Os trabalhadores e suas vivências cotidianas: dos tempos de trabalho e de não-
trabalho
Apresentação
Que mudanças estão ocorrendo no tempo de trabalho e de não-trabalho na
sociedade brasileira? Quais as principais características do tempo de trabalho
e do tempo de não-trabalho? Como os sujeitos vivenciam esses tempos sociais?
Nos locais de trabalho, o que tem sido discutido e o que não é colocado como
objeto de negociação coletiva? Quais as discussões e as disputas em torno
desses tempos no plano macrossocial e político? Quando analisamos sociedades
diferentes, vemos culturas temporais distintas? Para onde vai o tempo de
trabalho?
Essas são algumas das indagações que orientam a análise elaborada neste texto
que tem como foco a temática do tempo de trabalho.1 Tema este antigo mas
fundamental para se compreender o funcionamento das sociedades, visto ser um de
seus elementos estruturais. Nesse momento, o tempo de trabalho sofre contínua
intensificação e flexibilização, enquanto o movimento histórico de redução da
jornada de trabalho tem evoluído pouco. Além disso, o processo de separação
entre os tempos e os espaços de trabalho e de não-trabalho vem sendo
substituído por um movimento contrário, de reaproximação, de forma que a
definição de onde cada um começa e termina está cada vez mais fluida
(Freyssenet, 1994; Zarifian, 1996).
Vê-se, ainda, a fragmentação e a individualização do tempo dedicado ao trabalho
e o surgimento de uma pluralidade de novos tempos de trabalho. Fragmentação e
individualização causadas, sobretudo, pela crescente flexibilização que coloca
esses tempos cada vez mais em total assincronia em relação aos outros tempos
sociais - como o da família, do lazer, do amor, da educação, entre outros.
É nesse contexto de intensas transformações que discuto o tempo de trabalho e
de não-trabalho, tendo como objetivo compreender como se dão as vivências
temporais cotidianas dos trabalhadores. E para melhor compreender tais
vivências, elas serão contextualizadas tanto no plano macrossocial - das
mudanças no tempo e no trabalho na sociedade atual -, como no
microorganizacional - das transformações nas relações sociais nos locais de
trabalho. Neste caso, estudo a Volkswagen do Brasil, em sua unidade de produção
do ABC (São Paulo). Vale ressaltar, entretanto, que a empresa é apenas a porta
de entrada para se compreender o que se passa no âmbito mais amplo, das
transformações na cultura temporal da sociedade brasileira.
Neste artigo, inicio com uma breve análise sobre o tempo de trabalho na
sociedade contemporânea, destacando a sociedade brasileira. Num segundo
momento, discuto, também de forma breve, o contexto das negociações na
Volkswagen do ABC para, em seguida, analisar como os trabalhadores vivenciam os
tempos dentro e fora do local de trabalho. Dessa forma, realizo um conjunto
analítico que conjuga visões macro e micro, considerando a relação recíproca de
influência entre as construções sociais no âmbito do espaço fabril e da
sociedade como um todo.
Os tempos na sociedade contemporânea
Ter como foco de análise a temática do tempo de trabalho e de não-trabalho
justifica-se pelo fato de a estruturação da vida social se efetivar,
fortemente, por sua mensuração, definição e rotinização (Elias, 1998),
principalmente a partir do advento das sociedades industriais (Thompson, 1967;
Hobsbawm, 2000). Por outro lado, analisar a definição dos tempos de trabalho e
de não-trabalho como "práticas sociais ordenadas no espaço e no tempo"
(Giddens, 2003) explicitou dois aspectos complementares e indissociáveis. Um
refere-se ao movimento estrutural no sentido da uniformização do tempo social,
com o crescimento da organização racional e burocrática (Giddens, 1995), tendo
como objetivo ordenar as atividades individuais de modo coletivo. O segundo
trata do modo como cada ser humano vivencia e experimenta, de maneira
específica, a sua temporalidade social.
Dessa forma, considero o Tempouma experiência subjetiva, antes mesmo de
constituir-se como objeto de reflexão, medida de duração ou objeto de poder.
Assim, mesmo que o Temposeja apreendido e percebido como único, preciso,
uniforme e igual em todos os lugares, quando são analisadas as vivências dos
sujeitos, essa possível e aparente homogeneidade cede lugar à explicitação de
uma diversidade de tempos sociais - tempos da escola, da família, do lazer, do
amor, do trabalho e do descanso. Mais ainda, revela-se toda a diversidade de
vivências existentes em relação a um mesmo tempo social, levando à visualização
de tempos de trabalho, tempos de lazer, tempos do amor, sempre no plural. Ou
seja, o tempo é, em cada sociedade, experiência, representação, norma, valor,
instituição e referência.
De modo que, ao olharmos para o tempo de trabalho, um tempo dominante desde a
Revolução Industrial, veremos que uma parte deste é mensurável - o tempo do
calendário, dos relógios de ponto, dos minutos e dos segundos - e,
simultaneamente, outra parte que não é possível ser contabilizada, que é a
maneira pela qual cada um vive subjetivamente essas medidas. Desde a década de
1980, notamos um intenso movimento de flexibilização desse tempo mensurável, a
partir de alterações na quantidade e na forma do tempo de trabalho. Por outro
lado, pouco sabemos a respeito das vivências dos trabalhadores no que se refere
a tais mudanças.
Em diversos países, como Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália, o movimento de
flexibilização do tempo de trabalho é uma iniciativa empresarial, mas também
advém de forte intervenção estatal, no sentido de alteração na legislação
vigente. Mesmo na França, onde houve intenso processo de negociação para a
redução da jornada de trabalho, também podemos observar uma infinidade de
iniciativas no sentido da flexibilização do tempo de trabalho por parte das
empresas e igualmente pelo Estado (Thoemmes, 2000).
Mispelblom (1999) afirma que este processo de flexibilização do tempo de
trabalho leva os trabalhadores, cada vez mais, a perderem o controle da
organização de seus tempos sociais, em função da fragmentação e da
individualização dos tempos dedicados ao trabalho, os quais não estão mais de
acordo com as outras temporalidades sociais. Além disso, observa-se um
movimento de reaproximação entre o tempo de trabalho e de não-trabalho,
tornando cada vez mais fluida a delimitação entre esses tempos. Zarifian (1996)
salienta ainda que o tempo de trabalho desenvolvido no local de trabalho se
organiza, crescentemente, a partir da transposição do modo de viver o tempo de
trabalho doméstico. Ou seja, um tempo caracterizado pela ausência de limites,
de controle explícito por parte do outro e sem uma contabilidade detalhada.
Logo, num cenário de mudanças profundas no tempo de trabalho, seria importante
repensar a maneira pela qual esse tempo é qualificado e quantificado, assim
como o tempo de não-trabalho. Podemos então questionar o significado daqueles
tempos nos quais as pessoas realizam tarefas ainda relacionadas com o trabalho,
mesmo fora da jornada regular ou extraordinária. Questionar o conceito
predominante em que o tempo de trabalho é pensado apenas como aquele contido em
uma jornada contratada, remunerada e restrita a um determinado locus(Guedj e
Vindt, 1997), como se todo o tempo para além deste fosse um tempo de não-
trabalho (Dal Rosso, 1996). Assim, considero que o tempo dedicado ao
trabalhoextrapola, e muito, aquele contido em uma jornada.
Dessa forma, o tempo dedicado ao trabalho incluiria, por exemplo, as horas
gastas com o deslocamento dos indivíduos da casa ao trabalho, o crescente tempo
dedicado às atividades de qualificação, cada vez mais exigidas pelas empresas,
e as horas de sobreaviso. Incluiria ainda o tempo dedicado às tarefas levadas
para casa, que, na maior parte das vezes, ocorre de maneira informal,
fortemente facilitadas pelo uso da internet e do celular.
Caberia refletir também sobre o tempo em que os trabalhadores passam a buscar
soluções para o processo de trabalho, principalmente a partir da ênfase dada à
sua participação. Por exemplo, a partir das "caixas de sugestão", dos CCQ's ou
dos grupos semi-autônomos, levando-os a permanecerem "plugados" no trabalho
mesmo estando distantes da empresa. Isto porque, de acordo com Hirata (1987), a
gestão baseada na integração dos trabalhadores pela técnica da participação
requer um grande número de horas de atividades e estudos desenvolvidos fora das
horas contidas na jornada e no espaço de trabalho.
Para dar continuidade a essa discussão, no item a seguir analisarei como tais
mudanças nos tempos de trabalho têm se realizado em uma sociedade concreta, num
determinado momento histórico: o Brasil a partir dos anos de 1990.
O tempo de trabalho no Brasil
Para melhor compreender o processo de construção social do tempo de trabalho e
de não-trabalho no Brasil, proponho uma breve análise comparativa com uma
cultura temporal distinta, que é o caso francês, onde essa temática esteve em
forte evidência em função de intensas discussões e negociações em torno da
redução do tempo de trabalho envolvendo diversos atores sociais ao longo de sua
história.
A análise da experiência francesa não só contribui para a reflexão sobre a
redução da jornada de trabalho ocorrida no final dos anos de 1980, mas também
no momento atual e futuro ao explicitar as diversas formas pelas quais o
empresariado busca sua anulação. Seja pelo aumento da hora-extra; pela
implementação de mudanças técnico-organizacionais que busquem intensificar o
ritmo de trabalho; pela ampliação da flexibilização do tempo de trabalho; ou,
ainda, pela expulsão do tempo de trabalho de momentos utilizados pelos
trabalhadores para pausas individuais e coletivas ou para a troca de roupa.
Explicita, além disso, o papel fundamental do Estado nesse processo, sem
menosprezar, por outro lado, a importância da pressão social e política.
Acerca do tempo de trabalho, Brasil e França revelam-se contextos sociais muito
diferentes em relação aos macro e microespaços de negociações na política ou
dentro das empresas. No entanto, em ambos os casos observaram-se aspectos que
parecem ser comuns à construção temporal das sociedades contemporâneas, a
saber: a pressão patronal para flexibilizar o tempo de trabalho, a partir das
necessidades da produção, e também para retomar o controle do tempo do
trabalhador dentro e fora dos locais de atividade profissional. Ademais, o
desemprego tem sido fator relevante no processo de negociação coletiva,
pressionando os trabalhadores a abrirem mão de direitos conquistados e a
aceitarem as iniciativas de flexibilização e intensificação do tempo de
trabalho por parte das empresas.
É o que se constata, no Brasil, a partir de meados dos anos de 1990, quando
fortes mudanças no mundo do trabalho foram realizadas por parte das empresas e
do governo, no sentido da desregulamentação pela via da flexibilização seja da
remuneração e da forma de contratação, seja do tempo de trabalho. Em 1998, por
exemplo, ampliou-se o prazo de compensação das horas extras de uma semana para
um ano, o chamado "banco de horas", alterando completamente a relação do
trabalhador com o seu tempo de trabalho e de não-trabalho.
Todavia, se considerarmos a concepção de flexibilidade como a capacidade de
responder efetivamente a circunstâncias de mudança (Salerno, 1998), percebemos
que ela está presente desde há muito tempo na sociedade brasileira, tanto pelo
fato de as empresas poderem utilizar hora extra, contrato de trabalho para
tempos específicos, trabalho em equipes, período noturno, férias coletivas,
redução do salário e da jornada de trabalho, como em virtude da facilidade
promovida em processos de demissão.
A partir dos anos de 1990, no Brasil, presenciamos não apenas um processo de
intensificação do tempo de trabalho, de altas taxas de desemprego, de
estagnação da redução da jornada de trabalho, mas também uma tendência à
extensão da jornada de trabalho. Um dos exemplos é o crescimento do número de
trabalhadores que passaram a realizar horas extras desde 1988 em todos os
setores da economia; outro é a pressão patronal no sentido de aumentar a
jornada em setores onde esta é inferior a 44 horas, como no setor bancário, ou
a redução do número de equipes em turnos de revezamento, buscando a ampliação
das jornadas semanais médias (Cardoso et al., 2002).
Mas, se de um lado as ações do governo e dos empresários buscam flexibilizar e
ampliar o tempo em que os trabalhadores estão à disposição do capital, de
outro, a ação do movimento sindical continua sendo de limitação ou redução da
jornada de trabalho. Tais ações desenvolvem-se tanto em locais de trabalho,
como pela elaboração de propostas mais abrangentes de mudanças na legislação.
No âmbito nacional, a partir de 2003, as Centrais Sindicais brasileiras
iniciaram uma campanha nacional pela redução da jornada de trabalho, sem
redução de salários intitulada "Reduzir a Jornada de Trabalho para Criar
Empregos", reivindicando redução da jornada de trabalho para 40 horas por
semana, sem redução de salários e limitação de utilização do banco de horas e
da hora extra.
As centrais sindicais têm procurado, nesta campanha nacional, o engajamento do
governo, pois entendem que, assim como o processo de negociação francesa, esta
pauta será conquistada somente a partir de mudanças na legislação. Entretanto,
até o final de 2009, observamos que essa campanha, apesar de já ter criado e
ampliado alguns espaços de discussão, ainda não se traduziu em uma mudança na
legislação. Resta saber se tal embate resultará ou não em um novo desenho para
o tempo de trabalho no Brasil e, conseqüentemente, para o tempo de não-
trabalho.
Assim, a partir da década de 1990 a discussão sobre a redução do tempo de
trabalho tem se dado unicamente em categorias profissionais com forte
organização sindical, como é o caso dos trabalhadores da Volkswagen.
Entretanto, mesmo neste caso, a negociação da redução do tempo de trabalho tem
sido vinculada à sua flexibilização.
Os tempos de trabalho na empresa
Nesta seção, com base em uma análise centrada na Volkswagen, localizada em São
Bernardo do Campo (ABC) - São Paulo,2 discutirei como as mudanças no tempo de
trabalho se dão dentro de uma empresa específica. Vale ressaltar, entretanto,
que a empresa é apenas a porta de entrada para dar continuidade à compreensão
do que se passa no âmbito mais amplo das transformações na cultura temporal da
sociedade brasileira. A escolha da Volkswagen do ABC deve-se ao fato de ser uma
empresa que realiza diversas inovações em termos de relações de trabalho,
alterando completamente os ritmos e os modos de utilização do tempo.
A história da Volkswagen no Brasil pode ser dividida em quatro momentos, se
tomarmos como referência as mudanças ocorridas no tempo de trabalho. O primeiro
inicia-se em 1953 e se estende até final dos anos de 1970, sendo caracterizado
por um movimento de expansão da empresa, da produção e também do tempo de
trabalho. O segundo, abrange o final dos anos de 1970 e meados da década
seguinte, sendo caracterizado pelo grau de conflito mais acentuado, num
contexto de reafirmação do movimento sindical como ator político, quando temos
o primeiro embate em torno da redução da jornada de trabalho.
No terceiro momento, entre os anos de 1986 e 1995, ocorre a criação da
Autolatina com a fusão da Volkswagen e da Ford, a implantação de mais uma etapa
de automação e mudanças nos métodos de gestão da produção e do trabalho. Como
salienta Salerno (1998), até o início dos anos de 1990 o nível de automação da
Autolatina não era muito alto. Por outro lado, diversas mudanças
organizacionais foram implementadas e tiveram forte impacto sobre o tempo de
trabalho. O autor salienta ainda que este período é caracterizado pela extrema
flexibilidade via utilização de horas extras, trabalhos em turnos, trabalho
noturno, férias coletivas obrigatórias, compensação compulsória dos feriados,
multifunção, transferência de trabalhadores entre os setores e entre as
diferentes plantas.
No quarto momento, a partir de meados da década de 1990, há um forte processo
de negociação em torno do tempo de trabalho, o que incluiu a discussão da
redução da jornada de trabalho e sua flexibilização num contexto em que a
empresa considerava o fechamento da planta do ABC. A análise das negociações
explicita uma trocaentre a flexibilização do tempo de trabalho demandada pela
empresa e a redução do tempo de trabalho reivindicada pelos trabalhadores.
Entretanto, já a partir de 1998, a questão da redução da jornada de trabalho
desaparece do processo de negociação, o qual passa a se dar em torno da
trocaentre a manutenção do emprego e a flexibilização do tempo de trabalho.3
Vale ressaltar, entretanto, que em todo o processo de negociação ocorrido nos
anos de 1990, a discussão sobre o emprego sempre esteve presente, pois, a cada
momento em que os trabalhadores recusavam uma proposta de flexibilização, a
empresa ameaçava ampliar o processo de demissões, levando os trabalhadores e
seus representantes a cederem novamente às pressões. Considerando que este não
é um caso isolado, ao iniciar os processos de negociação a partir da ameaça de
desemprego, as empresas reforçam e ampliam a desigualdade entre as partes,
possibilitando um resultado muito mais favorável a seus interesses e objetivos.
As vivências dos trabalhadores
Com base nos relatos dos trabalhadores, veremos como as situações dentro da
empresa - artefatos tecnológicos, mudanças na organização do trabalho, na
gestão das pessoas ou na jornada de trabalho - são experimentadas
cotidianamente e quais desses elementos são por eles considerados os principais
definidores do tempo de trabalho e de não-trabalho. Analisar o tempo de
trabalho em um espaço microorganizacional específico aportou elementos para
melhor compreender os inúmeros fatores que podem alterar esse tempo, pois, se
num primeiro momento poderíamos pensar que o impacto sobre ele ocorreria apenas
com as mudanças diretas na jornada de trabalho, constatamos a diversidade de
aspectos a serem considerados.
Assim, no caso da Volkswagen do ABC, algumas mudanças tiveram impactos diretos
e explícitos no tempo de trabalho e, na maior parte das vezes, foram objeto de
demanda sindical para a negociação, como redução da jornada de trabalho, hora
extra, pausas e flexibilização do tempo de trabalho. Mas há outras mudanças que
afetam este tempo de forma menos explícita, podendo ser subdivididas em dois
tipos: as que não foram objeto de negociação coletiva, como a maior parte das
mudanças tecnológicas e algumas organizacionais - por exemplo, a implantação do
just in time -; e as que foram objeto de negociação, porém sem mencionar a
questão do tempo de trabalho. O Plano de Cargos e Salários (PCS) é um exemplo
nesse sentido, pois embora tenha sido objeto de grande debate, não se
discutiram os impactos que a multitarefa nele prevista teria sobre o tempo de
trabalho; outro exemplo foi a negociação das células de produção, que não
incluiu itens relacionados com seus impactos sobre o ritmo de trabalho.
A seguir, tratarei dessas mudanças e das vivências dos trabalhadores no que se
refere ao tempo, dividindo-as em três partes: as mudanças que se deram
diretamente na organização do tempo de trabalho; as mudanças tecnológicas e
organizacionais que tiveram impactos diretos no tempo de trabalho e, ainda, os
momentos dentro da empresa que não são considerados tempo de trabalho.
Redução e flexibilização
Entre as mudanças diretas na organização do tempo de trabalho temos aquelas
relacionadas com a duração da jornada de trabalho e das pausas individuais e
coletivas, bem como as diversas formas de sua flexibilização, como turno de
revezamento, hora extra, banco de horas, banco de dias e a "semana Volkswagen".
Desde os anos de 1980, os trabalhadores fazem pressão para a redução da duração
do tempo de trabalho e a empresa, em contrapartida, tem buscado meios para
compensaressa conquista dos trabalhadores, transformando todos os tempos, ainda
contidos na jornada de trabalho, em tempos produtivos. Para isso a Volkswagen
tem reduzido as pausas coletivas e individuais e investido em inovações que
intensifiquem o ritmo de trabalho.
Na década de 1990, houve um intenso processo de discussão a esse respeito,
quando foi negociada a redução do tempo de 44 para 43 horas semanais, a partir
de 1996, e para 42 horas, a partir do ano seguinte, com margem para sua
flexibilização entre 36 e 44 horas. De acordo com um dos negociadores
patronais, apesar de a demanda sindical ser para a redução do tempo de
trabalho, "como forma de barganha nós acabamos aceitando sua redução, desde que
houvesse a possibilidade de uma flexibilização, e essa flexibilização foi
traduzida depois num sistema de banco de horas".
A redução das pausas individuais e coletivas tem sido uma prática da empresa
desde meados dos anos de 1980, quando os trabalhadores conquistaram a redução
da jornada de trabalho. Em meados da década seguinte, em meio ao processo de
negociação das células de produção, a empresa criou o posto de monitor,
trazendo novamente à tona a questão da redução. O monitor teria, como uma de
suas funções, substituir pontualmente o trabalhador no momento em que este
necessitasse sair da linha de produção para fazer uma pausa, mantendo, assim,
seu fluxo contínuo. Entretanto, os trabalhadores salientam que a redução de
pessoal faz o monitor ocupar um único posto de trabalho o dia todo, de forma
que raramente ele está livre para substituir pontualmente um trabalhador:
[...] você tem que ficar segurando para ir ao banheiro. Ou então, a
gente que tem mais um pouco de consciência, abandona a linha lá, né,
abandona o setor e vai no banheiro e aí passam cinco, sete, oito
carros sem fazer. Porque o certo é que tivesse um monitor disponível
pra qualquer trabalhador que fosse no banheiro, ir no médico, alguma
doença, ele sair de imediato, não pode ficar esperando [Otelo].
Além da duração da jornada de trabalho e das pausas, outra mudança direta no
tempo de trabalho se refere à sua flexibilização. Entre as formas mais antigas
estão os turnos de trabalho e a hora extra; entre as mais recentes, há o banco
de horas, o tempo parcial, e, no caso específico da Volkswagen, o banco de dias
e a "semana Volkswagen".
Em relação ao trabalho em turnos de revezamento, todos os trabalhadores
entrevistados foram unânimes em dizer que a experiência sempre foi negativa,
pois a alternância de horários acabava por destruir a própria saúde e as
relações sociais.4 O turno de revezamento, de acordo com os trabalhadores,
assim como o trabalho noturno, é um elemento a balizar fortemente suas
vivências, considerando que a organizaçãodo trabalho nesses horários atípicos
são as formas que mais desorganizamsuas vidas fora do local de trabalho. Exigem
uma equação temporal - pessoal e familiar - para acomodar, da melhor maneira
possível, os diversos tempos pessoais e sociais, sujeitos aos horários atípicos
de trabalho.
A escolha do trabalho noturno é, na maior parte das vezes, uma solução
individual dirigida a resolver problemas financeiros, visto o atrativo
representado pelo adicional noturno. Mas, como bem salienta Lallement (2003),
decidir por trabalhar à noite é muito diferente de viver cotidianamente este
trabalho. Para grande parte dos trabalhadores que dizem não ter uma boa
adaptação ao trabalho noturno, sobretudo em função de problemas com o sono,
alimentação e distanciamento em relação à família e aos amigos, este trabalho é
vivido de forma muito negativa. Nesse caso, o que os trabalhadores mais relatam
é a falta de disposição, tanto para o tempo de trabalho como para o tempo de
não-trabalho.
Ressaltam a queda do rendimento profissional, da qualidade do trabalho, do
aumento do cansaço, do mau humor e maior incidência de acidentes e doenças
ligadas ao trabalho. Na vida pessoal, fazem referência à sua total
desorganização, à alteração na quantidade e na qualidade das atividades fora da
fábrica (com a família, os amigos, com os outros momentos de lazer) e à
dificuldade de acomodar todos os tempos sociais.
Além do turno de trabalho, a hora extra é outra antiga forma de flexibilizar o
tempo na fábrica. Muitos trabalhadores da Volkswagen relataram o uso freqüente
dessa prática, o que é bastante reivindicado pela empresa. Assim como o
trabalho noturno, abre-se aí uma possibilidade individual de o trabalhador
aumentar sua remuneração. Entretanto, os trabalhadores frisam que há uma grande
diferença entre fazer hora extra para ganhar mais dinheiro e gostar de
trabalhar a mais:
Tem aquele que briga com o chefe porque não tem hora extra, mas são
raros, não é assim, a grande maioria, todos eles gostam de ficar em
casa. Agora, para você ficar em casa, ter um lazer, você tem que ter
dinheiro [Eron].
Alguns comparam essa prática com o banco de horas, implantado na empresa a
partir de 1995. Ressaltam que com o banco de horas houve certamente uma redução
dos custos da empresa, uma vez que se deixa de pagar uma parte do adicional de
hora extra. o que, para os trabalhadores resultou na redução da remuneração.
Afinal, o objetivo da realização da hora extra é justamente o adicional extra.
Segundo relato do gerente de RH da Volkswagen, além da redução de custo, em
função do novo controle o banco de horas possibilitou a identificação dos
setores com problemas de produção e onde, conseqüentemente, havia acúmulo de
hora extra, explicitando e formalizando a demanda nesse sentido, que antes
ocorria informalmente em função de acertos diretos entre o chefe e o
trabalhador.
Assim, houve uma intensificação na flexibilização do tempo de trabalho quando
às antigas formas de flexibilização foram somadas novas, como o banco de horas,
o banco de dias5 e a "semana Volkswagen". Mas quem decide sobre a
flexibilização? Essa é a pergunta básica para iniciar uma discussão a respeito.
Afinal, como bem salientado por Grossin (1991), entre flexibilidade e rigidez,
poucos optariam pela segunda, o que torna relevante saber quem decide.
Segundo diversos dirigentes sindicais, a implantação do banco de horas gerou
muitas reclamações por parte dos trabalhadores em função tanto da redução da
remuneração, como da dificuldade em utilizá-lo quando necessário. Atualmente,
são poucos os que se posicionam explicitamente contra esse tipo de organização,
apesar da dificuldade em utilizar o saldo positivo quando necessitam e da
existência de um saldo negativo muito grande, por causa da baixa demanda de
trabalho em determinados momentos. Isso obriga, por outro lado, a trabalhar
quando a empresa solicita, atrapalhando toda a vida fora da fábrica.
O banco de horas acabou onerando o funcionário. Porque o funcionário,
como eu te falei, ele está devendo horas, sem ter opção de estar
devendo ou não. Quer dizer, aumentou a demanda de mercado, a fábrica
convoca, você tem que ir, sendo que pode ser um dia que você pode
estar usando para outra coisa ou ter programado alguma coisa...
[Anderson].
Outra forma recente de flexibilização foi a criação da "semana Volkswagen" a
partir de 1998, como já comentado. Trata-se da redução de um dia da semana de
trabalho, que passou a ser de segunda a quinta, e redução de 15% na
Participação nos Lucros e Resultados - PLR. Até hoje, isso é motivo de muita
reclamação.
Porque a semana reduzida a gente perde, e o intuito da gente aqui é
ganhar dinheiro. Ninguém é relógio, a gente trabalha por querer
ganhar grana. Então você fica em casa e sabendo que você não está
recebendo, e às vezes você não tem o que fazer, porque você já está
programado para isso, e às vezes vem assim, fica um dia perdido
[Marcos].
Mas, assim como ocorre em relação à "aceitação" do banco de horas, aceitara
"semana Volks" significava evitar um processo maior de demissão, como ressalta
um trabalhador:
[...] foi muito interessante porque a gente evitou bastante demissão
aqui na Volkswagen.
[...] Eu optaria por continuar com a "semana Volks", mesmo com a
redução da PLR se fosse também pra abrir mais vagas no mercado e
fosse mesmo pra evitar demissão, né. Porque é melhor você trabalhar
de segunda a quinta do que você ser demitido [Edgar].
Em 2000, durante o processo de negociação, os trabalhadores se recusaram a
renovar o acordo que englobava o banco de horas, o banco de dias e a "semana
Volkswagen". Todavia, sem a renovação do acordo, em 2001, como já tinha
ocorrido em 1998, a Volkswagen anunciou a demissão, forçando a abertura de um
novo processo de negociação (Barbosa, 2002). Este processo resultou na retomada
do banco de horas e da "semana Volkswagen", em troca da manutenção do emprego
até 2006.
Em suma, desde a década de 1990 pode-se observar claramente a flexibilização do
tempo de trabalho sendo utilizada como moeda de trocapara os trabalhadores
alcançarem seja a redução da jornada de trabalho, seja a garantia de emprego.
Organização do trabalho e intensificação do tempo
Analiso aqui como muitas mudanças realizadas na organização do trabalho tem
impactos diretos no tempo de trabalho, o qual é afetado não apenas pelas
mudanças diretas - como vimos - mas também por transformações técnico-
organizacionais e de gestão.
Um dos primeiros elementos que me chamou a atenção nas falas dos trabalhadores
foi a manutenção da linha de produção como um dos maiores definidores do tempo
de trabalho. Para eles, a linha ainda significa ritmo imposto, intenso,
contínuo, repetitivo, minuciosamente controlado e, muitas vezes, causador de
desconforto, dor e doenças. Ritmo que continua desconsiderando as necessidades
básicas, como beber água, ir ao banheiro, conversar com colegas, aliviar dores,
cansaço, ou ainda as diferentes disposições ao longo do dia. Um tempo de
trabalho que influencia a vida fora da empresa, como relata um dos
trabalhadores entrevistados, contratado em meados da década de 1980:
Nessa época a Volkswagen produzia quatrocentos, quinhentos carros por
turma, então você não tinha tempo para conversar, não tinha tempo
para tomar café, não tinha tempo para ir ao banheiro, não tinha tempo
para nada, você saía dali arrasado. Chegava em casa, eu não vou falar
que era estressado para não brigar, chegava cansado mesmo, não tinha
mais ânimo para nada. Era chegar, tomar um banho, sentar no sofá,
assistir televisão ali e acordar no outro dia para a mesma coisa
[Aldo].
Todo o desgaste vivido em nome da produção influencia sobremaneira o tempo de
não-trabalho, resultando, ao fim da jornada, estresse, desânimo, uma
interferência direta na saúde e na vivência cotidiana dos trabalhadores. Os
problemas causados pelo trabalho exaustivo na linha de montagem mantêm-se no
contexto atual, mas com uma nova cara. Muitos reclamam que não conseguem, na
nova linha do Pólo e do Fox, ter tempo livre para ir ao banheiro, tomar café ou
descansar um pouco, sendo que, vale lembrar, o intervalo coletivo formal é
também cada vez menor. Trata-se, portanto, de uma redução da pausa informaldo
trabalho possibilitada por uma nova maneira de funcionamento da nova linha de
produção. Há também nessa nova linha um sentimento de isolamento em relação aos
colegas, uma vez que os trabalhadores ficam muito distantes uns dos outros,
dificultando a conversa e, em contrapartida, aumentando o tempo produtivo.
Mas aqueles que não trabalham mais em uma dessas linhas dizem preferir o
trabalho atual, porque demanda maior responsabilidade, possibilita maior
liberdade, ainda que o tempo seja tão corrido quanto o da linha de produção.
Como ressalta um trabalhador da logística: "É corrido, mas você faz seu tempo".
Assim, vemos que a linha, um dos mais importantes artefatos tecnológicos,
símbolo da "era fordista", continua a afetar fortemente a vivência do tempo de
trabalho daqueles que a ela estão submetidos.
Se, de um lado, o trabalho na linha impõe um ritmo determinado, contínuo,
repetitivo e intenso, de outro, também as mudanças organizacionais e gerenciais
acabam por ditar uma freqüência de trabalho cada vez mais alucinante. Assim,
setores como a linha de montagem e a ferramentaria, que consistiam duas
realidades extremas e opostas em termos de autonomia em relação ao tempo, hoje
em dia têm se aproximado bastante. E esta aproximação não se dá porque os
trabalhadores da linha conquistaram maior liberdade, mas porque os
ferramenteiros passaram a ter menor liberdade e autonomia. As recentes mudanças
em setores onde os trabalhadores controlavam mais seu tempo têm transformado
muitos tempos alocados em tempos impostos.
Vemos que foram diversas as mudanças na organização e na gestão dos usos do
trabalho, que provocaram importantes transformações no tempo de trabalho. Os
operários chamam as inovações de just in time, multitarefa, células de
produção, redução do tempo de desenvolvimento e produção, metas de produção e
absenteísmo em função da PLR. Além disso, elas foram implantadas num contexto
de crescente redução do número de trabalhadores.
A redução de pessoal é citada com muita freqüência por muitos trabalhadores,
visto que, apesar da garantia de emprego negociada, passou-se a adotar desde
1997planos de demissão voluntária. Após muita discussão, em agosto de 2005, os
trabalhadores se mobilizaram para reivindicar a contratação de pessoal,
explicitando um problema que há muito os incomodava.
A redução dos prazos para realizar tarefas também é um dos fatores que
contribuem na intensificação do tempo de trabalho. Ela é enfatizada por
trabalhadores dos setores administrativo, da qualidade e da ferramentaria,
assim como pelos líderes. Muitos dizem que a redução de pessoal, somada à
pressão pela redução dos prazos, é totalmente incompatível com a exigência
empresarial de melhoria da qualidade dos produtos. Ainda no caso dos
ferramenteiros, a terceirização é também muito citada como intensificadora do
trabalho, pois há um aumento considerável de peças com defeito. Em suma, essa
combinação de fatores não só intensifica como também amplia o tempo de
trabalho, dificultando mais e mais a vida fora da fábrica.
Todavia, a mudança que teve maior impacto na intensificação do tempo de
trabalho, segundo os operários, foi o revezamento de função - também chamado de
polivalência ou multitarefa -, institucionalizado em 1995. No discurso da
empresa, essa nova forma de organizar o tempo tinha como objetivo minimizar os
problemas de saúde ocasionados pelo trabalho repetitivo, de forma que o
trabalhador não ficasse mais diariamente exposto à mesma tarefa. Mas se antes o
trabalhador ficava exposto ao mesmo trabalho prejudicial todos os dias, agora,
com a polivalência, ele está exposto a um trabalho intenso, em funções
diferentes, todos os dias.
Isso porque, para viabilizar o aumento da produção em um setor sem a
contratação de mais trabalhadores, a empresa desloca trabalhadores de outros
setores onde o ritmo de trabalho esteja mais tranqüilo. Se no curto prazo a
multitarefa pode atenuar uma dor na coluna, por exemplo, no médio prazo, traz
outros problemas de saúde, pois o trabalhador sempre estará em um setor ou
função em que a demanda esteja em alta, o trabalho intenso, rompendo assim a
lógica de momentos de trabalho mais intensos e outros mais tranqüilos.
Ainda no que se refere à multitarefa, os trabalhadores frisam que não há
treinamento para que possam realizar tarefas novas e diferentes, o que pode
levar à redução da qualidade do produto. Além disso, leva à intensificação do
trabalho para os que precisam treinar o colega que chega no setor, da mesma
maneira que exige um maior esforço e mais tempo para quem ainda não domina a
função. Estar em uma linha de montagem em que já se conhece o serviço, ou as
pessoas, possibilita adiantar o trabalho e, conseqüentemente, cria
possibilidade de pequenas pausas. Os trabalhadores entendem, assim, que a
rotatividade de tarefas deixou o trabalho muito mais intenso:
[...] porque antigamente você trabalhava em um posto, hoje você
trabalha em três, quatro postos, aquele rodízio que você faz, então a
pessoa fica desgostosa. [...] É tendinite, bursite, coluna, dor na
coluna [Carlinhos].
A multitarefa, também chamada de "rodízio de função", é mais um artefato
gerencial que possibilita à empresa manter um mínimo de trabalhadores
empregados, ao ocupar de maneira produtiva todo o tempo do trabalhador. Como
bem salienta Grossin (1991), para a empresa, a expansão das tarefas significa
aumento de produtividade, economia, aumento da carga de trabalho e redução do
número de trabalhadores empregados. Por outro lado, Durand (2004) entende que a
multitarefa significa, na maior parte das vezes, a ampliação das atividades e
não o seu aprofundamento, o que não elimina ou diminui a monotonia do tempo de
trabalho. Essas análises ajudam a compreender melhor por que os trabalhadores,
de uma forma geral, são contra essa forma de organização e ressaltam a
intensificação do tempo de trabalho.
Tempos não considerados como de trabalho
Além das mudanças envolvidas diretamente no tempo de trabalho e das
transformações técnico-organizacionais e de gestão que tiveram como
conseqüência a intensificação desse tempo, há ainda outra questão que se refere
ao tempo em que o trabalhador permanece no local de trabalho e que não é
considerado como tempo de trabalho. Os trabalhadores da Volkswagen, por
exemplo, permanecem de nove horas e meia a dez horas dentro da empresa. Oito
horas referem-se à jornada de trabalho, sendo, portanto, remuneradas; mas o
tempo referente ao intervalo de almoço e aquele gasto antes do inicio e depois
da jornada de trabalho não são remunerados.6
Nesses momentos os trabalhadores, obrigatoriamente, caminham entre a portaria e
os setores, e vice-versa, e trocam de roupa.7 Esse tempo adicional, e não
remunerado, é ainda utilizado por alguns para bater papo e tomar café, mas
também para começar a trabalhar quando chegam aos setores, mesmo antes do
início oficial da jornada de trabalho. Isso acontece, como frisado pelos
dirigentes sindicais, porque a empresa tirou os cinco minutos que os
trabalhadores tinham para preparar a linha de montagem.8
Mas, segundo os trabalhadores, há sim reclamação em relação a esses trinta
minutos antes e depois da jornada de trabalho, e muitos já estão abrindo
processo contra a empresa. A justiça do trabalho quer saber
[...] o que você faz, que horas você sai de casa, que horas você
entra no ônibus, que horas você desce do ônibus, que horas você passa
a sua carteirinha na catraca, o que você faz quando você entra dentro
da empresa [Joana].
Entretanto, nem todos reclamam, pois, para muitos, prevalece o que é
socialmente definido como tempo de trabalho, ou seja, como sinônimo de jornada
de trabalho. É o que vemos claramente no diálogo a seguir, quando um
trabalhador busca uma explicação no sentido de que esse tempo não se
caracteriza como trabalho formal:
R: Eu chego na empresa entre 5h25, 5h30. Eu chego, vou para a
produção, passo na produção, vejo tudo o que está produzindo. Porque
devido ao trabalho da auditoria, a gente procura sempre estar vendo
os problemas que podem ocorrer.
P: Mas a sua jornada começa a que horas?
R: Às 6h00.
P: Mas então antes da tua jornada você já está trabalhando?
R: Eu passo só olhando, também não estou já trabalhando. Eu passo
olhando, vendo se tem algum problema, sento junto com os líderes, é
onde eles passam os trabalhos. [...] Ficamos mais ou menos umas dez
ou cinco para as 6h00. Aí eu vou lá, tomo um café, às 6h00 eu já
começo a luta.
P: Agora esse tempo anterior, que você está conversando com os
líderes, você não recebe por essas horas?
R: Não. Não é bem um trabalho. [...] É a comunicação que você tem com
eles.
P: E a comunicação é o que?
R: Praticamente se trabalha, mas isso é da gente, é da pessoa, nem
todos fazem isso [Eron].
Esse não é um caso isolado porque muitos encarregados e líderes frisam que eles
devem chegar de quinze a vinte minutos antes do turno e que outros devem ficar
quinze minutos após o turno, pois, nesse tempo, são repassadas as informações
sobre o trabalho. Entretanto, no banco de horas só são depositadas as horas a
mais que ultrapassem trinta minutos; assim, teríamos umas cinco horas de
trabalho a mais por mês, por trabalhador, não remuneradas.
Vemos então que os trinta minutos antes e depois da jornada de trabalho
exercem, na maior parte das vezes, um duplo papel. Um deles é de ser realmente
um tempo de trabalho não remunerado. O outro é de cumprir o papel das pausas,
cada vez mais reduzidas, isto é, de ser um tempo de conversa, de descontração,
possibilitando maior conhecimento e entrosamento entre o grupo. Entretanto, a
diferença fundamental é que as pausas formais, durante a jornada de trabalho,
são consideradas como tempo de trabalho e são, portanto, remuneradas. Já os
trinta minutos antes da jornada não são remunerados.
As vivências fora do local de trabalho
Neste tópico, analiso como os trabalhadores vivenciam seu tempo fora da
fábrica, considerando a total inter-relação com o tempo em que passam no seu
interior, uma vez que tanto a mudança quantitativa como a qualitativa de
qualquer um desses tempos altera completamente o outro. Além disso, no contexto
atual esses tempos sociais apresentam um movimento de reaproximação, sendo que
os limites entre um e outro se tornam cada vez mais fluidos. O que os
trabalhadores fazem fora do seu local e jornada de trabalho? Quanto tempo é
dedicado à família, aos amigos, ao lazer, ao estudo e ao descanso? Como fazem
para harmonizar os diversos tempos sociais? Quais momentos são privilegiados?
Há ainda algum tempo dedicado ao trabalho profissional? Quais sentimentos e
representações expressam em relação ao tempo?
As sociedades contemporâneas caracterizam-se por um tempo urgente, acelerado e
de mudanças contínuas, o que gera extremo mal-estar dada a dificuldade de
harmonizar a crescente multiplicidade de tempos sociais (Bessin, 1999;
Chesneaux, 1996). Com efeito, independentemente de idade, sexo ou função na
empresa, as falas dos trabalhadores explicitam sentimentos ruins em relação à
falta de tempo, à vida muito "corrida", "agitada" ou "acelerada" e ao
conseqüente cansaço proveniente desse ritmo.
Os relatos deixam entrever que o fluxo tenso e intenso, característica
principal do tempo dentro da fábrica, se estende para fora desta. Isto é, o
trabalho repetitivo, monótono, sem autonomia, com um tempo imposto, ritmo
acelerado, que desconsidera as necessidades dos trabalhadores e as diferentes
disposições ao longo do dia gera um cansaço que ultrapassa o espaço da fábrica.
Isso ajuda a compreender por que os trabalhadores da Volkswagen, que têm uma
jornada menor do que a prevista em lei, explicitem, com ênfase incomum, o
sentimento de que o tempo de trabalho ocupa quase as 24 horas do dia.
A sensação de que falta tempo para a vivência social, sobretudo em relação à
família, está muito presente. Se o tempo durante a semana é curto, o mesmo
ocorre no final de semana, pois é este o momento para limpar a casa, estudar,
ficar com a família, fazer compras, passear e descansar.
O sentimento de cansaço aparece ainda nas diferentes respostas sobre o que os
trabalhadores gostariam de fazer a mais na vida e o que fariam, concretamente,
no caso de uma redução da jornada de trabalho. Viajar aparece com grande
destaque quando se trata de um desejo amplo, mas a resolução de demandas
pessoais ou familiares mais urgentes ganham peso diante de possibilidades mais
concretas e então "viajar" desaparece totalmente das respostas, sobressaindo a
idéia de "descansar" e "estudar". Ou seja, as pessoas gostariam de viajar, mas,
se tivessem uma redução da jornada de trabalho, iriam utilizar esse tempo para
necessidades mais imediatas, como descansar e investir na formação
profissional.
Viajar, então, fica restrito ao tempo livre das férias, mas nem sempre, pois
segundo os trabalhadores é impossível fazer um planejamento, uma vez que a
empresa os pressiona para saírem de férias somente em momentos de menor
demanda: "se tem serviço você não sai de férias; se não tem serviço, você sai
de férias, independentemente da sua vontade ou necessidade". Por outro lado,
quase nunca eles conseguem conciliar as férias com a família, pois nenhum dos
membros tem autonomia para definir os tempos de não-trabalho. Por fim, é
preciso não esquecer do conflito entre as diversas demandas em relação ao tempo
livre e à remuneração oriundos das férias, pois muitas vezes estes recursos são
canalizados para estudo, reforma da casa, compra da casa ou do carro, entre
outros.
Fora do local de trabalho, por sua vez, o pouco tempo livre ainda contém
atividades relacionadas com o trabalho profissional, o que contribui para a
sensação de vida corrida, cansaço e falta de tempo. Tais atividades englobam o
tempo dedicado ao deslocamento da casa para o trabalho, às atividades de
qualificação e também os momentos em que os trabalhadores buscam soluções e
sugestões para o processo de trabalho. Se tudo isso não pode ser nomeado como
tempo de trabalho, não deve, por outro lado, ser entendidos como tempo livre,
em que os sujeitos deveriam deter a liberdade de fazer o que quiserem.
Mesmo estando fora da empresa, a mente não para de pensar no trabalho, dizem
muitos trabalhadores, um tempo dedicado à busca contínua de soluções para
problemas enfrentados na empresa, de sugestões para a melhoria da produção,
numa tentativa de se destacar, garantindo o emprego ou viabilizando uma
promoção. Já houve um tempo para a discussão dos problemas da área e a busca de
soluções dentro da empresa:
[...] hoje você tem que trazer de casa a sugestão. [...] Porque o
tempo para a empresa é muito grande, porque ela quer melhoria em
pouco tempo, que dá resultado para ela em pouco tempo. O tempo que a
gente faz a melhoria, ela está ganhando [Carlinhos].
A preocupação em não perder o emprego perpassa a vida do trabalhador, o que
pode levar a um investimento de tempo ainda maior com respeito ao estudo. Para
aqueles que estudam, a rotina entre trabalho e faculdade é árdua - sair de casa
às 4h30 horas da manhã e voltar após às 22h00 horas -, o que resulta num
acúmulo de problemas com a família, em função da falta de tempo, mas também de
renda, já que parte passa a ser destinada ao estudo. Como conseqüência, os
trabalhadores com mais idade aludem à extrema dificuldade de estudar e
vivenciar as outras temporalidades sociais, isto é, o tempo com filhos, família
ou amigos durante a semana e no final de semana.
Voltar a estudar altera a vivência do tempo, tanto do ponto de vista
quantitativo como qualitativo, em muito contribuindo para a sensação de vida
corrida, pois, se o dia continua tendo uma duração de 24 horas e o salário
recebido se mantém, o tempo e a renda antes dedicados a outras atividades serão
reduzidos. Por seu turno, a empresa, ao mesmo tempo em que exige cada vez mais
a volta aos estudos, não mais oferece os cursos ministrados no Senai, além de
reduzir o número de bolsas de estudo. À pergunta se a empresa exerce algum tipo
de pressão para voltar a estudar, um trabalhador respondeu:
Não. É assim, eu exerço o cargo de monitor na empresa. E alguns
líderes não me pressionaram em nada. Eles aconselharam, que seria bom
que eu fizesse uma faculdade, até mesmo para um eventual crescimento
meu na empresa. Que não teria como eu crescer mais se não tivesse uma
faculdade. Mas, pressão a empresa não faz não [Jorge].
Além do crescente tempo dedicado ao estudo, fora do local de trabalho temos
ainda o tempo dedicado ao transporte que muito contribui para a falta de tempo
livre. Um tempo não reconhecido socialmente como de trabalho e tampouco como
tempo à disposição do empregador, não sendo, portanto, remunerado. Entretanto,
no entendimento de alguns trabalhadores,
[...] a partir do momento que você se levanta para ir trabalhar e
você pega o ônibus da firma, psicologicamente você já está
trabalhando. Têm também a questão da obrigatoriedade de fazer
determinada atividade em determinado tempo: se preparar para ir
trabalhar, pegar o ônibus, isto é, você não têm a liberdade de fazer
outras atividades neste tempo, senão você chega atrasado no trabalho
[Anderson].
Outros trabalhadores, quando questionados sobre o tempo de transporte,
evidenciam a existência de um diálogo interno entre o significado socialmente
construído, que desvincula o tempo de transporte do tempo de trabalho, e o que
vivenciam cotidianamente:
Ele [tempo de transporte] não deixa de ser [tempo de trabalho]. Você
está voltando do teu trabalho, mas eu não considero como sendo um
trabalho. Obviamente que quando eu chego na minha casa, eu falo:
"acabei de chegar do trabalho". Obviamente que quando você chega,
toca o telefone, alguém te liga: "mas eu acabei de chegar do
trabalho". Ou seja, eu sai do trabalho a 1 ½ hora atrás, mas eu
continuo no trabalho. É uma diferença, mas ao mesmo tempo, em
exercício não, mas de certa forma sim, então é complicado te colocar
isso [Luiza].
Por fim, no caso das mulheres casadas e com filhos, há ainda um grande tempo
dedicado às tarefas da casa, considerando que o aumento da taxa de atividade
profissional não pode mascarar a persistência da extrema desigualdade entre
homens e mulheres tanto no que se refere à própria atividade profissional como
às atividades domésticas (Hirata e Kergoat, 2003). Ou seja, como fica claro no
relato das trabalhadoras da Volkswagen, a mulher não passou a dedicar um tempo
ao trabalho profissional por ter antes se liberado do tempo dedicado ao
trabalho doméstico, mas somou esses dois tempos, reduzindo e/ou comprimindo os
outros tempos sociais dedicados ao lazer, ao estudo, ao descanso. Assim, a
mulher se vê ainda mais pressionada pela sensação de falta de tempo.
Considerações finais
Num contexto de mudanças fundamentais nos tempos de trabalho e de não-trabalho,
o objetivo deste artigo foi compreender como têm se dado as vivências
cotidianas dos trabalhadores em relação a esses tempos sociais,
contextualizadas tanto no plano macrossocial, como no nível microorganizacional
pelas transformações nas relações sociais nos locais de trabalho.
Analisei as narrativas discursivas dos trabalhadores da Volkswagen, buscando
compreender como os diversos tempos sociais coexistem e como os trabalhadores
elaboram equações temporais que têm como objetivo harmonizar o conflito entre
esses tempos. Ao combinar a análise voltada aos planos macrossocial e
microorganizacional foi possível averiguar, ainda, a influência recíproca entre
as vivências individuais, a negociação coletiva, a legislação vigente e a
cultura temporal de uma determinada sociedade num dado momento histórico.
Vimos, então, que são inúmeras as transformações no local de trabalho, com
impactos sobre as vivências dos tempos sociais tanto dentro como fora da
fábrica. Tais mudanças influenciam o tempo de trabalho de forma mais ou menos
explícita, mais ou menos direta, ou mais ou menos intensa. Entretanto, apesar
dessa diversidade, as mudanças verificadas no período entre os anos de 1995 e
2005 apontaram para a redução, mas, sobretudo, para a flexibilização e a
intensificação do tempo de trabalho.
Foi possível verificar que as vivências dos trabalhadores em relação a essas
mudanças expressam significados diferentes, como aceitação, alteração, negação,
reclamação e negociação. Significados que variam segundo a vivência do tempo
presente que, por sua vez, é influenciada por diversos fatores: setor de
alocação e função; atributos pessoais (como sexo e idade) e também sociais
(como escolaridade). O tempo passado - destacando-se a história de vida de cada
um - e as expectativas do futuro exercem papel igualmente importante na
vivência do tempo presente.
É nesse emaranhado de determinantes macrossociais, microinstitucionais e
pessoais que são construídas as vivências temporais cotidianas dos
trabalhadores da Volkswagen do ABC, e de cada um de nós.
As mudanças que alteram de maneira mais explícita e direta o tempo de trabalho
-redução da jornada semanal, sua ampliação pelo uso de horas extras e
flexibilização desse tempo - têm sido objeto de discussão entre os
trabalhadores e matéria de negociação coletiva. Outras mudanças ocorreram de
maneira mais indireta e implícita, em decorrência de transformações
tecnológicas, organizacionais, gerenciais e da gestão das pessoas - esse foi o
caso da multitarefa ou multifunção e também das células de produção. Esses
temas, apesar de terem sido objeto de ampla negociação coletiva, no que se
refere especificamente aos seus impactos no tempo de trabalho, apesar de
amplamente criticados pelos trabalhadores, não foram objetos de negociação.
Há, também, mudanças que não foram apresentadas pelo movimento sindical como
pauta de reivindicação. Podem até ter sido discutidas no local de trabalho, mas
não se transformaram em reivindicação para negociação coletiva. Entre elas,
destaca-se a dificuldade em criar uma pausa informal na nova linha de montagem
dos carros Pólo e Fox. Isto é, o ritmo da linha foi mantido, mas se acabou com
as porosidades utilizadas pelos trabalhadores para adiantar o trabalho e poder
fazer pequenas pausas. Isso não se configurou em objeto de reivindicação
coletiva, apesar de o ritmo das linhas continuar a ser alvo de intensa
negociação entre empresa e sindicato.
De acordo com os trabalhadores, o que tem alterado mais profundamente o tempo
de trabalho resulta da combinação entre duas formas de flexibilização: o banco
de horas e a multitarefa. Essa combinação faz com que os trabalhadores estejam
expostos a um tempo de trabalho intenso, a todo o momento, e em todos os
espaços. Desse modo, nas fases em que a demanda por produção é baixa, ele é
convidado a ficar em casa - para folgar as horas positivas do banco de horas ou
tirar férias individuais e coletivas. Quando a demanda está alta, o trabalhador
é convocado a trabalhar a mais, em função do banco de horas, sendo alocado
naquela função, ou setor, onde há maior demanda de trabalho, situação
possibilitada pela multifunção.
Tal combinação de flexibilização do tempo com atividade de trabalho tem como
conseqüência a extrema intensificação do tempo de trabalho, adicionada às
iniciativas para a redução das pausas coletivas e individuais. Em contraste,
para a empresa, essa extrema flexibilidade permite remunerar apenas o tempo
efetivamente trabalhado na linha de produção por um indivíduo que se torna,
cada vez mais, e por mais tempo, disponível (Durand, 2004).
Os trabalhadores pesquisados relatam que o tempo de trabalho extrapola o espaço
da fábrica do ponto de vista qualitativo e quantitativo. Em outras palavras,
estabelece-se outra forma de relação entre os tempos dentro e fora da fábrica
pela qual o tempo fora já não pode mais ser tomado como sinônimo de tempo
livre.
Do ponto de vista qualitativo, o tempo de nãotrabalho é invadido pelo cansaço,
pela sensação de que se trabalha o tempo todo e, conseqüentemente, a sensação
de que o tempo livre é insuficiente, o que faz a vida se tornar muito
"corrida". Do ponto de vista quantitativo, nas sociedades contemporâneas as
pessoas passam a incluir um número cada vez maior de atividades no tempo
liberado de jornada de trabalho, sendo algumas ainda relacionadas ao próprio
trabalho (Grossin, 1991; Mercure, 1995; Sue, 1994). Isso leva à crescente
dificuldade de harmonizar a multiplicidade cada vez maior de tempos sociais. Os
jovens da Volkswagen, por exemplo, têm uma jornada de trabalho menor do que
seus pais tinham, mas ocupam esse tempo liberado com o estudo.
A sensação de que o tempo de trabalho ocupa o dia todo - apesar dos
trabalhadores da Volkswagen terem uma jornada menor -, também é conseqüência da
existência de um tempo grande dentro da fábrica não considerado trabalho e,
portanto, não remunerado, mas, do ponto de vista dos trabalhadores, tampouco
podem ser denominados tempos livres, já que é imposto, determinado, e flui em
espaços estabelecidos e com atividades igualmente estipuladas.
Ademais, há que se lidar com a preocupação em relação ao emprego, que persegue
os trabalhadores mesmo quando estão fora da fábrica, imaginando formas para
resolver os problemas do trabalho, em sua urgência por sugestões para se
destacar e manter-se no posto ou ascender na carreira. Todas essas preocupações
ocupam seu corpo e sua mente no pouco tempo restante fora do local de trabalho.
Tempo invadido, ainda. por uma crescente flexibilização, que implica na perda
de controle e de previsibilidade de quando irão (ou não) trabalhar, o que lhes
desorganiza o tempo de não-trabalho.
Todos esses elementos geram uma sensação de extremo mal-estar num contexto
temporal caracterizado pela urgência, tensão, intensidade, flexibilidade,
incerteza e aceleração.
Entretanto, esta é a marca do tempo presente, mas não necessariamente do
futuro. O tempo de trabalho, assim como o do não-trabalho é uma construção
social, o resultado da correlação de forças presente na sociedade em cada
momento histórico. Isso permite pensar a sociedade - suas instituições, regras
e valores - como algo passível de mudança, de intervenção, reconstrução e
transformação. Portanto o primeiro passo é analisar e discutir o que ocorre
hoje no interior da fábrica. No que se refere especificamente à disputa em
torno da jornada do trabalhador, é também importante refletir sobre os caminhos
que tem tomado a questão relativa ao tempo de trabalho no Brasil nas últimas
décadas, bem como suas conseqüências para a vivência individual e social dos
tempos fora da fábrica.
Notas
1 Este artigo foi elaborado a partir de minha tese de doutorado Tempos de
trabalho, tempos de não trabalho: vivências temporais cotidianas, 2007.
2 A Volkswagen do Brasil tem ainda quatro outras plantas, além desta no ABC. De
acordo com Rodrigues (2002), trata-se da empresa montadora que, na década de
1990, apresentou um maior número de negociações sobre jornada de trabalho.
3 De acordo com Thoemmes (2000), também na França a redução do tempo de
trabalho deixou de ser um tema discutido em si mesmo para se transformar em
moeda de troca, seja pela flexibilização do tempo de trabalho, seja pela
criação ou manutenção do emprego.
4 Na Volkswagen o trabalho em turnos de revezamento teve vigência até 1999. Os
trabalhadores ficavam quinze dias em cada um dos três turnos, no caso do regime
seis por um, e 45 dias no regime cinco por dois, em caso de apenas dois turnos.
Após essa data, os trabalhadores puderam dizer em qual turno preferiam
trabalhar.
5 O banco de dias foi implantado pela Volkswagen no início de 1998, ano em que
a empresa ameaçou demitir 6.500 trabalhadores. Essa forma de flexibilização não
foi aplicada em todos os setores, mas principalmente naqueles onde estavam
ocorrendo mudanças na produção, como em toda a cadeia da Kombi e na implantação
da linha do Pólo.
6 O ônibus da empresa chega sempre trinta minutos antes do inicio da jornada de
trabalho e sai trinta minutos após o encerramento desta.
7 A empresa tirou os microônibus que levavam os trabalhadores aos seus
respectivos setores, sendo mantidos apenas para aqueles que trabalham na Ala
17.
8 Tal redução pode parecer pouco, mas quando multiplicada por 22 dias úteis
resulta em quase duas horas por mês, por cada trabalhador (num total de 13 mil)
que foram subtraídas pela empresa.