A sociologia israelense e a crise do consenso sionista
A crise
Em meados dos anos de 1990, Shmuel Eisenstadt (1995) assinalava a
"desintegração" do molde trabalhista-sionista, cujos elementos de nacionalismo
primordialista e revolucionário fundamentaram a construção ideológica de
Israel. Este processo, que se iniciara décadas antes, abriu um vazio
ideológico, a que se somou um pluralismo crescente na sociedade israelense,
levando a um reforço das identidades étnicas entre os próprios judeus e ao
aumento da influência da religião. Associou-se a isso, ainda, a emigração de um
milhão de judeus da antiga União Soviética, com perspectivas bastante distintas
das ondas de emigração anteriores. Esta crise do sionismo trabalhista tem um
momento fundamental na chegada da direita, o partido Likud, ao poder em 1977.
Baruch Kimmerling (2007a, pp. 1-3ss) chegaria a conclusões semelhantes: Israel
enfrenta a decomposição da "hegemonia" trabalhista-sionista e, com forte
pluralidade social emergindo, mergulha em "guerras culturais" desprovida de um
modelo multicultural. Em contrapartida, mantêm-se os arraigados códigos
culturais do "militarismo civil" e de um judaísmo genérico, bem como um Estado
forte interna e externamente.
Por toda a sociedade israelense reverberam essas mudanças. Fortes confrontos
têm tido lugar e novas identidades e problemas, emergido, com muitos
intelectuais e jornalistas assumindo ou sendo-lhes atribuída, muitas vezes
equivocamente, uma posição "pós-sionista", com flutuações em função das
relações político-militares com a população palestina. Destacou-se no debate
intelectual sobre as origens e o destino de Israel o revisionismo histórico de
Benny Morris e Ilan Pappée, que puseram em questão os momentos fundadores do
Estado em 1948 e a "limpeza étnica" dos palestinos, expulsos em massa, o que
estes chamam de al-Nakbah, a catástrofe, gerando o difícil problema dos
refugiados e de seu desejo de retornar (com Morris no entanto defendendo hoje a
inevitabilidade das expulsões, que deveriam, afirma, ter sido mais radicais)
(Shapira e Penslar, 2002; Cypel, [2005] 2006). Articulando a resposta da
direita, alguns denunciam esse pós-sionismo como ameaça ao Estado judeu,
antepondo-lhe a continuação da expansão territorial do país, o apoio à
religião, o reforço da educação judaica e a contínua glorificação do exército
nacional (Hazony, 2000). Outros, no campo do trabalhismo tradicional, afirmam
não haver nada de novo nisso: o pós-sionismo seria o tradicional "anti-
sionismo" (Avneri, 2007).
Com esse pano de fundo, minha meta aqui é delinear aspectos-chave da evolução
da sociologia israelense a partir dos anos de 1980. Alguns demandam uma agenda
pós-sionista (Ram, 1995, pp. 205-207), outros abraçam a crítica, porém
descartam o termo, por sua carga emocional e deficiências explicativas
(Kimmerling, 2007a, p. 7), embora o argumento de que a "Escola de sociologia de
Jerusalém", funcionalista e liderada por Eisenstadt, serviu à construção da
nação e do Estado seja bastante generalizado. Buscando enfrentar as questões
que então emergem, reforçando por outro lado a crise da ideologia sionista, os
sociólogos "críticos", vários marxistas, outros weberianos, trataram de vários
temas: a integração forçada dos novos imigrantes; o poder crescente e
concentrado do aparato trabalhista; as limitações da democracia; a economia
política e os problemas do corporativismo; a desigualdade social e a construção
de uma verdadeira elite de poder, para quem a perspectiva socialista era mera
ferramenta ideológica; o caráter europeu-oriental e exclusivista da ideologia
sionista; a concentração exclusiva no yishuv (a sociedade judaica pré-Estado
nas décadas de 1890-1940) e no Estado, com a aceitação dos mitos que os
cercavam; a questão colonial na criação de Israel e sua reiteração
contemporânea; a limpeza étnica dos palestinos e o expansionismo sionista; a
militarização da sociedade; o status altamente subordinado das mulheres. Com
seus estudos críticos sobre as "elites" israelenses nos anos de 1970 e 1980,
Yonathan Shapiro (1984) teria sido uma inspiração para muitos desses novos
autores, nem todos eles anti ou pós-sionistas. Agregue-se a isso que, segundo
eles, somente a partir da ascensão do Likud ao poder o establishment acadêmico
se fez mais crítico, ao perder suas conexões privilegiadas (ver Ram, 1995;
Kimmerling, 1992a, 2005).
Apenas indiretamente será essa a nossa questão. Mas não por acaso o período do
que seria uma perspectiva integracionista e sionista na sociologia israelense
espelha o que Bernstein (1978) chamou de "consenso ortodoxo" (positivista e
funcionalista) na sociologia norte-americana. Essas teorizações supunham um
forte arcabouço normativo-integrativo e o deslocamento da contingência e do
conflito na vida social, correspondendo à segunda fase da modernidade global,
em que o Estado cumpriu grande papel organizador. Na fase seguinte, a terceira,
atual, ocorre um aumento da complexidade e da heterogeneidade social
(Domingues, [2000] 2003, 2009). Foi na segunda fase que se construiu Israel,
culminando o nacionalismo sionista. Uma perspectiva integracionista e
homogeneizante, bem como o nacionalismo metodológico que exclui os palestinos
da análise, encaixava-se bem com o "giro modernizador" deslanchado pelo
estatismo - mamlachtuit,1 diria Ben Gurion, o pai fundador de Israel. A sua
crise corresponde àquela terceira fase, em que as diferenças se expandem para
além do controle do Estado, o que se complica por ser Israel um ponto de
encontro e choque entre o ocidente e o mundo árabe, e o judaico oriental, com
fronteiras mal definidas e questões étnicas e nacionais dramaticamente
pendentes e aparentemente sem solução.2
Apenas uma resposta direta no campo acadêmico parece ter confrontado aquela
bateria de críticas. Segundo Moshe Lissak (1996), sociólogo muito
representativo do período anterior, o pós-modernismo guiava essas análises,
cujos méritos às vezes reconhece, para em seguida negá-los. Os novos autores
errariam ao descrever uma inexistente sociologia pró-establishment: seus
objetivos eram políticos, não acadêmicos - a luta contra o sionismo e a
imputação de falta histórica irreversível, porquanto Israel tivesse "nascido em
pecado". Na verdade muitos, inclusive ele mesmo, teriam tomado, argumentou, a
questão árabe como central em suas análises. Lissak recusou validade à tese de
que Israel teria origem em um processo colonial (o período pós-1967 sendo
diferente). Objetividade seria a meta, o positivismo e o funcionalismo,
instrumentos legítimos de conhecimento. Ele terminava com um comentário sobre a
necessidade dos pais "fundadores" combinarem uma ciência livre de valores e de
alta qualidade com seu caráter sionista, insinuando que seus oponentes
defendiam causas externas ao Estado de Israel. Replicando, Gershon Shafir
(1996b) criticou a fixação da escola antiga na "bolha judaica" e Michael Shalev
(1996) fez a apologia da economia política, denunciando a insinuação de que
haveria em jogo interesses alheios a Israel. Reconhecia, porém, que ataques
demasiadamente pessoais haviam sido desferidos pela heterogênea sociologia
crítica, o que contribuíra para o empobrecimento do debate. Ambos insistiram,
ademais, no tema da colonização, que discutiremos adiante.
As singularidades de Israel, bastante reais, não podem ser reificadas e
essencializadas, inclusive porque implicam importantes temáticas sociológicas e
apresentam conceitos que podem ser de grande valia para teorizar a modernidade
global e seus recortes nacionais. Veremos agora como Eisenstadt lidou com esses
problemas e, em seguida, focalizaremos discussões acerca do nacionalismo e da
democracia, da colonização na Palestina e da problemática (in)definição de
fronteiras na região.
Eisenstadt e as transformações da sociedade israelense
Exatamente durante os anos de 1980, Eisenstadt alterava sua concepção teórica:
afastando-se bastante do funcionalismo, enfatizava a "ação" das elites, a
cultura e a contingência da vida social (Eisenstadt, 1990; Alexander, 1992).
Além disso, como veremos, antecipava ou aceitava, de forma menos radical e mais
discreta, parte das teses da sociologia crítica, sem prejuízo de seus fortes
vínculos ideológicos com o programa sionista básico e uma perspectiva liberal-
igualitarista, bem como de alguns silêncios e idealizações importantes.
Eisenstadt (1985, pp. 1-80) abre The transformation of Israeli society com uma
discussão sobre a civilização judaica - que estudou extensamente em outros
trabalhos e que está na base de sua teoria das civilizações (ver Domingues,
2009). A civilização judaica emerge de uma Revolução Axial, em que se abriu um
abismo entre a ordem transcendente e a mundana, com a necessidade de
realizarem-se os imperativos da primeira na esfera da segunda. Na época do
Segundo Templo seus elementos desenvolveram-se plenamente, desdobrando-se no
curso de sua inserção no ambiente mais amplo e a partir de suas relações com as
civilizações cristã e islâmica. Se ele define estas duas em termos puramente
religiosos - evidenciando um dos problemas de sua teoria geral -, ao tratar da
civilização judaica recusa essa abordagem e, embora acentue seu componente
religioso, assevera que os judeus são um "povo", uma "nação" (Eisenstadt, 1985,
p. 14). Não fora contudo possível, desde a queda do Segundo Templo,
institucionalizar territorialmente a civilização judaica. Isso a levou a se
desenvolver de forma heterogênea e descentrada, mas com identidade forte e
contínua. Permanece sem justificativa a aplicação anacrônica aos judeus antigos
e da idade média do conceito, nunca definido, de nação. Mas vale notar o
destaque que, como bom aluno de Martin Buber, Eisenstadt empresta à relação
entre particularismo e universalismo no judaísmo, nos quadros de uma competição
com as outras religiões monoteístas. Os judeus estão durante todo esse período
sob o domínio de outros povos, sobretudo na "diáspora", mas a ambivalência e
amiúde animosidade é mútua e constante, ameaçando identitariamente ambos os
lados do conflito. Para eles, duas possibilidades se reiteram: seu fechamento
particularista, num mundo que o Messias ainda não resgatou, com a manutenção de
sua missão universal e aliança exclusiva com Deus, ou a abertura dessa mensagem
profética em sua ausência ou ao menos na de um poder político que pusesse em
prática as leis judaicas.
Eisenstadt (1985, pp. 84ss) sublinha o caráter de movimento revolucionário e
nacionalista do sionismo - sem problematizar suas características, mas
observando ali o ressurgimento da tensão entre particularismo e universalismo.
O sionismo rejeitou a "emancipação" assimilacionista que se entrevia, embora
com inúmeras dificuldades, com a Ilustração na Europa e reelaborou, de modo
"totalista", visando concretizá-los criativamente, os temas da civilização
judaica. Proporcionou grande energia aos colonos em Israel, mantendo forte
ambivalência em relação à diáspora. A herança do parsonianismo cobra certo
preço na seqüência do argumento, impondo o sionismo como um arcabouço, cuja
institucionalização na Palestina deveria ser então investigada, conquanto novos
problemas evidentemente surgissem. Apesar de reconhecer as razões dos árabes
para rejeitar a presença maciça dos judeus, a magnitude do conflito inevitável
e mencionar as principais organizações judaicas para a colonização da
Palestina, Eisenstadt não se detém no crucial tema da terra e sua monopolização
por parte das organizações sionistas para-estatais. Ele assinala, porém, a
cegueira ou o descaso dos líderes sionistas em relação aos árabes e, mais
ainda, enfatiza que desde sempre se apresentou no movimento sionista a
perspectiva de colonização de toda a Palestina, tendo como pano de fundo Eretz
Israel - a Terra de Israel - e não apenas o Estado de Israel, definido de
variadas formas nas decisões internacionais até 1948 ou mesmo 1967. Isso guarda
relação direta com o peso da religião na reconstrução do judaísmo pelo
sionismo, inclusive com um núcleo central das leis do Estado, relativas
especialmente à vida familiar, sendo monopólio dos rabinos (Idem, pp. 42, 90 e
110-115). Quando ele assinala a questão dos refugiados palestinos, contenta-se
com a versão, hoje insustentável, mas na época não questionada, de que eles
simplesmente fugiram, abandonando suas possessões (Idem, pp. 137-139). O cume
do elemento "patriótico" em seu ensaio é a celebração da "Guerra de
Independência de 1948" e do estabelecimento de Israel, além de sua visão
totalmente positiva das Forças de Defesa Israelenses (FDI) (Idem, pp. 161-162 e
182).
O sionismo foi um grande sucesso, a despeito de conflitos internos que quase
levaram o yishuv à guerra civil (em especial entre os trabalhistas e os
revisionistas, que incluíam tendências de extrema direita).3 O "centro"
hegemônico pioneiro e sua "elite revolucionária" acabaram por criar uma larga
"periferia". A cultura trabalhista-sionista fora capaz de incluir e assimilar
sucessivas levas de imigração (alyia) melhor que outros países, exceção feita,
crescentemente, aos judeus "orientais", que já eram, na realidade, heterogêneos
entre si e cuja relação com o sionismo era distante ou nula, além de serem mais
pobres e com menos acesso ao "centro". Essa falta de integração resultou numa
"questão étnica" interna e na estereotipada divisão entre asquenazins e
sefaradins, ocidentais e orientais (Idem, pp. 117-120, 186ss e 294-329),
formulação na qual se discerne o problema mal resolvido da caracterização da
"nação judaica".4 Pouco a pouco, a burocratização institucional, crescentes
desigualdades sociais (já fortes mesmo no yishuv), a oligarquização dos
aparelhos partidários, o clientelismo e a patronagem impuseram-se, ainda que
simultaneamente o liberalismo político e o império da lei tenham se consolidado
(Idem, pp. 234ss).
Embora sua análise da população árabe-israelense e da população dos territórios
conquistados em 1967 de fato ocupe pouquíssimas páginas, Eisenstadt argumenta
que aqueles obtiveram direitos civis e sociais reais se modernizavam e
progrediam ao fim do governo militar que lhes fora imposto de 1948 a 1966. Uma
nova identidade de minoria formava-se, sem total integração e sem que a relação
entre o caráter judaico do Estado e o funcionamento da democracia fosse
inteiramente equacionada (Idem, pp. 331ss e 370-380). Em compensação, além de
"suspeita e cegueira" ante seus problemas, um forte paternalismo "semicolonial"
delineou-se. E, mais dramaticamente, a partir da guerra de 1967 não só o
expansionismo e a expropriação de terras dos árabes foram retomados (tema que
surge de repente na narrativa), como também o que fora apenas uma sociedade de
colonos que buscava construir-se à parte dos anteriores habitantes da região
(contra o desejo dos britânicos de consolidá-los como uma classe alta colonial)
tornou-se de fato uma sociedade "semicolonial", com a exploração dos
trabalhadores árabes dos territórios conquistados em 1967. A ocupação desses
territórios, que passaram a ser denominados por seus nomes bíblicos, Judea e
Samaria, deixara de ser "temporária", sem que à população palestina fosse
concedida cidadania (Idem, pp. 152-153, 332-333, 374-377, 418-419 e 522-533).5
Se juntarmos a isto o papel que, segundo ele, a totalidade da Eretz Israel
cumpre freqüentemente no imaginário sionista e israelense, não se pode dizer
que seu diagnóstico fosse tranqüilizador.
Poderíamos seguir adiante e nos determos em outros temas deste longo livro: a
decomposição do modelo trabalhista-sionista e a deterioração do sistema
político, do império da lei e da civilidade, mas em compensação a expansão do
protesto extraparlamentar. Some-se a isso uma concepção de segurança cada vez
mais dura, além de central para a identidade coletiva, e guerras cuja
legitimidade se mostrou cada vez mais duvidosa, com o exército assumindo um
comportamento em relação aos árabes que, se a princípio era relativamente
benigno, foi se tornando brutal, tudo isso resultando numa visão negativa de
Israel internacionalmente. Ademais, esgotou-se a idéia de que a imigração
completa para a Palestina levaria ao fim da diáspora (com os Estados Unidos
tornando-se importante pólo do judaísmo). Isso tudo apontava para um
"conservadorismo dinâmico", capaz de tratar de novos problemas sem, contudo,
levar a uma mudança no núcleo cultural e institucional (Idem, pp. 416-417 e
424).6 Foi por essas razões que Kimmerling (2007b) afirmou que o próprio
Eisenstadt deveria ser visto na fronteira entre o "conservadorismo dinâmico" e
uma perspectiva crítica.
Não é possível aqui a leitura detalhada de seu livro anterior, Israeli society
(Eisensatdt, 1967), foco de violentos ataques. Eisenstadt assume obviamente o
sionismo, trabalhando dentro da teoria da modernização e de um funcionalismo
discreto. Sem dúvida, apresenta uma visão bastante idílica do yishuv e da
formação do Estado, afirmando o descarte da opção colonial e apenas sobrevoando
a questão da terra. Ademais, os fracassos na integração dos judeus orientais de
múltiplas origens e mesmo sua situação de clara desigualdade seriam fruto
sobretudo de seu tradicionalismo e auto-segregação. Contudo, apontava a
dominância dos asquenazins russos e poloneses, sua transformação em "elite
dominante" que concentrava poder, status e benefícios materiais, bem como
impulsionava "orientações monolíticas". Uma brecha abria-se entre ideologia e
realidade, levando à "anomia" social. Se a questão da imigração é tratada
suavemente, as questões interétnicas judaicas são abertamente reconhecidas,
especialmente a "situação trágica" dos árabes: dominados militarmente, sua
cidadania era incompleta, viam-se segregados e discriminados, com o
desenvolvimento simultâneo do sionismo e do nacionalismo árabe, ao que se
somava uma situação internacional explosiva, praticamente impedindo o
desenvolvimento de uma identidade comum, que poderia ser politicamente
importante e uma contribuição para uma identidade israelense mais "variada".
Segundo ele, vale lembrar, a posição dos intelectuais teria se complicado em
Israel. Sua inclinação à crítica contrapunha-se à "idolatria" do Estado que
consolidara a nação, o que gerou um déficit de significado espiritual. A
afirmação dos valores dos "pioneiros" era por onde a crítica podia se expressar
(Eisenstadt, 1967, p. 388). Não seria essa uma autodescrição? Enfim, se algo de
novo ocorreu em sua leitura ulterior da sociedade israelense foi certa
acentuação do tom crítico, pois chegou a apontar a "queda da base
revolucionária do sionismo" (Kimmerling, 2007b). Mas isso era "muito pouco,
muito tarde" para as novas gerações e seus críticos.
Uma "democracia étnica" em Israel?
Se a dominância dos judeus em Israel é tamanha, como se vê claramente em
Eisenstadt, como caracterizar sua democracia? Foi para enfrentar esta questão
que um dos primeiros autores a estudar os árabes em Israel, Sammy Smooha (1997,
2002a, 2002b e 2005), apresentou uma classificação de cinco tipos de
democracia, vinculadas a uma visão particular das questões étnicas e nacionais.
O primeiro seria a democracia liberal-abstrata, composta por indivíduos que
desfrutam direitos iguais, tendo suas qualidades específicas restritas à vida
privada e não havendo qualquer direito coletivo. O Estado se manteria neutro,
sem recorrer a políticas de assimilação, regendo o país com uma noção de
"patriotismo constitucional". Esse tipo de democracia seria mera suposição
teórica, pois jamais existira. O segundo, mais comum no mundo ocidental, seria
o tipo republicano liberal-democrático, que efetivamente implicou a realização
do tipo teórico anterior, com um Estado-nação cívico, em que vigoram direitos
individuais, mas não coletivos. Mas aqui o Estado não seria neutro, optando
pela homogeneização da sociedade em um quadro cultural específico e buscando
políticas de assimilação. O terceiro tipo, multicultural, comportaria um Estado
neutro, alheio à assimilação, a qual ocorreria de forma apenas mediana. Manter-
se-ia a igualdade de direitos individuais, introduzindo direitos coletivos que
não chegariam a ser legislados. Outra variante mais complexa de democracia
seria a de tipo consocional, que incluiria um Estado binacional ou
multinacional, com respeito à igualdade de direitos individuais, acompanhados,
contudo, por direitos coletivos legislados. O Estado evidenciaria neutralidade
ante os diversos grupos, descartando políticas de assimilação. Uma engenharia
mais complicada preside a sua constituição política, incluindo distribuição
proporcional de recursos, autonomia, poder compartilhado, possibilidade de
veto, compromissos e consensos.7
O último caso é mais peculiar e demanda uma inovação conceitual: a "democracia
étnica". Ela é similar à democracia liberal republicana na medida em que o
Estado se põe ao lado da maioria, enquanto os outros tipos de Estado permanecem
neutros nesse sentido. Mas não é cívica, pois nela os laços de sangue, a
linguagem e a cultura comuns se mesclam com a reivindicação de um território,
que seria propriedade exclusiva da nação étnica. O Estado promoveria a maioria
cultural, social, econômica e politicamente, tratando as minorias como cidadãos
de segunda classe, temidos por seus vínculos com "inimigos", excluindo-as do
núcleo de poder político. Entretanto, são lhes concedidos direitos civis e
políticos, é lhes permitido desenvolver-se para melhorar sua situação. O que há
de mais contestável na democracia étnica é, obviamente, a violação flagrante da
igualdade. Em geral esse tipo de democracia não sobrevive em sociedades
profundamente divididas, encaminhando-se para a composição de uma democracia
consocional.8 Nos anos anteriores a 1967, Israel seria o "arquétipo" desse tipo
de democracia, mantendo-se como um Estado judeu que mistura etnicidade e
religião - uma democracia de baixa qualidade, que poderia estender direitos
individuais e coletivos aos palestinos, sem que entrasse em pauta o
consocionalismo.
Smooha rejeita o argumento sionista de que Israel seria similar aos países
ocidentais, cuja democracia também teria base étnica. O nacionalismo étnico do
sionismo tem raízes na Europa oriental, é intolerante e avesso a divisões,
calcando-se em uma mistura de religião, nacionalidade e Estado (o que seria
espelhado a esta altura pelo nacionalismo palestino-árabe). Nos países
ocidentais os traços étnicos são secundários e, graças ao caráter cívico de
seus sistemas políticos, as minorias não dão importância aos símbolos com os
quais os árabes não podem se identificar em Israel. Trata-se de um "Estado
judeu para os judeus", oficialmente sionista. Isso se expressa na Lei do
Retorno, que em princípio confere cidadania imediata a qualquer judeu que
"retorne" (os rabinos no fim das contas decidindo quem pode recebê-la). Em
contrapartida, os árabes israelenses são considerados um risco para a
segurança, o que implica sua exclusão do exército (organização crucial na
definição da identidade e cidadania israelenses), discriminação permanente na
vida cotidiana, constante vigilância pelo serviço secreto, em uma situação
formal e permanentemente declarada como de emergência, com direitos podendo ser
suspensos a qualquer momento. Para piorar, o país não tem uma constituição. Uma
política de não-assimilação, de manutenção do status de maioria e minoria, é
inquestionável. A integração dos árabes à democracia israelense segue, porém,
se desenvolvendo, embora o nacionalismo palestino dentro do país também venha
crescendo desde 1967, sem que isso leve à negação de Israel em si, mesmo que a
idéia do caráter judaico seja permanentemente questionada. É possível imaginar,
crê Smooha, que a situação se desenvolva rumo a uma "democracia étnica
melhorada", mas a consolidação de uma variante mais "dura" não pode ser
descartada.
O modelo de Smooha foi muito questionado. As'ad Ghanem, Nadim Rouhana e Oren
Yiftachel (1998) negam o caráter democrático da "democracia étnica". O Estado
de Israel possuiria "aspectos democráticos", não uma "estrutura democrática",
pois a desigualdade aniquilaria essa possibilidade, para não mencionar a
contínua "judeização" do país e os bloqueios à mobilização dos árabes.
"Etnocracia" seria a melhor definição. Não faria sentido considerar a situação
de Israel em termos apenas de suas fronteiras antes de 1967, pois essa "unidade
de análise" já não existia, o que se agravou pelo envolvimento contínuo das
organizações sionistas externas na vida política do país. Esses elementos
impediram a definição clara de um demos, com o conflito seguindo latente, não
obstante melhorias incrementais. Na verdade, há muito em comum entre Smooha e
seus críticos, mas estes, em virtude do esforço de Israel, não obstante as
ambigüidades, em minar o princípio da cidadania universal, preferem enfatizar
seus aspectos não democráticos, conquanto o país não seja uma "ditadura étnica"
(como a Sérvia). Seriam factíveis movimentos de democratização de Israel e da
Palestina como um todo, chegando-se eventualmente a um Estado binacional, a
exemplo do processo vivido na Estônia, mas talvez pudesse ocorrer um
recrudescimento de perspectivas nos moldes do que ocorreu em Sri Lanka
(Yiftachel, 2006, cap. 1).
Por seu turno, Ruth Gavison (1999) busca escapar da formalidade do debate, de
natureza efetivamente política. Israel seria uma nação co-extensiva com sua
religião, cuja falta de base territorial teria levado a um esforço de
justificação maior do que aquele realizado por outros nacionalismos; algo ainda
mais necessário, na medida em que resolver esse problema implicava deslocamento
e privações para outra população. A autora propõe o raciocínio curioso de que
os judeus não tinham direito à terra de Sion, mas sim de tentar estabelecer-se
nela, ao passo que os palestinos, que enxergavam a que essa tentativa levaria,
tinham o direito de impedir o assentamento em seu território, sem poder,
entretanto, controlar a imigração judaica. As ondas de imigração e a emergência
de uma comunidade judia que tinha como casa apenas a Palestina, bem como o
sucesso na construção do Estado e uma renascença cultural, tornaram legítima a
existência de Israel. Sem negar os elementos conflituosos da situação, Gavison
vislumbra reformas do Estado israelense em uma direção liberal.
Shafir e Peled (1998, 2002) argumentam, porém, que os discursos democrático e
etno-exclusionista se sustentam apenas por serem mediados por um discurso
republicano baseado nas virtudes cívicas, originado no movimento trabalhista,
base da coesão social e que apela aos judeus israelenses, sobretudo os homens,
em favor do projeto colonial, legitimando um "regime de incorporação"
estratificado à cidadania. O republicanismo vem declinando desde os anos de
1980, e paira no ar um discurso liberal sustentado pelos círculos dominantes
asquenazins, cuja concretização é dificultada pelo peso do etnonacionalismo
religioso militante de base popular. Complicando a situação, Ghanem e Rouhana,
ambos israelense-palestinos, reconhecem que os árabes vivem em Israel um
processo de democratização social e política, em parte sob a influência do
Partido Comunista, conquanto o clã (hamula) ainda seja sua base social e a
dominação das mulheres siga severa. Seus argumentos sugerem uma curiosa
aceitação de aspectos da tradicional teoria da modernização (Rouana e Ghanem,
[1993] 1999; Ghanem, 1998).
Nesse sentido, deparamo-nos com um dos temas mais espinhosos referentes a
Israel, capaz de mobilizar ódios intensos, correndo-se o risco de ignorar
certas sutilezas necessárias para um enquadramento produtivo. Qual seria de
fato a relação entre etnicidade e nação? Eisenstadt, sempre tão sofisticado,
simplesmente evitou a questão. Smooha, por sua vez, buscou uma definição mais
adequada a esse respeito, baseada na caracterização do que seria, afinal, um
grupo étnico. Vale notar que sua discussão também levanta indagações acerca do
conceito de república e sua relação com o nacionalismo. Enfim, pode-se se
sugerir que a modernidade demanda alternativas individuais e coletivas, capazes
de construir identidades mais concretas, para além do "reencaixe" proporcionado
pela própria cidadania com seu universalismo abstrato. Se em parte o
nacionalismo cumpre esse papel, sua variante que opera tal "reencaixe" mais
concreto oscila de acordo com suas referências e conteúdos básicos. Nada há de
necessário em sua constituição, ainda que memória e tradições não sejam de
fácil transformação e que haja a possibilidade de um cancelamento da
reflexividade pela via do dogmatismo (ver Domingues, 2002, caps. 1-2 e 6). Esta
possibilidade, calcada no nacionalismo étnico europeu-oriental e no
"primordialismo" construído pelo sionismo (não obstante seus óbvios elementos
de plausibilidade, necessários para que tal construção tenha êxito) e por seus
desdobramentos mais recentes, enlaça os judeus israelenses. Talvez isso também
se imponha de certa forma aos palestinos, inspirados no sionismo por meio de
uma mobilização étnica crescente em direção ao islamismo ainda que localismo
nacionalista e pan-arabismo componham também sua identidade (ver Kimmerling e
Migdal, 2003).
Será possível que Israel ultrapasse esse molde nacionalista étnico, rumo a um
modelo mais inclusivo, ainda que por meio de uma evolução da "democracia
étnica"? A constituição de um nacionalismo consocional ou mais cívico parece
muito improvável, ao menos no momento. Em primeiro lugar por conta da
importância da perspectiva sionista para a construção da identidade básica dos
judeus israelenses e como ideologia do Estado, não obstante sua crise no plano
utópico, ainda mais quando a situação volta a ser considerada ameaçadora, sem
perspectivas de resolução pacífica. Além disso, constatam-se não só os
interesses na distribuição de recursos que sistematicamente beneficiam os
judeus em detrimento dos israelenses palestinos, mas também a deterioração, nos
últimos anos, da relação com as minorias druzas e beduínas. Uma evolução
benigna do nacionalismo dentro de Israel certamente contribuiria no processo de
paz, mas seria também muito facilitada por ela, na medida em que os palestinos
- "externa" e "internamente" - não fossem percebidos como ameaça ou ao menos na
medida em que a percepção de supostas ameaças fosse diminuindo. Mas essa
evolução poderia deslocar interesses que a ela se ligam fortemente, embora as
forças neoliberais do país a pudessem contemplar com simpatia, pois
proporcionaria algum tipo de normalização internacional. Seja como for, a
possibilidade de um endurecimento pela direita e pela religião, com elementos
difusos de racismo, não pode ser descartada, mesmo porque atualmente é esta a
possibilidade que comanda o país.
Nacionalismos étnicos, radicalismos religiosos e a falta de uma concepção
multicultural criam enormes barreiras. Porém, cabe indagar se, no longo prazo,
não seria possível ir além da obsessão com definições de identidades puras
(étnicas, religiosas ou políticas), aceitando suas diferenças e sobreposição,
qualquer que seja a solução estatal que venha a prevalecer no futuro. Não é
fácil a esta altura visualizar dois Estados totalmente separados em espaço tão
reduzido, com tanto potencial de violência, com questões cruciais que dependem
de coordenação mútua e com tantos valores sagrados atribuídos à terra por
religiosos de diferentes linhas, além de tendências demográficas que implicam o
aumento do peso relativo dos árabes palestinos nos próximos vinte anos.
Tampouco parece possível imaginar que neste momento um só Estado, binacional,
fosse viável, solução que teima em retornar (ao menos retoricamente) tanto
quanto impulsiona resistências acerbas (Khalid, 2006; Ghanem, 2009; Morris,
2009). Contudo, uma efetiva dinâmica de abertura política, para além de uma
concepção formal de democracia, pode-se esperar nos três "espaços" que compõem
a região e se condicionam mutuamente - o israelense, o palestino e o
israelense-palestino - para que essas questões voltem a ser tematizadas e para
que a influência crescente dos militares na esfera política seja controlada
(cf. Grinberg, 2009, especialmente caps. 2 e 11).
Questionam-se assim as fronteiras do país. Mais geralmente, impõe-se o problema
metodológico de como incluir os palestinos - de "dentro" e de "fora" - para que
se conceba Israel para além do nacionalismo metodológico, particularmente falho
neste caso. Vejamos as duas principais versões da teoria da colonização em
Israel (Shafir e Kimmerling), que trataram precisamente desses temas, e da
explosiva questão da terra, assim como os desdobramentos da discussão.
A sociologia da colonização
Não obstante suas críticas ao funcionalismo e ao elitismo, a teoria de Shafir é
moderada em suas conclusões. Os modelos coloniais estruturam-se em torno do
controle da terra e da exploração dos nativos ou de mão-de-obra forçada e
importada. "Colônias de povoamento" (pure settlement), com mão-de-obra apenas
de europeus brancos, e deslocamento ou destruição da população nativa, são
outra possibilidade. A fronteira permanece em todos esses casos como problema e
risco, tão maior quanto mais avançadas, densas e fixadas as populações locais,
com a contrapartida da relativa densidade populacional dos colonos e suas
possibilidades concretas de ocupar a terra (teses inspiradas na obra de Turner,
no mito da fronteira livre e do individualismo nos Estados Unidos). Em Israel
duas possibilidades se impuseram em uma situação de parcos recursos naturais,
densidade nativa razoável e inicialmente poucos colonos: a exploração das
populações locais por fazendeiros judeus ou, em um segundo momento, o pagamento
de melhores salários aos trabalhadores judeus da Europa oriental da segunda
onda de imigração. Eles forçaram uma "bifurcação" do mercado de trabalho,
excluindo os árabes em nome da economia judaica (vale lembrar que a entrada no
país de judeus yemenitas para trabalhar com o mesmo nível de subsistência dos
árabes logo fracassou). As fazendas coletivas (kibbutz) são o melhor exemplo da
ideologia "coletivista" de enobrecimento do trabalho - a Organização Sionista
Internacional subsidiava trabalhadores convertidos em colonos, garantindo-lhes
terra, que inicialmente tinha de ser comprada (Shafir, 1996a, pp. 7-20ss).
Shafir reconhece que o sionismo começou como um nacionalismo europeu-oriental,
mas que sua ideo- logia e a "hegemonia" do trabalhismo foram decorrentes das
lutas no mercado de trabalho e da "colonização de povoamento separatista" que
levaria ao exclusivismo judaico (1996a, p. 8).9 Ciente da baixa densidade
demográfica e desprovida de tendência ao expansionismo, a liderança trabalhista
evidenciava realismo político e disposição para estabelecer um compromisso com
os árabes. Era legítima a aspiração por um Estado nacional, e talvez Israel só
pudesse ter surgido dessa forma. O mercado fechado abriu, todavia, as portas
para um exclusivismo expansionista mais amplo e formas extremas de nacionalismo
territorial, de conseqüências catastróficas. Shafir enfatiza que a moralidade
do empreendimento sempre dependera do reconhecimento da necessidade de fazer
justiça à população árabe e, mobilizando Weber, demanda uma "ética da
responsabilidade" capaz de dar conta das conseqüências nefastas da colonização
(Shafir, 1996a, pp. xi-xiv, 17-21 e 198-220). Ao menos retoricamente, o autor
parece ter endurecido sua visão da colonização em publicações subseqüentes (cf.
Shafir e Peled, 2002).
Anteriores às de Shafir, as teses de Kimmerling são mais radicais. Em um livro
fascinante, mostra como se estabeleceu na Palestina uma sociedade de colonos em
uma situação de "muito baixa fronteridade", isto é, poucas terras disponíveis
para assentamento - ao contrário do que Turner descreve em relação aos Estados
Unidos -, o que levou a estratégias coletivistas de ocupação antes que a um
individualismo que tivesse um papel mais significativo (Kimmerling, 1983, pp.
1-8 e 144). Como Eisenstadt, ele afirma que a ideologia sionista era calcada em
elementos religiosos - a "terra de Israel" apresentada como a única escolha
possível - e que foram considerações dessa natureza, e não econômicas, que
impulsionaram a colonização. Mas, ao contrário do que se divisava, havia
habitantes na região, e a propriedade da terra, embora confusa muitas vezes,
sobreposta ou incompreensível para os imigrantes, pertencia aos árabes (Idem,
1983, pp. 8ss; 2007a, p. 67).10
Kimmerling descreve uma atitude aberta e bem-intencionada da maioria dos
imigrantes sionistas ante os árabes, e um desejo geral de convivência pacífica.
Mas assinala também a astúcia de tratar a terra a ser comprada como mero bem
econômico para, em seguida, transformá-la em patrimônio nacional. Os camponeses
acabavam expulsos das terras e havia má vontade das lideranças árabes quanto à
presença judaica maciça na região, crescentemente compreensível para os
sionistas mais argutos, pensassem eles em chegar a um acordo ou já
vislumbrassem um confronto inevitável e áspero no fim da linha. No primeiro
período da colonização, a única opção era a compra de terras, que não
ultrapassou 7% do total. Assim, a presença física na terra ocupada e a defesa
militar eram também necessárias, o que garantiu preponderância à esquerda
(Idem, 1983, pp. 11ss, 79-83, 94, 104 e 106ss). A partir da Guerra de 1948, a
conquista e a expropriação unilateral converteram-se no método principal de
colonização, concomitantemente à "desarabização" do território, opção derivada
da evolução dos próprios conflitos, implicando uma ampla "limpeza étnica" e a
diáspora palestina (Idem,1983, cap. 5; 2008, p. xiii).
Em 1967 a alternativa expansionista - praticamente descartada havia duas
décadas - apresentou-se novamente, levando à incorporação, malgrado o enorme
problema que gerava, de grande população palestina. Gush Emunim, o movimento
dos novos colonos, "crentes/fiéis", fez-se cada vez mais influente, bebendo nos
elementos religiosos contidos na ideologia sionista e demandando com violência
a ampliação das sempre indefinidas fronteiras de Israel. A margem ocidental do
Rio Jordão foi sendo ocupada, em parte por política do governo, em parte pela
criação de fatos consumados pelo movimento, que buscava substituir a imagem
pioneira do kibbutzim, expressão da colonização trabalhista por antonomásia
(Idem, 1983, cap. 6 e p. 223-4; também 2007a, pp. 110, 123 e 231). Isso
levantou uma questão grave de legitimação, "existencial", para a sociedade
israelense, quanto a seus direitos, e os dos árabes, sobre o território, tema
sempre sensível para o sionismo trabalhista. Voltava à tona a questão mal
resolvida das relações entre universalismo e particularismo na ideologia
sionista - tratada de forma pragmática pelo trabalhismo, mas sem força
política, levando o Likud, herdeiro do revisionismo, a enveredar resolutamente
para uma visão particularista do mundo (Idem, 1983, p. 29 e cap. 7; também,
2007a, pp. 128-129). Até então Kimmerling (1983, p. 232) afirma o caráter
democrático de Israel, "ao menos para os judeus", os árabes estando de fato
submetidos a seu poder, o que posteriormente aguça a crítica do autor,
sobretudo ao apontar o "militarismo cívico" israelense que, fruto do
interminável conflito, gerava, com o controle do território, um regime de
Herrenvolk, vigilância, controle e repressão em toda a Palestina. Uma obsessão
com a segurança ramificava-se cultural e cognitivamente, tornando-se
onipresente (Idem, [1992b] 2008).11
Ao passo que Eisenstadt enfatiza a questão cultural, para Kimmerling é a pulsão
pela acumulação de território, advinda da colonização, portanto o poder,
conjugado à cultura, que subjaz ao expansionismo israelense. Shafir, por sua
vez, dá prioridade aos mecanismos econômicos e suas derivações. Mas no plano
conceitual mais geral, de que maneira esses elementos se conjugariam e em que
grau seriam reforçados em casos de conflitos como este entre coletividades?
Importa aqui sublinhar que a tendência expansionista tem levado Israel a
chocar-se com os árabes há um século, tornando-se talvez a última sociedade
colonizadora do mundo. Os territórios ocupados, fundamentais para certas
versões da identidade coletiva israelense, encontram-se em situação ambígua,
nem dentro nem fora do Estado. Se Israel não os anexa formalmente, há um
profundo envolvimento cotidiano com a população, sempre a favor dos colonos
judeus, no que se refere à vigilância, à repressão e à regulamentação da terra,
principalmente por meio das Forças de Defesa de Israel (FDI) (Kimmerling,
2007a), pp. 3, 81-85 e 185; Grinberg, 2009).
Isso vem gestando o que Yaftachel (2006, pp. 78-83) chama de "apartheid
paulatino" (creeping apartheid), em que a segregação vaza para dentro das
fronteiras formais do país (ver também Kimmerling, 2007a, p. 232). Assim, o
tema resvala no sentido de legitimar a capacidade repressiva estatal em
defender a nação de "ameaças existenciais", reiterar o sionismo e transformar
os palestinos na figura do "outro ameaçador" da identidade nacional, que deve,
portanto, ser submetido (Grinberg, 2009). A pseudo-solução imediata para o
conflito foi a construção de uma barreira (muro) para evitar os terríveis e
desesperados ataques suicidas palestinos. Obviamente, ela não resolve o
problema de fundo e, ao garantir a anexação de várias partes da margem
ocidental, na verdade agrava e dificulta uma possível solução futura,
legitimando fatos consumados pelos colonos e gerando enormes problemas para os
palestinos - separados de suas terras, empregos e familiares, submetidos a uma
brutal vigilância militar e assassinatos, sobretudo de civis, humilhações e
violência constantes, bem como a expropriação de terras e água, para não falar
da trágica situação humanitária da Faixa de Gaza. Vale lembrar que o Likud fora
contra a construção do muro, porquanto possa limitar a expansão territorial de
Israel, que segue, temporariamente, no entanto, pelos mais engenhosos meios de
opressão continuada.
Palavras finais
Não se trata de buscar uma conclusão para este artigo. Os textos analisados
expõem diversas interpretações para a evolução da sociedade israelense, bem
como sugerem idéias e conceitos de amplitude global, e até certo ponto falam
por si. É importante notar o quanto esses debates são densos politicamente e
que a própria descrição das posições em questão remete à construção do Estado
israelense e à posição dos sociólogos no processo, gerando um inevitável ruído,
muitas disputas semânticas e nem sempre precisão.
Há muitos problemas em Israel que são comuns a outros países (Eisenstadt, 1985,
p. 401), ainda que com características peculiares. Ao lado da persistência de
uma ideologia sionista, assistimos a uma pluralização das identidades. Ao lado
da polarização política entre "McDonnald versus Jihad" (Tel Aviv versus
Jerusalém, consumo e acomodação versus religião e confronto), aparecem a
neoliberalização econômica e a globalização, com a queda do sindicalismo
corporativo e o crescimento da desigualdade e da pobreza (Ram, 2008; Ben-Pora
et al., 2008). Esses "giros modernizadores", projetos e opções que os diversos
setores da sociedade israelense em suas vagas fronteiras estão construindo e
realizando hoje resultam de embates e escolhas específicas, mas estão
fortemente sobredeterminados pela permanência de um processo tardio de
colonização. Como vimos, colonização e fronteiras, democracia, nacionalismo e
etnicidade, republicanismo e liberalismo, pluralismo e homogeneidade,
universalismo e particularismo são questões que abarcam o cenário dramático da
Palestina contemporânea. Não obstante a efetiva construção de um país avançado
em muitas áreas, resultado de poderosas energias ativadas pelo sionismo, Israel
não se sai bem np retrato de seus sociólogos, o qual certamente pioraria caso
realizássemos uma análise mais detalhada do que ocorre hoje nos territórios
ocupados ou supostamente desocupados (pois permanecem sob violenta vigilância
militar). A desorganização intencional da "sociedade civil" palestina e da
Autoridade Nacional Palestina (ANP) por parte de Israel, por meio de prisões e
ataques militares - com a ANP, por seu turno, cada vez mais inclinada a
monopolizar os espaços políticos, construindo uma força policial em seu
território -, bem como a emergência do islamismo radical (sobretudo na Faixa de
Gaza e em outros campos de refugiados, mas também na margem ocidental), agrega
mais um elemento explosivo e complicador ao cenário inicial do conflito
(Kimmerling e Migdal, 2003, caps. 9-11).
Se os árabes, não sem boas razões, mantiveram desde o início uma visão de soma-
zero em relação ao conflito estabelecido, visão que também foi aos poucos
adotada pelos sionistas, a esta altura parece não haver alternativa que não
superar tal perspectiva para que a paz seja alcançada (Kimmerling, 1983, pp. 94
e 219; Kimmerling e Migdal, 2003, caps. 10-11). Em que pese um horizonte tenso
e nada auspicioso, a solução do conflito está em aberto e depende de como as
diversas coletividades em choque encontrarão, ou não, os meios para superar os
impasses e a brutalidade que as envolvem. Aqui vale retomar a frase indelével
de Sartre: o que importa não é o que fizeram conosco, mas o que fazemos com o
que fizeram conosco. Na Palestina, ou alhures, ninguém pode evitar fazer
escolhas, individual ou coletivamente, as quais sempre incorrem em custos.
Judeus e árabes encontram-se entrelaçados em um trágico destino comum, mas
àqueles cabe hoje uma responsabilidade muito superior na abertura do espaço
político e na aceitação de compromissos, assim como na adoção de uma concepção
de mundo universalista em detrimento do particularismo que comanda a política
"exterior" israelense, mercê de seus enormes ganhos históricos à custa do poder
desigual que detêm em relação aos árabes. É improvável que o juízo final os
venha a julgar. Mas a história certamente o fará.
Notas
1 Este conceito refere-se a um estatismo que subordinaria as organizações
sionistas anteriores ao Estado judeu, no terreno militar e social, mas também
do ponto de vista de uma economia em que ele teria grande peso, como de resto
era bastante comum neste período internacionalmente.
2 Nesses debates a figura de Kimmerling é crucial. Se cedo tratou em seu
doutorado da relação territorial entre judeus e palestinos - malgrado, conta-
nos, resistências -, era parte da "Escola de Jerusalém" (caracterização que
difundiu). Somente depois passou a criticar o establishment acadêmico, sem
poupar muitos dos que propunham perspectivas alternativas. Provavelmente o
início, em 1987, da primeira intifada e a resposta israelense a ela pesaram
nessa radicalização e em sua definição explícita do "conflito" como intrínseco
à vida social, como em Simmel e Coser, sem prejuízo, ao contrário, do
funcionalismo (Kimmerling, 1992a; 2007a, pp. 7-10; 2008, pp. xii-xvi). Até
então se definia defensor de uma ciência weberiana livre de valores, sionista,
moderado quanto ao conflito árabe-israelense e liberal economicamente
(Kimmerling, 1985, p. xviii).
3 Os trabalhistas esposaram um "sionismo prático", favorecendo a ocupação e a
construção de instituições - com uma relação ambígua, entre abrangente e
pragmática, com o território. Os revisionistas apostavam na acumulação de poder
em geral e na ocupação de toda a Palestina. Desde o início militarizaram-se, o
que apenas aos poucos ocorreu com o trabalhismo.
4 Ao falar da "falta de sensibilidade" das políticas originais sobre imigração,
ele parece fazer certa autocrítica de sua perspectiva anterior, fortemente
funcionalista e assimilacionista, ainda que bastante ciente das diferenças
étnicas entre os judeus (Eisenstadt, 1954). Para uma visão ácida da questão
étnica, da discriminação e da exploração dos sefaradins, ver Shohat, 1988.
5 Valorizando os Estados Unidos como uma colonização de povoamento (settler
society), à qual se assemelharia muito Israel, inclusive no fervor ideológico
dos "pioneiros", Eisenstadt (1992a) depois a contrastou com a colonização
ibérica das Américas. Não apenas esquecia a situação do sul e dos negros norte-
americanos como desconsiderava o genocídio a que foram submetidos os indígenas,
o que é instrutivo dos limites de sua análise.
6 Com um funcionalismo também mais flexível, Horowitz e Lissak (1989)
enfrentaram os problemas da crise ideológica, das demandas dos grupos cuja
clivagem constituía a sociedade israelense, da relação com os árabes, da
dominância asquenazim, dos imigrantes desfavorecidos. Com poucos recursos e
baixa capacidade de regulação, o "centro" teria se enfraquecido. Apontaram
ainda para o funcionamento de um "conjunto dual de normas" (soberania nas
fronteiras formais de Israel, controle nos territórios ocupados), situação que
oferecia a base para um Estado binacional.
7 Em seus primeiros textos sobre o tema Smooha fala de democracia de
Herrenvolk, descartando essa classificação depois, uma vez que ali não haveria
de fato democracia, devido ao poder absoluto de uma minoria. Segundo ele, para
além das bordas de 1967, o estabelecimento da Autoridade Palestina em 1994
"prova[va] que Israel não se encaixava nessa classificação" (Smooha, 1997, p.
203). Curiosamente, não aparecem em seus trabalhos sobre a "democracia étnica"
as questões interétnicas entre sefaradins e asquenazins, tão importantes em
análises anteriores pautadas por uma perspectiva "pluralista" (Smooha, 1978).
8 O conceito de "democracia consocional" refere-se basicamente a duas ou mais
comunidades em grande medidas autogeridas que, contudo, compartilham um sistema
político comum no âmbito federal, com representação proporcional.
9 Tese tão estreita cria limites para o argumento de Shafir. Mas, caso
contrário, o autor se aproximaria muito dos argumentos de Horowitz e Lissak (
[1977] 1978), que trataram o yishuv como uma realidade fechada que,
inicialmente, se misturava com os palestinos, dos quais, por vários meios,
buscaram separar-se os imigrantes judeus - exceto aqueles que empregavam a
barata mão-de-obra local.
10 Embora Kimmerling faça uma crítica dura a Eisenstadt, a quem acusa de
ideologização e mitologização (1992a; 2007a, pp. 7-9 e 11), seus textos
compartilham várias das teses sociológicas do ex-professor que, por seu turno,
não cita seus trabalhos sobre a colonização.
11 Para uma análise crítica da sociologia quanto à questão militar, ver Peri,
1996; na direção oposta, radicalizando a crítica, ver Grinberg, 2009, Parte 4.