Entre a plutocracia e a legitimação da dominação financeira
Introdução
O predomínio da esfera financeira na sociedade brasileira gera uma dinâmica
cultural engendrada no atrito entre aqueles que a apóiam e os que a rejeitam
sistematicamente. O ponto de partida deste artigo é discutir a formação do
"plutocrata", figura típica que expressa aquela tensão. Se a dominação
financeira é um fenômeno mais amplo do que o simples controle econômico da
sociedade, a exploração da dinâmica e da polissemia na qual o "plutocrata"
nasce e se desenvolve pode ser uma boa entrada para a análise sociológica.
Evidentemente, esse caminho não pretende esgotar a compreensão científica de
tal configuração, mas apenas chamar a atenção para uma das facetas desse
fenômeno até agora pouco explorado.1 O principal material empírico colhido para
a análise vem da CPI dos Correios de 2005-2006. Ela se constituiu uma janela
excepcional, na qual se expuseram personagens pouco propensos a aparições
públicas, em especial o banqueiro Daniel Dantas, em torno do qual se construiu
uma imagem que lembra a figura do "plutocrata".
O mundo gira e os símbolos vão e voltam no tempo e no espaço. O Brasil
contemporâneo criou uma série de figuras públicas semelhantes ao "plutocrata".
Pode-se dizer que esse tipo se configurou na segunda metade do século XIX na
Europa e nos Estados Unidos, e desde os anos de 1930 passou a freqüentar nosso
imaginário , a partir do trabalho ideológico da extrema direita. Entre as
personalidades que compõem tal categoria, podemos citar Horácio Lafer,
personagem principal da sinagoga paulista de Barroso (Maio, 1992); antes dele,
durante a crise do encilhamento, o próprio Ruy Barbosa, candidato a essa
"honra" (Diniz, 1996). Recentemente, segundo a exposição pública observada na
mídia, pudemos observar uma galeria de indivíduos para os quais setores da
sociedade tentam atribuir esse papel em diversas variantes: Naji Nahas,
Benjamin Steinbruch, Armínio Fraga e Daniel Dantas.
Os plutocratas aparecem na esfera pública em episódios que de alguma forma
chocam a sensibilidade social a respeito do funcionamento da economia ou da
política. Mormente em escândalos, ainda que para que um indivíduo assuma esse
papel ele tenha de ser "preparado" antes, para que, uma vez deflagrado o
evento, as atenções se dirijam ao indigitado. Por outro lado, podemos olhar os
escândalos como parte obrigatória da história das finanças, na medida em que
eles fazem a sociedade, em especial seus sistemas de representação política e
de regulação econômica, romperem a inércia de cooperação quase automática com
agentes econômicos específicos, que pode ser prejudicial ao sistema econômico
como um todo.
Um caso recente, e de extrema relevância, é a lei Sarbanes-Oxley, o
aperfeiçoamento das leis de governança corporativa que foram rapidamente
concebidas e votadas nos Estados Unidos, na esteira do escândalo da Enron
(Blair, 2003a e b) e cuja promulgação provocou transformações nos mercados
financeiros do mundo inteiro (Gates, 2003). As diversas inovações introduzidas
naquela rodada já estavam disponíveis no arcabouço de soluções jurídicas norte-
americano, mas, segundo fontes jornalísticas, as várias relações "promíscuas"
que setores do Legislativo e do Executivo daquele país entretinham com agentes
e interesses particulares do mundo financeiro acabavam impedindo que elas
fossem promulgadas (David E. Sanger e Richard A. Oppel, 2002; Labaton, 2002;
Coffee, 2002). Podemos, assim, inferir o paradoxo de que os escândalos são
parte integrante da regulação do capitalismo contemporâneo (De Blic, 2005).
Dessa forma, seu estudo reveste-se de uma importância muito maior do que a
simples exploração de momentos idiossincráticos da história (Mackenzie, 2006).
A formação da imagem dos plutocratas varia, evidentemente, com os arcabouços
culturais disponíveis e mobilizáveis pela mídia e pelo campo político em
determinados lugares e momentos. Nos casos anteriores, o termo "plutocrata",
então em sintonia com a imprensa e as pregações internacionais, era usado
também no Brasil. Depois da derrota dos fascismos europeus, ele entrou para a
galeria dos arcaísmos. Mas o conteúdo parece se manter, ao menos em parte. O
poder do dinheiro, conseguido por arrivistas sem vínculo com o mundo da
produção, é usado contra os interesses populares e da nação. Um indivíduo ou um
pequeno grupo de financistas manipula os espaços econômicos e corrompe os
políticos segundo seus interesses, graças ao poder do dinheiro e da sua
desfaçatez. O resultado de situações e processos que não seguem de acordo com
os desfechos esperados pelos que os denunciam é imputado aos plutocratas, que
passam, assim, a encarnar os males da época. O plutocrata tradicional da Europa
costuma ser judeu, oriundo do mundo das finanças, e sua evocação faz parte
normalmente do repertório retórico da extrema direita fascista ou próxima
(Birnbaum, 1979). Nos Estados Unidos, ele pode ser confundido com os robber
barons, como os Rockfellers ou Andrew Carnegie, que monopolizaram setores
industriais considerados vitais para a economia dos Estados Unidos. Não eram
judeus, ainda que fossem representados graficamente como tais, brandidos
principalmente pelo movimento populista (McGerr, 1986, 2005).
O ponto que singulariza a situação brasileira do final do século XX e início do
XXI, tanto em relação ao nosso passado como à cena internacional, é a seqüência
de "candidatos" ao posto de plutocrata e a aparente estabilização desse
personagem na construção elaborada a partir da figura de Daniel Dantas.2 As
hipóteses que se depreendem dessa configuração são: 1) que a procura de um
plutocrata denota um mal-estar da sociedade brasileira em relação ao sistema
financeiro; 2) que a figura de Daniel Dantas se reveste de características
necessárias para pensar e transmitir esse incômodo; 3) que tais necessidades
simbólicas denotam, simultaneamente, a gestação e a oposição a uma configuração
simbólica e econômica que podemos chamar de "modo de dominação financeiro".
O mar das ambigüidades e a galeria dos personagens
À primeira vista, os termos "mal-estar" e "incômodo" parecem excessivamente
frouxos para servirem de base a uma hipótese científica. Entretanto, tal
frouxidão, a ambigüidade de sentidos, é parte essencial tanto da configuração
cultural que dá base às disputas econômicas que ocorrem na sociedade brasileira
atual, como condição para a eficácia social dos "totens" erigidos para
simbolizá-las (Darnton, 1986; Bourdieu, 1997).
Na seqüência que proponho, Naji Nahas aparece inicialmente como um "mega-
especulador", cujas manobras ousadas e heterodoxas teriam manchado a reputação
da Bovespa e, assim, comprometido o desenvolvimento do mercado de ações
brasileiro. Por causa disso, ele foi formalmente banido desse espaço e continua
"purgando seus pecados" (Attuch, 2004). A partir de então, aparecem alguns
elementos iniciais da trama: a) o espaço das finanças não goza de legitimidade
automática na sociedade brasileira, precisando controlar seus membros a ponto
de ter de sacrificar um indivíduo importante; b) subsidiariamente, temos que a
trama específica que provocou a sua evicção opôs Nahas, um "libanês
naturalizado brasileiro", ao então presidente da Bovespa, Eduardo da Rocha
Azevedo, que ostenta um sobrenome brasileiro tradicional ' índice importante de
respeitabilidade que, conforme veremos adiante, tem valor nesse espaço
("Ministro Rocha Azevedo é o nome de uma rua importante da cidade de São Paulo,
situada nos "Jardins"). De qualquer maneira, diante do perigo representado pelo
indivíduo que a linguagem corrente chama de "turco", o mercado recompõe a sua
imagem institucional, evitando que ele adquira perenemente a imagem de
"plutocrata", ainda que a imprensa e políticos tenham flertado com essa
possibilidade.
Nossa galeria segue com a figura de Benjamin Steinbruch. Protagonista destacado
do processo de privatização das companhias estatais empreendido nos governos
FHC, esse personagem é de origem judaica, o que é uma característica importante
para a qualificação de plutocrata, abrindo amplas possibilidades simbólicas
para seus detratores. Afinal, o "tipo-ideal" de plutocrata na tradição européia
é um judeu mais ou menos identificado à família Rothschild, quer dizer: de
origem asquenaze, com braços da família atuando internacionalmente, de maneira
a caracterizar implicitamente a falta de ligação com a pátria (Marrus, 1985;
Pinçon, 1998; Schor, 1992). Mas, ainda que essa saliência tenha sido brandida
esporadicamente, esse nosso personagem também não parece reunir as melhores
condições para ganhar esse cetro duvidoso. A origem do seu grupo econômico é
industrial e ele jamais deixou de se identificar nessa rubrica. Como veremos,
tal característica também pesa na trama.
Armínio Fraga, presidente do Banco Central durante o segundo mandato de FHC,
pode ser considerado o candidato seguinte à função de plutocrata.3 Nesse caso,
a principal associação foi sua condição anterior de gerente de fundos de
investimentos pertencentes ao "plutocrata internacional" (e judeu) Georges
Soros. Nesse enquadramento, tentou-se inserir a figura de Fraga na esteira da
imagem de seu associado. Esforços persistentes nesse sentido foram realizados
por diversos atores situados na esquerda do espectro político, pretendendo,
assim, demonstrar a submissão do governo federal da época ao braço mais
agressivo, e já estigmatizado, das finanças internacionais (Guilhot, 2004).
Mas, mais uma vez, a imagem não se manteve. A figura de Fraga aparecia
freqüentemente oposta à de Gustavo Franco, anterior presidente da mesma
instituição, tido como muito mais ortodoxo do que ele e responsável pela crise
cambial do final de 1998. Além disso, ele foi incensado por parte da imprensa
como um modelo de refinamento "despojado", e a sua figura pública não se
associou diretamente ao processo de privatização.
Voltemos, então, a Daniel Dantas, que completa (provisoriamente) nossa galeria.
Sua figura parece ser a mais adequada para ocupar o papel do plutocrata. Ele
foi protagonista ativo do processo de privatização, é banqueiro conhecido pela
agressividade de sua estratégia e pelo crescimento vertiginoso do banco, bem
como o sucesso público de suas empreitadas de maneira geral, que coincidem com
a privatização das empresas públicas e a "financeirização" de muitos ambientes
de trabalho. Além disso, a postura econômica que esse ator encarna é facilmente
vista como um microcosmo da violência que as finanças exercem sobre as
sociedades mediante a arbitragem ' monitoramento e ataque impiedoso dos
mercados financeiros internacionais contra os países que ousam adotar políticas
econômicas que não estejam de acordo com os "fundamentos sadios" propalados
pelo senso comum produzido naquele espaço (Guex, 2003; Grün, 2004a).
Os bons símbolos e o símbolo ótimo
Um primeiro ponto a ser destacado dessa seqüência de nomes é a sua própria
constituição. A meu ver, ela indica que a sociedade brasileira precisa e
procura incessantemente um símbolo bom para pensar a predominância das
considerações financeiras sobre outros arrazoados, o que parece ser flagrante
nos últimos anos. Assim, a dinâmica cultural faz com que diversos indivíduos
virem suportes materiais para a construção desse totem moderno. Mas, não
servindo integralmente para representar e discutir a ordem financeira, eles
desaparecem e/ou são substituídos por outros mais adequados. É assim que
Dantas, cujo processo de simbolização já estava em gestação na década de 1990,
parece estabilizar-se no papel social do "plutocrata", esmaecendo a imagem dos
outros "candidatos".
O histórico de sua notoriedade pode ser facilmente aferido na pesquisa das
menções ao seu nome nos jornais e revistas desde a década de 1990. Mais
recentemente, diversos episódios em torno da crise do "mensalão", ocorrida em
meados de 2006, dão cor à sua imagem. O novo banqueiro foi pintado como um
demiurgo, uma espécie de diretor do teatro de marionetes, no qual os políticos
e demais participantes do problema seriam meros títeres, por ele manipulados
(Leite, 2005). Como revelam as manchetes de diversos periódicos, estariam a seu
serviço desde as bancadas do PT, passando por peemedebistas e outros menos
votados, até as do PFL: "O orelhudo tá nessa: as conexões entre Daniel Dantas,
Marcos Valério, integrantes do PT e o depoimento da secretária" (Lírio, 2005),
"O Sinhozinho: Heráclito Fortes agride repórter do Piauí que quis saber sobre
seu apoio a Dantas" (Carta Capital, 2005), "Deputado do PFL clona' ação a
favor do Opportunity" (Souza e Alencar, 2005) e "Briga empresarial ajudou a pôr
Dirceu e Gushiken em campos opostos" (Helena Chagas, 2005).
Vemos, assim, a imagem do nosso plutocrata se robustecendo progressivamente.
Sua consolidação recente, associada ao papel que lhe imputam no escândalo do
"mensalão", inicia-se em rumores e sites próximos ao grupo dirigente
responsável pelas dificuldades que a crise provocou no PT. Aparece na revista
Carta Capital, publicação nitidamente fora do centro do jornalismo nacional
(Lírio, 2005) e caminha daí para o centro, representado pelos jornais O Globo
(Peña, 2005), Valor Econômico (Romero, 2005) e Folha de São Paulo (Souza e
Alencar, 2005). O trajeto da versão na mídia indica nele mesmo a formação de um
consenso de que a explicação em torno de Dantas merece alguma credibilidade
entre os fazedores de opinião. Afinal, em caso contrário a mídia não produziria
essa pauta, não veicularia a versão de sua culpabilidade nem de sua inocência.4
Podemos pensar o encadeamento da formação da imagem do plutocrata em dois
planos de análise distintos. O primeiro é interno à questão simbólica. É
evidente que as descrições de nossos personagens nos fazem prestar atenção ao
subconjunto das características que confirmam a imagem de plutocrata, lembrando
que tal imagem já faz parte do repertório político das sociedades ocidentais e,
assim, ela acaba se tornando uma espécie de taked for granted. As associações e
as seqüências mnemônicas têm uma aparência natural e familiar que contribuem
para criar verossimilhança. Por isso, dificilmente elas seriam questionadas
(Ginzburg, 1992). Estamos, portanto, diante de um arquétipo que viaja no tempo
e no espaço, ainda que destituído de seu nome próprio consagrado na
historiografia.5 A estrutura simbólica que suporta essa migração cultural não é
perfeitamente clara, mas nem por isso a evidência deve ser descartada. Salta
aos olhos o fato de o "mensalão" ser um artefato cultural próximo ao chéquard
do escândalo do canal do Panamá do final do século XIX e que a imagem pública
de "Marcos Valério" lembra o personagem Stavisky da França que precedeu o Front
Popular (Agulhon, 1990). Assim, a migração de conteúdos (ou estruturas)
culturais pode e deve ser objeto de uma minuciosa pesquisa histórica que
demonstre o trajeto percorrido e os suportes físicos e simbólicos que conduzem
a sua difusão (Ginzburg, 1989). Mas, embora essa empreitada seja,
evidentemente, importante e instigante, não me ocuparei dela no momento.
O outro plano diz respeito de qual realidade se trata e as razões situadas da
estabilização do nosso suporte simbólico. Parafraseando Lévi-Strauss, a
pergunta é refeita: Quais características singularizam Daniel Dantas diante dos
outros candidatos para, a partir dele, a sociedade brasileira construir um
totem "melhor para pensar" a sua relação com o mundo das finanças?
A resposta permite também delinear o processo de legitimação do nosso modo de
dominação financeiro. Os eventos ocorridos em torno do depoimento de Daniel
Dantas na CPI concentraram a atenção do sistema político e da mídia sobre o
personagem, o que nos ajuda a responder a questão.6 Em primeiro lugar, o
parlamento dividiu-se entre aqueles que o atacavam e os que o defendiam, todos
com ardor e belicosidade, o que já de saída denota a importância do caso (Peña,
2005). Para seus apoiadores, nele se concentrava todas as características que
um empreendedor moderno deveria possuir. Muito além das prosaicas
justificativas de "proteção aos nossos financiadores" ou "portador de segredos
que poderiam embaraçar os partidos responsáveis pelo governo FHC", Dantas
apareceu na CPI como um herói a ser preservado a qualquer custo da sanha
acusatória dos passadistas "estato-latras" e corporativos ligados ao PT. Para
os petistas mainstreamers, ligados aos sindicatos, ele aparecia como o grande
inimigo no espaço financeiro. À medida que os sindicatos passaram a disputar o
controle dos fundos de pensão, eles encontraram uma justificativa para essa
atuação, arvorando-se em defensores dos interesses dos trabalhadores e do
desenvolvimento econômico sadio no seio do mercado financeiro ' os "domadores
do capital financeiro" (Jardim, 2005). Esse grupo tem apresentado um discurso
que parece abraçar a velha tese do commerce doux do século XVII, recuperada por
Hirschman (1992). Nesse contexto, Dantas representa a encarnação mesma da fera
a ser enfrentada. Para os petistas não comprometidos com o mercado financeiro
(provavelmente aqueles oriundos dos movimentos sociais de origem religiosa), ou
para os atores políticos que abandonaram recentemente o partido, Dantas
representa tal mercado em geral. Ele é temido e rejeitado in totum(Cariello,
2006). Nas palavras da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL):
Durante toda a minha militância no PT, eu sempre ouvi falar sobre V.
Sª. Era meio como o Lúcifer, o gênio do mal, alguém preparado para
todas as piores coisas, ardilosas, para tudo aquilo que, na minha
opinião, é da essência do capitalismo: a chantagem, o suborno, a
espionagem, a corrupção. Só que a imagem que eu tinha de V. Sª é a
mesma que eu sempre tive ' e tenho ' do Sr. Henrique Meirelles
também. Então, o que para mim é a expressão da excrescência do
capitalismo é a mesma coisa: o Sr. Henrique Meirelles, indicado pelo
Presidente Lula como Presidente do Banco Central... Para mim, é tudo
a mesma coisa (Senado, 2005b, disponível no site http://
www.senado.gov.br/sf/atividade/Comissoes).
Um totem polissêmico
Como vemos, produzindo pelo menos três imagens, Daniel Dantas tornou-se um
símbolo ainda mais amplo do que Janus, o deus das duas faces. Essas
ambigüidades seriam problemáticas para a construção social do símbolo da
dominação financeira sobre a sociedade brasileira? A resposta seria afirmativa
somente se essa nova ordem atraísse ou a adesão ou a repulsa geral, o que é
praticamente impossível numa sociedade complexa. Como se trata de uma evolução
controvertida da sociedade, as ambigüidades acabam se tornando uma solução para
o problema da sua representação (Hacking, 1983; Ginzburg, 1991; Bourdieu, 1997;
Goody, 1997). Dantas é, evidentemente, um totem polissêmico, que pode ser
utilizado por diversos atores e estratégias retóricas, estruturando raciocínios
econômicos e políticos diferentes, e mesmo antagônicos. É assim que, ao
contrário de seus predecessores, sua imagem apareceu, cresceu e se mantém na
cena midiática dos últimos anos. Para o bem ou para o mal, seu protagonismo é
sempre reconhecido. E se alguém ainda pudesse duvidar da importância desse
personagem, bastaria lembrar que sua ausência no relatório da CPI provocou a
formação de uma frente suprapartidária para incluí-lo (Marques, 2006).
Tal sucesso, comparado à pouca aderência dos outros "candidatos", pode servir
de algoritmo para entendermos as peculiaridades da configuração,
inextricavelmente simbólica e econômica, que ganha corpo no Brasil
contemporâneo. Caminhando, assim, de trás para frente, podemos comparar Dantas
e Nahas. Enquanto este é visto com desconfiança, como um outsider completo, e
mesmo um arrivista sem ramificações na sociedade, operando apenas nos mercados
financeiros e para sua própria fortuna, aquele é nomeado como descendente do
Barão de Jeremoabo (Gaspari, 2006) e entra no circuito financeiro por
intermédio de Mario Henrique Simonsen (Leite, 2005). Trata-se, assim, de um
patrício com plenos direitos, digno de freqüentar as elites e de obter a boa-
vontade governamental para suas empreitadas. Seu banco serve a grandes
investidores, e a ação de deputados e senadores oriundos do grupo que
sustentava FHC durante o depoimento de Daniel Dantas na CPI tira quaisquer
dúvidas a respeito de seu entrosamento na ordem financeira definida durante os
anos do governo FHC (Peña, 2005). Surge daí uma outra constatação importante:
se a ordem financeira é um espaço do patriciado, quem não se encaixa nesse
figurino, ou em alguma variante dele, tem de pagar um enorme preço para tentar
legitimar-se, e o corolário é que qualquer erro nesse sentido faz o processo de
legitimação retroceder. No espaço internacional, os novos financistas "metecos"
pagam uma significativa taxa de adesão, bem como são compelidos a alimentar
continuamente a sua imagem, trocando vultuosas doações filantrópicas por
legitimidade social (Guilhot, 2004, 2006). No Brasil, observamos, entre outros
exemplos, a família Safra invocando uma tradição secular de atividade bancária
no Oriente Médio, na Europa e nos Estados Unidos, e Edemar Cid Ferreira, ex-
dono do Banco de Santos, tornando-se um patrocinador de alta visibilidade no
terreno das artes visuais. Assim, por caminhos diversos, os dois grupos ensaiam
pavimentar seu caminho rumo ao patriciado (Carvalho, 2006a e b).
A "prova de contraste" seguinte opõe Dantas a Benjamin Steinbruch. Segundo a
tradição européia, este ator de origem e nome indisfarçavelmente judaicos
deveria ser um forte candidato ao posto de primeiro plutocrata no Brasil. Nesse
sentido, a comparação servirá também para evidenciar algumas peculiaridades
brasileiras sobre o fenômeno. Podemos constatar diversas tentativas de colar o
rótulo neste personagem, como por exemplo um livro publicado por uma editora
pertencente a jornalistas de alto perfil midiático e com prefácio de Paulo
Pereira, o Paulinho da Força, que foi presidente, também de grande
visibilidade, daquela importante central sindical (Tiezzi, 2006). Entretanto,
ainda que não faltem empreendedores morais ensaiando criar tal associação, ela
pode até ter uma forte repercussão local, mas não se difunde na sociedade. A
origem industrial da saga econômica de Benjamin Steinbruch parece protegê-lo de
qualquer associação infamante. Mas é interessante que sua trajetória prepondere
sobre uma possível vinculação deste personagem ao mundo financeiro, mesmo que
ele já tenha sido membro do Banco Fibra.
7
Com efeito, o anti-semitismo não parece ter deitado raízes profundas na
sociedade brasileira: mesmo numa conjuntura favorável para acionar aquele
repertório, ele não funciona.8
Uma outra comparação recai sobre a figura de Armínio Fraga, que também foi
objeto de intenso bombardeio moral, ao ser acusado de tentar ganhar proveito de
sua relação com Soros, considerado o grande vilão para os inimigos atuais das
finanças. Na época da ascensão de Fraga ao posto de presidente do Banco
Central, Soros estava no centro de uma polêmica com o então Primeiro Ministro
da Malásia, Mahathir Mohamad, que o acusava pela crise que seu país atravessara
entre 1997 e 1998 (The Economist, 1997a e b). O grande especulador teria
deflagrado uma corrida contra a moeda desse país, e as acusações chegaram até a
flexionar o repertório do anti-semitismo, quando Mahathir Mohamad discursou na
Conferência dos Países Islâmicos (Cohen, 2002). Havia, assim, um halo de
verossimilhança para produzir a associação. Mas Fraga não serviu ao
estereótipo. Isso porque, de um lado, grande parte da imprensa e dos analistas
de mercado contrastaram sua "flexibilidade" à "ortodoxia" de Gustavo Franco, de
outro, ele obteve uma cobertura mundana muito favorável, destacando a sua
origem patrícia e seu refinamento ascético (Dias, 2000). Por fim, diversas
notícias davam conta de tratativas para mantê-lo no cargo de presidente do
Banco Central no início do governo Lula, denotando um reconhecimento ampliado
de seu desprendimento patriótico (Gaspari, 2002; Época Online, 2002; Traumann,
2002).
Vale destacar também que o personagem Armínio Fraga parece ter passado ao largo
do processo de privatização, não se envolvendo assim, ao menos publicamente,
com a questão mais controversa do período. Posteriormente, já no governo Lula,
Fraga aparecerá como gestor independente de fundos de investimentos e uma
espécie de herói das novas gerações do espaço financeiro, indicando não só as
boas estratégias de negócios, como também um art de vivre legítimo para os
membros desses grupos. Já Daniel Dantas não parece ter realizado nenhum
investimento de legitimação perante o grande público. Muito pelo contrário, ele
é sido acusado de ter escolhido o caminho inverso no sentido de manter o
controle das situações delicadas por que passam seus negócios mediante a
espionagem de seus eventuais adversários, alimentando, assim, o estereótipo do
plutocrata (Michael, 2004; Helena Chagas, 2005). E mais do que isso, ele foi,
talvez, a figura, que vinha do setor privado, mais saliente do processo de
privatização e também dos rearranjos societários que o seguiram.
É possível entender, assim, por que Daniel Dantas tornou-se "favorito" para
assumir o papel social do plutocrata. De um lado, a confirmação dos atributos
mais ou menos gerais que compõem tal papel: ele manipularia indivíduos,
instituições e agendas para promover seus interesses particulares; disporia de
recursos para isso e não hesitaria em usá-los, inclusive acaparando fundos das
empresas que administra como delegado (Mendes, 2006). De outro lado, ao se
tornar o grande "demiurgo" da privatização, ele interferiria diretamente numa
esfera da vida econômica e social que deveria ser autônoma relativamente às
finanças. Nesse caso, notemos que sua presença na configuração tem efeito
social diferente daquele que poderíamos esperar em relação a Steinbruch ou
Antônio Ermírio de Moraes, que, por terem vindo da ordem industrial, têm suas
presenças legitimadas no processo de privatização.
Mundo das finanças e mundo das artes
A esfera política abre outros caminhos analíticos: vimos na CPI diversos atores
atacarem Daniel Dantas de pontos de vista que claramente indicam o mundo
financeiro visto pelo ângulo dos fundos de pensão; vimos também aqueles que, ao
inquirir Dantas, lançavam um anátema a todo o sistema financeiro; e ainda
aqueles que defendiam esse personagem, procurando resgatar sua "positividade".
Temos, assim, dois contenciosos sobrepostos: um interno ao campo financeiro e
outro opondo o espaço financeiro a representantes imputados de outros setores
da sociedade. No primeiro, há um claro jogo interno ao campo do poder.
Schumpeter, nos primórdios da sociologia das finanças, já havia observado que
as estruturas sociais das finanças são a ossatura das estruturas mais gerais
das elites sociais e que seus contenciosos revelam justamente as disputas no
seio das elites (Schumpeter e Swedberg, 1991, p. 101). Durante os oito anos da
presidência de FHC, os "novos" banqueiros, dos quais Dantas é o exemplo mais
acabado, gozavam de uma enorme boa-vontade do governo federal e de suas
agências reguladoras e de fomento, à custa dos dirigentes de fundos de pensão e
dos agentes tradicionais do mercado financeiro. No governo Lula, a gangorra
inclinou-se um pouco mais para esses dois últimos grupos. O desvelamento dos
episódios de espionagem empresarial e de dirigentes governamentais que têm
Dantas e Kroll como acusados são a face visível desse contencioso, que envolveu
o comando e a propriedade de empresas privatizadas no governo anterior (Vieira,
2003; Folha Online, 2006). Num primeiro momento, tudo indicava que o governo
Lula favoreceria a inversão total do jogo. Posteriormente, parece que se chegou
a alguma acomodação (Romero, 2005). Afinal... vivemos no paraíso da conciliação
das elites.
Mas este exemplo permite avançar a análise no sentido de constatar uma
componente constante da estrutura social brasileira. Se olharmos a morfologia
social da disputa, percebemos que Dantas exemplifica um grupo que poderíamos
chamar de "vanguarda financeira". Há, de fato, uma homologia entre a posição
das nossas recém-denominadas vanguardas financeiras no campo econômico e as
vanguardas literárias e visuais no campo da arte: de um lado, na produção de
inovações no espaço em que atuam e nas condições sociais que permitem tal
ousadia;9 de outro, na libido que impulsiona tais práticas. No campo artístico,
os interesses materiais têm de ser denegados para compor com as formas de
legitimação do espaço (Bourdieu, 1992). Acontece o contrário no campo
financeiro. Para serem legitimados, os interesses não econômicos têm de ser
denegados e expressos pela retórica econômica da racionalidade. Uma vez que o
campo financeiro é parte do campo do poder, a libido dominandi é a base da
economia pulsional mais geral do espaço, ainda que apareça envolvida pela
retórica da necessidade e do interesse econômicos (Rieder, 1990; Lordon, 2002).
A atuação de Dantas pode ser entendida como uma postura vanguardista no espaço
econômico e financeiro: ele leva ao extremo a tendência à financeirização dos
espaços econômicos e usa os instrumentos financeiros, em especial a
"alavancagem", de maneira muito mais ampla do que o padrão até então aceito
nesse espaço.10 Assim, como uma espécie de tipo-ideal de postura financeira,
seu grupo utiliza mais capitais de terceiros do que o habitual; as empresas que
ele administra utilizam também com maior intensidade e amplitude tanto a
terceirização de trabalho e de atividades como os recursos das empresas que
atua como representante para realizar as finalidades específicas do seu
grupo.11 Seus antecessores ou não pensaram nas alternativas trilhadas por
Dantas, ou consideraram-nas excessivas. Mas uma vez postas em uso, elas passam
a fazer parte do arsenal de "ferramentas" aceitas, ao menos parcialmente, pelo
mercado. Afinal, a concorrência obriga os demais agentes a levar em conta a
performance das vanguardas, inclusive porque os clientes passam a exigir níveis
de rentabilidade equivalentes. Dessa maneira, ou ele revoluciona o espaço em
que atua, obrigando outros atores a alterar suas práticas ou aceitarem a perda
de espaço, ou seus adversários conseguem impugnar suas ousadias.
As transformações do espaço financeiro e econômico no Brasil seguem em grande
parte um padrão internacional. Num primeiro plano, as inovações surgem de uma
dinâmica social impulsionada por um contencioso geracional. Thompson (1997a e
b) mostra esse padrão fazendo valer a sua força nas transformações da City
londrina londrinas depois do Big Bang financeiro dos anos de 1980. Mackenzie
(2006), por sua vez, mostra como o desenvolvimento recente do mercado de opções
nos Estados Unidos foi o resultado da ação de verdadeiros empreendedores
morais, movidos por uma libido identitária que dificilmente poderia ser
reduzida a um prosaico apetite financeiro, podendo mesmo ser contraposta a ele.
Por fim, Galbraith (1993) lembra que a memória financeira é excepcionalmente
curta, pois as novas gerações atuantes naquele espaço tendem sistematicamente a
subestimar os riscos da "alavancagem" (como manifestação do conservadorismo de
seus antecessores), o que produz um efeito sistêmico de conduzir periodicamente
o mundo das finanças a situações de crise.
Inferimos, então, que o desabrochar e a necessidade de controle das novas
gerações são traços permanentes do campo financeiro. É assim que, nesse início
do século XXI, Dantas personifica as "novas gerações" para o público externo.
Para o público interno, tudo indica que Armínio Fraga seja a principal
referência (D'Ávila, 2004). Ambos cultivam o anonimato e a ascese, que os
distingue de "arrivistas salientes" como Nahas (ou Edemar Cid Ferreira, não
oriundo de "nação comerciante", mas de origem social modesta) e que, dessa
forma, realça suas condições de patrícios. Mas Fraga consegue evitar a cena
pública, exceto em condições propícias para afirmar seu patriotismo quando, por
exemplo, disserta sobre os rumos da política monetária ou cambial sem
anatemizar o governo Lula. Já Dantas parece bem mais avaro no que diz respeito
a manifestações que revelem seu interesse público. Suas disputas empresariais
são excepcionalmente salientes pelo ardor com que defende seus interesses
exclusivos, levando a lógica financeira ao seu extremo. Em analogia ao campo
artístico, ele faz o papel do enfant terrible, odiado por muitos e admirado por
alguns. O futuro dirá se estamos diante de apenas de um simples narcisista (ou
avaro) ou de um verdadeiro inovador da prática financeira. Mas, ainda que não
exista uma prova nesse sentido, o episódio de seu depoimento na CPI mostra que
ele é defendido com ardor por um conjunto grande de representantes públicos, o
que denota que sua atuação pode ser justificável na esfera pública (Senado,
2005b).
As responsabilidades sociais
O relevo do campo financeiro revela-se, assim, mais rico e complexo. As
diversas posturas e formas de legitimação indicam indivíduos e posições
diferentes em concorrência, cujas interações diretas e indiretas dinamizam esse
espaço e, dada a sua centralidade para a economia brasileira atual, acabam
influenciando o espaço social como um todo. O conjunto dos grandes bancos
comerciais, que à primeira vista parece distante dos nossos personagens, tem
aplicado políticas sistemáticas de "responsabilidade social" e, mais
recentemente, de "sustentabilidade", no sentido de torná-los atores legítimos
da ordem social brasileira, apesar dos juros e spreads estratosféricos que
aplicam e cobram de seus clientes (Cruz, 2006). Diante da constatação dessa
prática, eles alegam a excepcionalidade do momento vivido pela economia
brasileira, corroída pela incerteza provocada por ações governamentais
desastrosas. Uma vez "solucionadas" essas tendências, os bancos voltariam a seu
papel tradicional de fornecer liquidez para os ciclos comerciais e de
investimento, abandonando o papel de credores bem remunerados da dívida pública
(Troster, 2004). Mesmo que o volume de aplicação e de lucro seja
incomparavelmente maior do que o dos novos agentes, ainda que sejam os
principais clientes da nova elite financeira, da qual solicitam a administração
de carteiras de investimentos para atender suas clientelas mais sofisticadas
(D'Ambrosio, 2003, 2004; Pavini, 2005), eles não personificam o mundo das
finanças, como fazem nossos protagonistas "de vanguarda".
A responsabilidade social e a sustentabilidade podem ser consideradas novas
tecnologias de intervenção privada em questões sociais e ambientais. Em
primeiro lugar, elas elevam o patamar de efetividade da gestão da imagem
pública e da legitimação de um número cada vez maior de empresas que as adotam
(Sartore, 2006). Em segundo, representam um novo espaço social, um lugar
neutro, propício para a convergência das elites. Elites empresariais encontram-
se e põem-se de acordo com os representantes de ONGs encarregadas de
operacionalizar as questões a serem atacadas, assim como com as lideranças
sindicais presentes nos fundos de pensão que também coonestam esse
desenvolvimento (Grün, 2005b). Por meio desse congraçamento, os setores
estabelecidos restauram o balanço de reciprocidade social que a crise do Estado
assistencialista levou de roldão ou as novas demandas que ele não consegue
tratar. Nesse passo, restaura-se a hierarquia social apropriada para conferir
deferência aos patronos das ações e estabilidade para sua proeminência. Mas não
é só isso: a libido que pede esse tipo de atuação corresponde a um habitus
hierárquico alheio, até agora, aos nossos novos financistas. Nessa chave
explicativa, não é surpreendente que Dantas e demais financistas pouco façam,
ao menos publicamente, para preencher as novas funções do papel de dirigente de
empresas estabelecido e responsável.
A oposição entre Dantas e os dirigentes dos fundos de pensão também pode ser
explorada pelo lado das articulações em dois extremos do espaço financeiro.
Mais do que qualquer outro evento, a ida de Lula à Bovespa, em 2002, jogou
luzes na conexão que existia entre dirigentes dos fundos de pensão e setores
menos dinâmicos do mercado financeiro, como os operadores tradicionais da Bolsa
de Valores. De um lado, Lula ensaiava uma aproximação com os setores
suscetíveis a apoiar suas propostas, objetivando evitar a intensificação da
corrida contra o real, que poderia decretar um verdadeiro aborto de suas
pretensões presidenciais ou de seu futuro governo (Murphy, 2002; Ripardo,
2002). De outro, os novos financistas claramente jogavam pela derrota do
candidato do Partido dos Trabalhadores, "alertando" a população contra os
riscos de ela ousar um voto rebelde, principalmente por intermédio de Soros,
então convertido em seu ventríloquo (Gosman, 2002; Marques, 2002; Alencar,
2002; The Economist, 2002 ). No momento em que a eleição de Lula virou fato
consumado, a necessidade (e a capacidade) de acomodação dos diversos atores
passou a se fazer mais presente. Dantas e seus companheiros estavam mais
comprometidos com o espírito do período anterior, e provavelmente também foram
mais diretamente beneficiados do que outros atores. Dessa forma, para eles, o
caminho da conciliação seria mais longo, mas nem por isso impossível ou
impalatável (Valor Econômico, 2006; Recondo, 2006; Romero, 2005; Racy, 2006).
Desvela-se aí mais uma característica do espaço financeiro. O habitus local
tende a conduzir a uma neutralização de paixões que possam pôr em risco as
posições econômicas. Ainda que as paixões mexam com os indivíduos, os
mecanismos locais forçam-nos a relevá-las. Para o indivíduo que habita o espaço
financeiro, o homo conomicus não é simplesmente uma abstração heurística
eficiente ou uma falácia empírica, mas sim um modelo de conduta legítima a ser
perseguido. Porém, como qualquer identidade formada em tempos complexos, ele
não opera livre e desimpedindo, mas se choca diferencialmente com a libido
dominandi, que nesse contexto funciona como uma espécie de "lado negro da
força";12 e também com as novas sensibilidades, parcialmente legitimadas, de
responsabilidade social e sustentabilidade, que, por sua vez, entram em tensão
com a filantropia fulgurante promovida por atores como Soros.
Uma nova elite?
Outra característica do espaço aparece na localização geográfica dos nossos
personagens notórios: tanto Fraga como Dantas mantêm a sede de seus negócios no
Rio de Janeiro, invertendo uma tendência anterior de ver São Paulo como o
centro das finanças do país, principalmente dos bancos comerciais, o setor
"estabelecido" das finanças (D'Ávila, 2004; D'Ambrosio, 2004). Parte dessa
situação pode ser explicada pela localização no Rio de Janeiro das escolas de
economia mais identificadas com o pensamento ortodoxo (PUC-RJ; EPGE-FGV)
(Loureiro, 1997) e também pelos investimentos correlatos em legitimação
cultural da ordem financeira realizados por membros dessa nova elite.13 Afinal,
os operadores financeiros dessa vanguarda são recrutados em sua maioria entre
os economistas formados no Rio de Janeiro (e que passaram pela administração
financeira do governo federal) do que entre os administradores e economistas
formados nas "grandes escolas" paulistas da FGV e da USP, de alguma forma
contaminados pelo espírito industrial do período anterior e mais presente na
região.14 Essa separação geográfica torna mais fácil a diferenciação de padrões
de sensibilidade e de atuação econômica e financeira, acrescentando maior
complexidade ao campo do poder em âmbito nacional. Uma manifestação recente de
força desse novo agrupamento foi justamente a passagem obrigatória de diversos
aspirantes a adversário de Lula pela Casa das Garças (Balthazar, 2005; Cotta,
2006). Esse fato tornou evidente o papel de gatekeeping que esse novo grupo de
financistas-economistas exerce na relação entre o espaço financeiro
internacional e o campo político brasileiro.
Na relação entre economia e tecnologia aparece outro traço marcante da visão de
mundo do novo grupo e da atuação social que dela se depreende. Os anos de 1970
e 1980 foram marcados pela versão de que as economias industriais japonesa e
alemã seriam arranjos sociais mais eficientes do que os anglo-saxões,
fundamentalmente por causa da "concertação" de atores que elas ensejavam,
permitindo a colaboração harmoniosa de esforços patronais, laborais e
governamentais em torno de estratégias mais ou menos consensuais. Essa visão de
excelência econômica ficou comprometida nos anos de 1990, quando os Estados
Unidos passaram por um forte período de crescimento, ao lado da estagnação das
duas outras economias. A primeira interpretação para este fato faz menção à
liderança norte-americana de novas tecnologias na área de informática
desenvolvidas no período. Os Estados Unidos dominavam a produção dos softwares
e demais elementos da infra-estrutura informática e telemática ' daí sua
primazia. Essa versão foi questionada por outra, de fundo financeiro, segundo a
qual a superioridade norte-americana residiria na maior capacidade de
governança nos Estados Unidos por causa de seu mercado de capitais mais
desenvolvido do que em outros países (The Economist, 1994). Não por acaso, essa
versão foi encampada por nossos novos financistas, que passaram a advogar o
desenvolvimento de um mercado de capitais brasileiro mais próximo do exemplo de
sucesso norte-americano (Agestado, 2000). De um lado, seus investimentos
culturais os predispõem a acatar tal versão; de outro, a expansão do mercado de
capitais é, evidentemente, a situação social que melhor lhes convém para
rentabilizar de modo mais efetivo o fundo de comércio já estabelecido. Uma
conseqüência direta da predileção econômica e cultural é o tipo de estratégia
que esse gênero de ator tende a empregar na gestão de empresas, em especial
aquelas vistas como ineficientes, das quais as empresas estatais recém-
privatizadas são o exemplo marcante.
Retomando a questão da responsabilidade social, pode-se fazer uma outra
analogia com o campo artístico. As vanguardas costumam apresentar-se como o
grupo que realmente cultiva e leva às últimas conseqüências os valores internos
do meio, sem se deixar levar por compromissos espúrios. No caso da arte, a
grande questão reside no compromisso entre o desenvolvimento da lógica
especificamente estética, de discernimento difícil para atores fora desse
ambiente, como a clientela e os governos, e uma arte menos comprometida com a
vanguarda. No nosso espaço mais prosaico, a questão da responsabilidade social,
adotada decididamente pelos bancos tradicionais, aparece como um compromisso
entre a lógica econômica e financeira e a necessidade de reciprocidade social
que emerge das tarefas de legitimação geral da atividade financeira perante a
sociedade. Compromisso necessário para aqueles que têm de se justificar para o
mundo externo, mas uma atividade filosoficamente questionável para quem
acredita nas virtudes sociais da endurance produzida pela atividade econômica e
vê no funcionamento desimpedido das leis da economia a melhor forma de
regulação social possível.15
Na esfera internacional, essa questão é discutida num longo artigo publicado em
2005 na revista The Economist, em que o autor questiona a idéia de
responsabilidade social em nome da visão econômica tradicional, segundo a qual
a função da empresa é gerar lucros (Crook, 2005). Uma vez que os lucros são
taxados pelos governos, que empregam esses recursos nas necessidades sociais
segundo critérios mais abrangentes do que os que poderiam ser tirados do
discernimento dos capitalistas, a alocação da reciprocidade seria mais bem
realizada no âmbito governamental. A ousadia dessa revista, ao publicar um
artigo que desafia uma tendência social já legitimada e apoiada por arautos
muito fortes, foi retrucada por uma impressionante barragem de críticas,
oriundas de profissionais da área de responsabilidade social, mostrando o
enraizamento de "nosso enxerto" na paisagem social.16 Ficar de fora disso pode
sair caro em termos de uma política inclusiva, mas representa um
constrangimento identitário dificilmente evitável para o tipo de virtude que
emana de ambientes como aquele em que se cria a nossa vanguarda financeira.
Trata-se, assim, de um efeito de campo sociologicamente provável esperar que a
vanguarda financeira se mantenha distante da responsabilidade social. Ao
verificarmos a possível adesão de indivíduos ou empresas a esse tipo de
atividade, talvez signifique sua "domesticação" pelo ambiente social inclusivo
' a prosaica ascensão dos "indigitados" ao papel social de "estabelecidos".
Uma acusação constante, no tempo e no espaço, contra o mundo financeiro,
associa essa atividade a jogos de azar. Como vimos, os banqueiros estabelecidos
encontraram recentemente na responsabilidade social uma nova ferramenta para
lidar com a questão da legitimidade; já as novas gerações tendem a usar nessa
direção a tecnicidade ou profissionalismo de sua atividade (Mackenzie, 2006).
Em termos da posição que ocupa cada um desses grupos, essa divisão faz sentido,
já que os primeiros lidam muito mais freqüentemente com o grande público, ao
passo que os últimos estão confinados ao pequeno mundo dos grandes investidores
e das autoridades monetárias, os quais precisam ser convencidos da
razoabilidade das complexas operações financeiras que nossa vanguarda propõe.
No espaço das ações de benemerência que trazem legitimidade a seus
protagonistas, observamos uma tendência internacional por parte dos titulares
das novas grandes fortunas em adotarem posturas agressivas e individualistas,
não por acaso análogas àquelas que empregam em seus negócios de origem. Soros
é, mais uma vez, o exemplo flagrante, mas observamos um padrão análogo em
outras "jovens fortunas", não necessariamente oriundas do setor financeiro
(Strom, 2006; Miller, 1997; Guilhot, 2004, 2006). Vale lembrar que essas
iniciativas, inusitadas e potencialmente controversas quanto ao objeto (por
exemplo, doação de 1 bilhão de dólares de Ted Turner para a desacreditada ONU)
e ao tipo de apoio (por exemplo, combate às posturas internacionais do
presidente Bush patrocinado por Soros), passam ao largo do padrão do setor já
constituído da responsabilidade social empresarial, o qual, em geral, patrocina
causas que o bom-senso julga consensuais ' certamente as causas defendidas por
Soros e demais tycoons provocam tensões com o pólo estabelecido do setor
(Miller, 1997; Blumenfeld, 2003).
Não havíamos observado esse padrão no Brasil, mas o exemplo internacional
indicava que ele poderia aparecer. O depoimento de Dantas na CPI revelou que
ele e seu grupo também desenvolvem projetos na área da educação. Respondendo
sobre seus contatos com integrantes do governo Lula, afirmou que seu
interlocutor mais freqüente foi:
O Ministro Cristovam Buarque. Estávamos levando a ele um projeto que
fizemos para a Educação, que era um projeto basicamente para tentar
aproveitar um pouco da tecnologia gerencial privada e tentar
desenvolver práticas de custo mais baixo para que fosse possível
educar a um custo menor. Na verdade, de qualquer jeito, mesmo que
haja verbas suficientes para a educação, se for possível gastar
menos, é sempre melhor. Temos um instituto de desenvolvimento de
práticas onde foi desenvolvido um programa em que basicamente há um
pagamento, uma remuneração por cada aluno ' aprovado numa prova feita
pelo Estado ou por um órgão independente ' mas quem ganha é o
professor. E o professor ganha por aluno aprovado. Isso criou uma
grande motivação; o conteúdo de educação é um conteúdo preparado, um
conteúdo de alto conteúdo didático. Você não precisa de proficiência,
do ponto de vista dos professores (Senado, 2005a).
Independentemente da qualidade intrínseca da solução que ele aponta para
problemas educacionais, este iconoclasta atenta contra as formas estabelecidas
de remuneração e de motivação de professores, propondo incentivos típicos do
universo financeiro. Podemos ser contra ou a favor da forma e do conteúdo da
intervenção de Dantas na esfera educacional, mas temos de reconhecer que ela é
controversa, aproxima seus patrocinadores do "padrão Soros" e,
conseqüentemente, afasta-os do estilo "bom-moço" das ações de responsabilidade
social padronizadas. Vemos, assim, o habitus tycoon agindo no Brasil
contemporâneo também na esfera da benemerência.
O campo financeiro
As tensões internas do espaço financeiro, ao lado das cooperações diretas e
indiretas, mostram a existência de um espaço em que as estratégias e os valores
(monetários, sem dúvida, mas, como vimos, também simbólicos) são comparados e
retroalimentados. Mais uma vez em analogia com o campo artístico, vale lembrar
que os produtos da atividade financeira estão longe de obterem valor consensual
na sociedade. Assim como a obra de arte, eles dependem de uma alquimia social
complexa para ganharem verossimilhança (Mackenzie, 2001). Alquimia esta
produzida primeiro no próprio espaço financeiro ' talvez resida aí a principal
fonte de solidariedade interna, que predispõe a maioria dos players a coonestar
os artefatos produzidos pelos colegas/concorrentes, e praticamente obriga todos
agentes a não ficarem indiferentes às obras dos outros, seja para aceitá-las,
seja para refutá-las. O alargamento recente desse espaço, propiciado pela
entrada das elites não-financeiras, tornou o processo ao mesmo tempo mais
complexo e mais eficiente: um investimento ou instrumento financeiro utilizado
por um fundo de pensão torna-se mais verossímil, assim como um projeto
industrial ou de intervenção social endossados por uma ONG pré-legitimada por
atuações conhecidas pelo público. A conquista das adesões de agentes externos à
ordem e à lógica financeiras é um processo de negociação custoso, mas parece
representar uma tendência irreversível na cena atual (Camba, 2005). Como nas
gravuras japonesas, os produtos financeiros passam por uma cadeia de endossos
que lhes fornece o selo de qualidade; é difícil conseguir mais endossos, mas
cada novo atestado, investindo o capital simbólico do endossante, acrescenta
qualidade e segurança ao produto. É assim que, corroborando essa tendência,
apareceram recentemente não só o Índice de Sustentabilidade Empresarial ' ISE,
como também um novo produto, qual seja, a gestão de risco de carteiras
administradas pelos novos gestores, efetuada pelos grandes bancos estabelecidos
(Vieira, 2006). Em planos bem distintos, as duas evoluções ajudam a soldar a
cada vez mais longa cadeia de construção recíproca de verossimilhanças e de
interdependência que produz a legitimação da ordem financeira.
Mas os endossos também não custam barato. Os endossantes tensionam suas
posições em seus respectivos universos de origem. As ONGs cresceram em grande
parte a partir de opções de militância esquerdista, e o pragmatismo de alguns
continua sendo repudiado por outros. No caso recente do ISE, vimos o Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas ' Ibase sair da comissão que o
estava estabelecendo por discordar da inclusão de empresas que produziam
produtos considerados nocivos, como, por exemplo, tabaco (Pavini, 2005). Para
os sindicalistas gestores dos fundos de pensão, é sempre audível a voz daqueles
que os lembram que vários dos empreendimentos em que investem não são exemplo
de boas práticas trabalhistas ou que, mais doutrinariamente, condenam o sistema
de aposentadoria por capitalização, promovido pelos fundos.17 Em ambos os
casos, os atores que aceitaram jogar o jogo da legitimação cruzada respondem
dizendo que a sua presença naqueles universos possibilita a "domesticação das
tendências agressivas do capital". E como essa configuração é recente, as
conseqüências ainda não foram provadas: nos empreendimentos apoiados pelos
fundos de pensão ou coonestados pelo ISE, por exemplo, não ocorreu ainda nenhum
escândalo trabalhista ou ambiental, mas isso não quer dizer que não tenha já
ocorrido fatos que mereceriam o repúdio da sociedade. A calmaria tanto pode
significar o cumprimento da promessa de domesticação, como a incapacidade dos
militantes contrários à convergência de criar um clamor público necessário para
fazer a sociedade conhecer eventos e situações que atentariam contra a moral
dominante na sociedade ou no seu espaço de atuação particular.18
Talvez encontremos aí outro ponto que alimente nosso argumento em relação a
Daniel Dantas. Até onde as informações públicas indicam ' e nessa rubrica são
elas que contam ', ele não participa do circuito longo de legitimação que
aparece para o público externo. Ademais, seu contencioso com os fundos de
pensão e com o governo Lula, além de produzir estragos na imagem do setor
financeiro como um todo ' por tornar uma disputa comercial pública e cheia de
ingredientes de novela policial ', ajuda a dourar o brasão dos representantes
dos trabalhadores nos fundos, sugerindo que sua ação "domesticadora" está sendo
efetivamente realizada. No cerne da justificação apregoada pelos dirigentes dos
fundos de pensão, a imagem de plutocrata ligada a Daniel Dantas é um suporte
ideal para referendar a idéia de que eles funcionam efetivamente como
controladores do potencial destrutivo dos mercados financeiros, não só no
espaço econômico, mas também na esfera cívica. Nas palavras de Fernando Ferro
(PT-PE):
V. Sª [referindo-se a Daniel Dantas] faz parte de um grupo que, no
Governo Fernando Henrique, junto com os Mendonça, Pérsio Arida e
Elena Landau, constituiu um núcleo político e ideológico para se
apropriar de uma parcela do Estado brasileiro. O processo de
privatização foi uma investida no patrimônio do País para atender
grupos de que V. Sª faz parte. E para fazer isso, usou-se dos
expedientes políticos da interferência, das ações políticas, da
pressão do Presidente da República, de aliados, até da (Inaudível.),
que no final foi utilizada para esse tipo de ação política (Senado,
2005b).
Assim, querendo ou não o indivíduo de carne e osso que lhe dá suporte, o nosso
"totem" adquire uma força simbólica ainda maior. Sua face "maligna" é invocada
sistematicamente pelos sindicalistas e políticos inseridos no circuito
financeiro que se justificam como promotores do commerce doux redivivo. Mas a
polissemia está sempre presente, fertilizando nosso símbolo, pois há aqueles
que acreditam que os fundos de pensão não passam de um braço disfarçado do
execrado corporativismo getulista. Nessa chave, o mesmo papel dos fundos de
pensão é visto negativamente, e Dantas ganha o status de herói civilizador, que
ousa manter a luta contra o que seus cultuadores julgam ser um anacronismo que
teima em manter-se vivo no mundo globalizado.19 Nas palavras do senador César
Borges (PFL-BA), também expressas no depoimento em 21/9/2005: "É um empresário
de sucesso. E, hoje, acho que ele é até mais que um empresário, passa a ser um
mito, em nível nacional, diante dos seus negócios, e a controvérsia sobre muito
desses negócios".
Quando inquirido sobre as fontes de seu sucesso empresarial, em especial, sobre
o quê justificaria ser ele o operador do processo de privatização, Daniel
Dantas, além de proverbialmente omitir as respostas sobre as condições sociais
de seu sucesso (pergunta feita muito claramente por Gastão Vieira ' PMDB-MA),
qualifica-se afirmando que
[...] na época que montei o Opportunity, tínhamos o fundo mais
rentável do mundo. O Opportunity tinha ganho quase todos os prêmios
por ter sido um fundo extraordinariamente rentável. Eu já tinha
passado por várias experiências na área de investimento: fui diretor
do Bradesco, fundei o Banco Icatu, tínhamos uma empresa de
participações, já tinha passado por muitos negócios.
Sobre a inovação que estaria trazendo à economia brasileira, ele afirma:
Eu, em conjunto com os representantes do Citibank, fomos ao Governo
brasileiro, inicialmente ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, e
pedimos e sugerimos que, se fosse possível, criar uma linha e uma
estrutura que pudesse apoiar esse tipo de iniciativa. Fizemos uma
primeira explanação do que se tratava esse tipo de fundo, que, em
inglês, chama-se um fundo de private equity, mas, como acho melhor
usar o termo em português, se pudesse arriscar uma tradução, um fundo
de participações privadas. Hoje, nos países desenvolvidos, esse
talvez seja a grande mola do capitalismo inovador nos Estados Unidos
e na Europa. Existe mais ou menos US$1 trilhão investidos nesses
fundos. Toda a costa oeste americana é povoada de iniciativas que são
fomentadas por esse tipo de estruturas, que são especializadas em
captar recursos institucionais e aplicar recursos fomentando
empreendedores, empresas, quer viabilizando novas iniciativas, quer
mudando a equação gerencial de iniciativas já existentes, ou seja,
reestruturando operações que já existiam (Senado, 2005b).
A "mãe das novidades"?
Voltando à análise geral do campo financeiro, é interessante notar que os
"fundos de private equities" são realmente considerados uma inovação
importante, tendo sido inclusive "apadrinhados" pelos órgãos financeiros
internacionais como um dos principais instrumentos que as economias em
desenvolvimento devem se dotar para acelerar virtuosamente o seu crescimento.
Não é assim por acaso que o governo brasileiro assinou acordo com o FMI
comprometendo-se a estabelecer uma legislação específica para regulamentar essa
novidade (Valor Econômico, 2003). Vejamos: de um lado os agentes financeiros
privados propõem a inovação para resolver a questão do financiamento das
privatizações, o que resolveu um dos maiores problemas do governo anterior; do
outro, os órgãos internacionais insistem no estabelecimento das condições
institucionais para criar um mercado mais seguro, ajudando na generalização do
novo produto financeiro, do qual nossos agentes privados são os especialistas
confirmados.
Num outro plano, de história das idéias, notemos que a lógica que rege os
"fundos de private equity" representa uma forma de acumulação de recursos e de
repartição de lucro e risco já conhecida desde os primórdios do capitalismo,
tendo sido usada, por exemplo, pelos armadores para financiar as grandes
navegações. No Brasil, grupos étnicos, religiosos e elites locais promoveram
diversos empreendimentos a partir desse princípio, em especial a construção de
edifícios. Mas essas empreitadas, baseadas numa lógica social da confiança
"pré-capitalista", estão limitadas aos espaços sociais protegidos dos quais
emergiram. Os inovadores financeiros dos tempos atuais são capazes de produzir
as condições institucionais (de início, como vemos, as estritamente jurídicas;
resta saber se também no plano da taked-for-granted-ness) que generalizam e
normalizam aquelas práticas.
Assim, ao falarmos de "inovação" no setor que estamos analisando, é importante
ter em mente que uma boa parte do jogo se trava na esfera política, reforçando
a idéia de que o campo financeiro é uma parte do campo do poder. E aí aparece
outra característica desse mundo das finanças: as habilidades sociais
necessárias para os agentes financeiros trafegarem eficientemente no espaço
político não são enunciadas como tais, nem suas idéias como políticas. Pelo
contrário, ao investirem sobre o campo político, eles aparecem como
empreendedores e suas idéias como uma espécie de "senso comum" da modernidade.
Assim, eles "não fazem política" no sentido pejorativo que a atividade ganhou
nos últimos tempos. Ao contrário, para seus partidários, eles merecem ser
celebrados porque conseguem vencer as barreiras que o mundo da política impõe à
sociedade, ajudando-a a evoluir. Para muitos de seus inimigos, como vimos na
CPI, eles encarnam Lúcifer. Aí aparece outro ardil da dominação financeira.
Enquanto os detratores atacam os atores da estirpe de Daniel Dantas acusando-os
de não só fazerem política como também de corromper profundamente aquele espaço
cívico, a sua defesa se organiza em torno do argumento de que eles não só não
são políticos, mas encarnando a racionalidade econômica, eles são o próprio
motor do progresso da sociedade. Assim, a batalha cultural das representações
se concentra em torno da aceitação, ou não, da atuação dos financistas como
política ou econômica. A vencer a primeira, eles teriam complicações à frente.
Ao contrário, se prevalece a segunda interpretação, sua ação ganha espaços
ilimitados.
Conclusão
À primeira vista, o espaço das finanças parece um universo fechado,
impenetrável para a análise sociológica. Creio que nossas aproximações em torno
de certas figuras, produzidas pela relação tensa existente entre aquele
universo e a sociedade, tenham ajudado a diminuir tal impressão. Com base
apenas em fontes públicas, parte do espaço se torna visível e sociologicamente
compreensível. A parcialidade dessa compreensão é evidente, mas só poderá ser
realmente avaliada quando confrontada a outras tentativas de objetivação
sociológica desse espaço. Seriam nossos "plutocratas" realmente uma boa entrada
para um universo de práticas e hábitos tão esotéricos? Ou seriam apenas
epifenômenos que mascaram as tendências mais importantes? Outros pontos de
vista, outras ferramentas teóricas e outras fontes matizariam (ou
invalidariam), provavelmente, a presente análise, estimulando pesquisadores e
estudantes a investigar esse espaço tão vital para a sociedade, mas tão pouco
estudado pela sociologia.
Neste artigo, tentei "abrir a caixa preta" das finanças, procurando encontrar
algumas das fontes sociais de sua dinâmica interna e de suas relações com
outros universos. Obviamente existe uma complexidade muito maior do que deixa
entrever a fresta que explorei aqui. Alguns estudiosos procuram entender, de
maneira sistemática, a lógica da eficácia dos instrumentos financeiros
modernos, em geral com base teórica nos Estudos Sociais sobre as Ciências
(Mackenzie, 2001; Knorr-Cetina e Bruegger, 2002; Beunza e Stark, 2004). Outras
contribuições, geralmente trazidas por pesquisadores que antes se ocupavam da
sociologia das organizações, tentam dar conta sociológica do novo ramo da
economia financeira, que transformou significativamente o escopo da área
econômica, fazendo do economista um especialista em arbitragens a partir da
exploração de "falhas de mercado", e também apontam para o interessante caráter
performático dessa ciência social, que fica cada vez mais evidente conforme a
transformação profissional vai se aprofundando (Perrow, 1990; Fligstein e
Friedland, 1995; Grün, 2004a e b; Mackenzie, 2006). Esses veios riquíssimos
podem (e precisam) ser explorados de diversas formas nessas terras povoadas por
Chicago Boys. Apenas entrevi essa possibilidade na apresentação sumaríssima das
private equities. A "construção social" da verossimilhança e do mercado dessa
nova (e velha) entidade aparece muito nítida e, dada a sua centralidade na
montagem das operações financeiras que reconstroem a paisagem econômica
contemporânea, torna-se necessário conhecer a dinâmica da qual ela é produto e
que, por sua vez, é capaz de deflagrar ou aprofundar.
Um outro tema que apareceu em diversos pontos da análise é o da
"responsabilidade social das empresas" e de sua relação com as formas de
intervenção social e de construção de legitimidade inspirada pelos enfants
terribles das finanças e demais setores dinâmicos da economia. As duas
atividades costumam ser vistas no mesmo bloco, com base na diferenciação
referente à tradicional ação social sob controle direto dos Estados. Contudo,
esta análise mostra que se trata de pólos antagônicos, já que funcionam a
partir de lógicas diferentes e concorrentes. É necessário, portanto, observar
as fontes de tensão causadas pela coexistência desses dois fenômenos, apenas
parcialmente recobertos pela mesma rubrica. Afinal, mesmo que eles não atinjam
diretamente uma parcela muito relevante da paisagem social, é indisfarçável sua
pretensão de influir na ação governamental de maneira direta ou, pelo menos,
causar algum efeito sobre as estratégias de políticas públicas.
Os nossos "plutocratas" tornam-se figuras públicas a partir do que,
provisoriamente, chamamos de "escândalos".20 Segundo os estudiosos que se
ocupam das técnicas de "escandalização", a melhor maneira de medir o sucesso
dos empreendedores morais que se utilizam do escândalo como forma de fazer
avançar seus propósitos é o impacto produzido na cena pública, alterando, ou
não, procedimentos, leis, hábitos e costumes. Periodicamente, a sociedade
brasileira ensaia "escandalizar-se" com algumas conseqüências da dominação
financeira, como, por exemplo, os lucros e as margens do sistema bancário, mas
pouco se faz efetivamente para alterar o preço da intermediação financeira.
Seguindo essa lógica, poderíamos dizer que os protestos antifinanceiros são
produzidos por uma coalizão de empresários, sindicalistas e intelectuais
tradicionais que se insurgem contra o que consideram ser o maior impedimento ao
desenvolvimento econômico do país. Mas eles são neutralizados pelos
empreendedores morais da "causa financeira" ' economistas mainstreamers e pelo
establishment ', que os ridicularizam, esvaindo qualquer possibilidade de
protesto mais eficiente. Novos anúncios sobre os resultados financeiros dos
bancos, o acaso da publicação de algum estudo sobre o spread bancário, ou,
ainda, uma tentativa de criar ou de esvaziar algum escândalo ligado a problemas
financeiros, quaisquer desses fenômenos reproduziriam a discussão anterior.
Previsivelmente, elas também seriam enquadradas pelos novos guardiões da
racionalidade societária. Duas possibilidades podem ser extraídas dessa
aparente abulia: a primeira, mais concreta, é que a sociedade brasileira já
naturalizou a dominação financeira; qualquer abalo nessa ordem simbólica seria
rapidamente controlado pelos "intelectuais da ordem". A segunda, menos
evidente, indica que esse movimento periódico das marés está produzindo um novo
formato da estrutura simbólica da sociedade, criando categorias para expressar
as sensibilidades antifinanceiras.
Notas
1 Este artigo tem por base análises mais microsituadas de como o mundo fabril
se dobra ao predomínio financeiro (Grün, 1999); do espaço organizacional e da
transformação da sua relação com o mercado de capitais (Grün, 2003a, 2005a e
b]); algumas relações internas ao mercado financeiro e suas conseqüências no
espaço político (Grün, 2004a e b). Dessa forma, a possibilidade de ensaiar uma
análise específica da dinâmica cultural da dominação financeira nutre-se do
conhecimento sobre o espaço das finanças, seus instrumentos de ação econômica e
social e de suas relações com outros setores.
2 Evidentemente, o que interessa para a análise sociológica da cultura
financeira é a imagem e o personagem Daniel Dantas, e não o indivíduo.
3 Segundo uma biografia oficial, Armínio Fraga foi presidente do Banco Central
do Brasil de março de 1999 a dezembro de 2002. Anteriormente, ocupou durante
seis anos o cargo de Diretor Gerente da Soros Fund Management LLC em Nova York.
Entre 1991 e 1992, Fraga foi Membro da Junta de Diretores e Diretor do
Departamento de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil. Também
trabalhou em Salomon Brother em Nova York e no Banco de Investimentos Garantia,
no Brasil, e foi professor na Escola de Assuntos Internacionais da Universidade
de Colúmbia, na Escola Wharton e na Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Atualmente, ministra cursos na Escola de Pós-graduação em Economia da Fundação
Getúlio Vargas no Rio de Janeiro,. Doutor em Economia pela Universidade de
Princeton, Fraga formou-se como bacharel e fez mestrado em Economia na
Universidade Católica do Rio de Janeiro em 1981. Além disso é membro de
prestigiosas organizações internacionais, como o Grupo dos Trinta, o Conselho
de Relações Internacionais, a Junta de Assessores ao Presidente do Foro de
Estabilidade Financeira, a Junta Assessora de Pesquisas do Banco Mundial, o
Diálogo InterAmericano e a Junta de Diretores de Pro-Natura (Estados Unidos).
4 A partir desse momento, um caminho analítico paralelo leva em conta a mídia
enquanto campo, suas relações com outros espaços sociais, como o da política e
do Judiciário, e as razões internas de cada um deles na formação desse "totem".
Aí, o foco são os constrangimentos internos de cada espaço ' a competição e a
colaboração entre profissionais, entre empresas, as relações entre os primeiros
e os segundos, bem como a competição e a colaboração entre a mídia e outros
subespaços que compõem o que Bourdieu (1989) chama de campo do poder. A esse
respeito, ver Grün (2006).
5 Nomes costumam migrar mais facilmente do que conteúdos estruturados, já que
permitem flexões locais de sentido que afetam pouco a legitimidade do rótulo
importado. Dessa forma pudemos observar a importação recente da "ferramenta"
governança corporativa no Brasil, um rótulo legítimo e poderoso no mundo
empresarial e financeiro, mas que aqui serve para "consertar" situações
diferentes daquelas que aparecem na cena original estadunidense.
6 A transcrição taquigráfica do evento foi acessada em 23/8/2006 no site http:/
/www.senado.gov.br/sf/atividade/Comissoes/consComCPI.asp?com=1335. A sessão
também foi integralmente filmada pela TV Senado, disponível sob pedido (Senado,
2005b). A observação das posturas do depoente, seu séqüito e dos parlamentares
durante o depoimento possibilita uma socioanálise das formas verbais e gestuais
de se fazer importante nos espaços financeiro e político e seus efeitos
sociais. Uma das manifestações mais eloqüentes do desvelamento da estrutura
social que ocorreu no episódio foi a fala de Zulaié Cobra (PSDB-SP): "A minha
pergunta, Sr. Daniel Dantas ' eu já vi que Daniel Dantas é como todo rico: fala
baixo. Eu preciso ser um pouco mais rica e falar baixo. Gente pobre fala muito
alto. É uma desgraça! Vou fazer um curso para falar baixo (Senado, 2005a).
7 Na mesma chave, constatamos que imagem pública do grupo Votorantin ' sempre
lembrado como o mais importante conglomerado industrial brasileiro ' não é
enfocada por sua presença no mundo financeiro, , apesar da grande importância
que tem o Banco Votorantin no portfólio do grupo. Não é à toa que seu dirigente
mais conhecido, Antônio Ermírio de Morais, é visto e festejado como "campeão"
da indústria brasileira.
8 Deparei-me com esse traço da sociedade brasileira num outro objeto
completamente diferente: as formas como políticos de origem judaica se inserem
no espaço do seu ofício (Grün, 1994). O que une os dois espaços é o fato de
ambos serem espaços públicos, onde os agentes sociais acionam, e testam, os
diversos recursos retóricos disponíveis na sociedade. A soma das evidências dá
segurança à afirmação do caráter pouco importante do anti-semitismo no Brasil.
9 Não significa que a ousadia seja apanágio de indivíduos de origem "patrícia",
mas que estes pagam preços menores por ela não só na legitimação de seus atos
mas também no custo de eventuais fracassos.
10 O volume de recursos mobilizado por Nahas nas ações bursáteis também denota
o uso extremo da "alavancagem", mas num contexto em que sua legitimidade era
mais precária, fragilizando o personagem e, muito provavelmente, levando-o à
derrocada.
11 É justamente nesse ponto que seus concorrentes intervêm na esfera jurídica,
impugnando o uso que Daniel Dantas faz dos recursos que administra como
delegado (Mendes, 2006). O desfecho desse contencioso pode ser entendido como
uma prova de laboratório da aceitação social ou da reprovação das práticas
"vanguardistas" no espaço econômico.
12 Lordon (2002) explora sistematicamente a disputa por controle entre os
grandes bancos franceses. A variação das justificativas de cada um mostrou a
plasticidade da "lógica" econômica, claramente transformada em uma retórica
complacente e subsumida pela libido dominandi. No nosso espaço empírico, as
constantes acusações sobre os atos de espionagem de DD/Kroll podem ser
catalogadas como essa libido dominanditransfigurada em "necessidade de conhecer
os próximos passos de nossos adversários".
13 O mais interessante é o Instituto de Estudos de Economia Política, conhecido
como a "Casa das Garças" (ver site http://iepecdg.com/DISK_1/paginaquem
somos.html). Não por acaso, os candidatos a adversário de Lula nas eleições de
2006 passaram pela "sabatina" do grupo (Gois, 2006a e b).
14 Evidentemente, a gênese desse "efeito de aglomeração" merece uma explicação
em si mesma. Ainda que não comprovada, é sedutora a hipótese de que estejamos
diante de algum tipo de continuidade do padrão da economia pré-industrial, em
que a produção agrícola era efetuada no interior de São Paulo, enquanto as
operações financeiras correlatas (opções de futuro, empréstimos e adiantamentos
etc.) eram realizadas no Rio de Janeiro ou em Santos. Mas, de qualquer maneira,
creio ser lícito inferir que a continuidade do predomínio financeiro na
economia e na sociedade tenderá a alinhar o ensino de economia e administração
de São Paulo com a nova realidade.
15 Sobre a lógica mnemônica do raciocínio que faz nascer a virtude a partir da
rigidez econômica, ver Lakoff ( 1996).
16 Para as críticas e as discussões em torno dessa questão, ver o site http://
www.economist.com/surveys/displaystory.cfm?story_id=3574392.
17 Na "capitalização", cada participante do sistema tem uma conta particular
que acumula suas prestações, as do seu empregador e os rendimentos delas (a
capitalização), e o montante que ele receberá quando aposentado será calculado
a partir dos resultados financeiros dessa acumulação individual. Na
"repartição", os trabalhadores de uma geração "X" pagam as aposentadorias dos
seus antecessores (geração "X-1"), que são atribuídas por critérios de justiça
social e esperam que seus sucessores no mercado de trabalho (geração "X+1")
façam o mesmo em relação a eles. Esse sistema é considerado mais eficiente em
termos de manter a coesão social, ao passo que o primeiro é considerado melhor
para induzir o desenvolvimento econômico, pois geraria excedentes em posse de
particulares para serem investidos em negócios lucrativos. A quase totalidade
dos atores contemporâneos considerados especialistas no tema é partidária da
"capitalização", embora haja uma oposição, em geral advinda do catolicismo
social europeu, que corrobora a crítica que muitos sindicalistas fazem do
sistema (Nikonoff, 1999). Mais recentemente, a evidência de sérias crises em
fundos de pensão tradicionais parece estar alterando a "doxa" pró-capitalização
para posicionamentos mais nuançados (Virard, 2006; Olmos, 2003; Grün, 2005).
18 Os estudos sobre mobilização mostram que para "criar um escândalo" é
necessário capacidade e tecnologia específicas '"saber e poder" ' que refletem
as assimetrias na distribuição de capitais social e cultural (Champagne, 1984;
Garrigou, 1993; Neveu, 1996) . Dessa forma, o fato de não haver escândalos pode
indicar não só, ou simplesmente, a complacência moral da sociedade em relação
ao evento em questão, mas também o enfraquecimento daqueles que se sentem
incomodados por ele (De Blic, 2005).
19 Além da atuação recente da "bancada Daniel Dantas" no Congresso Nacional,
manifestações de integrantes do governo FHC mostraram que muitos agentes
daquela constelação partilham da idéia, ainda que os fundos sejam considerados
cidadãos de pleno direito da república internacional das finanças (Futema,
2002; Grün, 2003a).
20 Os escândalos produzem ondas de choque que vão bem além das intenções de
seus deflagradores e expressam as próprias dinâmicas culturais e sociais a que
estamos submetidos. No caso do "mensalão", vimos surgir algo inesperado: a
reprovação social ao processo de privatização das empresas estatais,
empreendido durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso. A esse
respeito, ver Grün