Sociologia da governança francesa das águas
Introdução
No início do século XX, ao descrever a constituição do que chamou de espírito
capitalista, Max Weber destacava que a moderna ordem econômica determinaria "de
maneira violenta o estilo de vida de todo nascido sob este sistema, e não
apenas daqueles diretamente atingidos pela aquisição econômica, e, quem sabe, o
determinará até que a última tonelada de combustível tiver sido gasta" (Weber,
2000, p. 131). Sem embargo, o apontamento sobre a relevância da dimensão
econômica na orientação das práticas sociais modernas feito pelo autor, bem
como sua associação com o consumo extremo dos recursos naturais, adquire
significado particularmente interessante no caso do moderno debate sobre a
gestão das águas.
A temática do acesso aos recursos hídricos conquistou grande abrangência
científica e política no decorrer das últimas três décadas. Publicações,
conferências científicas sobre o tema e encontros multilaterais envolvendo
técnicos e chefes de governo revelam a consolidação da questão hídrica na
agenda política internacional. Do ponto de vista simbólico, também têm sido
recorrentes as iniciativas de re-significação do recurso, associado, no mais
das vezes, à importância mercantil que lhe foi conferida nas últimas décadas do
século XX. Classificada por muitos como ouro azul ou mesmo petróleo do século
XXI, a água segue ganhando abrangência na agenda política contemporânea,
precisamente por sua importância estratégica para a produção econômica.
Essa re-significação do recurso também repercute na construção de novas
estruturas de gestão social, voltadas fundamentalmente para o ideal econômico
da alocação eficiente dos fatores de produção. Nesse sentido, em termos de
práticas gestoras, a adoção dos chamados instrumentos econômicos vem sendo
apontada como solução eficaz para o ajustamento do consumo social da água. Tais
instrumentos teriam o mérito maior de refletir, por meio de mecanismos de
preços, os níveis de escassez relativa do recurso, induzindo os agentes
econômicos a adotarem condutas racionais de uso desse recurso, que seria então
um capital natural.
Tanto no concernente à implementação de instrumentos econômicos de gestão das
águas como em relação à criação dos Comitês de Bacias Hidrográficas como
instâncias de governança do recurso, o caso francês é considerado uma
importante referência internacional. No Brasil, o sistema paulista de gestão de
águas, criado em 1991, e o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos
Hídricos, de 1997, tiveram como principal referência a experiência francesa de
gestão. Os principais méritos atribuídos a tal experiência dizem respeito ao
seu caráter descentralizado e ao seu modelo técnico. Ademais, no que se refere
aos instrumentos de gestão, é comum nos debates sobre políticas ambientais e
mesmo na literatura sobre gestão ambiental o destaque para a orientação do
Princípio do Poluidor Pagador no instrumento francês de cobrança pelo uso da
água (redevances).1
Inscrito no campo da temática "sociedade e recursos hídricos", este trabalho
pretende contextualizar a abrangência do modelo francês de governança das águas
a partir de sua interpretação sociológica.2 Ou seja, para além da
imediaticidade dos instrumentos e das técnicas de gestão, pretende-se
compreender interpretativamente a constituição dessa experiência francesa,
resgatando seus principais agentes, a participação dos grupos profissionais na
formulação do sistema gestor, a identificação dos distintos interesses
envolvidos e a reconstrução dos principais termos do debate sobre as águas no
país na década de 1960, período de criação das inovações institucionais de
governança do recurso. Isto é, buscar-se-á compreender os elementos essenciais
envolvidos na configuração que possibilitou a emergência do referido sistema
gestor. Esse esforço interpretativo revela-se importante por pelo menos duas
razões. Primeiro, pode contribuir, no plano das ciências sociais, para a
crítica de Fabiani (1985, 1989), recorrendo a Habermas (1973), sobre o processo
de "cientificização" da política, que se estrutura fundamentalmente na retórica
do gerenciamento técnico dos conflitos socioambientais. Além disso, tal esforço
pode revelar ainda que a reificação da retórica do gerenciamento científico dos
recursos naturais também supõe a composição de interesses sociais que
recorrentemente articulam grupos da ciência e da burocracia de Estado.
Este artigo está dividido em quatro seções. Na primeira são apresentadas as
características gerais da governança francesa das águas, com destaque para seus
principais instrumentos e instituições gestoras. Também são destacados os
marcos conceituais que nortearão a interpretação sociológica do processo de
construção do sistema gestor. Na segunda seção são iniciadas as interpretações
sobre a configuração de agentes, grupos e instituições que propiciou a
constituição desse sistema. Neste âmbito, buscar-se-á a interpretação do
conteúdo do sistema, com ênfase no perfil dos agentes sociais partícipes de sua
formulação. Na terceira seção são abordados alguns temas esclarecedores de
como, para além de um simples modelo gestor, essa experiência francesa se
constituiu em uma nova concepção social dos recursos hídricos, que culminou,
conforme será abordado na quarta seção, em uma nova problemática das águas,
baseada sobremaneira nas relações que destacam a dimensão econômica do uso do
recurso. Por fim, nas considerações finais serão reafirmados os principais
termos das discussões empreendidas no curso do texto.
Convém destacar que este trabalho não se propõe a analisar o caso específico de
um comitê de bacia francês, explorando a formação de redes de representação
social nestas esferas de gestão das águas. Propõe-se a interpretar as disputas
sociais envolvidas no período de formação das normas gerais deste sistema
gestor - disputas estas que conduziram à construção das possibilidades de
trânsito dos agentes e dos grupos sociais no sistema. Com efeito, espera-se que
a interpretação desta experiência de construção das bases do sistema permita,
para os estudiosos da temática sociedade e recursos hídricos, um diálogo
profícuo com o caso brasileiro, sobretudo porque este sistema se encontra, em
vários estados, ainda em fase de gestação.
A forma francesa de gestão das águas: características gerais
Na França, a gestão integrada dos recursos hídricos sustentada pela autoridade
do poder central teve início no século XIX, com o Código Civil de 1804. Até
1964 - ano que marca a criação legislativa do atual modelo gestor - a
administração do recurso era tratada por diferentes serviços ministeriais, que
abrangiam a economia e as finanças, a organização do território, a agricultura
e a alimentação, a indústria e a energia, os serviços de navegação, os serviços
de bem-estar social e as atividades de organização da pesquisa científica. A
atuação de cada uma das instâncias ministeriais comportava objetivos
específicos, relativos às prioridades setoriais e aos interesses dos distintos
grupos da burocracia estatal (Haghe, 1998).
De acordo com Cheret (1987) e Picard (1987), agentes diretamente envolvidos na
estruturação do novo aparato gestor, a reforma de 1964 pretendeu, dentre
outros, transformar a dinâmica de administração do recurso, reforçando
progressivamente a participação de distintos setores sociais nas novas
instâncias gestoras. Entretanto, o processo de formulação da nova dinâmica
administrativa caracterizou-se pela ausência de participação de grupos sociais
que não aqueles já ligados à então tecnocracia envolvida na gestão do recurso.
Ou seja, naquele período histórico - década de 1960 - a questão hídrica ainda
não se constituía no interior da sociedade francesa como tema de disputas
capazes de transformar aspirações setoriais em pautas políticas relevantes. Por
essa razão, longe do espaço público, no sentido consolidado por Habermas
(2000),3 a reforma de 1964 foi fundamentalmente o resultado da composição dos
interesses e das interpretações da tecnocracia já envolvida com a administração
das águas.
Como resultado desta ausência de publicização do conteúdo das reformas, a
atuação dos formuladores do novo sistema gestor junto às autoridades
legislativas francesas da época deu-se com base na legitimidade técnica da
fala-perito destes agentes. O diálogo com setores da sociedade civil -
caracterizados por Cheret (1987) como absolutamente vago no período -
restringia-se à promessa de descentralização da gestão, com a participação
futura dos usuários interessados. Em face do modelo centralizado então em
vigor, tal promessa, sustentada não pelas autoridades governamentais, mas pelo
grupo técnico reunido para planejar o novo aparato gestor, significava um
importante avanço sobretudo para os agentes econômicos em ascensão no pós-1945.
Neste contexto, como reitera Picard (1987), mesmo a expectativa da criação das
redevances não despertou resistências imediatas, posto que as receitas delas
provenientes seriam administradas (e porque não, também disputadas) nos
contextos regionais.4
Para o processo de reforma, já em 1959 havia sido criada a Comissão da Água no
âmbito do Comissariado Geral do IV Plano Econômico e Social francês. Seu papel
era construir, no corpo do Estado, uma visão integrada da questão hídrica,
visando a compor uma síntese das necessidades dos diferentes setores e
assegurar a coerência geral dos investimentos previstos no quadro do
planejamento nacional. Essa Comissão da Água também teve como missão a
elaboração de um novo projeto de gestão das águas, que se constituiu na lei de
águas de 16 de dezembro de 1964.
Com a lei de 1964, a coordenação administrativa do sistema foi estabelecida por
meio da criação do Comitê Nacional de Águas, dos Comitês de Bacias e das
Agências Financeiras de Bacia, sendo estes dois últimos responsáveis pela
gestão em nível local. Os Comitês de Bacia seriam compostos pela representação
paritária da administração central, das coletividades locais e de diferentes
categorias de usuários. A rigor, esses comitês assumiriam no curso do tempo o
status de pequeno parlamento das águas, cuja função primordial seria a
arbitragem dos conflitos no uso e no acesso à água, tendo por base os termos da
nova legislação nacional sobre o domínio do recurso e os esforços para combater
sua poluição (Gleizes, 1987).
As Agências de Bacia, por sua vez, possuiriam um papel técnico na realização
das metas estabelecidas pelos Comitês de Bacia. Seriam compostas de corpos
técnicos e de um conselho de administração, com metade dos membros indicada
pelo governo central e metade eleita pelo Comitê de Bacia. As Agências teriam
como função realizar estudos qualitativos e quantitativos relativos aos
recursos hídricos, centralizando os estudos e os programas de intervenção na
escala da bacia. Contudo, seu papel central seria de ordem financeira, posto
que estavam habilitadas por lei para a definição dos valores e para a cobrança
das redevances. Elemento central do novo aparato gestor, as redevances
constituir-se-iam em um valor monetário cobrado dos usuários de água que
refletiria tanto a escassez relativa do recurso como os custos da degradação
gerada privadamente.
Pouco mais de quarenta anos após sua criação, a atual estrutura francesa de
governança das águas ocupa posição de destaque no debate internacional sobre
modelos de gestão dos recursos naturais. Agências multilaterais destacam os
méritos da experiência francesa, sobretudo no que se refere ao envolvimento de
distintos grupos sociais na definição das formas de regulação do acesso e uso
da água (OCDE, 2003; Dinar, 2000). Destacam também a pertinência do enfoque
fisiográfico da gestão, baseada na noção de bacia hidrográfica (Saleth e Dinar,
1999). A literatura especializada no tema da gestão ambiental, por sua vez,
sublinha que grande parte das virtudes do aparato francês de governança das
águas deve-se às suas referências aos fundamentos que anos mais tarde se
constituiriam no chamado Princípio do Poluidor Pagador da OCDE (Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Como é sabido, tal princípio
norteou, desde meados dos anos de 1970, a formulação dos instrumentos de
valoração econômica da água, tal como sugerido pelos autores da chamada
economia ambiental (Valiron, 1990; Merret, 1997).
Contudo, o enfoque fisiográfico do sistema francês garantiria per si a
certificação estritamente técnica atribuída a essa experiência gestora? Além
disso, estariam de fato em discussão no caso francês as iniciativas próprias do
Princípio do Poluidor Pagador? O significado das redevances corresponderia
efetivamente às pressuposições teóricas da noção de valoração econômica da água
presentes na economia ambiental? Senão, quais seriam as origens da crença, que
envolve a literatura especializada em gestão ambiental e mesmo os movimentos
ambientalistas, de que o recorte fisiográfico e as redevances indicariam um
novo patamar de equilíbrio na gestão do uso e do acesso aos recursos hídricos?
A fim de indicar caminhos para as repostas de tais questões, desenvolveremos
neste trabalho uma interpretação da configuração de agentes, grupos e
instituições envolvidos na formulação dos marcos regulatórios do referido
sistema gestor. Para tanto, empregaremos a noção de configuração proposta por
Elias (1991, 1993). Para o autor, uma configuração estrutura-se como um jogo no
interior do qual existe a hierarquia de conjuntos de relações do tipo "eu-eles"
ou "nós-eles". As interdependências caracterizariam não apenas as relações
entre agentes e ou grupos de agentes, mas também as relações entre níveis
configuracionais. Isso porque as configurações com alto nível de organização
são compostas freqüentemente de unidades parciais que formam, por seu turno,
configurações localizadas e não menos estruturadas. Ou seja, as configurações
localizadas são dispostas sobre vários planos, apresentando em cada caso um
equilíbrio específico de forças. Nelas os indivíduos engajados ocupam posições
identificáveis, mantendo laços de interdependência no plano configuracional.
Esses cenários localizados representariam, nos termos do autor, "configurações
no interior de configurações, processos no interior de processos, que podem
consistir em múltiplos planos embricados, apresentando também, comparado uns
aos outros, uma diversidade de forças e de capacidade de controle" (Elias,
1993, p. 44).
A reconstrução da configuração sobre a qual se construiu o atual modelo francês
de gestão das águas será feita com base em informações sobre a composição das
Comissões de Água dos Planos Econômicos e Sociais da França no período de
criação da nova legislação das águas no país. Dentre outros, buscar-se-á
identificar os perfis de formação dos membros dessas comissões (com destaque
para a escolaridade e a origem de formação). A partir de tal identificação,
lançaremos mão das concepções de Bourdieu (1989) sobre os quadros sociais de
percepção de grupos e classes distintas, bem como de suas análises sobre as
relações das Grandes Escolas francesas e o campo do poder. Também serão
reconstituídos, com base em informações documentais do período, os termos
gerais do debate sobre o devir do novo sistema gestor. Esses termos serão, por
fim, confrontados com as avaliações posteriores feitas pelos formuladores do
sistema em relação ao seu desenvolvimento no curso do tempo.
O conteúdo do novo sistema gestor: grupos e configurações
Em estudo sobre o perfil da gestão integrada das águas na França, Lewis (2001)
reconstruiu a composição das Comissões de Água criadas nos quadros do quarto,
do quinto e do sexto Plano Econômico e Social, desenrolados entre os anos de
1962 e 1975. Tal reconstrução revela, por exemplo, que na Comissão de Água do
IV Plano Econômico e Social (1962 a 1965) 86% dos membros eram politécnicos,
portadores de diplomas da École Polytechnique (53%), da École National de Ponts
et Chaussées (30%) e da École de Mines (14%). No contexto da Comissão de Água
do V Plano (1966 a 1970) - ou seja, período imediatamente posterior à criação
da nova lei das águas -, o percentual de politécnicos cai para 51%, destes, 56%
são portadores de diplomas da École Polytechnique, 12%, diplomados da École
National de Ponts et Chaussées e os demais têm diplomas de variadas escolas
politécnicas (com destaque, além da École de Mines, também para a École
National du Genie Rural, a École Superieur d'Electricité, o Institut National
Agronomique, a École du Petróleo de Strasbourg e o Institut Electrotechnique de
Toulouse). Por fim, no VI Plano Econômico e Social (1962 a 1965), pouco mais de
40% dos membros da Comissão de Água eram politécnicos, mantendo-se nessa fase o
mesmo perfil de distribuição dos diplomas verificado no contexto do V Plano.
A diminuição relativa do número de politécnicos ao longo do período de
formulação e implementação da lei francesa das águas de 1964 foi acompanhada
pelo crescimento da participação de membros diplomados nas áreas de direito,
letras e geografia. Conforme nos mostra Lewis (2001), nesses casos, a
concentração dos diplomas revelou-se mais fraca que aquela verificada na
formação dos politécnicos, sobretudo no curso do IV Plano Econômico e Social.
As instituições com maior recorrência na concessão desses diplomas foram a
Facultés des Lettres de Dijon, a Facultés des Lettres de Strasbourg, a Faculté
des Lettres de Paris e a Faculté des Sciences et Droit de Paris.
Se partirmos desse cenário geral descrito por Lewis e avançarmos para a análise
do perfil da direção das Comissões de Água do quarto, do quinto e do sexto
Plano Econômico e Social, a relevância do perfil dos diplomas para a construção
de um novo olhar administrativo sobre a gestão das águas na França torna-se
ainda mais evidente. A direção da Comissão de Água do IV Plano, por exemplo,
era constituída por um presidente, diplomado na Faculté de Droit de Strasbourg,
e quatro vice-presidentes, sendo três politécnicos, dois dos quais diplomados
na École Polytechnique. A composição da direção da Comissão de Água do quinto e
do sexto Plano Econômico e Social revela, ainda, maior concentração de poder
nas mãos dos politécnicos, detentores então de todas as vice-presidências das
respectivas comissões.
A despeito do discurso em relação à pluralidade de olhares sobre a gestão de
águas que o novo sistema pressupunha, por meio da descentralização
administrativa e da participação de usuários e distintos setores da sociedade
civil nos Comitês de Bacia e nas Agências de Bacia, a participação efetiva dos
grupos sociais nas referidas instâncias de governança possuía limites
preestabelecidos. Esses limites referiam-se ao próprio quadro do sistema
gestor, desenhado em grande medida pelos politécnicos. Isso porque a atuação
desse grupo de profissionais na elaboração das novas normas de regulação de uso
e acesso à água também acarretou a criação de novos marcos para a questão
hídrica no país. Com efeito, as inovações jurídicas envolvem formas de
nominação de experiências e expectativas sociais. Essas nominações, ao
fornecerem balizas para o comportamento social, implicam também relações de
poder. Nesses termos, desde a definição dos objetivos do novo aparato gestor
até a regulamentação dos instrumentos da política de águas, conjuntos distintos
de hierarquias sustentaram a nominação da atual problemática da água na
sociedade francesa.
Nesse conjunto de hierarquias, uma das mais relevantes diz respeito ao que
poderíamos chamar de dominação territorial dos saberes politécnicos. Primeiro
diretor da Agência de Bacia Seine-Normandie, politécnico diplomado pela École
Polytechnique e pela École National de Ponts et Chaussées e professor honorário
desta última, Valiron (1987) destaca, em seu balanço dos primeiros vinte anos
da criação das Agências de Bacia, a forma como os especialistas politécnicos
disputaram a divisão do território em bacias hidrográficas. Segundo esse
importante agente do novo sistema de gestão, ao contrário do que às vezes se
supõe, a divisão do território francês em seis bacias hidrográficas não
resultou de uma decisão eminentemente técnica, com base em recortes de bacias
perfeitas ou grupos de bacias delimitados por critérios estritamente
fisiográficos. A rigor, havia essa intenção inicial por parte dos membros das
Comissões de Água, dividindo o território com base nos cursos dos grandes rios
nacionais (Seine, Garonne, Loire e Rhône, sendo este último dividido em sua
parte baixa, na costa do Mediterrâneo) e da cisão dos rios parcialmente
franceses. Essa divisão corresponderia à criação de oito bacias hidrográficas.
Contudo, as disputas dos três corpos de politécnicos no interior das comissões
- a saber, os corpos de engenharia de minas, de engenharia de pontes e de
engenharia rural - conduziram a decisão sobre a partilha do território em
bacias hidrográficas para o campo do equilíbrio relativo das forças
profissionais envolvidas. De acordo com Valiron, em razão dessas disputas, o
território que inicialmente seria repartido em oito bacias hidrográficas foi
dividido em seis bacias, sendo equilibradamente distribuído entre os três
corpos politécnicos - cada um assumindo a direção de duas Agências de Bacia.
Nos termos de Valiron:
O Secretariado Permanente tinha trabalhado um pouco na direção de
oito Agências. E depois viu que havia um grande problema: quem ia
assumir a direção das Agências? Como havia três corpos técnicos que
brigavam para ter seus profissionais em cada uma das Agências, e não
sendo neste caso 8 um número igualmente divisível, achou-se por bem
chegar a um recorte de 6. E o recorte foi feito desta maneira! (1987,
p. 132).
Segundo Levy-Lambert (1987), engenheiro de minas e também um dos participantes
à época do debate sobre a partilha territorial, a atribuição da direção das
Agências de Bacias baseou-se no equilíbrio numérico destacado por Valiron e nos
campos de interesse de cada grupo. Nesse sentido, o corpo de engenharia de
minas assumiu a direção das Agências de Bacias do norte e do leste, regiões
mais industrializadas e com maior diversidade de recursos minerais; o corpo de
engenheiros de pontes assumiu as agências do Seine e do Rhône em razão de sua
importância para a navegação e da localização das grandes cidades; e o corpo de
engenharia rural, por sua vez, assumiu as agências das zonas agrícolas de Loire
e de Garonne.
Na condição de referência internacional, principalmente em razão da adoção da
bacia hidrográfica como unidade de planejamento e gestão, o modelo francês tem
recebido reiteradamente leituras abstratas quanto ao seu significado efetivo em
termos de políticas públicas. O sentido dessa abstração reside justamente nas
iniciativas de interpretação de seu desenvolvimento exclusivamente baseadas em
suas características técnicas mais evidentes.5 Abstraída do conjunto de
relações de poder que lhe conferem sentido concreto, a gestão francesa por
bacias emerge como solução técnica aplicada à necessidade de planejamento e uso
sustentável das águas. E, desse modo, continua sendo apresentada como solução
eminentemente técnica para a gestão racional das águas. Essa forma aparente do
modelo de gestão contribui para a disseminação de um processo denominado por
Habermas (1973) "cientifização da política", por meio do qual são difundidas na
sociedade representações "científicas" da natureza e de suas modalidades de uso
social. A regulação do acesso aos recursos naturais, por meio dos instrumentos
de gestão, é então consagrada como gerência científica da natureza. A política,
prevista para o comitê de bacia (parlamento das águas), teria, portanto, um
espaço prévia e cientificamente demarcado para a sua realização, a saber, a
própria bacia hidrográfica.6
Essa modalidade de cientifização do processo político, ao abstrair as relações
de poder envolvidas no recorte das bacias hidrográficas, o que o torna uma
fórmula aparentemente técnica, contribui sobremaneira para a reafirmação de
certos monopólios de competências. Assim, amparados pela experiência técnica
francesa, corpos politécnicos de outros países estruturam seus discursos em
torno da gestão racional das águas com base na bacia hidrográfica como unidade
física e na criação de bancos de informações técnicas de gerenciamento.7 Também
amparado por tal experiência, o saber técnico da água reiterou sua identidade
na relação "nós-eles", opondo-se aos segmentos não-técnicos cuja atuação
deveria significar a democratização do aparato gestor.8
Ademais, também é notória a precedência das formas discursivas como estratégias
de dominação no próprio momento da constituição da modalidade de gestão.
Destarte, é pertinente considerar, no âmbito desse processo, a formação de um
espaço gestor onde a denominação bacia hidrográfica se estruturou concreta e
simbolicamente por meio de disputas discursivas entre técnicos e não-técnicos e
entre as distintas especialidades técnicas, circunstância que revela a
complexidade das mediações lingüísticas envolvidas na consolidação do monopólio
das competências gestoras. Retomando Habermas (1997) no concernente à mediação
lingüística das relações intersubjetivas, pode-se afirmar que, nesse processo,
o agir comunicativo dos grupos e dos agentes no momento da publicização da
"gestão por bacias" na França revela interações estratégicas sobre os modos de
prevalência de formas de ação lingüística candidatas, naquele momento, a serem
aceitas como enunciados legítimos das inovações gestoras. Ou seja, a noção de
bacia hidrográfica serviu, sob tais circunstâncias históricas, menos como
critério de delimitação física da unidade de gestão do que como estratégia de
persuasão social por meio do discurso supostamente técnico e neutro.
Nesses termos, é possível apontar, ainda no sentido habermasiano, a sujeição de
distintos paradigmas culturais (entendidos como reservas de conhecimento às
quais os participantes na comunicação vão buscar suas interpretações),
distantes do campo científico, à objetivação da resolução técnico-burocrática.
Isto é, ao aparentar-se como eminentemente técnica, tal solução revela a real
interdição do diálogo e da intersubjetividade através justamente do lhe
sustenta - a saber, o suposto planejamento científico e racional do devir
político.
Essas circunstâncias forçam a elaboração de novas interpretações da nominação
da experiência francesa. Interpretações que superem, dentre outros, a leitura
restrita da lei de águas de 1964, como resultado da progressão do conhecimento
técnico sobre recursos hídricos e gestão ambiental - progressão que teria
culminado na noção de bacia hidrográfica. A lei francesa de 1964 também é
produto de uma configuração que envolveu grupos profissionais, coordenados por
sua maioria politécnica, portadores de interesses distintos - interesses estes
que se equilibraram a partir da disposição dos grupos ante o mapa político das
bacias hidrográficas.9 Ou seja, o próprio sistema de bacias hidrográficas
também resulta de hierarquias sociais, de disputas políticas travadas no
interior dos grupos profissionais e das burocracias responsáveis pela
elaboração de um novo quadro de gerência das águas no país.
Além dessa disposição dos interesses sociais na divisão geográfica do novo
sistema, outra hierarquia relevante para a interpretação das atuais formas de
nominação da problemática da água na sociedade francesa diz respeito ao tipo de
concepção hegemônica de relação sociedade-natureza que ampara os instrumentos
de gestão. Essa interpretação, contudo, requer o avanço sobre certos aspectos
cognitivos envolvidos também na formação da identidade dos grupos profissionais
que consolidaram as estratégias de dominação na nova configuração de governança
das águas. Para tanto, torna-se pertinente a retomada do perfil de formação dos
agentes formuladores da lei de 1964, além da própria disposição desses agentes
no contexto das relações entre as chamadas Grandes Escolas Francesas e a
burocracia de Estado no período.
A presença hegemônica dos politécnicos nas comissões de águas do quarto, do
quinto e do sexto Plano Econômico e Social evidencia, em parte, o tipo de
preocupação que a burocracia de Estado francesa possuía em relação à regulação
do acesso e uso das águas no país. A rigor, a composição dessas comissões não
revela alterações no perfil dos profissionais historicamente atrelados à gestão
centralizada dos recursos hídricos. A preocupação principal na reestruturação
do sistema dizia respeito a dois impasses intimamente imbricados: a crescente
poluição dos corpos d'água e a necessidade de recursos financeiros para a
recuperação das águas.
A descentralização da estrutura gestora e a criação das Agências Financeiras de
Bacia foram as respostas produzidas, em configuração específica, por grupos
profissionais que, dentre outros, partilhavam de concepções muito próximas não
propriamente de gestão ambiental (campo técnico que viria a se desenvolver na
década de 1980), mas de gestão pública. Tal proximidade não resultava do acaso.
Sem embargo, o perfil de formação desses profissionais é uma variável relevante
para a compreensão de uma visão relativamente coesa de gestão pública. Como
destacado anteriormente, grande parte dos diplomas politécnicos dos membros das
comissões de águas dos Planos Econômicos e Sociais era proveniente da École
Polytechnique. Mesmo dentre os que possuíam formações mais específicas nas
chamadas escolas de aplicação - como as também tradicionais École de Mines ou a
École de Ponts et Chaussées -, a formação de base havia sido feita na
Polytechnique.
Após sua criação, no início do século XIX, a École Polytechnique logo se tornou
referência no sistema de ensino francês, tanto em razão das características de
sua formação técnica e científica como pelo perfil dos egressos que a escola
oferecia aos quadros do Estado.10 Conforme destaca Gilpin (1970), a despeito da
ênfase no ensino científico proporcionada pela Polytechnique (ênfase, aliás,
prevista já nos primeiros debates sobre a criação da escola, ocorridos em
meados da década de 1790, durante a revolução), raros eram os egressos que se
envolviam em atividades de pesquisa científica. Tal ênfase científica foi
historicamente desenvolvida no ensino da escola, tendo em vista antes a
aplicação prática das tecnologias do que propriamente a produção de novos
conhecimentos. Assim, a escola consolidou-se no contexto do ensino francês como
formadora não do engenheiro pesquisador, mas, sim, do engenheiro administrador,
provido de conhecimentos científicos e de capacidade de planejamento e
aplicação.11
Voltada para o cenário da administração pública, a École Polytechnique ocupou
posições de destaque no campo do poder na sociedade francesa ao longo do século
XX. Em seu estudo sobre a relação de homologia estrutural entre o campo das
Grandes Escolas e o campo do poder na França, Bourdieu (1989) mostra como o
diploma dessa escola constituiu-se em um rito de instituição não apenas para a
reprodução das elites francesas, mas também para a composição do campo
burocrático.12 Como demonstra o autor, no universo das escolas de engenheiros,
as três escolas de maior prestígio, abrindo as três grandes carreiras - École
Polytechnique, École de Mines e École de Ponts et Chaussées -, opõem-se às
escolas mais técnicas, preparando os alunos aos setores e carreiras bem
determinadas, comumente em declínio ou desvalorizadas. Assim, a organização do
campo das instituições de ensino superior contribui para reproduzir uma das
oposições maiores da ordem social, isto é, aquela que separa os quadros
superiores dos quadros médios, os agentes encarregados da concepção (ordens,
planos, programas, instruções) e os agentes encarregados da execução. Essa
oposição corresponderia, no nível da divisão do trabalho, à oposição entre
trabalho não-manual e trabalho manual, entre teoria e prática.
A presença dos politécnicos, diplomados na École Polytechnique, na École de
Mines e na École de Ponts et Chaussées, nos quadros das Comissões de Água dos
planos econômicos e sociais das décadas de 1960 e 1970 é uma expressão
importante dessa homologia estrutural, sinalizada por Bourdieu, entre o campo
das Grandes Escolas e a esfera do poder na França. O domínio desses diplomados
sobre as funções de direção dessas comissões reitera tal relação. Focando a
interpretação para a disputa interna entre as Grandes Escolas de engenharia, a
divisão do território nacional em bacias hidrográficas revela, por sua vez, o
equilíbrio flutuante de tensões entre tais forças institucionais na esfera do
poder. A rigor, a divisão dessas unidades fisiográficas de gestão significou a
partilha do território francês, ao menos no domínio das águas, entre os corpos
das Grandes Escolas de aplicação. Ou seja, por meio da "cientifização" do
processo político, sustentada neste caso pela suposta partilha técnica do
território para fins de gestão ambiental, foram naturalizados não apenas os
monopólios de competências sobre as águas, mas também os domínios que as
instituições formadoras de espíritos para os corpos do Estado poderiam exercer
sobre o espaço físico. Assim, a "cientifização" da política no sistema de
gestão de águas atua como um princípio de legitimação de competências e de
partilha do território, servindo, portanto, como fundamento de dominação
social.
Evidentemente, essa relação das escolas de poder com o espaço físico por meio
da gestão das águas não se sustentou apenas sobre a partilha dos territórios de
atuação. Além disso, a produção de visões sobre a natureza, com base na
concepção de gestão pública dos politécnicos, contribuiu sobremaneira para a
formatação do sistema francês de gestão das águas. A seguir, abordaremos essa
produção de visões sobre os recursos da natureza por meio da formulação das
redevances, o instrumento decisivo de gestão dos Comitês e das Agências de
Bacias francesas.
A moderna construção social da água
A interpretação dos quadros da percepção do mundo social - e, neste caso, da
percepção e da construção da própria natureza - pode objetivar não somente os
quadros sociais da percepção, mas também, como sugere Bourdieu (1989), o
potencial de diferenciação que os distintos princípios de classificação possuem
para construir o mundo social. Além de pressupor a influência do perfil de
formação dos agentes do sistema de gestão das águas, torna-se também pertinente
a busca do limite crítico dessa influência. Ou seja, em termos de interpretação
sociológica, é relevante tanto o apontamento do potencial de diferenciação de
um princípio de classificação, como seu limite, isto é, o ponto crítico a
partir do qual o mesmo torna-se contraditório ou tem seu potencial de
influência diluído. Nesses termos, considerando o perfil de formação dos
politécnicos franceses como princípio de classificação na constituição da
questão hídrica a partir da década de 1960, também serão discutidas as
contradições que tal princípio traz ao próprio discurso de sustentabilidade
ambiental que o atual modelo gestor enseja.
Componentes importantes da visão dos politécnicos formuladores da lei de 1964
sobre a administração dos recursos hídricos nacionais podem ser revelados a
partir da interpretação do processo de formulação do principal instrumento de
gestão do novo sistema, a saber, a redevance. Conforme já ressaltado, tal
instrumento foi inicialmente concebido no caso francês como alternativa para a
arrecadação dos recursos financeiros necessários às atividades de gestão.
Contudo, os recursos discursivos tomados como legítimos para a implementação
das redevances ao longo do tempo não se basearam nessa necessidade de captação
financeira. Após a criação das redevances na ordem jurídica francesa, a
retórica de validação que acompanhou sua implementação paulatina girou em torno
da noção de penalização dos agentes poluidores. Esta noção, por sua vez,
adquiriu nominação definitiva em 1972, por meio da proposição da OCDE do
Princípio do Poluidor-Pagador (PPP).
A base conceitual sobre a qual se sustenta o PPP é o sistema lógico-dedutivo da
economia ambiental neoclássica. Partindo das noções de equilíbrio e utilidade
de Pareto (1983) e Walras (1983), bem como do conceito de externalidade de
Pigou (1932), a economia ambiental propõe a incorporação do comportamento dos
agentes econômicos poluidores na modelagem neoclássica de alocação eficiente
dos recursos. Nesse modelo, a peculiaridade dos recursos naturais seria
justamente seu caráter público, não-rival. Ao serem produzidas privadamente e
gerarem custos sociais (isto é, ao afetarem as funções de utilidade de outras
firmas e/ou consumidores), as externalidades resultantes das práticas
individuais afetariam o bem-estar dos demais agentes econômicos e interfeririam
no equilíbrio das relações de oferta e demanda dos recursos naturais. No
diagnóstico da economia ambiental, a alternativa para o enfrentamento das
práticas de poluição dos agentes econômicos seria justamente a incorporação das
chamadas externalidades ambientais no cálculo das condutas individuais (Baumol
e Oates, 1988).13
O PPP é justamente uma tentativa de promoção da internalização das
externalidades ambientais por parte dos agentes poluidores. Contudo,
considerando esses pressupostos conceituais, seria relevante indagar em que
medida as noções ainda preliminares do poluidor-pagador basearam de fato a
formulação da legislação francesa das águas de 1964, ou, ainda, até que ponto
os integrantes das Comissões de Águas dos Planos Econômicos e Sociais do
período tinham ciência das formulações em economia das noções de externalidades
e de internalização das externalidades.
Embora nenhum dos membros das Comissões de Águas do período possuísse formação
institucionalizada em economia na França,14 parte dos politécnicos envolvidos
na criação das Agências de Bacias, sobretudo os da área de minas, seguia
participando de freqüentes estágios de estudos em escolas de gerenciamento nos
Estados Unidos (Barraqué, 1991). Tais estudos implicavam, dentre outros, o
contato dos engenheiros com os pressupostos conceituais da microeconomia
neoclássica. A freqüência desses estudos por parte dos engenheiros de minas
deveu-se, particularmente, à criação, no início da década de 1950, da
Communauté Européenne du Charbon e de l'Acier, que promoveu tanto a ida de
politécnicos europeus aos Estados Unidos como a vinda ao continente europeu de
missões norte-americanas (Braudel e Labrousse, 1980).
Todavia, esse acesso dos profissionais franceses às escolas norte-americanas
não significou somente a incorporação das novas tecnologias de aplicação
desenvolvidas no novo mundo. Como esclarece Boltanski, esse acesso também
significou a assimilação, por certos quadros da sociedade francesa, de uma nova
filosofia de gerenciamento econômico, que implicava novas modalidades de
organização do trabalho industrial e valores renovados de planejamento
econômico. Nos termos do autor, tratava-se de verdadeiras missões de
produtividade, que envolviam um savoir-faire para além dos conhecimentos de
engenharia; tratava-se de missões que visavam a "antes de tudo transformar o
'espírito', as maneiras de ser e pensar dos agentes econômicos" (Boltanski,
1981, p. 21).
Se, de um lado, essas inovações se referiam mais nitidamente ao universo da
economia industrial, de outro, é impossível desconsiderar sua influência na
formulação de certas políticas estatais de gestão. No caso das águas, uma das
representações mais significativas é a noção de gestão racional. Tal como
também destaca Boltanski (1981), a incorporação da noção de gestão racional da
empresa pela sociedade francesa nesse período foi acompanhada da crença na
organização científica da gerência como um todo. Não coincidentemente o
planejamento da organização científica da gestão das águas pautar-se-ia em
dados pluviométricos, informações sobre unidades geológicas, balanço hídrico,
classificação dos corpos d'água etc. A ordem racional da gestão, por sua vez,
partiria desde a organização dos dados técnicos até o enquadramento da
racionalidade do usuário-poluidor por meio da aplicação das redevances.
Também nesse sentido é importante o destaque dado por Haghe (2005) para as
mudanças na própria nominação do modo de administração das águas promovidas
pelas inovações institucionais da lei de 1964. A expressão simbólica mais
significativa dessas mudanças seria, como sugere o autor, a ruptura léxica no
discurso técnico-administrativo por meio da substituição do termo aménagement
(até então consolidado na administração francesa das águas) pelo termo gestion.
Ou seja, substitui-se a concepção de esforço político de aprimoramento da
partilha social dos recursos hídricos pela noção de gerência técnica,
pretensamente distante das disputas políticas e resultante do planejamento
racional. Tal mudança serviria, ainda, para a reafirmação dos discursos em prol
do monopólio de competências, posto que a base informacional para as atividades
de gestão, diferentemente do universo da política de planejamento, exigiria
cada vez mais a especialização técnica dos agentes responsáveis.
Contudo, se alguns desses novos conhecimentos sobre técnicas de gerenciamento
serviram de base conceitual para o novo sistema gestor, a implementação de seus
pressupostos deu-se com base em formas específicas de conversão e
reinterpretação. Mais especificamente, sua influência sobre o espírito dos
novos gestores condicionou-se às preocupações que demandaram a renovação das
formas de administração das águas no país. Nesse sentido, se, de um lado, os
pressupostos da microeconomia sugeriam a transformação das práticas poluidoras
por meio dos mecanismos de preços, de outro, o aspecto de maior interesse para
os politécnicos das Comissões de Águas era justamente o planejamento da gestão
em termos de equilíbrio entre receitas e despesas. Não é por outra razão que,
tal como destaca Barraqué (1991), os instrumentos de planejamento aprendidos
nas escolas norte-americanas de gerenciamento eram comumente pensados no âmbito
dessas comissões não exclusivamente por meio dos casos empíricos das
iniciativas de gestão econômica das águas nos Estados Unidos (com a criação,
por exemplo, dos mercados de água), mas também - e principalmente - por meio da
experiência de cobrança pelo uso da água na bacia do rio Ruhr, na Alemanha.
Datada do início do século XX, a experiência de cobrança pelo uso e pela
poluição das águas do rio Ruhr visava, em essência, à realização dos
investimentos necessários à bacia e de outras atividades ligadas à gestão. Em
1913, a cobrança já atingia todos os segmentos sociais, e seus valores eram
definidos com base no planejamento dos investimentos. Com efeito, foi
justamente esse sentido prático da cobrança na experiência alemã a base por
meio da qual as redevances francesas foram pensadas e implementadas. Ou seja,
dentro do objetivo de enfrentar a situação crítica da poluição das águas no
país, a iniciativa da cobrança esteve ligada menos à previsão do comportamento
microeconômico dos agentes (tal como viria a supor posteriormente o PPP) do que
à previsão orçamentária das atividades de gestão.
Uma estratégia para compreender o distanciamento das redevances de suas
justificações conceituais de internalização das externalidades ambientais é a
reconstituição de sua composição financeira ao longo do tempo. No âmbito do
sistema gestor, o valor integral das redevances é composto de duas frações: a
relativa ao valor da água e a referente à poluição praticada pelo usuário. Por
meio de tal divisão, o usuário pagaria pelo valor da água em si, como capital
natural, e pela poluição emitida em seu uso privado. A primeira fração da
redevance corresponderia mais precisamente à valoração do nível de escassez
relativa do recurso e a segunda, à aplicação do PPP como estímulo ao seu uso
racional.
Todavia, a aplicação prática das redevances revela uma contradição central nos
suportes teóricos do referido fracionamento. Isso porque, desde 1976, o valor
da fração correspondente à aplicação do PPP é determinado previamente por lei,
no âmbito do governo central. Ademais, o valor aprovado por lei é único, sendo
aplicado a todas as bacias hidrográficas. Isso significa que, a despeito da
lógica de internalização das externalidades ambientais previstas no PPP - que
supõe, evidentemente, a distinção entre os comportamentos individuais dos
poluidores -, a fração de poluição das redevances é partilhada entre os todos
usuários de bacia, não havendo, portanto, correspondência alguma entre poluição
privada e internalização dos custos da poluição.15
Após os primeiros vinte anos da criação das Agências de Bacia no país, esta
característica eminentemente orçamentária das redevances era apontada pelos
partícipes da formulação da lei de 1964 como o grande impasse do novo sistema
gestor. Em publicação que marcou a referida data, muitos agentes desse processo
reportaram-se a esse dilema das redevances, que, em última instância,
desfiguraria o papel das próprias Agências de Bacia. A esse respeito, uma das
avaliações mais incisivas foi feita por Yves Martin, engenheiro de minas e
primeiro diretor da Agência de Bacia Artois-Picardie:
Um dos resultados mais aguardados era obrigar todo o poluidor a se
interrogar sobre a quantidade de poluição vertida e pesar a
contribuição relativa de cada poluidor. [...] Mas hoje, nós
assistimos cada vez mais a um caminhamento das redevances para o
âmbito das receitas caracteristicamente fiscais. Eu sinto muito em
observar finalmente um grande desejo de transformá-la em uma
redevance uniforme, cobrada por metro cúbico utilizado. Isto seria, a
meus olhos, absolutamente desastroso, porque a redevance perderia seu
aspecto modulado em função dos efeitos reais das atividades do
usuário sobre o meio natural (Martin, 1987, p. 103).
Se o planejamento orçamentário foi o componente mais relevante para a decisão
em favor das redevanes por parte dos formuladores do novo sistema de gestão de
águas, a retórica de legitimação da cobrança no curso do tempo foi
progressivamente associada ao ajustamento dos comportamentos individuais dos
usuários de águas - aproximando-se, assim, dos pressupostos neoclássicos da
alocação eficiente dos recursos. Posteriormente, as orientações de estímulo ao
uso racional dos recursos naturais presentes na formulação do PPP contribuíram
para sua associação às redevances e, ainda mais, para a associação destas
últimas aos instrumentos neoclássicos de gestão ambiental. Essas associações
foram decisivas, no plano cognitivo, não apenas para a justificação das
redevances na sociedade francesa, mas também para sua repercussão internacional
como instrumento-modelo de gestão ambiental.
A economia da água como crença social
Considerando a não-aplicabilidade empírica dos princípios econômicos que
legitimam a existência das redevances como instrumento de racionalização do uso
da água, faz-se necessário o exame da crença de seus fundamentos não-aplicados
e reiteradamente sustentados por grupos sociais envolvidos na gestão
descentralizada e mesmo por movimentos ambientalistas. Sem embargo, a noção de
racionalização do uso da água vinculada aos instrumentos econômicos de gestão
é, no momento presente, um elemento central nas representações sociais em torno
da sustentabilidade ambiental.
Se a retórica em torno dos instrumentos econômicos de gestão ambiental
encontra-se abrigada no seio do ambientalismo, seus fundamentos repousam não
propriamente no campo do debate socioambiental. A rigor, a tarefa mais
relevante da economia ambiental neoclássica no curso dos últimos trinta anos
tem sido justamente disseminar em vários níveis de sociabilidade certas crenças
a respeito do comportamento dos indivíduos em sociedade. Neste empreendimento,
as representações do neoclassicismo em torno da racionalidade do homo
oeconomicus serviram de base à produção de uma leitura da relação sociedade-
natureza que, embora específica, encontrou suportes em agentes e instituições
para se disseminar como realidade objetiva. Esses suportes relacionam-se,
dentre outros, com o modo de legitimação social da ciência econômica e com as
disposições estruturadas que a realidade proposta pela economia ambiental
encontrou no contexto do moderno debate sobre regulação ambiental.
No concernente à legitimação social do saber produzido pela ciência econômica,
é notório o espaço ocupado pelos enunciados neoclássicos no conjunto das
explicações sobre a moderna economia de mercado. Essa hegemonia, contudo,
expressa tanto as disputas internas à ciência econômica como aquelas relativas
ao establishment científico em sentido lato. No caso das disputas internas, um
elemento de destaque diz respeito à hierarquia das ciências modernas, com base
em sua proximidade do modelo ideal das matemáticas puras. Ou seja, conforme
sugere Caro (1983), a propósito da produção de conhecimento na ciência
econômica entre duas modalidades de produção de um enunciado econômico, a mais
competitiva é aquela com maior potencial de matematização. Nesse contexto, a
concorrência interna à ciência econômica tem levado seus agentes à crescente
formalização de seus enunciados em busca de maior legitimidade acadêmica. No
caso da economia ambiental, essa formalização é a base de suas formulações mais
significativas, envolvendo os enunciados de valoração ambiental.16
A legitimidade simbólica dos enunciados da economia ambiental no conjunto das
ciências dedicadas aos estudos ambientais também se assenta em grande medida
nesse processo de formalização. Ingressando no establishment científico, a
economia ambiental participa da administração dos argumentos da moderna crise
socioambiental, produzindo representações simbólicas ou reproduzindo
representações herdadas. Nesse sentido, tal como afirma Elias (1982) sobre os
monopólios do establishment científico, ao participar da administração dos
argumentos e da produção de conhecimentos sobre as interações sociedade-
natureza, a economia ambiental também monopoliza saberes determinantes para a
orientação das práticas sociais.
No caso das disposições estruturadas que esses enunciados econômicos
encontraram no âmbito do moderno debate sobre regulação ambiental, é importante
destacar que configurações distintas de agentes e grupos sociais envolvidos na
regulação do uso dos recursos naturais respondem por parte das características
dos instrumentos econômicos de cada sistema gestor. Isto é, a despeito do
espaço da ciência econômica e dos enunciados neo- clássicos no establishment
científico, a criação dos instrumentos econômicos de gestão também revela modos
particulares de disputas políticas entre governos, burocracias de Estado e
grupos organizados da sociedade civil. No caso francês, Lebaron (2000) destaca
que a própria economia neoclássica se impôs no país como uma ciência de Estado:
foi antes de tudo utilizada no quadro de uma economia em parte planificada,
justificando, notadamente, tarifações dos serviços públicos. Nesse sentido, o
autor também destaca que o neoclassicismo foi um importante instrumento para
estratégias de modernização das disputas no campo burocrático da sociedade
francesa.
Outra força do modelo neoclássico apontada por Lebaron (2000) - e aqui não
apenas no caso francês - é a estreita correspondência entre a crença política e
a crença burocrática, em que a definição de objetivos quantificáveis comanda a
pesquisa de meios formais e econômicos para sua própria realização. É
justamente nesse caso que se revela a fusão da crença gerencial e, mais
especificamente, financeira, pela qual o ganho monetário funciona como uma
meta, dando a toda ação sentidos subjetivo e objetivo particulares - tal como
supõem os instrumentos de gestão baseados no PPP.
Ou seja, tal como assinala Bourdieu (2000), as teorias econômicas exercem
efeitos objetivos sobre as práticas sociais. Assim, enunciados econômicos sobre
gestão ambiental, ou a nominação econômica da questão ambiental, podem permitir
a promoção de decisões multilaterais (envolvendo Estados nacionais e
instituições de mediação) ou mesmo a formulação de políticas com repercussões
imediatas sobre distintos grupos sociais. Os efeitos produzidos pelas teorias
econômicas mais "puras" supõem a produção do illusio, com a existência de um
círculo de crentes bem mais amplo do que o mundo dos profissionais da economia.
Desta feita, os instrumentos econômicos de gestão ambiental podem ser
compreendidos como momento do processo de diferenciação e autonomização do
próprio campo econômico. Do mesmo modo que nesse processo as transações
econômicas deixaram de ser dominantemente concebidas/explicadas como trocas
domésticas, comandadas então por obrigações familiares ou sociais, dando lugar
a um novo princípio de visão dominante voltado aos cálculos individuais de
custo-benefício, as concepções sobre as modalidades de relação sociedade-
natureza também acompanharam esse processo de conversão subjetiva e objetiva da
realidade social. Desse modo, cabe a descrição de Bourdieu, em concordância com
Max Weber, de que "a teoria da utilidade marginal é um fato histórico-cultural
que manifesta este aspecto fundamental das sociedades contemporâneas que é a
tendência à racionalização - formal -, notadamente correlata à generalização
das trocas monetárias" (2000, p. 19).
Os instrumentos econômicos de gestão ambiental em geral e os de gestão das
águas em particular adquirem nova complexidade analítica para as ciências
sociais quando interpretados nesse contexto de disputas sobre a construção de
visões sociais da realidade. Justamente porque são nessas disputas que os
agentes sociais transitam em redes, em diferentes configurações e atuam
efetivamente na construção das visões de mundo. No caso da experiência francesa
sobre a nova problemática das águas, um dos casos exemplares em relação ao
trânsito dos agentes em diferentes contextos configuracionais é o de Ivan
Chéret, então secretário das Comissões de Água do IV, do V e do VI Plano
Econômico e Social.
Na função de secretário permanente das comissões, de acordo com os próprios
partícipes do processo, este reconhecido quadro de confiança do Ministério do
Meio Ambiente à época conquistou grande prestígio entre especialistas e membros
das recém-criadas Agências de Bacias em razão de seu envolvimento com as várias
dimensões que a nova lei de águas pretendia se reportar. Posteriormente, o
politécnico (diplomado da École Polytechnique) ainda desempenhou papel
fundamental na continuidade dos debates travados nas três comissões ao longo
dos dezesseis anos de maturação e implementação do novo sistema gestor. Tornou-
se, desde a década de 1980, um importante consultor do Banco Mundial para o
tema da gestão das águas. Envolvido cada vez mais com os problemas da chamada
nova economia da água, este agente vem participando, desde 2000, de grupos de
trabalho sobre a questão hídrica junto à Organização das Nações Unidas. Dedica-
se especialmente a interpretações dos desafios de gestão das águas para o
milênio, em estreita parceria com Michel Camdessus, ex-diretor do Tesouro
francês, ex-governador do Banque de France e ex-diretor geral do Fundo
Monetário Internacional. Atual conselheiro para o tema da água da Secretaria
Geral das Nações Unidas, Camdessus fundou em 2002 o "Grupo de trabalho mundial
sobre o financiamento das infra-estruturas de água", do qual Cheret é desde
então o secretário geral.
No ano de 2004, em parceria com outros três especialistas na questão hídrica,
Camdessus e Cheret publicaram um livro no qual reúnem dados e interpretações
sobre os dilemas de acesso à água, da poluição e das dificuldades
institucionais de gestão do recurso em várias regiões do mundo (Camdessus et
al., 2004). A obra desenvolve fundamentalmente a leitura econômica das
possibilidades de escassez do recurso, atentando para a necessidade de sua
alocação eficiente. O sentido do texto assemelha-se ao conteúdo corrente dos
documentos de instituições como a OCDE e o Banco Mundial, voltados para uma
forma retórica de neutralidade e pragmático no sentido das orientações
tecnocráticas.17 Na obra, os agentes engajam o capital simbólico adquirido
individualmente para a construção de uma nova problemática da água,
circunscritos em configurações institucionais de reconhecida legitimidade
internacional. A retórica desenvolvida na publicação contribui, assim, para a
partilha de uma visão da relação sociedade-recursos hídricos em configurações
distintas. Atua na esfera da nominação do moderno desafio das águas, isto é, a
argumentação concorre na luta simbólica pela nominação legítima dos objetos e
das relações no mundo social.
Considerações finais
Este trabalho teve por objetivo principal uma interpretação sociológica da
constituição da moderna experiência francesa de gestão das águas. Nesta tarefa,
realizou-se o resgate da configuração de parte das disputas entre grupos e
instituições envolvidos na elaboração e na implementação do referido sistema
gestor. Para tanto, recorreu-se a uma estratégia de abordagem dedicada menos à
descrição dos instrumentos de gestão do que à exposição da dinâmica dos
interesses setoriais no quadro de formulação dos novos marcos regulatórios da
governança das águas no país.
O mapa político das bacias hidrográficas revelou-se como importante fundamento
de crítica à tese da partilha técnica do território para fins de gestão das
águas. Conforme visto, as necessidades de conformação dos interesses dos grupos
politécnicos no âmbito da gestão influíram decisivamente não apenas na divisão
da gerência das bacias entre os grupos profissionais, mas também serviram de
base à legitimidade entre os então agentes formuladores do marco regulatório
para a definição do número de bacias a serem criadas. Nesse sentido, o que
historicamente apresentou-se como produto estritamente técnico de uma
modalidade de engenharia gestora - cujos maiores méritos residiriam justamente
em sua neutralidade técnica -, tratou-se também de um processo de disputa entre
grupos profissionais e segmentos da burocracia de Estado.
Esse fundamento crítico possui particular relevância para a análise das
iniciativas de "cientifização" da política como princípio de legitimação de
competências e de partilha do território. No caso da governança francesa das
águas, é mister destacar que a lei de 1964 não é o resultado da progressão do
conhecimento técnico, que teria culminado com a noção de bacia hidrográfica,
mas sim produto de uma configuração que envolveu agentes (sobretudo
politécnicos) e instituições com interesses distintos, interesses estes que se
equilibraram (no sentido do equilíbrio flutuante de tensões) a partir da
disposição das Agências de Bacias. No que concerne à construção da identidade
"nós-eles", as relações de oposição revelaram-se tanto em plano configuracional
mais amplo, com a polarização entre o saber técnico/perito e os demais
segmentos sociais dispostos a se envolver na governança descentralizada, como
no interior da própria tecnocracia, com as identidades dos três principais
corpos politécnicos.
Um elemento não tratado neste estudo, mas que requer ainda esforços analíticos,
diz respeito ao caso particular dos comitês de bacia. Destarte, a análise da
atuação das redes de representação social nestas instâncias, bem como suas
relações com os quadros técnicos, não implicaria em um adicional a este artigo,
mas sim em sua seqüência (tanto do ponto de vista histórico como analítico).
Neste caso, caberia o emprego de certos instrumentos interpretativos utilizados
nas abordagens sociológicas das práticas econômicas. Isto porque, atualmente,
as relações entre as redes de representação e a tecnocracia vinculam-se em
grande medida à aplicabilidade (ou não) dos princípios econômicos da valoração
da água. Por certo, os comitês de bacia constituem-se em espaços de disputas e,
por conseguintes, de interações sociais características, enquadrando-se no que
Steiner (1999), por exemplo, categoriza como rede social no escopo da
sociologia econômica. O emprego de tal suporte analítico, supõe-se, pode
contribuir para evidenciar a dificuldade de construção de um padrão de
relações/interações entre esta tecnocracia e os grupos sociais, posto que, como
bem demonstra o presente artigo, tendo a dominação social dos saberes
politécnicos empreendido características muito peculiares aos destinos de cada
bacia hidrográfica, as redes na representação social dos comitês de bacia devem
também revelar características fortemente localizadas.
Por fim, é importante ainda destacar a eficácia ímpar da associação do modelo
francês de gestão das águas a certas crenças econômicas. Tal como se procurou
demonstrar, várias relações continuaram sendo implicadas na crença da auto-
regulação promovida pela valoração dos recursos naturais, com destaque para sua
forma institucional mais acabada, qual seja, a do Princípio do Poluidor-
Pagador. A produção do illusio por meio dos enunciados econômicos da questão
ambiental e do encontro desses enunciados com disposições estruturadas em
agentes e instituições, que dele se apropriaram como crença, mostrou-se como
importante caminho para o esclarecimento das estratégias que recursivamente
encerram os temas da moderna crise socioambiental nos termos das análises de
custo-benefício. A definição dos instrumentos de gestão ambiental como
instrumentos econômicos revela, dentre outros, a leitura hegemônica que a
tecnociência segue construindo sobre o ambiente natural e, em nível mais
complexo, seu uso como instrumento de poder legítimo ante outros grupos
sociais.
Dessas conclusões, emerge, portanto, a hipótese do que se pode desenhar como um
mercado internacional de instrumentos de política ambiental, voltado para a
gestão econômica dos recursos naturais. Os parlamentos das águas (gestão
descentralizada) e a valoração ambiental (apoiada no PPP) são alguns dos bens
com ampla circulação nesse mercado. Por certo, o caso francês oferece-nos
aspectos decisivos sobre a gênese desses bens no contexto das políticas de
águas. Cumpre, portanto, a realização de novos esforços analíticos para a
compreensão da circulação internacional desse modelo, que segue como importante
amparo, dentre outros, para a recente experiência brasileira de gestão
descentralizada dos recursos hídricos.
Notas
1 No Brasil, a cobrança pelo uso da água encontra-se em fase de implementação.
No estado de São Paulo, a proposta de cobrança foi aprovada como lei pela
Assembléia Legislativa em dezembro de 2005. Sua implantação será realizada
pelos Comitês de Bacias Hidrográficas. No plano federal, a cobrança também é
prevista em lei e o Comitê Federal do Rio Paraíba do Sul vem praticando-a desde
janeiro de 2006.
2 Convém esclarecer que o emprego do termo governança não se circunscreve ao
campo da construção de valores corporativos, tal como comumente vem sendo
aplicado nos estudos de economia e administração. A despeito da concordância
com a suposição de Bourdieu (2000, pp. 22-23) quanto à visão moral específica
revelada por certos modos de aplicação do termo, este trabalho explorará o
referido termo com base no contexto por meio do qual o mesmo se circunscreveu
no debate francês de gestão das águas. Nesse sentido, o termo governança será
aqui utilizado em face do debate sobre a descentralização da gestão
socioambiental por meio da promoção do princípio da subsidiaridade. Nas
discussões sobre gestão e políticas públicas, tal princípio supõe que toda a
ação que pode ser decidida e implementada no âmbito da localidade não deve ser
submetida à decisão de nível hierárquico superior, decorrendo daí uma divisão
funcional em termos de arranjos institucionais e de envolvimento dos interesses
sociais locais na construção de políticas no - e não para o - território. Para
o detalhamento e a problematização deste princípio, ver Faure (1997). Para a
relevância deste debate no campo da governança socioambiental, ver os estudos
de caso de Howard (2006) e Boonstra (2006).
3 Em Habermas (2000), o espaço público é concebido como lugar onde as
interpretações e as aspirações em questão se manifestam e adquirem consistência
ante os distintos agentes e grupos sociais, interpenetrando-se, entrando em
sinergia ou em conflito. Ressalta-se, assim, a importância da expressão pública
das aspirações e dos processos de deliberação e/ou decisão.
4 Em termos de atuação articulada da sociedade civil, o único grupo a desenhar
alguma reação quanto aos rumos do debate sobre o novo sistema gestor no início
dos anos de 1960 foi formado pelas associações de pescadores de águas doces.
Isto porque uma das primeiras versões do projeto de lei propunha a
classificação dos cursos d'água em quatro categorias, em função de seu grau de
poluição. Os pescadores, agentes pioneiros nas denúncias sobre a poluição nos
rios do país, alegavam que tal categorização significava aceitar a idéia de que
certos cursos d'água pudessem ser legalmente poluídos. Como solução para o
impasse, foi mantido na lei um texto vago sobre a possibilidade de
classificação dos rios, que seria eventualmente definida por decretos do
Conselho de Estado.
5 A análise de Nicolazo (1997) é um importante exemplo da abstração da dimensão
política na história da criação das agências de bacias francesas. A propósito
da leitura do depoimento de Valiron sobre os vinte anos de criação das Agências
de Bacia, este autor afirma que a relevância da experiência reside justamente
na dimensão técnica norteadora do debate. O relato das disputas políticas não
teria tanta importância vis à vis a relevância técnica adquirida pelas Agências
de Bacia.
6 Este processo de "cientifização da política" no escopo do moderno debate
sobre desenvolvimento sustentável possui vários campos de manifestação. Sua
forma mais evidente talvez se refira à extensão do campo dos especialistas em
gestão de territórios e ecossistemas até o exercício científico dos
instrumentos de políticas públicas. A propósito das contradições desta
modalidade de relação entre conhecimento científico e ação política no debate
sobre regulação ambiental, ver Fabiani (1985).
7 Notadamente, este também é o caso brasileiro. Os manuais de gestão e
gerenciamento dos recursos hídricos, elaborados pelos "profissionais" das águas
no país, revelam fortemente esta reafirmação do monopólio de competências.
8 Esta oposição tornou-se bastante evidente nas décadas seguintes à criação da
referida lei, com a consolidação dos comitês de bacia. Estudos como os de
Fritsch (1998), sobre a atuação política das empresas de distribuição de águas
na França nos anos de 1980, e de Lewis (2001), sobre as disputas políticas na
bacia Loire-Bretagne, revelam a fragilização da participação dos distintos
setores sociais nos comitês justamente em razão do ornamento técnico do debate
político. Ambos os estudos apontam para a recorrência a este ornamento por
representantes governamentais e de grandes empresas nos momentos de maior
impasse político dentro dos comitês - fato que sugere o sentido da formação de
novas redes tendo o saber técnico como um dos capitais de sustentação.
9 A referência de equilíbrio aqui empregada baseia-se na definição de
equilíbrio flutuante de tensões de Elias (1991). Na perspectiva deste autor,
tal definição implica a retomada da noção de poder em contexto relacional e
circunscrito a configurações definidas. As possibilidades de equilíbrio das
tensões flutuantes seriam, em termos analíticos, uma das particularidades
estruturais de toda configuração.
10 Tal como destacou Walter Benjamin (2006) a propósito da consolidação de
Paris como capital do século XIX, o conceito moderno de engenheiro na França,
cujas origens remontam às guerras da revolução, começa a se impor
cotidianamente por meio das rivalidades entre o construtor/planejador e o
decorador - o que no espaço das grandes escolas correspondia à oposição entre a
École Polytechnique e a École des Beaux-Arts, sendo esta última a base erudita
dos segmentos burgueses atrelados ao comércio e à indústria têxtil. Nessas
rivalidades, entrariam em questão os próprios valores sociais em torno das
paisagens (sobretudo as urbanas), bem como aqueles envolvidos com o universo
das técnicas.
11 Segundo Shinn (1980), esse perfil adequava-se perfeitamente ao próprio ideal
nepoleônico de formação de profissionais polivalentes para o corpo do Estado.
Nesse sentido, o recrutamento dos alunos na Polytechnique seguiu
progressivamente representando, ao menos até o final da década de 1970, quase
um recrutamento de Estado, de tal sorte que os egressos da escola contavam com
a certeza da ocupação de posições nos quadros da administração pública.
12 Na perspectiva de Bourdieu (1989), os ritos de instituição assumiriam
funções parecidas com aquelas dos ritos de nominação (batismo, circuncisão
etc.). No caso das instituições de ensino superior, são atas de nominação
oficiais do sistema escolar nos termos da demarcação do caminho percorrido. A
apreciação desse caminho funda-se na lógica dualista do pertencimento e da
exclusão, fornecendo identidades sociais e, por conseguinte, distinções,
marcadores sociais das diferenças (no caso francês, seria o "normalien", o
"polytechnicien" etc.). Nesse contexto, os índices de sucesso escolar não
seriam levados em conta; a hierarquia dos indivíduos corresponderia mais
estreitamente ao valor de mercado dos títulos do que ao valor propriamente
escolar de seu desempenho.
13 Este trabalho não tem por objetivo desenvolver a crítica conceitual dos
princípios neoclássicos para a questão ambiental. Para tal crítica, ver Godard
(1980) e Leff (2003). Sobre a interpretação pormenorizada das estratégias
conceituais de problematização da gestão das águas pelo neoclassicismo, ver
Martins (2004).
14 Conforme destaca Lebaron (2000), a designação economista no país possui
sentido polissêmico. Isso principalmente em decorrência da ausência, até os
anos de 1970, de uma trajetória institucionalmente demarcada no sistema de
formação profissional. Os primeiros departamentos de economia nas instituições
de ensino e pesquisa do país datam do final da década de 1960, oferecendo
formação aplicada principalmente aos diplomados das áreas politécnicas e de
direito.
15 A propósito da internalização dos cursos de produção, Berger e Roques (2005)
destacam o fato de os agricultores não pagarem a redevance de poluição. A
despeito dos argumentos técnicos envolvidos nas características de emissão
difusa de poluição agrícola, tem sido notória a atuação dos agricultores no
sistema de governança a fim de garantir a não penalização do setor. Segundo os
autores, este fato contribuiria para aquilo que denominam de opacidade na
gestão francesa das águas.
16 A crescente formalização matemática das técnicas de valoração bem como as
inovações nos modelos de precificação podem ser acompanhadas nos trabalhos de
Pearce (1995) e Goldar e Misra (2001).
17 Este sentido geral de neutralidade nos enunciados também é marcante no
próprio documento do Princípio do Poluidor Pagador da OCDE. A propósito desta
modalidade de construção discursiva no campo econômico, bem como de sua
eficácia simbólica, ver Lebaron (2000).