Como tornar-se adulto: processos de transição na modernidade avançada
Introdução
A par das mudanças que a vários níveis ocorrem na sociedade contemporânea,
também os processos de entrada na vida adulta sofrem importantes
transformações. À medida que o acesso à informação e a todo um conjunto vasto
de recursos se disseminam em escala global e estão disponíveis às populações,
permeando e moldando os seus cotidianos, encontram-se cada vez mais pontos de
convergência entre as formas de ser jovem e viver a transição para o estatuto
de adulto em diferentes sociedades. Percursos escolares mais prolongados,
inserções profissionais mais tardias e instáveis, homologias nos papéis de
gênero são, entre outros, fatores transversais que redefinem os modos de
atingir a condição adulta por parte das gerações mais novas.
Ao longo das últimas quatro décadas, a acelerada escolarização, urbanização e
terceirização da população portuguesa, juntamente com alterações profundas em
todas as esferas da vida social, aproximaram a sociedade portuguesa dos padrões
europeus, embora subsistam fragilidades e atrasos estruturais que têm levado,
em trabalhos de síntese, a considerar-se que Portugal se caracteriza hoje por
uma "modernização inacabada" (Machado e Costa, 1998) e uma posição "semi-
periférica" no sistema global contemporâneo (Santos, 2001). Do mesmo modo, nas
transições juvenis para a vida adulta, apesar da proximidade com as vividas
noutros países europeus encontram-se-lhes também traços particulares, reflexo
das condições estruturais da sociedade portuguesa.
A análise que neste artigo se apresenta sobre as formas como as jovens gerações
se tornam adultas baseia-se nas principais conclusões de um projeto de
investigação levado a cabo em 19971 e que incluiu, na sua primeira fase, além
de uma pesquisa teórica e estatística, a realização de entrevistas de grupo e
entrevistas individuais com moças e rapazes, no intuito de reconstituir
condições e histórias de vida, práticas e representações, projetos e
expectativas quanto ao futuro. A amostra restringiu-se à região de Lisboa e
baseou-se na definição de clusters de jovens em contextos diferenciados e em
situações de vida distintas. A transição para a condição de adulto foi
equacionada em moldes multidimensionais; neste artigo, a análise centra-se em
quatro dimensões fundamentais: educação, trabalho, família e gênero. Assim,
respeita-se esta segmentação. Na seção final ensaia-se uma tipologia de modos
de transição para a vida adulta, como forma de captar as modalidades complexas
por meio das quais se articulam e se entrelaçam essas várias dimensões nas
trajetórias dos jovens.
Assimetrias nos percursos escolares
Nas sociedades do conhecimento é atribuída grande importância aos saberes e às
qualificações formais, adquiridos mediante o sistema de ensino. Cresce e
diversifica-se o leque de ocupações profissionais e técnicas de elevada
qualificação a que só acedem os detentores de diplomas de nível superior,
designados por alguns autores de "analistas simbólicos" (Reich, 1993). Todo
este conjunto de empregos técnicos e científicos, bem recompensados e
prestigiados, está associado a aspirações e investimentos crescentes na
educação.
O alargamento das oportunidades educativas fez-se sentir em Portugal, de forma
acentuada, sobretudo após a revolução de abril de 1974. A universidade deixou
de ser um privilégio das elites, tornando-se, para muitos jovens, a porta de
acesso às "novas classes médias". Se nessa altura menos de 5% da população dos
25 a 29 anos possuía um diploma de nível superior, em 2001 já o detêm perto de
27% de jovens dessa faixa etária (INE, 2001).
Esta transformação foi visível nos trajetos, nas representações e nas
expectativas de uma grande parte dos jovens entrevistados, refletindo uma clara
mudança social. Como outros estudos já vinham notando (Costa et al., 1990),
para os jovens que lhe conseguem aceder, o ensino superior representa uma
transformação significativa das redes de sociabilidade e dos estilos de vida e,
sobretudo, uma enorme abertura de perspectivas em face do futuro. Tal como nos
restantes países onde decorreu a pesquisa, em Portugal emerge um grupo de
jovens altamente envolvidos nos cotidianos universitários e com grande
expectativa em relação ao futuro profissional (Lewis et al., 1999). Querem
aproveitar as oportunidades que os pais não tiveram e escolher uma profissão em
que se sintam realizados. Seus trajetos de vida, sua auto-realização e suas
representações são bastante tributários dos percursos e das oportunidades de
formação. Gostam do estatuto de estudantes e, muitos deles, continuam trajetos
de formação mesmo depois de terminada a licenciatura. A maioria revela vontade
de ter formação no estrangeiro, pois deseja viajar, aprender, conhecer,
contatar com outras culturas, confirmando uma relação já estudada entre a
formação avançada e a condição cosmopolita (Peixoto, 1999). Estes jovens
dependem, em grande medida, do suporte econômico dos pais, que investem
significativamente num projeto de escolarização e mobilidade social de seus
filhos.
Essa massificação do ensino superior alterou significativamente os trajetos e
os projetos de uma faixa já considerável da juventude portuguesa, transformando
decisivamente o processo de entrada na vida adulta, à imagem daquilo que já
acontece desde os anos de 1960 nos países da Europa Central. Alguns autores têm
assinalado a criação de múltiplas opções, situações e oportunidades para os
jovens, conduzindo à desestandardização, à não-linearidade e à individualização
das biografias (Cavalli, 1995; Galland, 1995; Pais, 2001). Ainda assim, a
presente pesquisa mostra que o prolongamento dos projetos acadêmicos é, em
geral, inconciliável com a idéia de, a curto prazo, obter um emprego seguro ou
constituir família, confirmado estudos inquéritos recentes que apontam no mesmo
sentido (Mauritti, 2002). É verdade que a expansão recente dos trabalhos
temporários ou a tempo parcial veio criar novas condições e situações híbridas
e transitórias (Mortimer et al., 1999), mas em Portugal apenas 7% dos jovens
trabalham e estudam simultaneamente, sendo que a média na União Européia é de
16%, e em países como a Holanda ou a Dinamarca atinge 44% e 37%,
respectivamente (Eurostat, 2003). Para a grande maioria dos estudantes
universitários portugueses, o ensino superior constitui, de fato, um adiamento
do processo de transição para a vida adulta, a par de um aumento das
expectativas em face do futuro.
Esse aumento na faixa de jovens universitários não nos deve fazer esquecer que
muitos outros continuam a ingressar cedo no mercado de trabalho, parte deles
sem terminar sequer o ensino obrigatório. Estudos recentes mostram que 40% dos
jovens entram ainda no mercado de trabalho no escalão etário dos 15-17 anos,
sem possuir quaisquer qualificações (Alves, 1998) e que a população entre 17 e
24 anos tem o trabalho como principal meio de subsistência (Garcia et al.,
2000; INE, 2001).
A generalização da escolaridade básica não significa a generalização das
experiências escolares bem-sucedidas. Confirmando uma tendência identificada
por Benavente et al. (1994), a pesquisa empírica revelou como os insucessos e
as reprovações, o desinteresse pelas "matérias", os círculos de amigos e a
vontade de trabalhar, ganhar dinheiro ou conquistar autonomia tendem a
convergir e a acumular-se em trajetórias de exclusão da escola. Uma parte
substancial dos jovens não concluiu a escolaridade básica ou fê-lo já em idade
tardia e em clara ruptura com o sistema educativo. Nas narrativas, o abandono
escolar surge quase como uma "fatalidade", ditada por acontecimentos marcantes
que obrigaram ao afastamento da escola. Uma análise mais aprofundada permite
compreender que esses jovens não só possuíam anteriormente experiências
escolares pautadas pelo desinteresse e pelo insucesso, como também são
originários de classes desfavorecidas e sem qualificações superiores, isto é,
são filhos de operários ou de empregados executantes.2
Eu ia jogar à bola e esquecia a escola. Mas agora vejo a vida de
maneira diferente. Sem educação não se consegue um emprego melhor nem
melhores condições de vida (Entrevista de grupo: jovens operários do
sexo masculino)
Larguei a escola porque os meus pais não tinham mais eu queria
avançar, queria ir para qualquer lugar e não tinha dinheiro, então
espera aí, acabou a escola, aquilo que sei, sei, aquilo que não sei,
que se lixe. Mas estou bem arrependido. Comecei a trabalhar e foi até
hoje (Entrevista de grupo: jovens operários do sexo masculino)
Muitos dos jovens que abandonaram prematuramente a escola sentem, poucos anos
volvidos, a necessidade de mais qualificações e de novas competências para
enfrentar um mercado de trabalho em acelerada transformação e que, cada vez
mais, parece preferir as qualificações escolares, desvalorizando os saberes
práticos. Dessa forma, o ensino noturno, em todos os seus graus, tem
constituído uma opção bastante popular entre os jovens portugueses que
pretendem começar a trabalhar mas, simultaneamente, aumentar as suas
qualificações.
Note-se que os modestos rendimentos dos portugueses no geral, em comparação com
o restante da Europa, implica que o reatar dos projetos escolares se faz, em
grande medida, sem questionar o prosseguimento da vida profissional. Diante da
insuficiência de apoios estatais e de um tecido empresarial dominado pelas
pequenas e médias empresas, situadas em setores pouco qualificados e nem sempre
abertas à aposta na formação (Freire, 1998; Guerreiro et al., 2000), a grande
maioria dos jovens que regressa aos estudos, fá-lo por sua conta e em
concomitância com o emprego. Procuram manter uma vida dupla: a de profissionais
e estudantes, tendo embora de enfrentar diversos obstáculos, nem sempre fáceis
de superar:
Eu trabalho em hotelaria [...]. É a necessidade, neste momento, como
estou a tirar o curso, há certos ramos em que é difícil um part-
time... (Entrevista de grupo: estudantes do ensino profissional do
sexo feminino).
[...] Trabalhadores-estudantes no nosso país, as condições que têm
são mínimas... O meu irmão não completou o 12º ano porque trabalhava
por turnos e a escola não tinha um regime flexível (Entrevista de
grupo: jovens empregadas administrativas).
Esta "escolha crítica" (mercado de trabalho versus estudos superiores) é muito
condicionada por variáveis sociais ' classe, etnia, sexo, local de residência '
bem como condições e experiências proporcionadas pelos próprios sistemas de
ensino e de emprego, que tendem a delimitar oportunidades e vocações no sentido
da reprodução das estruturas e das desigualdades sociais (Bourdieu, 1984). A
juzante, essa opção abre dois universos de transição diferenciados (Banks et
al., 1992), até porque a minoria de jovens com níveis de formação intermediária
(secundário) enfrenta grandes dificuldades de inserção profissional, sendo hoje
o grupo com maior taxa de desemprego (Pais, 2001).
Entre as duas vias clássicas, tem-se assistido, em Portugal, à expansão da
formação profissional como uma terceira via, depois de quase ter desaparecido
após 1974. Reproduzindo uma tendência européia das últimas décadas, os últimos
anos têm sido marcados por uma clara aposta no desenvolvimento do sistema de
formação profissional, em grande parte financiado pela União Européia (UE).
Hoje, "aproximadamente 1 em cada 4 jovens que prosseguem os estudos após o 9º
ano freqüenta um ensino tecnológico e profissional" (Grácio, 2000, p. 136).
Esta expansão vem ao encontro de dois fluxos cruzados: a) as crescentes
exigências da nova economia, cuja competitividade e inovação dependem de
capital humano com novas competências e conhecimentos (Castells, 1998); b) a
contração do mercado de trabalho, que faz com que os cursos sejam uma ocupação
e uma nova esperança para jovens em situação de desemprego iminente ou efetivo
(Neves, 2000).
O ingresso no mundo do trabalho
Independentemente da tônica de diversas análises, seja anunciando o seu colapso
(Jenkins e Sherman, 1979; Rifkin, 1995) ou enfatizando a sua importância como
elemento fundamental de estruturação das sociedades e das identidades
contemporâneas (Beck, 1992, 2000), não há dúvida de que mudanças significativas
têm reconfigurado a organização do trabalho e as formas de emprego (Handy,
1986). As jovens gerações são protagonistas por excelência dessas novas
dinâmicas, tanto na esfera das oportunidades como dos riscos que representam.
As tendências registradas nas últimas décadas na esfera do trabalho implicaram
mudanças significativas nos contextos, nas experiências e nas oportunidades
laborais dos jovens, gerando novos perfis, identidades, poderes e culturas
profissionais (Castells, 1996).
As qualificações escolares, científicas e técnicas, proporcionam condições e
oportunidades acrescidas nos setores qualificados em expansão, até devido aos
baixos níveis de qualificação registrados nas gerações anteriores. Assim, um
contingente significativo de jovens caracteriza-se por trajetos escolares
longos, e uma entrada tardia e favorecida no mercado de trabalho. Desde cedo,
ocupam lugares de decisão nas organizações (Freire, 1998; Cordeiro, 2002) e
auferem salários relativamente altos para a sociedade portuguesa, mesmo em
situação contratual precária. Possuem, cada vez mais, uma "condição
cosmopolita" (Peixoto, 1999), circulando livremente na rede global extraindo
daí enormes capitais econômicos, relacionais e de status (Castells, 1996).
Integram um enclave de trabalhadores privilegiados, seduzidos pelas múltiplas
possibilidades da pós-modernidade, quantas vezes indiferentes à situação da
maioria (Clegg, 1998).
Apesar da situação de privilégio relativo, muitos desses jovens são obrigados a
seguir horários de trabalho bastante prolongados (10-12 horas diárias), por
vezes ainda complementados por ações de formação. Fazem-no por necessidade de
sobrevivência num contexto profissional muito exigente e competitivo, mas
também por expectativas de promoção a curto prazo. Nesses casos, a constituição
de família ou as atividades de lazer são, em geral, remetidas para um cenário
futuro, após a conquista de estatuto e estabilidade profissionais. Alguns
depoimentos são elucidativos:
Eu tenho muita pena que não seja compatível o fato de uma mulher ter
um filho e poder seguir a sua carreira profissional [...] às vezes
não são propriamente compatíveis numa determinada altura...
(Entrevista de grupo: economista, sexo feminino).
[...] [o patrão] dá aquele ar de patrão porreiro, mas o que acontece
é que ele diz para a gente entrar a uma hora qualquer, mas não diz a
hora de saída! É raro o dia em que trabalho 8 horas. Trabalho sempre
mais [...]. Em termos profissionais, [o principal objetivo] é ter um
contrato e ter um horário que me permita ser mãe e não ter posto só
um filho no mundo (Entrevista individual: bióloga).
Esta casta de jovens privilegiados coexiste com uma maioria, alguns com
qualificações superiores ou intermediárias, que "caem nas malhas do temporário"
(expressão de um entrevistado). Entram num círculo cada vez mais longo de
trabalhos rotineiros e temporários, com vínculos precários, rendimentos
reduzidos, em muitos casos não muito além do salário mínimo e sem benefícios
sociais, passando por experiências de desemprego (Pais, 2001), enquanto sonham
com um emprego estável e valorizado e adiam indefinidamente a entrada na vida
adulta.
Note-se, porém, que apesar das análises mais pessimistas (Sennett, 1998;
Bauman, 1999) prevalece ainda um sistema estável e padronizado de emprego. Mas
coexiste hoje com uma panóplia de formas flexíveis de trabalho (Beck, 2000), em
franca expansão sobretudo entre as camadas etárias mais novas, e com reduzidos
direitos e regalias sociais (Lewis et al., 2002b). A flexibilidade, teorizada
por alguns como traço característico da força de trabalho jovem e a
precarização dos vínculos laborais (Supiot, 2001), reforçada pelo
enfraquecimento dos sindicatos e da participação dos trabalhadores nas decisões
tomadas pelas organizações de trabalho, surgem como uma tendência estruturante
das sociedades contemporâneas, obrigando os trabalhadores a lidarem
constantemente com o risco e a insegurança (Castells, 1996; Beck, 2000). Um
pouco por todo o lado, os jovens comentam, sem grande nostalgia, que "já não há
empregos para toda a vida". O que parece específico do caso português é que a
precarização dos vínculos laborais se sobrepõe a um quadro legal
sistematicamente transgredido e a um cenário laboral de condições
tradicionalmente precárias. O trabalho informal, fortemente enraizado em
Portugal, tende a adaptar-se e a subsistir na nova era, representando o "grau
zero" dos direitos sociais e laborais. As datas de pagamentos, bem como os
montantes auferidos são freqüentemente problemáticos e é também freqüente a
imposição de horários prolongados, sem direito a vencimentos extras. A este
propósito, note-se que a maioria dos jovens entrevistados nesta pesquisa
revelou, neste momento, trabalhar sem contrato, situação que lhes foi
apresentada como inevitável ou até vantajosa a curto prazo, visto não
descontarem para impostos e segurança social.
As taxas de desemprego, que em Portugal têm sido "oficialmente" baixas,
aumentaram nos últimos anos, contrariando tendências de recuperação registadas
na União Européia e constituindo-se como um dos mais sérios desafios à coesão e
à integração na sociedade portuguesa. Contabilizada no final de 2004 em 7,1%,
para o total da população, a taxa de desemprego mais do que duplica (15,8%)
para a faixa etária dos 15 aos 24 anos (dados do Instituto Nacional de
Estatística). Cerca de um terço dos desempregados tem menos de 30 anos. Uma
fração muito significativa de jovens transita entre "ocupações flutuantes",
situando-se numa "zona cinzenta" ou de "integração periférica", de difícil
análise sociológica, mesmo por intermédio de metodologias qualitativas, a
inserção profissional efetiva e o desemprego tradicional.
A construção de biografias e identidades enfrenta, pois, uma descontinuidade
entre a insegurança crescente no mercado de trabalho e os valores dominantes de
segurança, planejamento e bem-estar na esfera pessoal-familiar. A seguinte
resposta é um exemplo da dificuldade em gerir essa contradição:
Para já, para as pessoas que estão a acabar os cursos [o principal
objetivo] é acabá-los a bom termo... e depois é começar... essa
questão é muito difícil! A grande preocupação é essa: encontrar um
trabalho... tirar um curso e depois não ter um trabalho onde o
usar... acho que hoje em dia é uma grande confusão. [O principal
objetivo] é entrar num trabalho, arranjar uma coisa com mais ou menos
estabilidade ' não sei se será possível, pelo menos a princípio não é
possível, como está hoje a sociedade... ' e acho que é isso: tentar
encontrar um emprego que dê algumas garantias, que permita que a
pessoa depois comece a construir a sua vida... (Entrevista de grupo:
jovens desempregados do sexo masculino).
Os trajetos lineares da escola para o trabalho tendem a converter-se em
"trajetórias yo-yo", alternando períodos de desemprego, emprego precário e
formação (Alves, 1998; Pais, 2001). Mas, em vez de uma alternância entre ciclos
de formação e de trabalho, como em alguns países se pode verificar (Naegele et
al., 2003), devido aos baixos rendimentos e à falta de incentivos do Estado e
das empresas, em Portugal assiste-se muito freqüentemente a uma sobreposição de
ambos, gerando claras dificuldades aos jovens, sobretudo quando pretendem
encetar projetos e responsabilidades na esfera familiar. Essa transformação
modificou e dramatizou, de forma acentuada, os processos de transição para a
vida adulta. Muitos jovens tendem a adiar essa transição para um tempo
imaginado em que a situação profissional seja mais estável e segura. A própria
auto-realização no trabalho, tão proclamada como valor fundamental dos novos
trabalhadores, surge então como um valor transitório, característico de um
período ainda isento de grandes encargos e responsabilidades.
Mantendo-se, para a maioria dos jovens, um passo indispensável na transição
para a vida adulta e independente (sobretudo num país em que os apoios estatais
aos jovens são ainda muito rudimentares), o processo de entrada no mercado de
trabalho transformou-se rapidamente em sentidos oblíquos. Se, por um lado, o
crescimento do nível de vida das famílias, o aumento dos trabalhos qualificados
e das ofertas de formação concedem aos jovens mais condições de valorização
profissional (Lindley, 2000), ao mesmo tempo a entrada dos jovens no mercado de
trabalho é, hoje, marcada pela instabilidade e pelo risco.3 O aumento das taxas
de desemprego e a generalização dos trabalhos precários e temporários, ambos
atingindo a máxima expressão na faixa etária dos jovens (Smithson et al.,
1998), empurram-nos para ciclos de inserção e desinserção, dando origem a
bolsas de exclusão e, mais genericamente, ao prolongamento ou adiamento do
processo de transição para a vida adulta.
Os "trabalhadores livres" da sociedade do conhecimento, integrados em projetos
e redes múltiplas, tal como os trabalhadores eternamente precários ou os
desempregados crônicos são, todos eles, filhos desta nova ordem social (Beck,
2000) resultante dos processos de globalização, de desenvolvimento tecnológico
e de reestruturação do emprego e da economia.
Reinventando a família
Tradicionalmente, a transição para a vida adulta corresponde ao momento em que
os jovens, simultaneamente, abandonam o agregado familiar de origem e casam,
constituindo uma nova família. A pesquisa mostra que esse modelo continua a ser
dominante em Portugal, mas a transição familiar tende a prolongar-se,
complexificar-se e diversificar-se, gerando uma pluralidade de situações e
trajetos. Esse fenômeno inclui-se, aliás, num processo mais abrangente,
verificado nas últimas décadas em Portugal, de mudanças profundas e aceleradas
na esfera familiar, coexistindo hoje uma enorme diversidade de modelos e
estruturas (Almeida et al., 1998).
Transformação, mas não desintegração da família, como algumas abordagens por
vezes parecem fazer crer. Este estudo, entre outros recentes (Almeida e
Guerreiro, 1993; Almeida, 2003), atesta bem a prevalência do "primado da
família": a família permanece a principal referência para a projeção de
vivências e identidades dos indivíduos. Num contexto de risco, o apoio
fundamental dos pais às transições para a vida adulta parece mesmo dar origem a
novas solidariedades e dependências.
Para mim, é muito importante ter uma família. Família é as pessoas
com que sempre podemos contar... Em princípio, essas nunca nos vão
trair... aconteça o que acontecer, são aquelas pessoas que estão
sempre lá... de certeza, podemos sempre contar [...]. Não estou a
pensar acabar o curso e casar logo, mas passados 2 anos, mais ou
menos, estou a pensar nisso. Agora, depende se tenho um emprego nessa
altura (Entrevista individual: programadora informática).
Essa transformação subentende uma mudança profunda na relação entre pais e
filhos, generalizando-se a situação em que os filhos permanecem até idade
avançada na casa dos pais, num estatuto de "semi-dependência", nas antípodas da
condição subordinada que lhes cabia na família tradicional. Na expressão de
Pais (2001), muitos jovens portugueses vivem hoje no regime de welfare family.
A presente investigação mostra, todavia, que essa permanência gera também
inúmeros conflitos. Em particular, entre as moças e nos meios mais
desfavorecidos, a independência continua a ser sinônimo de saída de casa dos
pais (Brannen et al., 2002).
Mas, seguindo um padrão diferente das gerações anteriores, os jovens
portugueses de hoje são muito céticos quanto ao casamento e à parentalidade
precoces. Fatores culturais e econômicos cruzam-se na explicação da mudança.
Tal como noutros países (Brannen e Smithson, 1998), esta via poderá ser
culturalmente entendida como um constrangimento às oportunidades, às
experiências pessoais ou à promoção profissional. Mas, confirmando estudos
anteriores (Vasconcelos, 1998), a maioria dos jovens portugueses elegeu a
insegurança profissional e a precariedade econômica como principais obstáculos
à realização dos seus próprios projetos no plano familiar.
Muitos jovens criticaram mesmo aqueles que casam e têm filhos cedo, antes de
alcançar uma certa "maturidade emocional e relacional" e uma situação
profissional mais estável. Garantir ' para si próprios e, sobretudo, para os
filhos ' uma vida sem privações tornou-se não apenas um desejo, mas também uma
obrigação, associada a uma noção detalhada da "idade certa" para ter filhos
(Brannen et al., 2002). A consciência do risco cruza-se com as idéias,
dominantes nesta geração, de "realização individual", "responsabilidade
individual", "bem-estar material" e "infância protegida", resultando na
concepção de que a parentalidade precoce constitui uma irresponsabilidade.
Sobretudo nas classes qualificadas, a grande maioria dos jovens, embrenhados em
trajetos escolares e acadêmicos prolongados e demonstrando ambições crescentes
de cariz hedonista ou consumista, não vislumbra a hipótese de casar ou ter
filhos antes dos 30 anos.
As condições para entrar na parentalidade são, geralmente, obtenção de
habitação própria, independência financeira, segurança profissional e
estabilidade (maturidade) relacional. Com a institucionalização da "cultura do
horário prolongado", os horários compatíveis tornam-se também,
progressivamente, uma condição para o prosseguimento de projetos de
parentalidade (Guerreiro, 1998). Como foi referido no tópico anterior, observa-
se uma contradição clara, a saber, a insegurança dominante no mercado de
trabalho e as exigências crescentes de estabilidade e bem-estar familiar e,
geradora de ansiedade e bloqueio.
Neste cenário, o adiamento da transição é somente uma "meia-opção". Sendo para
alguns uma escolha, fundamentada em novos padrões de vida e disposições
culturais (Cavalli, 1995; Galland, 1995), para a maioria converte-se em
destino, perante a impossibilidade ou a irresponsabilidade de opções
alternativas. Viver sozinho ou com amigos, práticas características de
transição na modernidade avançada (Galland, 1995; Prinz, 1995; Furlong e
Cartmel, 1997), permanecem em Portugal quase residuais, merecendo pouco apoio
estatal ou familiar. Nesses casos, a permanência em casa é entendida como um
recurso imediato diante um futuro projetado ou em construção. Esses jovens
encontram-se a "preparar terreno" para uma mudança que é entendida como
problemática (mas desejada), tanto no plano econômico como no plano relacional.
O que acontece em Portugal é que esta "preparação de terreno" tende a estender-
se por muitos anos.
No outro extremo, uma fração minoritária mas significativa de jovens
portugueses segue a via do casamento e/ou da parentalidade precoces, mesmo
antes dos 20 anos. Note-se que, em 25% dos nascimentos ocorridos em 2001, a mãe
tinha menos de 25 anos e, em 43% dos casamentos registados no mesmo ano, a
nubente tinha idade inferior a 25 anos (INE, 2001). A gravidez das moças
constitui, muitas das vezes, o móbil das transformações familiares registradas
e, nomeadamente, do casamento. Sobre a sociedade brasileira e a sexualidade nas
classes populares encontramos situações semelhantes (ver Heilborn, 1999).
Todavia, se por vezes isso resulta de uma "gravidez acidental", posteriormente
assumida, outras vezes decorre de uma estratégia, mais ou menos explícita, por
parte dos jovens.
Engravidei quando andava no 7º ano. A partir da gravidez deixei de
estudar. Foi aquela adoração de ficar com ele [o bebê] (Entrevista de
grupo: empregada administrativa, mãe só, a viver em casa dos pais).
Eu tinha 16 anos e estava a concluir o 9º ano quando engravidei
[...]. Já namorávamos desde os meus 13 anos... (Entrevista
individual: secretária, a viver com o pai dos filhos).
Estratégia ou acidente, o certo é que a parentalidade e o casamento precoces
parecem estar associados aos grupos sociais mais desfavorecidos. O abandono
escolar, a entrada prematura no mercado de trabalho, os constrangimentos
econômicos e a menor liberdade em casa dos pais conduzem uma parte
significativa dos jovens das classes menos favorecidas a encetarem mais cedo
projetos familiares.
Relativamente à coabitação, regista-se um fenômeno curioso. Ainda que muito
freqüente nos projetos das novas classes médias, é nas classes mais
desfavorecidas que alcança maior expressão em termos de práticas (Guerreiro,
1986; Lalanda, 2002; Ferreira, 2003). As condições de vida impõem a estes
grupos práticas mais orientadas para o imediato e o transitório, nem sempre
compatíveis com os custos e as exigências inerentes ao casamento. As carências
econômicas e a relação distante com os sistemas legais tornam-se entraves à
instituição matrimonial. Nesses casos, o casamento é geralmente desejado, mas
adiado indefinidamente pelas contingências cotidianas. Já nos contextos
populares e operários mais estabelecidos, bem como nas classes médias com
poucas qualificações escolares, as disposições culturais concebem,
tradicionalmente, a coabitação como sinônimo de casamento. Qualquer outra
situação é entendida como desviante e ilegítima.
Quer seja pela dimensão institucional, estatutária e sagrada, no caso dos
jovens de menores qualificações escolares e/ou católicos praticantes, quer seja
pela carga ritual e pelo desejo de não criar conflitos com as respectivas
famílias (apoios fundamentais no processo de transição), no caso dos mais
escolarizados e sem filiação religiosa, o casamento continua a constituir uma
prática comum nas jovens gerações em Portugal (Vasconcelos, 1998; Torres,
2002).
Apesar da enorme diversidade nos projetos e trajetos de transição para a vida
adulta, a maioria dos jovens, tal como noutros países, apresentam projeções
coincidentes acerca do modelo familiar desejado a longo prazo (Kugelberg, 1998;
Nilsen, 1998; Lewis et al., 1999; Brannen e Nilsen, 2002; Brannen et al.,
2002). A vida adulta é, assim, concebida como um período de estabilidade, em
que os jovens vivem casados, em casa própria e com os filhos. Para caracterizar
este modo de vida e, sobretudo, a forte interligação entre os seus vários
elementos, adotou-se a designação de "pacote familiar" (Kugelberg, 1998),
ilustrada neste excerto de uma estudante portuguesa:
[...] tenho planos concretos, porque há uma pessoa com quem escolhi
partilhar a vida [...] essa decisão está dependente de coisas como
acabar o curso, ter uma casa, trabalhar a tempo inteiro e ter meios
financeiros... (Entrevista de grupo: estudante universitária).
Não sendo mais progressista ou conservador, o novo paradigma familiar dominante
é mais complexo, desenvolvendo-se a dois tempos: um primeiro período de
liberdade, experiência e aventura; um segundo, de responsabilidade e
estabilidade. A vivência individualizada, livre e emocionante projeta-se como
espelho invertido da vida adulta, considerada rotineira, aborrecida e
desinteressante. O mais curioso é que, quando convidados a falar dos seus
planos a longo prazo, os jovens revelam a intenção de aderir a esse modelo de
vida, como "trajeto natural da vida", sem proporem, aliás, alterações. Os 30
anos parecem ser a fronteira simbólica entre esses dois tempos.4 O casamento
tende a significar, para muitos jovens, um modo de institucionalização da
transição entre um passado de liberdade e errância e um futuro que se pretende
de estabilidade e responsabilidade. Ou melhor, significa um compromisso da
parte do outro de que fará essa transição.
Assim, os jovens dispõem hoje não de uma via única de transição familiar, mas
de uma grande diversidade de caminhos culturalmente aceita que podem (e têm de)
escolher. Esta escolha permanece fortemente condicionada pelas disposições e
condições proporcionadas pelos meios sociais em que se inscrevem os jovens.5
Num contexto de contração e transformação do mercado de trabalho, essa abertura
cultural vê-se freqüentemente bloqueada pela falta de oportunidades e recursos
para realizar os projetos familiares pretendidos. As inseguranças associadas à
transição familiar tendem, pois, a ser avaliadas e acentuadas pelos riscos
vividos na esfera do trabalho.
A ambivalência dos papéis femininos
As dinâmicas da modernidade têm produzido uma relativa flexibilização dos
papéis de gênero. Em Portugal, esse processo foi visível com particular
intensidade e rapidez, na segunda metade do século XX. Não só a igualdade no
plano legal, mas também o aumento exponencial da escolarização, das taxas de
trabalho remunerado e da participação pública das mulheres têm contribuído para
uma mudança efetiva e radical nas relações entre os sexos (Almeida et al.,
1998).6 A generalização do acesso das mulheres às profissões altamente
qualificadas ' constituem já a maioria entre os profissionais técnicos e de
enquadramento (Costa et al., 2000) ' tem transformado significativamente as
relações de poder entre os sexos, atenuando as desigualdades simbólicas e
materiais entre os gêneros (O'Connor et al., 2002).
Aliás, Portugal registra taxas muito elevadas de trabalho feminino,
acompanhando os países do norte da Europa e em forte contraste com os outros
países da Europa do Sul (Almeida et al., 1998). Mas, ao contrário daquilo que
acontece nos países nórdicos, o trabalho a tempo parcial ou em casa e as
licenças prolongadas são ainda modalidades com muito pouca expressão em
Portugal, pelo que o grupo específico das "mães com filhos pequenos" registra
uma taxa de atividade a tempo integral mais elevada da Europa (Eurostat, 2002).
Enquanto as disposições culturais tendem a considerar a profissionalização
feminina geralmente desejável, sobretudo nos setores mais escolarizadas da
população (Torres e Silva, 1998), os constrangimentos econômicos da grande
maioria das famílias portuguesas tornam o trabalho feminino inevitável.
No entanto, a generalização do trabalho feminino coexiste com a persistência de
fortes assimetrias entre sexos nas condições e nas oportunidades conferidas no
plano profissional. Nas entrevistas realizadas, as jovens portuguesas, tal como
por exemplo as irlandesas, denunciam a discriminação de que são alvo no mercado
de trabalho (Lewis et al., 1999). As recentes transformações ' em particular, a
escassez de postos de trabalho e a ênfase quer na informalidade quer na
mobilidade ' podem, aliás, também fragilizar a condição laboral feminina.
Essa duplicidade na reconstrução dos papéis de gênero reflete-se seja nas
representações dos jovens entrevistados, seja nas suas biografias. Enquanto uns
salientam a convergência de representações e aspirações e a renegociação dos
papéis de gênero (Idem), perante um contexto tradicional de fortes assimetrias,
outros enfatizam a persistência de desigualdades e discriminação em vários
contextos sociais. Por outro lado, enquanto uns revelam trajetos de vida
claramente marcados pelo fator gênero, outros parecem apresentar percursos de
vida relativamente "unisexo".
As inúmeras discussões, nas entrevistas de grupo, em torno dos projetos de vida
atestam bem este fato. Mais do que uma verdadeira clivagem de orientações e
prioridades, o que acontece é que, enquanto para os rapazes os projetos
profissionais e familiares surgem em continuidade, visto que suas principais
responsabilidades se relacionam com a segurança econômica, para as moças, há
uma óbvia dificuldade em conciliar ambas as esferas, sendo, portanto, obrigadas
a escolher a qual delas darão prioridade. A visão de que homens e mulheres têm
orientações e aspirações diferentes na vida ' homens preocupam-se com as
questões profissionais; mulheres dedicam-se às questões familiares, domésticas
e afetivas ' encontra-se ainda inscrita na "ordem natural das coisas" para
muitos dos jovens europeus entrevistados, sobretudo aqueles que pertencem às
classes mais desfavorecidas e menos escolarizadas (Lewis et al., 2002b; Lewis
et al., 1999). A popularidade do argumento biologicista, segundo o qual as
mulheres são mais práticas e afetivas, tendo objetivos mais bem definidos, deve
então ser interpretada à luz das menores oportunidades de que dispõem e, por
conseguinte, da necessidade que sentem de manter disposições mais flexíveis e
contingentes. Como comentou uma das jovens entrevistadas, "às mulheres
acontece-lhes muitas vezes isso: têm que abdicar do que escolheram fazer ou,
por vezes, mudar".
Assim, as altas taxas de trabalho profissional feminino coexistem com a
prevalência de um modelo claramente assimétrico de relação conjugal e, em
particular, de divisão das tarefas domésticas. Essa realidade encontra-se
amplamente documentada em estudos sociológicos recentes, que enfatizam o fato
de as mulheres portuguesas cumprirem uma "dupla jornada de trabalho" (Almeida
et al., 1998; Torres e Silva, 1998; Wall e Guerreiro, 2005). Nesse sentido, a
realidade portuguesa quanto às relações de gênero é muito particular no quadro
europeu, dificilmente se enquadrando no binômio tradicional versus moderno.
A maioria dos rapazes, pouco habituados a realizar as tarefas domésticas na
casa dos pais, olha-as com desagrado e/ou desconhecimento. Como comentou uma
das jovens entrevistadas, na maioria das casas, "a filha tem que fazer, o filho
coitadito, vamos poupá-lo". A socialização diferencial tende, pois, a facilitar
a reprodução dos papéis de gênero. Essa assimetria no desempenho das tarefas
domésticas é, aliás, apontada pelas jovens já casadas como um foco de
insatisfação e de conflito freqüente.
Eu acho que, se nós os dois trabalhamos, então nós os dois devemos
assumir em casa.... dividir tudo a meias. Porque se eu trabalho, tu
trabalhas, se eu chego a casa às 8 ou às 10, se tu chegas a casa às
7, não vais sentar-te no sofá a ver televisão. Porque é isso que
acontece com o meu marido... [ele] não dá de comer aos filhos, não
muda a fralda, não os veste, não dá banho [...]. E depois uma pessoa
chega a um certo ponto e está farta. Porque eu tenho que fazer tudo
(Entrevista individual, jovem empregada na restauração).
Entre os rapazes menos qualificados, as tarefas domésticas são consideradas
atividades exclusivamente femininas, ainda que por vezes as contingências da
vida os obriguem a desempenhar algumas delas em casa (Guerreiro, 1986). Os
rapazes mais qualificados são mais vagos, referindo mesmo que as "empregadas
domésticas" constituem a única solução satisfatória em face da dificuldade e da
injustiça de o trabalho doméstico ser apenas assegurado pelas mulheres. Em todo
o caso, a sugestão de que "ajudam" ou "irão ajudar" as mulheres é geralmente
entendida como suficiente, mantendo implícito que as mulheres continuam a
desempenhar o grosso das tarefas domésticas.
Nesse sentido, a questão da conciliação entre vida profissional e vida familiar
permanece, essencialmente, uma questão feminina. Apenas para as mulheres essa
conciliação é encarada como problemática ou potencialmente impossível, visto
que são elas que assumem as principais responsabilidades familiares. A
definição da família como prioridade coexiste, em muitos casos mal, com o
crescimento das aspirações escolares e profissionais. Um grupo significativo de
moças declarou abdicar da vida familiar, uma vez que não a considerava
conciliável com os seus exigentes cotidianos e aspirações profissionais. No
caso dos rapazes, os condicionalismos profissionais, geográficos ou de
horários, são aceitos como inevitáveis e raramente entendidos como entraves à
vida familiar.
No presente estudo tornou-se notório que o processo de transição para a vida
adulta, nas sociedades contemporâneas, envolve um transformação profunda das
identidades e das relações de gênero. Esta parece constituir uma problemática
complexa mas profícua para futura análise sociológica. Durante a adolescência,
a melhor integração das moças nas esferas escolar e familiar traduz-se numa
vantagem simbólica temporária em relação aos rapazes, os quais parecem cair
mais facilmente numa dinâmica de exclusão social. Mesmo no âmbito das práticas
de sociabilidade e dos estilos de vida, ainda que mais condicionadas, as moças
tendem hoje a demonstrar opções e aspirações semelhantes ou, pelo menos,
equivalentes às dos rapazes. Mas, volvidos alguns anos, as mulheres continuam a
ser subalternizadas e discriminadas quer no contexto de trabalho, isto é, como
trabalhadoras, quer no plano familiar, como esposas e mães.
Existe, pois, uma defasagem significativa ' tanto material como simbólica '
entre as relações de gênero estabelecidas nessas duas fases de vida, dando
origem a processos de recomposição identitária e relacional particularmente
complexos e que nem sempre são vividos pelos atores sociais de forma pacífica.
Esta constatação enquadra-se, aliás, na idéia mais geral de que, atualmente, o
processo de individualização ocorre, sobretudo, num período transitório, sendo
sucedido por uma certa estabilização nos padrões de vida mais convencionais
(Nilsen, 1998; Nilsen e Brannen, 2002).
Mecanismos mais sutis tendem, pois, a (re)construir os papéis de gênero,
permitindo o acesso legítimo das mulheres a um conjunto de direitos e esferas
sociais mas, simultaneamente, a reprodução das desigualdades de poder entre os
sexos (Amâncio, 1994; Bourdieu, 1998).
Percursos de transição para a vida adulta
Neste tópico, propomos uma tipologia que inclui sete padrões diferenciados de
transição para a vida adulta na sociedade portuguesa atual, com base na análise
transversal dos trajetos (e projetos) de vida, a partir da realização de
entrevistas individuais e de grupo.
Recuperando a metodologia weberiana de definição de tipos-ideais, esta
tipologia pretende mostrar, por um lado, como esses percursos deixaram de
corresponder a uma via única idealizada, tornando-se múltiplos e problemáticos,
mas, por outro lado, como permanecem associados a um número finito de padrões,
lógicas ou referenciais sociais, não correspondendo a meras escolhas pessoais
ou derivas erráticas.7
Pretende-se, desta forma, analisar as formas complexas por meio das quais, nas
trajetórias e identidades (singulares e integradas) dos jovens, se articulam as
suas vivências nos vários campos sociais. Esta análise é multi-dimensional, de
modo a conceber a relação entre vários campos (educação, família, trabalho,
lazeres), e longitudinal, visto que as transições para a vida adulta
constituem, cada vez mais, percursos prolongados, em vez de passagens
imediatas.
Transições profissionais
Neste modelo, os jovens caracterizam-se por um investimento quase exclusivo no
trabalho, nos primeiros anos, relegando os projetos familiares ou de lazer para
um futuro mais ou menos longínquo. Alguns não demonstram grandes ambições no
plano familiar, mas a maioria pretende adquirir o "pacote familiar" quando
tiver assegurado um estatuto profissional mais estável. Em face da incerteza e
da exigência do mercado de trabalho, apostam numa transição a "dois tempos". As
recentes dinâmicas de precariedade e mobilidade que regem o sistema de emprego,
bem como a "cultura do horário prolongado", vão adiando indefinidamente este
ensejo, levando-os a viver em "presentes prolongados" (Brannen e Nilsen, 2002;
Lewis et al., 2002a), em geral na casa dos pais até uma idade tardia, sob um
estatuto de semi-dependência.
Transições lúdicas
Estes jovens caracterizam-se por um longo período pós-adolescente destinado a
viver a vida de forma descontraída, emocionante e sem grandes preocupações, sob
o signo da fruição e da errância. A sua prioridade é conhecer locais distantes,
conviver com os amigos, sair à noite, procurar novas experiências e sensações,
aprender e divertir-se, antes de assentar e assumir responsabilidades. Em
geral, caracterizam-se por longos trajetos de escolaridade e inserções
precárias e/ou temporárias no mercado de trabalho, que não implicam grandes
compromissos e responsabilidades. Quase sempre, estes jovens permanecem até uma
idade tardia na casa dos pais, gozando de um estatuto de "semi-dependência",
com liberdades quase ilimitadas e encargos financeiros quase nulos, mas
refletindo também dificuldade na obtenção da independência financeira (Nilsen
et al., 2002). Alguns autores têm tomado este como um traço geracional,
associado à melhoria das condições de vida das famílias e à contração do
mercado de trabalho, mas também a novas disposições culturais, que valorizam a
individualização e a realização pessoal, pelo menos durante o período da
transição para a vida adulta (Cavalli, 1995; Galland, 1995; Du Bois, 1995). Mas
em Portugal, os constrangimentos econômicos e culturais levam a que este seja
ainda um modelo muito minoritário, que permanece quase exclusivo ao mundo
masculino.
Transições experimentais
Estes percursos caracterizam-se por uma sucessão de configurações de vida
temporárias e imprevisíveis, como opção de vida ou como período de
experimentação antes de "assentar", casar e ter filhos. À semelhança do que
acontece nas sociedades mais avançadas (Galland, 1995; Furlong e Cartmel,
1997), viver sozinho, em coabitação ou com um grupo de amigos tornam-se modelos
culturalmente valorizadas, pelo menos até à parentalidade, nos setores mais
escolarizados da população. Ainda assim, em Portugal, não só existe alguma
resistência (cultural) de largos setores da sociedade (incluindo parte dos
jovens), como também o apoio público ou familiar a trajetos deste tipo são
claramente insuficientes. O elevado preço das habitações e a condição mais ou
menos precária no mercado de trabalho conduzem a esmagadora maioria dos jovens
a atenuar muito o experimentalismo mesmo no período de transição para a vida
adulta, tornando-se este um ideal partilhado mas uma prática quase residual.
Transições progressivas
Este modelo, muito freqüente entre os jovens portugueses, caracteriza-se por
formas de transição relativamente lineares e programadas, em que o percurso de
escolaridade antecede a progressiva integração profissional e a esta sucede a
constituição de família. Aliás, ante a insegurança crescente na esfera do
trabalho, os modelos progressivos e planeados de transição tendem a ser
defendidos como estratégia de gestão do risco (Brannen e Nilsen, 2002).
Considerando que a etapa de "progressão na carreira" encontra-se hoje bastante
obstruída, a passagem para as etapas seguintes tende a ser dificultada,
causando um prolongamento dessas trajetórias de transição. Para muitos dos
jovens portugueses, sobretudo das classes desfavorecidas, as "transições
progressivas" representam a "transição bem-sucedida", pois asseguram um certo
bem-estar ao longo das várias etapas percorridas. Num contexto de trabalho
marcado pela precariedade, num contexto familiar e amoroso marcado pela
negociação constante, as transições estáveis e lineares constituem uma
conquista árdua, contra as contingências imprevisíveis do cotidiano.
Transições precoces
Este modelo corresponde à passagem rápida e numa idade precoce de um estatuto
de dependência na casa dos pais, ao estatuto de trabalhador, em vida conjugal,
muitas vezes com filhos e desejavelmente (mas nem sempre) em casa própria. Em
Portugal, continua a ser freqüente, sobretudo entre as moças das classes
desfavorecidas (Nilsen et al., 2002). A maior incidência de "transições
precoces" entre as moças reflete ainda uma forte diferenciação entre o papel
masculino, marcado por mais oportunidades de lazer e responsabilidades
profissionais, e o feminino, sujeito a maior controle familiar, do qual só se
consegue libertar por meio da constituição de nova família. As fracas
aspirações escolares, a entrada precoce no mercado de trabalho, as limitações
na esfera do lazer e do consumo, o maior controle familiar a que estão sujeitos
e o menor planejamento familiar são razões que conduzem, freqüentemente, os
jovens das classes desfavorecidas a seguir este tipo de transição, após uma
passagem curta e periférica pelo universo juvenil (Bourdieu, 1984).
Transições precárias
Este modelo corresponde a percursos de constante (re)adaptação dos jovens aos
constrangimentos que lhes vão sendo impostos, denotando campos de possibilidade
e de opção muito reduzidos. Se existem hoje muito mais oportunidades e opções,
estas encontram-se longe de estar acessíveis a todos os segmentos do universo
juvenil. Mais, as situações de insegurança e precariedade vividas em diversos
setores do mercado de trabalho geram novos riscos e constrangimentos,
condicionando os projetos e os trajetos de vida dos jovens (Casal, 1997; Lewis
et al., 2002b; Brannen et al., 2002). Em geral, os jovens com "transições
precárias" fazem parte da massa de "trabalhadores descartáveis", que se
encontram hoje na área cinzenta entre a inserção efetiva no mercado de trabalho
e a desinserção de longo prazo (Beck, 1992, 2000; Castells, 1996).
Transições desestruturantes
Este modelo caracteriza-se pela incapacidade, revelada por alguns grupos de
jovens, para a construção de uma transição para a vida adulta e independente,
mergulhando em espirais de exclusão social, com a quebra de uma série de
vínculos sociais e, potencialmente, sentimentos de depressão aguda e/ou
experiências de marginalidade social. Esses processos podem surgir de uma
miríade de razões, entre as quais devemos hoje salientar o desemprego de longa
duração.8 Note-se que a modernidade tardia se caracteriza por uma enorme
expansão das oportunidades individuais mas também dos riscos (Beck, 1992,
2000). Na transição para a vida adulta, os jovens podem construir biografias
intensamente individuais, aproveitando as múltiplas opções que têm ao seu
dispor, mas podem também cair em "buracos negros", condições degradantes
marcadas pela precariedade, isolamento e ausência de oportunidade. A
informalidade e a flexibilidade das diversas instituições (e das formas de
transição entre elas) oferecem uma grande liberdade, mas também riscos
suplementares, sobretudo porque as instituições tendem a delegar aos indivíduos
a responsabilidade sobre tudo aquilo que lhes acontece. Note-se que a exclusão
social tende a ser um processo gradual, em que os vários fatores se vão
sobrepondo e reforçando. Nesse sentido, o insucesso escolar, o desemprego, a
desintegração familiar, a marginalidade são fatores que, mesmo não estando
sempre presentes, tendem a acumular-se em trajetos desestruturados, marcados
pela privação de recursos, oportunidades e projetos.
Considerações finais
A transição para a vida adulta encontra-se na ordem do dia, nas sociedades
avançadas, em grande medida porque nela se refletem com particular intensidade
os principais fluxos de transformação social, incluindo oportunidades
originais, estilos de vida inovadores, mas também novos focos de desequilíbrio,
desigualdade e exclusão social.
Tendo surgido nos anos de 1970 como preocupação pública, o tema das transições
para a vida adulta tem conhecido recentemente um maior interesse por parte das
ciências sociais. Não apenas se tornou consensual que essa transição constitui
um processo intensamente social, mas também se considera, hoje, que ela é um
eixo de estruturação quer das identidades quer das sociedades, bem como um
campo fértil e fascinante para o pensamento sociológico. Como sugerem Banks et
al. (1992), fenômenos sociais que nos habituamos a pensar como distantes '
educação, ocupação profissional, família, política, cultura ou sociabilidades '
surgem profundamente entrelaçados em complexos percursos biográficos e de
(re)construção identitária. Em vez de estudar um grupo ou uma condição, explora
processos ou trajetórias, o que conduz a uma abordagem, simultaneamente,
transversal e diacrônica.
Constituindo não um momento de passagem, mas sim um percurso, as transições
para a vida adulta tornam-se um espaço original para a produção e a reprodução
de práticas e representações específicas, um espaço identitário. A pesquisa
mostrou que, em vez de uma passagem simples entre dois estatutos ou de um
continuum caótico de mudanças, o período de transição tende a constituir, por
si próprio, uma fase de vida, marcada por condições, oportunidades e
dificuldades próprias. É neste sentido que parece apropriado, hoje em dia,
entender a transição para a vida adulta como um percurso "a dois tempos": um
primeiro período isento de grandes preocupações e dedicado a experiências e
aventuras; um segundo dominado pela estabilidade e pela responsabilidade, no
qual se pensa em casar e ter filhos.
Além disso, o presente estudo sugere que, apesar das tendências de
diversificação e não-linearidade, é possível identificar "padrões de
transição". Esses padrões são resultado de processos de reflexividade social,
mas não são meras opções disponíveis a todos, entrelaçando-se com as origens
sociais, os percursos de escolaridade, as oportunidades e as condições de
emprego, os modelos culturais, os papéis de gênero e as redes de apoio formais
e informais. Assim como proporcionam múltiplas oportunidades e vias
alternativas, os processos de transição para a vida adulta ocorrem hoje num
contexto de risco.
Este contexto de imprevisibilidade, misto de oportunidades e riscos, levou-nos
ao conceito de "transições incertas". Presente na vida de quase todos os jovens
em transição, a incerteza assume formas muito diversas, refletindo condições e
oportunidades muito distintas e assimétricas. Se, para uns, a incerteza resulta
sobretudo das múltiplas vias disponíveis, para muitos outros, essa incerteza
deriva da incapacidade, prolongada no tempo, de superar os contextos sociais
precários e de risco em que se encontram mergulhados.
NOTAS
1 Esta investigação, agora numa segunda fase, iniciada em 2003, inscreve-se num
projeto europeu coordenado por Suzan Lewis, da Manchester Metropolitan
University, e com pesquisas semelhantes em vários países: Inglaterra, Irlanda,
Noruega, Suécia e Portugal. No presente, a equipe integra também França,
Holanda, Eslovénia e Bulgária.
2 Assalariados de base administrativos, do comércio, dos serviços pessoais e
domésticos etc.
3 Espelho invertido da estrutura de oportunidades, a estrutura do risco é
fortemente assimétrica. Além da importância inegável das qualificações
escolares, as posições e as oportunidades nos mercados de trabalho continuam a
ser muito condicionadas pelas redes pessoais e informais. Diversos estudos têm
mostrado como a ajuda de familiares, amigos ou conhecidos é o principal meio de
obtenção de emprego (Santos, 1989; Guerreiro et al., 2000).
4 Em Nobres & Anjos, Gilberto Velho (1998) utiliza esta mesma fronteira
etária para se referir à demarcação entre os grupos de jovens que estudou na
Zona Sul do Rio de Janeiro e as gerações mais velhas, freqüentadoras dos mesmos
espaços públicos.
5 Neste mesmo sentido vão as reflexões de Gilberto Velho (2002) quando se
refere "à ideia do sujeito atuando, operando e optando" como dominante, mas que
"há que nuançar", em face dos "vários casos evidentes da importância crucial
das famílias de origem na efetivação de certos matrimônios".
6 Não há dúvida de que, além dos movimentos feministas, a escola tem
contribuído de forma efetiva para uma subversão parcial da "dominação
masculina", constituindo um poderoso espaço de valorização das identidades
femininas. Atualmente, em Portugal, resultado de fluxos contraditórios, as
mulheres registram valores mais elevados que os homens quer nos setores menos
qualificados da população (analfabetos, sem escolaridade, 1º ciclo) quer nos
setores mais qualificados (ensino superior).
7 É importante não esquecer que, tal como frisava Weber (1922), estes modelos
devem ser entendidos como referências ' sociais (porque orientam os atores) e
sociológicas (porque orientam os sociólogos) ' de uma certa realidade e não
como a realidade strictu sensu, povoada de complexidades e singularidades.
8 Longe de ser residual, o desemprego de longa duração constitui atualmente um
grave problema nas sociedades européias, alcançando a máxima expressão entre os
jovens (Lindley, 2000). Mais do que a precariedade das condições de vida dos
jovens (que pode ser atenuada por subsídios), o desemprego de longa duração
constitui geralmente uma experiência dramática de isolamento, contração das
oportunidades nos vários campos sociais e desestruturação de identidades,
projetos e sociabilidades (Santos, 1989; Banks et al., 1992; Pais, 1993).