De Lévi-Strauss a M.A.U.S.S. - Movimento antiutilitarista nas ciências sociais:
itinerários do dom
Percepções do dom
Qual o lugar dos estudos sobre o dom ou a dádiva1 no interior da Teoria Social?
No caso brasileiro, a difusão dos estudos sobre o dom está condicionada
absolutamente pela presença do estruturalismo antropológico como filtro
mediador? Ou existem outras leituras também legítimas que valorizem o dom numa
perspectiva disciplina mais ampla, envolvendo a sociologia, a economia, a
filosofia e a política e que sejam relevantes para a renovação do pensamento
teórico?
No desenvolvimento deste artigo defenderemos o caráter interdisciplinar e
interacionista dos estudos sobre o dom, reforçando a tese, já proposta por
outros autores, de entendê-lo como fundamento de um novo paradigma,2 como base
de uma ciência moral humanista cujas raízes estão inscritas não apenas na
trajetória de Mauss, mas, antes, no humanismo de Durkheim.3 Pretendemos
reforçar a leitura não-estruturalista da dádiva, permitindo entendê-la como uma
teoria de reciprocidade aberta e ambivalente. Não-estruturalista porque sem
negar o valor da lingüística estrutural esta outra abordagem do dom considera
igualmente válidas as correntes do pensamento que se desenvolveram em paralelo
ao estruturalismo. Tal abordagem alternativa distancia-se do tratamento
tradicional oferecido pelo estruturalismo - que enfatiza no dom uma função de
troca relativamente rígida -, para realçar no vínculo social um paradoxo entre
a regra e a espontaneidade, entre a liberdade e a obrigação. Por se abrir à
liberdade e à criatividade do sujeito social, essa visão não-estruturalista é
também antiutilitarista, revelando-se como um recurso explicativo importante
para a crítica dos discursos que reduzem os motivos da ação social a um
utilitarismo material - o interesse econômico no caso do mercado - ou a um
utilitarismo normativo - o respeito incondicional à norma no caso de sistemas
estatais tecnocráticos. Na perspectiva aqui assinalada, o dom aparece como uma
alternativa a esses dois paradigmas tipicamente modernos, o do mercado e o do
Estado.
Tal leitura alternativa que identifica o dom como um sistema aberto de
reciprocidades permite associar Marcel Mauss a autores interacionistas como
Simmel, lembra Gabriel Cohn, que valorizam "relações recíprocas sempre
renovadas para além do seu impulso inicial" (Cohn, 1998, p. 54). Nesta
associação podemos também relacionar autores como Mead, Cooley e Goffman, que
são referências na origem e no desenvolvimento dos estudos interacionistas.
A desconstrução da abordagem estruturalista do dom contribui para revelar, por
outro lado, o vínculo do dom com o novo movimento teórico, expressão
vulgarizada por Jeffrey Alexander para explicar que a renovação da teoria
sociológica passa necessariamente pela consideração da hermenêutica científica,
do discurso e da cultura (Alexander, 1987). Sobre este último ponto - uma maior
associação do social com a cultura -, o dom aparece necessariamente como
operador simbólico estratégico do novo movimento teórico pelo fato de situar-se
nas fronteiras de disciplinas como a etnologia, a antropologia e a sociologia.
Neste texto, partimos do princípio de que o novo movimento teórico tem
desdobramentos nas ciências sociais que se reportam necessariamente a certas
experiências de descontinuidades epistêmicas no campo científico: uma, mais
restrita, diz respeito à virada lingüística ocorrida entre os anos de 1970 e
1980 (Dosse, 1997); outra, mais ampla, trata da virada epistemológica que
remete aos anos de 1940, mais precisamente aos fenômenos trágicos da Segunda
Guerra Mundial e à crise da filosofia da história (Merleau-Ponty, 1960). Nesta
segunda e mais abrangente leitura, o novo movimento teórico afirma-se não
apenas com relação ao estruturalismo, mas, igualmente, com relação a uma série
de outras correntes de pensamento que se desenvolveram em paralelo ao
estruturalismo como a teoria crítica da escola de Frankfurt, a filosofia
política crítica do totalitarismo de Hanna Arendt, Claude Lefort e Cornelius
Castoriadis, a filosofia analítica inglesa de Wittgenstein, que tem uma ponte
na França mediante Ricoeur e as escolas interacionistas norte-americanas de
Blumer, Goffman e Garfinkel. Neste texto, pretendemos situar os estudos sobre o
dom nesta ótica mais ampla que inclui o estruturalismo, mas que se enraíza em
um diálogo mais amplo com outras correntes teóricas.
De modo geral, os esforços de divulgação dos estudos sobre o dom encontram
dificuldades de várias ordens, dependendo dos contextos sócio-históricos de sua
recepção. Desde já, é importante esclarecer que a revisão dos estudos sobre o
tema no pensamento social, no Brasil, exige não se reduzir a relação entre dom
e troca no campo acadêmico à ótica sugerida pela antropologia estrutural e por
Lévi-Strauss, incluindo outras percepções científicas e não-científicas do
tema. Há que se chamar atenção sobre as implicações semânticas da dádiva, isto
é, sua recepção e difusão no imaginário popular através da reprodução da
tradição católica. Há que se ressaltar ainda as reações dos defensores do
utilitarismo econômico contra uma teoria eminentemente antiutilitarista como
esta, o que tem sido ressaltado por vários autores, embora no Brasil este
debate necessite de maior vigor.
Há, em suma, três focos de resistência contra uma difusão mais empolgante do
dom no pensamento crítico: uma tem a ver com a representação religiosa do termo
dom, outra, com a reação utilitarista e neoliberal contra o pensamento
humanista e associativo e, em terceiro lugar, no interior do campo acadêmico, a
reação dos simpatizantes da antropologia estrutural contra releituras da obra
de Mauss a partir de um enfoque sociológico e político. É de se ressaltar que,
em conjunto, tais resistências inibem o avanço do debate, exigindo certo
esforço para desfazer os nós criados em torno desse tema. Vejamos a seguir cada
um deles mais de perto.
Dom e senso comum
Sobre o primeiro aspecto, a forte vinculação do termo dom com o senso comum
religioso, já tratamos deste assunto em outra oportunidade, em particular no
artigo "A sociologia de Marcel Mauss: dádiva, simbolismo e associação"
(Martins, 2005). Embora este tema não seja fundamental neste artigo, é de se
reconhecer que parte das dificuldades de difusão dos estudos sobre a dádiva no
Brasil, está ligada à forte associação deste termo com a religiosidade popular
e com a influência do catolicismo tradicional sobre o imaginário da doação. No
caso dos países influenciados pela cultura religiosa ibérica e, em particular,
a lusitana, a forte associação da palavra dom com o imaginário católico
tradicional constitui um elemento inibidor da sua compreensão científica,4
demonstrando a força do senso comum na representação deste fenômeno
socioantropológico. De fato, no imaginário brasileiro, esta palavra está
fortemente associada às idéias de caridade, de virtude divina, de angelismo,
isto é, de identificação da idéia de dom com uma interpretação espiritualista
do ser humano. Embora tal compreensão religiosa do dom pelo senso comum não
deva ser desprezada, pretendemos demonstrar que esta é apenas uma leitura do
termo, e que não é a mais importante.
Dom e utilitarismo econômico
Uma segunda dificuldade para a difusão deste debate na Teoria Social tem
relação com o reducionismo econômico e com as resistências de certas teorias
individualistas - como as da escolha racional e do individualismo metodológico
-, que não identificam no sistema da dádiva uma categoria sociológica que
contemple a presença da racionalidade instrumental que elas tanto valorizam.
Este tema tem recebido uma atenção bastante ampla dos críticos, envolvendo o
próprio projeto do M.A.U.S.S. (Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais)
(Caillé, 1989 e 1998; Godbout, 1998a e 1998b), que defende a idéia de que o
sistema do dom não é arbitrário e que se abre a diversas racionalidades, entre
outras, a do interesse instrumental. Mas considerando o peso do utilitarismo
nas ciências sociais, inclusive no Brasil, não se pode deixar de fazer uma
alusão à dificuldade que o mesmo significa na divulgação dos novos estudos
sobre o dom. Pois, para os simpatizantes das teorias acima lembradas a dádiva
seria uma "teoria menor" ao pressupor que a ação social se fundaria em mera
generosidade e altruísmo. Ao contrário, propõem tais críticos, os homens
seriam, sobretudo, indivíduos egoístas que agem de acordo com seus próprios
interesses, não existindo a gratuidade e o desinteresse. Muitos dos esforços
dos estudiosos sobre o dom, ao menos nos anos de 1980, foram direcionados para
provar que a ação social não se reduz apenas ao interesse material, havendo
também o interesse pelo poder, pelo prestígio e pelos bens simbólicos em geral.
Além do fato de que o interesse não é apenas autocentrado, mas também
heterocentrado. Este tipo de discussão abre necessariamente os estudos sobre a
dádiva para a tradição interacionista, assunto que será aprofundado mais
adiante.
Dom e estruturalismo antropológico
Há uma dificuldade respeitável dentro do próprio campo das ciências sociais
para se atualizar a compreensão do Ensaio sobre a dádiva: forma e razão das
trocas nas sociedades arcaicas (em Mauss, 2003), desfazendo a redução do dom à
troca, como foi feito por Lévi-Strauss a partir de uma leitura marcada pela
influência da teoria lingüística, com impacto importante sobre os estudos
antropológicos.5 O pensamento crítico demonstra dificuldades para se libertar
da leitura estruturalista na medida em que houve uma revitalização da dádiva,
nos anos de 1980, a partir da idéia de que a mesma contém uma explicação
mística da troca (Sigaud, 1999, p. 113). A persistência do estruturalismo
através de novas leituras que atualizam sua essência dificulta os esforços de
se retomar o Ensaio sobre a dádiva sob outro ângulo teórico que realce suas
dimensões sociológicas e polítidcas que são necessárias para a crítica ao
utilitarismo.
De fato, existem divergências que tendem a situar em lados opostos aqueles
estudiosos simpatizantes da vinculação dos estudos sobre o dom à antropologia
estrutural, e os que sustentam possuir a dádiva um sentido mais universal, que
interessa também à sociologia e às ciências sociais como um todo. Para os que
defendem haver uma estreita associação do dom com a antropologia estrutural, o
interlocutor privilegiado de Mauss seria Lévi-Strauss, seu discípulo mais
conhecido, e os tradutores deste pai da antropologia estrutural que passou a
considerar a reciprocidade como uma forma de intercâmbio simétrico (Sabourin,
2004, p. 78). Nesta ótica, a disputa entre antropólogos estruturalistas e
demais cientistas sociais sobre a herança de Mauss gera prejuízos em termos de
difusão do dom como uma teoria do conhecimento extremamente relevante, por
exemplo, para a crítica do pensamento hegemônico, o utilitarismo econômico.6 Ao
deixar o dom prisioneiro de uma disputa acadêmica e de um quadro de análise
rígido, perde-se de vista seu valor prático para a crítica teórica no sentido
de repensar o direito, a economia e a política.
Mas, a partir dos fins dos anos de 1970, com as pressões políticas e teóricas a
favor do "retorno do sujeito" - não de um sujeito ontológico, mas de sujeitos
abertos à diferenciação e à diversidade, como defendem os autores pós-
estruturalistas -, as teses do dom como uma função estrutural fixa passam a ser
revistas. A crítica tem como fonte central o reconhecimento da liberdade do
sujeito social na definição de suas obrigações morais e nos processos de
construção de alianças e de formulação de novos sistemas de reciprocidade. No
Brasil, deve ser destacada a crítica acertada que faz Lygia Sigaud à tentativa
de Lévi-Strauss de reduzir as obrigações que via Mauss nas ações de dar-
receber-retribuir a uma teoria de troca rígida (Sigaud, 1999, p. 106), o que
constitui uma contribuição importante para se avançar na reinterpretação dos
estudos sobre o dom.
Síntese preliminar
As resistências à renovação dos estudos sobre a dádiva revelam a força de
crenças, preconceitos e desinformações que distorcem a recepção correta do seu
sentido. Nenhuma das objeções tradicionais constitui, porém, um impedimento
para que se resgate o valor do dom na crítica social. É o que faremos, a
seguir, procurando demonstrar que no dom há uma teoria da reciprocidade aberta
e flexível, que permite revelar a complexidade das motivações presentes na ação
social, que favorece resgatar a experiência e o valor da ação intersubjetiva,
que favorece, ainda, articular o saber comum e o saber científico e que, por
fim, valoriza o cotidiano sem desprezar as articulações entre os planos micro e
macro.
Nessa perspectiva, a confusão semântica gerada pelo termo dom não deve ser
considerada uma dificuldade para seu reconhecimento como um sistema de ação
primário presente em todas as sociedades tradicionais e modernas, como
demonstrou Mauss no seu Ensaio sobre a dádiva. A co-presença cultural e
histórica deste sistema motivou Caillé a propor que ele constitui o paradigma
por excelência, ou seja, um paradigma arcaico e anterior àqueles do mercado e
do Estado, que seriam derivações do dom (Caillé, 2002b; Godbout, 2002). Este
caráter universal do dom, mas, ao mesmo tempo, aberto à diversidade, à
liberdade de o sujeito social desfazer a aliança segundo suas motivações
particulares dadas por certo quadro normativo, permite propor, igualmente, o
dom como base de uma ciência moral humanista, que possibilita sua articulação
com a solidariedade e com a democracia. Desse modo, a discussão sobre o dom
pode se libertar progressivamente dos velhos condicionantes interpretativos,
que o definiam como uma função simbólica rígida, para receber nova acolhida na
teoria social.
Mas o trabalho de desconstrução das resistências assinaladas - a tradição
religiosa católica, o utilitarismo econômico e a antropologia estrutural - não
pode ser feito apenas pela declaração de boas intenções reconciliando o dom e o
novo movimento teórico. É importante entender que as leituras diversas sobre
este sistema - vulgares ou científicas - resultam de um trabalho de adaptação e
recriação de conceitos a partir de um contexto que é sempre mutante. Nesse
sentido, entendemos que o desenvolvimento desta reflexão deve considerar alguns
passos: um deles, os sentidos da tradução e do contexto que delimitam o
trabalho de adaptação e recriação de idéias apropriadas; o outro, o contexto no
qual foi produzido o Ensaio sobre a dádiva, que compõe a matriz inspiradora do
debate para todos os envolvidos. Tal contextualização permite entender que a
obra de Mauss não tem apenas valor etnológico ou antropológico, mas uma grande
atualidade sociológica para a explicação das sociedades contemporâneas.
Vicissitudes de uma interpretação não-estruturalista do dom
O resgate dos estudos sobre o dom numa perspectiva não-estruturalista deve
considerar a proposição sustentada pelos teóricos da fenomenologia de que a
realidade objetiva - que o estruturalismo definiu como sendo uma invariante
simbólica - é sempre uma projeção do pensamento, e que sua apreensão objetivada
sempre escapa dos métodos aplicados. Não apenas por haver uma relação de
dependência mútua entre o sujeito e o objeto, mas porque o próprio método é
sempre condicionado pela experiência vivida do sujeito social. Esta tese
apresenta de imediato uma reflexão filosófica sobre a relação entre o sujeito e
o objeto do conhecimento e uma outra de caráter epistemológico a respeito da
importância do contexto para a produção e a adaptação de idéias e valores do
método lingüístico na organização de um conhecimento objetivo.
A crítica filosófica referente aos status do sujeito e do objeto é ampla, diga-
se de passagem, estando na base de contribuições hermenêuticas e
fenomenológicas de grandes autores do século XX, como Husserl, Heidegger,
Sartre, Bergson, Wittgenstein, Austin, Ricoeur, entre outros. Mas gostaríamos
de nos deter em Maurice Merleau-Ponty, que escreveu um instigante artigo
intitulado "De Mauss à Claude Lévi-Strauss" (1960). Para ele, os lugares do
sujeito e do objeto apresentam uma conotação particular quando se pensam as
relações entre os seres humanos e a invenção de um mundo compartilhado. Nessa
direção, o reconhecimento do corpo fenomenal - ou corpo subjetivo - é uma
condição para se superar o dualismo citado. Entender este corpo não mais como
mero suporte mecânico, mas como capacidade expressiva, permite que o sujeito se
perceba imediatamente no outro e que ele e o outro sejam seres igualmente
atravessados pelo mesmo mundo.
O mundo fenomenológico não é o ser puro, mas o sentido que
transparece na intersecção de minhas experiências e daquelas do
outro, pelas engrenagens de umas sobre as outras, ele é logo
inseparável da subjetividade e da intersubjetividade que conseguem
sua unidade pela retomada de minhas experiências passadas nas minhas
experiências presentes, pela experiência do outro na minha (Merleau-
Ponty, 1999, p. XV).
Na percepção do outro, afirma Merleau-Ponty em outra passagem, eu atravesso em
intenção a distância infinita "que separa sempre minha subjetividade do outro e
que me permite constatar uma outra presença no mundo" (Idem, p. 494).7
No artigo citado, o autor reinterpreta de forma ambivalente as idéias de
sujeito e objeto por meio das noções de estrutura e de vivido, revelando a
complexidade do debate naquele contexto histórico de organização do pensamento
estruturalista francês. Em certo momento, defende, por exemplo, a idéia de
experiência na antropologia como sendo a expressão de nossa inserção como
sujeitos sociais em um todo que nos precede, no qual já haveria uma síntese que
delimitaria nossa investigação laboriosa, "pois vivemos na unidade de uma só
vida todos os sistemas de que nossa cultura é feita" (Idem, 1960, p. 132).
Porém, num momento seguinte, afirma que na outra ponta do campo da
antropologia, em certos sistemas complexos, as estruturas se quebram e se
abrem; a sociedade deixa de aparecer como uma segunda natureza, cada um sendo
convidado a definir seu próprio sistema de troca; as fronteiras da cultura se
rompem, a função simbólica perde sua rigidez e se estabelece um uso profano da
vida (Idem, p. 141). Como se percebe, as reflexões do autor refletem neste
período a preocupação de resgatar a dimensão sistêmica da vida social, mas sem
perder de vista o vivido. Daí ele falar de uma dupla experiência: antropológica
e estrutural, sociológica e vivencial. Lévi-Strauss teve grande sucesso no
primeiro caminho, isto é, na busca de matematizar e codificar as funções
simbólicas fundamentais da experiência cultural. Mas esta opção, veremos,
levou-o inevitavelmente a desvalorizar o vivido e a experiência da
intersubjetividade na configuração das regras objetivas, inclusive aquelas da
linguagem.
A questão que podemos colocar, desde logo, é a seguinte: até que ponto Lévi-
Strauss "trai" Mauss abandonando uma leitura fenomenológica da experiência para
vagar pela lingüística estrutural? A resposta não é simples uma vez que Lévi-
Strauss insiste em sua fidelidade a Mauss, seja quando fala das relações entre
a sociologia e a psicologia, considerando a experiência individual em face da
coletiva, seja quando discute a idéia do fato social total, o qual permitiria
observar no comportamento dos indivíduos as influências sociológicas,
históricas e fisiopsicológicas, como o faz no texto introdutório aos escritos
reunidos de Mauss sob o título Sociologia e antropologia (2003). Assim, se nos
dedicarmos ao estudo do concreto e do completo, diz ele, "devemos
necessariamente perceber que o verdadeiro não é a prece ou o direito, mas o
melanésio desta ou daquela ilha, Roma ou Atenas" (Lévi-Strauss, 2003, p. 24).
Ou seja, há aqui a valorização da experiência individual, mas de uma
experiência que se submete às obrigações coletivas, o que também é sugerido por
Mauss no Ensaio... O autor também não trai Mauss ao concluir que para
"apreender um fato social total é preciso apreendê-lo totalmente", isto é, como
uma "coisa" da qual faz parte a apreensão subjetiva (Idem, p. 26). A distância
com relação a Mauss, no nosso entender, aparece quando ele esquece que seu
mestre pensou o dom não apenas como uma linguagem simbólica mas como um caminho
teórico de crítica ao utilitarismo mercantil e favorável a um projeto
associacionista, como veremos adiante. Esta distância ocorre quando Lévi-
Strauss busca superar a dualidade entre sociedade e indivíduo, entre sujeito e
objeto, entre consciente e inconsciente, recorrendo à lingüística estrutural
para propor um método rigoroso de análise do empírico. Ele tenta atribuir a
Mauss esta preocupação com regras precisas, com "ciclos de reciprocidade cujas
leis são doravante conhecidas" (Idem, pp. 31-33), concluindo que as trocas não
estão nos fatos, mas apenas na aplicação do método aos fatos.
Quando decide matematizar as formas simbólicas e considerá-las realidades
universais apreendidas pelo método lingüístico, como é o caso do tabu do
incesto, independentemente das vicissitudes históricas e particulares, o autor
necessariamente rompe com a tradição fenomenológica e hermenêutica para propor
um novo método de análise combinatória que perde de vista o valor do vivido.
Neste momento, o pai da antropologia estrutural, sem desconsiderar a relação
orgânica entre sujeito e objeto, opta por uma compreensão que se afasta da
determinação do sujeito para valorizar um sistema de interpretação, a
antropologia estrutural, que explique simultaneamente os aspectos físico,
fisiológico, psíquico e sociológico de todas as condutas (Idem, p. 24).
Esta primeira reflexão de caráter filosófico leva-nos, por conseguinte, a outra
de caráter epistemológico relativa ao contexto de produção do conhecimento e da
experiência. A presença perceptiva no mundo, na perspectiva de Merleau-Ponty,
serve, de fato, para esclarecer algo decisivo no desenvolvimento deste artigo,
em particular o esforço de reorganização dos estudos sobre o dom no interior do
novo movimento teórico. Pois contra este reducionismo lingüístico, insurgem-se
aqueles que defendem uma outra leitura do dom, leitura que resgate a dimensão
plural e permanentemente renovadora da experiência do vivido, da liberdade do
sujeito na organização da ordem do mundo.
Na perspectiva da fenomenologia, o trabalho intelectual não se produz a partir
de um lugar abstrato, mas de um lugar visível, mesmo que os materiais
utilizados para a criação intelectual, como memórias, vivências e crenças,
sejam muitas vezes invisíveis para o autor. Esta é uma questão fecunda que
suscita acima de tudo a busca de sentido fornecida pela nossa experiência
cultural, psicológica, emocional, política e social, pela vivência no
cruzamento da experiência do outro. Este sentido é determinado e singularizado
pela expressividade do sujeito, pelo modo como se faz presente no mundo no
interior de um contexto intersubjetivo particular, único caminho para se evitar
"a ilusão de ver o que não se vê" (Merleau-Ponty, 1964b, p. 20), de desconhecer
o impacto sobre os discursos objetivados, inclusive o científico de uma
experiência comunitária, associativa, local, nacional ou transnacional que
marca de modo particular a percepção do sujeito no mundo.
Essas reflexões buscam situar um aspecto crucial na organização do pensamento
crítico, a saber, a importância de contextualizar as condições de produção do
conhecimento, dando conta simultaneamente do lugar de quem pensa, do outro
pensado - que é pensante também - e daquilo que observa. A dificuldade de sair
do pensamento operacional fundado na idéia de um corpo objetivado - mesmo que
seja o corpo simbólico - para entrar num pensamento crítico - inspirado num
corpo fenomenal e aberto à intersubjetividade - exige que o trabalho
intelectual esteja sensibilizado para a importância de contextualização do
pensamento, isto é, de analisar sob que condições ocorrem os trabalhos de
tradução, adaptação e criação de idéias e teorias. Apenas a partir de tal
sensibilização é que as experiências de criação do conhecimento, geradas em
contextos sócio-históricos diversos, podem ser reorganizadas, respeitando-se as
exigências, os modos de percepção e de vivências de outros contextos.
Semelhante discussão é decisiva para se entender que muitas vezes a busca de
originalidade teórica apenas camufla as dificuldades dos autores de
contextualizar o pensamento. Vale a pena ilustrar este debate com uma situação
prática exposta por Jessé de Sousa nas releituras que fez das obras de Gilberto
Freyre e de Roberto DaMatta, tradicionalmente considerados como autores que
oferecem análises originais da realidade brasileira (Souza, 2001a, 2001b).
Demonstra Souza que apesar das tentativas de alguns de apontar Freyre e DaMatta
como autores que pensam o Brasil a partir de um mesmo lugar, na prática
enquanto o segundo privilegia um esquema dicotômico de dois sistemas - o
europeu individualista e o patriarcal e pessoal - para explicar a realidade
sociocultural brasileira, Freyre entende que ao longo da modernização
brasileira os valores impessoais da re-europeização teriam vencido os valores
pessoais do passado (Souza, 2001a, pp. 197-198). Essas considerações são
importantes para lembrar que não basta que os processos de tradução simbólica
de narrativas e esquemas explicativos sejam marcadamente originais, sendo
fundamental entender como se fundam as pessoas morais, as estruturas de self
que delimitam a percepção moral e cognitiva.8
O problema do trabalho intelectual não está apenas, pois, em destacar as
diferenças culturais e de tentar padronizar certos registros teóricos como se
eles fossem universais. Isto o estruturalismo antropológico o fez. O problema
está em esquecer que a própria enunciação de tais registros já está marcada por
certa presença perceptiva, por uma experiência particular de tradução simbólica
de idéias e de teorias.9 Mesmo que vivenciada inconscientemente, tal tradução
já delimita uma experiência intelectual particular que deve ser explicitada
para que a crítica social possa revelar sua pertinência discursiva. Os próprios
princípios da tradução são delimitados por duas fontes, lembra Bruno Karsenti.
De um lado, há que se reconhecer a existência de princípios que são sempre
formulados a partir de fatos sociais concretamente pensados; de outro, alguns
fatos apresentam-se como mais interessantes para revelar aqueles princípios da
tradução, que outros fatos disponíveis (Karsenti, 1994, p. 93).
Desde que a criação intelectual se inscreve num mundo intersubjetivo, é
inevitável que as traduções e as classificações de idéias obedeçam a certas
particularidades fenomenais. Para Gregory Bateson, o fenômeno do contexto,
assim como o da significação, define a separação entre a ciência na acepção
clássica e a ciência que ele se propunha a fundar, a "ecologia do espírito" ou
ecologia de idéias que permitiria compreender as razões pelas quais certos
sistemas de idéias sobrevivem e outros não. E ele acrescenta que a exploração
do conhecimento implica "a identificação de uma rede mais vasta e dispersa de
índices ou pontos de referências, a partir dos quais se define um território
científico novo" (Bateson, 1977, pp. 14-15). Entendemos que tal rede, no âmbito
de nossa discussão, tem pelo menos quatro pontos de intersecção: o discurso no
seu contexto original; o lugar do autor-tradutor e de sua modalidade expressiva
própria; as idéias enraizadas, em moda e dominantes no campo intelectual do
autor-tradutor; e o senso comum do contexto em observação.
O que se diz, ou não, a respeito de um autor ou de uma teoria, é resultado de
uma presença perceptiva do intelectual-tradutor no seu mundo de idéias e no seu
contexto sócio-histórico. Neste trabalho de contextualização das idéias há,
inevitavelmente, um movimento de naturalização de certas narrativas, o que
implica marginalização de outras idéias. O lugar de onde se pensa e se fala -
lugar intelectual, científico, moral - delimita o campo de percepção do autor-
tradutor, abrindo portas para o conhecimento e fechando outras. Tudo isso gera
omissões aparentemente inexplicáveis. Ao mesmo tempo se naturalizam certas
crenças intelectuais que, ao ganharem aura de verdade científica, inibem a
apresentação e a discussão de outras narrativas sobre o tema.
Contextualizando os estudos sobre o dom
O momento político
David Le Breton comenta que as sociologias nascem em zona de turbulência, de
falta de referência, de crise de instituições, "lá onde são eliminadas as
antigas legitimidades" e onde há necessidade de "se dar significação à desordem
aparente, de encontrar as lógicas sociais e culturais" (Le Breton, 2006, p.
11). Este comentário me parece apropriado para situar o contexto histórico que
delimita o trabalho de sistematização, por Mauss, dos estudos sobre o dom, na
década de vinte do século passado. Este era um contexto de turbulências
sociais, políticas, mas também teóricas. Pois foi entre as duas grandes guerras
que o mundo passou a conhecer a emancipação dos dois principais paradigmas do
século XX, o individualista mercadológico e o holista-burocrático: o primeiro,
assentado sobre o mercado, o segundo, sobre o Estado.
A redação do Ensaio sobre a dádiva, em 1924, não foi mero exercício
intelectual, mas responde às inquietações dele sobre os rumos hesitantes do
movimento bolchevique na Rússia, na tentativa de criar as condições para a
emergência do socialismo real. Simpatizante inicialmente da revolução russa
(Graeber, 2006), Mauss cedo compreendeu que as tentativas dos bolcheviques de
eliminar a economia de mercado, interpretada como um empecilho para o projeto
revolucionário, estava condenada ao fracasso. Caillé e Graeber (2002) destacam
a preocupação que teria tomado conta deste intelectual socialista francês
quando constatou que os revolucionários russos teriam cometido um equívoco ao
tentar implantar o socialismo pela eliminação do mercado. As reflexões de Mauss
nos anos de 1920 implicam, pois, certa reorientação dos estudos da escola
sociológica francesa num contexto marcado por fortes turbulências políticas
(Primeira Guerra Mundial e revolução bolchevique) e pelos ares inovadores da
modernização urbana e dos valores libertários expressos nas lutas pelos
direitos de cidadania, no plano micro, e de reorganização da sociedade mundial,
no plano macro.
O drama vivido pela esquerda socialista em face dos impasses da revolução
russa, em particular pela incapacidade deste movimento de eliminar a economia
de mercado, desafiava os espíritos da época, levando Mauss a redefinir sua
compreensão da sociedade, lembra D. Graeber (2006). Tal drama apontava para a
necessidade de o pensamento crítico rever o lugar do mercado na modernidade,
deixando de lado o viés maniqueísta das esquerdas (associação do mercado com o
mal), para reinterpretá-lo como um mecanismo essencial às trocas nas sociedades
complexas.
Além do contexto histórico que delimita as preocupações de Mauss, não podemos
deixar de lembrar a influência de seu tio, Émile Durkheim, um crítico severo do
utilitarismo econômico, conforme observamos nas críticas formuladas por ele no
segundo prefácio da Divisão do trabalho social, quando propõe a necessidade de
regulamentar a atividade econômica, pois esta, deixada a si mesma, traria
grandes danos para a sociedade. Referindo-se ao propósito de seu livro,
Durkheim lembra ter insistido várias vezes sobre o "estado de anomia jurídica e
moral em que se encontra atualmente a vida econômica" e que o mundo econômico
nos dá o triste espetáculo de desordens de todos os tipos, o que exige
regulamentação e uma força moral que se faça respeitar. Até porque é falso o
antagonismo "que se quis estabelecer com excessiva freqüência entre a
autoridade da regra e a liberdade do indivíduo" (Durkheim, 2004a, pp. VI, VII,
VIII). Embora o antiutilitarismo de Mauss tenha se voltado progressivamente
para uma reflexão sobre os sentidos das práticas e das motivações da ação
social, não se pode negar que a posição teórica e política do seu tio - contra
a ação de desregulamentação do mercado sobre a ordem social -, tenha tido
influência importante sobre sua trajetória.
A crítica ao individualismo mercantilista, já presente em Durkheim, de um lado,
e a tentativa de encontrar saídas para o pensamento de esquerda e para o
movimento associacionista, neste contexto de revisão do debate da escola
francesa e de incerteza da geopolítica européia, de outro lado, são
ingredientes que levaram Mauss a rever progressivamente as teses socialistas,
visto que estas demonstravam insuficiência para a crítica do utilitarismo
econômico dominante.
O momento intelectual
A sistematização da teoria do dom estabelece uma continuidade inegável com
relação à produção sociológica de Durkheim e à parceria deste com Mauss. Do
ponto de vista conceitual, a teoria do dom situa-se, no nosso entender, no
desdobramento final das três tópicas de Durkheim: a primeira tem a ver com a
compreensão do fato social numa perspectiva funcional e histórica, que
encontramos na Divisão do trabalho social; a segunda, que remete às
representações coletivas dos fatos sociais, está presente em Formas elementares
da vida religiosa, que redefine o fato social a partir das crenças e
representações coletivas. A terceira, apenas esboçada, mas de grande
relevância, diz respeito ao seu interesse de articular a discussão mais geral
das representações coletivas com a preocupação do pragmatismo de associar as
idéias às coisas e à experiência, de ligar o pensamento à vida, o que implica
numa crítica importante ao racionalismo que foi captada acertadamente por
Durkheim.
A primeira e a segunda tópicas são bastante conhecidas. Por isso, vamos nos
dedicar a avançar algumas considerações sobre a terceira.
Esta sugere uma nova releitura do fato social, a partir do esforço de Durkheim
de articular as representações coletivas com as experiências dos indivíduos em
interação na vida cotidiana, esforço que o leva a oferecer um curso sobre
Sociologia e Pragmatismo, entre dezembro de 1913 e maio de 1914 (Durkheim,
2004b). O caráter antiutilitarista do sistema do dom tem como importante
referência a renovação da crítica intelectual durkheimiana presente neste
curso. O resgate dos registros desta terceira tópica, que Mauss definiu como a
coroação da filosofia de Durkheim, foi possível devido ao esforço do próprio
Mauss de recuperar as anotações de aulas feitas pelos ex-alunos que
sobreviveram à guerra. Tais anotações são a base do livro Pragmatisme et
sociologie (2004b), que reúne anotações de sala de aula de alunos do autor,
reunidas por Durkheim no pós-guerra.
Neste curso, ele trata da relação entre a escola pragmatista norte-americana -
representada por figuras como Peirce, James, Dewey e Mead - e a sociologia,
buscando articular teoricamente suas reflexões sobre as representações
coletivas, com as teses, aparentemente opostas, do pragmatismo social norte-
americano, que tentava associar a produção intelectual sobre a verdade aos
determinantes psicosociais e não utilitários das práticas interativas. Para o
fundador da sociologia francesa, haveria no pragmatismo, em particular nas
teorias mais sociológicas de C. Peirce e G. Mead, um sentido de vida e de ação
individual que seria muito importante para os estudos da sociedade. De fato, há
nesses autores uma preocupação evidente de pesquisar os fundamentos da vontade
coletiva sem cair no excesso de formalização dos sistemas sociais, nem nos
casuísmos racionalistas das teorias individualistas do contrato social. Se
considerarmos, por exemplo, John Dewey, encontramos nele, lembra Honneth, uma
teoria da cooperação reflexiva que é fundamental para se pensar a democracia e
a associação nos dias atuais, e entender a democracia como uma forma reflexiva
de cooperação comunitária que supera os limites das disputas entre
republicanismo e procedimentalismo (Honneth, 2002, p. 267). Esta é uma pista
importante para se explorar a relação entre dom, associação e democracia.
Esta terceira fase da obra de Durkheim foi interrompida devido a alguns fatos:
a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a morte de seu filho André, na guerra, e
o falecimento do próprio Durkheim, em 1917, por não ter suportado a perda do
filho. Mas esta fase constitui, no nosso entender, uma fonte de inspiração
decisiva para Mauss conceber a tese do "fato social total", que se funda, ao
mesmo tempo, nas crenças coletivas e nas experiências concretas dos atores
sociais, e que permite completar o desenho da filosofia moral libertária,
inicialmente proposta por Durkheim.
O dom: do estruturalismo para o pós-estruturalismo
Essas observações são cruciais para a virada epistemológica que enfatiza uma
leitura não-estruturalista do dom, mas que não recusa de algum modo a
importância do estruturalismo. Não se trata de menosprezar o conhecimento
científico para valorizar no seu lugar o saber comum e cotidiano, como o
propõem alguns pós-estruturalistas. Trata-se de preservar a possibilidade do
método científico sem desconsiderar a importância do individualismo
contemporâneo em refazer as narrativas e o próprio método. Nessa perspectiva é
de se perguntar: até que ponto o dom se constitui num sistema universal válido
em todas as circunstâncias ou conhece ele igualmente as vicissitudes da
relatividade da tradução que põe em suspeita a objetividade do método
lingüístico?
Analisando-se o privilégio adquirido pela antropologia estrutural neste
trabalho de difusão do dom no Brasil - e, igualmente, o esquecimento de outras
leituras possíveis desta contribuição de Mauss -, somos levados a concordar que
as dificuldades da tradução também se fazem presentes neste caso. Por isso
somos favoráveis a que se respeite a pluralidade de leituras do pensamento
crítico para que se possa comparar e analisar as diferenças e as proximidades
de interpretações até que se chegue a alguns consensos. Ou seja, a divulgação
dos estudos sobre a dádiva não pode ser limitada a um modo único e verdadeiro
que teria como autor-tradutor privilegiado, ao menos no Brasil, Claude Lévi-
Strauss, e como disciplina central a antropologia estrutural.
Nesse texto queremos demonstrar, ao contrário, que são diversas as modalidades
de leitura da obra deste autor e, em especial, do Ensaio sobre a dádiva, de
1924 (Mauss, 2003), que Georges Gurvitch, na apresentação que fez da primeira
edição de Sociologie et anthropologie, define como uma das obras-primas da
sociologia francesa. No caso da diversificada obra de Mauss - autor com
formação em filosofia, filologia, história, etnologia, sociologia e
antropologia -, é possível relacionar diversas possibilidades de releituras
desse ensaio. Guardando esta perspectiva, Marcel Fournier, importante biógrafo
de Mauss, organizou recentemente, na revista Sociologie et Sociétés, uma
coletânea intitulada "Présences de Marcel Mauss" (Fournier e Marcel, 2004), na
qual relaciona autores que receberam influências diversificadas de Mauss, como
Pierre Bourdieu, Jean-Pierre Vernant e Maurice Agulhon. Para os que propõem que
a teoria do dom possui implicações teóricas, morais e políticas mais amplas que
aquelas da antropologia estrutural - tese que defendemos neste texto -, há
outros interlocutores importantes a assinalar, como Mary Douglas, no pensamento
antropológico anglo-saxão, Claude Lefort e Alain Caillé, na filosofia política
francesa, Maurice Godelier, na antropologia comparada, ou Jacques Godbout, na
sociologia.
Nessa perspectiva, entende-se que a força do estruturalismo antropológico na
mediação do trabalho de tradução dos estudos sobre o dom no Brasil tenha
contribuído de algum modo para deixar "invisível" uma importante leitura não-
estruturalista que na França subsistiu de modo mais tímido durante a fase
hegemônica do estruturalismo e que foi retomada com intensidade a partir da
década de 1980 quando a hegemonia do estruturalismo passou a ser questionada.
Tal releitura denominada por alguns de pós-estruturalista significou a abertura
dos estudos sobre o dom a partir de novos contextos, em particular aquele do
individualismo contemporâneo que leva necessariamente a se pensar "os
dispositivos democráticos de outros mundos possíveis" (Corcuff, 2006, p. 86).
Tal individualismo, diferente daquele narcisista que reforça o egoísmo e a
separação, permite redefinir a obrigação do dom - que tem um peso importante na
leitura tradicional do tema e, em particular, naquele do estruturalismo - a
partir da liberdade do indivíduo de aceitar, ou não, os atos de doar, de
receber e de retribuir.
Há mais de duas décadas, vêm crescendo progressivamente as pesquisas, as teses,
os cursos e os encontros que se apóiam numa outra compreensão do dom, que
ultrapassa a leitura antropológica restrita oferecida pelo estruturalismo para
incorporar percepções diferenciadas advindas de uma perspectiva pós-
estruturalista e interdisciplinar. Esta releitura foi fornecida pelo cruzamento
de disciplinas como a sociologia, a política e a filosofia, e a própria
antropologia, que se libertou progressivamente do esquema teórico rígido do
estruturalismo, o qual desvalorizava tanto a liberdade do indivíduo e dos
grupos sociais como a importância do senso comum na invenção de modalidades
diversificadas e plurais de organização do pacto cultural e social.
O debate que se segue ao estruturalismo tem contribuído para retomar o espírito
humanista e libertário da escola francesa de sociologia, em particular os
estudos sobre o dom10 com perspectivas importantes para a renovação das
ciências sociais. A importância que estamos dando às condições de tradução de
contextualização sócio-histórica dos estudos sobre o tema, no Brasil, tem uma
significação particular no que diz respeito ao lugar desta teoria na formulação
de um novo movimento teórico.
Os estudos sobre o dom na perspectiva pós-estruturalista permitem avançar no
campo das ciências sociais a crítica teórica de Merleau-Ponty ao dualismo
cartesiano e resgatar o valor da intersubjetividade pela demonstração de que
existe uma estreita ligação entre dádiva e simbolismo. Na origem, lembra
Caillé, o símbolo é o próprio signo da aliança, e esta apenas é contraída pela
dádiva. Não podemos apreender a dádiva abstratamente, "mas apenas a partir do
que se passa entre os atores, a partir do que os une ao separá-los, campo de
intermediação que o fenômeno do simbolismo institui e no qual consiste"
(Caillé, 1998, p. 31). Na concepção do símbolo e do simbolismo não existe "nem
indivíduo nem sociedade, mas somente um sistema de signos que mediatiza as
relações que cada um mantém com cada um, construindo num mesmo movimento a
socialização dos indivíduos e sua unificação em um grupo" (Karsenti, 1994, p.
87).11 Ora, se o símbolo e o dom são fenômenos que se complementam - quando não
se completam no processo concreto de formulação de alianças geradoras do social
-, então devemos reconhecer que o debate pós-estruturalista do dom tem
importância estratégica para um pensamento crítico e plural e, como
defenderemos neste artigo, para se pensar a emancipação de uma ciência moral e
humanista.
O dom, o pós-estruturalismo e o individualismo contemporâneo
De certo modo, Mauss antecipou esta abertura dos estudos não-estruturalistas
sobre o dom na sua fase de maturidade, em um texto intitulado "Fato social e
formação do caráter", que preparou para apresentação no Seminário Internacional
de Ciências Etnológicas e Antropológicas, ocorrido na cidade de Copenhague, em
1938. Neste pequeno texto, há comentários reveladores a respeito do
individualismo moderno que ele, então, passava a considerar fundamental para se
pensar a modernidade. Diz ele que "é em oposição à vida coletiva que o
indivíduo - o ser - de pura consciência e liberdade, se criou na vida". Para
ele, em outra passagem, o indivíduo tornou-se, nas sociedades modernas, sujeito
e objeto, agente responsável da vida social: "Agora, o indivíduo é a fonte da
mudança social. Ele sempre o foi, mas não sabia" (Mauss, 2004, p. 140).12 Esta
intuição de Mauss é confirmada por M. Godelier, para quem nas sociedades
modernas três coisas se modificaram fundamentalmente: a relação dos indivíduos
com a sexualidade, o lugar dos homens e das mulheres na sociedade (e, portanto,
a relação entre sexos) e o lugar das crianças (Godelier, 2004, p. 565). Esta
emergência do individualismo reflexivo moderno não ficou indiferente a Mauss,
como vimos ao lembrar suas notas para o congresso de Copenhague.
Existem, então, outros autores de formações diversas na antropologia e na
etnologia, mas, igualmente, na sociologia, na economia, na história e na
filosofia que, sem negar a importância de Mauss para a fundação da antropologia
estrutural, recusam-se a aceitar o reducionismo disciplinar que nega o valor da
liberdade individual, em contraste com a própria posição de Mauss. Eles
sustentam, em conjunto, que Marcel Mauss tem uma contribuição bem mais geral
para a teoria crítica contemporânea, a qual não tem sido devidamente
ressaltada. Esta contribuição, acrescentamos, tem uma relevância não apenas
acadêmica, mas, sobretudo, política, pelo que significa como referência para
uma crítica sistemática e poderosa do utilitarismo econômico, a partir dos
horizontes abertos pelo pós-estruturalismo.
Aqui, há, de fato, uma distância importante entre as expectativas nutridas por
antropólogos e sociólogos com relação aos usos do dom. Se para os antropólogos
na linha do estruturalismo a presença de sistemas fixos de trocas é decisiva
para explicar as sociedades tradicionais, para os sociólogos, simpatizantes de
uma abordagem pós-estruturalista, interessa na teoria do dom outra coisa, a
saber: como a liberdade do indivíduo moderno subverte os sistemas de obrigação
estabelecidos, para criar novos sistemas de reciprocidades ambivalentes e
abertos. Por exemplo, o dom entre anônimos, como a doação de sangue, é um
fenômeno típico dos tempos modernos, assim como o trabalho voluntário junto a
desconhecidos (o que não acontece em sistemas de troca tradicionais, nos quais
a proximidade sanguínea e étnica são fatores determinantes do dom), ou as
trocas horizontais, chamadas de dádiva-partilha, entre homens e mulheres.
Para a sociologia e para a filosofia política contemporâneas, a atualidade
crítica do dom se faz, portanto, a partir da relevância da reciprocidade aberta
para se compreender a dinâmica e a complexidade das trocas nas sociedades dos
indivíduos, trocas que são sempre determinadas por ambivalências constituídas
entre os motivos da liberdade e da obrigação, do interesse e do
"desinteressamento" (Caillé, 1998, 2002b, 2006). Em suma, há no próprio
Ensaio..., e em outros textos do Mauss, uma leitura teórica alternativa menos
voltada à explicação das sociedades tradicionais do que correlacionada com a
modernidade. Afinal, como afirma Mauss no final de seu texto preparado para o
Congresso de Copenhague, não se trata de cair num viés romântico de fazer o
culto dos heróis, "mas de despertar nos homens o sentido do que eles são para a
sociedade o sentido de mudanças sociais na sociedade que eles devem conservar
cuidadosamente e (querer) decididamente" (Mauss, 2004, p. 140). Enfim, esta
outra leitura - pós-estruturalista ou não estruturalista, dependendo do ângulo
de observação - apenas foi realçada, nos inícios dos anos de 1980, no contexto
de enfraquecimento das teses estruturalistas e do surgimento de "novas
sociologias", que resgatam a crítica antiutilitarista contida no dom e sua
relevância para a consolidação da crítica moral humanista, presente no espírito
socialista e associacionista de Durkheim e Mauss.
Temos, então, duas explicações válidas da teoria do dom. Uma diz respeito, como
já foi assinalado, à fama adquirida pela antropologia estrutural e pela
associação do dom com o método lingüístico estrutural que permitiria apreender
os sistemas separados da realidade, determinando as regras existentes entre
tais sistemas. A outra tem a ver com o modo como Mauss busca, intencionalmente,
com base nos estudos das sociedades arcaicas, desenvolver as linhas gerais de
uma reflexão própria às sociedades modernas, que tem dois pontos de destaque:
uma crítica da filosofia utilitarista e da teoria econômica dominantes nas
sociedades contemporâneas, esboçada na conclusão de seu ensaio sobre o dom; e a
valorização da liberdade de interação dos indivíduos na organização da vida
social. Esta crítica é realizada indiretamente, a partir de uma etnografia que
se inspira nos sistemas de trocas nas sociedades arcaicas para deduzir que sua
universalidade atravessaria as sociedades modernas. Mauss sugere que o fenômeno
do dom continua sendo fundamental para explicar a aliança na atualidade,
revelando, claramente, sua intenção de demonstrar esta tese quando afirma que
"é possível estender essas observações à nossas sociedades" (Mauss, 2003, p.
294). Este segundo aspecto leva certos autores a posicionar Mauss ao lado de
Simmel, como fundadores do interacionismo crítico que defende a hipótese de que
a sociedade se funda a partir das relações humanas (Papilloud, 2004; Caillé,
2002b).
Resgatando o estruturalismo pelo social
Podemos nos perguntar se o destaque dado a Lévi-Strauss como autor-tradutor
privilegiado das idéias de Mauss - em larga medida, justificado pela sua
relevância para a antropologia contemporânea - é, de fato, o problema central
das divergências acadêmicas em torno do tema. Nossa opinião é que esta disputa
é periférica e que tanto os antropólogos lévi-straussianos como seus críticos
têm razão.
Lévi-Strauss utilizou com muita competência a revelação de Mauss sobre as
trocas simbólicas e generalizadas para propor teses interessantes, entre elas
destaca-se a definição da família como fato social. Pois, ao resgatar o
conceito maussiano de aliança para explicar a constituição do parentesco a
partir do pacto social, ele rompe com a visão biológica de família, permitindo
nova compreensão do fenômeno social. Na perspectiva de Lévi-Strauss, as
relações de parentesco não derivam de grupos familiares isolados, mas se
constituem por códigos, configurando um sistema de comunicação cultural e
social, melhor dizendo lingüístico, como se observa na leitura de sua descrição
minuciosa do parentesco (Lévi-Strauss, 1982).
Isto não elimina, porém, uma questão central: os limites claros do campo de
investigação científica do pai do estruturalismo para a explicação da sociedade
moderna, como já foi lembrado. Pois Lévi-Strauss desenvolveu sua teoria das
trocas a partir não do fenômeno urbano - como propõe Mauss na conclusão do
Ensaio... - mas da organização das sociedades tradicionais, entre elas as
tribos nambiquaras, de Mato Grosso (que ele visitou algumas vezes quando esteve
no Brasil como professor da Universidade de São Paulo). Ou seja, as conclusões
da antropologia estrutural - como, por exemplo, a do tabu do incesto -, não
foram pensadas em contextos urbanos, mas a partir de grupos sociais organizados
de forma tradicional, com influência decisiva do fato religioso.
Em larga medida, as observações de Lévi-Strauss sobre esses grupos sociais
tradicionais confirmam as observações de Mauss a respeito de haver uma
obrigatoriedade fundadora de trocas e contratos feitos sob a forma de
presentes, em sociedades como aquelas da Escandinávia, nas quais, apesar de
aparentemente voluntárias, as trocas eram obrigatórias. No desenvolvimento
deste raciocínio, já na introdução do Ensaio..., Mauss propõe que, de todos os
temas complexos e dessa multiplicidade de coisas em movimento, ele gostaria de
analisar apenas um dos traços que considerava profundo, mas isolado: "o caráter
voluntário por assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e, no entanto,
obrigatório e interessado dessas prestações" (Mauss, 2003, pp. 187-188). Nessa
perspectiva, é correta a ênfase que Lévi-Strauss dá ao valor da obrigação -
sintetizado na sua tese sobre o tabu do incesto - que ele elaborou a partir da
investigação do casamento prescrito entre primos cruzados (um primo se proíbe
de casar com a irmã do primo na expectativa de que este renuncie igualmente a
casar e possuir sua irmã). Mas, é apenas válida no que diz respeito a este tipo
de sociedade, em que a moral coletiva e religiosa se impõe claramente sobre as
condutas dos membros do grupo, não servindo para generalizações. Pois esta
teoria da aliança, baseada no casamento prescrito, não pode ser estendida à
sociedade moderna individualista, em que a constituição da parentela passa a
ser largamente influenciada pela ação individual.
Na verdade, a dádiva contém em si não apenas os fundamentos teóricos para os
estudos sobre o simbolismo na contemporaneidade (assunto que voltaremos a
tratar adiante), e que marcou os estudos antropológicos no século XX, mas,
igualmente, uma crítica perspicaz do utilitarismo econômico e mercadológico a
partir de um conceito de "fato social total", cuja ambição deixa revelar os
traços de uma ciência moral transdisciplinar.13 No Ensaio sobre a dádiva, a
contribuição de Mauss para o debate antiutilitarista aparece no modo como ele
demonstra estarem as idéias de mercado, de aliança, de trabalho, de contrato e
de solidariedade irremediavelmente ligadas a certas fundamentações de caráter
moral.
A fundação do M.A.U.S.S. - Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais -,
na França, em 1981, expressa adequadamente tal reação teórica, voltada para o
resgate do legado teórico da escola francesa de sociologia e de seu valor para
sistematizar uma crítica mais articulada do economicismo.14 A releitura da obra
de Mauss por este movimento tem permitido retomar e ampliar o valor de sua
crítica teórica e demonstrar sua importância para reorganizar os campos
disciplinares nas ciências sociais contemporâneas. Este novo trabalho de
tradução ocorreu num momento muito especial, o da crise do paradigma
estruturalista nas ciências sociais a partir da "virada lingüística" dos fins
dos anos de 1970 (Dosse, 1997) e, também, o de expansão de um intercâmbio
intelectual muito rico entre a escola francesa e a escola anglo-saxônica. Este
intercâmbio revela-se com particular interesse no interior do M.A.U.S.S., pois
havia uma tentativa de articular a dádiva com a tradição pragmática norte-
americana e com as escolas interacionistas (Caillé, 2002b; Chanial, 2001),
retomando, de certa forma, o trajeto interrompido pelo pai da sociologia
francesa.
Nas páginas seguintes, voltaremos à teoria maussiana à luz desta interpretação
pós-estruturalista e contextualizada, de modo a avaliarmos sua abrangência
conceitual e sua contribuição para a renovação do campo intelectual.
Elementos da teoria do dom
A noção de simbolismo
O ciclo do dom confunde-se com o ciclo da vida ao realçar a relação orgânica
entre qualidade do vínculo e da aliança e finalidade da vida humana. Trata-se
de uma questão de interesse moral e que tem implicações políticas na medida em
que, como nos lembra J. Baechler, "um fim é a solução de um problema de
sobrevivência posto à espécie pela sua natureza, uma solução que põe de
imediato um novo problema: o que fazer para que a solução se torne real?"
(Baechler, 2002, p. 63). O ciclo do dom permite compreender que a qualidade da
relação entre o ser humano e a natureza em geral depende de uma questão moral:
a capacidade de correr o risco de se relacionar com outros, com vistas à
produção do mundo pelo trabalho, pela política, pela honra ou dignidade, mas,
sobretudo, pelo interesse coletivo de se fazer alianças com vistas a tornar
perene o movimento fluido das instituições sociais e culturais.15
Tal risco é devidamente assinalado por Mauss nas conclusões do Ensaio sobre a
dádiva, ao propor que, de uma ponta à outra da evolução humana, não há duas
sabedorias: "Que adotemos então como princípio de nossa vida o que sempre foi
um princípio e sempre o será: sair de si, dar, de maneira livre e obrigatória;
não há risco de nos enganarmos" (Mauss, 2003, p. 301). A maturação do ciclo do
dom, esclarece, favorece o entendimento, a amizade, a aliança e a honra, do
mesmo modo que, no lado contrário, sua interrupção é motivo para a inimizade, a
desonra e a guerra. Como teoria relacional, o dom permite enfoques originais e
múltiplas interpretações da realidade, inclusive a de repensar a produção
econômica e o trabalho social não apenas a partir da exploração e do conflito,
mas incorporando indicadores de bem-estar e de "vida boa".
Ao ampliar a compreensão da sociedade pela introdução do simbolismo,16 Mauss
superou a dicotomia que tinha aprisionado Durkheim entre o sagrado e o profano
(Caillé, 1998) e fez avançar a compreensão da sociedade superando outra
dicotomia clássica da sociologia, aquela entre agência e estrutura. Mediante a
concepção do simbolismo, diz Karsenti, percebe-se "que a oposição entre
individual e coletivo perde literalmente toda pertinência. Ou melhor, temos que
aceitar que esta distinção corresponde apenas a variações diferenciadas de um
simbolismo único, característico de uma sociedade determinada" (Karsenti, 1994,
p. 91). Enfim, neste trabalho de desconstrução de um mito de "economia natural"
que teria existido, desde sempre, a partir da presença de um homo oeconomicus
agindo motivado por seus interesses individuais e egoístas, vários autores
concordam (Karsenti, 1994; Godbout, 1998a; Caillé, 2000b; Martins, 2005) que o
mais importante na crítica de Mauss ao utilitarismo foi demonstrar que os bens
que circulam na sociedade não são apenas materiais, mas, sobretudo, simbólicos.
Diz Godbout que no ato de doação de algo a alguém, não é apenas a coisa que é
dada, mas, também, a intenção (Godbout, 2000) ou o "hau", o "espírito da coisa"
(Mauss, 1999, p. 161). Assim, na organização da prática social, há sempre dois
bens em circulação: um material, a coisa dada, um simbólico, a intenção
oferecida.
Merleau-Ponty entendeu claramente a importância de Mauss para as ciências
sociais ao afirmar que sem negar os princípios da escola francesa ou os de
Durkheim, ele conseguiu superar o erro de situar o observador fora do objeto
observado, erro que impediria a "penetração paciente do objeto, a comunicação
com ele" (Merleau-Ponty, 1960, p. 126). Mas esta penetração no fenômeno apenas
pode ocorrer, explica o autor, se entendermos que o fato social não é uma
realidade bruta, mas "um sistema eficaz de símbolos ou uma rede de valores
simbólicos que se insere no mais profundo dos indivíduos", levando-nos a
compreender que não temos que escolher entre indivíduo e sociedade, pois são
tudo totalidades ou conjuntos articulados (Idem, p. 125).
Por conseguinte, enfatiza Merleau-Ponty, Mauss, ao conceber o social como um
simbolismo, permitiu-se os meios de respeitar a realidade do indivíduo, aquela
do social e a variedade de culturas, sem tornar umas e outras impermeáveis
entre si. "Uma razão ampliada deve ser capaz de penetrar até o irracional da
magia e do dom" (Idem, p. 126).
O fato social total
A simpatia de Mauss para com o movimento associacionista do início do século
XX, na França, levou-o a refletir em profundidade sobre os motivos variados da
associação humana. Segundo ele, tais motivos não podem ser restringidos a
certos determinantes particulares - econômicos, políticos e/ou culturais -,
visto que tudo tem relevância para a constituição do vínculo social, sendo a
sociedade um "fato social total".
A crítica ao utilitarismo mercantil, de um lado, o resgate da dimensão moral da
vida social, de outro, levaram Mauss a rever e ampliar a noção de fato social
de Durkheim. Para ele, a sociedade seria um "fato social total" e no interior
do conjunto de prestações e contraprestações que definem a vida social em
geral, a atividade econômica e mercantil seria apenas um aspecto particular
deste conjunto, limitando-se pelo caráter dos rituais e das obrigações
coletivas. A esse respeito, esclarece Karsenti que o dom permite revelar os
comportamentos de homens concretos e não um conjunto de regras jurídicas ou
morais definidas abstratamente. Nesse sentido, complementa ele, o fato social
total, longe de indicar uma generalidade desencarnada, "emana da descrição de
uma realidade constituída de experiências comuns que manifestam a vida do grupo
como grupo: "O completo, mediante um singular desvio, se identifica ao
concreto, concebido sob a forma da expressão viva de um grupo social
considerado na sua globalidade" (Karsenti, 1994, p. 45).
Neste esforço de entender as razões não-econômicas das trocas sociais, Mauss
foi levado a rever a premissa durkheimiana do fato social, reapresentando-
o como "fato social total". Esta revisão teórica aponta, portanto, para um
acontecimento inédito das ciências sociais, que foi produzido entre Durkheim e
Mauss, a saber, a invenção do simbolismo. Os estudos sobre as significações
subjetivas das trocas, que o levam a valorizar a idéia de totalidade, foram
sistematizados a partir das revisões feitas por Mauss das análises
durkheimianas do sagrado, da religião e das representações coletivas, como o
demonstra Camile Tarot (1999). A compreensão da sociedade como fato social
total permitiu a Mauss superar as dualidades conceituais presentes no
pensamento de seu tio, Émile, articulando de modo dialógico categorias
aparentemente opostas, como o macro e o micro, o subjetivo e o objetivo, o
individual e o grupal, o sagrado e o profano, o cultural e o social, a práxis e
a teoria, o unidisciplinar e o multidisciplinar.17
A sistematização dos estudos sobre a dádiva levou Mauss, de certo modo, a uma
ruptura parcial com o esquema teórico de Durkheim. Enquanto este via a
obrigação como a condição central e incondicional da moral social, Mauss
entendia que o sistema moral conhecia certa flexibilização, resultante da
pluralidade de determinações. Assim, embora considere o dom uma obrigação em
última instância, ele reconhece que, na prática, há uma ambivalência
constitutiva do dom entre a obrigação e a liberdade, entre o material e o
simbólico e que se insinuam no movimento de produção do fato social que é
total.
A atualidade da contribuição de Mauss para as ciências sociais pode ser, assim,
sintetizada em dois pontos fundamentais: a definição da sociedade como um fato
social total, permitindo articular adequadamente aquelas dicotomias
tradicionais da sociologia já referidas, e a introdução do simbolismo como
fundamento último das trocas entre pessoas morais. Trata-se de uma contribuição
de importância paralela àquela do sujeito do inconsciente de S. Freud, com a
diferença de que, em Mauss, a noção de pessoa moral não se limita às injunções
de crenças coletivas, como em Durkheim, nem ao cognitivismo individualista, da
psicologia experimental. A pessoa moral, em Mauss, supera ambas as posições
pela ênfase sobre o valor da relação na constituição da sociedade.
A proposição do dom como base de uma ciência moral e humanista18 explica-se
pelo seu reconhecimento como fenômeno de caráter relacional e paradoxal que
articula diferentes planos do conhecimento, como aqueles formados pelos pares
do objetivo e do subjetivo, do micro e do macro, do profano e do sagrado, do
individual e do social. Trata-se de um sistema de conhecimento, ao um só tempo,
simples e complexo. Simples, na medida em que busca explicar a realidade,
inicialmente, não a partir de estruturas regulamentadas, mas, diversamente, a
partir de um sistema informal, aquele das trocas diretas entre indivíduos e
grupos no plano da vida cotidiana. Complexo, porque ambiciona ultrapassar o
campo restrito do plano microssociológico para demonstrar que as regras
paradoxais que delimitam as trocas da vida cotidiana se reproduzem igualmente
na esfera macrossociológica dos sistemas formais, de forma sub-reptícia
certamente, mas decisiva para selar por meio da confiança a validade dos
contratos jurídicos e administrativos.
Ele teve sucesso na empreitada teórica do "fato social total" - que é uma
categoria abrangente do ponto de vista teórico e disciplinar -, quando entendeu
que a aliança nasce de uma expressividade coletiva e compartilhada - gestos,
rituais, trocas, mortes etc. - que envolve todos os membros do grupo,
acionando, para isso, os recursos afetivos, cognitivos, materiais e espirituais
existentes na comunidade. Do mesmo modo, percebeu que a construção da aliança
entre pessoas morais exige que o conjunto de recursos visíveis e invisíveis
(materiais e simbólicos) disponíveis na tradição e na memória circule
permanentemente, envolvendo todos os participantes em ações recíprocas de
doações, recebimentos e retribuições. A recusa de participar de tais atividades
- festas, rituais, serviços gratuitos, trabalhos conjuntos etc. - em geral é
percebida pela comunidade como um sinal negativo, como se fosse uma
manifestação de descaso ou mesmo de inimizade.
Enfim, a idéia de "fato social total" pressupõe a presença de sistemas de
reciprocidades das atividades humanas, sustentados por um simbolismo
generalizado em todos os planos da vida, começando com mais intensidade afetiva
e menos regulação cognitiva no plano do cotidiano (do indivíduo, da família,
dos amigos etc.) e se estendendo com menos intensidade afetiva e mais regulação
cognitiva para as estruturas formais (da economia, da política, da religião, da
ciência etc.). Isto é, tudo o que se troca - tudo o que se dá, que se recebe ou
que se retribui - é carregado de sentidos duplos: as palavras são pronunciadas
com gestos expressivos, os presentes são dados com boas ou más intenções, as
ordens são proferidas com sentimentos de orgulho ou de baixo-estima, as
mercadorias são vendidas com imagens de sedução ou de repulsão. Pela associação
do dom com o simbolismo generalizado, Mauss conseguiu demonstrar que as coisas
materiais ofertadas, as hospitalidades dadas e os serviços prestados são plenos
de significações que, num lado, favorecem a aliança e o vínculo e, no lado
contrário, a inimizade.
Compreendido como "fato social total", o sistema do dom deixa de constituir uma
teoria do domínio particular de determinada disciplina - seja ela a
antropologia, a etnologia, a história, a sociologia, a política, a lingüística
ou outra qualquer -, para aparecer como o fundamento de uma ciência moral
antiutilitarista poderosa, que oferece os recursos conceituais necessários à
crítica do pensamento mercantilista hegemônico e à revalorização do indivíduo
dentro dos sistemas de obrigações coletivas. A força crítica do dom está no seu
caráter paradoxal, permitindo compreender a sociedade como um conjunto de
fatores diversos que se entrecruzam, mas que não se submetem funcionalmente a
uma determinação qualquer, seja ela a religião - nas sociedades tradicionais -,
ou a economia de mercado - nas sociedades modernas. O reconhecimento do
paradoxo do dom explica-se, por outro lado, pela sua possibilidade de
demonstrar, a partir do simbolismo, que a realidade social e cultural é
fabricada por significações compartilhadas por indivíduos e grupos sociais, que
sustentam a invenção do mundo em vários planos: no micro e no macro, no
individual e no social, no sagrado e no profano, assim como, podemos
acrescentar, no masculino e no feminino, no similar e no diverso.
Do mesmo modo, ao permitir compreender que essas trocas entre indivíduos,
grupos e nações são, em geral, incertas, indeterminadas e assimétricas, o
sistema do dom contribui para que se entenda que a regra de equivalência típica
da economia de mercado - um bem dado implica em um bem pago - não é uma regra
geral, como propõem os doutrinadores liberais e utilitaristas, mas a exceção.
Analisando a sociedade a partir do "fato social total", percebe-se,
diferentemente, que grande parte das trocas segue uma regra assimétrica que se
estende no tempo, gerando um endividamento simbólico coletivo dos membros da
coletividade e expresso em regras, rituais, proibições e permissões. Certamente
o reconhecimento da existência de trocas assimétricas não significa que estamos
na ordem da democracia. Ao contrário, inúmeras sociedades tradicionais e mesmo
modernas instituem sistemas de dominação a partir de assimetrias, como vemos no
Brasil, por exemplo, a partir da instituição do clientelismo.
Mas, o simples reconhecimento da pluralidade de lógicas de organização do
imaginário sócio-histórico e das práticas concretas, sejam elas simétricas ou
assimétricas, é fundamental para se desnaturalizar a ideologia mercantilista e
utilitarista que se propõe a aparecer como a única e legítima lógica de
organização da vida moderna. Tal reconhecimento da diversidade é fundamental
para se entender que, por trás do fetichismo da troca econômica simétrica, que
está na base da lógica mercantil e cujo lema é trabalhar para consumir e
acumular, há um desejo - assimétrico - bem mais amplo de compartilhar a vida,
pois esta não pode ser vivida individualmente, mas apenas coletivamente. Tal
consciência coletiva implícita é a base de uma ordem moral geral ligada ao
anseio de preservação da sociedade e, em última instância, do ser humano, que é
o motivo primeiro e último da constituição do vínculo social, da aliança e da
política solidária.
Na verdade, o "rochedo no qual se assenta a vida social", como lembra Mauss na
conclusão do Ensaio..., apenas é detectado quando entendemos que os bens que
circulam no interior da sociedade são sempre portadores de um duplo sentido,
material e simbólico. A tese do fato social total surge, na obra de Mauss,
quando ele compreende que todos os eventos possuem uma significação simbólica
para a vida social. Ao assim proceder, ele aprofunda a tese de Durkheim acerca
da existência de uma obrigação social que sobredetermina a liberdade
individual. Mas, ao mesmo tempo, o autor entende que as regras podem ser
transgredidas ou negadas, pela vivência da liberdade, fazendo do que era paz,
guerra, e vice-versa.
Mauss faz este aprofundamento ao introduzir uma compreensão simbólica da
prática social não redutível apenas aos aspectos materiais ou aos valores
utilitaristas baseados nos cálculos, nas necessidades e nas preferências. Pela
valorização do simbólico, ele concluiu que tudo na sociedade é importante para
esclarecer sua origem e funcionamento, sendo de particular relevância aqueles
fatos que consideramos banais e irrisórios, como os risos, os gestos, as falas,
os rituais, as danças, além, é claro, dos serviços e dos bens materiais (Mauss,
2003, p. 191).
O dom e o interacionismo crítico
Dom e compreensão
Como é possível a sociedade? Com esta pergunta C. Papilloud abre seu texto
sobre uma reflexão comparativa entre Mauss e Simmel, para defender a tese de
que esses dois autores são os reais precursores de uma abordagem inédita da
relação humana, que pode ser definida como interacionismo crítico. Para
Papilloud, a conversão de Maus para as teses interacionistas significou certo
distanciamento de Durkheim, o que ficou evidente quando Mauss e Paul Falconnet
escreveram o texto "Sociologia" para a Grande enciclopédia, no qual afirmam que
o social se reconhece "pela presença de suas ações e reações, de suas
interações" (Mauss, 1901, apud Papilloud, 2004, p. 61).
A. Caillé também propõe que o sistema da dádiva constitui uma abordagem
interacionista, por excelência. Mas uma abordagem interacionista que não se
limita ao plano microssociológico, pois considera com o mesmo valor a esfera
macrossociológica. A compreensão do sistema do dom como uma modalidade
particular do interacionismo teria ficado encoberta pela maneira como Lévi-
Strauss inseriu o dom dentro dos estudos antropológicos (Caillé, 1998). Ao
reduzir o dom a um sistema de troca relativamente rígido e próprio de
sociedades tradicionais, a antropologia estrutural teria dificultado que viesse
à tona a contribuição fundamental de Mauss para as ciências sociais e para o
entendimento do dom como fato político, interativo e dinâmico.
É necessário, assim, romper o véu que isolava o dom dentro das ciências sociais
(e da filosofia moral, acrescentamos), o qual induzia os pesquisadores a vê-lo
como um fenômeno de interesse meramente antropológico e estrutural, com pouca
relevância para outras disciplinas, sobretudo para aquelas relacionadas com o
interacionismo. Deve-se notar que há diferentes escolas interacionistas, que
não se situam apenas nos Estados Unidos e que se enraízam historicamente em
outros países. Nesse sentido, Caillé lembra que, tal como os interacionismos de
Simmel e de Elias, aquele de inspiração maussiana se diferencia do norte-
americano por algumas razões. Em primeiro lugar, a excessiva ênfase dos
estudiosos norte-americanos no plano microssociológico - no chamado "face a
face". No caso do interacionismo em Mauss, diferentemente, "não somente é o
conjunto das interações entre as pessoas que ele tende a considerar, na escala
da sociedade no seu todo, mas também as relações das pessoas com os objetos,
com as coerções materiais, em suma, com a morfologia social". Desse modo,
conclui Caillé, temos aqui uma espécie de "interacionismo generalizado", que
tem mais a ver com a sociologia histórica comparativa weberiana e com o
marxismo do que com a psicologia social (base do interacionismo norte-
americano) (Caillé, 2002b, p. 247).
Nesta tentativa de enquadramento da teoria do dom como uma abordagem
interacionista aberta a uma compreensão ampliada da sociedade, é importante
relacionar como o símbolo da aliança surge na teoria maussiana do simbolismo:
Ora, esta [a aliança] não é outra coisa senão a do político. A
questão sobre a qual Mauss encerrava o Ensaio sobre o dom. Pois tudo
em Mauss leva de fato a esta questão do político [...] os símbolos só
têm vida e significação enquanto representam, comemoram, performam ou
renovam um dom, uma ad-sociação ou, de modo mais geral, o político.
Enquanto podem ser compreendidos e portanto traduzidos uns nos outros
(Idem, pp. 251-253).
Ou seja, a passagem de um entendimento do dom como uma regra rígida para uma
leitura pós-estruturalista, que o compreende como uma significação da aliança,
abre inevitavelmente perspectivas promissoras de uma aproximação dos estudos
sobre o dom com o interacionismo crítico. Este entendimento da teoria do dom
dentro de uma tradição teórica compreensiva e fenomenológica, que dialoga em
diferentes níveis com as sociologias de Simmel, de Weber, de Schutz e do
interacionismo simbólico, sobretudo o de Goffman, é importante para situarmos
os caminhos de investigação possíveis a partir do dom. A compreensão e a
explicação deste sistema não pressupõem o estudo do indivíduo nem do grupo,
tampouco o estudo dos planos macro ou microssociológico, considerados
isoladamente. A idéia da sociedade como um "fato social total" explica-se pelo
valor da circulação das coisas entre os indivíduos e os grupos.
Nesse sentido, ao fazer a crítica aos limites da teoria marxista sobre o
trabalho, Vandenberghe esclarece - reiterando comentário de Godbout (1998b) a
este respeito - que o valor da dádiva não é ligado nem ao uso nem à troca, mas
ao vínculo, ao relacional, reforçando a compreensão interacionista da dádiva.
Assim, conclui: "Invertendo a caracterização do fetichismo da mercadoria feita
por Marx, poderíamos dizer que as relações entre as pessoas (na dádiva) não
mais aparecem como uma relação entre coisas, mas que as relações entre coisas
agora aparecem como uma relação entre pessoas" (Vandenberghe, 2004, p. 110).
Esta observação é interessante para entendermos que, ao se enfatizar a relação
entre pessoas na dádiva, a circulação dos objetos, ou o "espírito das coisas" -
o hau, dos antigos -, tanto pode reforçar práticas emancipatórias como, ao
contrário, práticas conservadoras. Tudo depende, logo, da vivência da
associação e da aliança, o que nos leva necessariamente a articular, no sistema
do dom, interação e experiência vivida, sociologia interativa e sociologia
fenomenológica.
Os estudos sobre a dádiva despertam, inevitavelmente, certa curiosidade sobre a
ação social direta, sobre as modalidades de existência das práticas sociais no
plano microssocial. Isto não anula, todavia, o interesse da teoria da dádiva
para os estudos macrossociológicos, das organizações formais. Na verdade,
quando nos debruçamos sobre os requisitos da confiança entre atores sociais e
agentes institucionais no interior de organizações como as burocrático-legais
ou, então, as mercantis, ou ainda nas práticas do mundo do trabalho, observamos
que esta confiança não pode ser obtida nem pelas cláusulas contratuais livres
entre parceiros, nem pela obrigação legal. Ao contrário, a confiança exige
certo risco, qual seja, o de acreditar que aquele outro com quem me relaciono
não vai me trair, embora nada assegure isso. Há um risco inerente ao dom pelo
fato de não haver certeza de que o donatário vai receber a ação ou vai
retribuí-la. Tudo é possível! (Fixot, 1994, p. 187). Este risco não pode ser
simetricamente calculado, ele está aberto às incertezas. Isto explica,
portanto, o interesse dos parceiros comerciais ou dos agentes burocráticos de
que as pessoas se conheçam, que tenham antecedentes de honestidade e lealdade.
Pois, no lado contrário, sob o peso da desconfiança e da corrupção, os sistemas
formais inevitavelmente se degradam.
Mas, é certamente no âmbito das relações interpessoais que a dádiva aparece com
maior nitidez. Porque é no plano da ação direta que se constrói primeiramente a
sociedade, onde são edificadas as bases intersticiais das organizações formais
e informais. Ali, nascem as redes sócio-humanas - sistemas de trocas diretas
entre familiares, vizinhos e amigos -, as quais existem de maneira subjacente a
outras redes, como as sociotécnicas - que aparecem como exigência de gestão das
organizações formais - ou as socioinstitucionais - que aparecem como exigência
de governança entre Estado e sociedade civil, envolvendo agências
governamentais e não-governamentais (Martins e Fontes, 2004).
O mercado de trabalho também não pode funcionar a contento caso patrões e
empregados, ou produtores e consumidores, desconfiem das intenções uns dos
outros. Em todos esses casos, os contratos devem ser legitimados por um mínimo
de confiança no outro, uma aposta indiscutível no dom, de modo que o interesse
objetivo revelado pela mercadoria ou pela lei possa aparecer como algo natural,
como se o contrato encerrasse em si mesmo uma cláusula oculta de confiança e
respeito, o que é falso. Isto é, apesar de o dom funcionar mais visivelmente
nas socialidades primárias,19 ele continua a aparecer como recurso fundamental
para permitir, no plano das socialidades secundárias, que os parceiros dos
campos mercantil ou burocrático se disponham a incorporar livremente as regras
do jogo, como se confiar nas regras sem duvidar de sua validade fosse algo
eminentemente natural. A dádiva funciona, assim, em geral, nos dois registros,
o primário e o secundário, embora tenha maior visibilidade no primeiro.
Dom e vida associativa
A contribuição de Mauss para a crítica teórica se faz pela demonstração de que
o dom não é apenas uma teoria ingênua, fundada supostamente sobre as intenções
generosas e altruístas do ser humano, servindo para repensar o conjunto das
instituições sociais a partir dos seus fundamentos morais e normativos que
variam de sociedade para sociedade. As tentativas de estigmatizar o sistema do
dom como uma teoria ingênua, escondem preconceitos e ignorância a respeito de
um pensamento que se apóia num sistema de motivações complexas da ação social.
A teoria do dom constitui uma saída teórica importante para dar conta da
complexidade e da diversidade das motivações sociais, inclusive aquelas
utilitárias, presentes na vida cotidiana.
Mauss não rejeita, simplesmente, as teses liberais. Ao contrário, ele buscou
esclarecer que o interesse é um motivo importante da prática social, mas que a
própria idéia de interesse é complexa, na medida em que, além do interesse
materialista e calculista, pode-se falar de interesse pela honra e pelo poder
não apenas em função de si mesmo mas também para o outro. Na vida real, o
interesse do sujeito não se centra, necessariamente, apenas na sua própria
pessoa, mas na de todos com quem mantém interação na vida privada ou na vida
pública. Cada um de nós revela, em algum momento da vida cotidiana, um
interesse que transcende o ego e se transporta para o outro - seja ele alguém
da família, um conhecido ou um mero desconhecido -, e este tipo de ação se faz,
no mais das vezes, de forma espontânea. Não custa lembrar que tal compreensão
ampliada do motivo do interesse não tem apenas valor teórico, mas prático, uma
vez que pode impactar favoravelmente a reconfiguração das políticas públicas e
de novas modalidades de participação da sociedade civil na organização da
esfera pública, por exemplo.
O caráter paradigmático do sistema do dom traz uma contribuição inestimável
para repensar as abordagens teóricas e metodológicas na sociologia, em diversos
campos: do trabalho, da família, da religião, do desenvolvimento e da política,
entre outros. De fato, a idéia da sociedade como um "fato social total"
fabricado a partir de bens simbólicos e materiais não apenas amplia o
entendimento da ação social, como permite, igualmente, se atravessar mais
facilmente as fronteiras interdisciplinares, tudo em benefício de um pensamento
moral e político mais complexo. Para isso, é importante chamar a atenção sobre
o fato de que a teoria do dom é eminentemente relacional, não se fixando, por
conseguinte, nem na estrutura nem na agência, mas no ciclo incessante de
prestações e contraprestações de bens materiais e simbólicos. O ciclo de
endividamento simbólico suscitado pela circulação de bens (bens simbólicos,
como intenções, gestos, gentilezas e rituais, e bens materiais, como serviços a
terceiros, auto-ajuda, utensílios ou mesmo mercadorias) institui
necessariamente vínculos e alianças que estão na base da produção das
identidades, dos lugares e das estruturas.
Em contrapartida, quando alguém deixa de cumprir as expectativas coletivas
geradas pelo endividamento mútuo (ao se aceitar algo de alguém, necessariamente
entramos em dívida com esta pessoa, mas, caso não queiramos manter a
reciprocidade, basta não retribuirmos o gesto, a intenção ou o bem dado)
desfaz-se o vínculo e a aliança. Esta compreensão dinâmica da ação social tem,
na prática, o mesmo efeito que significa a passagem da descrição da realidade
externa, de um momento inicial em que ela é apreendida, como uma fotografia,
para um outro momento, em que é apreendida pelas imagens de um vídeo.
A perspectiva de sistematização de uma nova leitura do dom tem pertinência
clara no sentido de enfatizar o valor do fato associativo e do movimento
associacionista (Martins, 2005; Chanial, 2001) e/ou a importância de se pensar
um novo paradigma da ação coletiva que enfatize o valor da solidariedade e da
participação na sociedade civil. Esta observação é mais do que justificada num
mundo globalizado, em que crescem as demandas por reconhecimento, por
participação e por inclusão e as reações violentas pelas recusas desses
direitos à cidadania e à vida saudável.
No desenvolvimento de uma sociologia do dom, prestamos especial ênfase ao modo
de organização das socialidades primárias, isto é, à esfera microssociológica,
com a intenção de verificar as perspectivas de construção de uma discursividade
crítica no interior delas, via redes locais, como a família, a vizinhança e as
associações. Uma discursividade que considere tanto o confronto de saberes
diferenciados (técnicos e populares) como as negociações e as alianças
alinhavadas entre agências governamentais, não-governamentais (ONGs, Igrejas),
associações de bairro e atores sociais, no âmbito local.
O desafio, no fundo, é observarmos se as possibilidades inscritas nas redes
sociais existentes nas municipalidades e nas comunidades são suficientes para
incrementar o surgimento de práticas associativas mais horizontais e abertas a
novas modalidades de solidariedade e de cooperação, práticas essas que
legitimam o surgimento de uma esfera cívica e pública politicamente
consistente. Pois, apenas a partir de uma esfera com esta característica, isto
é, ancorada nas trocas diretas, é possível pensar numa experiência de cidadania
democrática ampliada, plural e participativa, que respeite as diferenças e as
universalidades dos sistemas simbólicos e de poder.
Contribuição da teoria do dom para a crítica do pensamento utilitarista
hegemônico
A força do dom como "princípio ativo" de uma crítica teórica capaz de se
contrapor à doutrina utilitarista dominante ficou tolhida, já dissemos
anteriormente, pelo modo como a antropologia estrutural traduziu o dom no seu
próprio domínio conceitual, limitando, por conseguinte, seu impacto à análise
das sociedades tradicionais e inibindo a compreensão do seu potencial para o
entendimento das sociedades contemporâneas.
Mas, com a crise do estruturalismo no contexto da globalização de idéias nos
fins dos anos de 1970, houve um maior intercâmbio de pesquisadores, gerando uma
aproximação fértil, geográfica, temática e conceitual das grandes escolas do
pensamento humanista, sobretudo as francesa, anglo-saxônica e germânica. No que
diz respeito especificamente à escola francesa de sociologia, a crise do
estruturalismo permitiu resgatar a contribuição de Mauss a partir de uma
crítica cultural e social renovada pela filosofia política francesa e pela
filosofia analítica inglesa, a primeira enfatizando o tema da democracia, a
segunda, o tema da linguagem da vida cotidiana. Nessa mesma direção, a
aproximação da tradição renovada de Mauss com o interacionismo norte-americano,
nos anos de 1980, permitiu flexibilizar a vinculação excessiva do dom com a
obrigação moral coletiva, o que abriu caminho para realçar o papel da liberdade
individual ou do dom do indivíduo na constituição da prática social. Em suma, o
debate que se sucede à crise do estruturalismo propiciou compreender que o
sistema do dom aplica-se, igualmente, às sociedades tradicionais e às modernas,
às sociedades fundadas em crenças a-históricas e àquelas fundadas na criação
histórica, sendo ele peça central para se repensar a economia, a política e a
democracia numa perspectiva antiutilitarista.
O reconhecimento do valor do dom para a explicação da sociedade moderna
individualista implica, necessariamente, que os motivos fundamentais das
prestações e das contraprestações humanas não são apenas de caráter obrigatório
e dados pelas crenças e tradições, como verificamos nas sociedades tradicionais
estudadas pelos antropólogos clássicos. Semelhantes motivos são também de
caráter livre e espontâneo, gerados pelos desejos e utopias de indivíduos e
grupos sociais, como é próprio das sociedades contemporâneas. Do mesmo modo, os
indivíduos e pessoas morais não se relacionam apenas pelo interesse por si, mas
pelo interesse pelo outro, ou, então, interesse pelo poder, ou pela honra ou
pelo prestígio. Enfim, ao se desprender da imagem egoísta e individualista, o
interesse torna-se "desinteressamento", ou seja, interesse que se desprende de
sua referência para se tornar outra referência de si ou interesse do outro
(Caillé, 2006).
Por conseguinte, mais do que uma mera atualização do sistema do dom, este
reconhecimento da presença de motivos variados da ação humana aponta para uma
crítica teórica de valor moral indiscutível. Esse projeto intelectual re-
humanizante, que está presente na obra de Mauss, não é um fato isolado. Ele se
cruza, na verdade, com outras contribuições relevantes para esse tipo de
crítica ao reducionismo utilitarista e ao pensamento objetivista, como aquelas
oferecidas ao longo do século XX por autores como Simmel, Mead, Merleau-Ponty,
Goffman, Habermas, Castoriadis, Lefort, Taylor, entre outros. No seu conjunto,
as obras desses autores evidenciam o valor da liberdade para a emancipação do
ser humano, mas a partir de um lugar diverso daquele do liberalismo clássico,
que é basicamente centrado no interesse individual. Tal diferença se evidencia
pelo fato de que esses autores entendem a liberdade como um motivo que
extrapola o mero interesse individual ou grupal, para encerrar um valor humano
coletivo imprescindível para uma perspectiva democrática e participativa
ampliada.
A leitura do Ensaio sobre a dádiva a partir da ótica de um sistema teórico
interdisciplinar mais amplo - que incorpora, paradoxalmente, motivos diversos
da ação humana, como os de liberdade e obrigação, do interesse e do
desinteresse - permite introduzir uma série de inovações significativas para o
pensamento humanista crítico. Para atingir o dogma utilitarista, Mauss buscou
demonstrar, por exemplo, o equívoco de reduzir as origens da vida social à
idéia de uma "economia natural", fundada numa representação abstrata denominada
homo oeconomicus, como propõem os economistas clássicos.
Na crítica ao utilitarismo materialista, em conseqüência, Mauss buscou
reinterpretar a economia do mercado com base em uma abordagem
socioantropológica e interacionista mais ampla, pela qual o mercado é visto
como um mecanismo de regulação entre outros. Tal opção teórica levou-o a
rediscutir em profundidade outras noções complementares, como aquelas
relacionadas ao contrato, ao trabalho e à utilidade, e novas modalidades de
compreensão e interpretação da realidade vivida que, no seu conjunto, revelam
uma complexa teoria das motivações humanas. Por isso consideramos que o sistema
da dádiva encerra as bases de uma ciência moral de caráter interdisciplinar,
fundamental para o avanço do novo movimento teórico nas ciências sociais, sem
negligenciar a contribuição decisiva do estruturalismo na demonstração do
simbolismo para as práticas culturais e sociais.
NOTAS
1 Numa primeira aproximação, a título de esclarecimento para os que não são
iniciados no assunto, podemos dizer que o sistema do dom consiste num conjunto
de prestações e contraprestações que se expandem ou se retraem mediante uma
tríplice obrigação - doação, recepção e retribuição de bens materiais e
simbólicos -, sendo constatada sua presença em todas as sociedades existentes,
tradicionais e modernas, conforme deduzimos da leitura de Marcel Mauss.
2 Para Alain Caillé, os dois outros paradigmas, o individualista e o holista,
apresentam-se sempre como verdades abstratas e intemporais. Função, estrutura,
valores e cálculo, interesse individual e boas razões apresentar-se-iam sempre
pelas mesmas modalidades independentemente de tempo ou lugar. Em contrapartida,
o paradigma do dom deixa tudo aberto às investigações histórica, etnológica ou
sociológica sem trazer respostas prontas. Nesse sentido, o dom seria
antiparadigmático (Caillé, 2002b, p. 81).
3 Segundo Axel Honneth, a tese de Durkheim sobre a divisão do trabalho social é
um insight importante para a compreensão da solidariedade social, na medida em
que demonstrou que tal solidariedade nas sociedades modernas depende das formas
democráticas e reflexivas da divisão do trabalho (Honneth, 2002, p. 275). Ora,
tal releitura é curiosa, uma vez que as teses de Durkheim sobre a divisão do
trabalho eram vistas como provas de um funcionalismo que fazia do fundador da
sociologia francesa um autor, sob certos aspectos, suspeito. A retradução de
Honneth traz novas luzes sobre o tema.
4 Evidentemente, estamos nos referindo aqui à tradição do catolicismo
tradicional. Pois, no lado oposto, vimos surgir no Brasil, a partir da segunda
metade do século XX, uma outra tradição religiosa católica, como a da Teologia
da Libertação, que defende a reinterpretação de temas importantes, como o da
caridade, com impactos positivos sobre o socialismo associativo de movimentos
como, por exemplo, o MST e o da economia solidária.
5 O papel do pai da antropologia estrutural na formulação de uma certa leitura
do dom pode ser mais bem compreendido a partir do esclarecimento fornecido a
este respeito pelo sociólogo canadense Marcel Fournier, o mais importante
biógrafo de Mauss. Num fórum especial sobre as "Novas Sociologias", no Encontro
Anual da Anpocs, em 2004, Fournier esclareceu que Lévi-Strauss, em uma carta a
um amigo, teria dito que Mauss teve o mérito de chegar até o rio, mas ele,
Lévi-Strauss, é que teria feito a travessia das águas. Embora esta afirmativa
sirva para reforçar a vinculação de Mauss com a antropologia estrutural, ela é,
em si, insuficiente. Não pelo fato de que Lévi-Strauss não tenha feito bom uso
do sistema teórico do dom, mas porque este sistema se abre para outros usos e
entendimentos, e, sobretudo, para a construção de uma crítica teórica e moral
mais ampla.
6 Como veremos mais adiante, ao realçar a ambivalência da ação social o dom
permite demonstrar que as motivações humanas não podem, em absoluto, se limitar
à função do egoísmo e do interesse material.
7 Contra um pensamento operacional, próprio da antiga ciência experimental de
base cartesiana que entende a criação humana como o produto de um processo de
informações concebido sobre o modelo da máquina humana, Merleau-Ponty propõe,
na sua última obra escrita em vida, L'oeuil et l'esprit, um corpo que acorde
outros corpos associados, os "outros" que não são meus congêneres (Merleau-
Ponty, 1964a, pp. 12-13). E porque o corpo vê e se move, ele tem as coisas em
torno de si mesmo; elas (as coisas) estão incrustadas na própria carne como um
anexo ou um prolongamento dele, fazendo parte da definição plena do corpo,
sendo que o mundo é feito do próprio corpo (Idem, p. 19).
8 Souza escapa dos perigos do culturalismo, presentes nessas narrativas que
insistem sobre a originalidade, recorrendo com oportunidade à genealogia do
indivíduo moderno realizada por Charles Taylor em A fonte do self (2005). Tal
recurso facilita explicar que a noção de indivíduo é complexa e contraditória e
que o self pode conhecer diferentes formas generalizantes, que não se reduzem
nem àquela do individualismo moderno ocidental (Souza, 2001a, p. 182) nem a de
leituras dicotômicas e culturalistas sobre a pessoa moral. Não cabe aqui entrar
nesta discussão riquíssima da ontologia moral do Ocidente, formulada por
Taylor, mas é necessário sublinhar sua pertinência para o que aqui estamos
discutindo, a saber, que a genealogia do trabalho intelectual e a consideração
pela análise reflexiva das condições lingüísticas, culturais, emocionais e,
sobretudo, morais, presentes no vivido, são decisivas para se delimitar a
construção do conhecimento num certo lugar e num certo tempo.
9 Clifford Geertz, com base em sua vasta experiência de antropologia comparada,
oferece mais elementos para situar este debate sobre a ação intelectual no
"terreno". Afirma ele que nossa compreensão de nós mesmos e de outros - nós
mesmos entre outros - "é influenciada não apenas pelo intercâmbio com nossas
próprias formas culturais mas, também, e de maneira bastante significativa,
pela caracterização que antropólogos críticos, historiadores e outros, fazem
das formas culturais que nos são alheias, transformando-as, depois de
retrabalhadas e redirecionadas, em secundariamente nossas" (Geertz, 2001, pp.
17-18). Geertz está pensando aqui nas vicissitudes do antropólogo no "terreno"
e dos perigos de se fazer "imaginação moral" esquecendo-se do imperativo da
diversidade cultural.
10 Já há material relevante disponível na Revue du Mauss sobre a produção
teórica pós-estruturalista nos últimos 25 anos. No Brasil, porém, o trabalho de
retradução dos estudos sobre o dom ainda necessita de maior visibilidade
acadêmica, embora iniciativas práticas venham ocorrendo nas grandes associações
científicas como Anpocs, SBS - Sociedade Brasileira de Sociologia e a ABA -
Associação Brasileira de Antropologia.
11 A idéia de totalização do social, que propõe Mauss a partir do dom e que
será discutida mais adiante, implica, lembra Karsenti, num importante
deslocamento epistemológico que apresenta Mauss como peça fundamental no
nascimento da lingüística que, como se sabe, foi fundada oficialmente por
Saussure no seu Cours de linguistique general, ministrado no ano de 1916
(Karsenti, 1994, p. 88).
12 "Agora, é o indivíduo que é a fonte da mudança social. Ele sempre foi, mas
não o sabia. As leis eram decididas por seus príncipes e suas religiões. Seus
costumes pareciam-lhe sair de suas técnicas. E estas últimas estavam cravadas
no artesanato, permitindo-lhe mais a ingeniosidade do que a inovação. O
engenheiro surgiu lentamente com as primeiras máquinas. E as sociedades
modernas mudam rapidamente como nunca antes visto. Trata-se, mesmo considerando
todas as dificuldades, da ação do indivíduo" (Mauss, 2004, p. 140).
13 Esta crítica, que tem uma significação preciosa, tanto cultural como também
social e política, aproxima Mauss de outro grande teórico antiutilitarista do
século XX, Karl Polanyi, que demonstrou na sua obra clássica, A grande
transformação, a dependência estreita da economia de mercado com a cultura
histórica de uma época e de uma determinada civilização.
14 A sigla M.A.U.S.S. tem dois significados: prestar uma homenagem a Marcel
Mauss, um dos fundadores da escola francesa de sociologia e sintetizar o
descontentamento de um grupo de intelectuais com a "fragilidade da ciência
econômica e de suas pretensões explicativas" (Caillé, 1989, p. 7). No início,
antiutilitarismo significava apenas antieconomicismo. Na declaração de
intenções do M.A.U.S.S, os signatários do documento assinalam que "o objetivo
do movimento era sobretudo de relançar ou de lançar uma discussão e uma
informação científica sobre a questão das dimensões não mercantis e não
monetárias da troca". "Não se trata de opor a axiomática do interesse a um
certo espiritualismo do desprendimento, da gratuidade ou da ação não
finalizada, mas de opor a esta axiomática limites precisos de legitimidade,
tanto atuais como passadas, metodológicas e antropológicas. Para isto, importa
reabrir o debate que havia sido iniciado sobretudo por Mauss, Malinowski e
Polanyi [...]" (Bullletin du MAUSS, 1982, p. 9). Apenas nos fins da década de
1980, esta crítica antiutilitarista difusa transforma-se numa crítica
antiutilitarista propositiva, que elege o sistema do dom como veículo central
para se avançar na desconstrução do caráter restritivo das teses economicistas
dominantes, e na crítica à proposta ingênua da economia de mercado como uma
economia natural que existiria desde sempre, estando hipoteticamente na origem
e no desenvolvimento de todas as sociedades humanas.
15 Nesse sentido, a crítica antiutilitarista de Mauss fica muito próxima
daquela empreendida por um filósofo moral da contemporaneidade, Charles Taylor.
Para este autor, o utilitarismo clássico equivoca-se ao tentar rejeitar as
distinções qualitativas e hiperdimensionar a quantificação e o cálculo (Taylor,
2005, p. 39). Ambos os autores buscam desnaturalizar o utilitarismo e provar a
existência de uma fundamentação moral por trás das motivações utilitaristas.
Mauss critica a idéia de uma economia natural, que existiria desde sempre;
Taylor, ideais como o self desprendido que, ao objetivar o mundo circundante,
inclusive as emoções, produz uma espécie de distanciamento e agir instrumental
sobre o mundo, que gera ilusões como a da economia natural, por exemplo. Ambos
sublinham uma "valorização forte" (noção proposta por Taylor) dos bens à nossa
disposição, no sentido de que tais bens precisam de uma distinção qualitativa,
uma vez que, lembra Taylor, eles funcionam "em algum sentido como padrão para
nós" (Idem, p. 36).
16 A valorização do simbolismo não significa a desconsideração dos
condicionantes sociais, históricos e mesmo biológicos do ser humano. Ao
contrário, amplia a compreensão do sujeito humano ao permitir sair de uma
concepção objetivista para uma outra mais ampla, que integra os planos da
interioridade e das redes de inserção do self no mundo. Pelo simbolismo pode se
compreender, enfim, que as próprias nomeações desses condicionantes - o que
chamamos de biológico, corporal, objetivo ou subjetivo - varia de cultura para
cultura e depende dos esquemas perceptivos prevalecentes em diferentes
sociedades. Esta idéia de uma corporeidade humana como fenômeno social e
cultural, como motivo simbólico é bem desenvolvida em A sociologia do corpo, de
David Le Breton (2006).
17 Em Fenomenologia da percepção Merleau-Ponty critica o dualismo cartesiano e
a exaltação que ele considera ilusória da separação entre sujeito e objeto.
Pensa ele, diferentemente, que tudo que o indivíduo percebe é extensão dele, e
o olhar objetivado - que cria a ilusão da separação entre o sujeito e o objeto
- é secundário com relação à sua expressividade, a seu "sentir total" que
engloba o subjetivo e o objetivo. Para o autor, tal separação apenas é
possível, do ponto de vista lógico, pela leitura simplificada da percepção
fenomenal que enfatiza a exterioridade do corpo, produzindo uma "imagem
empobrecida" do verdadeiro corpo, que apenas se revela integralmente na sua
expressão fenomenal (Merleau-Ponty, 1999, p. 493). Pensamos que a idéia de
sentir total deste filósofo está intimamente ligada àquela de fato social total
de Mauss.
18 No número especial de comemoração dos dez anos de fundação do Boletim do
MAUSS (depois transformado em revista), em 1992, intitulado "Dez anos de
evolução das ciências sociais: metamorfose do MAUSS", Alain Caillé propõe, num
texto provocativo intitulado "É preciso criar uma nova disciplina nas ciências
sociais e qual?", a fundação de uma filosofia política que teria a eficácia da
ciência. Para ele, a filosofia política atual seria a melhor representação de
um modelo normativo para as ciências sociais (Caillé, 1992, p. 40). Sem
desconsiderar esta proposta, pensamos todavia que os avanços no debate sobre o
dom desde então têm revelado existir uma força moral que termina se impondo ao
elemento político, embora nele se inspire para assegurar a sua aderência
normativa e prática. Daí considerarmos que a expressão "ciência moral
humanista" pode também ser apropriada para pôr em relevo a questão dos
incondicionantes da ação social e sua importância na constituição da aliança e,
também, da democracia.
19 Inspirado nos estudos sobre o dom, Caillé propõe haver uma tendência da
sociedade moderna a provocar a separação crescente entre dois registros de
socialidades, que permanecem bastante imbricados em sociedades mais
tradicionais. O primeiro registro é o das socialidades primárias, no qual as
relações entre as pessoas são mais importantes do que os papéis funcionais que
elas desenvolvem. Trata-se do registro da família, dos parentes, dos amigos e
dos vizinhos. No registro das socialidades secundárias, ao contrário, a
funcionalidade dos atores sociais vale mais do que suas personalidades, como se
observa nas práticas do mercado, do Estado e da ciência. Nenhuma administração
governamental pode funcionar caso não exista o espírito do serviço público,
assim como uma pátria não sobrevive caso ninguém se disponha a morrer por ela
(Caillé, 2002a, p. 196). O mesmo se pode dizer do serviço médico. Os hospitais
e as clínicas médicas não podem funcionar eficazmente caso não haja algum tipo
de solidariedade entre médicos, enfermeiras, funcionários e familiares em torno
do sofrimento do doente, espelhando, em cada personagem envolvido, a
proximidade inexorável da morte e da finitude.