De volta a Hegel?: sobre Menos que nada, de Slavoj Žižek
É preciso coragem para dar a um livro de mil páginas o título Menos que nada.
Seu autor, SlavojŽižek, deve saber que a primeira tentação de qualquer
resenhista, mesmo antes de ler o livro, é pensar "apropriadamente intitulado".
O livro já inspirou resenhas depreciativas em publicações amplamente lidas,
resenhas que aparentam ser resenhas (e depreciações) do próprioŽižek (ou do
fenômenoŽižek, o SimbólicoŽižek), e que acima de tudo ignoram seu livro
volumoso. No entanto, ele escreveu uma tentativa séria de reanimar e
reatualizar Hegel (à luz da metapsicologia lacaniana e, portanto, em uma forma
que ele quer chamar de "materialista"). No limitado espaço disponível a mim, eu
gostaria de tentar resumir o que ele propôs e expressar alguns desacordos.
O problema da possível relevância de Hegel ante as preocupações contemporâneas
divide-se em duas questões e deve enfrentar imediatamente duas objeções que por
bastante tempo provaram-se profundamente persuasivas para muitos. Em primeiro
lugar, há a questão sobre o que pode ser dito a respeito do "sistema" de Hegel.
Ele é considerado expressão de um holismo hiper-racionalista, cuja afirmação
central é que o absoluto (algo parecido com o que Kant chamou de
incondicionado) é a Ideia, e tudo o que existe pode ser compreendido como uma
atualização, na natureza e pelo tempo histórico, da Ideia. (E, é claro, contra
Kant, ele está, com isso, pretendendo conhecer o que Kant negou que poderíamos
possivelmente conhecer.) Em segundo lugar, há a questão do Hegel
Versöhnungsphilosoph, "filósofo da reconciliação". Segundo algumas descrições
desse lado do projeto hegeliano, Hegel acreditou que nós teríamos chegado ao
"fim da história", tanto da filosofia (sua posição teria explicado de maneira
bem-sucedida todas as possíveis opções filosóficas e suas interconexões umas
com as outras) como da política, arte e religião. A liberdade humana teria sido
realizada no Estado moderno tal como descrito em sua Filosofia do Direito, no
humanismo protestante doutrinariamente tênue que Hegel defendeu e na arte
romântica, uma forma de arte em via de transcender a si mesma como arte,
realizando a arte de uma maneira que sinalizava seu fim como veículo relevante
do autoconhecimento humano. (A conexão entre os dois aspectos da posição
hegeliana é considerada sua teodiceia, o papel da autoefetivação do absoluto
[ou de Deus] no tempo que explica a racionalidade e culminância da história
política e intelectual.)
As objeções a ambas versões de Hegel e do hegelianismo são bem conhecidas. Há
um punhado de objeções ao holismo racionalista hegeliano de abordagens
empiricistas, científico-naturalistas e analíticas da filosofia (a versão
anglófona dessa escola iniciou-se famosamente com uma rejeição a Hegel). Porém,
na Europa, as objeções foram com mais frequência dirigidas ao racionalismo
intransigente e supostamente "totalizante" de Hegel: sua inabilidade, dizia a
acusação, de fazer justiça suficiente à particularidade concreta da existência
humana, àquilo que no indivíduo não pode ser reduzido a um conceito, ao papel
do irracional na motivação humana, à contingência nas mudanças históricas e aos
fenômenos de interesse para a psicanálise, como a repetição e a pulsão de
morte. Objeções à segunda dimensão são mais variadas e interessantes, porque
Hegel teve êxito em convencer até mesmo muitos de seus críticos (como os
"jovens hegelianos") de que a filosofia precisa ter uma tarefa de diagnóstico
histórico (ela tem de ser "o próprio tempo compreendido em pensamento"), mesmo
que muitos também rejeitassem a versão "idealista" de Hegel desse projeto e
suas conclusões sobre "onde estamos". Outros apenas apontam para o fato de que
ninguém teve êxito em escrever A fenomenologia do espírito, parte dois. O mundo
histórico que se desenvolveu depois de 1831 e do século XX não pode, presume-
se, ser compreendido de modo adequado em termos hegelianos, o mundo da
sociedade de consumo de massas, dos Estados pós-coloniais, do capitalismo
globalizado e, portanto, de Estados nacionais profundamente fragilizados, da
indústria cultural, da dependência endêmica da tecnologia em todos os aspectos
da vida, e assim por diante. Além disso, argumenta-se, não é possível estender
nem mesmo uma análise rudimentarmente hegeliana para tais fenômenos, sobretudo
fenômenos avessos à razão e inadmissíveis como o nazismo, o holocausto, os
crimes de Stalin ou uma China comunista cheia de bilionários1.
Em uma palavra, o objetivo ambicioso deŽižek é argumentar que essa última
caracterização de Hegel ataca um espantalho e que, quando nos damos conta disso
de maneira suficientemente detalhada, a pretensa ruptura europeia com Hegel,
nas críticas tais como as de Schelling, Kierkegaard, Nietzsche, Deleuze e dos
freudianos, parece muito diferente, com muito mais sobreposições do que
lacunas, e coloca à nossa disposição um diagnóstico histórico muito diferente
do triunfalismo normalmente atribuído a Hegel. (Uma das surpresas do livro é
que, apesar do seu tamanho, interessam aŽiž
ek mais os pressupostos teóricos de tal diagnóstico do que seus detalhes2.)
A estrutura do livro é incomum, baseada no adágio de que a segunda e a terceira
coisas mais prazerosas do mundo são a bebida antes e o cigarro depois.Žiž
ek nos oferece "a bebida antes", o contexto pré-hegeliano necessário para
entendermos a opção hegeliana (bastante atenção é dedicada ao Parmênides, de
Platão, ao cristianismo, à morte de Deus e a Fichte); "A coisa em si" (duas
vezes! uma com Hegel, outra com Lacan); e o "cigarro depois" (Heidegger,
Levinas, Badiou e um capítulo de conclusão sobre "a ontologia do quantum
físico")3. Como boa parte disso, especialmente as digressões incidentais sobre
budismo e a discussão sobre física quântica, para não mencionar as
complexidades de Lacan, está bem acima da minha categoria, me concentrarei, no
que segue, na interpretação de Hegel e as implicações que
Žižek dela retira.
***
Designemos o problema básico que o livro aborda como o problema ontológico da
"subjetividade"; o que é ser um sujeito pensante, cognoscente e também agente e
interagente em um mundo material?Žiž
ek alega haver quatro tipos principais de respostas possíveis a essa questão no
"campo ideológico-filosófico" atual: (i) naturalismo científico (neurologia,
darwinismo); (ii) historicismo discursivo (Foucault, desconstrutivismo); (iii)
"budismo" ocidental "Nova Era"; (iv) uma espécie de finitude transcendental
(culminando em Heidegger)4. A tese de
Žiž
ek é que essas opções deixam passar a correta, segundo ele, ideia de uma
"fissura ou ruptura pré-transcendental (para a qual o nome freudiano é
pulsão)", e que esse quadro efetivamente "designa o núcleo exato da
subjetividade moderna"5.
Isso significa que a discussão tem de prosseguir em um nível muito elevado de
abstração e requer um resumo complicado das posições básicas da "camarilha dos
quatro" (Kant, Fichte, Schelling e Hegel) queŽižek precisa ter sobre a mesa a
fim de apresentar o tema central que pretende discutir. Na linguagem
desenvolvida nessa tradição, naquele nível elevado de abstração, o problema é o
do status ontológico da "negatividade", não ser, aquilo que não é (ou não é
simplesmente a plenitude ou a presença do ser positivo). No sentido mais
simples, estamos tratando da consciência intencional, da percepção ou de juízos
empíricos, e do estatuto ontológico do agente. Desse ponto de vista, a
consciência não é um fenômeno completamente "positivo" (kantiana ou pós-
kantiana). Se fosse, seria semelhante a mero aparelho complexo de registro e
resposta (do mesmo estatuto ontológico de um termômetro). Mas um juízo empírico
sobre o mundo ("há um livro vermelho sobre a mesa") não é simplesmente
resultado direto de um episódio perceptivo. Não somos completamente absorvidos
pela presença do mundo, e esse "não" é o começo de todos os problemas alemães
queŽiž
ek quer rastrear a fim de chegar a uma interpretação própria. Ao fazer tal
juízo, "negamos" o caráter meramente imediato ou de "dado" do conteúdo
perceptivo, negando-o como imediato e supostamente dado, e assumo alguma
posição a respeito do que está ali6. E no agir não respondemos causalmente a
inclinações e desejos; aqui também não há plenitude de ser positivo.
Interrompemos ou negamos o ser meramente positivo (o que nos sentimos
inclinados a fazer, a experiência como intenção) pela deliberação e pela
decisão a respeito do que fazer. Nenhuma dessas inclinações pode ser
considerada motivo para uma ação, excetuando quando "incorporadas" a uma
máxima, à nossa uma política geral para ações desse tipo7. Portanto, quando
Hegel nos recorda no Prefácio à Fenomenologia do espírito que devemos pensar a
"substância" também "como sujeito", ele não quer nos fazer pensar o sujeito,
aparentemente, só como um atributo da substância ou uma aparência do que
permanece basicamente substância, ou um epifenômeno da substância8. Toda a
questão do idealismo especulativo é pensar a substância como "não apenas
substância", como negação da mera substância enquanto tal; e pensar o sujeito
como substância, como o que é "não apenas sujeito", mas é ainda, de toda forma,
substância. Um pedido e tanto. Inicialmente, a aproximação mais rente ao que
Žižek pretende é aristotélica: subjetividade (pensamento e ação conforme
normas) é o ser em ação específico (energeia, Wirklichkeit hegeliana) da forma
de vida biológica que é a substância humana. Isso no mesmo sentido em que
Aristóteles diz: se o olho fosse corpo, enxergar seria sua forma, seu ser em
ação específico. (Consciência espontaneamente mediada é o ser em ação
específico da substância humana, sua atualização.) Esse ser em ação é como essa
forma de vida substancial aparece, e não alguma atestação da Fissura que nega a
si mesma que é substância. (Isso está em desacordo com a leitura lacaniana
deŽiž
ek, como na página 229, inter alia)9.
A maneira comoŽiž
ek coloca a própria questão revela, portanto, uma orientação profundamente
schellinguiana no início e ao longo de todo o livro. (Isso não surpreenderá os
leitores de Tarrying with the Negative e The parallax view10.) Isto é, a
questão que essa observação levanta é: o que pode ser um sujeito que possui tal
capacidade de negação? E de forma ainda mais radical: o que o ser tem de ser,
de maneira que haja, ou possa haver, seres "positivos" e "negativos". Para o
jovem Schelling, isso conduz à conclusão de que a distinção entre tais sujeitos
e objetos não poderia ser uma distinção objetiva tampouco subjetiva, de modo
que o "fundamento" da possibilidade da distinção tem de ser um "ponto de
indiferença", nem sujeito nem objeto (dando ensejo ao famoso comentário de
Hegel, que custou a amizade de ambos, de que isso seria "a noite em que todos
os gatos são pardos")11. E na tradição que poderia ser chamada de
schellinguiana, pressuposto é há muito de que nem Kant nem Fichte tinham, nem
poderiam ter, uma resposta adequada a essa questão porque, para eles, "ser" é
"secundário" e não primário (um "fenômeno", ou um "não Eu" posto), e o
"Absoluto" é um tal sujeito "sem fundamento" ou putativamente (mas
impossivelmente) autofundado12. A questão interessante desde sempre é como
situar o Hegel maduro nesse campo de possibilidades13. Como já mencionado, para
Žiž
ek, aquela posição envolve um comprometimento com uma "fissura" ou "ruptura" no
ser. "O discurso (pressu)põe uma falta/buraco na ordem positiva do ser"14. "O
vácuo em nosso conhecimento corresponde a um vácuo no próprio ser, à
incompletude ontológica da realidade"15. O livro está repleto de formulações
desse tipo16.
Isso tudo tem profundas conexões com os problemas eleatas originais do não ser
(como podemos possivelmente dizer "o que não é" quando proferimos falsidades;
um problema porque aquilo que "não é" não é, é impossível); daí a atenção
contínua deŽižek à segunda parte do Parmênides, de Platão. Mas a versão alemã
do problema tem uma única e distinta dimensão e essa dimensão é o começo de meu
desacordo mais profundo comŽižek. Para enxergar o problema (ou para enxergar o
problema como eu o enxergo), consideremos aquilo a que Hegel chama nossa
atenção quando nos explica sua mais profunda conexão com Kant:
Uma das mais profundas e verdadeiras intuições da Crítica da razão
pura é que a unidade que constitui a essência do conceito é
reconhecida como a unidade sintética original da percepção, a unidade
do "eu penso", ou da consciência de si. Essa proposição é tudo o que
diz respeito à assim chamada dedução transcendental das categorias,
que, desde o começo, foi, no entanto, considerada a parte mais
difícil da filosofia kantiana [...]17
É por esse motivo - a natureza perceptiva do conceber, o fato de que conceber
seja aperceber - que a atenção perceptiva, o juízo, a ação ou qualquer
consciência intencional determinada, não pode ser compreendida simplesmente
como um estado mental (na plenitude ou positividade do ser, da maneira que nos
diríamos que um computador "calcula"), pois, ao perceber, também estamos
conscientes da percepção, conscientes nós mesmos percebendo. Quando acreditamos
em qualquer coisa, estamos conscientes de nossa crença, de nosso
comprometimento com uma crença. Quando agimos, não estaríamos agindo se não
estivéssemos conscientes do fato de estarmos agindo. (Uma ação não é algo que
ocorra, estejamos dela conscientes ou não, como água fervendo. Só é ação se
somos conscientes de nós mesmos quando agimos.)
Há dois complicadores dessa visão que necessitam de longa discussão, mas que,
aqui, só podem ser indicados. O primeiro: como Sebastian Rödl nota com
frequência em seu livro sobre a consciência de si, o que foi dito anteriormente
não deveria dar a entender, como a formulação talvez sugira, que há dois atos
da mente envolvidos18. Há apenas um. A ação é consciência da ação; não há
consciência a não ser que estejamos conscientes de nossa ação19. O segundo:
apercepção não é uma relação intencional de segundo grau. Não somos conscientes
de nós mesmos da maneira como somos conscientes de objetos (caso contrário,
haveria o risco de uma óbvia regressão). Pode-se dizer que somos conscientes de
objetos aperceptivamente ou de maneira autoconsciente; nunca que somos
conscientes de objetos e também conscientes nós mesmos como um segundo
objeto20. (Isso também é o porquê de o conhecimento de si de primeira ordem não
ser observacional ou inferencial [não é conhecimento de um objeto "desde sempre
lá"], mas constitutivo21. Sob todos os aspectos relevantes à minha identidade
prática [mas a nenhuma característica empírica], somos aquilo que admitimos ser
[professor, cidadão, liberal social-democrata]. Ou ao menos o somos
provisoriamente; também precisamos desempenhar o que admitimos ser, senão é
apenas uma confabulação ou um compromisso abstrato sobre o que faríamos. Em
linguagem
žiž
ekiana, não há si mesmo exceto como posto e desempenhado, e o aparente paradoxo
[quem está pondo?] não é paradoxo22.)
QuandoŽiž
ek trata a questão da apercepção em termos próprios23, nota quão implausível é
pensar que todo ato de consciência é um ato da consciência de si. Isso parece
empiricamente falso. Mas isso porque a questão diz respeito a dois atos,
consciência do objeto e consciência do sujeito ciente do objeto, e o
pressuposto mais importante do tratamento idealista da questão é que não é
assim. Há apenas um ato. Consciência de si não é consciência de um objeto. Nós
não precisamos de "virtualidade" deleuziana ou de uma ontologia da "atualidade
do possível" para dar conta disso. E não há ligação entre o tratamento dessa
questão por Kant, Fichte e Hegel e a ontologia negativa do próprio
Žiž
ek, sua afirmação de que "no limite, o que 'existe' é apenas a absoluta
Diferença, a Lacuna que rejeita a si mesma"24. O que existe, no sentido dessa
investigação, é um espaço das razões possível, no qual ingressamos por um
processo de socialização, e no interior do qual são possíveis autocorreção e
"autonegação" constantes.
Talvez isso já seja "informação demais" para um leitor interessado em comoŽiž
ek propõe-se oferecer uma versão renovada da dialética materialista e,
portanto, uma teoria crítica do capitalismo moderno tardio. Mas esse caminho
pelo idealismo alemão é o percurso que ele escolheu e é importante saber se sua
versão nos conduz corretamente. Sendo necessárias várias páginas adicionais
para demonstrá-la, o ponto da formulação anterior seria sugerir uma maneira
diferente de compreender o problema da "negatividade" nessa tradição, uma
maneira que não nos conduz a fissuras, vácuos e buracos no ser (ou a "Atos
infundados" na ausência do "grande Outro"). Eu não entendo direito as
afirmações a respeito de buracos na fábrica do ser, e nós não precisamos dessa
ideia se formos na direção que estou sugerindo. Pois, se aquela formulação da
apercepção está correta, nós estamos aptos a explicar a inadequação de
explicações psicológicas e naturalistas de tais estados sem uma ontologia
lacunar (no sentido, mesmo que não do mesmo modo, que Frege e o primeiro
Husserl criticavam o psicologismo sem uma ontologia "alternativa"). Se
acreditar é ser consciente do acreditar, então é impossível simplesmente
"estar" acreditando. Estar consciente de acreditar em algo é estar consciente
das razões para acreditar no que acreditamos (por mais fragmentárias, confusas
e desapercebidamente inconsistentes essas razões possam ser). Quando queremos
saber no que acreditamos, investigamos que deveríamos acreditar25. Essas razões
podem ser incompletas e nos levar a aceitar inadvertidamente determinadas
proposições, e muitas crenças são resultado do hábito e em larga medida
anteriores às reflexivas, mas nunca completamente. Em todo caso, sem conexão ou
sem possibilidade de conexão com um fundamento para a crença, seria apenas uma
posição que admito, não o que de fato acredito. O mesmo vale para a ação. É
constitutivo da ação que um agente seja capaz de responder à questão do "por
quê", e isso significa estar em condições de dar uma razão para a ação. (De
novo, o diálogo "por que você fez isso?" "Não sei, eu simplesmente fiz" não é
possível. Se é o caso, seu corpo pode ter se movido, mas você não fez nada26.)
Opiniões, cognições e intenções estão, portanto, no "espaço de razões" e
perguntar por, digamos, causas neuropsicológicas para esse estado é cometer um
erro categorial; é ter compreendido mal a questão; é oferecer algo que não
podemos usar. Tais causas são irrelevantes para as nossas razões (o "para si"
de qualquer desse "em si" na linguagem hegeliana) e para que um terceiro
compreenda as nossas razões, pois essas devem ser enunciadas e "sustentadas" em
primeira pessoa. Não é necessário recorrer a nenhuma fissura no ser; não mais
do que a possibilidade de as pessoas jogarem bridge, seguindo as normas do
bridge, e explorando estratégias para vencer, precisa nos comprometer com uma
ontologia lacunar incomum para explicar o fato de que somos capazes de jogar
bridge seguindo suas regras. Quem joga não apenas reage, mas, ao mesmo tempo em
que joga e realiza movimentos, "mantém aberta" a possibilidade de revisar sua
estratégia, desafiando alguém conforme as regras, e assim por diante. Seguir
uma regra é isso, e não a aplicação de leis27. Essa competência é possível
porque ela é definitivamente real, e isso significa que seres corporificados
materialmente são capazes de se engajar em práticas complexas de seguir regras
cuja explicação não é aprofundada pela referência às suas propriedades
neurológicas. (Em sua Fenomenologia, a formulação de Hegel dessa espécie de
negatividade lógica é que a consciência está sempre "para além de si mesma" e,
por essa razão, ele frequentemente caracteriza a consciência como uma
autonegação28.)
Agora, é possívelŽiž
ek dizer que apenas isso, que essa possibilidade de responder a normas, na
medida em que é uma capacidade incorporada materialmente não explicável em
termos materiais, é simplesmente a fissura ou o vácuo que ele quer atribuir à
ontologia de Hegel "mais que material, sem ser imaterial"29. Mas isso parece
muito anódino para o que ele quer dizer e para a conexão que ele quer fazer com
Lacan. Pois, nessa maneira de ver a questão, não há necessidade de uma
ontologia negativa paradoxal. É possível e importante que algum dia
pesquisadores venham a descobrir por que é que animais com cérebros humanos
podem fazer esse tipo de coisa e animais sem cérebro humano não, e alguma
combinação de astrofísica e teoria da evolução será capaz de explicar por que
eles têm esse cérebro. Mas esses não são problemas filosóficos nem tampouco
geram problemas filosóficos30. (Os problemas são: o que é uma razão convincente
e por quê? Sob quais condições as razões que as pessoas oferecem para o que
fazem são "suas" razões, razões e princípios com os quais podem genuinamente se
"identificar"31?)
Dito de outro modo,Žiž
ek está certo ao notar a importância do deslocamento do jovem Hegel para o
Hegel maduro, que envolve em seu cerne a conscientização de Hegel que a
"lógica" não seria uma preparação para a "metafísica", mas que a lógica seria
metafísica. Isso, porém, significa que uma consideração do ser em sua
inteligibilidade é a única espécie de metafísica possível (ser é ser
inteligível, algo como o motto da filosofia grega e, portanto, do começo da
filosofia)32. Mas isso também significa que o "movimento" de Hegel na
Enciclopédia, de uma "lógica da natureza" para uma "lógica do Geist", não tem
nada que ver com um "materialismo evolucionista"33. A metafísica de Hegel é uma
lógica, e a inteligibilidade da natureza, falando bem casualmente, "se esgota"
a determinada altura, e é incapaz de, em seus próprios termos, dar conta das
atividades complexas regidas por normas de que seres materialmente
corporificados são capazes. Essa não é uma capacidade nova, não natural, que
emerge no tempo; ela emerge a partir de uma consideração sistemática dos
recursos de inteligibilidade disponíveis, ainda que limitados a explicações
científico-naturais.
Há uma explicação fenomenológica de Hegel do contexto em que seres orgânicos
materialmente corporificados, seres vivos com um mínimo de autorrelação (um
sentimento de si necessário para a preservação da vida) podem ser imaginados
interagindo de um modo que "para eles" transcende a mera autoconservação, um
"movimento" que não pode ser compreendido como um movimento das atividades
intencionais da mera vida animal. Essa é a famosa explicação no capítulo IV da
Fenomenologia do espírito, de 1807. O problema é imaginar tais seres vivos
lutando, talvez por recursos, até a morte se necessário, quando é introduzida a
possibilidade da indiferença de um participante em relação à própria vida a
serviço de uma demanda de ser reconhecido (uma norma "não natural"), quando o
que se demanda não é mera submissão, mas compromisso, uma admissão do direito
do outro. O "espírito" emerge dessa contestação social imaginada, daquilo que
nós venhamos a demandar um do outro, não nos interstícios do ser. Essa é uma
explicação fenomenológica (como é ser e vir a ser Geist), e não enciclopédica,
mas ela também introduz a explicação hegeliana de razão. Vemos que ela não deve
ser entendida como mera capacidade para cálculo ou meramente estratégica, mas
como uma prática sócio-histórica, o que Brandom chama de "jogo de dar e pedir
razões"34, e introduz a questão central da narrativa histórica de Hegel:
estamos nos tornando melhores na justificação de nós mesmos uns para os outros,
ou não?35
Podemos ver que essa explicação não é a direção deŽiž
ek em seu tratamento detalhado de Fichte36.
Žiž
ek acompanha de perto a explicação de Fichte nos recém-publicados seminários de
graduação de Dieter Henrich em Harvard nos anos 197037, e isso cria dois
problemas38. Em primeiro lugar, Henrich confunde o problema da consciência
aperceptiva na experiência e na ação com o problema da autoidentificação
reflexiva: como encontrar e identificar meu ser único. Esses são dois problemas
diferentes; não há qualquer indício de que Fichte os tenha confundido, e há
abundância de evidências de que ele estava atento à diferença39. Em segundo
lugar,
Žižek aceita a acusação de Henrich de que Fichte confundia oposição "lógica"
com oposição "real", alternando uma e outra, e, portanto, não podia oferecer
uma explicação satisfatória sobre a relação do Eu com o não Eu. Mas Fichte foi
bem claro sobre a diferença e seus comentários acompanham de perto os
comentários feitos acima sobre o status do normativo em Kant e nos primeiros
idealistas. Uns poucos exemplos devem bastar. Eis Fichte em um típico enunciado
de princípios gerais:
A contenda básica do filósofo é a seguinte: ainda que o si possa
existir apenas para si mesmo, surge necessariamente para ele, de
imediato, uma existência externa a ele; o fundamento dessa jaz
naquele e é por meio dele condicionada; consciência de si e
consciência de algo que deve ser - não nós mesmos - estão
necessariamente ligadas; mas a primeira deve ser considerada um fator
"condicionante", e a segunda condicionada40.
Mas ficamos sem saber o que "condição" quer dizer e, especialmente, como ela se
relaciona com o termo-chave, "pôr" (setzen), o pôr do nicht-Ich [não Eu].
Quando tenta explicar o que quer dizer, contudo, Fichte reverte para a
linguagem da "autonomia do normativo" invocada acima. Das "Introduções para a
Wissenschaftslehre", de 1797:
Qual é, afinal, em poucas palavras, o conteúdo geral da Doutrina da
Ciência? É este: a razão é absolutamente autossuficiente; ela existe
por si. Mas nada existe para a razão exceto a própria razão. Por
conseguinte, o que tudo que ela é deve estar fundado nela própria e
deve poder ser explicado a partir dela e não a partir de qualquer
coisa que lhe seja exterior, porque ela não pode sair de si sem
renunciar a si mesma. Resumindo: a Doutrina da Ciência é o idealismo
transcendental41.
Da "Segunda Introdução" para a Wissenschaftslehre (nova methodo), traduzida
para o inglês por Foundations of transcendental philosophy: "O idealista
observa que a experiência não é nada senão a ação de um ser racional".
E, em seguida, uma explicação a respeito do "ponto de vista do idealismo":
O idealista observa como devem vir a existir coisas para o indivíduo.
Portanto, a situação é diferente para o indivíduo [observado] em
relação ao filósofo. O indivíduo é confrontado com coisas, homens
etc. que lhes são independentes. Mas o idealista diz: "Não existem
coisas fora de mim e presentes independentemente de mim". Embora
ambos digam coisas opostas, eles não se contradizem. Pois o
idealista, do seu ponto de vista, revela a necessidade do ponto de
vista do indivíduo. Quando o idealista diz: "fora de mim", ele quer
dizer "fora da razão"; quando o indivíduo diz a mesma coisa, ele quer
dizer "fora de minha pessoa"42.
Ou, em uma formulação ainda mais concisa retirada das notas de Fichte: "o Eu é
razão"43.
Essa autossatisfação racional é algo que só podemos "procurar" infinitamente de
acordo com Fichte; no entanto, a questão maior é a que importa para a leitura
deŽižek e diz respeito à ligação necessária entre o caráter consciente de si da
experiência e da ação, compreendida desse modo, e a razão, uma norma que não
desempenha papel proeminente na explicação schellinguiana deŽižek. (O outro
tema hegeliano que não desempenha maior papel paraŽižek é o da sociabilidade,
Geist, e os temas a ele relacionados, como tentarei mostrar na próxima seção.)
A condição do ateísmo moderno significa paraŽižek, em termos lacanianos, que
não há nem pode haver mais nenhum "grande Outro", nenhum fiador da
possibilidade sequer de qualquer resolução do ceticismo normativo e de
conflitos. Mas nenhum fiador transcendental não é a mesma coisa que nenhuma
confiança possível na racionalidade de nossas deliberações e de nossas
demandas. Mesmo uma posição (como, digamos, a de Nietzsche) que sustenta que a
maioria dos apelos conscientes a razões são sintomas, que a verdadeira razão
jaz em outro lugar (não foi o caráter virtuoso do escravo, mas seu
ressentimento, que motivou sua submissão), está comprometida com essa ligação.
(O ressentimento é a sua razão, tida por ele - em autoengano - como
justificativa para a ação, submissão, e condenação moral do Senhor; de outro
modo não haveria satisfação no que ele faz). Pretender algo ou fazer algo é
dispor-se a dar razões para a pretensão ou para o feito, e se existem razões
para rejeitar as razões ou para rejeitar a pretensão de sinceridade, nós ainda
estamos no interior do espaço das razões, de onde não podemos sair. Uma
consequência imediata: a primeira sentença da conclusão deŽiž
ek ["A suspensão política do ético"] - "O que a inexistência do grande Outro
indica é que todo edifício ético e/ou moral tem de estar fundado em um ato
abissal, que é, no sentido mais radical que se possa imaginar, político" - não
faz nenhum sentido no contexto hegeliano. Algo entendido por um agente como um
ato "abissal" é uma ilusão, o pathos do heroísmo fajuto e autoengrandecedor, e
o gesto pertence ao zoológico hegeliano com a Bela Alma, o Cavaleiro da Virtude
e, especialmente, o Delírio da Presunção44. E se o ato é "abissal", então a
"política" significa apenas "poder", poder sustentado por nada a não ser
decisão e vontade, igualmente contida por nada, a não ser decisão e vontade.
Para ver a relevância, pelo contrário, da conexão entre consciência de si e
razão para o projeto deŽižek, nós precisamos nos voltar para sua longa e
explícita discussão sobre Hegel.
***
Nesse sentido, a virada pós-hegeliana para a "realidade concreta,
irredutível à mediação conceitual", deveria ser lida de preferência
como uma desesperada vingança póstuma da metafísica, como uma
tentativa de reinstalar a metafísica, ainda que de uma forma
invertida da primazia da realidade concreta45.
Palavras mais verdadeiras jamais foram ditas em nome de Hegel. Ao explicar essa
afirmação,Žižek levanta pontos relevantes sobre Hegel. Por exemplo, uma das
coisas mais curiosas sobre a posição básica de Hegel é que ela pode resumida
pela afirmação de que não há em sua filosofia uma posição positiva e
independente. Ela consiste, antes, na correta compreensão das outras posições
logicamente possíveis.Žiž
ek capta esse aspecto de Hegel de maneira corretíssima46 e diz coisas úteis
sobre suas implicações. Além disso, o interesse de
Žižek em Lacan o conduz para três outros aspectos de Hegel, que são bem
importantes, embora frequentemente negligenciados tanto nas interpretações
convencionais (o queŽižek chama de "apostila") como em reconstruções
contemporâneas mais "atuais". Essa é a dimensão, em primeiro lugar, da
"retroatividade" ou "retardamento" (Nachtråglichkeit), ou o queŽiž
ek descreve corretamente como a insistência de Hegel na lógica de um feito,
pretensão ou evento do qual pode se dizer, retroativamente, que ele "põe seus
pressupostos". (O significado de um sonho é constituído pelo relato; não é
"recuperado". Um trauma torna-se o trauma que ele é retroativamente, por meio
de sua interrogação.) Em Hegel, a noção é mais importante em sua explicação de
descrições de ações e intenções. Não há causa retroativa literal; o que fizemos
e por que fizemos torna-se o que são apenas depois do fato (depois de
percebemos o que nos comprometemos a fazer; o que os outros reconhecem, ou não,
como o que fizemos)47. Em segundo lugar, em uma afirmação parecida,
Žižek leva bem mais a sério do que a maioria dos outros comentadores a tese
incomum e a princípio paradoxal de que o espírito tem de ser entendido como um
"produto de si mesmo". As discussões deŽiž
ek sobre esses tópicos vão, a meu ver, ao ponto e são valiosas48. Além disso,
por ele fazer justiça a esses temas, especialmente o último, ele pode, em
terceiro lugar, rejeitar a imagem da ação histórica hegeliana tão familiar ao
criticismo da Teoria Crítica, especialmente entre Adorno e adornianos. Essa é a
imagem do Geist externalizando a si mesmo em seus produtos (sua "autonegação"),
com isso alienado deles, até ele poder "voltar a si mesmo" em sua
externalidade, negar essa alteridade, e assim reconciliar-se com si mesmo em
uma identidade de si suspendida49 (a negação da negação). Essa é, portanto, a
imagem de Hegel como "a grande bocarra narcísica devoradora", devorando e
negando a alteridade em um projeto maluco de se tornar tudo, a caricatural e
grosseiramente injusta imagem tão apreciada por Adorno em seu desprezo de Hegel
como o epítome do "pensamento da identidade"50. No entanto, por mais certo que
ele esteja em rejeitar essa caricatura, o retrato do próprio
Žižek me parece ser por demais influenciado por seu próprio retrato de Lacan
(para não mencionar o Schelling intermediário) e, portanto, em meio a essas
possibilidades bastante abstratas, não deixa a verdadeira alternativa hegeliana
emergir, especialmente no que diz respeito ao problema da razão (o "grande
Outro" de Hegel) e a sociabilidade (eticidade, outra versão do grande Outro
hegeliano, "razão realizada").
Podemos resumir esse problema Hegel-Lacan relembrando a extraordinária
afirmação de Hegel (e, alguém poderia dizer, lacaniana) de que o Geist é uma
"ruptura" ou "ferida", mas autoinfligida (i.e., é um resultado; não um rasgo
ontológico no tecido do ser enquanto tal), e que o Geist pode curar, sem deixar
"cicatrizes"51. (Um pensamento de modo algum freudiano. Muito mais precisa ser
dito sobre a noção hegeliana de reconciliação do que seria possível aqui.) Mais
genericamente, ingressar no domínio da significação, no espaço do sentido, é
para Hegel necessariamente ao mesmo tempo entrar no espaço das razões por conta
do caráter profundamente social dos significados: circulam em uma economia
social mais ampla, uma economia sempre de pretensões, rejeições, contestação,
lutas e resoluções (feridas autoinfligidas), não apenas uma economia pessoal ou
libidinal. E essa é uma economia profundamente histórica, uma economia não
capturável em uma metapsicologia mítica/arquetípica limitada a uma ontogênese
primordialmente individual52.
***
Isso nos leva, em outras palavras, à questão mais prática e "crítica", tal
comoŽižek a coloca, sobre "como ser hegeliano hoje em dia", se é possível e
quais as implicações da interpretação deŽižek do conceito que ele coloca no
centro do hegelianismo - uma realidade fenomenológica "autonegadora" ou
"lacunar". Com tal ontologia como pano de fundo, a filosofia deve ser o próprio
tempo apreendido no pensamento. Nosso tempo ainda é o tempo do capitalismo
burguês e suas instituições centrais: propriedade privada, repúblicas
comerciais, instituições jurídicas baseadas nos direitos individuais, a
privatização da religião e o ideal de tolerância religiosa, amor romântico,
casamentos baseados no amor, famílias nucleares, e a (suposta) separação entre
Estado e sociedade civil. O que a "compreensão de pensamento" - nesse caso,
pensamento "dialético" - "compreende"?
Um ponto de partida geral para esse hegelianismo partilhado porŽižek e a
maioria dos "hegelianos": comprometimento com a historicidade das normas, mas
sem relativismo histórico, tal como se estivéssemos presos dentro de suposições
específicas de onde não somos capazes de sair. O "universal" para Hegel - cujo
nome mais claro seria "liberdade" - é sempre acessível de algum modo, mas como
"universal concreto", um universal modulado por tempo e lugar, parcial e
incompleto, requisitando interpretação e reinterpretação e progressão
dialética. Por exemplo, se quisermos entender por que a divisão sexual do
trabalho tornou-se uma norma de muito menor credibilidade no último terço do
século XX, e exclusivamente nas repúblicas comerciais do Ocidente
tecnologicamente avançadas, adotamos uma perspectiva hegeliana quando nos damos
conta de quão implausível seria insistir que a injustiça de tal princípio da
divisão do trabalho, e as razões para rejeitar essa prática, estava disponível
desde o começo das tentativas humanas de justificar suas práticas, e foi
"descoberta" em algum momento do começo do século XVII. E, no entanto, nosso
compromisso com essa rejeição é bem mais forte do que "um novo desenvolvimento
de como levamos as coisas". A prática passada é irracional e injusta, por mais
historicamente enraizado que o "apelo" de tal pretensão seja.
Žiž
ek propõe defender um Hegel para quem qualquer afirmação da racionalidade
histórica (como essa) seja sempre retrospectiva, nunca prospectiva e preditiva,
e considerando esse Hegel "aberto", ele está certo. (Muito frequentemente passa
despercebido que a famosa afirmação de Hegel de que a coruja de Minerva só alça
voo ao alvorecer, que a filosofia pode começar a pintar com sua paleta apenas
quando uma forma de vida envelheceu, significa que ele está anunciando que a
forma de vida "compreendida pelo pensamento" na Filosofia do Direito já
envelheceu, está morrendo, e apenas por conta disso pode ser compreendida. Não
é a imagem que alguém proporia se estivesse tentando nos convencer de que
chegamos a uma utopia da realização da razão53.) Além disso, a dimensão
retrospectiva é bem importante. Somente depois da influência histórico-mundial
do cristianismo, a filosofia grega passou a parecer incapaz de oferecer os
recursos para explicar aquilo que por fim se tornou a "interioridade cristã",
ou subjetividade, e portanto uma visão muito diferente da ação. Não há nenhum
Espírito do Mundo controlando as marionetes nesse quadro.
Mas a alternativa à "sombra de materialismo dialético" tem de ter certo
"idealismo dialético". Isso significa que não existem "contradições
materiais"54. Contradições resultam de auto-oposições em uma ação ou prática
dirigida por um sujeito. Isso pode acontecer na forma de "contradições
performativas" em um ato de fala ou contradições práticas em meio à ação.
(Hobbes nos confere um ótimo exemplo da última: no estado de natureza, o
resultado da soma de todas as ações otimamente racionais do ponto de vista
individual - o ataque mútuo preventivo - é o pior possível. Os agentes
contradizem a si mesmos ao agir de modo racional.) Pela suposição da existência
de uma subjetividade coletiva (Geist), podemos mostrar que algumas práticas
institucionais de uma forma de vida "contradizem", pelos meios que escolhe
racionalmente, os fins gerais perseguidos de maneira genuína pela mesma
sociedade. E isso depende daquilo que se pode ou não mostrar; se pode ser dito
de uma forma social subsequente que ela atinge exitosa o que uma forma social
anterior estava buscando, ou não: ou seja, negação determinada, crítica
interna, todos os desideratos hegelianos. (A divisão sexual do trabalho veio a
ser entendida como inconsistente com o ideal já existente de igual proteção
legal [igualdade perante a lei] e mobilidade social meritocrática, em um tempo
em que mudanças na tecnologia da produção e a necessidade de muito mais
trabalhadores no melhor período de prosperidade econômica na história tornaram
isso possível.)
Porém estaríamos suficientemente longe da forma histórica particular ("morta")
da sociedade burguesa que Hegel acreditou ter compreendido, e poderíamos
afirmar que nossa própria forma de vida está "envelhecendo" (ou se tornando
disfuncional) perante nossos olhos, a ponto de podermos perguntar: qual é a
explicação hegeliana do colapso da distinção entre Estado e sociedade civil
para ele tão crucial, a desintegração dos Stånde, ou estamentos, central para
sua explicação da participação política, a emergência das sociedades de consumo
de massa completamente dessemelhante a qualquer coisa na filosofia política de
Hegel, as mudanças na tecnologia bélica que tornaram suicida a noção de uma
guerra ocasional para nos chacoalhar de nossas complacências prosaicas (para
não mencionar o fim dos exércitos voluntários), a criação de um sistema
financeiro globalizado que torna obsoleta até mesmo a noção de "proprietários"
de meios de produção, e assim por diante?
A resposta deŽižek não é surpreendente e levanta a maior de todas as questões,
e que me parece insatisfatoriamente abordada. Como tantos outros,Žiž
ek quer dizer que a sociedade burguesa é fundamentalmente autocontraditória, e
eu tomo isso como significando "irreformável". Nós necessitamos de uma ordem
ética completamente nova e isso significa "o Ato". A pretensão de racionalidade
daquela sociedade é minada pela existência de um particular meramente
contingente, um testa de ferro no topo, o monarca55. E, seguindo muitos outros
autores,
Žižek admite que a aporia do "populacho" (der Pöbel) de Hegel, aparentemente
uma subclasse permanente dos pobres, é outra marca da irracionalidade
fundamental da imagem hegeliana da eticidade (Sittlichkeit) moderna.Žiž
ek concorda com a análise de um autor recente, Frank Ruda, e diz que Ruda "tem
razão de interpretar as curtas passagens de Hegel sobre o populacho em sua
Filosofia do Direito como um ponto sintomático de sua filosofia do direito como
um todo, quiçá de seu sistema como um todo"56. Em outros contextos,
Žižek afirma que a cultura secular moderna e o capitalismo tardio produzem seu
oponente, o fundamentalismo evangélico, por exemplo, para o qual não há
Aufhebung, nenhum retorno a uma forma elevada da política burguesa e do
capitalismo reformado. (Tudo isso da maneira lacaniana em que o que é reprimido
é "criado" pelo próprio ato da repressão.)
Se esses interlúdios relativamente breves provam que a sociedade burguesa e o
sistema capitalista de produção são na essência contraditórios (mesmo no
sentido idealista esboçado acima), para os quais, portanto, apelos para reforma
seriam tão absurdos quanto seria para Hobbes reivindicar permanecer num estado
de natureza "reformado", é um tópico muito amplo para a presente discussão. Mas
se a norma básica de tal sociedade é, de acordo com Hegel, algum estado
institucionalmente seguro de status igualitário de reconhecimento, com atenção
política direta às condições materiais (familiares, culturais e econômicas)
para essa igualdade, ou alguma ideia igualitária de liberdade (ninguém pode ser
livre a menos que todos o sejam), eu não vejo razão para concordar comŽiž
ek. O fato de haver uma vontade política cada vez mais fraca, por exemplo, nos
Estados Unidos em favor de qualquer atenção ao bem comum (mesmo escolas
públicas estão se tornando alvo de uma extrema direita cada vez mais poderosa)
é muito provavelmente uma patologia que precisa de explicação57. Talvez nós
precisemos da ajuda de lacanianos para fazê-lo (apesar de Hegel se dar por
satisfeito com meramente apontar o risco e a irracionalidade dos nacionalistas
românticos de seus dias), mas esse grande sonho dos sociais-democratas de todos
os lugares - "Suécia 1960!" - não parece ser algo que inevitavelmente produza
sua Desrazão irracional e irreconciliável, ou seu Outro. Mais advogados para os
pobres no Texas, creches acessíveis, sistema de saúde universal, menos porta-
aviões, maior controle dos trabalhadores sobre as próprias condições de
trabalho, bancos regulados, quiçá nacionalizados, são extensões razoáveis desse
ideal burguês, por mais doente, e com frequência até mesmo tresloucada, em que
a sociedade moderna burguesa tenha se tornado. (O caso Citizens United não foi
um resultado logicamente inescapável da lógica capitalista. Ele foi o resultado
do desvario de vários juízes lunáticos. Nós somos a única democracia
capitalista avançada na Terra que permite suborno legítimo.) Mas isso são
tópicos para outro contexto (e um palanque). Encerro com uma reflexão no
espírito
žižekiano.
***
Žiž
ek oferece duas imagens, uma literária e outra cinematográfica, para nos ajudar
a entender a ginástica dialética envolvida em sua tentativa de reatulizar Hegel
para propósitos contemporâneos. A primeira diz respeito ao problema da
"reconciliação" hegeliana, e o exemplo é o misterioso e comovente final do
romance Desonra, de J. M. Coetzee58.
Žižek invoca a estrutura básica que ele usa ao longo de todo o seu livro a fim
de tornar a "negatividade" inteligível. David Lurie parece ter negado o status
quo, o grande Outro da prudência, a confiança na polícia, a crença na
responsabilidade dos indivíduos por seus atos e na obrigação de corrigirem
malfeitos a outros (justiça), porque se deu conta da inadequação dessa fé ante
a realidade vigente na África do Sul pós-apartheid. Tudo isso é "negado" por
meio de ele simplesmente fazer tudo o que está ao seu alcance para minimizar o
sofrimento de cachorros sacrificados, satisfazendo-se com o gesto de se
responsabilizar por uma morte digna. Isso, infelizmente, não é exatamente um
caminho para a reconciliação. Ele parece ter aceitado a aquiescência culpada de
sua filha em relação à cumplicidade de seu vizinho em seu estupro e
internalizado isso de seu modo, como o preço que alguém tem de pagar para
continuar a viver com alguma "dignidade ética" (expressão deŽiž
ek) na África do Sul. No mundo de inexorável cumplicidade nos crimes sul-
africanos, a perda de tudo é uma "aposta" de que "essa perda total seja
convertida em algum tipo de dignidade ética"59.
Porém as alegações deŽiž
ek de que "falta alguma coisa" nesse desfecho, algum gesto de insubordinação e
revolta que pudesse ser chamado de "negação dessa negação", algum "um gesto
repetitivo e quase imperceptível de resistência [...] uma pura figura da pulsão
morta-viva"60, ou seja, uma Versagung, uma recusa, da negação inicial, ou
primeira negação, que não nos faria retornar para o status quo ex ante, mas que
originaria a realização do "estatuto fantasmático do objeto a (a moldura
fantasiosa que sustentava o desejo do sujeito), de modo que a Versagung, que se
iguala ao ato de atravessar a fantasia, abra espaço para a emergência da pura
pulsão para além da fantasia [...]"61. A resposta natural a essa sugestão é que
qualquer gesto que satisfaria o que
Žižek procura pressuporia que tudo relacionado à posição original de David era
uma "moldura fantasiosa", que não existe um grande Outro, e ao nos
desvencilharmos dessa desilusão estaríamos em uma posição de abrir esse espaço
para a emergência de uma pulsão "pura" para além da fantasia. Mas isso,
justamente esse último preceito, soa como a própria fantasia romântica original
de David: ser um servo byronista de Eros que pode ver através da hipocrisia e
da falsa moralidade convencional do grande Outro. Essa é a fantasia da qual ele
se desvencilha, porque seu gesto de generosidade completamente simbólica é a um
só tempo tão afirmativo e dignificante quanto patético e limitado. Não existe
um gestožižekiano de insubordinação porque David viu através do perigoso
autoengano de presumir que ele é "aquele que deveria saber". Seu auxílio a Bev
em submeter os cachorros à eutanásia e cuidar de seus restos mortais se dá de
um modo diferente daquele esperado porŽižek - uma "negação da sua primeira
negação", uma recusa da mera aceitação de seu destino e do destino de sua
filha. No último gesto do romance, ele "desiste" do cachorro que Bev esperava
que ele salvasse, da mesma forma como se "entregou" ao seu destino e não o
sofreu meramente. Por fim, dito de outro modo, não há nada mais não hegeliano
do que a ideia da "emergência da pura pulsão para além da fantasia". O gesto de
David significa que ele permanece o sujeito de suas pulsões, e não sujeitado a
elas. A ideia de pulsões "puras" (de qualquer coisa "pura") pertence ao
zoológico hegeliano mencionado anteriormente.
O segundo exemplo é do mesmo modo interessante. É Um corpo que cai, de
Hitchcock. Aqui a ideia de uma negação, e de uma negação da negação, é mais
fácil de rastrear. Scottie perde Madeleine, ou a mulher que ele pensava ser
Madeleine; ela morre. Mas tudo não passou de um complô de Elster para matar a
sua mulher. Madeleine não era Madeleine, mas Judy, uma mulher simples que
Elster alistou para o complô. Quando Scottie descobre tudo isso, pode-se dizer
que ele perdeu a própria perda, perdeu o significado de sua primeira perda. Ele
não perdera Madeleine porque Madeleine era Judy. Ele descobriu a verdade
amargamente irônica de que a mulher que ele estava tentando "disfarçar" para
parecer uma falsa Madeleine era (é), na verdade, a Madeleine real, uma vez que
sua Madeleine original era uma farsa. Assim, como em Desonra, o final ambíguo
é: Scottie contemplando "o fundo do abismo", olhando para baixo onde Judy havia
caído, ou um homem arruinado, desvencilhado de todas as idealizações e
fantasias que sustentam o amor, ou um "novo" homem, libertado de suas ilusões e
reconciliado com esse novo realismo.Žižek faz uso dessa estrutura para sugerir
uma limitação por meio de uma "negação da negação" hegeliana: ambas as leituras
de Scottie deixam escapar alguma coisa, compreendem o "antagonismo" em questão
de maneira muito "formal" (o que eu chamei e defendi como "idealismo
dialético"). AquiŽižek insiste que nós precisamos fazer jus àquilo que
permanece "fora" de ambas soluções, um "excesso", um "resto contingente", um
"pequeno pedaço da realidade".
A explicação deŽižek parece chegar perto de reverter para um tipo de metafísica
positivista, pseudorrealista que ele corretamente rejeitara. (Veja a citação no
começo da seção II acima.) E a conversa de excesso e resto torna irrelevante o
fato deŽiž
ek não procurar alguma coisa que "simplesmente elude a mediação dialética", mas
é um "produto dessa mediação"62. Tal excesso ou resto ainda funciona em sua
crítica como "não mediado" e aquela noção permanece profundamente não
hegeliana, pelas razões que tentei apresentar.
Porém há algo bem correto sobre a relevância da estrutura de Um corpo que cai
para a tradição alemã tal como, acredito, Hegel a veria. Pois nessa tradição
certamente há a noção da modernidade como "perda". Hölderlin e Schiller vêm à
cabeça, e o luto pela "beleza" perdida do mundo grego pode certamente espelhar
a tristeza de Scottie diante da versão perdida de Madeleine encarnada por Judy.
Podemos dizer que Hegel se torna Hegel quando, para ele, essa perda foi
perdida, aquela negação negada, por meio de uma visão mais prosaica dos feitos
gregos. Ou seja, quando, sob a influência dos pensadores do iluminismo escocês,
ele veio a perceber que não houve uma simples perda com o fim do ideal grego, e
perder aquela noção de perda foi um ganho, na medida em que ele compreendeu o
desenvolvimento da sociedade civil moderna e o erro de fantasiar a perda de uma
harmonia mais natural63. A "Madeleine" parecida com Helena era na realidade
"Judy" o tempo todo (isso confirma a insistência de
Žižek de que a mediação hegeliana não resulta em uma "terceira" posição
sintetizadora, mas na correta compreensão de um antagonismo entre a "negação" e
a "negação da negação"). Isso pode ser até mesmo traduzido nos termos
secularizados do cristianismo de Hegel - Madeleine era realmente Judy, ou Judy
tornou-se exitosamente Madeleine para Scottie, gerando seu lamento: "por que
você não pode apenas me amar por quem eu sou?" Toda "Judy" também é uma
"Madeleine"; toda "Madeleine" é realmente uma "Judy" nessa visão igualitária e
cristã.
Isso, evidentemente, é algo que Scottie não pode apreciar, e por razões também
relevantes para Hegel. Pois a própria estrutura da aparição de Judy como
Madeleine fora manipulada para vantagem de Elster, de um modo paralelo às
pretensões ideologicamente distorcidas e falsas para atingir a igualdade nas
sociedades burguesas contemporâneas ("trocas justas entre capital e trabalho no
mercado"). A verdade da identidade foi arruinada, tornada uma inverdade, porque
ela era encenada. O que Hegel pensara ser o maior feito da sociedade civil
moderna - sua habilidade de educar (como Bildung) seus cidadãos para seu igual
status e profunda dependência um em relação ao outro, e assim educá-los para as
virtudes da civilidade e da confiança - tornou-se uma mentira (se é que alguma
vez fora verdade), e os grandes magnatas e chefões como Elster conduzem essa
Bildung de um modo completamente teatral, como no "teatro de Madeleine" montado
para Scottie e para manipulá-lo. Ele não pode ser educado para a verdade da
sentença especulativa "Judy é Madeleine"; essa essência é sua aparição, por
conta dessa distorção. No mesmo sentido, as tentativas de Scottie de
retransformar Judy em Madeleine, mais do que existir uma maneira de perceber
que Judy já é Madeleine, revela-se tão manipulativo e tão reificante quanto as
tentativas de Elster. (Outra identidade, mais deprimente: Scottie e Elster,
criadores de uma Madeleine falsa.)
Isso impõe a questão de se sobrou algo na sociedade contemporânea que
proporciona qualquer tipo de base material para as aspirações de Hegel sobre
esses potenciais transformadores e educativos da sociedade civil moderna. É
difícil não ser profundamente pessimista a esse respeito, mas a procura por
esses possíveis "rastros da razão" parece uma perspectiva mais genuinamente
hegeliana e ainda possível do que qualquer coisa que resulte de "Atos
abissais"64.
[*] Texto originalmente publicado em Mediations: Journal of the Marxist
Literary Group, vol. 26, n-º 1-2, 2012-2013 como resenha de
Žiž
ek, Slavoj. Less than nothing: Hegel and the shadow of dialectical materialism.
Londres: Verso, 2012, 1038 pp. [ed. bras.: Menos que nada:
Hegel e a sombra do materialismo dialético. Trad. Rogério Bettoni. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2013, 656 p.]
[1] Conferir os comentários de
Žiž
ek a respeito de Hegel e o capitalismo financeiro contemporâneo (p. 86). Talvez
o resumo severo de Zadie Smith seja o melhor: os Estados agora "desregulamentam
para privatizar os ganhos e re-regulamentam para nacionalizar as perdas". NYR
Blog, http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2012/jun/02/north-west-london-
blues/, 2 jun. 2012.
[2] Há uma afirmação clara e sóbria sobre o que nós, de um ponto de vista
hegeliano, precisamos agora: "uma verdadeira ruptura do horizonte capitalista
sem cair na armadilha de retornar à noção eminentemente pré-moderna de uma
sociedade equilibrada e (auto)contida [...]" (p. 100). Mas quando ele avança
para explicar a sua posição, o cerne se revela ser "o sujeito tem de reconhecer
em sua alienação da substância a separação da substância de si mesma" (p. 101).
Eu não fui capaz de compreender como isso nos ajuda a fazer aquilo que a sóbria
afirmação afirma. Essa é uma questão que, adiante, reaparecerá frequentemente.
[3] A edição americana utilizada por Pippin nesta resenha é sensivelmente
diferente da edição brasileira. Da tradução publicada pela Boitempo foram
excluídos, sob orientação do autor, seis capítulos ("1. Vacillating the
Semblances"; "2. Where there is nothing, read that I love you"; "3. Fichte's
choice"; "8. Lacan as a reader of Hegel"; "9. Suture and Pure Difference"; "12.
The foursome of terror, anxiety, courage... and enthusiasm") e três interlúdios
("4. Borrowing from the future, changing the past"; "5. Correlationism and
its"; "6. Cognitivism and the loop of self positing"). Os cortes também
implicaram uma reestruturação da divisão do livro, que não segue mais a
tripartição - "a bebida antes", " a coisa em si" e "o cigarro depois" - a que
se refere Pippin. [N. do T.].
[4] Várias sutilezas e qualificações são possíveis aqui. Eu não vejo porque
alguém levaria (iii) seriamente. Eu incluiria "desconstrutivismo" em (iv) e não
em (ii), reivindicaria mais categorias (pragmatismo, da variedade analítica
(brandomiano), rortyano ou habermasiano; monismo anômalo; a fenomenologia ainda
está viva em alguns cantos; a abordagem de Wittgenstein) e eu defenderia uma
versão hegeliana do compatibilismo. Mas o que importa aqui é o que
Žiž
ek defende: sua própria posição.
[5]
Žiž
ek, Menos que Nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético, op. cit., pp.
15-16.
[6] Em uma discussão mais extensa, portanto mais cuidadosa, várias ressalvas
seriam necessárias aqui. O caso da consciência perceptiva, enquanto
aperceptiva, não é obviamente do mesmo tipo lógico do que um juízo, uma
pretensão empírica de conhecimento, e seria necessário maior cuidado para dar
conta do papel da espontaneidade. Mas a consciência perceptiva não é meramente
capacidade diferencial de resposta e isso é o que precisamos para o problema da
"negatividade". Veja minha discussão sobre a questão em "Brandom's Hegel",
European Journal of Philosophy, vol. 13, n-º 3, 2006, pp. 381-408.
[7] A "tese da incorporação", expressão dada pelo especialista em Kant Henry
Allison, surgiu, como um tema explícito, relativamente tarde na obra de Kant
(em A religião nos limites da simples razão [1793]) e afirma que "causas só me
afetam na medida em que eu permito que elas me afetem". "Somente na medida em
que eu as considero como motivos razoáveis para fazer algo" seria mais preciso,
e as inclinações por certo me afetam causalmente (eu posso ser fortemente
inclinado a fazer algo), apenas não se pode afirmar que elas produzam o
movimento corporal, se esse movimento deve ser considerado uma ação. Não há
muitos desses erros e deslizes, mas eles são irritantes quando ocorrem. A
crítica da razão pura foi publicada em 1781, não em 1787 (p. 17); o famoso
artigo de Henrich refere-se à "Fichtes ursprüngliche Einsicht", não à sua
"Grundeinsicht" (p. 21). E (para mim a mais importante) o editor do jornal ao
final de O homem que matou o facínora não diz "quando a realidade não se
adequar à lenda, publique a lenda" (p. 272). Ele diz algo muito mais relevante
para as preocupações de
Žiž
ek "Estamos no Oeste, senhor. Quando a lenda se torna um fato, publique a
lenda."
[8] Eu digo "pareceria" a fim de reconhecer que, para
Žižek, nós deveríamos dizer algo como a "substância" nega a si mesma, cria um
tipo de "lacuna" e incompletude, e o "espaço" é o sujeito. (Mas em que sentido
também poderia ser dito que o sujeito "substancializa a si mesmo"? Negar a si
mesmo como sujeito apenas por ser substância?) De todo modo,Žiž
ek não quer dizer que um sujeito seja apenas um tipo de propriedade da
substância material. Eu penso que compreendo o que a lacuna ou o ponto de vista
da negação de si significaria em termos freudianos - que a maturação natural
mesmo biológica, ela mesma produz um sujeito dividido contra si mesmo, incapaz
de perceber e satisfazer os processos primários -, mas isso é verdade somente
em relação à substância humana, e eu não penso que isso seja o problema que os
pós-kantianos estavam abordando e vou tentar dizer por que a seguir.
[9] Eu não tenho espaço para discutir a interessante leitura paralela de
Žiž
ek da substância-sujeito e id-ego exceptuando concordar com que em nenhum caso
"wo es war, soll Ich werden" dá a ideia de uma apropriação racional do, ou de
um controle sobre, ou simplesmente de uma reconciliação com o "nicht-Ich". Veja
389 ss/229 ss.
[10]
Žiž
ek, Slavoj. Tarrying with the negative: Kant, Hegel and the Critique of
Ideology. Durham: Duke University Press, 1993. Idem, A visão em paralaxe. Trad.
Beatriz Medina. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.
[11] Hegel, G. W. F. The phenomenology of Spirit. Trad. Terry Pinkard. <http://
terrypinkard.weebly.com/phenomenology-of-spirit-page.html>, p. 14 (§16) [ed. bras.: Hegel, G. W. Fenomenologia do espírito. Trad. Paulo
Menezes.Petrópolis: Vozes, 2003, p. 34 (§16).
[12] Uma visão nada desrazoada. Veja Fichte, G. Introductions to the
Wissenschaftslehre and other writings. Trad. e ed. Daniel Breazeale,
Indianapolis: Hackett, 1994, p. 84; Fichte, G. "Segunda introdução à doutrina
da ciência". In: Gil, F. (coord.) Recepção da Crítica da razão pura: antologia
de escritos sobre Kant (1786-1844). Trad. Fernanda Portela. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1992, p. 342.
[13] De acordo com
Žiž
ek (144/ s.c.), a única posição de Hegel é negar que precisemos de qualquer
"terceiro termo" para fundar tanto o subjeito como o objeto. "[...] seu [de
Hegel] ponto é precisamente que não há necessidade de um Terceiro elemento, o
meio ou fundamento para além do subjeito e objeto-substância. Nós começamos com
objetividade e o sujeito não é nada senão a automediação da objetividade". Mas
isso é simplesmente idealismo objetivo e ainda não diferenciou o ponto de vista
de Hegel, como tentarei mostrar.
[14]
Žiž
ek, Less than nothing, op. cit., p. 75. Sem correspondência com a tradução
brasileira.
[15] Ibidem, p. 148.
[16] Cf. A pretensão de
Žiž
ek de que Marx e Freud só podem entender "antagonismo" como característica da
realidade social ou física, de que eles são "incapazes de articulá-la como
constitutiva da própria realidade, como a impossibilidade ao redor da qual a
realidade é construída" (250/93). Estou com Marx e Freud (e, eu acho que, com
Hegel) nesse ponto. Isso toca em um dos mais difíceis tópicos no livro, para
mim, o que é anunciado pelo título, que a "realidade" é "menos que nada". A
explicação oficial do título ocorre na página 495/348. Discuto aquilo que
consigo entender desse conceito de como "subtrair do nada o/a próprio/a nada/
(idade)" na última seção deste artigo.
[17] Hegel, G. W. F. Science of logic. Trad. A.V. Miller. Londres: George Allen
and Unwin, 1977, p. 515. Essa citação sozinha me parece
interditar a explicação dada por
Žiž
ek sobre a relação Kant-Hegel-apercepção (p. 130).
[18] Rödl, Sebastian. Self-consciousness. Cambrigde, MA: Harvard University
Press, 2007, pp. 17-64.
[19] Cf. Rödl sobre um "conhecimento não empírico sobre a realidade material",
p. 122. Veja também pp. 131, 133-4, 138.
[20] Dito de outro modo, a consciência de si que é uma condição necessária para
qualquer ação ou pensamento humanos adverte em relação a um modo de alguém agir
ou pensar, como que adverbialmente, e não envolve nenhuma autoinspeção. Veja
meu Kant's theory of form. New Haven: Yale university Press, 1982, capítulo.6,
pp. 151-87. Alguém faz o que faz, alguém está cônscio do que está cônscio,
alguém pensa o que pensa, tudo sabendo [knowingly]. A propósito da discussão a
seguir, cf. a formulação de Fichte na Wissenschaftslehre: "[...] o si e o ato
revertendo a si são conceitos perfeitamente idênticos [...]" (p. 37) e "é a
consciência imediata de que eu ajo [act] e de que eu atuo [enact]: é por meio
disso que eu sei de algo porque eu o faço" (p. 38). Ou: "Sem consciência de si
não há de todo consciência; mas consciência de si é possível somente na maneira
indicada: eu sou simplesmente ativo" (p. 41).
[21]
Žiž
ek levanta o mesmo ponto ele mesmo, corretamente, ao meu ver, em um resumo
abonador de Lukács (220/61). Veja também Hegel na Ciência da lógica: "O ponto
mais importante para a natureza do espírito não é apenas a relação do que ele é
em si mesmo para o que ele é efetivamente, mas a relação do que ele mesmo sabe
ser com o que ele efetivamente é; porque espírito é essencialmente consciência,
esse conhecimento de si é uma determinação fundamental da sua efetividade".
Science of logic, p. 37.
[22] Não é paradoxal porque não há um momento original de autocriação [self-
origination]. Alguém que sempre já veio a ser por alguma posição da posição de
si está sempre se tornando quem se é. Eu penso que é isso o que Hegel quer
dizer alegando, em suas Lições sobre a história da filosofia, que "não se pode
começar com a unicidade [oneness] e passar para a dualidade", citado por
Žiž
ek (470/326), mas antes com "o inerente autodistanciamento do próprio Uno"
(471/326). Existe muito mais a ser falado sobre esse problema. Para discussões
de pequenos aspectos desses pontos, veja capítulos 3 e 4 de Hegel's idealism:
the satisfactions of self-consciousness (Cambridge: Cambrigde University Press,
1989) e capí tulo 3 de Hegel's practical philosophy: rational
agency as ethical life (Cambridge: Cambrigde University Press, 2008).
[23]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., pp. 194-5.
[24] Ibidem, p. 227. E agora, em outros contextos - quando, por exemplo, ele
está discutindo a "consciência de si" do Estado -
Žiž
ek me parece afirmar o ponto feito aqui exatamente do jeito que é feito aqui.
Cf. 256 ss.
[25] Uma das afirmações e defesas mais conhecidas da condição de
"transparência" é o Authority and estrangement: an essay of self-knowledge
(Princeton: Princeton University Press, 2000) de Richard Moran. Veja também Rödl, op. cit., cap. 3.
[26] Esse tema, assim como todos os outros do parágrafo, é muito mais
complicado do que esse resumo pode fazer jus. Sobre esse último ponto, os
admiráveis filmes dos irmãos Dardenne tornam claro quanto mais pode ser dito
sobre esse tema. Em todos os seus filmes, as personagens certamente aparentam
tal como se estivessem agindo sem capacidade de dizer por quê. O que é
especialmente interessante é que eles conseguem sugerir uma ligação entre essa
opressiva opacidade e a fábrica do capitalismo tardio de desintegração da vida
da classe trabalhadora. Eles integram esses elementos filosófico-psicológicos
com os sociais harmoniosa e brilhantemente. Veja especialmente O filho (2002).
[27] Isso também é relevante para abordar como o modo que os animais têm
representações é diferente do nosso. O deles é intencional à sua maneira, mas
eles não têm o status de "cognições" da maneira que o nosso tem. Um cachorro
pode ver uma figura humana bem de longe (a montante, vamos dizer) e, vendo uma
pessoa desconhecida, começa a latir, somente para depois balançar o rabo na
medida em que a pessoa conhecida que ela realmente é aparece a seus olhos. Mas
o cachorro não se corrigiu. Aqui nós queremos dizer que uma sugestão da
percepção promoveu uma resposta (que nós podemos mesmo chamar de resposta
racional), e depois uma sugestão de percepção diferente (com mais detalhes de
características visuais em vista) promoveu uma resposta comportamental
diferente. A plenitude de ser, nós podemos dizer. (Eu nunca notei, por exemplo,
que minha cachorra tenha alguma vez se mostrado embaraçada por ter feito um
desses erros que ela possa corrigir. Isso não é como ela vê; ela vê uma série
de sugestões, e depois vê uma outra. Isso seria um modo de dizer que ela não
tem unidade de apercepção.)
[28] No entanto, a consciência é para si mesma seu conceito, e como resultado
ela vai imediatamente para além da restrição, e, como essa restrição pertence a
si mesma, ela também vai além de si mesma. (Phenomenology 76 [§80]/
Fenomenologia 76 [§80]). Aqui está a formulação "lógica" da questão da assim
chamada Fenomenologia de Berlim: o eu é agora essa subjetividade, essa relação
infinita consigo mesmo, mas aí, a saber nessa subjetividade, jaz sua relação
negativa consigo mesmo, cisão, diferenciação, julgamento. O eu julga, e isso o
constitui como consciência; ele repele a si mesmo de si mesmo; isso é uma
determinação lógica. G.W.F. Hegel: The Berlin phenomenology. Trad. M. Petry.
Dordrecht: Riedel, 1981, p. 2.
[29] Essa é a formulação de Adrian Johnson em "Slavoj
Žižek's Hegelian Reformation: giving a hearing to The parallax view".
Diacritics, vol. 37, n-º 1, pp. 3-20. Algo como essa posição está disponível
aŽiž
ek se nós compreendemos o espaço do Simbólico (no seu sentido lacaniano) como o
espaço do normativo e assim da razão. Veja sua interpretação do controverso
comentário de Freud sobre "anatomia" sendo "destino", "em outras palavras, uma
formulação simbólica", um destino que nós temos de fazer. (216/57-8)
[30] Não que essas descobertas não possam ser relevantes para a filosofia. Elas
certamente são para Hegel. No §12 da Enciclopédia lógica, Hegel diz que a
filosofia "deve seu desenvolvimento às ciências empíricas", e no comentário ao
§246 da Filosofia da natureza, ele diz que a filosofia da natureza "pressupõe e
é condicionada pela física empírica". Veja também o adendo ao §381 na
Introdução à Filosofia do espírito. Essas passagens são relevantes para a
questão que
Žiž
ek levanta em 458 e 462/308 e 315.
[31] Quando
Žiž
ek aborda esse tema, ele adota uma postura nietzschiana que me parece mal
argumentada e viciada por uma petição de princípio. Que tipo de poder (ou
autoridade) é esse que precisa justificar a si mesmo com referência aos
interesses daqueles sobre quem elegoverna [rule], que aceita a necessidade de
fornecer razões para seu exercício? Uma tal noção de poder não minaria a si
mesma (429/281)? Ele se estende a ponto de chamar um tal regime de
"antipolítico" e "tecnocrático". Mas apelos ao interesse próprio são apenas um
tipo de razão, e as restrições introduzidas por um tal requerimento, se elas
minam alguma coisa, minam a noção de dominação e governo. Eles não são pensados
para estar a serviço de tais noções, mas substituem noções de autoridade.
[32] A angústia [anxiety] cética de que, com isso, nós trataremos o ser somente
da maneira que ele é inteligível "pelas nossas luzes finitas" é a angústia
ilusória que Hegel acredita ter destruído metodologicamente na Fenomenologia, a
"dedução", tal como ele diz, do ponto de vista da Lógica. A angústia
heideggeriana extraordinariamente influente de que isso tudo represente a
"imposição" da vontade humana "por sobre" a questão do Ser é matéria para uma
discussão à parte. Veja Heidegger, Nietzsche, op. cit., e meu "Heidegger on
Nietzsche on Nihilism", no prelo.
[33]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., p. 80.
[34] Robert Brandom, Making it explicit: reasoning, representing, and
discursive commitment. Cambridge, MA.: Harvard University Press, 1994.
[35] Em termos kantianos, o papel da razão pode ser dito emergir em qualquer
tentativa de conduzir uma vida "justificada" (e, portanto, livre), procurar
sempre a "condição" para qualquer coisa "condicionada". Veja minha discussão
sobre esse tópico sobre Kant em Hegel on self-consciousness: Desire and death
in the Phenomenology of spirit. Princeton: Princeton University Press, 2011,
pp. 55-8.
[36] É portanto o caso de que esse tipo de interpretação venha a significar um
desacordo com a caracterização de
Žižek do começo de tudo isso em Kant. Não é o caso de que Kant e os Idealistas
tenham concebido o sujeito como uma "atividade espontânea [...] sintética, a
força da unificação, de reunir o múltiplo dos dados sensíveis com os quais nós
somos bombardeados em uma representação unificada dos objetos" (106/ s.c.).
Veja tambémŽiž
ek 149/ s.c. Esse certamente não era o caso de Hegel; veja seu Faith and
knowledge. Trad. W. Cerf e H. S. Harris. Albany, N. Y.: SUNY Press, 1977, pp.
62-70 [ed. bras.: Hegel, G. W. Fé e saber. Trad. Oliver Tolle. São Paulo:
Hedra, 2007. Também não é o caso de que "apercepção [...] muda o confuso fluxo
de sensações em 'realidade', que obedece a leis necessárias". Em primeiro
lugar, Kant diz com frequência que esse imposicionismo é exatamente a posição
que ele rejeita, que daria ao cético o que ele quer (B 168). Veja também B 138,
B160 n, e a passagem de "mesma função" em B105/A79. Em segundo lugar, não é o
caso de essa atividade sintética "introduzir uma brecha/diferença na realidade
substancial" (106/ s.c.). A negatividade ("não apenas ser") em questão é uma
matéria da dimensão normativa da experiência aperceptiva e da ação. Alguém
poderia, presumo, chamar isso de uma "brecha no ser", mas isso me parece
mistificar tudo desnecessariamente.
[37] Henrich, D. Between Kant and Hegel. Ed. D. S. Pacini . Cambridge, MA:
Harvard University Press, 2008.
[38] Uma característica inusual do livro de
Žiž
ek é essa forte confiança nas fontes secundárias selecionadas, "à risca", com
poucas exceções (Lebrun é um dos quais ele discorda). Henrich, Malabou, Miller,
Lebrun são aqueles em que ele se apoia mais fortemente.
[39] Eu apresento essa prova no capítulo 3 de Hegel's idealism.
[40] Fichte, G. "Second Introduction to the Wissenschaftslehre". In: The
science of knowledge with the first and second introductions. Ed. e trad. P.
Health e J. Lachs. Cambridge: Cambridge University Press, 1970, p. 33.
[41] Idem, Introductions to the Wissenschaftslehre and other writings. Trad. e
ed. Daniel Breazeale. Indianapolis: Hackett, 1994, p. 59;
idem. "Segunda introdução à doutrina da ciência". In: Gil, F. (coord.).
Recepção da Crítica da razão pura; antologia de escritos sobre Kant (1786-
1844). Trad. Fernanda Portela. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1992.
[42] Idem. Foundations of transcendental philosophy (Wissenschaftslehre nova
methodo). Trad. e ed. Daniel Breazeale. Ithaca: Cornell University Press,
[1796-1799] 1992, pp. 105-6.
[43] Isso é das notas de sua famosa resenha de Aenesidemus, em G. Fichte,
Gesamtausgabe der Bayerischen Akademie der Wissenschaften. Ed. Reinhard Lauth e
Hans Jacob. Stuttgart: Frommann-Holzboog, 1965, pp. 11, 1, 287. É importante
apreender esse aspecto de Fichte corretamente a fim de evitar as afirmações que
Žiž
ek faz na 283/127, onde nós ouvimos de novo sobre o fenômeno da
"autolimitação", a "incompletude da realidade fenomenológica" e o fundamento da
liberdade na "incompletude ontológica da própria realidade". Na medida em que
eu compreendo essas pretensões, elas são regressivas e dogmaticamente
metafísicas como as "particularidades inefáveis".
[44] Quando é descrito como o é, de maneira aparentemente aprobatória, por
Žiž
ek na 427/279, um verdadeiro ato badiouniano, o "Ato", é dito ser uma
"simplificação violenta e radical [...] o momento mágico em que o infinito
ponderar cristaliza-se em um 'sim' ou 'não'". "Mágico" é a palavra certa;
próxima a mistificador e ininteligível. Estremece-se ao pensar quanto esses
Atores narcisistas glorificaram o "infinito" cristalizando a si mesmo neles. (A
ideia é supostamente que a fundação de uma nova ordem ética precisa ser por
força "abissal", infundada e contingente (460/313), de que você não pode ter
1789 sem 1793 (319/163), e daí por diante. Mas isso é uma noção completamente
não hegeliana do "novo" bem como do "contingente".
[45]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., p. 81.
[46] Idem, p. 237 ss.
[47] Todas as ações têm essas intenções ex ante, mas elas são provisórias até
se verem realizadas em atos. Outro vasto tópico. Veja meu Hegel's practical
philosophy, op. cit., cap. 6.
[48] Veja especialmente sua rejeição do "modelo orgânico" de mudança histórica
hegeliana (272/116) e comentários tais como aqueles à 466/319. (Eu penso que a
diferença entre necessidade natural e necessidade racional poderia ser bem mais
clara nessas formulações. Tal como em relação às animadversions a "necessidade
do contingente" e "autopoesis" na 467/320.)
[49] Seguindo Marcos Müller, utilizo preferencialmente "suspender" para
traduzir sublate quando se trata de uma referência ao conceito hegeliano de
aufheben (N. do T.).
[50]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., p. 145.
[51] Hegel, G. W. F. Aesthetics: lectures on fine arts. Trad. T. M. Knox.
Oxford: Oxford University Press, 1975, p. 8. Veja também a
Phenomenology, §669/Fenomenologia, §669.
[52] Nada nesse quadro precisa ser qualificado, mesmo se admitimos que também é
o caso de que qualquer dessa significação produza seu "excesso", seu "resto"
imediato e disruptivo. Isso pode ser, mas esse é outro problema em relação às
práticas humanas significantes, não todo o problema.
[53]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., p. 106.
[54] Eu não vejo nada no que
Žiž
ek disse que contrarie a tradicional insistência de que qualquer pretensão
sobre uma tal contradição material não poderia estar pretendendo nada, não
seria uma pretensão sobre nada. O argumento me parece: tanto pior para a lógica
que haja essas contradições. No entanto, isso não resolve a dificuldade. Veja
Charles Taylor, "Dialektik Heute, oder: Strukturen der Selbstnegation". In:
Hegels Wissenschaft der Logik: Formation und Rekonstruktion. Ed. D. Henrich.
Stuttgart: Klett-Cotta, 1986, pp. 141-53.
[55] O verdadeiro problema com a filosofia política de Hegel é a ausência de
qualquer explicação da vontade política e das políticas de formação da vontade.
A legislatura apenas afirma "o que já foi decidido". Veja o inestimável e
negligenciado livro de Michael Beresford Foster, The political philosophies of
Plato and Hegel. Oxford: The Clarendon Press, 1935.
[56]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., p. 283.
[57] Quando
Žiž
ek dá a sua lista "do que Hegel não pode pensar" (qualificada por um número de
sugestões "sim, mas [...]"), consistindo em tais coisas como repetição, o
inconsciente, luta de classes, diferença sexual, e assim por diante (455/307).
Eu não vejo motivo para pensar que Hegel teria qualquer problema com tais temas
e questões a mais do que ele tem para fornecer análises e diagnoses de várias
patologias individuais e sociais. Elas não são suas questões. Uma praga pode
arruinar completamente a vida ética de algumas comunidades e ela pode
permanecer arruinada por séculos. Assim o pode fazer um consumismo cada vez
mais histérico e frenético; assim o pode o que pode ser a espiral da morte do
capitalismo (veja David Harvey. The enigma of capital and the crises of
capitalism. Oxford: Oxford University Press, 2010, e assim o
pode o começo de uma catástrofe ambiental de séculos de duração.
[58] Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
[59]
Žiž
ek, Menos que nada, op. cit., p. 170.
[60] Ibidem, p. 170.
[61] Ibidem, p. 171.
[62] Ibidem, p. 332.
[63] A explicação indispensável disso está em Laurence Dickey, Hegel: religion,
economics, and the politics of spirit 1770-1807. Cambridge: Cambridge
University Press, 1987.
[64] A frase de Rüdiger Bübner em "What is critical theory?". In: Essays in
hermeneutics and critical theory. Nova York: Columbia University Press, 1988.
TRADUÇÃO DE RICARDO CRISSIUMA