Mário Pedrosa e o neoconcretismo:A centralidade de um projeto crítico
Não faz sentido falar em "influência" de Mário Pedrosa sobre o neoconcretismo.
A capilaridade de suas ideias é tão expressiva que faz mais sentido pensar a
origem do grupo como um desdobramento de seu projeto crítico1. Pedrosa atua não
apenas como intérprete por excelência dos trabalhos dos artistas. Ele é o
formulador dos princípios teóricos que norteiam boa parte das formas assumidas
pelo construtivismo no Brasil. É o articulador dos grupos, que incentiva com
entusiasmo em saraus em sua casa. É o suporte institucional, pronto a ocupar
postos de direção em museus ou acionar sua impressionante rede de relações para
viabilizar exposições e incluir os artistas no circuito oficial. É o divulgador
na grande imprensa por meio de colunas no Correio da Manhã e no Jornal do
Brasil. É o embaixador do grupo fora do país, não apenas nas conferências que
profere na Europa e nos Estados Unidos sobre arte brasileira, como nos
congressos internacionais que organiza. Compreender o neoconcretismo, portanto,
é também compreender as etapas básicas da trajetória intelectual de Pedrosa e
indagar como foi possível reunir os trunfos capazes de conferir a ele peso tão
decisivo no processo.
A formação cosmopolita desde muito cedo, o suporte material e político da
família, o convívio com a elite ilustrada na Faculdade de Direito do Rio de
Janeiro, o casamento com Mary Houston, os contatos com os surrealistas
franceses, a militância em funções-chave no partido comunista e no trotskismo -
que o torna interlocutor de intelectuais de diversas partes do mundo -, o
treinamento teórico na Universidade de Berlim, o domínio de idiomas, o contato
pessoal com artistas de grande projeção no cenário internacional como Calder e
Miró, a amizade com a esposa do dono de um dos principais jornais do país e
futura diretora do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio): todos
esses fatos, aparentemente desconexos, contribuem para a consolidação de um
poder cultural bastante particular naquele momento no Brasil. Em linhas gerais,
essa era a posição de onde falava o crítico que, a partir de 1945, direcionaria
toda sua energia para a causa da arte construtiva. Se até então as incursões
pela crítica de artes plásticas haviam sido esporádicas, nesse momento a
atividade se torna o centro de suas preocupações. Uma das chaves de sua força
está no modo como a reflexão estética se aliou ao repertório do militante
político - numa combinação que fez dele, ao mesmo tempo, o remédio e o veneno
para a consolidação do repertório construtivo no Brasil.
CALDER E O CONSTRUTIVISMO NO BRASIL
Por ocasião da primeira grande mostra de Calder nos Estados Unidos, em 1944,
Pedrosa publicou no Correio da Manhã dois ensaios que sintetizam o programa
crítico que seguiria pelos anos seguintes e que constituem seus primeiros
trabalhos significativos na área2. Nesses textos, a adesão do crítico à causa
da arte abstrata se mostra com toda a clareza pela primeira vez. E é neles
também que se delineiam as feições fundamentais de seu ponto de vista: Pedrosa
passou a entender a forma plástica como um fator de transformação social.
Nos termos de sua reflexão, a força expressiva da forma é um indutor poderoso
da "reeducação da sensibilidade do homem". É por meio dela que se torna
possível "transcender a visão convencional" e, assim, "recondicionar o
destino"3 da humanidade. Daí o desprezo pela figuração, pelo caráter alusivo da
obra de arte, e a ênfase em seus meios e procedimentos mais específicos. Daí
também a insistência na autonomia do trabalho artístico. A equação assume
formas variadas ao longo de sua trajetória, mas em essência é essa aposta no
caráter libertador da forma que constitui a base de seu projeto - e que se vê
formulado pela primeira vez nos textos sobre Calder. É aí que seu programa
crítico se delineia com mais clareza, visto que o grosso da produção desses
anos são textos dispersos na coluna no Correio da Manhã, que passou a ocupar
pouco após o retorno ao Brasil, em 1946, e alimentou com contribuições semanais
até 1951 (a colaboração seguiria de forma esporádica até 1968).
No primeiro ensaio, "Calder, escultor de cata-ventos", Pedrosa apresenta em
linhas gerais a trajetória do artista norte-americano. A família de artistas, a
formação de engenheiro, o fascínio pela máquina desde criança, a curiosidade
por novos materiais, todos são elementos que ele mobiliza para caracterizar o
trabalho dos primeiros anos de Calder, sobretudo a obra Cirque Calder [Circo
Calder] (1926-1931) e suas esculturas figurativas em arame. São trabalhos que
Pedrosa elogia pela economia expressiva e pela capacidade de sugerirem volume a
partir dos espaços vazios sem perder a clareza dos contornos. Mas a parte mais
substancial da energia analítica de Pedrosa é dedicada à fase posterior, dos
móbiles a motor e stabiles. Esses trabalhos são profundamente marcados pela
descoberta por Calder das "formas abstratas puras". E o momento chave para essa
descoberta foi a tomada de contato com o trabalho de Mondrian.
Ao contemplar, pela primeira vez, aquela ordem, aquela calma
espacial, aquele purismo severo que era o ateliê do artista holandês,
reprodução exata de sua própria pintura, um mundo novo se revelou à
sua imaginação e lhe abriu a cortina para os horizontes ideais que
procurava sem saber: o mundo da pura forma abstrata4.
O pintor holandês foi, nos termos de Pedrosa, uma epifania para Calder. A calma
espacial, o ritmo e a cor das telas de Mondrian anunciaram para ele um mundo
novo, livre dos limites da arte de representação e aberto ao horizonte do
abstracionismo. "O artista estava diante do problema, fascinante entre todos,
da pesquisa da pura forma - da pura criação. "5 Os stabiles e móbiles a motor
de Calder se tornam assim a realização viva, espacial, dos painéis de Mondrian.
As formas geométricas, destituídas de qualquer sugestão naturalista ou
realista, movem-se no espaço. Ganham movimento e situam o jogo plástico do
abstracionismo de Mondrian numa nova dimensão, livre da bidimensionalidade da
tela.
O passo seguinte de Calder, continua Pedrosa, acrescenta uma dimensão de
alegria à austeridade do abstracionismo aprendido com Mondrian. O artista
norte-americano teria sido capaz de incorporar o humor presente em seus
primeiros trabalhos - os circos animados por bichos e bonecos, as caricaturas
em arame de Josephine Baker - às obras da fase abstrata. Com os móbiles de
movimento livre, não mais animados por motor, ele obteve sucesso na empreitada.
Com a incorporação de novos materiais, como vidro, cordão e alumínio, a rigidez
dos trabalhos anteriores se atenua. Ao livrar-se da determinação do motor e
abrir-se para a imprevisibilidade do movimento aleatório, os trabalhos ganham
leveza e uma dimensão de imprevisibilidade, capaz de conferir combinações
ilimitadas ao conjunto.
Também as formas não são mais apenas geométricas: na pintura de Miró, Calder
busca formas orgânicas e cores vibrantes capazes de atenuar a dimensão
matemática e geometrizante de seu trabalho. O Calder desse novo momento é por
isso "a fusão do purismo do mestre holandês e da vibração jovial do mestre
catalão". Nos termos de Pedrosa:
Dessa forma coordenou suas novas convicções abstracionistas,
introduzindo, aqui, um elemento humano muitas vezes ausente entre
abstracionistas absolutos - o humor, e com este, pouco depois,
alargando o reino de seus motivos então limitado ao mundo geométrico,
assimilou as formas orgânicas que pululam nas telas de Miró6.
O texto segue então para um desfecho em tom elevado. Pedrosa recupera a ideia
de que a ambição da arte abstrata era transformar o mundo. E fecha com a
conclusão de que Calder é o artista mais próximo ao ideal da arte do futuro, da
sociedade ideal em que "a arte seria confundida com as atividades da rotina
diária e a prática cotidiana de viver".
Pedrosa não estava sozinho na empreitada de tornar a obra de Calder mais
conhecida no Brasil. Antes dele, em fevereiro de 1944, o arquiteto Henrique
Mindlin visitou Calder em Nova York. Na volta ao Rio de Janeiro, começou a
divulgar o trabalho do artista junto aos pares e à fração ilustrada do
empresariado carioca. Encomendou trabalhos e passou a vendê-los no Brasil. Em
novembro daquele ano, escrevia em carta ao americano: "Dê-me apenas algum tempo
e eu começarei uma febre de Calder no Rio"7. Em abril do ano seguinte, o mesmo
Mindlin comemorava a publicação dos dois textos de Pedrosa no Correio da Manhã
e o fato de que Paulo Bittencourt, proprietário do jornal, acabava de chegar
dos Estados Unidos com um móbile do artista.
A primeira mostra grande de Calder no Brasil ocorreria um pouco depois, em
1948, no Ministério da Educação e da Saúde, no Rio de Janeiro. Ao lado de
Mindlin, Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx, Mário Pedrosa foi um dos mais
assíduos divulgadores da mostra, com conferências sobre o artista no Rio de
Janeiro e em São Paulo. O texto que serviu de base para as falas de Pedrosa era
justamente o segundo ensaio feito em 1944 a propósito da exposição no Museum of
Modern Art (MoMA) e publicado no jornal de Bittencourt. Nesse ensaio ("Tensão e
coesão na obra de Calder"), Pedrosa se concentra na fase abstrata, dos stabiles
e móbiles, para desdobrar as implicações formais do trabalho de Calder. A
síntese do segundo texto é a ideia de que Calder conseguiu ultrapassar as
limitações do construtivismo, abrindo-se para o mundo das formas orgânicas8. O
artista norte-americano dava um passo além em relação aos ensinamentos dos
pioneiros do construtivismo ao inserir um elemento de imprevisibilidade, humor
e inventividade no mundo austero da busca pelas formas puras. Nos termos de
Pedrosa:
Seu abstracionismo, sem caráter doutrinário mas antes poético,
concreto, no sentido experimental, é filho de um permanente
encantamento pelo mundo, de um estado de graça perene que espera a
cada hora a reabilitação de todas as virtualidades sublimes e
radiosas que se possam esconder no universo9.
A menção detida aos trabalhos sobre Calder é importante não apenas para fixar
em bases mais sólidas o pensamento de Pedrosa - preciso e envolvente mesmo a
paladares desencantados -, mas para indicar como preocupações que reapareceriam
no debate sobre o grupo neoconcreto já estavam postas em seu trabalho desde os
anos 1940. É digno de nota que o programa crítico que seria empregado para o
neoconcretismo quinze anos depois já estivesse desenhado com clareza nesses
primeiros textos de Pedrosa. Em ensaio a propósito de exposição sobre o grupo
em Berlim, em 2010, o crítico e curador Luiz Camillo Osório chama a atenção
para os sentidos pouco explícitos da influência de Calder sobre os artistas
neoconcretos, por intermédio do pensamento de Pedrosa:
Este elo Calder-neoconcretismo não é algo explicitado em nenhum
momento da fortuna crítica do movimento, interessando-me apenas
insinuar que sua forte presença no imaginário poético de Pedrosa
teria indiretamente constituído um campo simbólico que influenciaria
a apropriação lúdica, sensual e processual da grade geométrica de
Mondrian por Oiticica. [. . . ] Sem querer fazer aproximações
forçadas, é interessante observar o quanto a preocupação de Calder
com a fluidez orgânica da forma plástica ressoaria nas obras daqueles
artistas cariocas próximos a Pedrosa e influenciados por seus
textos10.
É esse "campo simbólico" que importa examinar. A figura de Calder foi central
para aquela geração: para organizar a exposição de 1948, no Ministério da
Educação e da Saúde, Calder permaneceu por dois meses no Brasil, tendo criado
laços duradouros no país. Na 2a Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo,
em 1953, ganhou uma sala especial. E houve ainda outra mostra de seus trabalhos
no Brasil. Ela se deu no próprio ano de 1959, no MAM Rio, mesmo ano da primeira
exposição neoconcreta.
É como se a trajetória de Calder condensasse os caminhos mais virtuosos que
Pedrosa desejava para o construtivismo no Brasil. Em primeiro lugar, pelo
interesse desde muito cedo pelos materiais industriais e pela espacialidade. A
escolha de materiais como o ferro e o arame, aliada à formação de engenheiro,
situam de saída a figura de Calder como um artista capaz de incorporar
positivamente os elementos mais contemporâneos e aproximar o trabalho artístico
dos âmbitos do planejamento, do cálculo matemático, da ciência, terrenos em que
sempre trafegou com naturalidade. Da mesma maneira, a conquista do espaço em
seu trabalho tem um caráter distinto daquele próprio ao escultor. Pedrosa não
se cansa de mostrar em seus textos como Calder pensa como um pintor e trabalha
com problemas impostos pela tradição da pintura - a ideia dos móbiles como uma
versão espacial das telas de Mondrian é a imagem mais clara disso. Apenas os
materiais com que se acostumou a trabalhar eram outros, o que lhe permitiu
apresentar soluções novas para problemas que diziam respeito ao mundo da
bidimensionalidade da tela. A passagem para o espaço foi então um processo
decorrente de uma tentativa de solucionar problemas com origem no universo
chapado da tela, o que faz de Calder um pioneiro na superação dos suportes
tradicionais.
Em segundo lugar, a trajetória de Calder é profundamente marcada pela
descoberta da abstração. Como Pedrosa mostra em detalhe em seus textos, o
abandono da arte de representação e a busca por uma arte feita de formas puras
é uma transição decisiva em sua carreira. E ela se deve justamente à descoberta
do abstracionismo austero de Mondrian - um ponto extremo na busca por uma arte
não figurativa empenhada em reduzir a pintura a seus elementos fundamentais11.
Teria sido então a filiação à vertente do abstracionismo construtivo o momento,
por excelência, de ruptura com a produção do início da carreira e de conquista
de um novo patamar de densidade, imerso agora na procura por soluções formais
capazes de sintetizar uma visão nova da arte, feita não da tentativa de
representação ou deformação do mundo exterior, mas de um universo autônomo
composto de relações entre cores, linhas, planos e volumes.
Finalmente, a trajetória de Calder e do construtivismo brasileiro se aproximam
pelo modo como a herança construtiva é incorporada. Calder teria explorado ao
limite as possibilidades abertas pelo universo de Mondrian, mas chegado a um
impasse em que o racionalismo imposto pelo universo construtivo - a limitação a
figuras geométricas e cores primárias, as relações de equilíbrio e simetria
calculadas com precisão matemática - se torna uma camisa de força. Em face do
perigo de esvaziar o trabalho num universo de impessoalidade e frieza, em que a
subjetividade e a experiência individual deixam de ter importância, tempera a
austeridade com o calor das telas de Miró, restituindo à sua produção leveza,
imprevisibilidade e humor.
É claro que a busca por formas puras por parte dos construtivistas brasileiros
não se deve apenas à descoberta de Mondrian (as telas do mestre holandês foram
exibidas no Brasil pela primeira vez na 2a Bienal do Museu de Arte Moderna de
São Paulo, em 1953), mas a maneira como Pedrosa descreve sua influência sobre
Calder serve de emblema para o significado que a arte concreta assumiu no
Brasil: a "austeridade" e a "frieza" que nesse texto Pedrosa atribui a Mondrian
estão muito próximas dos atributos de racionalidade excessiva que os
neoconcretos irão imputar aos colegas concretos. Em outros termos, a descoberta
de Miró por Calder e a humanização de seu trabalho daí decorrente encontra um
paralelo evidente na reivindicação do manifesto neoconcreto por uma arte
construtiva que não se perca no cientificismo, na impessoalidade do
racionalismo puro, e seja capaz de recuperar uma dimensão de subjetividade
criadora, de humanidade, de experiência individual.
No início de 1960, Ferreira Gullar publicou um texto no Jornal do Brasil sobre
Calder em que afirma: "Discípulo de Mondrian, parece ter ido intuitivamente
mais longe que o mestre - e exatamente por ter deixado o plano bidimensional
pelo espaço natural"12. A essa altura, o comentário de Gullar indica a
cristalização da leitura feita por Pedrosa da obra de Calder e sugere um passo
adiante: o aproveitamento, da parte de Gullar, daqueles aspectos formais que
permitem a aproximação entre a obra do escultor americano e o programa
neoconcreto - nesse caso específico, a transposição para o espaço da grade
geométrica de Mondrian, visível sobretudo no trabalho de Oiticica.
O paralelo entre a interpretação que Pedrosa faz da obra de Calder e a
narrativa consagrada a respeito do neoconcretismo é importante porque sinaliza
o peso das formulações de Pedrosa e a penetração de sua grade de valores na
geração que ele formou e influenciou. A ordem de preocupações que ele
manifesta, ainda em 1944, se mantém intacta na voz de seus sucessores e perdura
até hoje como chave interpretativa do grupo neoconcreto, ainda que haja
variações teóricas e adaptações às especificidades das obras dos artistas
analisados em cada caso13. Não se trata de tomar Calder como precursor direto
dos neoconcretos, mas de mostrar como na leitura que Pedrosa faz do artista
norte-americano, ainda no início dos anos 1940, já estão explícitos os valores
que guiarão o construtivismo no Brasil. O paralelo sinaliza como o projeto
crítico de um autor específico, em razão das particularidades da posição que
passou a ocupar no campo das artes plásticas naquele momento, ganha corpo e
passa a ser entendido como uma conquista do neoconcretismo muitos anos mais
tarde.
GESTALT
Ao lado dos trabalhos sobre Calder, o texto que define de maneira mais clara o
programa crítico de Mário Pedrosa é a tese Da natureza afetiva da forma na obra
de arte, apresentada à Faculdade Nacional de Arquitetura do Rio de Janeiro em
1949. É a obra de maior fôlego de Pedrosa e sua tentativa mais ambiciosa de dar
consistência científica ao conjunto de ideias que vinha pondo em marcha desde
sua volta ao Brasil. Ao contrário dos ensaios sobre Calder, em que a admiração
pelo artista transparecia num texto sedutor e cheio de energia, aqui o autor
parece imbuído dos protocolos curriculares a que o trabalho se destinava. É
texto de leitura truncada, seja pelo elevado grau de abstração das teorias em
debate, seja pelo caráter postiço e datado da tentativa de estabelecer uma
linguagem "científica" para uma atividade em via de profissionalização.
A tese obedece de forma evidente à tentativa de fixar o pensamento sobre arte
no Brasil em novo patamar: sua ideia era determinar os fundamentos da
universalidade da experiência estética com base em critérios objetivos, capazes
de superar o impressionismo que predominava na atividade crítica naquele
momento. Decidido a prestar o concurso, Pedrosa encomendou toda a bibliografia
que pôde encontrar a respeito da Gestalt, assunto com o qual tomou contato pela
primeira vez no fim dos anos 1920, quando foi aluno da Universidade de Berlim.
A proposta era valer-se daquele corpo de conhecimento emprestado à psicologia
para resolver problemas estéticos, procedimento em que, segundo Otilia Arantes,
foi pioneiro dentro e fora do Brasil14.
Por meio da "psicologia da forma", Pedrosa defende que é possível encontrar uma
explicação científica para a percepção estética e com isso superar o conflito
entre subjetividade - entendida como a reação particular, afetiva, de cada
indivíduo ao estímulo proposto pela obra de arte - e objetividade - entendida
como o conjunto de traços inerentes ao objeto artístico. O argumento do crítico
é que a chave da experiência estética está na correspondência entre as
propriedades intrínsecas à obra de arte e o sistema cognitivo do ser humano. O
que garante a universalidade da obra é o fato de que as leis que a governam
também se aplicam ao campo cognitivo: assim, de acordo com a Gestalt, o que
vale para a forma cristalizada no objeto artístico vale também para o sistema
nervoso e as estruturas perceptivas.
O corolário do raciocínio é o de que haveria uma homologia entre o que se passa
no objeto e o modo como opera o aparelho cognitivo de quem o percebe, abolindo
dessa maneira a oposição entre subjetividade e objetividade. Estão em jogo
elementos da natureza, não da cultura. A equação torna desprezível o repertório
do observador - não existe a mediação do intelecto entre o objeto e a percepção
do sujeito. Pedrosa o diz com todas as letras: "Saber e ver, saber conhecer ou
saber ver, são dois processos independentes. Para distinguir uma forma, para
vê-la, os elementos intelectuais de cultura, de significação, são
dispensáveis"15.
Não vem ao caso questionar as conclusões de Pedrosa. Ele próprio as retificou
em diversos textos posteriores. Para o argumento em curso, o que importa é
notar como a tese marca a adesão a um formalismo radical, forjado a partir do
exame de "leis" da percepção originadas no âmbito da psicologia cognitiva,
portanto em território mais afeito aos cânones da ciência do que à reflexão
estética. A tese marca em definitivo a conversão de Pedrosa para o campo da
crítica cultural. O trabalho completa a transição do militante em pensador da
cultura. O pendor cientificista e o desprezo por tudo aquilo que não diga
respeito à gramática da forma e da percepção sinalizam a preocupação em
recortar aquilo que pode haver de mais específico no campo das artes. Não por
acaso, a proposta do trabalho é examinar, em seus próprios termos, "os
fundamentos da universalidade da experiência estética". É como se ao deixar de
fora qualquer elemento externo, até mesmo a mediação do intelecto na percepção
da forma, Pedrosa estivesse também a deixar para trás o militante trostskista
para envergar em tempo integral o figurino do crítico de arte16. O uso da
Gestalt se torna então compreensível não apenas pelos atributos da psicologia
das formas, defendidos pelo autor sempre de modo lacunar e hesitante, mas como
ferramenta que garante a passagem para um novo território.
Está longe desse universo o binômio "arte e vida" que mais tarde será visto
como conquista dos artistas do neoconcretismo. Não há no principal trabalho
teórico de Pedrosa nenhum vestígio dessa discussão, que iria mobilizar os
artistas do grupo uma década depois. Interação com espectador, sentido que se
completa na percepção do "participante", e retorno à expressividade: nenhum
desses fatores parecia em fase de germinação nesse momento. É claro que pode
ser um anacronismo acusar num texto de 1949 a ausência de elementos que
aflorariam no debate muitos anos mais tarde. Mas o ponto não é esse. Trata-se
de indicar como no texto mais ambicioso do principal mentor do movimento
construtivo a questão central é exatamente oposta: demarcar o que pode haver de
mais específico na gramática da forma artística e traçar a "universalidade da
percepção estética". A própria premissa já descarta de saída uma concepção de
arte cujo sentido se complete na experiência individual do espectador, tal como
viria a ser defendida depois17. O que esse texto indica é que Pedrosa é ao
mesmo tempo o teórico da "humanização" da forma, como se nota nos textos sobre
Calder, e o teórico da ciência da percepção. Da mesma maneira que o sentido de
alegria da forma defendido pelo grupo neoconcreto deriva em parte de seus
textos, também os "excessos racionalistas" que são imputados ao concretismo
encontram eco nesse trabalho sobre a Gestalt.
O texto é fundamental para compreender o neoconcretismo porque nele é que se
formula com clareza o papel da Gestalt para a concepção de forma dos críticos e
artistas associados ao movimento construtivo no país. É com ela que o manifesto
neoconcreto procura romper para reivindicar a originalidade do grupo. Nos
termos famosos de Gullar:
Acreditamos que a obra de arte supera o mecanismo material sobre o
qual repousa, não por alguma virtude extraterrena: supera-o por
transcender essas relações mecânicas (que a Gestalt objetiva) e por
criar para si uma significação tácita (M-Ponty) que emerge nela pela
primeira vez. [. . . ] A Gestalt, sendo ainda uma psicologia
causalista, também é insuficiente para nos fazer compreender esse
fenômeno que dissolve o espaço e forma como realidades causalmente
determináveis e os dá como tempo - como espacialização da obra18.
A história do rompimento com a Gestalt impressa no trecho acima por meio da
referência à fenomenologia de Merleau-Ponty é a história do rompimento com um
conceito cujo maior defensor era Mário Pedrosa. O grande alvo do debate teórico
durante o construtivismo são as ideias derivadas da "psicologia da forma" tal
como introduzidas no Brasil por Pedrosa. A bibliografia indica a todo momento
uma luta pela interpretação mais adequada do conceito. De acordo com Ferreira
Gullar, deve-se justamente a uma apreensão mecânica dos princípios da Gestalt o
"excesso racionalista" em que teriam incorrido os artistas concretos. Por
"excesso", ainda nos termos de Gullar, entenda-se um conceito de forma que
procura explicar as leis da percepção a partir das leis do mundo físico,
supostamente suprimindo nesse processo a dimensão da significação.
A Gestaltheorie não distingue entre forma física e estrutura
orgânica, entre forma como acontecimento exterior ao homem, sujeita
às leis do campo em que ela se situa, e a forma como significação que
o homem apreende19.
Por mais sentido que façam as afirmações de Gullar, é importante vê-las como um
rompimento não apenas com os artistas de São Paulo, mas com um ideário erigido
pelo crítico que a vida inteira lhe serviu de modelo. Em documentário recente,
lançado em 2010, há uma entrevista em que Gullar afirma com todas as letras:
"Nós demos o golpe no velho Pedrosa"20. Mas isso não passou desse modo para a
fortuna crítica: o ranço mecanicista cai inteiro sobre o grupo de São Paulo,
mesmo que a origem teórica daquele conjunto de princípios tivesse origem nos
textos da mesma pessoa. As limitações teóricas apontadas por Gullar parecem
verossímeis - não é difícil sentir o ranço mecanicista mesmo a uma leitura
superficial. Mas esse mecanicismo é também um dos motivos pelos quais a Gestalt
vinha a calhar no momento em que Pedrosa a adotou como partido crítico: parecia
haver ali um conjunto de leis para conferir ao pensamento sobre arte um
substrato científico. O trabalho de Pedrosa foi o primeiro no Brasil a chamar a
atenção para o problema - e a intensidade com que ele se cristalizou no debate
sobre artes plásticas no país dá a medida da centralidade de Pedrosa nesse
processo.
Se no fim dos anos 1950 fazia sentido atribuir à Gestalt a origem dos "excessos
racionalistas" a que chegara a arte naquele momento no Brasil, dez anos antes,
época da realização do trabalho de Pedrosa, ela foi a gramática que ajudou a
sistematizar um modo novo de olhar para a produção artística. Foi, por um lado,
um indício da tentativa de superação do diletantismo a que a crítica de arte se
via confinada no país, e, por outro, a baliza teórica que organizou a discussão
naqueles anos. A obra de Pedrosa, portanto, contém, ao mesmo tempo, o veneno -
a Gestalt - e o remédio - a humanização da forma expressa nos textos sobre
Calder - que sintetizam o conjunto de contradições definidor do construtivismo
no Brasil. Mas por injunções que dizem respeito às disputas naquele momento e à
posição muito particular ocupada pelo crítico, a carga pejorativa associada ao
cientificismo na crítica de arte, claramente presente nesses textos sobre a
Gestalt, fica restrita às formulações teóricas associadas aos integrantes do
grupo de São Paulo, como os irmãos Campos e Waldemar Cordeiro.
MESTRE ENTRE PUPILOS
Como se nota, um projeto audacioso como a reeducação da sensibilidade do homem
por meio da arte construtiva - projeto que remonta ao horizonte utópico das
vanguardas modernistas do início do século XX - encontra-se formulado de modo
explícito nos textos de Pedrosa. Apesar do matiz teórico inédito no Brasil,
chama atenção o fato de que essas ideias encontravam naquele momento no Rio de
Janeiro um ambiente propício para frutificar. Não apenas não soavam anacrônicas
como encontraram artistas e críticos dispostos a adotar o partido para o
próprio trabalho e engrossar as fileiras com Pedrosa na busca por uma
transformação radical da arte produzida no país por meio do projeto
construtivo.
Uma chave para compreender a adesão maciça à causa é a influência que Pedrosa
passou a exercer nesse período sobre os jovens. É importante lembrar que na
volta ao Brasil, já às portas dos 50 anos de idade e com uma trajetória de
fazer vista, Pedrosa era bem mais velho que boa parte dos artistas sobre os
quais passou a exercer ascendência direta: tinha 30 anos a mais que Ferreira
Gullar, 37 a mais que Hélio Oiticica, 20 a mais que Lygia Clark. Como lembra
Otilia Arantes, "Mário Pedrosa tornou-se, por força das coisas, uma espécie de
mentor dos artistas em início de carreira ou que já trilhavam um caminho fora
do eixo consagrado pela tradição modernista"21.
Não havia relação de horizontalidade - ele se punha na condição de mestre em
relação aos mais jovens, que aceitavam de bom grado a condição de pupilos. Ao
valorizar a produção de neófitos que davam os primeiros passos na carreira, via
reforçada por eles sua condição de mestre e reforçava ainda a imagem de crítico
vanguardista atento aos movimentos mais recentes do pensamento sobre arte nos
Estados Unidos e na Europa. Para os jovens que se viam sob sua tutela, a
cobertura crítica de um autor do porte de Mário Pedrosa não podia ser mais
valiosa - era um passaporte privilegiado para serem aceitos nos principais
museus e ganhar atenção da imprensa.
Em 1949, Pedrosa prestou concurso para a cátedra de Estética e História da Arte
da Faculdade Nacional de Arquitetura. Àquela altura, a via universitária seria
o caminho natural para um autor de sua envergadura, ainda mais num momento em
que a especialização acadêmica começava a se constituir no país. Mas Pedrosa
não obteve a cátedra, nem publicou seu trabalho teórico de maior fôlego - para
concorrer à vaga, apresentou a tese sobre a Gestalt de que se falou
anteriormente, que permaneceu inédita por mais de trinta anos. Com isso, viu-se
privado de canais oficiais para institucionalizar seu projeto crítico e para
formalizar sua condição de professor universitário, o que seria um meio de
estabilizar a vida material e institucionalizar a relação com os mais novos por
meio da sala de aula e da orientação de trabalhos.
Eis uma fragilidade pouco lembrada na trajetória de Pedrosa. Não é possível
afirmar que haja relação direta entre o fato de não haver sido aprovado e a não
publicação durante trinta anos da tese apresentada no concurso. A tese era
também um documento do lado cientificista da produção do crítico. Sob essa
ótica, sua não publicação podia derivar do fato de ser vista como face menos
importante de seu trabalho, fruto que era de concessão para prestar o concurso
acadêmico. Não é isso, porém, que sugere a intensidade com que se dedicou
àquele corpo de problemas, como indicam os testemunhos de colegas22. Não se
pode descartar, ainda, o desapego pela publicação em livro por parte de um
autor cuja produção foi inteira realizada nos jornais e para quem a dispersão
era uma consequência natural da atividade crítica. Mas está claro que o
investimento na direção de uma carreira docente não foi pequeno - tanto que em
1952 acabou nomeado interinamente como professor de História do Colégio Pedro
II, decerto um degrau abaixo de suas expectativas iniciais e onde nunca chegou
a ser efetivado23.
A frustração do projeto universitário, por outro lado, pode ter contribuído
para que redobrasse a aposta nos instrumentos que tinha à mão - e que não eram
poucos. A coluna semanal no Correio da Manhã tornou-se naqueles anos um
laboratório do pensamento construtivo e uma tribuna para a promoção do
movimento no Brasil - é difícil encontrar um artista dedicado à arte
construtiva que não tenha tido o trabalho examinado naquele espaço24. Seu
apartamento em Ipanema transformou-se em sede de encontros semanais para
discutir arte e política25, com livre acesso aos mais novos - foi numa dessas
ocasiões, em 1951, que Ferreira Gullar, então com 20 anos, foi apresentado a
Mário Pedrosa. O acesso de que dispunha à direção dos museus foi igualmente um
pressuposto para que o construtivismo tomasse corpo no país. Entre os vários
postos de direção que ocupou em instituições ligadas às artes figuram os de
diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e secretário-geral da
Bienal de São Paulo, ambas as nomeações feitas em 1960.
Em 1948, Pedrosa atuou na criação do primeiro núcleo de arte abstrata-concreta
do Rio de Janeiro, formado por Ivan Serpa, Abraham Palatnik e Almir Mavignier.
Os três eram frequentadores dos encontros de fim de semana na casa de Pedrosa,
em Ipanema. Serpa foi um protegido desde os primeiros anos. Pedrosa escreveu o
texto de catálogo de sua primeira exposição, no Instituto Brasil-Estados
Unidos, em 1951, quando Serpa tinha 27 anos. E valeu-se de sua coluna no
Correio da Manhã para voltar à carga sobre a exposição, em texto bastante
elogioso26. Mavignier é bastante enfático ao lembrar a influência de Pedrosa
naquele momento:
Nós éramos as cobaias do Mário Pedrosa. Íamos aos domingos a sua
casa, ele lia para nós trechos da tese que escrevia sobre a Gestalt,
a gente ia fazendo o que ele falava. Esse conhecimento me permitiu
abandonar uma pintura naturalista e iniciar uma pintura de pesquisas
concretas de formas livres de associações27.
Nos termos da socióloga Glaucia Villas Bôas, em ensaio sobre a experiência do
Ateliê do Engenho de Dentro, a influência de Pedrosa foi decisiva para a
"conversão" desses jovens artistas em artistas concretos.
O papel de Mário Pedrosa foi fundamental neste momento na história do
Ateliê, na medida em que ninguém como ele poderia apontar outras
perspectivas para aqueles jovens. Pedrosa os foi convertendo da
pintura figurativa para o abstracionismo e a arte concreta28.
A influência é igualmente central para Abraham Palatnik, a quem Pedrosa foi
apresentado por Mavignier. As discussões conceituais com Mário Pedrosa fazem
Palatnik rever seus critérios de composição, abandonar o pincel e o figurativo
e partir para relações mais livres entre forma e cor que iriam culminar com a
arte cinética: embora já manejasse motores de combustão na juventude, em
Israel, foi a partir das sugestões de Pedrosa que se empenhou em dar a esse
aprendizado um sentido lúdico e descolado do âmbito da representação.
Pedrosa avaliava a veracidade de suas hipóteses através da reação do
grupo, e os jovens pintores começaram a entender que o conteúdo de
uma forma se encontra no seu próprio caráter e não na sua associação
com a natureza. Experimentaram assim buscar formas de caráter
próprio29.
A primeira amostra significativa dessa produção resultou no Grupo Frente, cuja
origem são os cursos ministrados por Serpa no MAM Rio. A primeira exposição do
grupo foi em 1954, no Instituto Brasil-Estados Unidos. A mostra reuniu, além de
Serpa, Aluísio Carvão, Carlos Val, Décio Vieira, João José da Silva Costa,
Lygia Clark, Lygia Pape e Vincent Ibberson. No ano seguinte, em 1955, uma nova
mostra foi organizada, desta vez no MAM Rio. Aos fundadores do grupo uniram-se
outros sete artistas: Abraham Palatnik, César Oiticica, Franz Weissmann, Hélio
Oiticica, Rubem Ludolf, Elisa Martins da Silveira e Emil Baruch. A apresentação
da segunda exposição coube a Mário Pedrosa.
O texto deixa claro como o que aproximava aqueles artistas, mais do que buscas
formais comuns, era o fato de serem jovens e corresponderem aos valores
apreciados por Pedrosa naquele momento. "Os seus membros são todos jovens. E as
adesões com que tem crescido têm sido invariavelmente de personalidades ainda
jovens. Isso quer dizer que o grupo está aberto para o futuro, para as gerações
em formação. "30Trata-se de texto informal, de baixa densidade analítica, em
que poucas linhas são dedicadas ao trabalho de cada artista e as convergências
entre eles são sugeridas do modo mais genérico possível. "Uma coisa os une, e
com a qual não transigem, dispostos a defendê-la contra tudo e contra todos,
colocando-a acima de tudo e de todos - a liberdade de criação. "31 Ou ainda:
"Os artistas do Grupo Frente procuram a disciplina ética e disciplina criadora:
do contrário não poderiam experimentar livremente, como o fazem".
Embora afirmações como essas possam sugerir uma defesa da maior "liberdade" dos
cariocas em relação aos paulistas, são apenas frases generalizantes a unir
retoricamente um grupo heterogêneo. O texto vale mais pela chancela de Pedrosa
como padrinho de uma geração emergente do que pelo valor crítico que exprime a
respeito das obras. O próprio Ferreira Gullar notaria mais tarde como nessa
apresentação o que estava em jogo era uma projeção que Mário Pedrosa fazia de
suas ideias sobre a atividade daqueles jovens artistas32. Mas os cursos de
Serpa no MAM Rio e as exposições do Grupo Frente que vêm na sequência são os
primeiros indícios palpáveis do ideário de Mário Pedrosa transformado em
realidade. Os artistas em início de carreira eram os mais permeáveis às
influências do crítico, e não pouparam esforços para concretizar os
pressupostos ventilados pelo mestre. A analogia de Mavignier entre os jovens
daquele período e a função de "cobaias" é ilustrativa do apelo exercido por
Pedrosa.
PAULISTAS E CARIOCAS
Em 19 de fevereiro de 1957, pouco depois de estrear como colunista do Jornal do
Brasil, Pedrosa publicou um texto decisivo para a constituição da narrativa em
torno do neoconcretismo. Trata-se de um comentário breve, onze parágrafos
apenas, intitulado "Paulistas e cariocas". O artigo saiu a propósito da I
Exposição Nacional de Arte Concreta, que já havia sido exibida em São Paulo e
acabava de abrir no Rio de Janeiro. O texto propõe distinções entre os artistas
concretos do Rio e aqueles que atuavam em São Paulo. O pressuposto é o de que
São Paulo, desde a Semana de Arte de Moderna, se apresentou ao Rio como centro
propulsor de ideias e teorias estéticas. Haveria entre os paulistas um pendor
natural à teorização. "Por que será, por exemplo, que o italiano é sempre mais
teórico que o francês, o alemão que o inglês, o russo que o americano, o
espanhol que o brasileiro e o paulista que o carioca?"33, é a indagação do
primeiro parágrafo do texto.
Pedrosa segue com o argumento de que os jovens concretistas de São Paulo
carregam a preocupação constante de teorizar sobre o próprio trabalho. "Os
pintores, desenhistas e escultores paulistas não somente acreditam nas suas
teorias como as seguem à risca", afirma Pedrosa34. "[. . . ] os paulistas amam
sobretudo a ideia"35. Os cariocas, ao contrário, manteriam uma relação com a
produção artística muito menos mediada pela teoria. Eles teriam conseguido
preservar em seus trabalhos uma relação "físico-sensorial"36 com a matéria, um
amor à materialidade de seus quadros que guardaria ainda algo de instintivo, um
vestígio de relação com a natureza. "Em face deles [os paulistas], os pintores
do Rio são quase românticos", continua Pedrosa37. "São mais empíricos, ou então
o sol, o mar os induzem a certa negligência doutrinária"38. São poucos os
artistas mencionados no texto. O principal deles é o paulista Luiz Sacilotto.
Seu quadro, Concreção 5629, é elogiado de modo enfático. A tela apresenta um
conjunto de triângulos pretos dispostos em fileiras horizontais sobre um fundo
branco. Em decorrência da forma como o artista dispõe os triângulos pretos, o
resultado dos espaços entre eles é um conjunto de triângulos brancos que salta
para a frente do quadro. O que seria fundo, dessa forma, adquire força e
consistência de figura, num jogo perceptivo que prossegue indefinidamente.
Esse é o único trabalho a que Pedrosa faz menção detida. Numa equação curiosa,
compõe um texto que pretende fazer o elogio da liberdade dos cariocas, mas
acaba por enfatizar as qualidades da tela de um paulista. É o que se vê, por
exemplo, no seguinte trecho:
A cor para o paulista é uma cor-superfície, luminosidade pura, cor
para uma forma que aqui age como objeto; a cor para o carioca é
espaço também, é iluminação, isto é, a visão por assim dizer dos
espaços vazios; é forma negativa, se quisessem, como, aliás, o fundo
branco das séries triangulares do quadro premiado de Sacilotto39.
Há uma tentativa inicial de generalização, de estabelecer as distinções entre
os grupos, mas o único exemplo que mobiliza contradiz a formulação apresentada.
O texto não vai além. Tece mais generalizações sobre a "índole" de cada grupo e
encerra com a afirmação de que tanto os paulistas como os cariocas do campo
concretista apresentam boa parte das esperanças brasileiras para o futuro das
artes visuais.
Estamos, como se nota, em território diferente dos ensaios sobre Calder.
Naqueles textos da década de 1940, era visível um crítico bem aparelhado,
disposto a empregar o melhor de seu cabedal para apresentar ao público
brasileiro a obra do artista. Estava em ação o crítico, em momento de
sistematização de um projeto consistente de afirmação de uma maneira nova de
encarar as artes plásticas. Já no artigo sobre paulistas e cariocas, está em
ação não o teórico, mas o militante. Nota-se um empenho interpretativo muito
menor, até mesmo certo desleixo em deixar passar generalizações que o crivo do
próprio crítico provavelmente condenaria em outro contexto. Uma afirmação como
a citada acima, segundo a qual o sol e o mar dariam aos cariocas uma
negligência doutrinária, é obviamente uma boutade. Não se pode imaginar um
crítico do calibre de Mário Pedrosa, também conhecido pelo tom galhofeiro e
bem-humorado de seus textos, a conferir consistência teórica a um postulado
simplista desse tipo.
Está certo que os textos sobre Calder e este sobre paulistas e cariocas não têm
o mesmo objetivo e alcance. O último é apenas uma coluna de jornal, a que todas
as semanas o autor volta para emitir juízos aos quais nem sempre é possível
dedicar o tempo necessário de maturação. Mas o contexto, algo irrefletido e
apressado do artigo, parece não ter sido levado em conta pela crítica
posterior, que o adotou como uma espécie de súmula das diferenças entre
paulistas e cariocas no campo da arte concreta40.
DISTÂNCIA SEGURA
É verdade que Pedrosa não chegou a atuar diretamente como integrante do
neoconcretismo. É preciso lembrar que ele não estava no país quando o grupo
tomou forma. Entre 1958 e 1959, Pedrosa esteve no Japão, onde fora estudar arte
oriental com bolsa da Unesco. A ausência, por outro lado, pode ter sido um
incentivo importante a Ferreira Gullar, que via livre o caminho para assumir o
lugar deixado vago pelo mestre, até mesmo para assumir posições mais enfáticas
que as dele no que diz respeito à forma de negar os preceitos da Gestalt:
Pedrosa vinha desde 1949 relativizando sua adesão à psicologia das formas, mas,
como lembra Otilia Arantes, jamais chegou a romper em definitivo com a Gestalt,
passo que Gullar ousa dar no manifesto.
Mas isso é apenas conjectura. O fato é que a diferença de geração entre Mário
Pedrosa e o grupo neoconcreto era bastante significativa: ele era o aglutinador
e mentor teórico dos artistas, mas, prestes a completar 60 anos, não estava
mais em posição de confundir-se com eles assinando manifestos de vanguarda. A
um crítico na posição em que ele se encontrava no fim dos anos 1950, a atitude
poderia soar ingênua e expor desnecessariamente um intelectual já consagrado,
que não teria por que se envolver em disputas de jovens em posição muito
inferior à sua no campo. Há um texto do próprio Mário Pedrosa41, publicado em
1952 em catálogo do MAM Rio, que dá uma pista valiosa sobre isso. O comentário
tenta traçar um panorama das artes brasileiras naquele momento no Brasil. E
detém-se na relação entre os artistas mais velhos e a arte construtiva:
Seria grotesco, ofenderia de algum modo o nosso pudor, se Segall
desse agora para nos exibir uma pintura "concreta" ou abstrata à Max
Bill ou Sophie Tauber-Arp só para ficar na moda. O espetáculo seria
estranho, e algo humilhante e melancólico como quando vemos uma velha
sair de sua dignidade para vestir-se de roupinhas leves, graciosas e
curtas, esportivamente de perna de fora e com penteado de cabelos
cacheados ou tosquiados forçando a comparação ou a companhia das
jovens. Quando vemos uma velha dessas, damos graças a Deus por não
ser ela nossa mãe, nossa tia ou mesmo nossa madrinha42.
A adesão de Pedrosa a um coletivo vanguardista "neo" alguma coisa, animado por
um crítico que ele mesmo formou e trinta anos mais novo, poderia soar tão fora
de contexto quanto a senhora a que ele faz referência no texto. Para um crítico
de sua estatura, conhecido pela proximidade com as novas gerações, a
preocupação não deve ter parecido secundária - e as linhas que ele gasta no
texto acima a imaginar a situação parecem atestar não apenas sua veia informal,
como também uma preocupação genuína em guardar a distância devida das agitações
de seus pupilos. Mesmo porque, na volta do Japão, Pedrosa estava ocupado com um
tema de maior envergadura: a construção de Brasília e a dimensão transformadora
da nova capital do país. Esse era o objeto do seminário da Associação
Internacional de Críticos de Arte (Aica) que ele organizou em setembro daquele
ano.
Mas o não envolvimento direto de Pedrosa no neoconcretismo não diminui sua
centralidade naquele processo. É em torno dele que o construtivismo ganha corpo
no Brasil - e mesmo que se aceite a versão de que o neonconcretismo é o momento
culminante desse processo, ele é também o desdobramento de um conjunto de
forças postas em marcha por Mário Pedrosa a partir da segunda metade dos anos
1940. A intensidade com que conseguiu implantar sua grade de valores, graças a
um capital acumulado singular e às funções estratégicas que ocupou, é um dos
fatos mais significativos da história da arte recente no Brasil. Como lembra
Otilia Arantes:
Costuma-se dizer que a crítica chega com atraso em relação às
inovações que vão se processando na arte; entretanto no Brasil, um
cidadão do mundo como Mário Pedrosa em mais de uma ocasião antecipou-
-se e propiciou a emergência do novo no domínio das artes plásticas,
tornando-se, com conhecimento de causa e apoio na tradição local, o
principal responsável pela modernização das nossas artes na segunda
metade do século43.
O que Otilia chama de "cidadão do mundo" é na realidade a síntese dos trunfos
sociais de Mário Pedrosa. Eles derivam de uma conjunção bastante particular de
origem familiar, formação educacional, vivências no exterior, militância
política, bom trânsito em esferas sociais distintas, treinamento teórico,
acesso aos dirigentes culturais, desempenho de funções executivas em
instituições de prestígio e visibilidade, atividade jornalística na grande
imprensa, organização de seminários e colóquios internacionais, influência
sobre os mais jovens, carisma e capacidade aglutinadora. Sem a soma desses
atributos como pano de fundo, não se compreende como sua crítica pode ter tido
efeito tão transformador e duradouro, como ele pode ter "se antecipado", no
dizer de Otilia, para propiciar a emergência "do novo" nas artes plásticas
brasileiras. Como a própria autora demonstra de forma bastante objetiva, trata-
se de um caso em que a crítica indica os caminhos e pauta o trabalho dos
jovens, que adquirem mais segurança ao seguir por uma trilha aberta por um
teórico de prestígio.
* Agradeço a Marcos Nobre pelas valiosas sugestões.
[1] Parece ser com essa ordem de questões em mente que o crítico Ronaldo Brito
escreve, em texto de 1975: "Não é exagero dizer que Mário Pedrosa fez mais do
que influenciar os agentes da arte brasileira - ele impregnou o circuito com
suas ideias e suas posições diante do trabalho de arte". Brito, Ronaldo. "As
lições avançadas do mestre Pedrosa." In: Experiência crítica. São Paulo: Cosac
Naify, 2005. p. 48.
[2] Conforme Otilia Arantes, "talvez se possa datar de 1944 a total conversão
de Mário Pedrosa à causa da arte moderna, em particular na sua forma mais
radical, a da arte abstrata. A ocasião foi novamente a retrospectiva de um
grande artista, no caso, a primeira grande mostra de Calder nos Estados
Unidos". Arantes, Otilia (Org.). Mário Pedrosa: itinerário crítico. São Paulo:
Scritta, 1991. p. 31. É importante lembrar que o trabalho que marca em
definitivo a entrada de Pedrosa no campo da crítica de arte é a conferência
sobre a gravurista alemã Käthe Kollwitz, de 1933. Mas suas preocupações nesse
momento ainda estão distantes do construtivismo, assunto que nos interessa
aqui.
[3] Pedrosa, Mário. "Arte e revolução". In: Amaral, Aracy (Org.). Mundo, homem,
arte em crise. São Paulo: Perspectiva, 1976. p. 247. Citado por Arantes,
Otilia, op. cit., p. 12.
[4] Pedrosa, Mário. In: Arantes, Otilia. Modernidade cá e lá: textos escolhidos
de Mário Pedrosa IV. São Paulo: Edusp, 2000. p. 57.
[5] Ibidem, p. 58.
[6] Ibidem, p. 62.
[7] Carta de Henrique Mindlin a Alexander Calder, Rio de Janeiro, 8 nov. 1944.
A carta encontra-se na Calder Foundation, em Nova York, e está citada em
Saraiva, Roberta (Org.). Calder no Brasil: crônica de uma amizade. São Paulo:
Pinacoteca do Estado/Cosac Naify, 2006.
[8] Ibidem, p. 73.
[9] Ibidem, p. 78.
[10] Osório, Luiz Camillo. "O desejo da forma e o desejo na forma: o
neoconcretismo como contribuição singular da arte brasileira". In: O desejo da
forma. Berlim: Akademie der Künste, 2010.
[11] O termo "arte concreta" foi cunhado por Theo van Doesburg, companheiro de
Mondrian no grupo De Stijl. Doesburg explicava que, na arte não figurativa
geométrica, as formas, linhas e cores são objetos concretos, assim como uma
árvore ou animal reais.
[12] Jornal do Brasil, 19 mar. 1960. Reproduzido em Saraiva, Roberta (Org.),
op. cit., p. 226.
[13] Uma variável importante nesse processo é a Gestalt, discutida adiante.
[14] Segundo Otilia Arantes, apenas K. Koffka tinha feito aproximação
semelhante, em congresso na Pensilvânia, em 1939, com o texto The Problems in
the Psychology of Art. Arantes, Otilia (Org.). Forma e percepção estética:
textos escolhidos de Mário Pedrosa II. São Paulo: Edusp, 1995. p. 26.
[15] Ibidem, p. 145.
[16] Na tese Estética e política em Mário Pedrosa, Marcelo Mari defende que a
passagem de Pedrosa de militante crítico, nos anos 1930, para crítico
militante, dos 1950 em diante, não representa uma ruptura, mas uma continuidade
do fervor revolucionário que passou a operar de dentro para fora: a forma
artística autônoma assumindo o proscênio como agente transformador. "Embora
Pedrosa tivesse sempre em mente o processo final de síntese entre arte e
revolução social, processou-se uma mudança em seu posicionamento. Este derivou
não do afastamento premeditado da política para a dedicação exclusiva à
atividade de crítica de arte, mas de um ajuste necessário de Pedrosa para
articular de outro modo arte e política, a fim de que os augúrios do campo
artístico se concretizassem." Mari, Marcelo. Estética e política em Mário
Pedrosa. Tese (doutorado) - FFLCH-USP, São Paulo, 2006. Otilia Arantes também
enunciou o problema em seu trabalho. "Se a ênfase muda, o que é sempre
perseguido neste esforço de decifração das obras é a sua vocação sintética e
universalizadora. Descoberto esse núcleo, a oposição entre a defesa de uma arte
proletária e a tomada de partido em prol da abstração (ou da arte concreta) não
é tão radical como se pretende." Arantes, Otilia (Org.). Mário Pedrosa:
itinerário crítico, op. cit., p. 49-50.
[17] Nos termos do manifesto neoconcreto: "Não concebemos a obra de arte nem
como 'máquina' nem como 'objeto', mas como um quasi-corpus, isto é, um ser cuja
realidade não se esgota nas relações exteriores de seus elementos; um ser que,
decomponível em partes pela análise, só se dá plenamente à abordagem direta,
fenomenológica". "Manifesto neoconcreto." Jornal do Brasil, 23 mar. 1959.
[18] "Manifesto neoconcreto", op. cit.
[19] Gullar, Ferreira. Etapas da arte contemporânea. Rio de Janeiro: Re van,
1999. p. 238.
[20] Formas do afeto: um filme sobre Mário Pedrosa. Roteiro e direção de Nina
Galanternick. 2010.
[21] Arantes, Otilia (Org.). Mário Pedrosa: itinerário crítico, op. cit., p.
15.
[22] Depoimento de Almir Mavignier a Glaucia Villas Bôas no documentário
Memórias concretas. Direção de Glaucia Villas Bôas, 2006.
[23] Pedrosa apresentou três teses para a direção do colégio, uma em 1955
(Obstáculos políticos à Missão Francesa no Brasil) e duas em 1956 (As
principais correntes políticas na Revolução Russa de 1917 e Evolução do
conceito de ideologia), mas, segundo amigos e familiares, as defesas nunca
chegaram a ocorrer.
[24] Parte expressiva dessa produção foi reunida por Otilia Aran tes nas obras
Política das artes, Forma e percepção estética, Acadêmicos e modernos e
Modernidade cá e lá. São Paulo: Edusp.
[25] Nos termos de Luciano Martins: "Na casa de Mário e Mary se dava uma
espécie de encontro de águas. O convívio entre os velhos amigos e companheiros
de Mário, como Barreto Leite Filho e Lívio Xavier [...], os artistas e
intelectuais inovadores como Lygia Clark, Aluísio Carvão, Franz Weissman,
Milton da Costa, Ivan Serpa, Hélio Oiticica, Almir Mavignier, Abraham Palatnik,
Ferreira Gullar, Lygia Pape, Carlinhos de Oliveira, Oliveira Bastos e, ainda, a
figura flamejante de Hélio Pellegrino e jornalistas de talento como Cláudio
Abramo, Janio de Freitas e Newton Carlos, para citar apenas alguns que agora me
ocorrem. Nessas reuniões [...] se discutia de tudo. A situação internacional, a
evolução do mundo comunista, as tendências do capitalismo, a revisão do
marxismo, as expressões da arte no mundo e no Brasil, a política do cotidiano
brasileiro e os rumos do país. Mário pontificava." Martins, Luciano. "A utopia
como modo de vida: fragmentos de lembrança de Mário Pedrosa". In: Neto, José
Castilho Marques (org.). Mário Pedrosa e o Brasil. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2001. p. 34.
[26] "A experiência de Ivan Serpa". Correio da Manhã, 18 ago. 1951.
[27] Depoimento de Almir Mavignier a Glaucia Villas Bôas no documentário
Memórias concretas. Direção de Glaucia Villas Bôas, 2006.
[28] Villas Bôas, Glaucia. "O Ateliê do Engenho de Dentro como espaço de
conversão (1946-1951): arte concreta e modernismo no Rio de Janeiro". In:
Botelho, André; Bastos, Elide Rugai; Villas Bôas, Glaucia (Orgs.). O moderno em
questão: a década de 1950 no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.
[29] Ibidem, p. 160.
[30] Pedrosa, Mário. In: Arantes, Otilia. Acadêmicos e modernos: textos
escolhidos de Mário Pedrosa III. São Paulo: Edusp, 1998. p. 245.
[31] Ibidem, p. 248.
[32] Gullar, Ferreira. "O Grupo Frente e a reação neoconcreta". In: Amaral,
Aracy (Org.). Arte construtiva no Brasil. São Paulo: DBA, 1998. p. 148. Vale
notar que Gullar afirmou isso em texto de 1998. Em 1960, na série de artigos
para justificar o neoconcretismo publicada no Jornal do Brasil, as mesmas
afirmações de Pedrosa foram usadas como indício da distinção entre paulistas e
cariocas (ver Gullar, Ferreira, op. cit., p. 233).
[33] Pedrosa, Mário. "Paulistas e cariocas". In: Arantes, Otilia. Acadêmicos e
modernos, op. cit., p. 253.
[34] Ibidem, p. 254.
[35] Ibidem, p. 256.
[36] Ibidem, p. 256.
[37] Ibidem, p. 254.
[38] Ibidem, p. 256.
[39] Ibidem, p. 256.
[40] O artigo foi reproduzido por Aracy Amaral em Projeto construtivo
brasileiro na arte (1950-1962). São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1977.
[41] Pedrosa, Mário. "O momento artístico". Catálogo da exposição de artistas
brasileiros, MAM Rio, abr. 1952. In: Arantes, Otilia. Acadêmicos e modernos,
op. cit., p. 241.
[42] Ibidem, p. 242.
[43] Arantes, Otilia. Mário Pedrosa: itinerário crítico, op. cit., p. 18.