Capitalismo dos técnicos e democracia
O século XX ficará conhecido no futuro por muitas mudanças importantes: foi o
século do progresso tecnológico, das organizações mais do que das unidades de
produção familiares; o século em que o número de burocratas ou de técnicos
aumentou a ponto de merecerem ser identificados como uma classe social ' a
classe média profissional. Juntamente com essas mudanças, foi o século em que o
conhecimento acabou se tornando o fator de produção decisivo, e o controle do
conhecimento tecnológico, organizacional e comunicativo tornou-se estratégico.
No entanto, foi também o século da democracia, que representa um freio a esse
novo poder, ao mesmo tempo em que é condicionada por ele.
Enquanto ocorriam mudanças nas esferas social e política, as economias
experimentaram enorme crescimento e tornaram-se muito mais complexas. Nesse
processo, os mercados assumiram um papel importante na coordenação da economia
' alocando fatores de produção empregados pelas empresas comerciais ', mas,
obviamente, a coordenação de todo o sistema ultrapassou em muito suas
possibilidades. Na esfera política macro, o papel do Estado e do sistema
institucional ou legal que ele cria e impõe cresceu extraordinariamente. No
âmbito da sociedade civil (da sociedade politicamente organizada), as
organizações corporativas e, em um segundo momento, as organizações de
responsabilidade social cresceram em número e influência, agindo como
mecanismos de controle dos governos. Ao mesmo tempo, na esfera econômica, as
grandes corporações e todos os outros tipos de grandes organizações tornaram-se
predominantes em toda parte. As empresas exigiam empresários, as organizações
precisavam de administradores ou técnicos ou profissionais abrangendo um
espectro cada vez maior de especialidades. As organizações continuam a exigir
ação empresarial ou inovadora, mas o espírito empreendedor se tornou cada vez
mais coletivo, e não individual. Dentro de todas as organizações, começando
pelo aparelho do Estado e incluindo as organizações de responsabilidade social
sem fins lucrativos, as grandes empresas comerciais e as grandes organizações
de serviço sem fins lucrativos, as demandas de conhecimento técnico,
administrativo e comunicativo também cresceram dramaticamente ' e o poder dos
administradores ou técnicos aumentou proporcionalmente.
No mundo contemporâneo, instituições, organizações e redes são muito mais
complexas, na medida em que incorporam um progresso científico e tecnológico
cada vez mais sofisticado e que lidam com grandes organizações, regulando redes
densas. Em 1967, Galbraith observou que o conhecimento técnico tinha se tornado
um fator de produção estratégico. Um pouco mais tarde, quando escrevi meu
ensaio básico sobre o aparecimento da tecnoburocracia ou da classe média
profissional, acrescentei ao conhecimento técnico o conhecimento organizacional
ou administrativo (Bresser-Pereira, 1972); estou agora incluindo um terceiro
elemento, o conhecimento comunicativo, para enfatizar o novo papel desempenhado
pela tecnologia da informação na formação daquilo que Manuel Castells (1996)
denominou, e analisou com tanta agudeza, a "sociedade das redes". Chamarei
essas três formas de conhecimento de "conhecimento operacional", na medida em
que elas são necessárias para tornar operacionais as modernas e complexas
sociedades em que vivemos.
A alegação de Galbraith de que o capital estava deixando de ser o fator
estratégico de produção, sendo gradualmente substituído pelo conhecimento
tecnológico, apareceu em seu livro clássico O novo estado industrial(1979
[1967]). Hoje em dia há poucas dúvidas sobre o acerto de sua previsão. Vivemos
no capitalismo dos técnicos ou na sociedade do conhecimento ' em um sistema
social que continua sendo capitalista, mas é cada vez mais controlado pelo
conhecimento, e não pelo capital. As características centrais do sistema
capitalista ' a coordenação do mercado, o lucro como motivação básica e a
acumulação de capital com progresso técnico incorporado como o meio básico de
atingir resultados ' continuam sendo válidas, mas o conhecimento se tornou mais
estratégico do que a propriedade do capital. No processo produtivo, os bens de
capital continuam sendo um fator central de produção e sua propriedade, uma
importante fonte de receita e poder, contudo são hoje relativamente menos
escassos do que o conhecimento, do que a capacidade de dominar a tecnologia, de
administrar as modernas organizações e de comunicar-se através dos vários tipos
de mídia. No âmbito político, o conhecimento sempre foi estratégico, mas ele se
tornar estratégico na esfera econômica é um importante fato histórico novo que
está necessariamente afetando a democracia.
A maior e mais óbvia conseqüência social dessa mudança foi o surgimento da
classe média profissional, ou da tecnoburocracia, que, atualmente, divide a
renda e a riqueza com a classe capitalista, tanto nas organizações privadas
como nas organizações públicas estatais e não estatais, enquanto compete por
influência e poder.1 A conseqüência política mais importante é que o surgimento
dessa nova classe favoreceu a consolidação da democracia. A democracia só se
consolida quando a sociedade respectiva conta com uma "nova" classe média
profissional ampla e uma "antiga" classe média de homens de negócio de pequeno
e médio porte. Durante algum tempo, porém, os analistas resistiram a essa idéia
do surgimento de uma nova classe social. Primeiro, porque a classe média
profissional, que inclui políticos e intelectuais, não gosta de ser chamada de
nova classe social, e "se esconde"; segundo, porque aceitar a idéia de uma nova
classe social emergente poderia acarretar uma perda de poder para a classe
capitalista ' algo que especialmente a esquerda não estava preparada para
aceitar, salvo se essa mudança apontasse na direção do socialismo; e terceiro,
porque a teoria de uma nova classe social, que estava surgindo nos países
capitalistas e havia se tornado predominante na União Soviética, contradizia a
análise padrão dos cientistas sociais acerca do poder político.
No entanto, o crescimento da nova classe média foi tão extraordinário que ficou
impossível não reconhecer sua existência e sua nova importância. Assim,
partirei do pressuposto de que o conhecimento operacional é o novo fator
estratégico de produção, e de que a classe média profissional divide renda e
disputa poder com a classe capitalista. Quais são as conseqüências dessas novas
realidades? Podemos falar de um capitalismo dos técnicos, ou do conhecimento?
Podemos ter um capitalismo no qual o poder e uma nova renda derivariam
principalmente do conhecimento e não do capital? Em caso afirmativo, isso
significaria que a classe média profissional "ganhou" sua lutar por poder, ou
que a classe capitalista ainda mantém não apenas a riqueza, mas o poder
político? Seria o conceito de capital ainda o mesmo ou, dada a existência da
organização, deveria ele ser revisto? Pode a democracia ter-se tornado uma
efetiva "força compensatória", no sentido que Galbraith dá a essa expressão?
Como aproveitar as vantagens derivadas do fato de o conhecimento se tornar o
fator estratégico de produção sem incorrer em suas desvantagens? Neste
trabalho, proporei algumas respostas a essas questões.
O técnico e a organização
Sempre que possível, a ciência social convencional evita o uso da palavra
"capitalismo", preferindo expressões mais gerais como sociedade de mercado ou
economia de mercado. Apesar disso, capitalismo é uma palavra forte e não pode
ser evitada. O capitalismo tem recebido muitos adjetivos, à medida que vai se
modificando com o tempo. Capitalismo liberal ou clássico, capitalismo
monopolista, capitalismo organizado, capitalismo industrial, capitalismo
informacional, capitalismo global, cada um enfatizando um determinado aspecto.
Ou, em lugar de adjetivos, algumas expressões tentam sugerir que o capitalismo
foi ultrapassado, tendo em vista seu próprio sucesso. Viveríamos agora em
sociedades pós-capitalistas, ou em sociedades pós-industriais, ou na sociedade
global. O fato de que o conhecimento operacional está gradualmente substituindo
o capital como o fator estratégico de produção parece corroborar esta última
abordagem. No entanto, embora relevante, a variável fator estratégico não
define por si só a natureza social e econômica do sistema capitalista. O
capitalismo não precisa necessariamente ser o capitalismo burguês; pode bem ser
o capitalismo dos técnicos ou, mais diretamente, o capitalismo do conhecimento.
O capitalismo foi originalmente definido por Marx como o sistema econômico e
social no qual os meios de produção estão historicamente separados dos
trabalhadores, dando origem a uma classe capitalista ou burguesia, que detém o
capital (a propriedade privada dos meios de produção), e a uma classe
assalariada de trabalhadores ou proletários. Os capitalistas são motivados pelo
lucro ou pela mais-valia, que é realizada no mercado por meio de uma troca de
valores equivalentes. Para auferir lucros, os empresários acumulam capital e
inovam, incorporando o progresso técnico ao processo produtivo, e contratam
trabalhadores que vendem sua força de trabalho no mercado como qualquer outra
mercadoria. Definidas nesses termos gerais, as sociedades do século XXI
continuam sendo capitalistas, apesar da enorme mudança que sofreram. A economia
continua a ser essencialmente coordenada pela competição de mercado. A
motivação do lucro ainda é primordial, e a acumulação de capital com
incorporação do progresso técnico continua sendo o meio por excelência de obter
lucros.
No entanto, na medida em que as organizações substituíram as empresas
familiares como a unidade básica de produção, e na medida em que o conhecimento
operacional se tornou o novo fator estratégico de produção, o controle da
produção mudou de mãos. O capitalismo clássico foi obviamente o capitalismo do
capital; o capitalismo dos técnicos, porém, ocorre quando capital e organização
se associam. Como Berle e Means (1932) observaram há muito tempo, a separação
entre o controle e a propriedade das grandes empresas ocorreu no capitalismo
moderno. Em toda parte, administradores ou técnicos substituíram os acionistas
ou os capitalistas na direção das organizações produtivas. Já utilizei
"tecnoburocrata" em lugar de técnico, mas é uma palavra comprida com conotações
negativas. "Burocrata" seria uma alternativa, mas geralmente se limita ao setor
público. Apesar de suas deficiências, usarei de preferência a expressão
"técnico" a "administrador" como a expressão moderna para burocrata, inclusive
burocratas privados. O termo "administrador" também seria adequado, na medida
em que o administrador controla diretamente as organizações. Mas nosso ator
social pode ser um profissional que domina problemas técnicos ou que trabalha
em redes de comunicação. Se ele trabalhar para organizações comerciais, será um
administrador ou um técnico privado; se trabalhar diretamente para o Estado ou
para organizações sem fins lucrativos, será um técnico público ou um
funcionário público ' técnicos públicos incluem os que trabalham para
organizações sem fins lucrativos, enquanto funcionários públicos trabalham para
o Estado, como políticos eleitos ou como servidores públicos não eleitos.
Intelectuais e cientistas também estão na ampla categoria de técnicos ou
profissionais. Os técnicos, como as outras classes sociais, estão organizados
em estratos (Bresser-Pereira, 1981b): embora eu fale de uma classe média
profissional, porque a grande maioria dos técnicos pertence à classe média,
existem também executivos com altos salários, que fazem parte mais
adequadamente dos estratos superiores, assim como burocratas de nível inferior
que se situam mais adequadamente na classe baixa. O técnico toma decisões,
define instituições, organiza a produção, cria redes, desenvolve novos
conhecimentos, propaga ou questiona valores e crenças, tendo como legitimidade
não a tradição nem o capital, mas o conhecimento.
Esta distinção entre capitalistas e técnicos pode ser sempre questionada com o
argumento de que do moderno empresário capitalista se exige não apenas capital
e a capacidade de assumir riscos, mas também o conhecimento, do qual deriva a
inovação. No entanto, a legitimidade máxima do capitalista deriva do capital,
não do conhecimento. É verdade também que a clássica definição do empresário
feita por Schumpeter diz que "capital" não é a propriedade dos meios de
produção, mas o crédito ' a capacidade de financiar a inovação. Contudo, ao
formular essa definição de empresário, Schumpeter (1961 [1911]) estava prevendo
a história, estava sugerindo o tipo de espírito empreendedor individual que,
juntamente com o espírito empreendedor coletivo nas grandes organizações,
constituiria o típico capitalismo dos técnicos.2 É verdade que, como um
resultado final de seu espírito empreendedor, o técnico, o detentor de
conhecimento, também se tornará um capitalista. Mas isso não muda a fonte
básica da qual ele obteve a riqueza.
No capitalismo clássico tínhamos apenas duas classes sociais, se ignorarmos a
aristocracia ou os proprietários de terra, cujo papel foi desaparecendo com a
ascensão do capitalismo. Nas sociedades modernas temos três classes sociais ' a
classe capitalista, a classe média profissional e a classe trabalhadora. Ter
duas classes sociais dominantes não faz sentido quando se adota uma abordagem
marxista ortodoxa. Não sendo um marxista, no entanto, em meus escritos
anteriores sobre o assunto apresentei uma solução a esse problema. Em primeiro
lugar, opus capitalismo "puro" ao modo de produção estatal ou tecnoburocrático
"puro", que teria a "organização" como a forma específica de propriedade. Em
segundo, sendo provavelmente mais fiel a Marx do que os marxistas oficiais,
defini o capitalismo moderno como um sistema social misto, como uma formação
social que era predominantemente capitalista mas secundariamente
tecnoburocrática (Bresser-Pereira, 1977, 1981a). No modo de produção estatal, o
capital deixa de existir, uma vez que a propriedade privada dos meios de
produção desaparece, e é substituído pela organização, isto é, pelo controle
coletivo das organizações burocráticas por parte da classe média profissional.
Ela não detém a propriedade "legal" da empresa e de todas as outras formas de
organização, mas a propriedade "efetiva". Enquanto no capitalismo a propriedade
é privada, individual, no estatismo ela é coletiva. Enquanto no capitalismo
cada capitalista ou possui diretamente os meios de produção ou uma parte
proporcional deles na forma de ações, o administrador ou técnico não pode dizer
que possui uma empresa ou mesmo uma determinada parte dela. Ele "possui" a
organização burocrática, na medida em que ocupa um cargo executivo ou de
assessoria na hierarquia organizacional, participa da administração da
organização e muitas vezes utiliza seus recursos em benefício próprio.
No capitalismo dos técnicos, os altos executivos no Estado e nas grandes
empresas comerciais são capazes de definir sua própria remuneração. Nas
empresas comerciais, teoricamente isso é feito pelo conselho de administração,
mas muitas vezes esses conselhos são controlados por administradores e não por
acionistas. No Estado, os funcionários públicos mais graduados, eleitos e não
eleitos, muitas vezes têm um poder semelhante, mas sua remuneração é
consideravelmente menor. O fato de os administradores não deterem a propriedade
legal mas, em vez disso, a propriedade coletiva da organização evidentemente
reduz sua capacidade de definir seus proventos de modo pleno. Eles precisam
constantemente justificar suas ações ou explicar sua remuneração em termos de
mercado, enquanto o capitalista está livre para fazer uso de sua propriedade em
seu próprio benefício e no de sua família; mesmo a "nomenclatura" nas formações
sociais predominantemente controladas pelo Estado, como a União Soviética,
tinha uma limitação precisa em sua tentativa de se apropriar do excedente
econômico. A propriedade dos técnicos não é herdada, ao contrário da
propriedade capitalista e pré-capitalista. A nova classe média profissional
precisa adotar várias estratégias para transmitir suas posições de classe a
seus filhos e filhas, enquanto esse processo é relativamente automático no caso
das classes capitalistas e, sobretudo, aristocráticas. Isso significa que a
propriedade organizacional é menos definida e menos autoritária do que a
propriedade capitalista. Significa que a organização é uma relação de produção
que oferece menos estabilidade a seus proprietários do que o capital. E explica
por que a mobilidade social tende a ser maior no capitalismo dos técnicos do
que no capitalismo liberal.
No capitalismo dos técnicos, o "ideal" meritocrático, que era o sonho de um
certo tipo de liberalismo ingênuo norte-americano, transformou-se em uma
realidade não tão ideal.3 A remuneração dentro da organização depende da
posição relativamente instável ocupada pelo indivíduo. A posição, por sua vez,
deriva do monopólio sobre o conhecimento técnico, organizacional e comunicativo
que o técnico tem ou alega ter. Origina-se do conhecimento técnico e científico
real ou presumido do burocrata, de sua competência para administrar
organizações burocráticas e de sua capacidade de criar redes e transmitir
valores e idéias. Em termos de justiça social, há um aperfeiçoamento
meritocrático ' mas esse aperfeiçoamento está longe de ser ideal, pelo fato de
que a remuneração dos altos executivos se torna extremamente elevada, e a renda
não fica igualitária, mas freqüentemente acaba se concentrando. Mérito e poder
organizacional tornam-se tão inter-relacionados que fica difícil saber qual
critério prevalece.
Entretanto, apesar de todas essas mudanças, o sistema continua sendo
capitalista, uma vez que se trata um sistema de mercado, em que o lucro é a
motivação, a taxa de lucro ou o retorno sobre o investimento calculado de
acordo com o fluxo de caixa descontado é o critério de sucesso, e a acumulação
de capital com incorporação do progresso técnico é o meio para atingir o lucro.
Peter Drucker (1993, p. 8), que cunhou a expressão "sociedade do conhecimento",
insiste que a era do capitalismo acabou e que a nova sociedade é uma sociedade
pós-capitalista. Repetindo Galbraith, mas usando uma nova expressão, ele diz
que "os meios de produção não são mais o capital ou os recursos naturais (a
terra' dos economistas), nem a mão-de-obra'. É e será o conhecimento [ ]. O
valor será criado pela produtividade e pela inovação". Drucker está certo em
enfatizar o novo papel do conhecimento, mas errado em não compreender que a
característica essencial e surpreendente do capitalismo contemporâneo é que ele
deixou de ser o capitalismo dos capitalistas para se tornar o capitalismo dos
técnicos. Poder e privilégio, que nas sociedades aristocráticas eram atribuídos
de acordo com a linhagem e a força militar, e no capitalismo liberal, alocados
de acordo com a riqueza e o espírito empreendedor, são hoje em dia cada vez
mais distribuídos de acordo com o conhecimento. A riqueza e principalmente o
espírito empreendedor continuam a desempenhar papéis importantes, mas hoje este
último já depende mais do conhecimento do que da propriedade do capital físico.
O espírito empreendedor sempre dependeu de ambos os fatores, além do básico ' o
caráter inovador e a orientação do empresário para a necessidade de realização
', mas hoje é cada vez mais improvável que pessoas não dotadas de conhecimento
técnico, organizacional e comunicativo venham a ser grandes empresários. O
típico empresário capitalista é ou o jovem que sai da universidade com uma
idéia brilhante, ou o administrador experiente de uma grande empresa que começa
seu próprio negócio. Resumindo, o sistema social continua sendo capitalista,
porém se trata de um capitalismo dos técnicos ou do conhecimento.
O conceito de capital
A definição clássica da ação capitalista, que definiu a revolução comercial,
foi a acumulação de capital. Com a revolução industrial, a acumulação de
capital com incorporação do progresso técnico tornou-se a característica
definidora do sistema econômico. Atualmente, essas duas atividades continuam
sendo cruciais, e a segunda ' o progresso técnico ' é também parte essencial do
capitalismo do conhecimento, mas um terceiro elemento importante está incluído,
qual seja, a expansão das organizações burocráticas e das redes por meio das
quais elas atuam. Se o capitalista acumula capital, a classe média profissional
acumula organizações e redes. O objetivo é expandir a organização burocrática,
criar novos cargos burocráticos, acumular poder organizacional que depende do
número e do caráter dos cargos subordinados na organização hierárquica, ou dos
nós nas redes pessoais e organizacionais. O técnico, diferentemente do
capitalista, não está tão preocupado em se tornar rico, mas em subir na
hierarquia organizacional, e em expandi-la.
Para atingir suas metas, o detentor de conhecimento precisa trazer maior
eficiência ou produtividade à sua organização. Esse é o critério básico que
legitima sua posição. É assim que ele será julgado por seus superiores, seus
pares e seus subordinados. A legitimidade da classe média profissional depende
da capacidade, real ou presumida, de aumentar continuamente a produtividade,
bem como do monopólio que ela detém sobre a competência técnica, organizacional
e comunicativa. Em um mundo cada vez mais voltado para o desenvolvimento
econômico, onde a remuneração dos trabalhadores e técnicos depende da
produtividade global da economia, aqueles que demonstram capacidade de
administrar organizações burocráticas e redes assumirão o poder e deterão uma
parcela importante da renda nacional.
Assim, a organização é agora um fator central nas sociedades capitalistas, lado
a lado com o capital. Nas sociedades modernas o controle da organização é tão
importante quanto o capital. Poder e renda dependem do controle do capital e da
organização, e o conhecimento operacional é a ferramenta mais importante nesse
sentido. Estou chamando essa nova forma que o capitalismo assumiu de
capitalismo do conhecimento ou capitalismo dos técnicos, mas poderia também
chamá-la de capitalismo organizacional.
Nesse mar de mudanças a que o sistema capitalista está sendo submetido, o
próprio conceito de capital se modificou, assim como a forma de medir o
capital. O capital, obviamente, não deve ser confundido com os meios de
produção, ou com os "bens de capital". O capital é a propriedade dos meios de
produção. Dentro dessa definição ampla, porém, o conceito de capital vem
mudando com o tempo. Para os primeiros economistas clássicos, o capital era o
capital circulante, era essencialmente a capacidade de contratar trabalhadores,
pagando-os antes que o resultado de seu trabalho pudesse ser vendido no
mercado. Para Marx, assim como para os economistas neoclássicos e keynesianos,
que viveram em uma época na qual o capital fixo tinha se tornado o fator
dominante, enquanto os trabalhadores podiam cada vez mais dispensar o pagamento
prévio de seus salários, o capital era principalmente a propriedade de
instalações e equipamentos. Mais recentemente, quando o software prevalece
sobre o hardware, ou quando o conhecimento operacional torna-se o fator
estratégico de produção, tomando o lugar dos bens de capital, o capital é a
capacidade de derivar lucros das organizações de comando e do conhecimento a
elas incorporado. O aspecto curioso e significativo dessa definição de capital
é que ela inclui o conceito de organização. O capital só é realmente capital
quando seus proprietários são também "proprietários" ou capazes de controlar a
organização. Ora, a organização não é apenas a organização burocrática, é
também a propriedade coletiva dos meios de produção por parte dos técnicos. A
organização é para o técnico ou o profissional o que o capital é para o
capitalista.
Observemos que quando Galbraith afirmou que o conhecimento técnico estava
substituindo o capital como o fator estratégico de produção, ele estava se
referindo ao objeto da propriedade do capital, não ao próprio capital. Ele não
estava definindo o capital como a propriedade dos meios de produção, mas
adotando o sentido mais habitual da palavra ' o sentido que identifica o
capital com os meios de produção, ou com o capital físico.
Concomitantemente com a transformação do conceito de capital na capacidade da
organização de gerar lucros ou fluxos financeiros positivos, a forma de medir o
capital também mudou. Não estou me referindo à complexa e inconclusiva
discussão dos anos de 1960 entre as duas Cambridges sobre o valor do capital. A
teoria econômica, nesses debates, aproxima-se da metafísica, uma abordagem que
não se coaduna com minhas preocupações mais pragmáticas. Refiro-me ao valor
financeiro do capital, ao valor das empresas comerciais. Na época do
capitalismo industrial, até meados do século XX, o capital de uma empresa era
medido por seu patrimônio líquido, tal como identificado no balanço
patrimonial. Algumas correções poderiam ser feitas, o valor dos ativos
intangíveis poderia ser considerado, a avaliação contábil de certos bens de
capital poderia ser ajustada, mas, no final, o valor da empresa era a soma dos
ativos totais menos o passivo. Enquanto o capital físico era o fator
estratégico de produção, medir o valor de uma empresa por seu patrimônio
líquido contábil ou pelo retorno sobre o fluxo de caixa não fazia muita
diferença. Ambas as medidas eram relativamente equivalentes, uma vez que se
podia presumir que, em condições normais e dada a tendência à equalização das
taxas de lucro (provavelmente aliada à lei da oferta e da procura, os dois
fundamentos da teoria econômica, seja qual for a escola de pensamento), o
resultado seria quase o mesmo.
Hoje, não há mais essa visão, e o valor de uma empresa é dado pelo valor
descontado de seu fluxo de caixa. Nenhum avaliador sério levará em conta o
antigo sistema. O que está por trás de tal mudança? Seria apenas um
aperfeiçoamento dos métodos de análise, como presume a teoria econômica não
histórica, ou existe algum fato histórico novo que tenha provocado essa mudança
metodológica? A relação entre essa mudança na forma de medir o capital e o novo
fator estratégico de produção de Galbraith é bastante óbvia, e é dupla. Em
primeiro lugar, o conhecimento incorporado ao pessoal da organização, ao
software e à própria organização é atualmente o bem mais importante de muitas
empresas, e um bem importante para todas. Portanto, não faz sentido medir o
valor de uma empresa por seu patrimônio líquido. Em segundo, depois que o
conhecimento operacional se tornou estratégico, os analistas do mercado
financeiro confirmam diariamente que o valor de uma empresa varia de modo
dramático de acordo com a qualidade de sua gestão. Um novo diretor-presidente e
um grupo de executivos incompetente ou mais competente na direção de uma
empresa poderão mudar seu fluxo de caixa e seus lucros em um período
relativamente curto. Nesse caso, o antigo conceito de patrimônio líquido deixa
de fazer sentido, enquanto a medida do valor do capital com base no fluxo de
caixa se torna a única possibilidade racional. Assim, na medida em que o fluxo
de caixa de uma empresa depende fortemente da qualidade de sua alta direção, o
valor do capital depende do conhecimento técnico, organizacional e comunicativo
detido por esses administradores.
Isso explica por que a alta direção vê sua renda e seu poder aumentarem
diariamente. Explica também por que a influência dos acionistas está sendo
sistematicamente reduzida. Explica também de maneira perversa por que o abuso e
a corrupção, em especial sob a forma de falsos demonstrativos contábeis, como
aconteceu com a Enron, tornaram-se tão comuns no capitalismo dos técnicos
contemporâneo, levando Galbraith a falar ironicamente sobre a "a economia das
fraudes inocentes" ' título de seu último livro (2004). A extraordinária
remuneração dos altos executivos, sob a forma de bônus e opções sobre ações,
depende do desempenho do executivo. Assim, forjar bons resultados é uma
tentação a que muitos são incapazes de resistir. Esse papel estratégico da alta
direção, somado a uma oferta ainda limitada de administradores ou, mais
amplamente, de técnicos, apesar da enorme expansão dos cursos de mestrado em
administração de negócios e áreas correlatas, e a surpreendente aceleração do
progresso técnico incorporado na tecnologia da informação digital também
explicam a concentração de renda que caracteriza as economias capitalistas
contemporâneas desde meados dos anos de 1970.
Além de mudar a maneira de avaliar o capital, o capitalismo do conhecimento
sugeriu a definição de um novo tipo de "capital" ' o capital humano. Os dois
economistas neoclássicos que formularam essa teoria (Schultz, 1961, 1980;
Becker, 1962, 1993) garantiram para si próprios o Prêmio Nobel de Economia. E
eles o mereceram porque, em lugar de apenas usarem o método hipotético-
dedutivo, reconheceram a existência de um novo fato histórico: que o
conhecimento tinha se tornado semelhante ao capital físico, e que o
investimento em educação é o modo pelo qual os indivíduos "acumulam" esse
patrimônio e dele derivam ganhos ou rendimentos. O que eles não enfatizaram foi
que a educação de muitos indivíduos, a generalização da educação para toda a
sociedade, acarreta externalidades positivas, acarreta desdobramentos e
cruzamentos que abrem caminho para a inovação e o aumento da eficiência em
nível social, de tal modo que o capital humano total criado é maior do que a
soma dos capitais acumulados por cada indivíduo.
A democracia como um poder compensatório
Nas seções precedentes vimos que, dentro das organizações, a ascensão ao poder
e o prestígio de homens e mulheres dotados de conhecimento operacional
estratégico teve importantes conseqüências econômicas, inclusive uma mudança no
conceito e na medida do capital. No entanto, suas conseqüências políticas não
são tão claras. Em relação aos capitalistas, os tecnoburocratas perderam ou
ganharam poder? E em relação ao povo, ou a coletividade de cidadãos? A classe
média profissional certamente ganhou poder, mas está longe de ter alcançado
mais poder político do que a capitalista. Isto apenas aconteceu no sistema
econômico estatista, mas sabemos que o próprio estatismo foi um fenômeno
temporário, efêmero. No capitalismo do conhecimento, a classe média
profissional é basicamente associada à aristocracia. Mas é certo que a classe
capitalista teme o surgimento da classe média profissional, particularmente
quando isto acontece no nível do aparelho do Estado, de organizações do Estado,
e de organizações sem fins lucrativos. A ideologia neoliberal, que surgiu nos
anos de 1970 nos países capitalistas desenvolvidos, como uma reação à queda da
taxa de lucro e da taxa de crescimento do PIB, não foi direcionada à redução do
salário direto ou indireto dos trabalhadores: seu objetivo era também reduzir o
salário e a influência política da classe média profissional. Esta ideologia,
que contou com a cooperação ativa de intelectuais "orgânicos" (Gramsci, 1971
[1934]), e de outros profissionais representantes da classe média profissional
(o que mostra que esta classe está longe de ser coesa), obteve sucesso em
alcançar seus objetivos, mas isto é apenas um capítulo no longo processo de
conflito e cooperação entre as duas classes sociais.
No entanto, no século XX, com a consolidação da democracia como o regime
político dominante, os capitalistas, assim como a classe média profissional,
perderam poder político, enquanto os políticos e, até certo ponto, os cidadãos
por eles representados, ganharam. Políticos, entretanto, são essencialmente
profissionais, oficiais eleitos recebendo salário do Estado. Na sua maioria,
pertencem à classe média profissional. Mas, diferentemente dos servidores civis
não eleitos, eles dependem dos cidadãos, dos eleitores, para conseguir poder
político. No Estado absolutista, servindo como auxiliares de príncipes ou
monarcas, os burocratas patrimoniais tiveram mais poder do que no século XIX,
quando seus sucessores, os servidores públicos profissionais, colaboraram com
os políticos liberais. A democracia no século XX implicou uma demanda cada vez
maior de responsabilidade dos funcionários públicos eleitos e não eleitos,
envolvendo uma redução do poder político dos burocratas, mas aumentou o poder
dos políticos. Apesar de divididos entre políticos de direita e esquerda, os
primeiros representando principalmente os interesses de capital, e os últimos o
do conhecimento, a classe capitalista sempre vê a classe política com
desconfiança, e sempre que pode acusa seus membros de incidirem no populismo e
no nepotismo, senão na corrupção, para, dessa forma, limitarem seu poder.4
O crescimento da organização do Estado em tamanho e complexidade tornou
estratégico seu conhecimento operacional e aumentou seu poder político. A
criação de agências reguladoras e executivas autônomas e o aparecimento da
reforma da gestão pública depois dos anos de 1980 refletiram essa nova
realidade. Mas, ao mesmo tempo, como saliento em um livro recente (Bresser-
Pereira, 2004a), o crescimento dessa autonomia exigiu dos funcionários públicos
graduados uma maior responsabilidade e deu origem a uma miríade de organizações
de responsabilidade social que somente puderam florescer em um ambiente
democrático. Ao mesmo tempo em que fica claro que os altos executivos das
organizações privadas viram seu poder e prestígio dispararem no século XX com a
transformação do conhecimento no fator estratégico de produção, com o
crescimento paralelo da democracia é difícil dizer se, no final, os
funcionários públicos graduados viram aumentar seu poder e influência.
Certamente aumentaram dentro do aparelho do Estado e das organizações públicas
não estatais, mas é duvidoso que o mesmo tenha ocorrido em termos políticos,
quando os funcionários públicos graduados fizeram uso do poder "extroverso" ' o
poder sobre os cidadãos fora da organização do Estado ', na medida em que o
controle democrático exercido sobre eles por mecanismos internos de
responsabilização, pela mídia e pelas organizações de responsabilidade social
não deixou de aumentar. Em comparação, os políticos têm hoje em dia mais poder
do que tinham no passado, mas esse poder não tem origem apenas no fato de que
as necessidades de conhecimento para eles são maiores do que no passado (isso
também é verdade para todas as outras profissões), deriva principalmente de sua
capacidade de "jogar" o jogo democrático. Os políticos, como os funcionários
públicos graduados, são também cada vez mais responsabilizados pelos mecanismos
democráticos, mas, diferentemente de servidores civis regulares, a legitimidade
de seu poder vem das eleições e do apoio contínuo da opinião pública. Usando o
conceito de Galbraith, a democracia funcionou como um poder compensatório ao
poder dos técnicos e dos capitalistas, sobretudo ao poder capitalista, porque
os políticos, que estão no cerne das democracias, são uma espécie particular de
técnico ou profissional.
Este é o segundo caso, neste trabalho, em que observamos uma falta de
"correspondência" entre duas variáveis históricas que presumivelmente deveriam
ser compatíveis. Primeiro vimos que o capitalismo, embora mantendo suas
características essenciais, está se tornando um sistema social que não é
basicamente controlado pelos capitalistas, mas pelos técnicos ou profissionais.
Agora vemos que os detentores do conhecimento podem ver seu poder aumentar
dentro das empresas comerciais e de outras organizações, mas possivelmente
decair na esfera política. Por quê? Porque o século XX, além de ser o século da
organização, foi também o século da democracia. Porque foi apenas nesse século
que a democracia se tornou o regime preferido dos filósofos e dos políticos.
Porque somente no século XX, as sociedades mais avançadas em primeiro lugar e
depois um grande número de sociedades em desenvolvimento tornaram-se
efetivamente democráticas.
O fato histórico novo que provocou essa mudança foi a revolução capitalista,
que mudou a forma de apropriação do excedente econômico, das violentas formas
da época pré-capitalista para o lucro alcançado no mercado. A partir desse
momento a nova classe dirigente deixou de impor um veto absoluto à democracia.
Mas, depois dessa revolução, foi necessário um século ' o século XIX liberal '
para convencer os capitalistas de que o sufrágio universal não acarretaria a
expropriação dos ricos pelos pobres.5
Dado o surgimento da democracia, esta segunda "inconsistência" não é tão
surpreendente. A correspondência clássica entre as esferas econômica e
política, que Marx tão agudamente detectou no século XIX, e que está implícita
na maior parte do pensamento social contemporâneo não marxista, perdeu parte de
sua validade. O fator estratégico de produção é uma fonte de poder, mas
principalmente de poder "direto" ' o poder oriundo do processo produtivo. O
marxismo estabeleceu uma relação quase direta entre o controle do fator
estratégico de produção e o poder político. Nas sociedades pré-capitalistas foi
a terra; nas capitalistas, o capital. Contudo essa relação nunca foi tão
direta. A terra era uma fonte de poder, mas era também o poder militar. No
capitalismo clássico, o controle do capital foi chave para o poder político,
mas é uma simplificação acreditar que os funcionários governamentais fossem
apenas seus representantes. No capitalismo do conhecimento, técnicos de todos
os tipos conquistaram poder e influência, mas o aparecimento da democracia
impôs limites a seu poder discricionário. A revolução democrática envolveu a
autonomia da política em relação à economia, e do poder político em relação ao
controle do fator estratégico de produção. Os interesses econômicos e a
propriedade do capital e do conhecimento continuam a desempenhar um importante
papel político, no entanto a relativa autonomia da esfera política é um fato
novo e auspicioso. Sugere que os desenvolvimentos econômico e político são
fenômenos complementares, mas cada vez mais independentes.
A aliança entre técnicos e capitalistas
Apesar do avanço da democracia, não podemos facilmente descartar o controle do
conhecimento como uma fonte de poder. Em algumas áreas, o poder deriva
essencialmente disso. E se torna particularmente perigoso quando os técnicos se
associam aos capitalistas. Tomemos, por exemplo, a política macroeconômica, que
desempenha um papel estratégico em todas as sociedades contemporâneas, uma vez
que a estabilidade econômica e também o crescimento dependem fortemente dela.
Embora essa política afete a todos em uma sociedade moderna, o setor financeiro
tem hoje um papel privilegiado em sua determinação. Em princípio, esse poder é
prerrogativa dos bancos centrais e ministérios da fazenda, mas, em termos
práticos, as instituições financeiras privadas têm uma voz decisiva sobre o
assunto. Por quê? Seria porque o "capital financeiro" de Hilferding é todo-
poderoso? Certamente que não. De acordo com Hilferding (1910), o "capital
financeiro" foi o produto da fusão do capital bancário com o capital industrial
sob o comando do primeiro. No início do século XX esse fenômeno estava
ocorrendo na Alemanha, mas não se reproduziu nos outros países, e mesmo na
Alemanha sofreu uma interrupção. Um marxista moderno como François Chesnais
(1994, 1997) afirma que o setor financeiro é a ponta de lança da globalização
ou mundialização do capital. E, emprestando um conceito da teoria da regulação,
acrescenta que o capitalismo mundial é hoje caracterizado "por um regime de
acumulação predominantemente financeiro".6 Nessa linha de pensamento, o setor
financeiro, servindo o capital rentista que vive de juros, é, também, a ponta
de lança do capitalismo internacional em seu processo de desorganização (não
deliberada mas efetiva) das economias nacionais dos países em desenvolvimento.
Mediante a abertura financeira, que ocorreu em um grande número de países a
partir do início dos anos de 1990, Washington e Nova York levam os países a
perder o controle de sua taxa de câmbio, os quais, sob o influxo de grandes
fluxos de capital (poupanças externas), apreciam a taxa de câmbio local, elevam
artificialmente os salários e o consumo, e, afinal levam à crise de balanço de
pagamentos.7 Entretanto, essas análises não explicam o poder político desse
setor na definição das políticas macroeconômicas, e, particularmente, de um
nível de taxa de juros (que não deve ser confundido com as variações dessa taxa
necessárias para a política monetária). Uma explicação alternativa estaria no
fato de que principalmente os bancos comerciais têm um papel estratégico nas
sociedades modernas, nas quais o dinheiro perdeu sua conexão clássica com a
riqueza física e se tornou uma convenção, totalmente dependente do crédito de
que dispõe cada moeda nacional. Esta é uma boa explicação, mas lhe falta o
caráter de fato histórico novo que ofereceria um motivo para o aumento do poder
do setor financeiro. Desde o surgimento do capitalismo o sistema financeiro
sempre desempenhou um papel estratégico na coordenação do sistema econômico. O
ponto que quero salientar aqui, e que constitui fato novo, é a idéia de que as
instituições financeiras detêm hoje grande parte do conhecimento técnico
macroeconômico, e isto aumenta de forma substancial sua capacidade de
influenciar a política macroeconômica. Detêm mais conhecimento sobre o tema do
que os outros setores da economia, uma vez que empregam um grande número de
macroeconomistas competentes. Essas organizações incluem esse custo em suas
operações porque a política macroeconômica e as decisões que o governo toma
sobre a taxa de juros, a taxa de câmbio, a base monetária e a política fiscal
são o ganha-pão das instituições financeiras. Para investir com competência
seus próprios recursos ou o patrimônio de seus clientes, elas precisam fazer
previsões diárias sobre tais questões. Se compararmos o número de
macroeconomistas capazes de expressar opiniões sobre política macroeconômica
contratados pelo setor financeiro com outros setores da economia, inclusive o
governo, veremos que o conhecimento macroeconômico convencional está
concentrado ali. É muitas vezes um conhecimento viciado, organizado de acordo
com os interesses dos rentistas e do setor financeiro, mas é um conhecimento
efetivo. Assim, não é difícil compreender o poder desproporcional que o setor
financeiro tem sobre assuntos macroeconômicos ' desproporcional em relação ao
capital total que as empresas comerciais detêm nesse setor, mas proporcional a
seu conhecimento especializado e muitas vezes viciado.
Este exemplo ilustra não apenas como o poder político pode ter origem no
conhecimento, mas mostra também como este poder pode ser aumentado quando
capital e conhecimento, capitalistas e técnicos, estão associados. No setor
financeiro, essa associação é claríssima. Os grandes bancos de investimento são
hoje, e cada vez mais, empresas de sócios profissionais, e cada vez menos
empresas de capital. Os grandes bancos de varejo continuam a depender de seu
estoque de capital. Os bancos de investimento, porém, e os setores
correspondentes nos grandes bancos, lucram ou não à medida que dispõem de
técnicos financeiros com os quais os acionistas são obrigados a dividir os
resultados econômicos realizados. O setor financeiro é, portanto, cada vez mais
estratégico no capitalismo que vivemos, mas é também uma demonstração da
emergência do capitalismo dos técnicos. São cada vez mais os profissionais das
finanças que comandam as organizações financeiras, e exercem, associados ao
capital, a dominação no plano interno e no internacional.
Grupos conservadores dentro de cada Estado-nação participam dessa associação
para exercer poder em termos do controle das políticas públicas. Como não podem
exercer diretamente a dominação baseada no capital, eles usam o conhecimento,
que rapidamente rotulam de "raciocínio científico", para legitimar suas visões
e interesses. Esse conhecimento é ideológico, mas é freqüentemente visto como
mais "razoável" do que as visões críticas oriundas dos setores à esquerda ou
progressistas da sociedade, porque é produto de uma sofisticada teorização por
parte de economistas inseridos no sistema de dominação. Esse conhecimento
geralmente privilegia os rentistas e o setor financeiro às custas dos setores
reais da economia, mas como as críticas oriundas dos grupos opositores são
freqüentemente desprovidas do conhecimento técnico necessário, ou têm origem em
um grupo de conhecimento competente mas muito pequeno, a probabilidade de que
as visões do setor financeiro prevaleçam é grande. No Brasil, onde a política
macroeconômica é particularmente estratégica, na medida em que o país tem
enfrentado instabilidade macroeconômica crônica nos últimos 25 anos, o poder do
setor financeiro é particularmente grande. E os erros de política feitos com
seu apoio ativo são impressionantes. Entre 1995 e 1998, por exemplo, ele apoiou
uma taxa de câmbio sobrevalorizada, que se mostrou desastrosa para a economia
brasileira. Atualmente, apóia a adoção pelo Banco Central de uma taxa básica de
juros extremamente elevada, que só beneficia os rentistas.
Em princípio, um regime democrático deveria ser capaz de controlar os bancos
centrais e outras agências reguladoras, cujas decisões têm importantes
conseqüências sobre a sociedade e a economia. Até o presente, no entanto, não
prevaleceu um processo democrático nesses assuntos, porque tanto eles são
"altamente técnicos" como perigosamente estratégicos. Assim, os políticos e os
eleitores que eles representam abdicam de exercer controle sobre tais agências
em nome da falta do conhecimento especializado. Na verdade, esses assuntos são
freqüentemente menos complexos do que se diz. As políticas de taxa de juro e de
câmbio podem ser baseadas em modelos matemáticos muito sofisticados, no entanto
raciocínios simples e pragmáticos se mostram mais compatíveis com a
estabilidade econômica e o crescimento. As agências reguladoras, inclusive os
bancos centrais, são com freqüência controladas pelo respectivo setor
regulador, mas sua "independência" dos políticos será mantida enquanto o
conhecimento continuar concentrado neste setor. Os próprios políticos sentem-se
mais seguros ao outorgar essa independência quando a agência é realmente
estratégica, como os bancos centrais.
A empresa moderna, cujo principal papel na sociedade contemporânea foi
discutido com tanta clareza por Galbraith, é essencialmente a epítome da
associação entre capital e organização, entre capitalistas e técnicos, e
provavelmente por essa razão é tão forte. Em geral, técnicos privados tendem a
ser intimamente associados aos capitalistas nas grandes empresas. É por isso
que, em termos políticos, os técnicos públicos são mais dignos de nota. Eles
também se associam aos capitalistas, mas em grau menor. Têm uma autonomia que
falta aos técnicos privados. Sua ideologia tecnocrática, baseada na alegação de
uma eficiência superior, é mais coerente do que a dos técnicos privados. Por
outro lado, o fato de trabalharem diretamente para a organização do Estado
permite-lhes um etos público mais simples e direto. Eles não dependem da mão
invisível de Adam Smith para trabalhar no interesse público; fazem isso, ou
supõe-se que o façam.
Assim, quando dizemos que temos três classes sociais básicas no capitalismo
moderno, e que elas estabelecem entre si relações de associação e conflito,
referimo-nos à classe capitalista, à classe trabalhadora e principalmente à
classe dos técnicos públicos. Esta última age como uma espécie de intermediário
entre as outras duas classes, ao mesmo tempo em que mantém muito claros seus
próprios interesses. Enquanto a classe média profissional privada está sempre
associada à dos capitalistas, a classe média profissional pública associa-se a
uma ou a outra, ou a ambas, de várias maneiras. Após a Segunda Guerra Mundial,
os técnicos públicos associaram-se principalmente a trabalhos relativos à
construção do Estado de bem-estar social. Desse modo, nos anos de 1970, quando
a taxa de lucro e a taxa de crescimento econômico declinaram, a resposta
neoliberal que visava a restabelecer ambas as taxas foi dirigida contra essa
associação. O objetivo era reduzir o tamanho do Estado, os ordenados dos
técnicos e os salários dos trabalhadores. Nos anos de 1930, Keynes percebeu que
havia uma alternativa menos conflitante ' expandir a economia por meio da
política fiscal ', mas essa alternativa não estava realmente disponível na
década de 1970, tendo em vista que, diferentemente dos anos de 1930, os Estados
nacionais estavam enfrentando uma grave crise fiscal. A teoria macroeconômica
de Keynes foi um avanço geral no pensamento econômico, porém envolvia políticas
para restaurar a taxa de lucro e de emprego que dependiam de finanças saudáveis
do setor público.
Ideologias
Ao mesmo tempo em que existe uma ideologia capitalista, baseada no liberalismo
econômico e no papel empreendedor do capitalista, existe uma ideologia dos
técnicos baseada na racionalidade instrumental e na alegação da superior
eficiência das organizações burocráticas, ou da coordenação administrativa do
sistema econômico. Em certas ocasiões, essas ideologias, apoiadas
respectivamente pelo pensamento econômico neoclássico e pela teoria burocrática
ou estatista da economia planejada, estão em conflito. Nunca estiveram mais em
conflito do que durante a Guerra Fria, quando o capitalismo liberal esteve em
confronto com o burocratismo ou estatismo da União Soviética. Quando ambos os
grupos e suas respectivas ideologias se associaram estrategicamente, como
aconteceu no mundo desenvolvido durante os anos de 1970, quando o capital e o
conhecimento se uniram, pudemos observar, na fase ascendente da onda econômica
longa, um crescimento econômico que interessou a todos ou, na fase declinante,
um processo de reforma estrutural para restaurar a taxa de lucro e retomar o
crescimento. A ideologia neoliberal, que surgiu na década de 1970, juntamente
com o globalismo, foi a expressão desse conflito em nível nacional. Enquanto o
objetivo do globalismo, no plano internacional, foi neutralizar os NICs ("newly
industrialized countries" [países de industrialização recente, também chamados
de "tigres asiáticos"]), enfraquecendo os respectivos Estados-nação, o
neoliberalismo foi uma resposta doméstica à queda das taxas de lucro e de
crescimento que ocorreu nos anos de 1970, e seu objetivo era reduzir os
salários reais diretos e indiretos enfraquecendo a organização interna do
Estado que dava suporte à mão-de-obra e ao Estado de bem-estar social.
A globalização é um fenômeno histórico real envolvendo aspectos tecnológicos,
econômicos, culturais e jurídicos. Mas é interessante observar, nos países
desenvolvidos e particularmente nos Estados Unidos, como a associação entre os
capitalistas e a classe dos técnicos foi instrumental em proteger seus
interesses nacionais com relação à ameaça representada pelos NICs. Como os
interesses econômicos envolvidos eram enormes, a política e a ideologia tiveram
um papel importante. A globalização tornou-se evidente naqueles anos, em que
também surgiram os NICs, exportando bens relativamente sofisticados produzidos
com mão-de-obra barata. Como os países ricos e, em particular, Washington e
Nova York, responderam a essa ameaça? Internamente responderam à queda da taxa
de lucro com o neoliberalismo; internacionalmente, com a ideologia
"globalista". Essa ideologia tornou os Estados-nação de tal modo
interdependentes que eles ficaram irrelevantes. Agora, neste mundo competitivo
e sem fronteiras, os Estados nacionais enfrentariam, na expressão de um de seus
mais brilhantes ideólogos, Thomas Friedman (2000), uma "camisa de força", de
tal forma que não têm alternativa senão copiar o modelo norte-americano de
crescimento.
Ao exportarem com sucesso essa ideologia, que era o produto combinado da
engenhosidade das classes capitalista e técnica, os países desenvolvidos, sob a
liderança dos Estados Unidos, foram capazes de enfraquecer os países de
industrialização recente latino-americanos. Não foram tão bem-sucedidos na
Ásia, onde o comprometimento dos governos com os interesses nacionais
demonstrou ser mais resistente à nova verdade oriunda dos países desenvolvidos.
Na verdade, com a globalização os países ficaram mais interdependentes, e as
organizações comerciais passaram a competir em nível mundial. No entanto, o que
os globalistas se esqueceram de mencionar é que a globalização é uma competição
generalizada, em nível mundial, de empresas comerciais apoiadas por seus
respectivos Estados nacionais. Assim, o Estado-nação continua sendo bastante
estratégico e relevante, dado seu papel de apoiar as corporações nacionais. No
entanto, em lugar de desafiar essa alegação altamente ideológica de que o
Estado-nação tinha perdido importância, muitos intelectuais progressistas
limitaram-se a lamentar esse fato, ou a atacar a globalização. Este é, mais uma
vez, um exemplo de como o conhecimento insuficiente ou incompetente de parte
dos grupos progressistas impede a necessária crítica das alegações ideológicas
emitidas pelos grupos conservadores associados aos técnicos de classe média.
No entanto, o neoliberalismo já está desaparecendo nos países desenvolvidos.
Ele teve sucesso em limitar a excessiva intervenção do Estado e em restaurar as
taxas de lucro e de crescimento, que foram perigosamente reduzidas nos anos de
1970, mas foi incapaz de oferecer uma alternativa sensata a duas grandes
realizações das democracias modernas: o planejamento macroeconômico e o Estado
de bem-estar social. Essa é a razão pela qual, não levando em conta a
privatização, mas somente o aparelho do Estado no sentido estrito, as reformas
neoliberais foram incapazes de reduzir a carga tributária e, portanto, o
tamanho da organização do Estado. Por outro lado, o globalismo está sendo cada
vez mais criticado nos países em desenvolvimento, particularmente na América
Latina, onde se tornou dominante desde o início da década de 1980, na medida em
que fracassou dramaticamente em promover o crescimento econômico. É verdade que
o único caminho para o crescimento econômico é o capitalista, mas sabemos que
existem muitas variedades de capitalismo além daquela baseada na poupança
externa imposta aos países que abriram sua conta de capital e continuam
cronicamente vulneráveis em termos financeiros.8 Uma demonstração desse fato
são os dinâmicos países asiáticos que há décadas continuam a crescer
rapidamente sem abrir suas contas de capital, mantendo suas taxas de câmbio sob
controle, relativamente desvalorizadas, e combinando competição de mercado no
âmbito externo com uma eficaz coordenação administrativa e de mercado da
economia, no interno. Na verdade, o capitalismo do conhecimento é eficaz em
proteger a taxa de lucro, porque sem ela a estabilidade e o crescimento não são
possíveis, mas não fará isso desnecessariamente, destruindo algumas grandes
conquistas institucionais, tais como o Estado de bem-estar social e a política
macroeconômica. O Estado de bem-estar social garante estabilidade social e
legitimidade política. As políticas econômicas complementam a coordenação da
economia pelo mercado, de um lado defendendo a competição de mercado e
corrigindo a alocação de recursos; de outro, suavizando o ciclo e estimulando o
investimento e o crescimento.
Conclusão
Em conclusão, a previsão de Galbraith em 1967 de que o conhecimento estava
substituindo o capital como o fator estratégico de produção foi corroborada
pelos fatos. Essa mudança, juntamente com a substituição das empresas
familiares pelas organizações como as unidades básicas de produção, deu origem
a uma nova classe social ' a classe média profissional ', caracterizada pela
propriedade coletiva das organizações. No entanto, o surgimento da classe dos
técnicos não implicou o aparecimento de um novo sistema social, nem envolveu a
concentração de poder político nas mãos da nova classe. A economia continuou
sendo controlada pelo mercado e orientada para o lucro, portanto, capitalista.
No entanto, em vez do capitalismo clássico, o que temos é um capitalismo dos
técnicos ' em que a nova classe divide simultaneamente renda e poder com os
capitalistas, ao mesmo tempo em que disputa particularmente por poder. A
tentativa da nova classe de implantar uma economia planificada teve êxito em
obter poupança forçada e em promover ou consolidar a industrialização inicial,
mas o arranjo puramente estatal fracassou na União Soviética. Por outro lado, a
ascensão da democracia no século XX representou um importante freio às
tendências autoritárias da nova classe e ao poder de ambas as classes,
capitalista e classe média profissional. Hoje em dia, as modernas economias
capitalistas são mistas, não apenas porque capitalistas e técnicos ou
detentores do conhecimento dividem poder e renda, mas também porque a
coordenação do sistema econômico não se baseia em um mercado forte e em um
Estado mínimo, como sonhavam os neoliberais, nem em um Estado forte e um
mercado fraco, como almejavam os estatistas. Ao contrário, é fundada em um
mercado forte, porque competitivo e baseado numa classe capitalista
empresarial, e num Estado forte, onde representantes eleitos e não eleitos da
classe média profissional são capazes de organizar a ação coletiva de modo
democrático e eficiente. Esse mercado nunca é tão competitivo, e o Estado nunca
é tão eficiente e democrático quanto gostaríamos, mas são o bastante para
manter em movimento o desenvolvimento econômico e político.
O capitalismo do conhecimento é parte do processo de desenvolvimento que as
sociedades modernas estão vivendo desde a revolução capitalista. Esse processo
econômico, social e político é complexo, contraditório, às vezes dispendioso,
freqüentemente injusto, mas, de qualquer modo, avança. Apesar de todas as
desvantagens, o capitalismo dos técnicos representou um avanço em relação ao
capitalismo clássico ou liberal. Não apenas porque essa forma de capitalismo é
mais eficiente do que a anterior, mas também porque é mais compatível com a
democracia e com uma distribuição de renda mais igualitária. A razão essencial
para isso provavelmente reside no fato de que o conhecimento é mais acessível
às classes mais baixas do que o capital. Embora o conhecimento também possa ser
"herdado" e, em momentos de progresso tecnológico, extremamente rápido, e ainda
possa implicar concentração de renda como demonstraram os últimos trinta anos,
é mais difícil para os ricos transferirem conhecimento a seus filhos do que
capital. Com o capitalismo dos técnicos, a mobilidade social é maior e a
igualdade de oportunidades é um objetivo menos utópico no capitalismo do
conhecimento do que no capitalismo clássico. Sei que esta é uma visão otimista
que não se mostrou verdadeira durante os últimos trinta anos em termos de
distribuição de renda, uma vez que a oferta de pessoas dotadas de conhecimento
foi inferior ao que exigiam os mercados, e os ordenados cresceram mais do que
os salários. Mas a garantia de educação básica para todos e o enorme aumento de
estudantes inscritos nas universidades sugerem que este otimismo de longo prazo
não é desprovido de realismo.
Esta crença nas qualidades positivas das economias mistas, e a visão crítica da
"opinião comumente aceita", expressão que John Galbraith criou, está presente
na maior parte de seu trabalho, desde American capitalism: the concept of
countervailing power (1957) e The affluent society(1958) até The good society
(1996) e The economics of innocent fraud(2004). Ele sempre esteve mais
interessado na empresa do que no Estado, no administrador de negócios do que no
burocrata estatal, mas sempre deixou claro que a chave para compreender o
capitalismo contemporâneo está na interação entre essas duas entidades e seus
respectivos agentes. Além disso, está sempre pronto para apresentar uma visão
inovadora. Em seu último livro, por exemplo, afirma: "Uma parte grande e cada
vez maior do que é chamado de setor público está, para todos os efeitos
práticos, no setor privado [ ]. O gasto com armas não ocorre após uma análise
imparcial pelo setor público, como se pensa comumente" (Galbraith, 2004, p.
34).
Por ser uma classe social, a maior fraqueza da classe média profissional é a
falta de um nítido engajamento político. Os interesses de seus membros são
diversificados, suas associações dependem fortemente de para quem eles
trabalham. Se falarmos de técnicos que trabalham para organizações privadas,
eles estarão facilmente associados à classe capitalista. Se trabalharem para o
Estado, quer como políticos, quer como servidores civis, ou para organizações
públicas não estatais, poderão ser mais autônomos. Nos regimes democráticos, os
membros da classe média profissional, em lugar de simplesmente se aliarem aos
capitalistas, como muitas vezes fazem, ou de tentarem se tornar totalmente
autônomos, como aconteceu na União Soviética, podem também se aliar aos
trabalhadores e aos pobres ou ter uma atitude republicana em direção aos
direitos básicos de cidadania e ao interesse público. Se esta tendência se
confirmar, seu poder político continuará muito provavelmente a crescer no
futuro às custas dos capitalistas, mas, em compensação, terão que compartilhá-
lo com o povo.
Notas
1 Uso como sinônimos, para identificar a nova classe, as expressões classe
média profissional, tecnoburocracia, classe dos técnicos, nova classe média, da
mesma maneira que uso de forma intercambiável classe capitalista e burguesia.
2 Identifiquei pela primeira vez o espírito empreendedor coletivo como a forma
central por meio da qual a inovação e o desenvolvimento econômico ocorrem no
capitalismo moderno em Bresser-Pereira, 1962.
3 Lloyd Warner (1953) identifica a mobilidade social, essencialmente baseada no
espírito empreendedor capitalista, como "o sonho norte-americano".
4 É interessante notar que os economistas ortodoxos que, por seu liberalismo
econômico, são quase sempre associados aos capitalistas, estão particularmente
propensos a acusar os políticos. É significativo, também, que a acusação mais
grave, a de corrupção, geralmente tem origem na própria classe capitalista, que
em certos casos pode ser vítima de chantagem, mas que mais freqüentemente é
corruptora.
5 Este tema é discutido em profundidade em Bresser-Pereira (2002, 2004a).
6 Chesnais, porém, também subscreve a teoria do "capitalismo financeiro", que,
conforme já vimos, não se confirmou historicamente.
7 Desde 2001, venho fazendo a crítica dessa prática - a crítica do crescimento
com poupança externa. Ver, especialmente, Bresser-Pereira (2004b).
8 Sobre o tema, ver, em particular, Bresser-Pereira (2004b).