Governança e política educacional: a agenda recente do banco mundial
A última década testemunhou uma mudança fundamental nas linhas centrais de ação
e nas políticas do Banco Mundial. Após a muito criticada experiência com
programas de ajuste estrutural durante os anos de 1980, o foco operacional
moveu-se de temas como liberalização, desregulamentação e estabilização para
questões de construção e reforma institucional. De fato, uma vez que se tornou
mais claro que não havia sido dada suficiente atenção aos problemas de
viabilidade política das reformas estruturais e, da mesma forma, aos custos
sociais associados a estas, o Banco Mundial passou a priorizar fatores
políticos como a legitimidade governamental e o papel dos grupos de pressão,
especialmente após o fracasso das políticas de ajuste estrutural em muitos
países africanos (Dia, 1996; Williams e Young, 1994; World Bank, 1992, 1994).
Em linhas gerais, a agenda de políticas do Banco Mundial deslocou-se das
reformas macroeconômicas strictu sensu para as reformas do Estado e da
administração pública objetivando promover a "boa governança" e a fortalecer a
sociedade civil. Por outro lado, o Banco também vem enfatizando a necessidade
de dar conta dos custos sociais do ajuste estrutural e de reduzir a pobreza,
conferindo grande prioridade à reestruturação dos serviços sociais, com o
objetivo de incrementar a eqüidade e a eficiência.
O objetivo deste artigo é ampliar a análise da rationale propriamente política
da nova agenda do Banco Mundial no que diz respeito a aspectos de participação,
capacidade institucional e melhoria das condições sociais. Embora o Banco tenha
se empenhado cuidadosamente em criar uma reputação de neutralidade técnica,
como uma instituição "apolítica", alguns autores têm observado que seus
projetos não refletem objetivos meramente "econômicos" (ver Ayres, 1983; Bello,
1982). Em anos recentes, a tensão entre a retórica apolítica do Banco Mundial e
o caráter real de suas operações tem sido exacerbada por um reconhecimento mais
explícito dos obstáculos políticos ao desenvolvimento. Portanto, deve-se
analisar como a agenda atual se relaciona a essa tensão fundamental.
Quanto à reestruturação dos serviços sociais, a análise enfocará, em
particular, as reformas educacionais, já que o Banco Mundial tem enfatizado as
implicações políticas dessas reformas, reconhecendo sua centralidade para o
desenvolvimento social. Além disso, o financiamento às políticas de educação
cresceu muito nas últimas décadas, sinalizando uma clara mudança de prioridades
(World Bank, 1999b).
O Banco Mundial passou a reconhecer de forma mais explícita que o sucesso de
seu modelo de desenvolvimento depende de profundas mudanças na engenharia
política e social das sociedades em que atua. Enfatizando a melhora das
condições sociais e o fortalecimento da sociedade civil, as reformas dos
serviços sociais pregadas pelo Banco Mundial, particularmente na educação, têm
o propósito de construir um amplo consenso, contribuindo para adequar a
democracia às demandas de estabilidade política subjacentes ao modelo de
desenvolvimento capitalista liberal. Nesse sentido, essas reformas implicam uma
preferência normativa por atributos específicos de variantes do modelo de
democracia dos países desenvolvidos do Ocidente.1
O Banco Mundial, governança e Estado
A emergência do conceito de governança no início dos anos de 1990 marca um
ponto de inflexão bastante claro na trajetória recente do Banco Mundial. Essa
inflexão representa um deslocamento de preocupações de caráter mais técnico,
ligadas às reformas burocráticas e ao gerenciamento de política econômica, para
temas mais abrangentes, como a legitimidade e o pluralismo político. Embora
seja difícil identificar com precisão as razões para essa mudança, não há
dúvida de que o malogro da experiência com ajuste estrutural na África Sub-
Saariana teve um papel crucial em impor uma reavaliação das posições defendidas
previamente pelo Banco. O fracasso de grande parte das reformas apoiadas pelos
SALs (Empréstimos de Ajuste Estrutural) durante os anos de 1980 foi analisado
no relatório Sub-Saharan Africa: from crisis to sustainable growth (1989), que
identificou a "crise de governança" como o mais importante fator responsável
pelos obstáculos ao desenvolvimento da África. Ao enfatizar a importância da
legitimidade e do consenso político para o desenvolvimento sustentável, o
relatório culpou a instabilidade política crônica e a fraqueza dos Estados
africanos pelo fracasso das reformas apoiadas pelas agências multilaterais.2
Embora o relatório de 1989 tenha catalisado a discussão em torno de um programa
para a boa governança, essa agenda só foi delineada mais sistematicamente no
livro Governance and development, publicado três anos depois. O conceito de
governança foi definido então como "a maneira pela qual o poder é exercido na
administração dos recursos econômicos e sociais do país, com vistas ao
desenvolvimento" (World Bank, 1992, p. 1).
Em linhas gerais, o Banco Mundial estabeleceu quatro dimensões-chave para a boa
governança: administração do setor público; quadro legal; participação e
accountability; e informação e transparência. A primeira diz respeito à melhora
da capacidade de gerenciamento econômico e de prestação de serviços sociais. Em
certa medida, isso não chegou a ser efetivamente uma novidade para o Banco,
visto que a preocupação com questões de capacidade burocrática já estava
presente na experiência anterior com programas de ajuste estrutural. A segunda,
relativa ao estabelecimento de um marco legal, foi enunciada como um elemento
crítico em face da "síndrome da ilegalidade" que caracterizaria muitos países
em desenvolvimento (World Bank, 1997). Essa dimensão envolve uma série de
regras conhecidas previamente, cujo cumprimento é garantido em um órgão
judicial independente, e de procedimentos para modificá-las, caso não sirvam
mais aos propósitos inicialmente estabelecidos (World Bank, 1992, p. 30).
Finalmente, a boa governança diz respeito a questões de transparência e
participação. Essas duas dimensões, consideradas fundamentais para aumentar a
eficiência econômica, envolvem a disponibilidade de informações sobre as
políticas governamentais, a transparência dos processos de formulação de
política e alguma oportunidade para que os cidadãos possam influenciar a tomada
de decisão sobre as políticas públicas (Idem, p. 40).
Na visão do Banco Mundial, o conceito de governança não implica a preferência
por nenhuma forma específica de governo. O Banco vem enfatizando que os
elementos substantivos da estrutura legal para o desenvolvimento "possuem
conotações políticas que podem algumas vezes repousar fora do mandato legal do
Banco" (Idem, p. 51). Essa idéia fica mais clara em um artigo "não-oficial",
produzido pela área de pesquisa do Banco, que define governança como:
[...] a provisão de regras abstratas e universais, de instituições
capazes de garantir seu cumprimento, e de mecanismos previsíveis para
regular conflitos relativos tanto às regras quanto ao seu
cumprimento. Esta abordagem exclui qualquer conteúdo normativo e
qualquer atributo de regimes políticos específicos da concepção de
governança, isto é, o termo não se refere à substância das regras, à
forma das instituições, ou à natureza dos mecanismos de resolução de
conflitos (Frichstak, 1994, p. 15, grifo meu).
Pode-se dizer, então, que o "Estado ideal" concebido pelo Banco Mundial é um
Estado liberal "neutro", definido puramente em termos procedimentais, na medida
em que, ao menos teoricamente, não agrega nenhuma concepção prévia do bem
social; ao contrário, o Estado deve funcionar segundo o estabelecimento de
regras "neutras" que permitam a busca legítima de diversas concepções do bem
social. Como observado por Williams e Young (1994), o Banco segue, nesse
sentido, uma importante vertente do pensamento liberal contemporâneo, a qual
estabelece uma rígida distinção entre o bem social e o certo ou justo.3
Essa posição é corroborada por Lal (1994), funcionário do alto escalão do
departamento de Recursos Humanos do Banco. Ele argumenta, recorrendo aos
pensadores do Iluminismo escocês, que há uma distinção fundamental entre as
formas de governo e as características do "bom governo". Embora a democracia
possa ser considerada valiosa na promoção da liberdade, "ela não
necessariamente irá promover a opulência, a qual depende de uma economia de
mercado eficiente, e que, por sua vez, não requer um governo democrático para
sua manutenção" (Idem, p. 2). O "bom governo" é definido então, de acordo com a
tradição liberal, como um guardião das leis "que apenas permite que os
indivíduos busquem seus próprios fins" (Idem, p. 3), promovendo a opulência por
meio do estabelecimento de leis de justiça que garantam o livre comércio e a
competição pacífica. Evidentemente, ainda segundo o autor, essa formulação
pressupõe a existência de uma economia de livre mercado, em que os indivíduos
sejam livres para buscar seus próprios interesses.
Não é difícil argumentar que as posições oficiais do Banco Mundial diferem
pouco da análise "não-oficial" descrita acima. De fato, o mandato legal do
Banco limita claramente seu papel aos aspectos institucionais e procedimentais
do desenvolvimento, deixando de lado aspectos ligados à responsabilidade
política e à análise do regime político. O "bom governo" e a "boa governança"
são associados à garantia dos direitos de propriedade e à promoção de um
ambiente benéfico ao investimento privado, e não necessariamente a uma forma
particular de governo - embora se possa muito bem argumentar que essa
abordagem exclui regimes não-ocidentais e não-capitalistas. Segundo o relatório
The State in a changing world, de 1997,
[...] os direitos de propriedade são a base para o crescimento
econômico calcado no mercado e para a redução da pobreza. Entretanto,
muito mais é necessário. As empresas necessitam de um ambiente que as
induza a alocar os recursos de forma eficiente, a aumentar a
produtividade e a inovar (World Bank, 1997, p. 45).
Ou seja, a publicação oficial do Banco Mundial coloca em evidência unicamente o
efeito do marco legal sobre o crescimento e a eficiência econômica,
escamoteando questões normativas quanto ao caráter desse marco legal.4
Fortalecendo a sociedade civil: descentralização, participação e democracia
A crescente preocupação com questões relativas à boa governança tem sido
acompanhada, na última década, por uma mudança na concepção do Banco Mundial
quanto ao papel do Estado na promoção do desenvolvimento. Após o sucesso
econômico dos Novos Países Industrializados (NIPs) do Leste Asiático, o Banco
foi obrigado a reconhecer que os mercados não podem funcionar de maneira
adequada sem suportes institucionais de qualidade (World Bank, 1993).5 Assim, o
relatório de 1997 - estabeleceu uma ampla estratégia para a reforma do
Estado no sentido de adequar o papel desempenhando pelo Estado às suas
capacidades institucionais e, ao mesmo tempo, aumentar sua capacidade por meio
do revigoramento das instituições públicas. A visão do Banco sobre o processo
de "fortalecimento das instituições" é bastante clara, ou seja, tal processo
envolve necessariamente o reforço da provisão privada de serviços por meio de
parcerias público-privado:
Países com instituições públicas fracas devem dar total prioridade à
busca de caminhos para a utilização de mercados e para envolver
empresas e outros provedores não governamentais na provisão de
serviços (World Bank, 1997, p. 60).
Na formulação do Banco, portanto, o mercado e a sociedade civil, representada
por ONGs e organizações populares, são considerados remédios ideais para as
burocracia hipercentralizadas e ineficientes do mundo em desenvolvimento. Dessa
forma, reformas que visam à descentralização das funções do Estado e ao
empowerment da sociedade civil são cruciais nesse contexto.6 O relatório de
1997 sobre o Estado defende a descentralização, argumentando que os governos
locais podem adequar mais facilmente a oferta de serviços às preferências
locais, o que varia de acordo com o município ou o distrito (World Bank, 1997).
O processo de descentralização, segundo o Banco, também tem o papel de
complementar e fortalecer medidas para ampliar a participação popular. Entre
essas, inclui-se um marco legal que propicia liberdade de expressão e de
associação (Dia, 1994), criação de conselhos populares, aumento da
transparência e realização de eleições periódicas (World Bank, 1997, pp. 122-
124).
Em grande medida, a posição do Banco Mundial no que diz respeito à importância
dos mecanismos de participação e do empowerment dos decisores locais tem
relação direta com o que se percebe como um conjunto de falhas dos mecanismos
democráticos mais usualmente aplicados para garantir a representação dos
cidadãos e a responsabilização dos representantes eleitos. De fato, o Banco
levanta uma série de dúvidas sobre a efetividade e a legitimidade dos
mecanismos eleitorais na prática:
[...] embora eleições e outros mecanismos políticos auxiliem a
mediação entre os cidadãos e o Estado, o mandato dos cidadãos pode
permanecer mal-definido - e poderosos interesses especiais irão
tentar continuamente dirigir a atenção do governo em seu favor (World
Bank, 1997, p. 25).
Especialmente nos países do Terceiro Mundo, argumenta-se em seguida, os
processos eleitorais são imperfeitos, não sendo suficientes para assegurar a
adequação do governo às preferências dos cidadãos, e que a existência de
instituições e organizações intermediárias é essencial para aumentar a
qualidade dos procedimentos democráticos. O Banco observa, ainda, que os
cidadãos participam não apenas como eleitores, mas também como pagadores de
impostos, como usuários de serviços públicos e, cada vez mais, como membros de
ONGs e organizações populares (Idem, p. 113). Essas associações são
consideradas valiosas tanto por sua habilidade na provisão de bens públicos,
como "por seu papel na construção de relações de confiança e de um senso de
pertencimento à esfera pública entre aqueles excluídos ou alienados do processo
político" (Idem, p. 114).
O Banco está, assim, reafirmando a importância da "construção" da sociedade
civil para a qualidade da democracia e para a performance do governo como um
todo. Certamente, a experiência dos países africanos influenciou
particularmente essa concepção, assim como os escritos mais gerais sobre
governança. Segundo Mamadou Dia, chefe de divisão no Departamento Técnico do
Banco Mundial para a África, as organizações da sociedade civil no continente
africano são frágeis ou controladas diretamente pelo governo. Nesse contexto,
"elas nem contribuem com o aconselhamento externo, nem atuam no sentido de
controlar a burocracia" (Dia, 1994, p. 14). Os Estados africanos no período
pós-Independência foram estabelecidos como burocracias autocráticas, carecendo
de accountability, transparência e primado da lei (Idem, p. 12). Daí a ausência
de conexão entre governo central e sociedade civil - o poder absoluto dos
administradores levou à ausência de responsabilização e de legitimidade do
Estado (Dia, 1996, p. 43).
O fortalecimento e o empowerment da sociedade civil seriam, do ponto de vista
do Banco Mundial, a única forma de contrabalançar o poder do "Leviatã" e suas
burocracias ineficientes no Terceiro Mundo. Isto não significa, entretanto, que
o Banco esteja adotando a perspectiva da teoria política pluralista e, dessa
forma, favorecendo o sistema pluralista dos grupos de pressão do qual os
Estados Unidos são considerados o "tipo ideal". Ao contrário, o relatório de
1997 faz diversas referências aos "perigos" da participação de grupos de
interesse na formulação de políticas:
[...] nem todas as organizações da sociedade civil são adequadamente
representativas, seja de seus membros, seja do público em geral [...]
os governos devem ter consciência dos interesses que esses grupos
defendem, assim como dos interesses que eles não representam (World
Bank, 1997, p. 113).
Isso não é nada surpreendente, já que a discussão sobre a boa governança é
pautada pela neutralidade liberal, ou seja, a idéia de que o Estado deve pairar
livremente sobre grupos e interesses em conflito, agindo como um árbitro
imparcial no sentido de garantir o cumprimento das "regras do jogo" (ver
Frischtak, 1994; Lal, 1994). A esse respeito, o Banco Mundial foi influenciado
pela teoria da escolha pública e sua visão lúgubre sobre a democracia
pluralista, que aponta a competição entre os grupos de pressão como causadora
de ineficiências econômicas e do "congestionamento" da agenda pública com
demandas particularistas (Buchanan, 1975; Downs, 1957; Olson, 1982).7
A ambigüidade dessa posição é confirmada pelo uso de um truque retórico para em
conceituar os grupos que, eventualmente, se colocam contra as reformas de
mercado defendidas pelo Banco Mundial e seus aliados domésticos como
"interesses especiais", fora da sociedade civil. Os sindicatos dos servidores
públicos e a burocracia estatal são geralmente apresentados como os "grandes
vilões" na efetivação das reformas estruturais, pois, segundo o Banco, eles se
beneficiam de supostas "rendas monopólicas" garantidas pelo Estado (Beckman,
1993, pp. 30-31).8 O que está em jogo, portanto, é minar os grupos que
supostamente tomaram conta do Estado para atingir objetivos particulares e
promover, em contrapartida, uma "nova" sociedade civil, mais adequada aos
cânones do liberalismo de mercado. Assim, reconhecendo os perigos da
"privatização" do Estado, o Banco tenta estabelecer critérios para julgar a
conveniência de práticas participativas:
É geralmente aceito que algumas áreas de decisão pública requerem o
insulamento das pressões políticas. Nas áreas técnicas de
administração macroeconômica, por exemplo, algum insulamento [...] da
pressão dos lobbies políticos é desejável [...]. Em outras áreas, no
entanto, o interesse público e o interesse privado coincidem a tal
ponto [...] que algum nível de deliberação público-privado é não
apenas desejável, mas, de fato, crucial para o sucesso (World Bank,
1997, pp. 116-117, grifo meu).
Mecanismos participativos são entendidos, assim, de maneira instrumental, como
formas de obtenção de legitimidade política sempre que o interesse público
coincidir com os interesses privados. Uma vez que o conceito de interesse
público é necessariamente ambíguo, é preciso que se tenha uma concepção prévia
do bem social, a qual parece estar relacionada ao caráter supostamente
consensual das reformas "técnicas" defendidas pelo Banco Mundial. Em outras
palavras, o Banco define "participação" como um processo essencialmente
restrito e despolitizado, que envolve a deliberação público-privado sobre temas
não-controversos. Nessa perspectiva, o objetivo central é assegurar a
legitimidade política dos governos e aumentar a eficiência na prestação dos
serviços públicos. Assim, o empowerment da sociedade civil significa capacitar
os cidadãos para "cobrar e garantir a boa performance [dos governos]" (World
Bank, 1992, p. 14), "criando incentivos para inculcar nos políticos e
burocratas o comportamento racional dos empreendedores no mercado" (Williams e
Young, 1994).
Tem-se argumentado que tal estreiteza na definição de práticas participativas
seria reflexo da preocupação do Banco Mundial de não ferir as restrições legais
à interferência política direta nos países-membros. Segundo Miller-Adams (1999,
p. 94), o conselho geral do Banco observou que as práticas participativas
apoiadas pela instituição não têm o objetivo de promover a reforma política ou
a democratização dos países-membros, apoiando-se, diversamente, em questões
técnicas relativas à eficiência e à efetividade dos desenvolvimento
participativo. No entanto, em que pese a (renovada) retórica de
"desenvolvimento apolítico" (Nelson, 1995), é possível argumentar que as
reformas recentes apoiadas por essa instituição têm implicações políticas
claras e revelam uma preferência normativa por atributos específicos de
variantes ocidentais de democracia liberal e capitalismo. Isso pode ser
observado no atual programa do Banco para reduzir a pobreza e reestruturar as
políticas sociais. A seguir, enfocaremos especificamente a agenda para a
reestruturação das políticas educacionais.
Democracia e política educacional
Após uma década de políticas de ajuste estrutural no Terceiro Mundo, o que
resultou, em muitos casos, no aprofundamento dos desequilíbrios econômicos e da
instabilidade política, o Banco Mundial vem enfatizando atualmente a
necessidade de minimizar os custos sociais do ajuste econômico e reduzir a
pobreza. Dessa forma, a reestruturação dos serviços sociais, com o objetivo
declarado de aumentar a eficiência e a eqüidade, ganhou papel de destaque na
agenda do Banco Mundial para a reforma do Estado.9
Nesse contexto, o processo de reforma educacional tem recebido atenção
prioritária do Banco. Enquanto nos decênios 1970-1979 e 1980-1989 as aprovações
de empréstimo à educação somaram, em média, 4,5% do total, no período de 1990 a
1998 essa média quase dobrou, passando a 8,5% do total (World Bank, 1999b, p.
23). Além desse aumento significativo no total de empréstimos educacionais,
também têm havido mudanças na composição dos empréstimos dentro do setor
educacional. Durante grande parte de sua trajetória, o Banco havia dado mais
ênfase ao hardware - construção e provisão de equipamento - do que aos
aspectos qualitativos da educação, como organização de currículo e treinamento
de professores (Jones, 1992). Mais recentemente, o foco tem se deslocado do
hardware para o software educacional, ou seja, observa-se uma maior preocupação
com questões relativas à reforma curricular, à administração educacional e à
reforma trabalhista (World Bank, 1999b, p. 25).
Reformas da organização e da administração dos serviços educacionais também se
tornaram um foco de atenção ante a necessidade de dar conta dos custos sociais
do ajuste econômico em um contexto de severas restrições orçamentárias na
maioria dos países em desenvolvimento. Com base nas diretrizes mais gerais para
a reforma do Estado, as políticas defendidas pelo Banco trazem um maior
envolvimento do setor privado na provisão de serviços educacionais e a
"minimização" da burocracia no setor. As reformas propostas envolvem a
delegação de responsabilidades e recursos para os níveis locais e para a
escola, a terceirização de serviços educacionais para ONGs e a introdução da
escolha parental de serviços educacionais por meio de cupons financiados pelo
Estado. Assim como muitas reformas da "nova administração pública" (ver
Dunleavy e Hood, 1994; Hood, 1991; Pollit, 1994), a reestruturação dos serviços
educacionais segundo essas diretrizes foi iniciada em países desenvolvidos de
língua inglesa - Reino Unido, Nova Zelândia e Estados Unidos (Apple, 2001;
Arnott e Raab, 2000; Clune e Witte, 1990; Levacic, 1995; Wells, 1993; Whitty et
al., 1998).
Embora houvesse diferenças significativas entre esses países, todas as reformas
resultaram, em certa medida, em um processo de comodificação (marketization),
no sentido da introdução de incentivos competitivos nos sistemas educacionais
(Whitty e Power, 1996, p. 20). No Reino Unido, por exemplo, a autoridade sobre
os orçamentos e a administração de pessoal foram delegadas diretamente às
escolas. Essas mudanças foram acompanhadas pelo estabelecimento de matrícula
livre (isto é, a livre escolha das escolas pelos pais dos alunos) e por uma
fórmula de financiamento baseada no número e na idade dos estudantes. A partir
daí, as escolas viram-se forçadas a competir entre si para atrair estudantes
(Levacic, 1995).
Maior eficiência e igualdade de acesso são justificativas recorrentes para o
implemento dessas reformas. Em recente relatório, o Banco Mundial observou que
a evidência comparativa confirma que o setor privado geralmente suplanta o
setor público tanto em termos de qualidade como de eficiência e, por essa
razão, um maior envolvimento de provedores privados, como ONGs, seria desejável
em termos da relação custo-benefício. As pressões competitivas introduzidas
pelos novos esquemas de financiamento e administração também iriam
(supostamente) aumentar a eficiência, tornando os professores e os
administradores educacionais mais atentos às demandas dos pais e da comunidade
escolar no que diz respeito à performance e aos custos educacionais (World
Bank, 1995a, p. 127). Além disso, espera-se que as reformas descentralizadoras
tenham um impacto positivo sobre a qualidade do processo educacional e que o
maior envolvimento dos pais e dos membros da comunidade no processo de tomada
de decisão irá melhorar a performance de professores e alunos, diminuir a
evasão escolar e aumentar o moral dos funcionários (Collete e Perkins, 1995).
Além da marcante preocupação com o aumento da eficiência, essas reformas também
levantam questões relativas à eqüidade dos gastos.10 Pesquisas promovidas pelo
Banco revelam que, embora em muitos países em desenvolvimento as taxas de
matrícula na educação primária cheguem a 100% das crianças em idade escolar,
ainda persistem desigualdades significativas de acesso. Na América Latina, por
exemplo, a maior parte dos estudantes de baixa renda cursa escolas públicas
"menos eficientes", enquanto os estudantes das classes média e alta cursam
estabelecimentos privados que proporcionam uma "educação de melhor qualidade"
(Basu e King, 2000; Thomas et al., 2000; World Bank, 1999a). Do ponto de vista
do Banco, o problema da desigualdade não pode ser resolvido simplesmente pelo
aumento dos gastos educacionais, mas requer, em contrapartida, a melhora da
qualidade dos serviços educacionais e a garantia de acesso das crianças de
baixa renda aos níveis de educação superiores (World Bank, 1995a; 1999b).
A literatura crítica sobre as reformas pregadas pelo Banco Mundial faz várias
ressalvas aos argumentos utilizados, a começar pelo fato de que a introdução de
mecanismos competitivos e a descentralização dos serviços educacionais não
necessariamente irão trazer maior eqüidade no acesso à educação. Segundo alguns
analistas, há uma contradição, nessas medidas, pois, de um lado, afirma-se que
as necessidades dos pobres serão mais bem atendidas e, de outro, promove-se a
introdução de taxas escolares nas escolas públicas e amplia-se a provisão
privada de serviços. Como observa Lauglo (1996), não está claro como as
reformas defendidas pelo Banco irão efetivamente solucionar os efeitos
negativos sobre a eqüidade implicados por essas medidas. Além disso, tem-se
observado que a criação de mercados tende a reforçar os padrões prévios de
desigualdade na oferta de serviços educacionais, na medida em que as escolas
dotadas de melhores condições materiais e operacionais têm maior possibilidade
de serem mais bem sucedidas no que tange a atração de alunos e a gestão dos
recursos obtidos (Arnove, 1997; Martins, 2001). Nos países desenvolvidos,
muitas pesquisas relatam como as escolas de melhor performance selecionam
deliberadamente os alunos mais "aptos" que, por sua vez, são provenientes de
famílias mais bem situadas na escala social. Com isso reforçam-se os padrões de
segregação do sistema escolar fundados em diferenças de classe e de status
social (Whitty et al., 1998; Whitty e Power, 1996).11
O Banco Mundial tem sido acusado de adotar uma visão puramente economicista e
instrumental do processo educativo. De acordo com Samoff (1996), o Banco
enxerga a educação como uma "caixa preta", focando a atenção nos inputs e
outputs e deixando de lado os aspectos da educação que dizem respeito à
atividade cotidiana de professores e alunos. Essa maneira funcional de ver o
processo educativo objetiva formar trabalhadores e cidadãos, promovendo o
crescimento econômico e a redução da pobreza. Quanto à política social, subjaz
a idéia de que ela deve ser empregada com o objetivo de instrumentalizar
programas de ajuste econômico, por meio da redução da burocracia governamental
e da introdução de incentivos de mercado no serviço público (Coraggio, 1996).
É importante observar, nesse sentido, que a preocupação do Banco Mundial com
questões relativas à eqüidade não é baseada em imperativos éticos, mas em
objetivos de eficiência econômica e competitividade. De fato, as políticas do
Banco para a educação sempre buscaram fundamento na teoria do capital humano
(Lauglo, 1996; Jones, 1992). Em sua formulação mais simples, essa teoria
considera a educação um investimento na produtividade futura do trabalho, tanto
para a sociedade como para o educando, promovendo o crescimento econômico (ver
Thomas et al., 2000). Na perspectiva do Banco, portanto, mais do que uma
questão de justiça social, o investimento prioritário na educação básica é uma
forma de incrementar a competitividade e de promover o crescimento dos países
do Terceiro Mundo, uma vez que o conhecimento se tornou um insumo fundamental
na "economia globalizada" (World Bank, 1999a).12
Em conexão direta com a ênfase na problemática da eqüidade, o Banco Mundial
reconhece a importância das reformas educacionais para consolidar a democracia
e promover a estabilidade política. Uma população educada, argumenta-se, terá
maior probabilidade de mostrar interesse e envolvimento na condução política do
país e, como conseqüência, será mais capaz de fazer escolhas "corretas" e
cobrar a responsabilidade dos políticos quanto às promessas de campanha
eleitoral (Thomas et al., 2000; World Bank, 1999a; 1999b). Além disso, a
educação promove o desenvolvimento social, aumentando a coesão da sociedade e
oferecendo melhores oportunidades aos indivíduos (World Bank, 1999b, p. 5).
Assim, a reforma educacional contribui para a estabilidade política, na medida
em que garante oportunidades iguais a todos os cidadãos. Diante das enormes
desigualdades de renda e acesso à educação na América Latina, o Banco acredita
que as "políticas [educacionais] de inclusão são fundamentais para aumentar a
coesão da sociedade e evitar protestos e descontentamento social" (World Bank,
1999a, p. 51). Em linhas gerais, investindo e melhorando a qualidade da
educação e de outros serviços sociais torna-se possível manter o apoio dos
eleitores em reformas econômicas como a privatização e a liberalização
comercial, o que assegura a estabilidade política e econômica (Burki e Edwards,
1996, p. 20).
Conclusão
A relevância da problemática da estabilidade política na análise do Banco
Mundial não surpreende, uma vez que o Banco sempre teve como marca de atuação a
defesa de processos de modernização defensiva, formulados para promover o
desenvolvimento capitalista e conter a mobilização social e política anti-
sistêmica nos países do Terceiro Mundo (Ayres, 1983). O que há de realmente
novo é que o Banco tem teorizado de forma mais elaborada as condições políticas
necessárias para o sucesso de seu modelo de desenvolvimento, reconhecendo que o
grau de intervenção necessário para atingir seus objetivos é muito maior do que
se imaginava antes. A agenda recente passou a envolver, assim, um amplo
processo de construção de consenso e melhora da coesão social. Reformas sociais
projetadas para garantir a inclusão de grupos marginalizados e reduzir a
pobreza estão entre as políticas voltadas para a consecução dos objetivos.
Atualmente, o Banco reconhece a importância da área educacional para sua agenda
de reformas, na medida em que a reforma educacional, em particular, desenvolve,
com bases mais sólidas, as habilidades necessárias para fiscalizar os governos
e promover a inclusão social. Além disso, o papel da educação dentro do marco
legal para a "boa governança" é fundamental, pois a ideologia de igualdade de
oportunidades, que constitui o cerne da teoria do capital humano e,
analogamente, da "sociologia da educação" do Banco Mundial, contribui para
legitimar o Estado liberal como uma instituição neutra, empenhada em garantir o
cumprimento de regras "justas". Nesse sentido, a idéia de inclusão social que
está em pauta é bastante peculiar - a luta contra a pobreza e a exclusão
social não é necessariamente uma luta contra a desigualdade de renda, que, na
perspectiva do Banco, apenas reflete diferenças nos níveis de habilidade e de
esforço individual, mas contra a desigualdade de condições competitivas no
mercado (Spring, 1980, p. 88).13
Não causa estranheza, portanto, que as reformas pregadas pelo Banco possam
eventualmente resultar a intensificação de desigualdades no interior do sistema
educacional, como observam os críticos (Arnove, 1997; Lauglo, 1996). Pode-se
deduzir, de fato, que o mais importante do ponto vista de sua agenda para o
"desenvolvimento social" não é a eliminação ou mesmo a redução das
desigualdades, mas um amplo processo de mudança de mentalidade com o intuito de
apoiar o desenvolvimento do capitalismo de mercado (Williams e Young, 1994).
Com a introdução de mecanismos de mercado nos serviços públicos e o estímulo ao
setor privado - ocultos ocultados sob a retórica da "libertação da
sociedade civil" (Beckman, 1993) -, espera-se reproduzir nos países do
Terceiro Mundo as mesmas bases culturais ssdo capitalismo ocidental
desenvolvido, criando, assim, uma "nova" sociedade civil, caracterizada pelo
individualismo possessivo de velhas e novas teorias liberais. De maneira
análoga, as mudanças propostas buscam solapar, definitivamente, as bases do
"paternalismo" e do "populismo" estatais.
Apesar desse alinhamento incondicional à visão neoconservadora dos apóstolos do
livre-mercado, o Banco Mundial não deixa de enfatizar, por outro lado, as
conexões entre reforma dos serviços sociais, participação e aumento da coesão
social. Nesse sentido, o relatório sobre o Desenvolvimento no Mundo, de 1997,
enfatiza a importância de ONGs e outras organizações da sociedade civil não
apenas na provisão de bens públicos, "mas também por seu papel na construção da
confiança e de um senso de pertencimento à esfera pública entre aqueles
excluídos ou alienados do processo político" (World Bank, 1997, p. 114). O
Banco parece estar redescobrindo a idéia da "sociedade orgânica", descrita por
Émile Durkheim no século XIX, ao esperar que organizações privadas cumpram um
papel fundamental na prevenção da "anomia" e na construção do consenso,
garantindo a integração social e a estabilidade política - condições
necessárias para o sucesso das reformas econômicas defendidas pelo Banco. O
empowerment da sociedade civil envolve, nessa perspectiva, a criação de uma
densa esfera de associações privadas capaz de amparar o desenvolvimento
econômico orientado pelo mercado.
Ainda a esse respeito vale ressaltar que a retórica do Banco Mundial sobre
descentralização e participação se caracteriza pelo uso de metáforas de mercado
e de conceitos econômicos. A descentralização é descrita como uma forma de
"adequar a oferta de serviços às preferências individuais", e o empowerment,
como a habilitação dos cidadãos para "demandar e garantir a boa performance".
Essa abordagem restringe o significado e a amplitude da participação dos
cidadãosnesta abordagem de modo a não afetar a racionalidade dos princípios de
mercado introduzidos pelas reformas técnicas do Banco - ajuste fiscal,
desregulamentação de mercados e privatização, uma vez que tais princípios são
considerados tão inquestionáveis quanto a lei da gravidade.
De fato, o Banco sugere que os governos devem "trancar" (lock in) as boas
políticas "responsáveis" - especialmente políticas monetárias e fiscais
- de modo a evitar que mudanças subseqüentes afetem a credibilidade destas
(World Bank, 1997, p. 50). Dar autonomia ao Banco Central e desenhar
instituições orçamentárias hierárquicas são, entre outros, mecanismos sugeridos
o "trancamento" de políticas. O objetivo é evitar submeter a administração
macroeconômica aos mares turbulentos da democracia pluralista, buscando apoio,
diversamente, na autoridade e na legitimidade dos economistas e da ciência
econômica. Assim, as suspeitas levantadas pelo Banco contra a democracia
eleitoral no Terceiro Mundo não chegam a surpreender, visto que governos
populistas ou esquerdistas, uma vez eleitos, podem subverter as condições
necessárias ao desenvolvimento dos "mercados", minando os fundamentos da "boa
governança".
Apesar da retórica em torno do "desenvolvimento apolítico", as reformas
advogadas pelo Banco Mundial trazem a preferência normativa por um modelo
bastante peculiar de democracia e capitalismo. Uma vez que as "soluções" do
Banco para os problemas do Terceiro Mundo são geralmente baseadas na
experiência prévia de países industrializados, parece ser o caso de o Banco
estar propondo para os tomadores de empréstimo um modelo específico de
"desenvolvimento político". Modelo que, em comparação à agitação social e
política das jovens democracias da África e da América Latina, esteja
circunscrito, talvez, na rotina calma, estável e quase tediosa de muitas
democracias do mundo desenvolvido, marcadas por altas taxas de abstenção e
apatia eleitoral.14 Nas democracias desenvolvidas, a desilusão com a política
eleitoral abriu espaço para outras formas de participação e protesto, entre as
quais a política dos novos movimentos sociais é o exemplo mais evidente.
Entretanto, enquanto as novas formas de participação política nos países
desenvolvidos apresentam, em alguns casos, elementos progressistas associados à
ideologia da "nova esquerda", não é plausível que o Banco Mundial queira dizer
o mesmo quando propõe uma maior participação, ou ainda que se espere encontrar
condições similares para o exercício do ativismo político em países pobres,
cujas sociedades são frágeis e desorganizadas. De fato, a estabilidade política
talvez seja o único objetivo relevante presente na visão do Banco Mundial sobre
o desenvolvimento político, o que nos leva a supor que as recentes reformas dos
serviços sociais não farão mais do que contribuir para celebrar o "casamento
das finanças e da ordem",15 sacrificando a democracia no altar da "boa
governança".
NOTA
1 É difícil "decifrar" a real posição do Banco Mundial no que diz respeito a um
amplo e complexo leque de assuntos, visto que, como qualquer organização
burocrática, o Banco não pode ser considerado um ator monolítico, com
preferências únicas. Por razões analíticas, consideramos as publicações do
Banco assinadas coletivamente como a posição "oficial", complementando estas
com os documentos "não-oficiais" produzidos pelo staff do Banco ou por
consultores externos. Com a análise desses documentos, espero obter pelo menos
um pequeno fragmento do debate intelectual dentro do próprio Banco que envolve
a comunidade mais ampla de políticas para o desenvolvimento, de modo a iluminar
os pontos obscuros constando das publicações "oficiais".
2 Para uma análise mais detalhada sobre a emergência do conceito de governança,
ver Miller-Adams, 1999; Williams e Young, 1994.
3 Talvez o mais importante filósofo liberal contemporâneo a advogar tal
abordagem seja Rawls (1971). Para uma extensa revisão sobre problemas da
neutralidade liberal, ver Sandel (1984).
4 Como certamente argumentariam os críticos do liberalismo, tal concepção acaba
por trair a suposta neutralidade do Estado liberal, no sentido de que ela
envolve um entendimento prévio do que os Estados devem fazer. Em outros termos,
as regras, que supostamente seriam neutras, são projetadas para favorecer
alguns resultados ao invés de outros, a não ser que se aceite a premissa
liberal de neutralidade do mercado.
5 Apesar da mudança de postura quanto à intervenção do Estado, não se trata
realmente de uma capitulação da ortodoxia reinante no Banco. Alguns analistas
têm observado, de fato, como o Banco procurou a todo o custo "encaixar" as
evidências empíricas dos países asiáticos dentro dos modelos econômicos
neoclássicos, aprendendo as "lições erradas" do Leste Asiático (ver Wade, 1996;
Singh, 1995).
6 O termo empowerment é de difícil tradução para o português, tendo o sentido
de repasse de poder decisório e recursos para um grupo ou indivíduo, dotando-os
da capacidade de alterar seu próprio contexto de forma independente. Para uma
discussão teórica e empírica sobre empowerment, ver Handler, 1996.
7 A respeito da influência das "teorias econômicas da política" sobre os
escritos de governança, ver Williams e Young (1994). Para uma análise crítica
sobre a teoria da escolha pública, ver Borges (2001).
8 O conceito de renda monopolica (rent) geralmente diz respeito a qualquer
ganho superior àquele que seria normalmente obtido em condições de competição
pura no mercado. Na prática, existem dificuldades consideraveis na determinação
empiríca de dessas "rendas". Para uma crítica do conceito, ver Przeworsky,
1995, cap. 1.
9 Estas preocupações não são realmente novas, desde que a redução da pobreza
tem sido parte da agenda do Banco para o desenvolvimento desde a gestão
McNamara, nos anos de 1970. Apesar disso, o Banco insistiu durante muito tempo
na tese de que o processo de ajuste, por si mesmo, iria incrementar os padrões
de vida dos pobres, e apenas muito recentemente passou a reconhecer os efeitos
sociais adversos das reformas estruturais. A pressão colocada por órgãos da ONU
e por ONGs em favor do "ajuste com uma face humana" teve papel importante nesta
mudança (ver Nelson, 1995).
10 De acordo com um relatório recente do Banco, nos países em desenvolvimento,
em média, 71% das crianças em idade escolar recebem apenas 22% dos gastos,
enquanto 6% dos alunos - i.e., aqueles matriculados em universidades -
se beneficiam de quase 40% dos recursos (World Bank, 1995b, p. 14).
Adicionalmente, tem-se observado que o financiamento público da educação
superior tem um impacto distributivo de caráter regressivo, uma vez que uma
menor proporção das crianças de famílias pobres continuam seus estudos além dos
níveis primário ou secundário. Neste sentido, supõe-se que o financiamento
privado da educação, particularmente no nível superior, permitiria uma melhor
focalização dos gastos públicos no atendimento aos mais necessitados (World
Bank, 1995a, p. 8; 1999b, p. 34).
11 A literatura crítica sobre as reformas contemporaneas da educação é bastante
extensa e não pode ser analisada em profundidade neste artigo. Para uma análise
destas reformas na América Latina, ver Torres e Puigrós (1997); Torres (2002) e
Tommasi et al. (1996). Sobre a experiência dos países desenvolvidos, ver Apple
(2001); Arnott e Raab (2000); Smyth (1993) e Whitty et al. (1998).
12 Outra implicação da teoria do capital humano é que, dada as altas taxas de
retorno do investimento educacional, a educação seria uma ferramenta poderosa
para a melhoria das rendas das camadas mais pobres. Neste sentido, a teoria dá
suporte à doutrina do Banco Mundial de redistribuição com crescimento
(redistribution with growth), que enfatiza o aumento da produtividade dos
pobres como forma de redistribuir a riqueza (Ayres, 1983; World Bank, 2000).
Essa doutrina expressa a rejeição do Banco às reformas que "distorcem" a
alocação de recursos feita pelo mercado, uma vez que a idéia central é melhorar
a posição dos pobres através do mercado (i.e., tornando-os mais "empregáveis").
13 Embora a teoria do capital humano suponha que as distribuições de renda e
oportunidades educacionais seriam fortemente correlacionadas, a evidência
empírica existente não suporta esta hipótese; assim, os críticos da teoria
observaram que a distribuição de renda também depende da distribuição de
empregos e oportunidades econômicas e, em muitos casos, a oferta de empregos
não cobre a "demanda" criada pelo sistema educacional (Bluestone, 1977;
Thurrow, 1977).
14 Para a descrição de algumas tendências recentes nos Estados Unidos, ver
Putnam, 2000.
15 Cf. Centeno e Maxfield, 1992.