Política municipal e acesso a serviços de saúde São Paulo 2001-2012, quando as
periferias ganharam mais que o centro
I. INTRODUÇÃO
O tema das desigualdades na distribuição de serviços e condições de saúde está
presente no debate público desde o final dos anos 1970, tendo recebido
considerável atenção do Ministério da Saúde desde os primeiros anos da
implementação do SUS. As ações do ministério bem como a literatura se
concentraram, no entanto, nas desigualdades entre regiões, estados e
municípios, não tendo a questão das desigualdades intramunicipais recebido
maior atenção (Néri e Soares, 2002; Medici,_2001; Ugá_et_al.,_2003; Arretche_e
Marques,_2002; Arretche,_2007; Souza, 2003; Melamed_e_Costa,_2003).
As desigualdades intramunicipais presentes, particularmente, em grandes cidades
e regiões metropolitanas tendem, assim como as acima citadas, a se reproduzir,
seja no processo de implementação de novos programas, seja durante a
distribuição de novos recursos. Há, nesse sentido, inúmeros testemunhos de como
é difícil romper com esse ciclo, mesmo quando há intenção explicita de fazê-lo
(World_Bank,_2004; Liu,_Hotchkiss_e_Bose,_2007; World Health Organization &
Unhabitat, 2010).
Neste artigo analisamos o perfil de distribuição de consultas básicas e de
internações hospitalares oferecidas pelo SUS, entre 2001 e 2012, entre as 31
subprefeituras que compõem o município de São Paulo. Em 2001, a distribuição de
serviços públicos de saúde na cidade era fortemente concentrada nas áreas
centrais, as quais apresentavam os melhores indicadores socioeconômicos (Coelho
e_Pedroso,_2002; Coelho_e_Silva,_2007). Durante os anos seguintes, que abarcam
três gestões municipais, cujos mandatos foram exercidos por prefeitos ligados,
respectivamente, ao PT, PSDB e DEM, esse quadro mudou, tendo a distribuição de
serviços se tornado mais equitativa.
Esses resultados nada triviais dificilmente podem ser explicados apenas pela
chegada de novos programas e recursos federais ao município, uma vez que a
simples implementação desses programas e o uso dos novos recursos seguindo a
lógica da distribuição dos equipamentos então disponíveis teriam levado
facilmente a um aprofundamento das desigualdades preexistentes. Com o intuito
de explicá-los recuperamos as políticas de saúde adotadas pelo município de São
Paulo no período. Exploramos, também, o papel da disputa eleitoral e da adesão
ao princípio do acesso universal ao SUS, por parte de diferentes atores ligados
à política de saúde, na adoção dessas políticas.
As três principais contribuições deste artigo para a literatura são: 1)
descrever o perfil distributivo intramunicipal do SUS no município de São Paulo
por um período que abarca três gestões completas, o que representa um período
de doze anos; 2) analisar esse perfil em termos do seu impacto distributivo,
problematizando a questão das desigualdades de acesso aos serviços; e 3)
associar dois grupos de estudos: os que tratam do perfil distributivo àqueles
que tratam do processo político (Costa_et_al.,_2001; Goldani_et_al.,_2001;
Levcovitz_et_al.,_2001; Sawyer,_2002; Viana,_2003; Holcman_et_al.,_2004;
Pessoto_et_al.,_2007; Vilasbôas,_2008; Bousquat_et_al.,_2008; Melo,_2008;
Dowbor_e_Houtzager,_2014).
O artigo está organizado em cinco seções, além desta introdução. Na próxima
seção apresentamos a metodologia do estudo. Na terceira seção é feito um
histórico sobre as políticas de saúde que incidiram sobre a questão das
desigualdades intramunicipais de saúde no período anterior a 2001. Na quarta
seção descrevemos inicialmente as principais políticas municipais adotadas
entre 2001 e 2012, pelos diferentes partidos políticos que estiveram à frente
da prefeitura, e a seguir relacionamos essas políticas ao perfil de
distribuição dos equipamentos e serviços de saúde nas 31 subprefeituras. Na
quinta seção investigamos a contribuição do processo político para a geração
das políticas e dos resultados distributivos descritos na seção anterior.
Finalmente, sintetizamos a contribuição desta pesquisa para a compreensão do
papel da política em definir políticas que contribuem para alterar os contextos
institucionais, ampliando sua capacidade de enfrentar as desigualdades em
saúde.
II. METODOLOGIA
As principais questões que o estudo pretendia responder eram: As diferenças no
acesso a serviços públicos de saúde entre as subprefeituras com melhores e
piores indicadores socioeconômicos diminuíram entre 2001 e 2012? Podemos
identificar como as diferentes políticas adotadas pelo governo municipal em
cada mandato contribuíram para reduzir ou ampliar essas diferenças? Qual foi o
papel desempenhado pela política municipal na adoção dessas políticas?
Para tanto: 1) descrevemos as políticas municipais implementadas em cada uma
das três administrações municipais; 2) em paralelo, acompanhamos a distribuição
de equipamentos e serviços em todas as subprefeituras entre 2001 e 2012; 3)
testamos a plausibilidade da hipótese que relaciona a adoção de políticas que
favoreceram a redução das desigualdades em saúde, por um lado, a eleições
altamente competitivas para a prefeitura e, por outro lado, à presença de um
grupo de atores ligados à política de saúde que defendiam o princípio de acesso
universal ao SUS.
As políticas implementadas em cada administração municipal foram sistematizadas
a partir de pesquisa qualitativa que incluiu observação participante e
realização de entrevistas com perguntas fechadas e semiabertas com gestores da
Secretaria Municipal da Saúde, conselheiros de saúde e prestadores de serviço.
Também foram coletados documentos oficiais e artigos acadêmicos e publicados na
imprensa.
A análise da distribuição de equipamentos e serviços foi possível com a
ordenação das 31 subprefeituras a partir dos seus respectivos Índices de
Desenvolvimento Municipal (IDH-M) e da utilização de um Sistema de Informações
Geográficas (GIS). Para cada subprefeitura, calculamos a porcentagem de
usuários do SUS. O cálculo da população SUS foi realizado a partir da proporção
de população exclusivamente usuária do SUS calculada pela Coordenação de
Epidemiologia e Informação (Ceinfo) da Secretaria Municipal da Saúde de São
Paulo3. O procedimento consiste na obtenção da proporção da população usuária
do SUS, em cada subprefeitura, em cada ano, calculada a partir da projeção da
população divulgada pelo IBGE4. Os dados quantitativos sobre a oferta de
serviços foram obtidos no sistema on-line do departamento de Informática do SUS
(Datasus) disponibilizados pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Municipal
da Saúde de São Paulo. A partir daí calculamos as taxas de oferta de consultas
básicas e de consumo de internações hospitalares para a população usuária do
SUS em cada subprefeitura. Para facilitar a descrição, agrupamos as
subprefeituras em quartis de acordo com seu IDH-M.
Para acompanhar a evolução do perfil distributivo entre 2001 e 2012,
descrevemos a evolução da distribuição de equipamentos e serviços entre as
áreas com os melhores e os piores indicadores socioeconômicos. A redução das
desigualdades foi estimada a partir da diferença entre os resultados descritos
para as áreas com melhores e piores indicadores.
Com o intuito de explicar os resultados distributivos aferidos, analisamos
concomitantemente as políticas de saúde adotadas pelo município de São Paulo no
período e o perfil distributivo presente ao longo de cada um dos três mandatos
municipais. Exploramos, ainda, o papel da disputa eleitoral e da adesão ao
princípio do acesso universal ao SUS, por parte de diferentes atores ligados à
política de saúde, na adoção dessas políticas. Para tanto utilizamos, para além
dos dados eleitorais, programas de governo, documentos oficiais e entrevistas.
Nessa análise investigamos a relação entre os diferentes mandatos municipais e
as políticas de saúde adotadas pelo município olhando para o papel da
competição eleitoral em fazer avançar a reorganização da rede de prestação e
gestão de serviços. Buscamos entender as motivações que guiaram essas escolhas
e, em especial, como foi possível manter a tendência de reverter as
desigualdades distributivas em um contexto de alternância partidária.
Cabe ressaltar o caráter exploratório da análise que empreendemos sobre o papel
do processo político em engendrar políticas que tiveram impactos distributivos
a favor das áreas com piores indicadores socioeconômicos. Essa análise foi
construída a partir de um caso único no qual não se testou a significância
estatística dos ganhos distributivos indicados, o que limita as pretensões de
validade do estudo. Nesse sentido, oferecemos uma explicação plausível sobre a
relação entre ganhos distributivos, política e políticas. A questão das
relações de causalidade entre esses eventos permanece, no entanto, em aberto.
Afinal, variáveis omitidas em nossa análise podem estar mais fortemente
associadas a esses ganhos distributivos do que aquelas que aqui analisamos. A
possibilidade de replicar esse tipo de estudo em outras grandes cidades
certamente permitirá avançar, para além do que foi possível nesse estudo, nosso
conhecimento sobre o papel da política municipal em promover a equidade na
distribuição de serviços públicos de saúde.
III. UMA BREVE RETROSPECTIVA DO CENÁRIO PRÉ-2001
Nos anos 1930 foi criado por Walter Leser o primeiro curso de saúde preventiva,
na Escola Paulista de Medicina. Em 1967, durante a gestão do governador Roberto
Costa de Abreu Sodré (1967-1971), ele se tornou secretário da Saúde do estado
de São Paulo, cargo que voltou a ocupar em 1976 durante a gestão de Paulo
Egydio Martins (1975-1979). Como secretário, Leser implementou um programa que
priorizou, além das áreas tradicionais de ação da saúde pública, como o
saneamento, a organização de serviços de atenção básica.
Ao longo desses anos assistiu-se a um grande crescimento da periferia urbana da
cidade, e já em 1977 um grupo de mulheres de vários bairros da Zona Leste
começou a organizar eventos e protestos públicos para pressionar a Secretaria
Estadual da Saúde a construir um centro de saúde na região (Neder,_2001). O
centro foi inaugurado em 1979, e no mesmo ano foi instituído um conselho para
monitorá-lo, com membros eleitos por mais de 8 mil moradores da região (Bógus,
1998). Em 1981, outros dezoito conselhos foram eleitos para monitorar os
centros de saúde da Zona Leste. Nesse ano a taxa de mortalidade na periferia da
cidade superava em 41% a da região central. Um levantamento feito na época
indicou que, enquanto nas regiões centrais da cidade havia uma oferta de 42
leitos por mil habitantes, na periferia essa taxa era de apenas 0,5 leito por
mil habitantes (Secretaria_Estadual_da_Saúde,_1982).
Nesse contexto, o próximo secretário, Adib Jatene, coordenou, durante a gestão
de Paulo Salim Maluf no governo do estado (1979-1982), a criação do Plano
Metropolitano de Saúde5. Esse plano procurava enfrentar o déficit de serviços
sobretudo nas áreas periféricas da cidade e ampliar a coordenação entre as
inúmeras instituições que trabalhavam na região. Entre outras medidas, o plano
propunha a construção de 490 unidades básicas de saúde (UBSs) e quarenta
hospitais regionais6.
Esse plano foi retomado em 1983, na gestão de André Franco Montoro (1983-1987),
quando João Yunes esteve à frente da Secretaria Estadual da Saúde7. Nessa época
foram construídos 67 centros de saúde na região metropolitana e recuperados os
leitos públicos dos hospitais do estado. Em dezembro de 1984 foi iniciada a
elaboração dos projetos para a construção de 86 UBS e cinco hospitais gerais, e
ainda a reforma de 28 UBSs e três hospitais8.
Durante a gestão de Luiza Erundina (1989-1992) na prefeitura da cidade, Eduardo
Jorge, médico sanitarista, assumiu a Secretaria da Saúde buscando reforçar a
oferta de serviços nas periferias da cidade9. Esse período foi importante para
a política municipal de saúde, visto que a prefeitura assume um papel de
protagonismo na organização dos serviços de saúde, dirigindo serviços para a
periferia da cidade. Até então as iniciativas tomadas no âmbito do Programa
Metropolitano de Saúde foram centralizadas pelo governo estadual e envolviam
outros municípios periféricos à cidade.
Nessa época, o Movimento de Saúde da Zona Leste procurou intensificar suas
conexões com movimentos de saúde de outras regiões da cidade, apoiando a
criação de um conselho municipal de saúde. Nesse momento, os militantes do
movimento - muitos dos quais funcionários da Secretaria Estadual da Saúde -
estavam empenhados na luta por um sistema de saúde universal10.
Essa longa trajetória foi descontinuada no início dos anos 90, quando Paulo
Salim Maluf, que esteve à frente do governo estadual durante a criação do Plano
Metropolitano, foi eleito prefeito da cidade (1993-1997) e resolveu romper com
o SUS e organizar um sistema municipal próprio, o PAS, que propunha que os
médicos se organizassem em cooperativas para prestar serviços públicos de saúde
aos moradores da cidade. Ao romper com o SUS, a cidade se distanciou do
processo de municipalização e descentralização dos serviços de saúde que
estavam em andamento no estado e no restante do país , sendo impedida de
receber o repasse de recursos financeiros dos outros níveis governamentais para
o sistema de saúde municipal. Esse modelo foi mantido na administração de Celso
Pitta (1997-2000).
Vale notar que, em 1995, Adib Jatene, então ministro da Saúde, José da Silva
Guedes, da Secretaria Estadual da Saúde11, e Davi Capistrano, médico que havia
sido prefeito de Santos, se reuniram para apoiar a implementação de um
programa-piloto de saúde da família nas periferias da cidade de São Paulo. O
programa recebeu o nome de Qualis e foi implementado com a participação de
organizações não governamentais (ONGs)12. Nesse programa, equipes formadas por
médico, enfermeira, auxiliar de enfermagem e quatro agentes comunitários de
saúde se responsabilizam por cuidar de até mil famílias (Capistrano_Filho,
1999).
Ao final de 1999, o Qualis possuía aproximadamente 140 equipes de saúde da
família, que chegaram a atender cerca de 400 mil paulistanos residentes em
distritos periféricos13. Dentro dessa estratégia, treze hospitais foram
construídos na região metropolitana no período pelo governo estadual, sendo
cinco deles em áreas periféricas14. Essas iniciativas retomavam parte dos
projetos previstos pelo Programa Metropolitano, destinadas a enfrentar as
desigualdades que marcavam a oferta de serviços entre áreas centrais e
periféricas, utilizando inclusive recursos congelados que haviam sido cedidos
pelo Banco Mundial na década de 1980 (Pessoto_et_al.,_2007).
Esses esforços testemunham que a oposição à gestão Maluf/Pitta aproximou
quadros, ligados a diferentes partidos, que desde os anos 1970 trabalharam para
melhorar a distribuição de serviços de saúde e atender as áreas periféricas da
cidade. Esse quadro mudou nos anos seguintes, quando as duas principais forças
políticas que faziam oposição ao PDS e ao PPB, o PT e o PSDB, passaram a
disputar renhidamente as eleições municipais, bem como os conceitos e
diretrizes que deveriam estruturar a política municipal de saúde.
IV. POLÍTICAS E DISTRIBUIÇÃO DE SERVIÇOS
Nesta seção introduzimos as principais políticas adotadas por cada uma das três
gestões municipais que se seguiram à gestão Pitta e apresentamos um perfil da
distribuição de equipamentos e serviços ao longo do período.
2001-2004
Em 2000, Marta Suplicy foi eleita prefeita da cidade de São Paulo pelo Partido
dos Trabalhadores (PT). Em 2001, Eduardo Jorge volta a ocupar o cargo de
secretário municipal da Saúde e decide-se aderir ao SUS e expandir o Programa
de Saúde da Família (PSF).
Naquele momento, apesar de todos os esforços que haviam sido feitos desde os
anos 1980 no sentido de ampliar a oferta de serviços na periferia, o que se via
era que, enquanto a população usuária do SUS estava concentrada nas periferias
da cidade, a oferta de equipamentos e serviços estava alocada nas regiões mais
centrais e antigas da cidade de São Paulo. Ou seja, populações usuárias do SUS
vivendo em áreas que apresentavam melhores indicadores socioeconômicos eram
privilegiadas pela maior oferta de serviços, quando comparadas com aquelas que
viviam nas periferias (Coelho_e_Pedroso,_2002; Coelho_e_Silva,_2007).
A entrada de Eduardo Jorge na secretaria trouxe várias mudanças importantes a
esse quadro, a começar pela criação de 41 distritos de saúde, os quais foram
incorporados mais tarde às 31 subprefeituras da cidade15. Em cada distrito
foram criados conselhos de unidade de saúde, compostos de usuários (50%),
gestores (25%) e prestadores de serviços (25%), que deveriam contribuir para a
definição e o monitoramento das políticas de saúde na região, passando a cidade
a contar com mais de trezentos conselhos de saúde e 4 mil conselheiros. Também
foram criados conselhos distritais e autarquias (Alves_Sobrinho_e_Capucci,
2003).
A estrutura da Secretaria Municipal da Saúde foi reforçada pela contratação,
entre 2001 e 2002, de mais de 15 mil trabalhadores que realizaram concursos
públicos e foram admitidos como estatutários e celetistas. Entre eles,
quatrocentos gestores foram capacitados para administrar as unidades básicas,
as quais registraram grande expansão no período (ver Tabela_1).
TABELA 1 Equipamentos públicos de saúde, município de São Paulo, 2001-2012
G estão rta cy Gestão ra/ Gestão
2000 Ma Supli Ser Kassab Kassab
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012
Hospitais 51 50 53 51 51 52 53 53 55 53 55 55 54
UBS 135 225 237 236 382 392 407 407 416 434 438 439 442
AMA* 0 0 0 0 0 10 33 55 116 130 131 133 139
* Na contagem das AMAs estão incluídas os AMEs (Ambulatório Médico de
Especialidades, um equipamento voltado para o atendimento de casos de média
complexidade em diferentes especialidades). Em 2012 existiam 16 AMEs. Fonte:
Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. Organização: CEM/Cebrap.
Em paralelo à criação dessa estrutura, Eduardo Jorge investiu na ampliação do
PSF. Quando ele assumiu a secretaria, existiam cerca de 180 equipes, e seu
plano era multiplicar essas equipes por dez, atingindo em 2004 a casa de 1.700
equipes. Em 2002, o número de equipes já havia mais que dobrado. Para
viabilizar essa expansão foram firmados convênios com doze entidades sem fins
lucrativos que tinham tradição na prestação de serviços de assistência social e
saúde16.
Em fevereiro de 2003, cobrado pela prefeita pelo mau desempenho da gestão ante
a opinião púbica e por setores do PT e do movimento sanitarista pela
contratação de Organizações Sociais de Saúde (OSSs) para capitanear a expansão
do PSF no município, Eduardo Jorge deixou o cargo17. Em seu lugar assumiu
Gonzalo Vecina Neto18. Na gestão de Vecina cresceu o debate sobre o custo do
PSF e se apostou na possibilidade de alcançar resultados satisfatórios com o
Programa de Agentes Comunitários (PAC), que mantinha a estrutura da UBS
agregando agentes comunitários à equipe tradicional19.
Ao final da gestão Marta, o número de UBSs crescera 70%. O critério adotado
para a distribuição desses equipamentos foi "uma para cada 20 mil usuários
sendo que a unidade não deve estar a mais de trinta minutos a pé da residência
do usuário"20. A prioridade na implantação foi dada às áreas com maior carência
de equipamentos e piores indicadores de saúde, educação e renda. A esses
critérios técnicos, juntou-se a pressão popular organizada através, sobretudo,
do movimento de saúde e dos novos mecanismos participativos, contribuindo para
que "quem chorasse mais, levasse"21.
Essas iniciativas contribuíram, como veremos adiante, para dar início a um
processo de mudança no perfil de distribuição de serviço na cidade de São
Paulo.
2005-2008
José Serra é eleito, em 2004, prefeito pelo PSDB, permanecendo no cargo entre
2005 e 2006, quando se candidata a governador do estado, deixando em seu lugar
seu vice, Gilberto Kassab, do DEM.
Em 2005, Claudio Lottenberg é nomeado secretário municipal da Saúde22. Embora
tenha deixado o cargo já em maio de 2005, deu início a mudanças no rumo na
gestão municipal da saúde, as quais começaram a ganhar força com Maria Cristina
Cury e, em seguida, Maria Orsine, que ocupou a pasta até outubro de 2007.
Da perspectiva da rede, seguiu-se investindo no PSF e introduziu-se uma
inovação importante, as AMAs (Assistência Médica Ambulatorial), que buscavam
equacionar a demanda de urgência e emergência de baixa complexidade,
reconhecida como um problema crônico da rede pública, que, sem conseguir dar
conta desses casos, acabava por induzi-los a buscar os prontos-socorros e a
rede hospitalar.
A implantação das AMAs foi organizada utilizando-se o Índice de Necessidades de
Saúde (INS) calculado para os 96 distritos administrativos da cidade. O índice
considerava vinte indicadores epidemiológicos agrupados em cinco grupos
(crianças e adolescentes, gestantes, adultos, idosos e doenças crônicas). Vale
comentar a originalidade do índice, que considera as necessidades em saúde e
não a presença de equipamentos ou o tamanho da população usuária do SUS. Entre
2005 e 2010, 131 AMAs foram inauguradas23.
A ampliação da rede foi feita através de duas estratégias: contratação direta
de profissionais e, no caso do PSF, contratação indireta, através do
estabelecimento de convênios e contratos de gestão com organizações privadas
não lucrativas (Organizações Sociais de Saúde - OSSs). Em 2007, quando Orsine
deixou o cargo, um hospital, 39 postos de saúde e unidades do Programa Saúde da
Família e quatro unidades de AMAs eram geridas por esse tipo de contrato.
Januário Montone assume em novembro de 2007, sendo encarregado por Kassab de
expandir o modelo dos contratos de gestão geridos por OSS24. Essa tarefa
deveria ser facilitada pelo novo modelo que o governo acabara de conseguir
aprovar na Câmara Municipal, o qual flexibilizava os mecanismos de seleção das
OSSs, além de reduzir as exigências para que entidades sem fins lucrativos
participassem do modelo.
Essas mudanças de rota fizeram com que, entre 2005 e 2008, alterações
importantes tivessem lugar no perfil do sistema público de saúde municipal. A
cidade assistiu a partir de 2008 a uma forte expansão das AMAs e ao crescimento
das consultas de urgência e emergência em todas as regiões. Dois hospitais
municipais foram inaugurados na periferia, passando a ser geridos por OSSs.
2009-2012
Em 2008, Gilberto Kassab se elege prefeito de São Paulo pelo DEM. Januário
Montone permanece à frente da Secretaria Municipal da Saúde durante todo o
mandato.
Durante a gestão de Montone há um aprofundamento dos processos de
contratualização e a gestão dá início às parcerias público-privadas (PPPs) com
a finalidade de ampliar a infraestrutura, sobretudo, hospitalar. Nas palavras
do secretário,
Não conheço nenhum município no Brasil que tenha apostado tanto em
parcerias com a iniciativa privada como São Paulo, o que se deve não
apenas ao gigantismo da cidade como ao esforço contínuo para
desenvolver esse modelo, iniciado em 2001 em nível estadual e adotado
em 2005 pela capital25.
As OSSs passaram a ser contratadas para fazer o gerenciamento tanto de
equipamentos de saúde como de microrregiões de saúde. Já nas PPPs, os
concessionários privados deveriam investir na construção de infraestrutura de
saúde, em troca de concessão para exploração de determinados serviços, como,
por exemplo, vigilância e limpeza, por tempo determinado26.
Em 2010, a prefeitura de São Paulo lançou edital de licitação da PPP da Saúde
Paulistana, que previa a construção, reforma e equipagem de três novos
hospitais, quatro novos centros de diagnóstico por imagem, ampliação e
substituição dos edifícios de seis unidades hospitalares e reforma total de
outros três hospitais. Com isso, a cidade receberia mil novos leitos, passando
de 1.226 para 2.152. O plano, embora ambicioso, envolvia investimentos de longo
prazo, o que contribuiu para que não tivesse sido implementado até o final da
gestão.
A política de investimento em OSSs e PPPs contribuiu para azedar as relações
entre o Conselho Municipal de Saúde e o secretário municipal , que chegou, em
um determinado momento, a colocar a polícia na porta das reuniões dos
conselhos, além de relegar a segundo plano o investimento feito no mandato de
Jorge na criação dos conselhos das subprefeituras e de unidades.
A seguir exploraremos os impactos distributivos das políticas descritas acima.
Como comentamos anteriormente, em 2001 havia um forte viés distributivo a favor
das áreas centrais que apresentavam os melhores indicadores socioeconômicos e
epidemiológicos. Abaixo buscamos evidências sobre os impactos das políticas
adotadas pelo município, entre 2001 e 2012, sob esse perfil.
Equipamentos
Na Tabela 1 pode-se observar que ao longo do período houve um forte
investimento na expansão dos equipamentos de saúde, sobretudo no que se refere
à atenção básica.
Na gestão Marta houve forte expansão das Unidades Básicas de Saúde (UBSs);
estas sediam o PSF e oferecem atenção primária através de programas
prioritários e consultas agendadas. Na gestão Serra/Kassab cresceram as AMAs,
as quais ofertam, sobretudo, consultas de urgência e emergência e exames e
tratamentos de baixa complexidade. Os novos hospitais foram inaugurados em
subprefeituras que apresentavam os piores IDH-M, o que contribuiu para garantir
a ampliação de leitos hospitalares na periferia. Assim, enquanto em 2001 as
subprefeituras com os piores IDH-M ofereciam 5,75% dos leitos públicos, dez
anos depois passaram a oferecer 13,22%27.
O Gráfico_1 mostra a expansão do número de equipes da família entre 2001 e
2012.
GRÁFICO 1 Número de equipes de saúde da família implantadas, município de São
Paulo, 2000-201228 Fonte: Secretaria Municipal de Saúde. Organização: NCSD/CEM/
Cebrap.
Como pode ser visto no Gráfico_1, durante a gestão de Marta Suplicy houve o
maior incremento no programa: em 2001 havia 185 equipes operando e no final do
período esse número estava na casa das seiscentas. As gestões seguintes
seguiram expandindo o programa, embora em um ritmo menos intenso. A gestão
Serra/Kassab encerra com 840 equipes operando ao longo de 2008, e a gestão
Kassab, com 1098 equipes operando ao longo de 2012.
Oferta de serviços
O Gráfico_2 mostra a distribuição de consultas básicas por quartil de
subprefeituras ordenadas pelo IDH-M. O primeiro quartil agrega aquelas com os
piores indicadores e o quarto quartil, aquelas com os melhores indicadores29.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00139-gf02.jpg]
GRÁFICO 2 Consultas básicas por usuário SUS, por ano, por quartil, de
subprefeituras ordenadas por IDH-M - São Paulo, 2001-2012 Fonte: Secretaria
Municipal de Saúde. Organizado por NCSD/CEM/Cebrap.
Entre 2001 e 2012 houve um crescimento de 119,5% no número de consultas
básicas, tendo a média dessas consultas por usuário SUS/ano passado de 1,28
para 3,2530. No Gráfico_2 pode-se observar que em 2001 apenas o quarto quartil
recebia um número de consultas básicas acima do parâmetro de duas consultas por
usuário SUS/ano. Ao final da gestão Marta , o primeiro e o segundo quartil se
aproximam do parâmetro. No final da gestão Serra/Kassab todos os quartis estão
acima do parâmetro, sendo que o primeiro e o terceiro quartil ultrapassam as
três consultas por usuário SUS/ano. Esses valores se mantêm relativamente
estáveis na gestão Kassab para todos os quartis com exceção do quarto quartil
que cai para 1,7 consultas por usuário SUS/ano, ficando pela segunda vez abaixo
do parâmetro.
O Gráfico_2 mostra ainda que, acompanhando o crescimento da oferta de consultas
básicas, houve redução nas desigualdades na distribuição de consultas básicas
na gestão Marta. Na gestão Serra/Kassab, embora o número de consultas
continuasse crescendo, houve reversão na tendência à redução das desigualdades,
com ganhos expressivos para o terceiro e o primeiro quartis. No final da gestão
Kassab há uma correção de rota, as desigualdades voltam a diminuir entre os
três primeiros quartis e o crescimento do número de consultas básicas para além
do parâmetro é revertido31. A figura destoante é o quarto quartil, que perde
serviços durante praticamente todo o período. Uma hipótese para explicar essa
queda no consumo de consultas nas subprefeituras localizadas no quarto quartil
é que, com a expansão dos equipamentos nas periferias, a população dessas áreas
passou a utilizar mais equipamentos locais, em vez daqueles localizados em
regiões mais centrais.
A Tabela_2 mostra que no município a proporção de nascidos vivos com sete ou
mais consultas de pré-natal aumentou 24,1% entre 2001 e 2012.
TABELA 2 Proporção de nascidos vivos com sete ou mais consultas de pré-natal,
por quartil de subprefeituras ordenadas por IDH-M - São Paulo, 2001-2012
Gestão Marta Gestão Serra/ Gestão
Suplicy Kassab Kassab Variação (%) 2001
2001 2004 2005 2008 2009 2012 2012
MSP 60 65,4 69,8 73,3 74 74,5 24,1
1º 51,5 58,7 65,5 69,9 71,5 71 38
Quartil
2º 58 63,7 67 70,5 71,3 74 27,7
Quartil
3º 61,9 67,5 72 74,3 73,7 73,6 18,9
Quartil
4º 73,8 77,9 80 81,8 82,4 83,1 12,6
Quartil
Fonte: Secretaria Municipal de Saúde. Organizado por NCSD/CEM/Cebrap.
As subprefeituras do primeiro e do segundo quartis registraram nesse período um
aumento maior que a média do município. Esse aumento acima da média ocorreu,
sobretudo, na gestão Marta e, em menor proporção, também na gestão Serra/
Kassab. Graças a essa trajetória, no final do período a proporção de nascidos
vivos com sete ou mais consultas de pré-natal era bastante semelhante entre os
três primeiros quartis.
O Gráfico_3 mostra a distribuição de internações hospitalares no período32.
Como se pode ver, o crescimento da oferta de serviços hospitalares foi modesto
se comparado ao que vimos acontecer na atenção básica.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00139-gf03.jpg]
GRÁFICO 3 Internações hospitalares por 10 mil usuários SUS/ano por quartil de
subprefeituras ordenadas por IDH-M - São Paulo, 2001-2011 Fonte: Secretaria
Municipal de Saúde. Organizado por NCSD/CEM/Cebrap.33
O gráfico_3 mostra ainda uma redução importante nas diferenças no consumo de
internações hospitalares entre os quartis de subprefeituras ordenadas por IDH-
M34. Nesse sentido, todos os quartis, com exceção do quarto, terminaram o
período oferecendo entre 825 e 869 internações por 10 mil usuários SUS/ano.
Cabe destacar o crescimento geral das taxas de internação na gestão Marta,
seguido de um crescimento importante dessas taxas nos três primeiros quartis na
gestão Kassab.
A possibilidade, aberta pela adesão do município ao SUS, de a secretaria
autorizar ou cancelar o credenciamento de hospitais e determinar tetos para o
pagamento de internações realizadas contribuiu de forma decisiva para a sua
capacidade de ajustar a distribuição das internações hospitalares e alcançar os
resultados distributivos acima descritos.
Finalmente, o Gráfico_4 mostra a queda da mortalidade infantil no município de
São Paulo ao longo das três gestões analisadas. As maiores quedas na cidade
foram registradas nos quartis mais pobres, isto é, o primeiro e o segundo,
sendo mais acentuadas durante a gestão de Marta Suplicy. Ainda assim, essas
taxas permanecem altas principalmente no primeiro quartil, que encerra o
período com uma taxa de catorze óbitos por mil nascidos vivos.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00139-gf04.jpg]
GRÁFICO 4 Taxa de mortalidade infantil, por quartil de subprefeituras ordenadas
por IDH-M- São Paulo, 2001-2012 Fonte: Secretaria Municipal de Saúde.
Organizado por NCSD/CEM/Cebrap.
O gráfico acima mostra uma realidade menos promissora do que poderíamos esperar
após acompanhar os importantes avanços que aconteceram seja na consolidação do
SUS no município de São Paulo, seja no contexto social e econômico brasileiro
no período analisado. Com exceção do quarto quartil, as taxas de mortalidade
infantil continuavam na casa dos dois dígitos, e, a despeito dos avanços
distributivos registrados na oferta de serviços públicos, a ordenação das
subprefeituras não mudou. As taxas seguem rigorosamente ordenadas de acordo com
a classificação social e econômica das subprefeituras.
Em suma, quando olhamos para o perfil de distribuição de serviços em 2001,
entre as subprefeituras ordenadas por quartis de IDH-M, vemos que o quarto
quartil está sempre mais bem posicionado, sendo seguido pelo terceiro, segundo
e primeiro quartis. Isso se verifica seja em relação às consultas básicas por
habitante SUS/ano (2,4; 1,2; 1; 1), seja em relação à proporção de nascidos
vivos com sete ou mais consultas de pré-natal (73; 61; 58; 51), seja, ainda, em
relação às taxas de internação hospitalar por 10 mil habitantes (789; 692; 650;
498). Já em 2012 o quadro é outro, há uma forte convergência nos valores
encontrados para os três primeiros quartis, ficando em quase todos os casos o
quarto quartil em desvantagem. Assim, em relação às consultas básicas por
habitante SUS/ano, temos 1,7; 3,1; 2,9; 3 e em relação às taxas de internação
hospitalar por 10 mil habitantes, 754; 841; 789; 800. A exceção fica por conta
da proporção de nascidos vivos com sete ou mais consultas de pré-natal, em que
o quarto quartil segue com um valor mais alto: 83; 73; 74; 71.
Esses resultados mostram que no período ocorreu uma importante ampliação na
oferta de serviços públicos de saúde para as áreas do município que apresentam
piores condições socioeconômicas. A notícia menos alentadora é que esse
movimento de convergência nos níveis de oferta de serviços não se verificou em
relação ao único indicador de saúde aqui analisado, a mortalidade infantil, a
qual é tida como sensível tanto à atenção básica quanto às condições sociais e
econômicas, as quais avançaram no país no período.
V. POLÍTICA E POLÍTICAS
Se pensarmos nas dificuldades relatadas por analistas sobre as resistências
encontradas nas mais diferentes partes do mundo a reverter desigualdades
distributivas, teremos de reconhecer que os resultados apresentados na seção
anterior não são triviais (World Bank, 2003; Liu,_Hotchkiss_e_Bose,_2007; World
Health Organization & Unhabitat, 2010). Nesta seção procuramos explicar
esses resultados partindo de duas suposições que dialogam com a literatura
sobre instituições e política (Immergut,_1996; Moe,_1997; Hacker_e_Pierson,
2010; Figueiredo_e_Limongi,_1999; Dowbor_e_Houtzager,_2014).
Primeira, o papel de um cenário político altamente competitivo em estimular os
políticos a buscar tanto políticas de saúde que atendessem o eleitorado,
predispondo-o assim a votar a favor do partido, quanto reformas que permitissem
criar rapidamente estruturas institucionais capazes de resistir à possível
saída do partido do governo no próximo mandato. Segunda, a presença de
políticos - que assumiram a prefeitura entre 2001 e 2012 - que defendiam o
acesso universal à saúde enquanto um valor moral contribuiu para a adoção de
novas políticas, que alteravam o contexto institucional prévio, sem deixar de
promover ganhos distributivos ou reforçar aqueles alcançados por gestões
anteriores.
A disputa travada entre PT, PSDB e DEM pelo governo municipal fica clara quando
olhamos para os resultados eleitorais: nenhum dos três candidatos teve mais que
60% dos votos no segundo turno. Somam-se a isso a importância de São Paulo na
política nacional e o valor dado pelos partidos ao seu desempenho eleitoral na
cidade. Há também a aspiração dos políticos por gravar uma marca na história da
saúde pública do principal centro econômico e cultural do país. A disputa
eleitoral e o prestígio de São Paulo não explicam, no entanto, por que cada
secretário adotou as políticas que adotou, fazendo escolhas bastante diversas
quanto ao grau de descentralização, discrição e participação social na alocação
de recursos. Exploramos essas escolhas a seguir. Procuramos mostrar como,
diante de um ambiente eleitoral fortemente competitivo, foram sendo feitas
escolhas que buscavam atender o eleitor e, também, enraizar novas estruturas
institucionais. Essas estruturas deveriam respeitar as concepções das
diferentes coalizões e, ao mesmo tempo, garantir sua permanência no interior do
sistema público mesmo diante de futuras derrotas eleitorais.
Eduardo Jorge permaneceu pouco tempo à frente da Secretaria Municipal da Saúde;
ainda assim, criou uma estrutura nova para operar a política de saúde, a qual,
com várias modificações, sobrevive até hoje. A motivação para essa ação rápida,
que visava a descentralizar a política e a criar uma estrutura com relativa
autonomia em relação à secretaria, pode ser interpretada como uma resposta de
Eduardo Jorge ao revés que vivera como secretario da Saúde (1989/1990) no
governo de Erundina (1989-1992). Ao criar uma nova estrutura institucional
capitaneada por pessoas da sua confiança, em geral com alguma conexão com o
movimento sanitarista, ele buscou construir uma estrutura que tivesse maior
autonomia em relação à estrutura central da secretaria e menos chances de ser
desmontada por seus sucessores.
Para tanto, Eduardo Jorge investiu no fortalecimento das subprefeituras, bem
como das instâncias locais responsáveis pela definição e implementação da
política de saúde. Ele também apostou fortemente no PSF, uma aposta tanto na
atenção básica quanto nos possíveis retornos eleitorais de um programa que
poderia ser implementado rapidamente e que atingiria um importante contingente
populacional, sobretudo nas regiões mais periféricas da cidade . Para levar
esse plano adiante, investiu na ampliação da capacidade instalada, na
contratação de servidores públicos, na assinatura de convênios com OSSs. A
aposta era criar um arco de apoio a partir da rede pública, da participação
social e do planejamento ascendente. Esse projeto perdeu força na própria
administração Marta, diante, de um lado, dos seus custos e, de outro lado, das
pesquisas de opinião pública, que indicavam que os possíveis dividendos
eleitorais dessa estratégia seriam bem menores que os esperados.
Já as gestões Serra e Kassab buscaram recentralizar a política ao reforçar o
papel das Supervisões Técnicas (as subprefeituras estão divididas entre cinco
dessas supervisões) e da Secretaria da Saúde. Do ponto de vista programático,
seguiu-se investindo no PSF, porém o carro-chefe da gestão Serra/Kassab foram
as AMAs, centradas no atendimento de urgência e emergência, uma aposta nos
retornos eleitorais tanto de descongestionar e racionalizar a rede de serviços,
quanto de aproximar o SUS do modelo de atenção praticado pelo setor privado.
O arco de apoio a esse projeto se assentava no planejamento descendente e no
reforço da oferta de serviços via OSSs, organizações que em muitos casos
contavam com quadros que detinham larga experiência na gestão pública. Na
gestão Kassab buscou-se ampliar esse arco com as PPPs e o envolvimento das
empresas privadas na política de saúde.
Esses movimentos, ao ampliar a oferta de serviços, oferecendo seja atenção
continuada, seja atendimento de urgência e emergência, seja internações
hospitalares, buscaram conquistar o eleitor e garantir seu voto. Nesse
movimento cada grupo, ao descentralizar ou recentralizar, ao aliar-se à
administração direta e à participação social ou às OSSs e às PPPs, expressou
suas preferências por diferentes modelos de gestão da saúde e, também, buscou
consolidar coalizões políticas no interior do SUS que permitissem sua
permanência no sistema de saúde para além do próprio mandato.
A questão seguinte é: como foi possível sustentar um ciclo de redução das
desigualdades no acesso aos serviços públicos de saúde diante da alternância no
poder de grupos com preferências e políticas por vezes tão diversas?
A ideia de que ambos estavam, com essa política, disputando o eleitorado das
periferias é uma explicação possível. Ela não contempla, no entanto, a questão
do fôlego ganho pelo terceiro quartil nas gestões Serra e Kassab. Ora, se essas
gestões miraram de fato o eleitorado do terceiro quartil, por que e como foi
possível alcançar, ao final do período, a convergência entre as taxas de
serviço oferecidas nos três primeiros quartis?
Para explicar esses resultados, devemos lembrar que nos três mandatos o gestor
municipal assumiu um papel central na distribuição intramunicipal dos recursos
disponíveis. Para definir essa distribuição, esses gestores se valeram de
diferentes critérios técnicos que contemplavam ora a escassez de oferta, ora a
dimensão socioeconômica, ora as necessidades de saúde. Com isso, puderam
implementar uma política que levava em conta a dimensão e as necessidades da
população usuária do SUS.
Para entender o compromisso desses gestores com critérios técnicos que buscavam
identificar as necessidades dos usuários mais carentes, vale a pena retomar o
contexto político prévio às disputas que estamos analisando. Como vimos na
seção III, a pressão política das periferias e o debate sobre como atender
melhor a essas áreas começou a ganhar corpo na cidade de São Paulo já nos anos
1970. Nos anos 1980 já existia um Plano Metropolitano, que buscou equacionar o
problema e permitiu começar a ampliar a rede pública presente na periferia e
ganhar alguma experiência na gestão de um novo tipo de parceria com o setor
privado não lucrativo. Os profissionais que estiveram envolvidos nessa
trajetória eram ligados ao PMDB, ao PT e ao PSDB, e, em vários momentos, suas
diferenças foram subsumidas, quando vários deles se congregaram na "oposição"
que lutava pela ampliação da cidadania.
Identificar o papel dessas ideias no novo contexto político dos anos 2000 é uma
tarefa particularmente difícil. Um esforço sistemático nesse sentido requereria
uma análise muito mais detalhada sobre o processo decisório do que a que foi
possível neste trabalho. No entanto, esquecer a trajetória dessa geração de
políticos pode nos levar a omitir o que talvez seja parte importante da
explicação do fenômeno que estamos buscando explicar, a busca por contribuir
para a redução das desigualdades através da política e das políticas. Afinal, a
história aqui analisada envolve projetos políticos, tanto do PT quanto do PSDB,
partidos que contavam com quadros que ao longo dos últimos quarenta anos
participaram da gestão das políticas municipais, estaduais e federais e que
tinham uma visão estruturada sobre o caminho a seguir.
VI. CONCLUSÃO
Neste artigo apresentamos os resultados de um estudo que acompanhou a
distribuição de serviços públicos de saúde no município de São Paulo por doze
anos. Ao longo deste trabalho buscamos identificar a contribuição da política
municipal de saúde para os resultados distributivos identificados. Afinal, se
há um debate consolidado sobre as consequências distributivas da politica de
saúde federal, ainda sabemos muito pouco sobre como recursos e programas
federais, estaduais e municipais são implementados e distribuídos no interior
dos municípios.
O trabalho aqui apresentado é exploratório. Explicações plausíveis foram
construídas a partir da observação de fenômenos empíricos que relacionam
política, políticas e resultados distributivos. Esta análise foi construída, no
entanto, a partir de um caso único no qual não se testaram a significância
estatística das variações encontradas na distribuição de serviços nem as
relações de causalidade entre os eventos descritos, o que limita suas
pretensões de validade. Nesse sentido, é um passo inicial dentro de um programa
de pesquisa mais amplo no qual estamos buscando construir hipóteses plausíveis
que possam ser testadas em estudos futuros.
Como se pôde acompanhar nas seções anteriores, houve, no período, uma expansão
importante na estrutura física do SUS, principalmente UBSs e AMAs, bem como um
crescimento do volume de consultas básicas e internações oferecidas aos
moradores da cidade. Observou-se também uma redução nas desigualdades no acesso
a esses serviços, com a convergência das taxas de serviços oferecidas e
consumidas pelos três primeiros quartis de subprefeituras agrupadas pelo IDH-M.
Esses resultados dificilmente podem ser explicados apenas pela chegada de novos
programas e recursos federais ao município, pois a implementação desses
programas e o uso dos novos recursos seguindo a lógica da distribuição dos
equipamentos então disponíveis teriam levado facilmente a um aprofundamento das
desigualdades preexistentes. Como foi visto na seção IV, não foi isso o que
ocorreu.
Esse resultado merece atenção, pois representa um padrão pouco usual. Inúmeros
trabalhos sugerem que a descontinuidade eleitoral é seguida pela
descontinuidade dos programas e pela perda dos ganhos distributivos. Na seção V
sugerimos que os resultados aqui descritos podem ser explicados tanto pela
presença de um cenário político altamente competitivo quanto pela adesão moral,
por parte dos políticos que assumiram a prefeitura entre 2001 e 2012, ao
princípio do acesso universal à saúde. Esses dois mecanismos ajudam a explicar,
por um lado, a rapidez com que cada uma das gestões buscou introduzir mudanças
institucionais e, por outro lado, como essas mudanças conseguiram consolidar
ganhos distributivos.
Nesse sentido, os resultados apresentados neste artigo apontam para a
importância de se pensar a articulação das disputas eleitorais com a permanente
construção e reconstrução dos arranjos formais (papel da secretaria, das
coordenações técnicas e das subprefeituras), dos modelos de gestão (papel da
administração direta, das instâncias participativas, das OSSs, das PPPs) e do
arco de alianças que sustenta cada gestão. Afinal, são esses processos que
permitem entender por que e como as novas políticas foram adotadas e puderam
contribuir para as mudanças distributivas analisadas neste artigo. A
possibilidade de replicar este estudo em outras cidades de grande e médio porte
certamente permitirá avançar o conhecimento sobre o papel da política municipal
em promover a equidade na distribuição de serviços públicos de saúde.