica, já em suas primeiras formulações, propõe
desmistificar tal uso restritivo do conceito de experiência, ao procurar
construir uma teoria normativa que tome como base precisamente experiências
sociais pré-teóricas e pré-científicas, elementos-chave não só para o
empreendimento da crítica imanente, mas também para a formação de uma teoria
normativa.
São tais experiências, precisamente, que permeiam o ensaio paradigmático de
Horkheimer sobre a Teoria Crítica (1983 [1937]). Esta assumiu ali o caráter de
autocrítica de um determinado momento histórico, qual seja, o desabrochamento
do capitalismo tardio, cujos desdobramentos nas duas décadas subsequentes são
bastante conhecidos. Pretendemos mostrar que embora o conceito de experiência
não tenha deixado de permear todo o desenvolvimento histórico da Teoria
Crítica, nas duas décadas posteriores ao momento originário dos anos de 1930, a
noção de experiência social deixou de se mostrar como uma temática teórica
explícita, notadamente nas reflexões de Adorno e Horkheimer. Entendemos que a
obra de Axel Honneth, e sua teoria do reconhecimento, trazem novamente o
conceito de experiência para o centro do cenário teórico contemporâneo, embora
apresente inúmeros problemas que podem se tornar frutíferos quanto à análise da
relação entre dominação e emancipação na sociedade contemporânea.
Iniciamos este ensaio com uma rápida apresentação sobre o como o conceito de
experiência surge em diferentes momentos do pensamento de Theodor W. Adorno
quanto à categoria do "não idêntico", que norteia toda nossa reflexão. Ela só é
elucidada, entretanto, no âmbito da dialética negativa adorniana. A segunda
parte aborda reflexões empreendidas por André Gorz em suas últimas obras, que
trazem à tona, com muita clareza, o conceito de experiência como algo sobre o
qual podemos pensar a utopia, mesmo no capitalismo avançado, a partir das
contribuições da fenomenologia, particularmente de Sartre. Em seguida,
apresentamos os contornos fundamentais da teoria crítica do reconhecimento de
Honneth, explicitando o modo pelo qual o autor recupera a importância do
conceito de experiência, resignificando-o para o contexto de sua própria
teoria. Aqui devemos dar atenção especial às suas recentes elaborações quanto
ao conceito de reificação, na medida em que também este remete para
problematizações que tencionam a teoria crítica com a fenomenologia, neste
caso, na versão heideggeriana. Por fim apresentamos nossas considerações
finais.
I
Walter Benjamin estabeleceu a distinção entre os termos Erfharung e Erlebnis
para mostrar o que ele entende ser uma perda da experiência. Erfharung refere-
se a um tipo de experiência que se enfraqueceu com o capitalismo moderno, como
Benjamin mostra nas primeiras linhas do ensaio "Experiência e pobreza" (1985b).
A sociedade moderna assistiu à perda de certa narratividade espontânea que
mostrava uma forma sintética de experiência e que era, ao mesmo tempo, uma
experiência coletiva. Assim, nas narrativas passadas de uma geração à outra a
Erfharung mostrava-se como a arte de contar, algo perdido pela modernidade. De
que forma, por exemplo, os mais velhos, em uma sociedade esfacelada, poderiam
lidar com a juventude invocando a sua experiência?
Não está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso
numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis
experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como
parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado
silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências
comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o
mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências
transmissíveis de boca em boca (Benjamin, 1985c, p. 114).
Por outro lado, a Erlebnis se mostra como a experiência do indivíduo solitário,
refletindo uma experiência vivida restrita à sua individualidade. Este conceito
nos parece relevante justamente porque introduz a possibilidade de pensarmos
que a experiência vivida, de um modo geral, não indica necessariamente uma ação
autônoma. Embora a incursão de Benjamin nestes pequenos textos1 aponte de modo
geral para a dimensão da narratividade, tais considerações sobre a perda da
experiência serão bastante influentes sobre o pensamento de Adorno (Jay, 1999).
Também para Adorno o conceito de experiência surge principalmente na dimensão
da experiência estética, mas entendemos que não apenas nela. Segundo Adorno, a
experiência no sentido de Erfharung se perde nas circunstâncias, generalizadas
pela sociedade administrada, em que o indivíduo se torna incapaz de perceber no
particular a dimensão da totalidade, subsumindo-se à lógica da identidade. É
evidente que Adorno tem clareza de que tal conceito de experiência já estava
presente em Hegel, que, como veremos adiante, é ponto de partida para o
pensamento de Axel Honneth. Na visão de Adorno (1981) a concepção de Hegel não
se refere a uma experiência isolada e muito menos à percepção sensível como o é
para empiristas como Hume, mas se refere a algo que ocorre na relação entre os
sujeitos e entre estes e o mundo. Assim, a experiência significa o sujeito
deparando-se com contradições impostas pela própria realidade, e não apenas
pelo pensamento.
A experiência social é, desse modo, algo que expressaria o próprio sentido da
Teoria Crítica: realização de uma crítica imanente e base de uma teoria
normativa. Ela se refere aos aspectos pré-teóricos colocados pela própria
realidade e que possibilitam a apreensão dos interesses potencialmente
emancipatórios de indivíduos e grupos sociais em um determinado momento
histórico. Enquanto nos anos de 1930 esses interesses foram identificados em
setores do proletariado, na década seguinte, Adorno começa a lidar com uma
expressão privilegiadamente estética da experiência. Mas ele não irá perder de
vista a centralidade desse conceito para a Teoria Crítica. Em 1968, em uma de
suas últimas intervenções, diz Adorno no contexto de uma crítica ao
positivismo:
Eu não titubearia em definir uma teoria dialética da sociedade como o
restabelecimento, ou, dito de modo mais modesto, a tentativa de
restabelecer a experiência obstruída, seja pelo próprio sistema
social, seja pelas regras da ciência. Pode-se dizer que, para ser
incisivo, o que procuro apresentar aos senhores é uma espécie de
fundamento de uma rebelião da experiência contra o empirismo, para
usar uma formulação mais aguda (Adorno, 2008, p. 142).
Quando tentamos vislumbrar elementos utópicos no pensamento de Adorno,
percebemos, sobretudo nos textos que não se ocupam diretamente de polêmicas
sociológicas, que os indivíduos podem manifestar impulsos quase inconscientes
perante a dominação do universal. Tais impulsos encontram-se no cotidiano, em
experiências fragmentadas e múltiplas, e manifestam a concretização do momento
dialético do não idêntico. Essas experiências já não são mais apreensíveis como
vivência de uma classe, mas como experiências individuais que revelam sobretudo
o sofrimento humano. O fato de serem individuais não significa, entretanto, que
a experiência não seja social; como tal, ela se reporta ao outro, mas também à
perda deste, quando não o reconhecemos como outro ser humano. Entre outros
exemplos possíveis, podemos mencionar aqui um dos aforismos de Mínima Moralia
acuradamente analisado por Gabriel Cohn (2003), intitulado "Para uma dialética
do tato" (Adorno, 1992, p. 19).
A experiência com conteúdo utópico para Adorno não se reduz, em nosso
entendimento, tão somente ao ato da contemplação de uma pintura ou ao momento
de escutar um concerto de Schoenberg, mas pode se manifestar de outras
maneiras. As experiências que revelam a inconformidade, a rebelião do sujeito,
ou do que restou dele, efetivamente só se compreendem mediante o recurso à
categoria de totalidade, e isto significa reconhecer nos eventos singulares a
própria indistinção desta totalidade. Tal categoria não representa algo
afirmativo e estrutural, como para Lukács (Camargo, 2006a, p. 32), mas um
recurso por meio do qual podemos apreender na realidade social a onipresença da
mercadoria.
A totalidade para Adorno é a um só tempo uma categoria crítica e histórica;
portanto ela também é falsa, porque em sua objetividade se expressa o modo de
produção capitalista. O verdadeiro é, assim, o não idêntico, que pode se
expressar em experiências de recusa deste todo (como são para André Gorz as
experiências fenomenológicas do amor, da amizade e da criação artística), mesmo
que não absolutamente consciente da totalidade do capitalismo. O que ocorre no
capitalismo tardio é que a subjetividade vai se tornando impossibilitada de
ultrapassar o momento efêmero do singular, isto é, de relacioná-lo criticamente
ao universal que se expressa, tanto para Adorno como para Marx, na forma de
mercadoria. Em um de seus ensaios sobre música Adorno afirma:
Sumariando a diferença: em Beethoven e na boa música séria em geral '
nós não estamos nos referindo aqui à má música séria, que pode ser
tão rígida e mecânica quanto a música popular ' o detalhe contém
virtualmente o todo e leva à exposição do todo, ao mesmo tempo em que
é produzido a partir da concepção do todo. Na música popular, a
relação é fortuita. O detalhe não tem nenhuma influência sobre o
todo, que aparece como uma estrutura extrínseca (1986, p. 119).
Aquilo que Adorno achava possível ser ainda encontrado na experiência com a
alta cultura do modernismo poderia também ser observado em outras experiências
cotidianas2. Em uma interpretação bastante original sobre o pensamento de
Adorno, Honneth (2005) reconsidera algumas teses que havia proposto sobre o
autor em The critique of power (1991), traçando um esboço da teoria da
sociedade de Adorno com base na leitura, sobretudo, dos textos que não são
explicitamente dedicados a temas restritos ao universo sociológico. Para
Honneth o conceito adorniano de fisionomia social torna possível entendermos o
propósito original do autor como uma hermenêutica da catástrofe sociocultural,
fortemente inspirada pela teoria weberiana do "tipo ideal". Aquilo que Adorno
desde seu discurso inaugural (1931) propunha como crítica, e que ressurge na
Dialética negativa como constelações conceituais, diria respeito ao
procedimento adotado por ele no sentido de criação de um modelo, destacando-se
aspectos relevantes da barbárie cultural burguesa, com o qual fosse possível
criar uma fisionomia do que o autor denominava "forma de vida prejudicada".
No exame desta vida danificada pela reificação exacerbada, Adorno inspirou-se
no pensamento freudiano, inclusive no próprio conceito de neurose, para
demarcar que os aspectos da vida humana que indicam sofrimento, enquanto busca
represada de felicidade, também apontam para formas de recusa, revolta e de não
identidade, por intermédio das quais os indivíduos se posicionam perante os
danos engendrados pela catástrofe. A menção constante que Adorno faz à infância
leva Honneth a sugerir que existe aí "uma fisionomia da forma de vida
capitalista ancorada numa imagem normativa da infância" (2005, p. 23). Sabemos
que Honneth, contudo, irá elaborar seu próprio modelo de não identidade,
constituindo uma filosofia social informada por bases epistemológicas distintas
daquela da primeira geração de frankfurtianos.
A ênfase de Honneth quanto ao não idêntico em Adorno se refletirá na elaboração
de sua teoria do reconhecimento, que, embora partilhe o paradigma da
comunicação habermasiana, recupera elementos significativos da primeira geração
de frankfurtianos. Mas as questões suscitadas acima não são privilégio dos
pensadores dessa escola.
II
Ainda que distante da tradição da teoria crítica da Escola de Frankfurt, André
Gorz propõe uma teoria social de orientação crítica e normativa que traz
contribuições das mais significativas para a compreensão da modernidade e das
transformações do capitalismo nas últimas décadas. Autor de uma vasta obra que
traz contribuições explícitas quanto às transformações do mundo do trabalho,
Gorz também elaborou uma macroteoria que pudesse dar conta de uma compreensão
ampla da sociedade moderna e sua transformação recente a partir dos parâmetros
trazidos pela própria racionalidade moderna no sentido claramente criticado por
Weber (Camargo, 2006b).
Inspirado inicialmente pela normatividade marxiana, Gorz também se ocupa do
mote originário de uma teoria crítica ' a relação entre dominação e
emancipação. A partir de Adeus ao proletariado ([1980] 1987) seu pensamento
direciona-se para entender como se dará a emancipação humana em uma sociedade
em que o trabalho industrial moderno já não pode mais ser concebido como
epicentro de produção da riqueza ou da sociabilidade humana. Essa interpretação
acarreta a impossibilidade de pensarmos em um sujeito histórico coletivo nos
moldes em que o diagnosticara o primeiro Lukács. Em duas obras, traduzidas
recentemente para a língua portuguesa ' Metamorfoses do trabalho (2003) e
Misérias do presente, riqueza do possível (2004a) ', Gorz sedimenta uma visão
bidimensional de sociedade com base na distinção de diferentes tipos de
racionalidade, mostrando os aspectos principais de sua crítica do capitalismo.
É justamente em tais obras que encontramos não apenas proposições políticas bem
definidas, como também a sugestão de que o conceito de experiência tem um papel
fundamental para a constituição de mecanismos de resistência ao capital e sua
racionalidade econômica. Não obstante, tal sugestão não reaparece com clareza
em seu livro mais recente, O imaterial (2005). Aqui, Gorz já não dá a mesma
ênfase às teses centrais explicitadas nas duas obras anteriores, notadamente a
bidimensionalidade da racionalidade e da sociedade, nas quais se pode observar
uma clara relação entre emancipação e experiência. A ideia de emancipação
adquire, pois, novas possibilidades, associadas aos conceitos de general
intellect e intelectualidade de massa, o que não será tratado no âmbito
restrito deste artigo.3
Em Metamorfoses do trabalho a crítica central de Gorz é quanto ao papel do
trabalho na modernidade. Diferentemente de Marx, que sobretudo em suas
primeiras obras concebeu o trabalho humano como o núcleo ontológico por meio do
qual apreendemos não apenas os processos de dominação capitalista, mas também a
potencialidade para a emancipação, Gorz mostra que todo trabalho com finalidade
econômica se caracteriza por uma forma específica de racionalidade, sempre
voltada para o mercado ou para o valor de troca. Isso significa dizer que todo
trabalho com finalidade econômica está destinado à heteronomia.
Assim, a tese gorziana da racionalização econômica busca explicitar que o
próprio trabalho, sempre que sustentado por uma finalidade econômica, é que
engendra a limitação da liberdade dos indivíduos (Gorz, 2003). Uma sociedade
livre passa necessariamente pela abolição do próprio trabalho ou por sua
redução gradativa, até que os seres humanos possam produzir suas vidas mediante
uma racionalidade outra. Também os elementos utópicos do pensamento de Gorz são
diretamente dependentes desta concepção de racionalidade heterônoma que
acompanha o trabalho na modernidade. Essa outra racionalidade, garantidora de
autonomia, só poderá ser conquistada em uma sociedade em que o trabalho não
seja o epicentro da vida humana.
Os diferentes tipos de racionalidade que Gorz entende estar presente na
sociedade moderna possibilitam comparar seu pensamento com o de Habermas, a
relação entre autonomia e heteronomia e a importância das noções de tempo e
temporalidade como categorias não apenas sociológicas, mas também filosóficas.
A primeira grande proposição política de Gorz não se restringe a uma luta pela
redução da exploração no trabalho, mas clama pela ampliação do tempo de vida
humano no sentido de possibilitar experiências desvinculadas da racionalidade
econômica, sendo esta a expressão de uma autonomia possível.
Há experiências que tomam lugar no mundo da vida, segundo ele, que são
potencialmente emancipatórias quando as ações empreendidas pelos indivíduos se
colocam como uma forma de resistência quanto à sua própria identidade social.
Assim, enquanto para Habermas (1987a) no mundo da vida os indivíduos expressam
uma identidade a partir do comportamento condizente a determinadas normas
morais institucionalizadas, pois agem com base em padrões culturais que lhes
possibilitam o alcance do entendimento por meio de sua ação comunicativa, para
Gorz este mundo da vida só torna possível a constituição de um sujeito autônomo
porque há experiências que o apartam de sua própria identidade coletiva.
Conforme o autor, ao polemizar com Habermas quanto ao conceito de Lebenswelt:
Eis por que preferi partir da experiência vivida para explicitar, por
meio da análise existencial (fenomenológica), aquilo que no sentido
(isto é, na intenção) original de um certo número de atividades
torna-as incompatíveis com a racionalidade econômica. Esta diferença
de método faz com que a racionalidade econômica nos pareça
inaplicável, do ponto de vista do sujeito' isto é fundada a evidência
na compreensão vivida ', a uma série de atividades e de relações
impossíveis de serem subsumidas sob o conceito de "reprodução
simbólica do mundo da vida" ou de "razão comunicacional" (2003, p.
170).
Tanto em seu livro Metamorfoses do trabalho como em Misérias do presente,
riqueza do possível, Gorz insiste que a possibilidade de autonomia está em o
indivíduo externar certa singularidade, não identificar-se às normas e ao
grupo. No primeiro, o sujeito é tanto mais autônomo quanto mais resiste,
revolta-se, envolve-se com atos criativos e não permite que sua identidade seja
subsumida pelas normas institucionalizadas (2003, p. 173). No segundo, há em um
longo excurso sobre as diferenças entre Habermas e Touraine, em que ele volta a
postular, embora de modo diverso, a ideia de que um sujeito livre se constitui
a partir de seus momentos de não identidade. Sua noção de experiência continua
apoiando-se com forte ênfase em uma visão dual de sociedade, em que o não
idêntico só aparece na esfera do mundo da vida. Assim como todo o seu
pensamento desde Adeus ao proletariado, a perspectiva emancipatória não tem na
esfera do trabalho a sua possibilidade, senão a própria emancipação do
trabalho. Esta temporalidade que possibilita formas de não identidade recorrerá
explicitamente a uma base fenomenológica em que a questão suscitada são as
experiências existenciais, o que aparentemente separa a apreensão de Gorz
daquilo que Adorno nomeava como não idêntico.
Em O imaterial, as formulações fenomenológicas que marcam toda a obra do autor
já não aparecem com tanta clareza. Gorz retoma um tema central de suas duas
obras anteriores, qual seja, a proposição normativa quanto a uma renda de
existência, algo, aliás, compartilhado pela maior parte dos teóricos do
capitalismo cognitivo (Gorz, 2004b). No que se refere à condição emancipatória,
a proposta de uma renda universal básica, desvinculada do trabalho com
finalidade econômica, apresenta-se como imprescindível para a constituição de
uma nova sociedade. Por outro lado, um caminho que hoje nos parece frutífero e
problemático para investigações no âmbito da teoria social se refere ao tipo de
experiência existencial, cultural, que tem tomado lugar em uma sociedade que
caminha para o que Gorz, em alguns momentos, chama de comunismo do saber.
A necessidade cada vez maior de os indivíduos, para se sentirem integrados à
sociedade, estarem conectados leva-nos a pensar como eles exercem a sua
"recusa", como diz o próprio Gorz, os seus dotes de criação artística e
intelectual. Certamente não estamos mais no âmbito da experiência cultural da
modernidade, mas de uma experiência que só se dá mediante novas formas de
sociabilidade em rede, centradas no trabalho imaterial.
A suposição de Gorz é de que o saber cotidiano adquirido como experiência de
vida é comunicável e potencialmente cooperativo, resistente aos propósitos da
racionalidade capitalista. Este saber, entretanto, apresenta-se como algo
sempre positivo, decorrente de um pensamento criativo e autônomo, o qual, pela
própria existência, já é um sintoma daquilo que se constituirá como
intelectualidade de massa (2005, p. 32). O problema reside no fato de a
distinção feita por Gorz entre conhecimento e saber ser ainda insuficiente para
supormos a ideia moderna de autonomia (Aufklårung). Seria também necessário
distinguir os diferentes saberes mobilizados pelos indivíduos, pois estando
eles relacionados principalmente com o que ocorre na esfera cultural, está
implícita a referência a uma subjetividade que tem sido permeada por novas
formas de reificação, correspondentes a uma nova configuração do capitalismo.
Aquilo que Benjamin chamava de perda da experiência (Erfharung), ao se referir
à narrativa moderna, coloca-nos diante do tipo de experiência da linguagem que
acompanha o trabalho imaterial, como é o caso do hipertexto. Os aspectos
comunicacionais da sociedade enfatizados pelos pensadores do capitalismo
cognitivo também precisam ser problematizados no sentido de que a sociedade em
rede tende a modificar e a simplificar a linguagem não visível em etapas
anteriores da história do capitalismo. Atualmente, o privilégio da imagem como
aspecto crucial de valor de troca não quer dizer que devamos deixar de
problematizar a relação entre a reificação da indústria cultural e o domínio da
linguagem.
A inflexão fenomenológica da noção de experiência apontada por Gorz, embora
procure indicar um limite da própria abordagem sociológica, encontra em seu
pensamento um escopo normativo coerente, na medida em que suas proposições de
redução do tempo de trabalho e uma renda universal suficiente se apoiam no
pressuposto de que é necessário desvincular riqueza do tempo de trabalho,
produtor de valor e medidas que propiciam o alargamento do tempo livre, do
lazer e de formas de trabalho não heterônomo. Suas propostas incidem ainda
sobre a possibilidade de que as experiências livres possam ocorrer de forma
mais constante, expressando uma emancipação factível com o curso presente do
capitalismo. Por outro lado, tais experiências, que em sua última obra são
identificadas com o conceito de saber, deveriam ser, a nosso ver, mais
claramente elucidadas quanto ao tipo de experiência que efetivamente revela a
noção adorniana do não idêntico. Aí vislumbramos uma limitação das concepções
bidimensionais de sociedade, tanto de Gorz como de Habermas.
Ainda assim, a influência de Sartre sobre o pensamento de Gorz
surpreendentemente o aproxima da maneira pela qual Benjamin e Adorno trataram o
conceito de experiência. Embora ele apareça de forma fragmentada na obra desses
autores, cumpre um papel fundamental quanto ao modo pelo qual o interesse
original da teoria crítica, a emancipação, se mantém vivo em suas obras, apesar
dos contornos pessimistas que sobretudo a obra de Adorno veio a tomar. Em
Misérias do presente, quando começa a comparar Habermas e Touraine, Gorz
demonstra não só a sua admiração pelas ideias de Touraine, mas também se
aproxima do pensamento de Adorno ao se referir à relevância da teoria crítica
na formulação de Axel Honneth:
Por sua vez, a maneira pela qual Axel Honneth reinterpreta a teoria
de Habermas inova e renova a teoria crítica de modo fecundo. Honneth
concede importância crucial àquilo que Adorno chamava o "não
idêntico" [...]: isto é, as atividades e relações pelas quais o
sujeito recusa identificar-se a um papel, a uma função ou a uma
utilidade social [...]. Para Honneth, o não idêntico não é
simplesmente (como para Adorno) uma dimensão residual; ao contrário,
nas sociedades modernas ou pós-modernas, é uma dimensão da
experiência individual que pode tornar-se central e lançar as bases,
ao mesmo tempo, de uma crítica da sociedade e de uma oposição à
racionalidade instrumental (Gorz, 2004a, p. 147).
É preciso ainda refletir sobre o otimismo que marca as ideias de Gorz acerca de
um comunismo do saber. Essa noção deve ser contrastada com as reflexões acerca
do conceito de pós-humano, presentes no último capítulo de O imaterial, a
partir do qual podemos pensar que o imaterial transita entre uma utopia e uma
distopia. A gestação do cyborg que já havia sido anunciada por um texto célebre
de Donna Haraway (1991) é um desdobramento visível da tese acerca do capital
humano. A inteligência artificial, que passa a constituir-se também como vida
artificial, altera ainda mais radicalmente aquilo que podemos chamar de
experiência, pois o surgimento do cyborg significa em última instância algo que
vai bem além da ideia de "segunda natureza" proposta por Lukács e pelos
frankfurtianos. Trata-se, nesse caso, de uma situação limite entre o humano e o
pós-humano, na qual o conceito de experiência pode representar um termo
fundamental.
III
Em seu livro mais expressivo, Luta por reconhecimento: a gramática moral dos
conflitos sociais(2005), Honneth desenvolve sua teoria crítica do
reconhecimento. Com ela, deu-se um passo significativo para a constituição de
uma teoria social com conteúdo normativo, capaz de explicar no âmbito da
filosofia social as causas e as origens das formas de desrespeito (feelings of
social disrespect), as experiências de injustiça existentes na sociedade
moderna e, por conseguinte, a origem dos conflitos sociais delas decorrentes.
Diferentemente de Habermas, para Honneth as ações emancipatórias, tal como
aquele as concebe, encontram uma explicação muito abstrata. A ação comunicativa
é voltada para a obtenção do entendimento por meio da linguagem. Na visão de
Honneth ela mostraria, tanto empiricamente, como na dimensão de uma reflexão
pré-teórica, certa deficiência por não estender o escopo da teoria ao campo da
própria experiência (Honneth, 1994, p. 262). Para o autor, a experiência moral
substitui a análise centrada na separação entre sistema e mundo da vida. A
intersubjetividade, que continua a ser o ponto de partida da interação, refere-
se a um modelo conflitual, em que os indivíduos agem pragmaticamente no
universo de uma luta, cuja finalidade é não a obtenção do consenso, mas a
aquisição do reconhecimento. Sua intenção é formular uma teoria da
normatividade moral capaz de explicar as causas dos conflitos sociais (Silva,
2008, p. 95).
Os pontos de partida de Honneth (2005) são os escritos do jovem Hegel e de
Mead, aportes necessários para uma teoria da intersubjetividade. Quanto a
Hegel, Honneth aponta para o fato de que em seus primeiros escritos na cidade
de Iena o filósofo alemão desenvolve a tese de uma luta por reconhecimento como
ponto de partida para a formação do espírito, sendo o espírito subjetivo o
momento inicial de constituição do indivíduo:
Na primeira parte de sua análise filosófica, o procedimento
metodológico de Hegel consiste em reconstruir o processo de formação
do espírito subjetivo, ampliando-o passo a passo de modo que abranja
as condições necessárias da autoexperiência da consciência
individual; o resultado desse procedimento reconstrutivo deve
esclarecer quais experiências, repletas de exigências, um sujeito
precisa ter feito no todo antes de estar em condições de conceber-se
a si mesmo como uma pessoa dotada de "direitos" e, nessa medida,
poder participar então na vida institucionalmente regulada de uma
sociedade, isto é, no espírito "efetivo" (Honneth, 2005, p. 73).
Aos três momentos hegelianos de formação do espírito subjetivo em sua passagem
ao espírito efetivo, corresponde em Honneth a três formas de reconhecimento,
pautadas por amor, direito e solidariedade. Para a formulação e a compreensão
das injustiças sociais, e a proposição de uma sociedade justa, é preciso
inicialmente explicar em que circunstâncias ocorrem as situações de humilhação
e injustiça. Tais situações referem-se a um tipo de experiência não mais
situada pelos parâmetros da filosofia do sujeito, e que também não podem ser
consideradas cognitivas (Honneth, 2008a, p. 40). São as experiências de "não
reconhecimento", impostas pela forma da intersubjetividade, que impõem a luta
por reconhecimento, como já mostrara Hegel, e a positividade jurídica de tal
reconhecimento dependerá da apreensão por parte dos indivíduos quanto às
circunstâncias de não reconhecimento. É desse modo que Honneth cria uma
tipologia das formas intersubjetivas de reconhecimento:
De forma simplificada, a tipologia diz que na dimensão das relações
primárias, as formas de reconhecimento são amor e amizade; na
dimensão das relações jurídicas são os direitos; na dimensão da
comunidade de valor é a solidariedade. Para cada uma dessas formas de
reconhecimento, há uma auto-relação prática (autoconfiança, auto-
respeito e auto-estima). A violação ou impedimento dessas relações
sociais de reconhecimento traduz-se em formas de desrespeito, que
correspondem respectivamente a maus-tratos e violação; privação de
direitos e exclusão; degradação e ofensa (Silva, 2008, p. 98).
Buscando se desvincular dos traços idealistas de Hegel, Honneth encontra em
Mead os elementos de um conceito de intersubjetividade que pretende superar a
metafísica moderna e que se torne uma espécie de psicologia social com bases
empíricas. O autor apropria-se de aspectos da teoria da ação de Foucault, cujo
modelo conflitual aparece como a salvaguarda de uma subjetividade ainda capaz
de autonomia. Tal modelo já se encontra esboçado em The critique of power
(1991).
Ao elaborar sua teoria do reconhecimento Honneth recusa um ponto de partida
contextual para suas premissas, um dos temas de sua controvérsia com Nancy
Fraser (Fraser e Honneth, 2003). Ele entende que a luta por reconhecimento vai
ao encontro da multiplicidade de lutas sociais existentes na sociedade
contemporânea, principalmente ao longo das três últimas décadas, trazendo para
o centro de luta as injustiças "raciais", de gênero, minorias étnicas etc., mas
igualmente as lutas econômicas, que teriam, também elas, na busca por
reconhecimento o seu fundamento moral. Tais lutas, entretanto, não se
constituem como o ponto de partida para o reconhecimento, como se este
estivesse restrito tão somente à esfera cultural, mas, ao contrário, a luta por
reconhecimento é um fundamento moral que antecede o amadurecimento histórico
dessas lutas.
Para Honneth uma teoria crítica do reconhecimento, como novo objeto central da
Teoria Crítica, pressupõe que todo conflito social e, por conseguinte, os
movimentos sociais estejam assentados em algum tipo de injustiça que implica
necessariamente uma luta por reconhecimento. Mas é problemático o pressuposto
de que toda injustiça só se constitui plenamente quando existe percepção
subjetiva (ou intersubjetiva) de seus agentes, mesmo que no plano de percepções
intuitivas e pré-teóricas. Não haveria, assim, distinção nítida entre dominação
e injustiça, ou esta última substituiria aquela (Camargo, 2006c). Da mesma
forma, a exploração é conduzida a uma forma de não reconhecimento relativo à
esfera econômica. Mas qual seria o lugar do conceito de autoexploração, que
também surge como um novo aspecto do capitalismo tardio?
As insuficiências da análise econômica do capitalismo na obra de Adorno,
criticadas por muitos, também permeiam o pensamento de Honneth desde seus
primeiros trabalhos. Segundo ele (1994, pp. 267-268; 2008b), a abordagem
superficial da categoria trabalho deixa pouco explícita a maneira pela qual a
racionalidade instrumental adentra as estruturas atuais do capitalismo. A
relação entre cultura e economia capitalista, tão cara aos frankfurtianos,
também não fica evidente quando se aborda a cultura no sentido da produção de
bens culturais. Embora parte considerável de sua crítica tome como elemento-
chave a relação entre economia e cultura, o tratamento que dá ao conceito,
também neste caso, está muito mais próximo de Habermas do que de Adorno. Ainda
que o reconhecimento preexista filosoficamente às distinções entre o "material"
e o "simbólico", em seu longo debate com Fraser (2003, p. 117) Honneth afirma
que a cultura demarca o campo de reprodução simbólica, principalmente para
explicar as chamadas políticas de "identidade" que perfazem boa parte das
teorias acerca dos novos movimentos sociais.
A proposta de Honneth e Fraser, ao postular o conceito de reconhecimento (e/ou
redistribuição) como aquele em torno do qual deve necessariamente passar uma
renovação da teoria crítica, corresponde efetivamente a uma ordem de problemas
situados no centro de uma teoria social normativa, pois os novos movimentos
sociais também fazem parte do contexto do capitalismo tardio. Por outro lado,
quando recusa a dicotomia habermasiana de sistema e mundo da vida, Honneth em
alguma medida aproxima-se do primeiro Horkheimer e de Adorno ao recuperar o
conceito de experiência, revelando outro aspecto de atualização da teoria
crítica. Mas, ao mesmo tempo, quase não faz referência às experiências de
sofrimento que ainda não se manifestaram historicamente no âmbito coletivo,
embora ele aborde a maneira pela qual a noção de "sofrimento" revela a dimensão
da dominação e sua recusa em Adorno. Mesmo reconhecendo que há injustiças ainda
ausentes do espaço público (Idem, p. 120), em sua argumentação subsequente
Honneth não chega a abordar tipos de experiência social que não sejam
necessariamente lutas por reconhecimento.
O problema da experiência tornar-se-á mais complexo, e propenso a abrir um
leque bem maior de questões a serem pensadas, a partir da leitura de um dos
textos mais recentes de Honneth (2008a). Em Reification, texto tão breve quanto
denso, o autor propõe a recuperação do conceito de reificação, considerando sua
origem lukacsiana e revendo-o não exatamente a partir de um novo contexto
histórico, mas a partir das próprias proposições acima mencionadas de sua
teoria do reconhecimento. Os problemas surgem porque aquilo que apontamos como
experiência moral adquiri um viés fortemente ontológico, que de certo modo
altera as próprias bases discursivas em torno das quais se articulavam até
então as reflexões do autor (Owen, 2008).
Em que consistia o conceito de reificação que marcou profundamente a teoria
social contemporânea? Para Lukács, reificação designava o processo por meio do
qual os produtos da atividade e do trabalho humanos se tornam, em um sistema
coisificado, independente e estranho aos homens, passando a dominá-los por suas
próprias leis. Nesse sentido, a dominação capitalista é vista, com o auxílio da
categoria de totalidade, não apenas como objetividade do processo histórico,
mas também como abarcadora da subjetividade, ocasionando, nesta esfera, perda
de liberdade, autonomia e autodeterminação reflexiva dos indivíduos nos marcos
do capitalismo moderno. Tal fenômeno da reificação apresenta-se como algo geral
e estrutural de toda a sociedade burguesa, cuja base material está expressa na
propagação da forma mercadoria.
O eixo em torno do qual se articulam não apenas o conceito de reificação, mas
também o conjunto dos inúmeros conceitos mobilizados por Lukács em História e
consciência de classe é a tentativa enfática de reafirmar a noção de "práxis"
como sendo aquela que demarca a originalidade do materialismo marxiano na
história da filosofia moderna. Nesse sentido Honneth apreende com clareza o
propósito de Lukács quando afirma que:
Na constante expansão da esfera da mercadoria, os sujeitos são
compelidos a comportarem-se como observadores distantes, antes de
serem participantes ativos na vida social, porque seu cálculo
recíproco dos benefícios que outros devem produzir para seu próprio
lucro requer uma postura puramente racional e impessoal. Ao mesmo
tempo, esta mudança de perspectiva é acompanhada por uma percepção
reificada de todos os elementos relevantes da situação, desde os
objetos a serem trocados até os parceiros da troca, e, por fim, os
próprios talentos pessoais só podem ser apreciados de acordo com o
modo com que suas características quantitativas podem se tornar úteis
na busca pelo lucro (2008, p. 25).
Honneth mostra que para Lukács a reificação se refere à relação dos indivíduos
consigo próprios, com os outros e com a natureza, onde eles são tomados por
coisas, em decorrência da universalização da forma mercadoria. Desse modo, a
reificação é algum tipo de erro moral ou mesmo erro cognitivo, pois ao tornar-
se objetificação resulta em alguma forma de erro ou ilusão. Entretanto,
conforme Honneth (Idem, p. 26), não é exatamente este o caso, pois a reificação
na visão de Lukács seria uma práxis estruturalmente distorcida que possibilita
o surgimento do que ele irá chamar de uma "segunda natureza".
Identificando essa conceituação de Lukács com traços idealistas do filósofo,
Honneth propõe que esta seja a versão oficial do pensamento lukacsiano, mas que
é possível apreendermos em Lukács uma perspectiva diversa, vinculada à ideia de
"práxis engajada" (engaged praxis), ou engajamento existencial, o que ajuda a
problematizar o equacionamento clássico de Lukács sobre sujeito e objeto com o
intuito de, em uma aproximação a Heidegger ' e na esteira de um conjunto de
autores que incluirá Dewey e Cavell ', construir uma visão sobre a reificação
que considere o reconhecimento um privilégio sobre o ato cognitivo.
Conforme Honneth, o conceito de "cuidado" (Sorge) em Heidegger refere-se ao
fato de que o sujeito não se depara com a realidade tendo em mente um sujeito
cognitivo, mas sim algo anterior, isto é, o enfrentamento prático do homem com
o mundo, onde se abre um campo de significação. Há neste conceito uma relação
nitidamente intersubjetiva, estranha ao modelo da filosofia do sujeito, que
traz o reconhecimento como sua implicação principal. Por outro lado, Honneth
entende que paralelamente à versão oficial e produtivista apresentada por
Lukács acerca da reificação, há a ideia de que o ato reificante diz respeito a
hábitos de pensamento caracterizados por atitudes de contemplação ou
indiferença (por isso, contrárias à práxis engajada), em que predominam formas
de reificação do homens em relação a si mesmo, ao outro e ao mundo:
Ambas as alusões, de práxis engajada (Lukács) e de cuidado
(Heidegger), designam a forma de orientação prática especialmente
característica da estrutura do modo de existir "humano". Em oposição
à concepção prevalecente, que tem se tornado uma segunda natureza, e
contra a qual os seres humanos primeiro e constantemente lutam para
conhecer e apreender a realidade de uma forma neutra, os indivíduos
de fato existem em um modo de engajamento existencial, de "cuidado",
através do qual eles descobrem um mundo dotado de significado (Idem,
p. 32).
Identificando ainda o conceito de "envolvimento" de Dewey como outra
contribuição para se pensar a reificação em relação ao conceito de
reconhecimento, Honneth propõe uma nova noção de reificação, qual seja, o
"esquecimento do reconhecimento". Mais uma vez, com base em suas premissas
acerca da primazia da intersubjetividade, ele afirma que reificação ocorre em
situações onde o homem se torna incapaz de reconhecer humanamente o outro
(Mead) ' espécie de amnésia em relação à situação originária de reconhecimento
que tenha servido de base para o próprio processo de sociabilidade. A
reificação também poderia surgir na forma de autorreificação. Para elucidar
como isto se processa, ele recorre aos modelos "detetivesco" e
"construtivista": no primeiro, ganham destaque os atos mentais, como desejos e
sentimentos, que se encontram fixos e petrificados; no segundo, o destaque
recai sobre os atos mentais que, de algum modo, podem ser produzidos de acordo
com o contexto. Em ambos os casos, vale lembrar, tais atos são passíveis de se
metamorfosear em coisas, distanciando-se do ser humano.
A reificação como esquecimento do reconhecimento reforça o mesmo ponto de
partida mobilizado em toda a obra recente de Honneth: a luta por reconhecimento
cria a premissa intersubjetiva que está na base das ações humanas. Mas,
enquanto os sentimentos de desrespeito e injustiça, ou as experiências que os
geram, estão na origem do fundamento moral que fornece uma explicação lógica
aos conflitos sociais, no caso da reificação haveria amnésia e perda dessa
mesma experiência. Após fornecer uma explicação ontogenética sobre como o
reconhecimento necessariamente é o ponto de partida para que a criança
constitua o "eu" no processo de sociabilidade, anterior ao conhecimento do
mundo, Honneth invoca passagens do pensamento de Adorno onde há menção ao fato
de que o acesso cognitivo da criança ao mundo objetivo só ocorre quando o ser
humano se identifica com uma importante figura de ligação "mediante o
investimento libidinal de um outro concreto" (Idem, p. 62). Ele sugere, pois,
que mesmo Adorno corrobora a sua ontogênese do reconhecimento quando se refere
à perda da experiência. Voltamos, assim, à noção inicial do não idêntico como
epicentro da Teoria Crítica.
IV
Procuramos esboçar três visões distintas do conceito de experiência:
fenomenológico (Gorz), dialético (Adorno) e intersubjetivo (Honneth), que
confluem, de certo modo, para a ideia original da Teoria Crítica. Trata-se de
ângulos que apontam para a ideia destacada por Horkheimer (1983) de que a
emancipação depende da apreensão das experiências situadas em um nível pré-
científico, em que a teoria social crítica pode perceber quais as forças
sociais que caracterizam determinado momento histórico. Assim como Horkheimer,
esses três pensadores consideram a sociologia uma disciplina insuficiente para
a apreensão da experiência social.
Enquanto Gorz e Honneth buscam um conteúdo normativo explícito, Adorno
vislumbra na esfera da cultura os resíduos de um pensamento utópico. Contudo,
uma das diferenças cruciais entre eles diz respeito ao conceito de totalidade,
o qual foi recuperado na interpretação jamesoniana da pós-modernidade (Camargo,
2006b). Aqui o fenômeno da cultura já não se distingue claramente do econômico,
embora em Adorno a distinção permaneça enquanto experiência do não idêntico,
que aponta muito mais para a direção do que já está colocado pela realidade do
que o caminho político-normativo a ser adotado.
Nesta breve análise dos aspectos centrais do pensamento de Gorz e Honneth
apreendemos algo a um só tempo sugestivo e perturbador para a Teoria Crítica: a
compreensão da sociedade contemporânea e das condições presentes levando em
conta as contribuições de um viés epistemológico tão distinto como a
fenomenologia. Se Gorz interpreta a relação entre indivíduo e sociedade sem
abrir mão da ideia de liberdade que embasa a reflexão sartreana sobre a
existência humana, o recurso de Honneth a Heidegger para desvelar uma
ontogênese do reconhecimento desafia-nos a repensar a relação entre teoria
crítica e fenomenologia.
Entendemos que a experiência social hoje só pode ser pensada à luz das
transformações econômicas e culturais em curso, que nos situa em uma etapa
diferenciada da história do capitalismo. As teses apresentadas por Gorz e
Honneth são extremamente sugestivas no sentido de refletirmos sobre o papel da
fenomenologia na interpretação dos processos de sociabilidade desta etapa
histórica. A experiência e sua perda estão diretamente ligadas à centralidade
do trabalho imaterial na produção da riqueza capitalista. O tipo de experiência
social que se identifica ao conceito de reificação diz respeito à formação de
um novo tipo de subjetividade, em que os indivíduos, através da rede, da
internet e das novas tecnologias já não são apenas reprodutores dos interesses
produzidos pela indústria cultural, mas cumprem um papel ativo (imaterial) de
produção do seu próprio processo de reificação.
É nesse sentido que também vislumbramos se não limitações, ao menos passos
argumentativos inconclusos em ambos os autores, talvez em decorrência de suas
próprias premissas epistemológicas. André Gorz, inicialmente, postula o momento
utópico no âmbito de um inconformismo existencial (2003; 2004a), avesso às
categorias sociológicas, e mais tarde, em O imaterial, parece transpor a noção
de experiência para o âmbito configurador de uma intelectualidade de massa, sem
esclarecer em que medida o saber, enquanto experiência, se tornou permeado por
processos contemporâneos de reificação. Axel Honneth, por sua vez, ao situar a
experiência como o ponto de partida para a própria constituição do
reconhecimento, pressupõe que só existe reificação quando antes tenha ocorrido
em algum momento o reconhecimento.
Parece-nos que, ao subsumir o mundo à dimensão originária da
intersubjetividade, Honneth encontra dificuldades para entender situações
banais mencionadas recorrentemente por Adorno. Por exemplo: Como se explica o
fato de um sujeito escutar no rádio uma música de péssima qualidade? Isto seria
também o esquecimento do reconhecimento? Se Lukács exagerou em conceituar a
reificação como decorrência da universalização da forma mercadoria, parece-nos
não menos evidente que sem o recurso à categoria da totalidade persista a
ausência de um modelo plausível que explique as inúmeras circunstâncias sociais
em que o indivíduo perde sua possibilidade de autonomia ao naufragar,
ontologicamente, em um "todo que é o não verdadeiro" (Adorno). Embora as
teorias que adotam a intersubjetividade como ponto de partida mobilizem
argumentos convincentes sobre como se tornou possível a própria sociabilidade
humana, seu desdobramento utópico, ou normativo, permanece limitado perante a
constatação de que a emancipação humana é incompatível com a totalidade
representada pelo modo de produção capitalista.
Notas
1 Referimos-nos basicamente aos pequenos ensaios "Experiência e
pobreza" (Benjamin, 1985b) e "O narrador" (1985c).
2 A esse respeito ver Mínima Moralia (1992) e textos sobre música e
estética de Adorno.
3 Para uma análise do pensamento de André Gorz com base nesses
conceitos, ver Camargo (2009), especialmente capítulos 2 e 5.