Capital social e desenvolvimento democrático: Porto Alegre (Brasil) e Santiago
do Chile
Apresentação
Este estudo baseia-se em uma metodologia rigorosa e em evidências empíricas a
partir da observação de casos sul-americanos, com o propósito de revitalizar o
debate em torno do capital social e da participação democrática, uma vez que o
maior conhecimento e discussão acerca dos instrumentos de observação
constituirá um aporte para esta linha de pesquisa e para as políticas publicas.
Com uma base de dados gerada autonomamente e levando em consideração os aportes
da literatura sobre o assunto,1 este texto sistematiza as análises realizadas
criando índices de participação convencional, não-convencional e de confiança,
e de outras variáveis socioeconômicas, demográficas e atitudinais relacionadas.
Iniciamos esclarecendo alguns conceitos centrais e sua operacionalização,
observando tendências e correlações, constatando por fim as relações causais
mediante análise de regressão. Comparamos nossas próprias observações com
outras, submetendo a um exame critico as generalizações sobre o capital social.
À luz da relevância adquirida pela investigação comparada sobre o capital
social nas ciências sociais e nas políticas públicas,2 este artigo soma
evidências empíricas em torno dos indicadores do capital social e o faz com
base na análise comparada de dois casos sul-americanos: Brasil e Chile.
Apresentamos novas observações sobre o capital social, expomos uma metodologia
rigorosa para postular relações e, portanto, para fazer aportes à investigação
comparada e internacional, e avançamos até a precisão de variáveis e relações
de interesse para formular modelos conceituais que sirvam de aporte para as
políticas públicas. A metodologia consistiu em revisar a literatura sobre o
capital social e a participação democrática, operacionalizar conceitualizações
em variáveis de observação, construir e aplicar pesquisas às mostras
representativas de população3 , construir índices de capital social e de
variáveis relacionadas, observar tendências e correlações, e fazer análises de
relações entre variáveis mediante métodos de regressão múltiple e logística.4
Com base nas informações recolhidas em Porto Alegre e em Santiago do Chile,5
são consideradas evidências empíricas sobre os conceitos e as variáveis
destacadas pela literatura sobre capital social. O artigo inicia com a eleição
de conceitos de observação, depois apresenta as tendências de tais conceitos, a
continuidade de correlações entre variáveis e, mais adiante, as observações
realizadas a partir da análise de regressões; conclui com um ranking destas
variáveis e suas implicações. Por fim, faz-se uma recapitulação de observações
e descobertas de interesse no sentido de desenvolver esta linha de trabalho.
Sobre o que estamos falando?
Que conceitos de observação podem representar o capital social e as variáveis
relacionadas? A participação e a confiança são conceitos operacionais centrais
do capital social. A participação política convencional (institucionalizada,
eleitoral) e o interesse na política são manifestações da cultura cívica
democrática (ver Brody, 1994, pp. 173-208; Verba et al. (1995); Borba, 2005,
pp. 58-59; Castillo, 2006).6 A participação comunitária e não-convencional
considerada na maior parte da literatura (ver Norris, 2002) compreende todas
aquelas formas de participação não institucionalizadas, principalmente a
eleitoral, que beneficiam o conjunto de cidadãos e que não vai contra uma
lógica ou as práticas democráticas.7 Portanto, juntamente com a participação em
associações com distintas características, ficam incluídas as ações coletivas
desafiantes, convencionais e não-convencionais, tais como os protestos e as
greves.8 A confiança e o consentimento são conceitos centrais, uma vez que
representam atitudes facilitadoras de ações coletivas em torno de metas comuns,
segundo assinala Locke (2002, pp. 481-483). Entre as modalidades possíveis de
confiança social, podem-se destacar as seguintes: confiança interpessoal9 e nas
instituições comuns como veículo do progresso social (ver Putnam, 1995);
confiança social nas elites no interior de uma genuína democracia (líderes
sociais, econômicos e políticos, incluindo vias sociais e institucionais de
recrutamento, acesso e manutenção em posições de direção), por ser um recurso
que contribui para a coesão, a participação e a integração social;10 confiança
nos meios de comunicação em sociedades crescentemente pluralistas em
interesses, convicções e expressões, porquanto eles constituem um recurso para
a representação de inquietudes cidadãs.11
Na literatura,12 as variáveis já indicadas do capital social estão relacionadas
com um conjunto de indicadores socioeconômicos e relativos à qualidade de vida
das pessoas e de suas associações: o gênero, o nível educacional e o nível de
ingresso costumam ser considerados; as condições de associatividade (infra-
estrutura de organizações) nos lugares onde as pessoas vivem, pois é razoável
pensar que se elas dispõem de instâncias para a participação em seus bairros e
conhecimento a respeito destas, terão melhor predisposição para participar;13 o
grau de segurança ou insegurança das pessoas, porque essa condição influi na
confiança e na participação. O bem-estar pessoal, a qualidade de vida, as
expectativas futuras e o grau de satisfação com a democracia manifestam não só
o impacto de variáveis socioeconômicas, mas também de variáveis políticas e
institucionais (ver PNUD, 2004).14 Por fim, o capital social tem relação com um
conjunto de variáveis atitudinais de cultura política e competências cidadãs
(ver Welzel, Inglehart e Deutsch, 2005; Geissel, 2006): a identidade coletiva
ou o sentido de solidariedade expressam competências sociais aptas para ações
coletivas;15 a atitude de apoio à democracia tem influência na disposição a
participar.
Neste estudo, o capital social será observado por meio de índices que
representam as variáveis: "participação política convencional", "participação
comunitária" e "não-convencional", e "confiança". Elas serão postas em relação
com índices que sintetizam informações sobre variáveis socioeconômicas e
atitudinais das pessoas.16
Como o capital social é visto segundo suas tendências
O conceito de "participação comunitária" foi operacionalizado e observado por
meio de índices de participação em associações sociotrópicas (voluntariado, com
objetivos filantrópicos), em associações utilitárias (predomínio de uma
racionalidade instrumental, utilitarista), em associações religiosas
(identificação com certos credos e formas de vida relacionadas) e em ações
coletivas desafiantes (identificação com atitudes críticas e o
inconformismo).17 Esta tipologia torna possível a comparação com observações e
achados de outros estudos, tais como Rubenson (2005), Welzel, Inglehart e
Deutsch (2005) e Geissel (2006).
Em primeiro lugar, a Tabela_1 apresenta tendências com respeito à participação
convencional (votar, informar-se, debater) e o interesse pela política.
Em Santiago do Chile observam-se porcentagens de participação política mais
baixa do que em Porto Alegre; em ambos os casos há um considerável grau de
discussão sobre política, não obstante ser bem inferior o grau da ação de
informar-se. Cabe assinalar que a elevada participação política reflete a
obrigatoriedade de votar de quem possui 18 anos e está inscrito nos registros
eleitorais.
A Tabela_2 contém informações referidas à participação não-convencional
As porcentagens de participação são baixas e congruentes com as observações em
outros estudos (ver Welzel, Inglehart e Deutsch, 2005, p. 33). Em comparação,
Santiago do Chile mostra maior participação em todas as categorias de
associatividade e chama a atenção para que o associativismo religioso é maior
ali do que em Porto Alegre.18 Em relação com os dados da pesquisa Casen,19 as
observações sobre o Chile sugerem maior grau de participação no âmbito comunal
do que na esfera nacional (10,4% de participação em associações sociotrópicas e
26,2% em associações religiosas no ano 2005; para todo o território chileno, a
pesquisa consigna apenas 2,6% e 10% respectivamente no ano 2003). Contudo, no
caso da participação em associações utilitárias, a tendência se reverte (12%
nas associações de bairros e 23 % na esfera nacional).
O conceito de confiança foi observado mediante a construção de índices binários
de confiança.20
Tabela_3
À diferença de outros estudos (ver Borba, 2005, pp. 60-62), as informações do
quadro indicam um elevado grau de confiança em todas as partes, exceto nos
meios de comunicação. No Chile observa-se menor confiança nas organizações
informais e nas grandes organizações (partidos políticos, sindicatos etc.). Em
geral, em comparação com outros lugares do mundo, o grau de capital social
parece ser alto.21
Em resumo, as observações dos quadros reiteram que o capital social pode ser
observado por meio de indicadores de participação convencional e não-
convencional e de confiança. O grau de participação comunitária e não-
convencional é baixo em todas as partes,22 enquanto o grau de confiança é alto.
As tendências do capital social reiteram padrões de conduta que não diferem de
outras sociedades no mundo: as pessoas tendem a participar quando é necessário,
eleitoralmente, fazem-no menos de forma voluntária ou por razões utilitárias no
dia-a-dia e sem prejuízo da confiança que têm em suas relações interpessoais e
nas instituições.
O capital social, condições de vida e cultura política23
A seguir, comentaremos as correlações significativas e mais destacadas entre as
observações do capital social, as tendências indicadas e outras variáveis
consideradas na literatura.24
Tabela_4
Os indicadores da participação convencional, institucional e eleitoral, estão
positivamente correlacionados na maior parte dos casos; existem relações entre
a participação eleitoral e as práticas de discutir e informar-se sobre
política. Destaca-se a alta correlação entre IDSP e IISP (discutir e informar-
se). As correlações entre a participação e o apoio à democracia (IAD), ainda
que positivas, não são especialmente altas, ou seja, não necessariamente as
pessoas que têm uma atitude mais democrática são as mais dispostas a
participar. Em Porto Alegre, existem correlações positivas entre a participação
convencional e a educação (NE), parece também que o nível de ingressos (NI) e a
qualidade de vida (ICV) influem positivamente na participação convencional mais
do que no Chile. As correlações com solidariedade e identificação social (ISOI)
são significativas e positivas nos dois casos.
Nas Tabelas_5 e 6, observa-se a informação referida à participação não-
convencional em associações sociotrópicas, utilitárias e em ações coletivas
desafiantes (greves, manifestações públicas, tomadas de edifícios etc.).
Nos casos aqui estudados, os graus de correlação entre participação comunitária
(associações sociotrópicas IPAS e utilitárias IPAU) e as ações coletivas
desafiantes (IACD) são maiores do que nas sociedades pós-industriais, o que
significa que quanto maior o grau de participação em associações comunitárias e
em grandes organizações (partidos, sindicatos), maior é o grau de participação
em ações coletivas desafiantes. Uma maior experiência participativa poderia
estar favorecendo atitudes críticas, inconformistas e contestatórias. Por outro
lado, em uma perspectiva global, as mesmas correlações justificam inserir o
Chile entre as sociedades em desenvolvimento e as pós-industriais (correlação
entre 0,21 e 0,23), enquanto o Brasil corresponderia a sociedades pós-
industriais (0,33 e 0,50, respectivamente).
As relações entre participação (comunitária, não-convencional) e diversas
formas de confiança tendem a ser, em geral, positivas, o que reafirmaria o
suposto da literatura de que quanto maior a confiança, maior é a disposição
para participar (Baquero, 2005). As disparidades observadas nos dois casos, por
exemplo nas correlações entre participação e confiança nas elites ou nas
instituições (ICE, ICI), obedecem, certamente, a contextos muito distintos,
onde as elites diferem em seu comportamento e as instituições não funcionam do
mesmo modo. Em relação à confiança em organizações (ICOI, ICOF, ICGO), as
evidências sugerem um alto grau de importância das interações informais,
relação entre confiança, interações informais e comportamentos críticos e
desafiantes (IACD): quanto maior o grau de confiança em organizações informais,
maior é o grau de participação em associações e em ações coletivas. Por outro
lado, as observações reiteram que os casos sul-americanos somente em parte
podem ser classificados dentro dos tipos ideais "sociedades em desenvolvimento"
ou "pós-industriais". Com efeito, na correlação entre confiança em outra gente
(ICOG) e participação, o Chile apresenta um maior valor do que as sociedades em
desenvolvimento e as pós-industriais. A correlação entre confiança em outra
gente (ICOG) e ações coletivas desafiantes (IACD) é também maior no Chile do
que nas sociedades em desenvolvimento.
A participação convencional (política, eleitoral; debater e informar-se)
correlaciona-se positivamente com a participação comunitária (associações, não-
convencional), sobretudo no caso do Chile. Isso quer dizer que quanto maior a
participação em associações comunitárias (IPAS, IPAU) e em ações coletivas
desafiantes (IACD), maior é a disposição a informar-se, discutir e participar
em política. Em Porto Alegre chama a atenção a correlação negativa entre
participação convencional e religiosa, o que poderia estar indicando certo grau
de distanciamento entre o associativismo e a política.25
As correlações entre participação comunitária, não-convencional e as variáveis
demográficas e socioeconômicas (sexo, educação, nível de ingresso, infra-
estrutura, insegurança/segurança, satisfação/insatisfação com as instituições)
tendem a ser baixas em geral. No caso de Santiago do Chile, a correlação
positiva entre participação religiosa e gênero é coerente com outras
observações sobre o destacado papel feminino nas associações religiosas (ver
Campos, 2004). As baixas correlações entre ações coletivas desafiantes e
educação leva a inserir o Chile numa classificação de correlação média em nível
mundial (entre 0,14 e 0,16), ao passo que Porto Alegre se aproximaria de
sociedades pós-industriais. No que diz respeito às correlações entre
participação e ingresso, Santiago do Chile e Porto Alegre aproximam-se das
tendências mundiais. Por sua vez, as correlações com a infra-estrutura de
associações (IIEAFI) sugerem que quanto maior a quantidade de organizações e
instâncias de associação em bairros, maior é a propensão a participar.26 Em
relação à insegurança/segurança (IIN), em Porto Alegre observam-se correlações
significativas, baixas e positivas, o que sugere que quanto maior a
insegurança, maior é o grau de participação.
Algumas variáveis atitudinais (cultura política) têm uma clara relação com a
participação. A solidariedade e identificação social (ISOI) tendem a
correlacionar-se positivamente com a participação comunitária nos dois casos
analisados.
Nas Tabelas_7 e 8, observam-se correlações entre confiança e outras variáveis
para cada caso, por separado.
Em Porto Alegre, as correlações de confiança são significativas e positivas,
salvo entre ICE e ICOI, ICE e ICGO, ICOG e ICE, ICGO e ICMC. Em Santiago
destaca-se a correlação entre a confiança em organizações formais e informais
(ICOF e ICI) e, como no Brasil, a correlação é especialmente alta entre a
confiança nas organizações formais (ICOF) e confiança nas instituições.
As correlações entre os índices de participação política (IPP), incluindo aí as
disposições a informar-se e a discutir sobre política, e os índices de
confiança tendem a ser significativas e positivas nos dois casos. Não há
correlações significativas e positivas entre participação e confiança nos meios
de comunicação (ICMC), ao contrário do que sugerem outras medições, como por
exemplo o PNUD (2004) no caso do Chile. Destaca-se, ainda, a correlação entre
IPP e confiança nas grandes organizações (partidos, sindicatos etc.).
As variáveis socioeconômicas e de qualidade de vida tendem a correlacionar-se
positivamente com a confiança. Nos dois casos, os indicadores sobre condições e
expectativas de vida (ingressos, qualidade de vida, bem-estar pessoal,
insegurança/segurança), incluindo satisfação com as instituições (satisfação
com a democracia), mostram ter correlações positivas. A infra-estrutura
associativa correlaciona-se também positivamente com a confiança.
No caso das variáveis atitudinais (solidariedade e identificação, sentido
coletivo), observa-se correlações significativas e positivas com a maior parte
dos índices de confiança. Santiago do Chile exibe os graus mais elevados de
correlação, especialmente entre confiança em outra gente (ICOG) e sentido
coletivo (ISC).
A observação das correlações indica certas tendências de interesse, em nível
agregado, como mostramos sinteticamente a seguir.
As variáveis de capital social (participação comunitária e não-convencional,
confiança e participação política) têm correlações nítidas entre si, superiores
à média, em todos nos dois casos estudados. Em ordem de magnitude, destacam-se
as correlações entre participação em associações sociotrópicas (IPAS) e em
associações utilitárias (IPAU), entre participação em ações coletivas
desafiantes (IACD) e confiança em organizações informais (ICOI), em menor
medida entre participação comunitária (IPAS, IPAU) e outras manifestações de
confiança. Por sua vez, as confianças têm correlações consideráveis entre si,
sobretudo a confiança nas instituições (ICI), nas organizações formais (ICOF),
em outra gente (ICOG) e em organizações informais (ICOI). O mesmo ocorre no
caso da participação política, em que as mais altas correlações estão centradas
em: informar-se e discutir sobre política (IISP, IDSP), seguida de participação
política e discutir sobre política (IPP, IDSP).
Nos dois casos, observam-se correlações entre as variáveis de capital social e
outras variáveis socioeconômicas, de qualidade de vida e atitudinais. A
correlação entre participação não-convencional, comunitária e a atitude de
solidariedade e identificação social (ISOI) é particularmente alta,
independentemente dos contextos, ou seja, trata-se de uma porcentagem
significativa de pessoas que participam e manifestam atitudes de identificação
e solidariedade com seus concidadãos e suas nações. Quanto à perspectiva da
confiança, observa-se uma alta correlação entre confiança em outra gente (ICOG)
e sentido de responsabilidade social coletiva (ISC). Tais constatações são
coerentes com o caráter holista e organicista da cultura política nas
sociedades latino-americanas (ver Wiarda et al., 1996).27 Nesse sentido, nos
casos estudados as variáveis indicadas, relacionadas com a "atitude afetiva
habilitante" (fazer coisas com os demais, cooperar voluntariamente, disposição
a integrar-se etc.) representam um recurso social importante para o progresso
social e para a política.
Em Santiago do Chile e em Porto Alegre destacam-se as correlações positivas
entre participação e confiança, de um lado, e participação e infra-estrutura
associativa (IIEAF), de outro. Há ainda correlações significativas e positivas
entre infra-estrutura associativa e disposição para discutir sobre política
(IDSP). Nestes casos, os resultados validam um dos supostos clássicos das
relações entre associatividade, democracia e desenvolvimento: quanto maiores as
condições sociais favoráveis para a participação, tais como a existência de
instâncias para a prática do associativismo, maior será o grau de confiança e
maior a disposição das pessoas em participar.
A correlação negativa entre insegurança (IIN) e confiança (maior insegurança,
menor confiança) é reiterado nos dois casos, independentemente do contexto.
Destacam-se as correlações insegurança/confiança nas instituições (ICI) e
insegurança/confiança em outra gente (ICOG). Tal constatação segue a linha de
duas preocupações centrais na atualidade desses dois países: a insegurança do
cidadão, relacionada com percepções, atitudes e atos de violência social, e a
insegurança no desempenho das instituições, relacionada com problemas nas
interações entre inquietude e trabalho das instituições, efetividade,
responsabilidade e transparência. No mesmo sentido manifestam-se as correlações
entre as variáveis bem-estar pessoal (IBP), qualidade de vida (ICV),
expectativas de vida (IEV) e confiança nas instituições e em outra gente.
Quanto maior o bem-estar pessoal, maior é a confiança nas instituições e em
outra gente. Há também uma correlação positiva entre a participação política e
a satisfação com a democracia (instituições, responsáveis etc.) Essas
correlações sugerem, claramente, que o desempenho das instituições e que as
condições de vida das pessoas têm uma relação evidente com o capital social e
todas as suas conseqüências (participação, estabilidade democrática,
desenvolvimento etc.). Essas constatações estão em sintonia com a crescente
atenção que se dá atualmente às variáveis institucionais e do desenvolvimento
socioeconômico em estudos sobre capital social e políticas públicas (ver IDB,
2005; Freitag, 2006; Keele, 2007).
Algumas dimensões da participação convencional correlacionam-se diretamente com
variáveis sociais e demográficas. Nos dois casos analisados, observa-se o maior
grau de correlação entre o nível educacional (INE) e a disposição para discutir
sobre política (IDSP) e, em muito menor medida, entre a atitude de apoio à
democracia (IAD) e a participação política.
Ao comparar esses dois casos de estudo com as sociedades classificadas como "em
desenvolvimento" observa-se que numerosas correlações são maiores nos
primeiros. Esses fatos ficam escondidos na observação agregada, em que Brasil e
Chile são casos somados a um conjunto de vinte casos de países em vias de
desenvolvimento. O caminho desse tipo de conclusão por agregação não é,
portando, o mais eficaz, pois as diferenças e as causalidades podem ficar
escondidas atrás da visão agregada.
A perspectiva das causalidades
Vamos analisar agora as relações causais. O método consistiu em selecionar
variáveis de capital social na qualidade de variáveis dependentes, com base na
literatura e nas análises prévias.28 As análises de variância (ANOVA) indicam
que cada conjunto de preditores relacionados com os modelos é significativo
para cada um deles.29
A observação dos modelos de regressão nos dois casos arroja um conjunto de
variáveis independentes que influem sobre o capital social (a participação
convencional, não-convencional e as diversas formas de confiança social e
política). As Tabelas_10 e 11 (ver Anexo) sintetizam as relações mais
significativas.
Na participação convencional, incluindo as ações de exercer o direito a voto,
informar-se e debater sobre política, observam-se relações interdependentes:
nos dois casos, debater sobre política é um predicador de informar-se, e vice-
versa, e votar é um predicador de discutir (quem vota tem predisposição a
discutir). Tanto em Santiago do Chile como em Porto Alegre, a insegurança
possui um coeficiente negativo, o que demonstra uma relação inversa com a
variável dependente "debater"; quanto maior for a insegurança, menor é a
tendência a debater. Por sua vez, a confiança nas pessoas e nas grandes
organizações, em menor medida que nas instituições, nas elites e nos meios de
comunicação, influi na disposição a discutir sobre política e exercer o direito
de voto.30
Na participação não-convencional influem especialmente as experiências
associativas prévias (ter participado), o grau de confiança social e nas
instituições do Estado, e, relacionado com isso, a identificação com a
sociedade. Nos dois casos estudados, a experiência de participação tem
influencia na opção por participar de organizações não-convencionais, mas
estáveis, assim como a confiança nas relações sociais entre pessoas e nas
instituições comuns.31 Tanto em Santiago como em Porto Alegre, a participação
em associações utilitárias é a que possui um maior coeficiente Beta. Nos dois
casos, tal coeficiente negativo da participação em ações coletivas desafiantes
é equivalente às evidências de outros estudos, em outros contextos, onde se
observa que as atitudes críticas e inconformistas influem em disposições não-
associativistas, mas, contudo, promovem outras formas de participação e capital
social (ver Geissel, 2006, p. 3). A variável solidariedade e identificação,
relacionada com as variáveis independentes já indicadas, é o terceiro
predicador mais importante da participação não-convencional. Adiante, constata-
se um conjunto bastante heterogêneo de variáveis causais, cuja importância em
cada caso e em relação a cada forma de participação varia; vale destacar a
infra-estrutura associativa, o grau de satisfação com a democracia e diversos
fatores demográficos e socioeconômicos.
As Tabelas_10 e 11 sugerem que as ações coletivas desafiantes podem ser
atribuídas em parte à falta de confiança nas instituições, em rotinas ou em
formas de relação social com outra gente, tais como as organizações estáveis do
bairro. Podem também resultar da erosão de atitudes de solidariedade coletiva
(com a sociedade, o Estado ou o bem comum, entendido como assuntos coletivos).
Por outro lado, parece influir positivamente nelas a confiança em organizações
informais, como por exemplo redes comunitárias com baixo grau de formalização
e, no caso específico de Porto Alegre, a experiência prévia de participação em
associações e ações coletivas utilitárias, em que se perseguem benefícios
concretos.32
Quanto à participação em associações religiosas,33 a confiança continua sendo
um predicador relevante nas duas cidades, embora com certos matizes. A
confiança em organizações informais é reiterada, enquanto a confiança nas
instituições só é importante no caso de Santiago do Chile. De modo inverso, a
participação em associações religiosas é um predicador importante da confiança
em organizações informais. No caso de Porto Alegre, mais claramente a confiança
nas organizações informais e a participação em associações religiosas têm
relação com percepções sobre segurança, bem-estar pessoal e nível educacional
(ver Campos, 2004). Em ambos os casos, a falta de satisfação com o regime
político (democracia) resulta ser um predicador destacável do associativismo
religioso, ou seja, quanto maior a insatisfação, maior a disposição a
participar em organizações religiosas informais, onde atuam pessoas com
propensão a sentir-se inseguras, vulneráveis, com baixo nível de bem-estar e
certo nível educacional.34
A observação desagregada dos distintos tipos de confiança mostra diversas
ângulos de relações causais.
No que diz respeito à confiança interpessoal, em outra gente, as variáveis
independentes que se reiteram nos dois casos são: sentido coletivo, confiança
nas organizações informais, participação em atividades coletivas desafiantes e
confiança em organizações formais, sendo os três primeiros predicadores mais
relevantes. Tais relações sugerem que fatos relacionados com o sentimento de
pertencer a uma coletividade, somados a fatos que reforçam a confiança em
organizações informais - por exemplo, quando elas representam adequadamente as
inquietudes dos cidadãos -, influem no capital de confiança social. Em
contrapartida, as ações coletivas que, como se tem observado, manifestam uma
quebra de confiança significam provavelmente que as vias habituais para
resolver problemas tanto na sociedade como no Estado não estão dando resultado.
A confiança em organizações formais, em grandes organizações (partidos,
sindicatos, igrejas, por exemplo) e em elites (que desempenham funções de
direção e liderança) é favorecida pelo capital de confiança na sociedade,
especialmente nas instituições e nas pessoas. Ou seja, a confiança no bom
funcionamento das instituições do Estado e a confiança social promovem uma
atitude de maior confiança nas organizações formais. Do mesmo modo, a
experiência de participação em ações coletivas desafiantes favorece nos dois
casos o grau de confiança. A satisfação com a democracia, com um coeficiente
Beta negativo, influi especificamente na confiança em organizações formais. Por
sua parte, a participação política causa impacto no grau de confiança nas
grandes organizações (maior participação política, maior confiança em grandes
organizações). Comentário especial merece o predicador mais importante em Porto
Alegre - confiança nas elites -, cujo coeficiente Beta é negativo, indicando
que há uma relação inversa entre este predicador e a confiança em grandes
organizações.35 Por outro lado, há um conjunto variado de outros predicadores
com diversos graus de influência, como, por exemplo, o nível de ingressos, a
percepção de segurança, a qualidade de vida, as experiências prévias de
participação, a existência de infra-estrutura para a participação etc.
Em ambos os casos, o grau de satisfação com a democracia é um fator de primeira
importância que intervém no grau de confiança nas instituições. Um segundo
predicador sobressalente é a confiança nas organizações formais. Também tem
efeitos, embora menores, outros indicadores de confiança em organizações
formais e informais, nas elites e nos meios de comunicação, a percepção de
insegurança e o bem-estar pessoal, entre outros.
As observações consignadas dão lugar a identificar variáveis independentes
significativas, reiteradas nos modelos dos dois casos estudados. Portanto,
justifica-se uma hierarquia de variáveis em função de sua presença nos modelos
de regressão, em sua qualidade de variáveis independentes (em porcentagem).
Os resultados das nossas observações são convergentes com as conclusões de
outros trabalhos, em outros contextos (ver Welzel, Inglehart e Deutsch, 2005;
Geissel, 2006). A participação em ações coletivas desafiantes é um bom
indicador para a medição do capital social. Vale notar que, em cada uma das
seis vezes que aparece o coeficiente Beta associado à IACD, tal coeficiente
possui o mesmo valor para Porto Alegre e Chile, o que indica a força da
variável com independência das particularidades do contexto. Esta descoberta é
significativa para ambos os casos, uma vez que abre um canal de convergência em
esforços de promoção de capital social e no fortalecimento da democracia. Com
efeito, se os instrumentos estatais da participação canalizaram o potencial da
participação nessas ações como parte de sua rotina de trabalho, ele resultou em
melhores condições para a estabilidade democrática.
A confiança desempenha um papel central como indicador do capital social, o que
tem sido também devidamente destacado na literatura (ver Norris, 2002; Baquero,
2005; Castillo, 2006; Keele, 2007). Igualmente ao caso de IACD, a confiança em
organizações informais, antes de representar um aporte na direção de uma
sociedade diversa e pluralista em interesse e convicções, fortalece os graus de
coesão e de integração social, promove o capital social e a estabilidade da
democracia.
A que ponto chegamos?
Em suma, pode-se afirmar que o capital social, observado por meio da
participação convencional, não-convencional e o grau de confiança, mostra as
seguintes tendências nos dois casos sul-americanos. Primeiro, elevada
participação convencional, incluindo as ações de discutir e informar-se sobre
política, sendo que no Chile o nível é claramente inferior. Estas tendências
são plenamente coerentes com o alto grau de estabilidade política nos últimos
anos. Segundo, baixa participação não-convencional, exceto no âmbito religioso.
Terceiro, altos níveis de confiança, sendo que, no entanto, ela é baixa quando
se trata de grandes organizações, o que corrobora percepções sobre a crescente
debilidade e falta de legitimidade dessas organizações que outrora foram
importantes formas de relação social, como os partidos políticos e as
associações sindicais. O alto grau de confiança sugere um elevado potencial de
capital social, o qual deve ter relação com a estabilidade dos sistemas
políticos e com o alto grau de coesão social existente, não obstante as
condições econômicas e sociais adversas da última década. No mesmo sentido, a
variável atitudinal "solidariedade e identificação social" apresentou um peso
relevante ao longo do estudo.
Deve-se ter em mente que as tendências já observadas de correlações e
causalidades ocorrem em contextos distintos e, portanto, as análises e as
generalizações que se podem extrair são apenas aproximações que poderão se
aprimoradas com novas observações que sejam comparáveis com séries temporais.
Esta constatação é válida para todos os estudos comparados de capital social.
As correlações que consideram as variáveis de capital social, socioeconômicas,
demográficas e atitudinais são bastante significativas, maiores do que aquelas
observadas na literatura mundial revisada. Este último poderia obedecer à
amostragem, aos instrumentos de medição ou a mudanças nas próprias variáveis
consideradas no transcurso do tempo (entre uma medição e outra). Não é possível
tirar conclusões ainda, faltam séries temporais para que se possa fazer maiores
comparações e depurar as impressões. De qualquer maneira, cabe ressaltar certas
descobertas para efeitos de comparação e de debate acadêmico.
Algumas das correlações observadas sugerem áreas de interesse para a formação
de capital social e para fortalecer condições sociais da estabilidade
democrática. Com efeito, assim ocorre no caso da correlação positiva entre a
participação não-convencional e a participação convencional (votar, debater e
informar-se); uma maior experiência participativa poderia ter incidência na
participação política e, portanto, o estímulo e a promoção desse tipo de
participação não-convencional poderia beneficiar a estabilidade do sistema
democrático. O mesmo se pode afirmar em relação à solidariedade e identificação
social, cujo fortalecimento poderia incidir na participação e na estabilidade
democrática.
Diferentemente de outros estudos, em que são analisados muitos casos, as
correlações sintetizadas neste trabalho indicam que as diversas formas de
participação não se dão de forma pura nem isolada. As evidências apresentadas,
corroboradas por outras consultas no Chile e no Brasil (especialistas,
estudantes, comunidades), sugerem que a experiência acumulada na prática da
participação é uma condição favorável para a formação de capital social. Assim
sucede, por exemplo, com a participação em associações voluntárias,
sociotrópicas e ações coletivas desafiantes. Nesse sentido, cabe advertir que o
maior grau de capital social não é necessariamente resultado da participação em
certos tipos específicos de associação ou em determinadas ações coletivas.
Longe disso, as evidências apontam em direção às relações interdependentes,
positivas com respeito à participação, como, por exemplo, o fato de a
experiência de participação em associações ser uma competência importante para
a participação em ações coletivas, e vice-versa.
As correlações observadas entre confiança e participação coincidem com as
evidências e as afirmações de muitos estudos sobre a estreita relação entre
ambas (ver Norris, 2002; Baquero, 2005).
Os casos aqui analisados somam evidências em torno da estreita relação entre as
instituições e seu funcionamento, e os comportamentos sociais, neste caso de
participação e de confiança pública. Na mesma direção de outros estudos que
ressaltam aos efeitos das instituições e dos governos na formação de capital
social (ver Freitag, 2006; Keele, 2007), observa-se nítidas correlações entre
participação e confiança nas instituições, participação e confiança em outra
gente, condições socioeconômicas resultantes de um bom desempenho institucional
e confiança, entre outros fatores. Em outras palavras, determinadas atitudes
sociais que manifestam capital social são, em parte, conseqüência do desempenho
das instituições e dos governos. Portanto, a melhor sintonia entre o desempenho
(resultados) das instituições e as inquietudes dos cidadãos deveria conduzir a
uma maior acumulação de capital social, em beneficio da democracia e do
desenvolvimento, e vice-versa.
Os modelos de regressão reforçam as observações indicadas, que dizem respeito à
importância da participação não-convencional, a confiança e certas variáveis
atitudinais para a formação de capital social, especialmente solidariedade,
identificação social e sentimento coletivo.
É importante seguir avançando pelo caminho da investigação de casos concretos,
caso a caso, pois isso garantirá um conhecimento mais apurado e melhores
condições para o a pesquisa comparada e, portanto, para a formulação de
políticas. Os estudos de casos resultam ser um método adequado para poder
observar onde estão operando variáveis relevantes, onde estão gerando dinâmicas
de interesse, as quais permanecem obscuras nas visões mais generalizada
(macro). Certamente, as evidências trazidas pelos estudos de casos devem
complementar visões que postulem hipóteses de relação a partir da informação
agregada.
Notas
1 Ver Apêndices no site http://www.capital-social.com/wp/?page_id=152 y http://
www.capital-social.com/wp/images/Metodosestadisticos.pdf, onde se encontra o
questionário usado, as bases de dados, a codificação, os índices, os Sintax
SPSS e os esclarecimentos pertinentes (como se elaborou cada medida).
2 A este respeito, ver Pateman (1992), Norris (2002), Hagopian e Mainwaring
(2005, p. 8), IDB (2005, pp. V-IX), site www.usaid.gov, Coleman (1990), Putnam
(1995), Baquero (2005), Freitag (2006), Welzel, Inglehart e Deutsch (2005),
Castillo (2006). Na América Latina existem numerosas aproximações teóricas e
alguns trabalhos empíricos sobre casos muito pontuais nos níveis locais (por
exemplo, Campos, 2004; Borba, 2005; Pase, 2005; Fialho, 2005; Santos e
Viscarra, 2005).
3 Não obstante o uso dos termos Brasil e Chile, as observações se limitam
principalmente aos resultados de uma pesquisa de opinião aplicada em Porto
Alegre e Santiago do Chile (para base de dados, índices, sintax e outputs, ver
site http://www.capital-social.com/wp/?page_id=152).
4 Ver Apêndices no site http://www.capital-social.com/wp/?page_id=152.
5 As medidas que justificam a inclusão destas cidades são sua alta concentração
de população e o fato de serem pólos regionais e nacionais importantes da
atividade política, social, econômica e cultural dos países envolvidos.
6 Ambas as condutas geram conectividade interpessoal e favorecem a tolerância.
Numerosos estudos argumentam sobre a importância da participação e do interesse
pela política para a estabilidade democrática (ver Detjen, 2000).
7 Fica fora, por exemplo, a participação em associações ou ações que promovam
relações de camaradagem, intolerância, fanatismo, nepotismo, corrupção, entre
outros, pois estas somente beneficiam um grupo e não os bens públicos.
8 Estas manifestam um conjunto de valores e atitudes que promovem a
participação democrática e a coesão social, refletindo a operação de redes
comunitárias (Baquero, 2005; Welzen, Inglehart e Deutsch, 2005, p. 8; Geissel,
2006, p. 3).
9 Não apenas em organizações formais, mas também em relações informais. Quem
participa de protestos ou greves não o faz sempre por qualidade de membros de
organizações formais, mas por convicção individual ou desencanto (ver Tilly,
Tilly e Tilly, 1975; Rose, 1996).
10 A confiança nas elites pode ser também um recurso de capital social, na
medida em que elas expressam e representam os processos de formação de vontade
política na sociedade.
11 Ver evidência empírica em PNUD (2004). Nas últimas décadas, os meios de
comunicação têm sido um ativo canal de formação de opinião pública crítica no
mundo inteiro.
12 Ver Barberet (2004, pp. 172-174), Borba (2005), Souza de Amorim (2005), Pase
(2005), Fialho (2005), Santos e Viscarra (2005), Welzel, Inglehart e Deutsch
(2005) e Rubenson (2005).
13 Assim fica consignado em estudos monográficos sobre associativismo religioso
em localidades (Campos, 2004).
14 Elas poderiam operar em sentido positivo, favorecendo, por exemplo, as
disposições para a participação em uma democracia aberta e pluralista (ver
evidências empíricas em Freitag, 2006, e Keele, 2007).
15 A solidariedade manifesta-se em certo grau de identificação social e de
sentido do coletivo; para que as pessoas se sintam motivadas por causas
coletivas, é necessário que exista algum grau de identificação entre tais
causas e seus próprios princípios e motivações.
16 Todos os índices, incluindo os passos para sua construção, podem ser
consultados no site http://www.capital-social.com/wp/?page_id=152.
17 Cada variável de participação é o resultado da construção de índices
binários (variáveis dummy). Na construção considerou-se que se uma pessoa
responde que pertence ao menos a um tipo de associação, a codificação deve ser
1 (participante) e 0 (não participante) em caso contrário.
18 No Chile, o grau de secularização é maior do que no Brasil (ver Campos,
2004). Nesse sentido, contudo, é possível que a população de Porto Alegre não
seja representativa do conjunto do país.
19 A pesquisa de opinião Casen do Chile é elaborada com base em uma rigorosa
metodologia administrada pelo Ministério de Planificação Nacional (MIDEPLAN).
Não tem sido possível acessar as bases de dados oficiais equivalentes no
Brasil.
20 A codificação dos índices corresponde ao valor 1 se a pessoa, ao menos em
uma das respostas que compõem cada índice, responde que tem algum grau de
confiança no ente respectivo (gente, elites, instituições, meios). Ver informe
de índices no site www.capital-social.com.
21 Em todo caso, cabe levar em consideração as limitações de um indicador que
toma valores binários, em que não é possível observar em detalhe graus de
confiança.
22 Estas constatações não constituem uma avaliação nem otimista nem pessimista
em relação à discussão sobre o aumento ou a erosão do capital social (ver
Norris, 2002).
23 Neste estudo usamos a correlação de Spearman. Tem-se como pressuposto que
uma correlação baixa tem um valor absoluto menor ou igual a 0,33, uma
correlação média, um valor absoluto de correlação maior a 0,33 e menor a 0,66,
e uma alta, valores maiores ou iguais a 0,66.
24 Todas as correlações que incluíram o exercício original se encontram nos
apêndices deste estudo, disponível no site http://www.capital-social.com/wp/
?page_id=152.
25 Isso também poderia explicar-se por diferenças culturais e nos padrões de
comportamento cívico.
26 A investigação sobre as associações religiosas no caso do Chile tem
demonstrado empiricamente que as infra-estruturas para a participação
representam uma condição relevante nesse sentido (ver Campos, 2004).
27 É importante levar em consideração as particularidades socioculturais. Como
em outras sociedades no mundo, os interesses individuais e o rational choice
influem nos comportamentos e nas atitudes. Mas as condições socioculturais
específicas também influem nesse sentido nas sociedades do Cone Sul da América.
28 Para quadros com as informações completas, ver site http://www.capital-
social.com/wp/?page_id=152. As tabelas com os modelos (9 e 10) são lidas por
colunas - cada coluna representa a variável dependente e as filas mostram os
preditores ou variáveis independentes. B são os coeficientes não-padronizados
de cada preditor, e Beta são os coeficientes padronizados. Entre parênteses
indica-se erro padrão associado. Os asteriscos representam o grau de
significação, tal como foi apresentado nas tabelas anteriores. R2 ou
coeficiente de determinação representa o grau de ajuste do modelo (por exemplo,
0,73 significa que 73% da variância é explicada pelo modelo. Quanto mais
próximo a 1, melhor é a predição do modelo). Neste caso justifica-se mais de
três linhas para entender bem os quadros.
29 Ver outputs de modelos no site www.capital-social.com. Os erros de cada
modelo estão distribuídos normalmente, os quais se observam mediante os valores
descritos por Durbin-Watson (entre 1,4 e 2,8).
30 No Brasil o exercício do voto é condição para o exercício de muitos
direitos, e esta circunstância é importante para a avaliação final dessas
observações.
31 Em Porto Alegre as principais variáveis independentes são: IPAS (0,656),
ICOI (0,408), IACD (-0,327), ISI (0,201), ICOG (-0,063), ICE (-0,058), ICI (-
0,047) e IIS (-0,045). No Chile, são: IPAU (0,594), ICOI (0,472), IPACD (-
0,243), ISI (0,158), ICI (-0,052), S (-0,051) e NE (0,048).
32 Nesse sentido é importante considerar a experiência do orçamento
participativo e suas conseqüências em Porto Alegre.
33 O fato de a variável "participação em associações religiosas" ser uma
variável dicotômica procede uma regressão logística.
34 No Chile, no contexto do regime político autoritário da década de 1980, tais
relações ocorreram nos setores mais vulneráveis da sociedade, tanto do ponto de
vista do nível educacional, como do nível de ingresso.
35 Tal constatação é congruente com observações sobre o alto grau de
distanciamento entre elites e o restante da sociedade no Brasil.