Secularização ou ressacralização? O debate sociológico contemporâneo sobre a
teoria da secularização
Introdução
A religião sempre foi um fenômeno sociocultural inevitável quando se tenta
analisar e compreender qualquer sociedade. Já os chamados clássicos da
sociologia (Comte, Durkheim, Marx, Weber e Parsons, entre outros) manifestaram
de diversas perspectivas a importância desta questão para compreender a origem,
a natureza e o sentido das sociedades modernas. A maioria desses autores,
concentrando sua atenção particularmente no caso europeu, coincidiram com que o
advento da modernidade traria consigo o deslocamento do centro da vida da
sociedade para a periferia, assim como transferiria algumas funções essenciais
que a religião desempenhava nas sociedades tradicionais (legitimação, coesão
social, sentido etc.) a outras instituições e referências simbólicas. Alguns
autores inclusive chegaram a pensar que com a modernização da sociedade a
religião poderia decrescer ou até desaparecer. A este conjunto de mudanças pelo
qual a religião perde sua relevância social, ideológica e institucional é o que
genericamente chamamos secularização.1
A partir do último terço do século XX, começou a tomar força a opinião de que o
projeto da modernidade estava em crise, e com ele alguns dos principais
projetos e promessas. Entre muitos outros sintomas de tal situação, a religião
seria, sem dúvida, um elemento referencial, já que em vez de desaparecer, como
haviam sugerido diversas vozes desde o século XIX, não somente resistia nas
suas diversas formas, como também começava a se assistir com assombro um
intenso e extenso surgimento de novos movimentos religiosos. O problema então
já não seria como explicar o declínio da religião (questão para a qual tentava
dar respostas a teoria da secularização), mas explicar sua grande exuberância
na crise da modernidade globalizada. Portanto, a utilidade das teorias da
secularização seria posta à prova em virtude de sua incapacidade de explicar a
nova situação da religião nas sociedades contemporâneas.
No entanto, uma análise superficial da bibliografia sociológica especializada
(sociologia da religião) não endossa abertamente a conclusão acima referida,
mas o que mostra é uma intensa discussão entre os especialistas, cujos
argumentos revelam muito da base ideológica e mecanicista que subjaz à
concepção amplamente difundida de "secularização" como "sem religião". E mais,
grande parte dos sociólogos que abordam esse problema chegam inclusive a
sustentar que a noção de secularização possui grande potencial explicativo da
religião mesmo em condições de globalização e pós-modernidade. Um breve relato
deste debate sociológico é o que apresentaremos a seguir, a fim de refletir, a
partir de uma perspectiva ideológica, a utilidade ou não do conceito de
secularização para explicar a atual efervescência religiosa.
A teoria da secularização em debate
O debate em torno da secularização realiza-se em estreita relação com o debate
em torno da modernidade. Além da variedade de suas realizações históricas e
interpretações, na discussão sociológica pode-se identificar uma série de
características do que tem se denominado modernidade: trata-se de um processo
sócio-histórico complexo e multidimensional - original da Europa Central -,
caracterizado fundamentalmente por uma visão de mundo descentrada, profana e
pluralista, por uma reflexão que ao incorporar-se de forma sistemática e
permanente na vida social, desestabiliza a experiência, as instituições e os
conhecimentos, e conseqüentemente gera uma realidade profundamente dinâmica,
contraditória, ambígua e precária. Também podem-se mencionar, como
características típicas da modernidade, a primazia da razão instrumental, o
individualismo, a compreensão otimista da história como progresso, bem como a
diferenciação institucional.2 Como podemos perceber, a modernidade, de uma ou
outra forma, implica uma alteração do papel central desempenhado pela a
religião em sociedades tradicionais,como elemento legitimador e integrador,
dando sentido e articulando as diferentes esferas sociais. Este processo,
usualmente conhecido como "processo de secularização", foi lido por diversos
teóricos (Comte, Spencer, Marx) como uma dinâmica de emancipação cujo fim
levaria a uma sociedade "sem religião".
Esta hipótese utópica própria dos primórdios da sociologia parecia confirmar-se
historicamente em três fatos mais ou menos contundentes: 1) o paulatino
deslocamento da religião-institucional do centro para a margem da incipiente
sociedade moderna européia, 2) a perda do monopólio de visão de mundo da
religião e seu rebaixamento para a mentalidade científica e liberal, 3) o
paulatino, mas constante declínio da relevância social dos signos, símbolos e
das instituições religiosas. No entanto, Durkheim e Weber, para citar somente
alguns, já viam que o postulado do "desaparecimento inevitável da religião"
tornava-se problemático. Durkheim, por exemplo, afirma que "há algo eterno na
religião que está destinado a sobreviver a todos os símbolos particulares com
que sucessivamente se tem revestido o pensamento religioso" (Durkheim, 1982, p.
387), com o qual deixava aberta a possibilidade de afirmar que não obstante as
mudanças nas formas, a religião permaneceria. Weber, por outro lado, referindo-
se ao "desencantamento do mundo" assinalava que este processo estava longe de
conduzir de forma linear e progressiva a uma visão de mundo determinada
plenamente pelo cálculo e pela previsão, pois também advertia como a ciência
experimentava em muitos de seus contemporâneos uma espécie de "reencantamento"
ao conceber-se como um reino ultraterreno de abstrações artificiais, sem
pressupostos prévios e com pretensões quase religiosas de que seus resultados
fossem "dignos de ser conhecidos" (Weber, 2000, pp. 200-208). Para ambos os
autores, mesmo que a religião fosse perdendo sua influência social, também
ficava mais ou menos claro que não estava necessariamente condenada a
desaparecer, mas sim a transformar-se, desfazendo-se de algumas fórmulas
mágicas e adotando outras novas. As intuições dos denominados mestres da
suspeita (Nietzsche, Marx e Freud) que identificaram com argumentos sólidos na
religião um fenômeno alienante, levariam muitos a pensar apressadamente que a
emancipação da religião tornaria inevitável seu fim, conceito que longe de ser
um puro postulado teórico se tornou ainda um programa político-ideológico.
Essas discussões revelaram duas abordagens ou teses dominantes sobre a
secularização válidas até hoje: a primeira poderia ser chamada de "tese dura ou
forte da secularização" e seria concebida como um processo lento e inexorável a
caminho do fim da religião; a segunda, ou seja, a "tese suave da secularização"
afirmará que se trata de um processo pelo qual a religião sofre severas
alterações na modernidade, mas persiste disseminada pelos interstícios da
cultura, disfarçada ou oculta na economia como "espírito do capitalismo", na
política como "religião civil", ou como formas socioculturais pouco relevantes.
Apesar dessas distinções, as tensões e as lutas que provocaram os processos de
secularização, especialmente em sociedades enraizadas em monopólios religiosos,
transformaram a "tese dura" em um programa político a ser atingido de forma
deliberada, em muitos casos a qualquer custo, como na França, no México e na
ex-União Soviética . Estes e outros elementos, nos quais não nos aprofundaremos
neste momento, levaram a identificar a secularização como uma teoria para
explicar o inevitável desaparecimento da religião nas sociedades modernas.
Rumo ao último terço do século XX, Peter Berger e Thomas Luckmann deram um novo
impulso à reflexão sociológica sobre a secularização ao constatar, desde
diversos ângulos, os limites e as insuficiências da chamada "tese dura".
Berger, embora constatasse que na modernidade o processo de racionalização,
institucionalizado na economia, a técnica e a burocracia haviam deslocado a
religião do centro da sociedade para o âmbito privado, também advertia que esse
fato possibilitava um pluralismo religioso, desmonopolizando as tradições
religiosas hegemônicas, colocando-as em concorrência umas com as outras, mas
não eliminando-as (Berger, 1981, especialmente a Segunda Parte). Nesse mesmo
sentido, Luckmann deteve-se na dimensão individual ou privada da religião na
modernidade, destacando sua persistência como uma constante antropológica, mas
também sua capacidade de mudança (Luckmann, 1973). De tal forma que,
diferentemente daquelas teorias teleológicas que previam o fim da religião,
Luckmann provou, a partir de uma perspectiva histórico-antropológica, como a
religião, em vez de se destruir, transformava-se influenciada pela estrutura
simbólica e social na qual tinha lugar. Esta constatação o levou a tratar de
diversas "formas sociais de religião", sendo a religião individual ou invisível
- como ele preferia chamar - a mais adequada à sociedade secular (Luckmann,
1989, pp. 87-108). A intuição de Luckmann sobre a persistência da religião como
uma constante antropológica foi confirmada na maioria das sociedades ocidentais
no último terço do século XX, onde se testemunharia a persistência religiosa
não somente nas suas formas tradicionais, mas também em novos movimentos
religiosos. Ali, a teoria da secularização entendida como a-religiosidade
ficava desacreditada nos fatos, além de mostrar-se teoricamente incapaz de
explicar essa espécie de "reencantamento" do mundo.
Críticas à teoria da secularização
Geralmente as críticas à teoria da secularização foram dirigidas justamente ao
que chamamos de "tese dura". Elas se configuram em duas frentes: no primeiro
caso desde a mesma realidade histórica, em que o caso norte-americano é
paradigmático, pois, não obstante ser em muitos sentidos o protótipo da
sociedade moderna, podemos observar uma religiosidade permanente e exuberante,
o que mostra que modernidade e religião não são incompatíveis. A outra frente é
de cunho mais teórico: Wilson, por exemplo, afirma em diversos trabalhos que as
abordagens que procuram reduzir ou eliminar a religião (com suas instituições,
crenças e práticas) da vida social moderna fazem referência mais a uma
ideologia - o secularismo - do que a uma teoria social (1998, p. 46). Nesse
mesmo sentido, o peculiar conceito evolutivo e teleológico da secularização tem
sido criticado por seus pressupostos históricos: se com o avanço da modernidade
a religião tende a decrescer, isto faria supor que em algum momento do passado
existiu algo como "a idade da fé". Porém, uma análise histórica mais detalhada
mostrará quão longe estiveram outras sociedades de ser algo mais que religiosas
(Stark, 1999, pp. 255-260). Outra objeção diz respeito a seu inegável caráter
etnocêntrico, que tende a identificar a rota do fenômeno religioso ocorrido na
Europa ocidental como caminho paradigmático pelo qual deverão transitar as
outras sociedades, omitindo experiências históricas em que a religião teve
grande vitalidade, como no caso dos Estados Unidos, da América Latina e da Ásia
(Martin, 1991, p. 466). Somado a isso, temos a objeção, já mencionada, da visão
evolutiva e linear que supõe tal idéia de secularização, na qual perde-se de
vista que esse processo é claramente uma variável dependente de cada universo
sociocultural, dos interesses de grupos e indivíduos e do próprio caminho
traçado pelas vicissitudes dos processos de modernização. Nesse contexto, se
não há propriamente uma modernidade, mas muitas em permanente disputa (Beriain,
2005), também não se pode falar de um destino único e inescapável da
secularização; portanto, há tantas e variáveis secularizações como modernidades
existem (Casanova, 2007, pp. 5-8). Pode-se questionar até mesmo a
irreversibilidade que pressupõe o conceito duro de secularização, pois se é
certo - como afirma Karel Dobbelaere - que as possibilidades de "deslaicização"
na economia ou na política são muito raras, existem âmbitos, como o familiar ou
da educação, em que o conflito entre quem advoga por enfoques racionais e os
que lutam por perspectivas ético-religiosas não permite descartar a priori uma
possível "deslaicização" dessas esferas (Dobbilaere, 1994, p. 60). Por fim, o
conceito de secularização unilinear e progressivo padece de uma visão similar a
respeito de mudança e diversidade social que ignora haver na dinâmica de um e
outro processo hibridações, fragmentações e verdadeiras torções, de modo que a
modernidade em sua fase atual, por exemplo, não é só, nem principalmente, o
resultado do suposto "progresso" perseguido pelo projeto esboçado no
Iluminismo, mas também e, talvez, a conseqüência da mistura de ações desejadas
e não desejadas, de seus efeitos colaterais, advertidos, imprevistos e até
desconhecidos, dando lugar a uma nova etapa da modernidade, cuja denominação
variará de acordo com o ângulo e o enfoque que se privilegie: sociedade do
risco (Beck), modernidade radical (Giddens), modernidade tardia (Habermas) ou
pós-modernidade (Vattimo, Lyotard etc.).3 Em qualquer caso, uma teoria complexa
de mudança social deve se correlacionar a uma teoria complexa da secularização.
Ignorar isto leva a afirmações igualmente simplistas quando se faz referência
ao surgimento de novos movimentos religiosos ("ressacralização", "retorno do
religioso" ou "vingança de Deus"), na forma de um retorno igualmente linear e
mecânico à situação anterior à modernidade que. se não era exatamente uma
"idade da fé", tinha a religião desempenhando um papel central nos níveis
institucional, sociocultural e subjetivo.
Se por secularização entende-se o processo pelo qual a religião tende a
desaparecer inevitavelmente nas sociedades modernas, vários fatos históricos e
a discussão sociológica mostraram que tal afirmação é insustentável. Uma das
atitudes mais comuns entre alguns estudiosos do assunto diante do descrédito do
conceito de secularização consiste em rejeitar essa noção por sua incapacidade
explicativa e preditiva do fenômeno religioso nas sociedades contemporâneas.
Autores célebres do renascimento da sociologia da religião nas décadas de 1960
e 1970, como Peter Berger, quem certamente colocou novamente na arena da
sociologia o tema da secularização sob o ponto de vista histórico e sistemático
(Berger, 1981), a partir dos anos de 1990 optaram, para explicar as mudanças
religiosas nas sociedades atuais, por explorar o "pluralismo" e seus efeitos
relativizantes e sincréticos nas crenças (Berger, 1993, pp. 39-64). Diante
dessa situação, o título do artigo de Stark refere-se ao epitáfio com que se
poderia sepultar a noção "Secularização: R.I.P.". Seria então uma noção
puramente ideológica? As mudanças e os fenômenos sociais a que se referiam os
sociólogos da religião nunca existiram? E caso tenham existido hoje não
perduram mais? Nunca realmente foi composta uma teoria sistemática a esse
respeito? Tais questões têm ocupado os sociólogos da religião nas três últimas
décadas, cujas conclusões apresentaremos a seguir.
Secularização: um paradigma multidimensional
Entre os sociólogos da religião pode-se identificar um grupo que, apesar de
mostrarem-se críticos ao uso ideológico, preditivo e mecânico da teoria da
secularização, descartam a idéia de rejeitá-la. Um dos mais importantes
estudiosos que segue esta linha é Karel Dobbelaere, sociólogo da religião da
Universidade Católica de Lovaina. Em seu famoso relatório sobre as tendências
da secularização, faz uma revisão a respeito do tema (desde os clássicos da
sociologia até a segunda metade do século XX), na qual constata que a teoria da
secularização é primeiramente um "conceito de sensibilização" que oferece um
sentido geral de referência e orientação, abordando casos empíricos
(Dobbelaere, 1994, pp. 7-8). Porém, ele também adverte que caso se queira fazer
uso científico do conceito e não utilizá-lo simplesmente como um "estereótipo
vago" é preciso diferenciar três dimensões: laicizacão, mudança religiosa e
participação em igrejas. A primeira mediria as inter-relações entre as
instituições religiosas e as instituições sociais, incluindo aí três processos
complementares: profanação, diferenciação e transposição. Na segunda caberiam
as mudanças que ocorrem no interior do mundo religioso em matéria de crenças,
moral e ritos, assim como o rebaixamento e o surgimento de comunidades
religiosas. Cabe salientar que esse nível se mantém também no plano
institucional, só que restrito no interior das próprias instituições
religiosas. A terceira dimensão trataria das mudanças que ocorrem na relação
indivíduo-instituição religiosa, referindo-se ao grau de integração normativa
dos indivíduos com respeito às corporações religiosas (Idem, pp. 2-8). Com base
nessas diferenciações, o autor imprime nas teorias sociológicas sobre a
secularização um status de verdadeiras "teorias sociais" e não simples recursos
ideológicos. Aprofundando-se nesta questão, Dobbelaere apresenta alguns anos
depois em um breve trabalho, mas não menos estimulante para a reflexão
sociológica, a necessidade de levar em conta os paradigmas sociais que subjazem
às teorias sobre a secularização (refere-se principalmente a Luckmann, Berger,
Wilson e Luhmann), com a finalidade de diferenciar os paradigmas e os níveis
subseqüentes de análise (Dobbelaere, 1985, pp. 377-387).
Próximos a esta interpretação, situam-se Peter Beyer, professor do Departamento
de Estudos Clássicos e Religiosos da Universidade de Otawa, e José Casanova,
professor de Sociologia na New School University de New York. O primeiro assume
praticamente todas as diferenciações de Dobbelaere com a novidade de considerá-
las válidas no contexto de globalização (Beyer, 1999, pp. 289-301). O segundo,
por outro lado, refere-se à secularização como um paradigma no qual distingue
três diferentes propostas: a) secularização como diferenciação estrutural e
funcional (emancipação) das esferas seculares com respeito às instituições e às
normas religiosas, identificando-a como uma tendência generalizada no mundo
moderno; b) secularização como declínio nas crenças e práticas religiosas, que,
de forma diferente da anterior, não é uma tendência estrutural moderna, mesmo
sendo uma tendência histórica dominante em muitas sociedades ocidentais,
principalmente européias; e c) secularização comomarginalização da religião à
esfera privada, uma tese que também não é tendência estrutural da modernidade,
mas uma opção histórica prescrita ideologicamente na estrutura do pensamento
moderno ocidental (Casanova, 1995, pp. 395-410). Sua contribuição, portanto,
está em identificar como apenas a diferenciação institucional das esferas
seculares com respeito às instituições e às normas religiosas (o que Dobbelaere
chamaria delaicizacão) pode ser considerado um elemento secularizador inerente
à modernidade, diferentemente das outras duas dimensões. Nessa mesma
perspectiva encontra-se um grande grupo de autores (Luckmann, Voyé, Beyer,
Wilson, Tschannen, Luhmann, Rubio e Mardones, entre outros) que ainda
consideram valiosa a tese da secularização no que diz respeito à dimensão
institucional ou social, que é um instrumento útil não somente na modernidade
como também nas peculiares condições da modernidade tardia e globalizada do
mundo contemporâneo.
Podemos afirmar que as reflexões sociológicas sobre a secularização constituem
uma teoria sistemática? Oliver Tschannen afirma que a soma dos diversos
elementos do corpus conceptual sobre a secularização não dá lugar a uma teoria
sistemática e coerente, mas não concorda com Jeffrey Hadden e outros sociólogos
que "a teoria da secularização é mais uma miscelânea de idéias desarticuladas
do que uma teoria sistemática" (Tschannen, 1991, p. 395). Ele, na verdade,
sustenta que o corpus conceptualsobre a secularização constitui um autêntico
"paradigma" no sentido kuhniano da expressão, ou seja, forma um quadro coerente
de conceitos compartilhados em torno de três elementos centrais: diferenciação,
racionalizaçãoemundanização. Além disso, segundo ele, esse paradigma abriu
espaço neste contexto para a comunidade científica que faz "ciência normal -
sociológica" a partir de suas próprias nuanças, acentos e vertentes teóricas.
Essa comunidade estaria basicamente formada por autores como Luckmann, Berger,
Wilson, Martin, Fenn, Parsons, Dobbelaere e Bellah, que particularmente não
representam plenamente o paradigma, mas compartilham basicamente seus elementos
centrais.4 A proposta de Tschannen, que em outro texto ele vê confirmada ao
comparar o caso europeu e o latino-americano (2004, pp. 353-366), parece-nos a
postura mais aceitável, pois sem se esquivar das críticas mais agudas à
secularização, assim como Dobbelaere e outros, supera abordagens reducionistas
e teleológicas, ao mesmo tempo em que consegue identificar e valorizar um
quadro conceitual sociológico útil para dar conta das dinâmicas e das
tendências do fenômeno religioso nas sociedades contemporâneas, tanto na
persistência de suas antigas expressões, como em suas novas formas.
Secularização, pós-modernidade e globalização
Outro tipo de crítica que se faz às abordagens sobre secularização diz respeito
ao fato de que se trata de uma teoria ad hoc para um contexto de modernidade em
que o objetivo era explicar como e por que diminuía a influência religiosa na
vida social. Em um contexto pós-moderno, o problema é oposto, ou seja,
procuram-se entender e compreender as causas e as tendências desta espécie de
"ressurgimento religioso", "ressacralização" ou no sentido weberiano do
"reencantamento".5 Refletirmos sobre essas abordagens implica em definir, mesmo
que brevemente, o que se entende por pós-modernidade e a nova configuração que
a religião tem experimentado nesse lugar.
Pós-modernidade e religião: secularização ou ressacralização?
Desde o último terço do século XX tornou-se lugar comum falar da "crise da
modernidade". Com essa expressão procura-se sinalizar o mal-estar generalizado
que experimenta o homem comum (por exemplo, na desorientação e nas incertezas
perante os valores) em relação ao sistema econômico e ao espaço político. Estes
se tornaram incapazes de solucionar as enormes diferenças entre o chamado
primeiro mundo e o restante das nações, entre a grande massa dos excluídos e as
pequenas elites que monopolizam o poder político e econômico. Isso tem levado a
questionar os "grandes discursos" ou "metarelatos" sobre os quais se ergueu a
modernidade (progresso, primazia da razão, universalismo etc.), assim como seu
otimismo emancipatório herdado do Iluminismo. Alguns autores não hesitam em
situar a crise estrutural e de valores na cultura, isto é, no âmbito das formas
simbólicas em que a sociedade organiza seu acervo de padrões de interpretação,
valores, mitos e crenças.6 Para os críticos sociais (sendo Habermas seu maior
representante, incluindo também Claus Offe, Alain Touraine e Anthony Giddens),
as contradições e as incertezas inerentes a esta nova situação, mais do que
apontar para o fim da modernidade, como assinalaram os pós-modernos, indicam
que assistimos à radicalização daquelas tendências e tensões ambivalentes que
já estavam presentes. Dessa perspectiva, a chamada crise da modernidade não
seria um réquiem ou o limiar de uma nova época (pós-modernidade), mas sim a
expressão de outra fase da modernidade, gerada por uma teia de conseqüências
desejadas, não desejadas e desconhecidas, assim como pelos triunfos e fracassos
da modernidade iluminista ou industrial.7 Mas, então, como referir-se a essa
nova realidade? Como estabelecer suas conexões, estruturação ou desestruturação
em relação à sua fase anterior? A este respeito, vários analistas sociais, a
partir de diferentes referencias teóricos, têm cunhado expressões sem justapor
a continuidade ou a descontinuidade entre essas duas etapas da modernidade
como, por exemplo, "modernidade radicalizada" (Giddens), "modernidade
reflexiva" (Luhmann), "desmodernização" (Touraine) e "modernidade liberal
ampliada" (Wagner).
Este novo contexto tem modificado o campo de estudos da religião. Talvez dois
dos sintomas tenha sido a persistência das tradições institucionais religiosas
(apesar de sua tendência decrescente) e, sobretudo, o surgimento de novos
movimentos religiosos. Em relação ao primeiro, Lilian Voyé sustenta que,
perante o desencantamento dos "metarelatos" científicos, éticos, nacionalistas
e de identidade específica do novo contexto, as tradições religiosas são
requeridas com freqüência por conta de sua capacidade de outorgar sentido,
identidade e um horizonte de valores para os indivíduos. Ela não supõe o
retorno à situação religiosa pré-moderna - de hegemonia da grandes instituições
religiosas -, ao contrário, afirma que elas se encontram limitadas, sem foco no
social, relativizadas por um contexto pluralista e sujeitas à contestação
interna e externa. O processo de secularização em sua dimensão de diferenciação
institucional não permanece invalidado (Voyé, 1999, pp. 275-288). A
proliferação de novos movimentos religiosos, por seu turno, é um dos aspectos
que mais tem chamado a atenção atualmente. Não poucos estudiosos do tema
concluíram precipitadamente que a teoria da secularização se revelou falsa e,
desde então, têm decretado seu fim. Mas será que, realmente, estamos assistindo
a um ressurgimento religioso? Estaria ocorrendo um "reencantamento" do mundo?
Respostas nesse sentido exigem um aprofundamento da análise, identificando qual
é a religião que ressurge e como isto se dá nessa fase da modernidade. É
necessário refletir se tal situação abala a teoria da secularização a ponto de
se precisar recorrer a outros tipos de propostas explicativas.
A maioria dos estudos a respeito do ressurgimento religioso tem mostrado que,
no caso ocidental, não são as principais instituições religiosas que têm ou se
"revitalizado"; pelo contrário, salvo algumas exceções, quando o espírito
nacionalista ou reivindicatório se encontra e estreitamente ligado a uma
determinada igreja, são as igrejas católica, luterana, anglicana etc. que
diminuíram seu campo de alcance e influência, tendência que se manifesta em
alguns aspectos da religiosidade mais do que em outros, mas que ocorre
igualmente em todas essas igrejas, sobretudo em áreas urbanas (Bastian, 1997;
Legorreta, 2003).8 Ao mesmo tempo observa-se um crescimento explosivo na
diversidade religiosa, desde "fundamentalismos" (testemunhas de Jeová, mórmons,
igrejas eletrônicas, fundamentalismos católicos etc.) passando por religiões de
matriz oriental (hare krishna, meditação transcendental e novas formas de
budismo) até o sincretismo religioso esotérico-holista da New Age (Mardones,
1994, pp. 113-128). Todas essas expressões religiosas compartilham de uma ou
outra forma o "espírito" da "modernidade radicalizada": desconfiança ante a
racionalidade contemporânea, pretensão de ruptura ante as práticas e as formas
religiosas institucionais herdadas e de forte carga "emocional" e individual,
exceto alguns fundamentalismos (Hervieu-Leger, 1987, pp. 221-222). Em especial,
os movimentos religiosos baseados em intensa carga emocional, os que mais
abundam hoje, são altamente adaptáveis às condições do novo contexto: carecem
de pontos fixos de referência, tradição ou autoridade; apostam mais na
experimentação do que na crença, são sincréticos por natureza e não se
estruturam mais em torno do eixo "transcendência-imanência", em torno de um
eixo horizontal: "sentido/sem sentido", "vida/morte", "saúde/doença" etc.
(Rubio, 1998, p. 20).
Quais seriam as conseqüências desse inesperado revivalreligioso no interior do
processo de secularização? Tal "ressurgimento" religioso não só mantêm, como
também reafirma, em nome da experiência pessoal e subjetiva, uma rejeição ao
controle institucional de crenças e práticas (com exceção de alguns grupos
"integristas"), de modo que essa vitalidade religiosa está longe de ser uma
mera regressão à tradição religiosa pré-moderna, que tinha monopólio
institucional e ocupava o centro da vida social. Em vez disso, o que observamos
é uma radicalização da "diferenciação" vislumbrada por Weber dentro das
próprias crenças e das novas formas religiosas.9 Essa situação peculiar é o que
possibilita compreender a constante disseminação da religião nos interstícios
das esferas públicas e privadas, assim como o surgimento cada vez maior de uma
religiosidade de bricolage, de uma "religião à la carte", desenhada de acordo
com preferências individuais, mais do que seguindo a lógica e a coerência de um
sistema doutrinal. Portanto, a vitalidade dessas formas emocionais de religião
não nega a teoria da secularização, já que agora, mais do que antes, a
proliferação de grupos religiosos, a competição entre eles e a precariedade de
suas adesões e crenças debilitam qualquer pretensão de tornar a instituição
religiosa um fator de coesão social (Idem, pp. 13-15). Em suma, a secularização
instalou o "reino do fragmento" (pluralismo) entre as próprias instituições
religiosas, as quais vivem um processo inevitável de relativização. Os
indivíduos, por sua vez, vêem-se condenados a escolher e a flexibilizar as
crenças.
Essa condição inédita da religião na modernidade tardia é o que Martelli chama
de "dessecularização", em vez de ressacralização. Para ele, essa nova forma
social de religião não obedece a um processo evolutivo linear, mas à lógica em
que a pós-modernidade funciona; isto é, mediante um triplo e paradoxal
movimento:manutenção, recuperaçãoedistorção (Martelli, 1999, pp. 160-161).
Manutenção significa a permanência de organizações, identidades e valores
religiosos herdados; no segundo movimento ocorre uma recuperação não
tradicional (Giddens) de símbolos, tradições e crenças religiosas, o que não
implica em um simples retorno à fusão de instituições ou à restauração do
cesaropapismo. Quanto à distorção, o autor deseja mostrar que os resultados
podem ser imprevisíveis, apresentando até mesmo um caráter destrutivo, como o
suicídio coletivo ocorrido na " Porta do Céu" , em 1997, ou outros casos
semelhantes. O autor conclui, então, que a "dessecularização é o retorno não
tradicional à tradição ético-religiosa, com efeitos ambivalentes e de
distorções", o que torna obsoletas tanto uma teoria linear da secularização,
como sua contrapartida, a simples ressacralização (Idem, pp. 164-165). Na
verdade, o processo de dessecularização coexiste com o processo de
secularização, isto é, mantém-se a emancipação de diversas instituições da
tutela religiosa, ao mesmo tempo em que as crenças e as práticas herdadas
coexistem e interpenetram-se com novas crenças e movimentos religiosos, criando
uma situação inédita, pois nem se trata de um simples retorno religioso do
passado, tampouco de uma dissolução da secularização.
Da "sociedade secularizada" a "sociedade pós-secular"
Em primeiro lugar, é inegável a persistência e a efervescência religiosa
paralelamente a um descrédito da razão instrumental (creditado em grande parte
pela crise da modernidade e a crítica pós-moderna). Em segundo lugar, esse novo
contexto conduz à revalorização do plano simbólico e à necessidade de se dar
sentido à vida, elementos que estão intrinsecamente articulados em todas as
tradições religiosas. Isso possibilita a existência da tolerância religiosa,
como também sua revalorização na esfera pública. Assim, pode-se falar em
"religiões públicas", não no sentido pré-moderno de religiões que atuam de
maneira central no espaço público (por exemplo, "igrejas oficiais"), nem no
sentido de religiões competindo com outras como se fossem partidos políticos,
no sentido de que operam publicamente no espaço da "sociedade civil". José
Casanova define a "religião pública" como aquela que,
[...] mesmo aceitando a desoficialização estatal e a neutralidade com
respeito à disputa política, reclamam pelo direito de intervir,
dialógica ou polemicamente na esfera pública da sociedade civil. O
resultado dessa reformulação é uma concepção da religião pública
compatível com as liberdades do liberalismo e com a moderna
diferenciação estrutural e cultural (Casanova, 1995, p. 404).
Este tipo de religião parece estar cada vez mais presente nas sociedades
contemporâneas, quando, por exemplo, posiciona-se pela defesa de liberdades e
direitos em regimes autoritários, ou intervém em debates públicos, insistindo
em considerações éticas. Trata-se, em suma, de uma nova presença pública da
religião, não "reativa" nem fundamentalista, muito menos governista, , mas
sobretudo dialógica.
Jürgen Habermas recentemente mostrou interesse em afrontar essa nova situação
da religião na esfera pública das sociedades modernas. Ele chama a persistência
indefinida das comunidades religiosas em um ambiente secularizador de sociedade
"pós-secular" (Habernas, 2001). Trata-se de uma sociedade que tem superado a
"fé cientificista" de uma pura e dura compreensão objetiva do ser humano (que
nem é ciência, mas filosofia ruim), concedendo às convicções religiosas, com
seus fundamentos morais, ser uma voz necessária entre outras no interior do
espaço público. Habermas considera as tradições éticas ou religiosas
imprescindíveis para a sustentação do Estado liberal (Habermas, 2004), o que
não quer dizer que o Estado não possa cumprir de maneira positiva seu papel em
uma ordem constitucional, mas ele não consegue fazer o mesmo em relação ao
aspecto motivacional. A motivação que permite aos cidadãos a solidariedade e o
respeito à ordem constituída obedece a insumos pré-políticos, cujas fontes são
"projetos éticos de vida", ou seja, ideais de existência, cujo alimento
continua sendo, apesar de tudo, religioso. Com base nisso, Habermas entende a
sociedade pós-secular não somente como o entorno secular onde persistem as
comunidades religiosas e onde elas são reconhecidas por sua contribuição
funcional por "motivos e atitudes que fazem bem a todos", mas também como "a
modernização da consciência pública", na qual, apesar de suas diferenças, se
encontram e se interpenetram as mentalidades religiosas e mundanas, no sentido
de opinar em temas controversos no espaço público (Idem).
Esse novo tipo de presença e revalorização do plano religioso pressupõe os
efeitos dos processos da secularização e até mesmo sua radicalização, mas em um
contexto não impregnado do mito cientificista e evolucionista/progressivo
próprio do Iluminismo. Talvez os acontecimentos do memorável "11 de Setembro"
possam ilustrar o que queremos dizer. Naquele momento, no mais íntimo da
sociedade secular uma "fibra" religiosa surgiu, de modo que, embora as razões
político/religiosas do atentado eram de algum modo evidentes, as reações também
assumiram contornos religiosos, manifestando-se em uma série de fatos, como a
indignação e a solidariedade diante do atentado, o sentimento da "sacralidade"
de um estilo de vida manchado pelos suicidas, os discursos de vingança e reparo
etc. Ali, não prevaleceu uma análise científico-técnico dos acontecimentos, mas
ninguém se sentiu lesado por isso, nem lamentou que estivesse assistindo ao
desmoronamento do caráter secular da modernidade. Pelo contrário,
espontaneamente as pessoas buscavam explicações étnicas, religiosas e racionais
para dar conta do que aconteceu.
Sem dúvida, esta nova "arena" de encontro entre a religião e a razão abre-se
para um grande debate permeado por pontos de vista diversos e com resultados
inesperados. No campo teológico, por exemplo, já há alguns anos surgem novas
abordagens interdisciplinares entre ciência, sociedade e religião dentro de um
contexto pós-secular.10
A religião na globalização
Uma visão geral sobre a situação da religião nas sociedades contemporâneas
estaria incompleta se não se pautasse pelas dinâmicas da globalização. Nos
últimos cinqüenta anos a modernidade radicalizada tem assistido a um processo
acelerado e intenso de intercâmbio entre indivíduos, culturas, capitais,
símbolos e instituições, o que vem desterritorializando identidades, culturas,
relações sociais e econômicas, entre outras conseqüências. Esta
"interconectividade complexa", nas palavras de Giddens, é o que se conhece como
"globalização" (Giddens, 1990, pp. 67ss). Tal fenômeno é conseqüência da
modernidade radicalizada, que proporcionou as condições socioinstitucionais
(capitalismo, industrialização, comunicação de massa, urbanismo, Estado
nacional etc.) e o imaginário cultural (que inclui diferentes formas de
racionalidade, cosmologia, valores, crenças, conceitualização do tempo e
espaço) que tornaram a globalização possível (Tomlinson, 2001, Capítulo 2).
Nesse contexto, a religião comporta-se tanto como uma força negativa da
globalização, servindo, para certos grupos, de referência para uma identidade
histórica ou étnica e fortalecendo, assim, a cultura local, quanto como uma
força pró-ativa, que assume um caráter eminentemente expansivo e
homogeneizador, como ocorre com o catolicismo romano e alguns movimentos
islâmicos na modernidade globalizada (Beyer, 1994). Evidentemente, essas
dinâmicas religiosas não são completamente novas, o que difere é a intensidade,
a complexidade e a escala global que agora alcançam. Talvez um dos casos mais
ilustrativo seja o das identidades. A identidade é uma constante antropológica
eminentemente relacional e dinâmica, em que a religião sempre desempenhou um
papel fundamental. Em um contexto de globalização, onde ocorre uma intensa e
maciça interação entre grupos e indivíduos, não é fácil que as identidades
"nativas" permaneçam inalteradas, apesar das freqüentes tentativas de fechar-
se. Quando isto ocorre, em um contexto onde sujeitos de uma determinada
identidade são ou foram marginalizados ou oprimidos, a religião costuma ser o
baluarte do entrincheiramento sociocultural e, nesse sentido, contrassistêmico.
Em outros casos acontece mais ou menos o contrário: a religião, ao se
desprivatizar e se desterritoratizar (como têm acontecido com certas formas de
catolicismo e islamismo), adquire uma dinâmica funcional em relação à
globalização, alterando particularismos culturais.
Em outras palavras, as religiões não podem permanecer impassíveis em um
contexto de globalização. De fato, assistimos atualmente ao surgimento de novas
formas de religião com expressões nos níveis individual, grupal e social. Nessa
direção, José Casanova identifica duas grandes mudanças no campo da religião: a
revitalização das grandes tradições ou "religiões do mundo", mas como
comunidades religiosas "imaginadas", transnacionais e globalizadas, ou seja,
assiste-se a uma explosão de comunidades religiosas desterritorializadas, onde
a comunidade (Gemeinshaft) tem se reconstruído de muitas formas ao libertar-se
das restrições territoriais do Estado-nação ou de algum outro tipo de
comunidade étnica territorial (Casanova, 2001, pp. 427-434). A outra mudança
diz respeito à "desprivatização religiosa", ou seja, a incursão da religião na
esfera pública e no campo de batalha do protesto político, não só para defender
seu feudo tradicional, mas também para participar das mesmas lutas no sentido
de definir e assentar as fronteiras modernas entre as esferas pública e
privada, entre legalidade e moralidade, entre família, sociedade civil,
economia e Estado na escala global (Casanova, 1995, pp. 404-406). Mas esta
dinâmica, segundo o autor, não implica a ressacralização da sociedade ou uma
mudança da cultura política secular, já que tal desprivatização acontece
justamente em uma "arena" pluralista que supõe, por princípio, um Estado laico-
secular e que, como tal, possibilita a participação de diferentes atores na
esfera pública, entre eles, os religiosos.11 Teoricamente, isto não exclui a
emergência e, em alguns casos, a revitalização dos fundamentalismos, já que é
também inevitável sua presença, "entrincheirados" ou numa franca "cruzada" em
face de uma agressiva realidade plural e globalizada que ameaça diluir e
banalizar suas crenças, o que resulta, em última instância, em uma forma
indireta de confirmar o caráter global e plural da religião.
Na sociedade global coexistem diversas formas sociais de religião
(institucionalizada, politizada, fundamentalista, invisível, emocional etc.),
contudo, nem todas possuem as mesmas condições de plausibilidade. Enquanto a
religião institucionalmente organizada encontra-se em um contexto desfavorável
devido ao pluralismo e seus efeitos relativistas e sincréticos, as outras,
sobretudo a religião "individual-emocional", têm ali um ambiente mais
conveniente (Beyer, 1999, pp. 296-297). No entanto, já que a dinâmica da
globalização não opera sozinha, mas está em permanente interação e tensão com o
plano "local" (em que a religião desempenha papel de enraizamento
importantíssimo), resta a tarefa de estudar casos concretos sobre a influência
religiosa nas sociedades da modernidade tardia e globalizada.
Conclusão
Grande parte das primeiras teorias sociológicas a respeito da secularização
concentrou sua atenção em tentar explicar a perda da relevância social e
subjetiva da religião nas sociedades modernas. O contexto polêmico do momento e
o pressuposto do pensamento iluminista que preconizava a incompatibilidade
entre o pensamento racional e a religião marcariam as reflexões sobre a
secularização como teoria explicativa e preditiva do declínio da religião na
modernidade. A persistência da religião e, em muitos casos, o crescente papel
de protagonista adquirido na dinâmica social de nossas sociedades hipermodernas
e globalizadas têm levado muitos a pensar na obsolescência das teorias
sociológicas sobre a secularização.
O debate sociológico contemporâneo a esse respeito revelou que, embora muitas
das primeiras teorias de secularização tenham sido concebidas com base no viés
iluminista, estas teorias mostraram uma série de mudanças socioestruturais,
como a diferenciação institucional e o pluralismo, que tornaria irreversível a
descentralização e o deslocamento experimentado pela religião nos processos de
modernização, inclusive nas condições atuais da modernidade radicalizada e
globalizada que assiste ao ressurgimento e à revalorização da religião. Para a
maioria dos autores aqui analisados, esses fatos, em vez de debilitar ou fazer
retroceder as mudanças socioestruturais a um estado pré-modernidade,
prevaleceram principalmente porque a dinâmica e as características do
ressurgimento religioso se ergueram com base no "espírito" da modernidade
radicalizada (pluralismo, preeminência do emocional, desconfiança da razão
etc.). Certamente essa situação não exclui a possibilidade de que grupos ou
movimentos religiosos permaneçam com uma clara atitude de retrocesso, como
acontece com quase todos os fundamentalismos, embora tudo indique que eles não
possam mais vislumbrar um futuro promissor.
Outro aspecto relevante do debate sociológico contemporâneo sobre a religião
concerne à utilidade analítica das reflexões sobre a secularização em um
contexto de modernidade globalizada para explicar a desterritorialização das
identidades religiosas, a formação de comunidades transnacionais "imaginadas" e
o efervescente sincretismo da grande maioria das religiões.
Sem dúvida a teoria da secularização se confrontará continuamente com
investigações empíricas que lhe permitam revisar seus pressupostos, ajustar
seus marcos explicativos e facilitar, desse modo, uma melhor compreensão de
nossas sociedades.
Notas
1 Para uma apresentação sucinta dos antecedentes históricos e usos semânticos
da noção de secularização, ver Marramao (1988).
2 A bibliografia sobre a modernidade é imensa, para uma visão geral, ver Berger
e Kellner (1979), Gidens (1990), Habermas (1989, pp. 131-144), Wagner (1997).
3 Uma síntese básica sobre esta perspectiva, ver Entrena (2001).
4 Tschannen têm consciência de que, na delimitação do paradigma da
secularização, excluiu autores relevantes como Habermas, Luhmann e Stark, entre
outros, os quais, trabalham o tema a partir outras vertentes teóricas.
5 Para ampliar este tema, ver Mardonnes (1991, 1998, 1999).
6 Aqui situam-se geralmente autores neoconservadores, como Daniel Bell, Peter
Berger, Robert Nisbet e Michael Novak; e pós-modernos, como Gianni Vattimo,
François Lyotard e Jean Baudrillard, entre outros.
7 Isto é o que fundamentalmente propõe Ulrick Beck quando distingue entre uma
primeira modernidade Ilustrada e uma posterior, denominada "reflexiva" (Beck,
1996, pp. 223-265).
8 O caso latino-americano é um exemplo interessante nesse sentido, pois se
trata de uma região com um profundo enraizamento religioso e onde se observa
grande efervescência religiosa, mas não necessariamente o restabelecimento do
poder político da igreja católica, nem a ressacralização do Estado, tampouco o
incremento na filiação, se não seu declínio.
9 Alguns vêem esse tipo de "retorno" em sociedades islâmicas como Irã. Mas tais
comparações não se aplicam, já que a sociedade iraniana nunca chegou
propriamente a ser moderna.
10 Teólogos europeus, como Graham Ward, William Cavanaugh e John Miltbank,
estão incursionando com uma impressionante bagagem intelectual neste debate
sobre as relações entre fé e razão em um contexto pós-secular.
11 Karel Dobbelaere, por outro lado, tem advertido em seus trabalhos como a
diferenciação entre as esferas pública e privada não é algo objetivo, e sim
definições sociais usadas por indivíduos e grupos, principalmente com um
sentido político orientado a restringir ou alargar a influência social da
religião (Dobbelaere, 1985, p. 381).