O fim e o princípio: Entre o mundo e a cena
Quando morreu, em fevereiro de 2014, o cineasta Eduardo Coutinho se encontrava
em meio à realização de um novo filme, dessa vez com adolescentes do Ensino
Médio de escolas públicas do Rio de Janeiro1. Como acontecia com frequência no
decorrer de seus processos criativos, o diretor não estava muito satisfeito com
o material gravado e vivia as angústias prévias à montagem do documentário.
Mesmo aos 80 anos e sendo cineasta renomado, ele nunca deixou de experimentar e
buscar novos caminhos para o cinema que fazia.
Desde o lançamento de Santo forte, em 1999, realizou nove longas-metragens,
filmando e montando continuamente. Não queria apenas repetir o que tinha dado
certo, acomodar-se em um "modo de fazer", ir ao encontro do que já era esperado
dele. Essa era, aliás, uma das características notáveis desse cineasta: jamais
deixou de se inquietar com o cinema - e com o mundo -, buscando sempre novas
possibilidades de invenção. Alguns princípios éticos e estéticos se mantiveram
ao longo de seus filmes, mas de documentário em documentário ele imprimiu
mudanças sutis e deslocamentos graduais e, também, de tempos em tempos,
realizou rupturas mais radicais. Como aquelas em Santo forte(1999), que
instaura as bases do documentário que Coutinho fará em seguida, centrado na
situação do encontro e nas narrativas dos sujeitos filmados; e em Jogo de cena
(2007), no qual põe em questão o seu próprio método (baseado em entrevistas), e
implementa uma nova abordagem, filmando em um ambiente fechado, sem vínculos
(de moradia ou pertencimento) com aqueles que serão entrevistados.
Nesse momento em que sua obra se fecha (abrindo-se, ao mesmo tempo, para novos
sentidos e apropriações, presentes e futuras), impressiona não apenas a
intensidade da produção contemporânea de Coutinho, como também sua dimensão
reflexiva, que se manifesta, entre outros aspectos, pelo diálogo tácito entre
todos os seus filmes (cada nova obra beneficiando-se do debate e das reflexões
dos trabalhos anteriores).
Queremos aqui analisar um filme que assinala a passagem entre o que podemos
chamar de duas fases da atuação de Eduardo Coutinho nos 15 anos finais de sua
trajetória, e que têm justamente Santo forte e Jogo de cena como marcos
principais. Trata-se de O fim e o princípio (2005), documentário que,
curiosamente, não chamou a atenção dos críticos na época de seu lançamento, mas
que parece mais rico a cada reencontro, revelando-se aos olhos de hoje como um
filme de transição entre os documentários filmados em espaços reais (uma
favela, um lixão, um prédio de classe média) e os últimos filmes de Coutinho,
realizados indoors (um teatro, um galpão de ensaios, um estúdio).
O que o levou a enveredar por esse caminho, deixando de filmar o "mundo" para
realizar um documentário "de interior"? Difícil dizer. Coutinho sempre negou
que suas invenções tivessem sido pensadas de antemão, previamente à montagem
dos filmes. Tudo se dava no processo de feitura, entre intuição e reflexão, em
diálogo com tudo que lia, via, amava, odiava e também na interação com amigos,
críticos, espectadores. Em retrospecto, contudo, podemos extrair certos fios e
identificar em alguns filmes indícios de opções estéticas que só se tornam
visíveis mais tarde.
É o caso de O fim e o princípio, que radicaliza o projeto estético desenhado
pelo cinema contemporâneo do cineasta, mas também imprime deslocamentos que
terão ecos em seus filmes posteriores. Coutinho decide realizar esse filme em
2004, em um universo rural, porque estava cansado de filmar em cidade grande e
do método de pesquisa prévia usado em todos os seus filmes desde Santo forte.
Assumindo-o como um filme sem tema definido, sem assunto norteador, com apenas
uma ideia de localidade (o interior da Paraíba), o diretor priorizou o acaso
como meio de produzir o encontro com o desconhecido. Os personagens não são
informantes sobre esta ou aquela temática - são pessoas singulares que não
representam, tipificam ou exemplificam nada.
Portanto, Coutinho não seleciona o "elenco" de entrevistados em uma pesquisa
anterior. Diferentemente dos quatro longas anteriores, o diretor e a equipe
pouco ou nada sabem dos entrevistados, e o filme só poderá contar "a sua
própria aventura"2, abrindo-se ao risco do encontro, à "força do instante" e ao
registro de "momentos únicos"3 - ou à sua impossibilidade e ao fracasso, uma
das obsessões do diretor. Um filme, em suma, que busca os temas em seu fazer,
evidenciando que eles não preexistem (como escreveu Comolli sobre o cinema
direto: o material filmado é toda a realidade a que o filme fará referência4).
Por um lado, há permanências, acúmulo e repertório que ligam esse filme aos
anteriores: Coutinho-entrevistador, seu interesse por histórias de vida, um só
lugar e tempo limitado de filmagem. Por outro, esse documentário também se
projeta sobre as obras posteriores, especialmente Jogo de cena e As canções,
sobretudo no interesse - cada vez mais central - pelas habilidades expressivas,
performáticas e fabuladoras de toda e qualquer pessoa, independentemente do
contexto social em que ela está inserida.
Ao mesmo tempo, é um documentário que apresenta características muito
singulares, que não vimos na obra anterior do diretor e não veremos depois: uma
proximidade física entre cineasta e personagens, uma recusa deles de se
manterem na função de "entrevistados", uma interação efetiva, uma conversa de
fato, em que o cineasta é convocado a responder muitas vezes às mesmas questões
que ele coloca; uma igualdade de princípios, talvez em função da idade próxima
à de Coutinho, que leva alguns dos personagens a tocar o corpo do cineasta,
adentrando o espaço atrás da câmera, em busca de cumplicidade. Assim, com
emoção e surpresa, entre velhos camponeses de uma comunidade rural no interior
da Paraíba, encontramos Eduardo Coutinho, exprimindo-se através desses
"outros", em um de seus filmes mais pessoais.
O DISPOSITIVO EM CONSTRUÇÃO
O fim e o princípio se inicia com um travellinglateral. Da janela de um carro
em movimento, a paisagem plana, arenosa e de árvores baixas de São João do Rio
do Peixe (PB) é apanhada em contínua (mas sutil) transformação. A essa imagem
de deslocamento, a voz de Coutinho, sobreposta na montagem, une-se à abertura
de um filme inteiramente por fazer: "Viemos à Paraíba para tentar fazer, em
quatro semanas, um filme sem nenhum tipo de pesquisa prévia. Nenhum tema em
particular, nenhuma locação em particular". Um movimento para a direita revela
o interior do carro que se desloca, e Coutinho sentado ao lado do motorista.
Tudo ainda está por definir, mas o filme já inscreve nessa cena,
manifestamente, a sua dimensão processual: "Talvez ele se torne essa procura",
prossegue Coutinho, "de uma locação, de um tema e sobretudo de personagens". A
procura por onde, e com quem, poderíamos dizer, recortar e compartilhar a cena.
Essa imensa abertura, com múltiplos caminhos em potência, é logo cercada por
algumas precauções, como se Coutinho buscasse reduzir o risco do informe, a
incidência descontrolada do acaso, que o moviam inicialmente. O diretor não
parte da criação de um dispositivo, como nos trabalhos anteriores, mas vai
desenhando-o pelo caminho. Escolhida a localidade por uma facilidade arbitrária
de hospedagem ("segundo um guia turístico, em São João do Rio do Peixe havia um
bom hotel"), a primeira família é procurada pela equipe de filmagem por conter
uma agente da Pastoral da Criança. Rosa é uma possível mediadora (entre a
equipe e sua realidade), figura estratégica com que Coutinho contou nas
pesquisas que determinaram os entrevistados de filmes anteriores, baseados em
um recorte espacial do mundo (Santo forte,Babilônia 2000,Edifício Master).
Aqui, curiosamente, como não há "nenhuma locação em particular", a escolha de
uma mediadora precede aquela de um espaço físico. Mais até do que as qualidades
de um espaço ou uma localidade, importa como se introduzir nele - de maneira a
garantir a boa atuação dos filmados. Assim, reconhecido o potencial de Rosa,
Coutinho "recorta" o Sítio Araçás, pequena comunidade rural onde vivem 80
famílias, inclusive a dela. Outra escolha determinante do dispositivo, o
destaque na velhice (quase todos os entrevistados têm mais de 70 anos), não é
tematizada diretamente no filme, mas parece atender à expectativa de encontrar
"bons narradores", sedimentada em trabalhos anteriores do diretor5.
A participação de Rosa revela-se decisiva, e não apenas nos bastidores - filme
e processo não se separam, afinal. Desde o seu primeiro encontro com a equipe,
as coordenadas da atuação de Rosa se delineiam. Quando Coutinho explica que
quer "ouvir histórias", ela própria sugere que entrevistem sua avó Zefinha, de
94 anos. É Rosa quem conduz, bem de perto para ser ouvida, a conversa com a
"madrinha-avó", sobrevivente da seca de 1915. Para que Zefinha demonstre seus
saberes, Rosa se torna objeto da "benzeção" da avó, que sobre ela age para
tirar "olhado". Sua participação cria assim uma relação mais horizontal em cena
(entre quem indaga e quem narra), os dois corpos presentes na imagem: Zefinha
tocando na cabeça da neta com uma folhagem, enquanto reza. Trazendo para junto
do grupo essa moradora do Sítio Araçás, é como se a equipe do Rio de Janeiro se
tornasse um pouco "outra" também, beneficiando-se a um só tempo da confiança e
da familiaridade que a presença de Rosa assegura, e do interesse e da
curiosidade que as "visitas diferentes", no dizer da mediadora, provocam entre
os velhos da comunidade. A proximidade física - Rosa dos personagens, câmera
dos corpos, Coutinho de seus entrevistados - é um dos traços notáveis de O fim
e o princípio.
Revendo o filme, emocionam esses encontros, quando Coutinho é acolhido nas
casas rústicas do Araçás, e como ele compõe, com os gestos e as memórias
íntimas dessas mulheres e homens comuns, uma cena que prima pela riqueza de
seus atos de fala. Reencontramos o cineasta em plena forma, ou seja, no
exercício da dúvida, indagando-se pelos caminhos de um filme enquanto o
realiza. Mesmo assim, nos encontros filmados, Coutinho está bastante à vontade:
ele parece encontrar, na rica expressão verbal dos velhos sertanejos, aquilo
que intuía quando o filme estava totalmente em aberto.
PROXIMIDADE E AFETO
Uma diferença marcante em relação à obra anterior é a proximidade entre
Coutinho e os personagens do Sítio Araçás, visível nos modos inéditos de
interação do cineasta com quem está diante da câmera. Aproximação que se traduz
na imagem, marcada pela pequena distância física dos corpos e por
enquadramentos fechados, mas que também aparece no teor das perguntas. Até
então, Coutinho costumava evitar questões que suscitassem "opiniões" genéricas,
orientava seus pesquisadores a se ater à trajetória de vida dos personagens, a
perguntas simples sobre filhos, casamento, namoro etc. Eis que aqui é o
cineasta quem toma a iniciativa de fazer a pergunta que estará presente em
quase todas as conversas: "A senhora não se preocupa com a morte?".
A proximidade física garante imagens belas e expressivas. Com a câmera próxima
dos corpos, os rostos formam verdadeiros mapas, rugas e linhas de expressão
desenhando caminhos paralelos e cruzados. Os corpos testemunham vidas inteiras
de trabalho pesado na roça, como ouvimos nas histórias de muitos personagens.
Pouco a pouco entendemos que esse posicionamento (da câmera e de Coutinho
frente aos entrevistados) é tanto uma escolha como uma necessidade: o diretor,
como a maioria dos personagens, tem mais de 70 anos, e eles se aproximam para
se ver e ouvir melhor. Mesmo assim, por vezes não se entendem. Coutinho repete
a pergunta, o personagem fala mais alto. Em alguns momentos, Rosa intervém e
refaz a questão. Tão próximos estão em cena que Coutinho vez ou outra adentra o
quadro: vemos parte de seu rosto, lateralmente, quando ele se reposiciona para
ouvir ou para falar.
A aproximação e a horizontalidade conquistadas pelo filme (que aqui atribuímos,
em parte, ao posicionamento físico e existencial de Coutinho) garantem
significativa reciprocidade, de modo que os entrevistados não são subsumidos ao
lugar de "objeto" do documentário. Em alguns "momentos únicos", inverte-se a
direção da entrevista, há questionamentos a Coutinho e a suas "verdades" (em
uma espécie de súbita "antropologia reversa"6). Quando Coutinho pergunta se
Mariquinha "não se preocupa com a morte", ela diz que tem muito medo, e lhe
devolve a pergunta: "O senhor não tem não?". Assim, ao figurar o outro em cena,
Coutinho parece exprimir algo sobre si, sobre seu momento, a vivência da
velhice e o temor da morte.
Na verdade, são esses personagens idosos, a começar por Zefinha, "madrinha-avó"
de Rosa, que atenderam à aposta de Coutinho na riqueza da expressividade verbal
dos nordestinos - os jovens perderam essa força, afirmava, nas escolas ruins
que fizeram e no contato com a televisão7. O analfabetismo, no caso dos
personagens velhos de O fim e o princípio, parece permitir a conexão com formas
arcaicas de praticar a língua, além de ser um fator que os impulsiona a
caprichar na fala, a dar o melhor de si ao se expressarem, justamente por serem
desprovidos de uma educação formal.
O "RECORTE ESPACIAL" COMO CENA
A delimitação de um espaço particular, mesmo que feita a posteriori, acaba
seguindo o princípio da "locação única" presente nos filmes anteriores de
Coutinho, mas um dos efeitos desse "microcosmo" não é - como ocorre em Santo
forte, Babilônia ou Edifício Master - evocar uma visão mais geral do Brasil.
Esses três filmes não exemplificam temas ou problemas mais abrangentes, mas nos
fornecem elementos sensíveis para pensarmos o cotidiano violento, entre outros
aspectos da vida em grandes cidades brasileiras. Ao contrário dessa sutil
articulação entre a vida dos personagens que filmou e algo como um "estado de
coisas" que vivemos no país, O fim e o princípio não nos permite inferir quase
nada da vida real dos pequenos vilarejos do sertão nordestino. Mais do que um
diagnóstico da experiência atual de seus moradores, em suas variadas dimensões,
importa a força da oralidade sertaneja. Portanto, se a "locação real" ainda
importa no filme, é mais como um "celeiro" de usos e invenções da língua
portuguesa.
É o talento para narrar as próprias histórias, a força de "invenção verbal" que
Coutinho foi buscar no sertão nordestino, "o lugar no Brasil onde se inventa
melhor"8, dizia o diretor, onde as potências expressivas dos indivíduos estão
mais aguçadas. Sua convicção se baseava na experiência: a começar pela primeira
fase de Cabra marcado para morrer em 1964, passando por trabalhos realizados na
década de 1970 para o Globo Repórter(Seis dias de Ouricuri e Theodorico,
imperador do sertão) e pelo reencontro com os camponeses que participaram da
segunda fase de Cabra marcado para morrer, em 1981, Coutinho conheceu o
Nordeste com o cinema.
Contudo, o que o cineasta realiza em O fim e o princípio, sem que tivesse
planejado, é explorar essa habilidade narrativa não para abordar as agruras do
dia a dia ou as tensões que também existem ali9, mas para conversar sobre a
vida e a morte, o fim do mundo, o temor de morrer, sobre o céu, o purgatório e
o inferno, e também sobre a origem e os sentidos da linguagem. Em outros
termos, o que ele investigou e estimulou, nos modos de falar e de expressar a
língua portuguesa dos velhos sertanejos, foram, sobretudo, as fabulações em
torno do fim e do princípio. Talvez porque sua saúde tivesse lhe dado, no
início da filmagem, um aviso contundente de que era preciso cuidado10, talvez
porque os personagens mais interessantes que ele encontrou no vilarejo tenham
sido os velhos, fato é que um filme inicialmente sobre "nada" revelou-se um
documentário em torno de uma dimensão metafísica da existência que, da maneira
como aqui aparece, ainda era inédita.
Em alguns momentos temos a sensação de estar em um vilarejo "fora da história",
atemporal, uma comunidade perdida do mundo, do Brasil, com personagens que
parecem figuras míticas da nossa memória popular (Mariquinha, com seu cachimbo,
parece saída de um conto de Monteiro Lobato; Leocádio tem ares de um
"messiânico sebastianista"11). Uma comunidade que alcançou também certa
tranquilidade, em que muitos casais vivem bem, os maridos ruins já morreram, as
piores secas fazem parte do passado, a solidão não pesa tanto, os velhos são
bem tratados. É essa ruptura com o "mundo prático" de Araçás que faz Coutinho
já começar a construir, intuitivamente, ainda em um espaço real, algo como uma
"cena" em que as coordenadas geográficas e sociais contam menos que as
interações com os personagens.
Em Jogo de cena, filme que Coutinho fará logo em seguida, a ruptura com essas
coordenadas é radical. A cena é instaurada desde o princípio pelo próprio
espaço escolhido por Coutinho, uma sala de espetáculos12, e várias outras
camadas de teatralidade vão sendo sobrepostas a essa primeira. Em O fim e o
princípio, é a própria filmagem e o modo como Coutinho se relaciona com os
personagens que recortará pouco a pouco o vilarejo real como "cena", criando o
que Ismail Xavier chama, referindo-se a Jogo de cena, de "uma ruptura entre o
mundo prático, extensivo em seu espaço-tempo, e os movimentos que o olhar põe
em foco"13. É a dinâmica de Coutinho, seu engajamento pessoal, que destaca um
"campo visível"14 em que os gestos e as palavras tornam-se elementos
fundamentais na consolidação de uma cena.
Eis um dos traços incomuns do filme: Coutinho parte ao encontro do
desconhecido, mas acaba por se posicionar fisicamente muito perto (o que, em
parte, é garantido pela mediação de Rosa). Outro, da mesma natureza: Coutinho
se abre ao movimento incerto do mundo, sem nenhum filme na cabeça, mas acaba
por repor e intensificar a "cena", tal como foi concebida, praticada e lapidada
em seu cinema, ou seja, centrada no interesse pela expressão de narradores (a
"realidade" local só aparecendo transfigurada nas narrativas).
LEOCÁDIO E A ORIGEM DA LINGUAGEM
Talvez o interesse de Coutinho por esse universo rural se associe à sua
intuição de encontrar naquele pequeno vilarejo, sem telefone e sem televisão
até pouco tempo atrás, algo como um "cerne" ou uma "fonte" da linguagem e da
força fabulatória dos indivíduos, assim como as graças específicas da língua
portuguesa, que ele tão bem captou em todos os seus filmes. E Coutinho encontra
na incrível conversa com o personagem Leocádio, para quem o cineasta é uma
espécie de "chefe das caravelas", "Pedro Alvares Cabral quando descobriu o
Brasil", uma visão de um tempo em que as palavras eram as coisas, em que todo
mundo falava a mesma língua, e de como as línguas diversas foram inventadas no
mito da Torre de Babel. "É tanta palavra em vão", diz, para em seguida
discorrer sobre as diferenças entre a "palavra certa" e a "palavra comum", "sem
futuro". Para Coutinho, o que Leocádio faz é "simplesmente" desenvolver, de
modo próprio, a teoria da língua adâmica, de Walter Benjamin, que supõe a
existência de uma língua originária, que nomeia as coisas do mundo de modo
justo. Leocádio evocaria "essa grande tragédia" pós-Babel, produzida pelo
desencontro entre palavra e coisa, "que enlouquece artista, enlouquece as
pessoas, que está no cotidiano, gera briga na feira, assassinatos, grande
poesia - porque a palavra não é a coisa"15.
Na pequena comunidade dos Araçás, Leocádio é, na definição de Rosa, um "metido
a sabichão porque sabe ler", um dos poucos dentre os velhos dali. Ao
reencontrar o cineasta ao final do filme, indaga sobre as crenças do diretor:
"O senhor crê em Deus?"; "Existirá Deus no céu?"; "O senhor acha que crer em
Deus é ilusão?". Coutinho é reticente: "complicado isso", "mais ou menos",
"seria bom", "não sei", "gostaria de saber". Não queria atrapalhar com uma
resposta direta ("sou ateu") a visão de mundo do personagem, por isso defendia,
nesses casos, um tipo de "mentira", que ele definia como "piedosa"16, que não
fazia mal a ninguém e permitia que a conversa não fosse interrompida.
Coutinho já havia explorado intensamente as relações entre religião e fabulação
em Santo forte,mas nesse documentário as misturas entre catolicismo, umbanda e
protestantismo são mais presentes. Os deuses e os espíritos habitam o dia a dia
da favela, são generosos, vingativos, compráveis, vulgares, piedosos,
companheiros, estão misturados à vida cotidiana. Em O fim e o princípio, as
falas expressam de maneira mais coesa um catolicismo popular brasileiro e
evidenciam um modo singular de se apropriar de narrativas cristãs de origem e
de fim do mundo. Se a vida concreta está, aqui e ali, implicada nessas crenças,
o centro das conversas, neste último filme, é a dimensão metafísica da
religião. Talvez para nos lembrar mais uma vez, nesse filme que investiga
princípios e fins, que foi primeiro nessas fabulações religiosas17 que se
manifestou a força ficcional existente em todos nós, nossas possibilidades
expressivas, e que a arte veio depois - ou talvez uma tenha saído da outra,
como nos lembra Leocádio: "A reza é quase uma poesia", conclui, no fim da
conversa com Coutinho.
MARIQUINHA: "COMUNIDADE DE EXPERIÊNCIA" E NARRAÇÃO
Expressões como a de Leocádio marcam as performances dos narradores em O fim e
o princípio. Elas constituem "ditos", fórmulas que sintetizam saberes passíveis
de transmissão, como que impermeáveis ao tempo. Na conversa com Mariquinha, a
primeira das personagens abordadas longamente pela equipe, aparecem alguns
exemplos: "apelido não vale nada", "reza não se vende", "Deus marca os dias de
nós viver e a hora de nós morrer". Com expressões assim, Mariquinha pontua
histórias pessoais e opiniões, remetendo escolhas individuais a um conjunto de
saberes, provérbios e pequenas normas compartilhados - a um só tempo narrando e
aconselhando. Personagem a personagem, os "ditos" se acumulam, o que nos faz
pensar que a força das narrativas no filme não resulta apenas do talento
individual, mas recorre a um substrato comum, a uma oralidade transmitida de
geração em geração, tal como numa "comunidade de experiência" (em sentido
benjaminiano)18. Nas conversas, aparecem também valores morais compartilhados e
transmitidos. É o caso da importância duvidosa do lucro diante da solidariedade
na pobreza, que ouvimos nas narrativas de Mariquinha, de Maria Borges (parteira
que aceitava como paga "o que eles pudessem me dar", dispensando os mais
pobres: "Deus é quem me dava"), e de Assis ("eu não dou valor à riqueza, dou
valor a um pobre como eu"). Caso também do saber "matuto", no dizer de Nato,
que envolve o conhecimento e o respeito à natureza e a todos os seres, como
apreendemos na linda relação entre Vigário e seu burrinho Lenço Branco ("nunca
abandonei um bicho").
Mesmo que Coutinho não participe dessa "comunidade", Mariquinha o inclui,
buscando concordância e cumplicidade. "Reza não se vende. . . Vende?", ela
pergunta, buscando firmar, com seu novo interlocutor, algum consenso. O mesmo
acontece quando Coutinho lhe pergunta sobre o temor da morte. Ela diz ter muito
medo e devolve a pergunta ao cineasta: "O senhor não tem não?". Depois de ouvir
a resposta ("Claro que sim!"), Mariquinha aquiesce com um jeito de corpo,
selando a cumplicidade entre eles com um "Ave Maria! Mas é o jeito, né?".
Essa dinâmica produz "conversas" no lugar de entrevistas, como se os
personagens sertanejos não "coubessem" em um tipo de dispositivo de conversação
em que seu papel seria apenas responder. Parte da graça do encontro com
Mariquinha se deve a esse lugar ativo assumido pela personagem, que responde,
mas também indaga, que não se satisfaz em apenas contar passagens de sua
história de vida, mas se atenta para a presença e o proceder das "visitas
diferentes" na sala de sua casa: "Esse homem é tão sério", comenta, referindo-
se ao técnico de som. "Donde ele é?". Instada por Coutinho, afirma não gostar
"de gente muito sério não", preferindo os "assim como o senhor", "tão
bonzinho", "gente de conversar, fofoqueiro". "Velho gosta de prosa. "
É notável ainda como as narrativas desses velhos sertanejos, e a de Mariquinha
em particular, compreendem não apenas a fala, mas toda uma gestualidade: "um
corpo que fala", no dizer de Coutinho19. Ao modo de uma narradora clássica20,
Mariquinha é mestra na arte dos gestos, marcando o ritmo de sua fala com
silêncios, substituindo palavras por palmas para criar não ditos e envolver a
imaginação do ouvinte, movimentando braços e mãos, de maneira precisa, para
transmitir com ênfase o que é dito. Ao especular sobre o encontro definitivo
com a morte, atua intensamente, valendo-se de elementos concretos presentes no
ambiente para se fazer compreender: "Quando chegar a hora [bate palma]. . .
Adeus. É como essa luz [aponta para cima], tudo alegre, botando isso e aquilo
[bate palma]. . . Fica no escuro"21.
CHICO MOISÉS: UM FILÓSOFO NO SERTÃO
Chico Moisés é o personagem que mais desconcerta Coutinho no filme - e talvez
em toda a sua trajetória de interação com personagens reais. "Nunca encontrei
uma pessoa assim, que me deixasse tão desarmado"22. De todos os personagens de
O fim e o princípio, é provavelmente o mais esquivo. Não é fácil nem
imediatamente simpático, reluta inicialmente em falar, é econômico nas
respostas e narra sem muito entusiasmo fragmentos de uma vida difícil -
infância dura, trabalho na roça contínuo, problemas de saúde. Até dar uma
resposta inesperada à pergunta: "Quantos filhos teve?", mudando, a partir desse
momento, o tom da conversa23. Começa a "jogar" com Coutinho. "Tem algum
sonho?", pergunta o cineasta. Chico Moisés faz uma pequena pausa e indaga: "Em
que significado 'sonho'?". "A pergunta é boa", observa Coutinho, talvez
identificando nela seu próprio método de entrevistar, em que é frequente a
formulação "explica isso para mim", mesmo diante de afirmações que nos parecem
bastante claras. Em Santo forte, por exemplo, uma personagem lhe diz ser ateia.
"Ateia? O que quer dizer ateia?". Era o seu modo de "estar vazio", de tentar
entrar na visão do outro não tomando nada do que é dito por já conhecido. Chico
Moisés age de modo semelhante, devolve as perguntas, relativiza o que ele mesmo
diz: "Ou não é assim?". "Capaz de ser", responde o diretor. Chico Moisés ri,
ironiza, fica sério e responde "coutinianamente": "Mas pode não ser, né?".
Coutinho se arrisca novamente: "O que o senhor acha do mundo?". "E o que é
mundo?", retruca Moisés, discorrendo em seguida sobre a sabedoria e a
genialidade, que "não vem só pela escrita, isso já vem da mente". Deseja
felicidade a Coutinho, tocando nele, e diz que ficou feliz falando com alguém
"sabido" - o cineasta devolve o elogio, dizendo que ele é "sabido" também.
Moisés não deixa por menos e pergunta: "Como assim?". Coutinho: "O senhor tem
umas ideias interessantes". "Que pena, né?", responde o personagem, "e o que eu
sei não disse, só fiz começar. [...] Mas é muito bom falar com uma pessoa
sabida. Tudo é sabedoria. Aí pegou essa matuto aqui conversando esse tipo de
coisa, mas eu não sei se sei, penso que sei, será que sei?".
Em reflexão posterior ao filme, Coutinho afirmou que Chico Moisés estava muito
mais seguro do que ele durante a conversa. "Estava mais ou menos nas mãos dele
[...] esse cara ganha de você, não tem solução [...] e o que me fascinava era
isso. "24
AS NARRATIVAS E O TEMPO
Com variações, o prazer de conversar marca as 15 visitas da equipe às velhas
casas de moradores do Sítio Araçás (em alguns segmentos, há mais de um
personagem em casa e em cena). Os "ditos" se multiplicam e por vezes se
repetem: "De tudo no mundo há, de tudo no mundo tem" (tia Dôra); "Tinha um
velho ali, ele dizia que onde tava o bem, tava o mal, os dois andavam juntos"
(Vigário); "A vida é um parafuso, só quem destroça é Jesus, no dia que chegar a
hora" (Assis); "Pense e veja bem: trabalhar pensando que não morre e rezar
sabendo que morre" (Nato); "O cabra que diz tudo que sabe fica besta" (Zé de
Souza) ou "Tudo que se sabe não se pode dizer" (Chico Moisés).
Recorrências também aparecem nas histórias de vida e de trabalho dessas
mulheres e homens: na roça, desde crianças até idade avançada, trabalhavam na
enxada, por vezes enfrentando a "emergência" da seca. "Mas eu achava tão bom!",
dirá Rita, como muitos outros, nostálgica dos tempos de trabalho. "Até hoje,
quando eu vejo cair chuva, ai meu Deus! Se Jesus renovasse a minha idade, para
eu trabalhar na roça. " Histórias de casamento, de viuvez, de tornar a
encontrar alguém (como Vigário e Antonia) ou ficar definitivamente só (como Zé
de Souza, surdo, viúvo há dois anos, que Coutinho encontra sentado sob um pé de
pau, onde passa seus dias); e muitos saberes e dizeres tradicionais: Zefinha e
Mariquinha são rezadeiras, Maria Borges é parteira, há no filme muito "saber
corrido", oposto ao "saber lido", como dirá Nato - ele que sabe ler os sinais
da água, em uma árvore, uma ave, no calor da atmosfera. "Saber corrido" que
Chico Moisés elogia, relativizando o que se aprende em "banco de colégio"
(Nato), pois sabedoria é "um dom" (Moisés). Já o "saber lido", distintivo entre
os velhos do sertão, é elogiado por Leocádio, orgulhoso de suas leituras da
Bíblia, dos jornais e almanaques, e dos "romances bonitos".
Mais um filme, como em boa parte da obra contemporânea de Coutinho, que tem na
cena do encontro e no procedimento da entrevista o seu cerne. Com a
centralidade dos atos de fala, outras imagens, quando surgem na montagem,
pungem-nos e adquirem relevo imediato. Nos intervalos dos encontros, O fim e o
princípio apresenta pequenas situações e vivências filmadas nos Araçás, cujo
papel, a nosso ver, é menos o de apresentar a localidade do que de sugerir uma
temporalidade. Quase sempre através de planos-sequências, alguns fazeres são
apresentados em sua duração: Geraldo, pai de Rosa, tange o gado; um grupo de
mulheres e crianças compõe uma pequena procissão que canta em louvor de Nossa
Senhora; Mariquinha acende demoradamente o cachimbo com uma lamparina, ao pé do
fogão de lenha; Zefinha, em dois planos de detalhe, fia o algodão, imagem que
parece cifrar, ganhando a força de uma metáfora visual, o caráter artesanal da
experiência sertaneja e da própria atividade de narrar.
Se não há no filme uma clara moldura temporal (como vemos em Santa Marta: duas
semanas no morro ou Babilônia 2000), algo do tempo da experiência marca a
película, presente nas narrativas dos velhos e evocado nos fazeres nele
inscritos. Importante notar também como, na dimensão processual do filme
(assumida como narrativa), cabe uma espécie de "epílogo" em que Coutinho se
despede de alguns personagens, o que indica que a equipe passou algum tempo
entre eles, no Sítio Araçás (no começo do filme, Coutinho fala em quatro
semanas). Nesses afetuosos reencontros, antes da partida do grupo, projeta-se
um horizonte de expectativa ("daqui a um ano"), quando voltarão para exibir o
filme pronto. A despedida é ocasião para se projetar neste futuro próximo, mas,
mesmo assim, tão incerto: "Daqui a um ano eu não sei se estou vivo" (Chico
Moisés); "Se eu não morrer, tô vivo!" (Nato).
Questões que marcaram as conversas, como a fragilidade da velhice e a iminência
da morte, retornam de maneira concreta e concentrada. A despedida pode ser
definitiva, evidência que pesa de maneira singular sobre o último encontro
(filmado) de Coutinho e Mariquinha: em um lindo enquadramento, parte do rosto
do cineasta aparece em campo, enquanto Mariquinha parece olhar no fundo de seus
olhos. Logo depois, apoiando o rosto em uma das mãos, ela abaixa os olhos
enquanto diz: "Deus queira que nós ainda se veja". Ao que ele aquiesce, agora
inteiramente fora de campo: "Isso".
[1] Palavra será seu último documentário e está sendo finalizado por Jordana
Berg, montadora de todos os filmes do cineasta desde Santo forte, e por João
Salles, cineasta e produtor de Coutinho.
[2] Entrevista de Eduardo Coutinho. "O real sem aspas". Filme Cultura. ed. 44,
1984.
[3] "Os fatos mudam, dependem do momento, do interlocutor. E, como tudo que se
diz com a palavra, depende do momento em que é falada. Por isso, considero que
quando estou filmando vivo um momento único, porque a palavra do outro é
provocada por minha presença com a câmera e a experiência narrada não é
exatamente igual ao que a pessoa viveu; e ela nunca vai dizer, nem antes nem
depois, a mesma coisa. Pode ser melhor ou pior, mas o mesmo ela não vai dizer"
[grifo e tradução do autor]. Ver "No quiero saber cómo es el mundo, sino cómo
está: una conversación con Eduardo Coutinho", de Maria Campaña Ramia. In: El
otro cine de Eduardo Coutinho. Quito: Corporación Cinememoria, Encuentros del
Otro Cine e Embaixada do Brasil no Equador, 2012. p. 163.
[4] Ver Comolli, Jean-Louis. "O desvio pelo direto". In: forumdoc.bh. 2010.
Belo Horizonte: Filmes de Quintal (Catálogo).
[5] O cinema de Coutinho compõe toda uma galeria de bons narradores, muitos
deles idosos. Lembremos da força expressiva de personagens como dona Thereza e
seu Braulino (Santo forte), dona Djanira (Babilônia 2000) e Luiza (Peões).
[6] Ver Wagner, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
[7] Afirmações extraídas do vídeo Grande sertão: veredas - Eduardo Coutinho
sobre Guimarães Rosa. Disponível em: <www.youtube.com/watch? v=BSOQ7wAdSF8>.
Nesse sentido, é interessante notar o movimento recente do cineasta, que
dedicou seu último filme a conversas com jovens estudantes do terceiro ano do
Ensino Médio de escolas do Rio de Janeiro.
[8] Coutinho, Eduardo. In: Lins, C. O documento de Eduardo Coutinho: televisão,
cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
[9] Como mostra a fala de uma das personagens cortadas da montagem final, mas
inserida nos extras do DVD. Trata-se de Maria de Chicute, que fala da sua
preocupação com a filha. O ex-marido, preso por assassinato, tinha saído da
prisão na véspera e esfaqueado o atual companheiro da moça.
[10] Por problemas de saúde, Eduardo Coutinho teve de interromper a filmagem no
sertão da Paraíba e voltar ao Rio de Janeiro para tratamento médico. O encontro
com a família de Rosa acontece nesse primeiro mo mento, antes da interrrupção.
Ao regressar a São João do Rio de Peixe, já havia definido o Sítio Araçás como
locação exclusiva.
[11] Expressão de Bezerra, C. "Um documentarista à procura de personagens". In:
Ohata, M. (Org.). Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 411.
[12] Ver os modos de construção da teatralidade em Xavier, I. "O jogo de cena e
as outras cenas". In: Ohata, M. (Org.), op. cit., p. 604-627.
[13] Ibidem, p. 609.
[14] Ibidem, p. 609.
[15] Coutinho, Eduardo. In: Na der, C. Eduardo Coutinho, 7 de outubro, 2013.
[16] Eduardo Coutinho em Visões do documentário: a entrevista como arte do
encontro no documentário, com Eduardo Coutinho, parte 11. Gravação da conversa
de Ilana Feldman com Eduardo Coutinho na Casa do Saber em abril de 2009.
[17] Para o filósofo Henri Bergson, tanto a religião como a arte são produzidas
por uma faculdade da natureza humana que ele define como "fabuladora", uma
disposição de fabular ativada no momento em que o homem se viu obrigado a
explicar o que lhe apavorava, o que lhe metia medo. As angústias suscitadas
pela certeza da morte fizeram com que essa aptidão do homem entrasse em
atividade e ele criasse crenças religiosas para apaziguá-las. Bastante
primitivas inicialmente, as manifestações foram se sofisticando, e a fabulação
produziu expressões religiosas tão complexas como a da Grécia Antiga. Nesse
caso, essa faculdade se exerceu com um prazer de arte. Bergson se atém
particularmente no aspecto religioso da faculdade, mas atribui a ela a invenção
posterior da literatura e outras formas de arte, afirmando sua presença em
todos nós, religiosos ou não, artistas ou não, em diferentes graus.
[18] Ver Benjamin, Walter. "O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai
Leskov". In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985. O
autor utiliza a expressão "comunidade de experiência" para caracterizar
situações em que o narrador de histórias e seus ouvintes partilham experiências
comuns.
[19] No documentário de Carlos Nader, op. cit.
[20] Benjamin, Walter, op. cit.
[21] Como dona Thereza (Santo forte) e outras narradoras presentes nos filmes
de Coutinho, Mariquinha ilustraria bem o que Walter Benjamin escreveu sobre a
"verdadeira narrativa". Nela, "a mão intervém decisivamente, com seus gestos,
apreendidos na experiência do trabalho, que sustentam de cem maneiras o fluxo
do que é dito". Benjamin, Walter, op. cit.
[22] Eduardo Coutinho em Visões do documentário: a entrevista como arte do
encontro no documentário, op. cit.
[23] Em vez de responder à questão, Chico Moisés retruca: "A mulher?" Coutinho
indaga o porquê de sua fala, e ele responde: "Porque foi ela que teve". "E você
não teve nada com isso?", devolve-lhe Coutinho. "Tive", responde sorrindo.
[24] Eduardo Coutinho em Visões do documentário: a entrevista como arte do
encontro no documentário, op. cit.