A democracia do público reconsiderada
Tradução de Otacílio Nunes**
Quase vinte anos se passaram desde que escrevi Princípios do governo
representativo. Embora a substância do livro permanecesse na maior parte
inalterada, se tivesse de reescrevê-lo hoje, penso que o capítulo que discute
as transformações do governo representativo poderia se beneficiar da
incorporação de mais informação empírica do que a que estava disponível para
mim à época da redação original. A terceira parte do capítulo intitulado "A
democracia do público" apresenta um relato das mudanças que têm afetado
democracias representativas no decorrer do último quarto de século. Desde
meados da década de 1990, contudo, a publicação de um número significativo de
estudos comparativos, trouxe informações sistemáticas sobre tais mudanças1.
Gostaria de atualizar e esclarecer minha análise anterior da democracia do
público à luz de pesquisas mais recentes.
A EROSÃO DAS FIDELIDADES PARTIDÁRIAS
Uma das mudanças mais notáveis das últimas décadas diz respeito aos partidos
políticos. Ao que parece, os partidos não estão em grande forma. A
"insatisfação com os partidos" tornou-se expressão corrente. Pesquisadores
dedicaram inúmeros estudos ao enfraquecimento dos vínculos partidários ou ao
declínio dos partidos políticos, avaliando a extensão e as implicações desses
fenômenos. Partidos políticos, contudo, são objetos multifacetados. Os partidos
tipicamente fazem muitas coisas e atuam em várias arenas. Por exemplo, eles
mobilizam eleitores, recrutam membros e ativistas, apresentam candidatos a
cargos de governo e organizam o trabalho de legislaturas e governos2. Uma menor
capacidade em uma área não significa necessariamente declínio em todas as
áreas. Supondo, então, que os partidos políticos perderam algumas de suas
capacidades, não se pode inferir que eles têm se enfraquecido de forma
generalizada. Devo acrescentar que minha explicação anterior da democracia do
público e do contraste com a democracia de partidos podia criar a impressão de
que os partidos se tornaram, de maneira geral, obsoletos. Não era minha
intenção. Em todo caso, se as formulações anteriores eram ambíguas, este é o
lugar para torná-las mais precisas.
Há uma área em que os partidos sem dúvida perderam terreno: eles já não atraem
as fidelidades duradouras dos eleitores. Mais precisamente, não atraem essas
fidelidades no mesmo grau que antes. As evidências de erosão das fidelidades
partidárias foram crescentes desde que escrevi minha explicação original da
democracia do público. A tendência agora foi documentada em todas as
democracias estabelecidas3. Isso sugere que estamos vendo aqui não apenas as
fortunas flutuantes de partidos particulares, nem os efeitos de sistemas
partidários específicos, mas uma mudança fundamental, impulsionada por
desenvolvimentos gerais, como a passagem de economias industriais para
economias de serviços e a concomitante erosão de meios sociais tradicionais,
níveis crescentes de aquisição educacional e o papel dos meios de comunicação
de massa.
Consideremos alguns dos principais indicadores que apontam para a existência
dessa tendência. Nas pesquisas, a porcentagem de pessoas que se identificam com
um partido decresceu constantemente ao longo dos últimos quarenta anos na
maioria das sociedades industriais avançadas. O declínio no vínculo partidário
autodeclarado é particularmente pronunciado entre os mais jovens4. Com relação
ao comportamento real, a volatilidade eleitoral tem crescido no nível agregado:
os escores eleitorais dos partidos (sua parcela da votação) variam mais de uma
eleição à seguinte do que ocorria há meio século5. Outro indicador pode ser
encontrado no número crescente de eleitores que relatam ter mudado o voto entre
eleições sucessivas6. Todavia, estudos de países individuais sugerem que
muitos, se não a maioria, desses "eleitores flutuantes" se alternam entre votar
e não votar, ou entre parceiros de coalizão7. Em relação a isso, também vale a
pena notar que o número de partidos que efetivamente competem por votos em
geral decresceu nas democracias industriais avançadas. Isso empresta maior
plausibilidade à hipótese de que grande parte da alternância de voto ocorre
entre partidos que não são muito distanciados em suas posições. Outro sinal de
enfraquecimento dos vínculos partidários pode ser encontrado na crescente
prática de cisão do voto em países onde os eleitores podem dividir seus votos
entre partidos numa mesma eleição8. Finalmente, números crescentes de eleitores
relatam que decidiram como votar durante a campanha, ou mesmo no dia da
eleição9. Os que decidem tardiamente devem ser eleitores que não sentem uma
ligação forte com o partido no qual acabam votando.
Resenhando os resultados de pesquisas recentes, um acadêmico escreve: "Em todas
as democracias estabelecidas, há agora evidências esmagadoras de uma erosão
glacial da identificação partidária no eleitorado [...] que reduziu a proporção
de fiéis habituais no eleitorado que apoiam seu partido chova ou faça sol"10.
Usando uma palavra alemã conhecida, poderíamos dizer que o enfraquecimento dos
vínculos partidários reduziu a proporção de votantes habituais no partido.
Mas a erosão das fidelidades partidárias duradouras não implica a obsolescência
dos partidos políticos. Como observação preliminar, devemos notar um fato
bastante óbvio, mas importante. Os fiéis a um partido não estão à beira da
extinção. Eles podem ser menores em número do que eram no passado, mas ainda
formam uma massa significativa que deve ser levada em consideração. Além disso,
um exame mais detido revela duas áreas em que os partidos não perderam força e
continuam a ser atores centrais: política parlamentar e campanhas eleitorais.
Primeiro, os partidos políticos ainda dominam a arena parlamentar. Na maioria
das sociedades industriais avançadas, alinhamentos partidários estáveis, e não
coalizões inconstantes de deputados individuais, controlam o funcionamento das
legislaturas. Para começar, parece que só um número minúsculo de políticos é
capaz de conquistar um cargo legislativo sem filiação partidária ou sem fazer
parte da lista de candidatos de um partido nacional importante11. Por certo, os
partidos agora fazem campanhas "centradas nos candidatos", em que a
personalidade dos candidatos, e a personalidade do líder do partido em
particular, ocupam o lugar principal12. Portanto, a personalização das eleições
mencionada em minha explicação original permanece. Mas os partidos se adaptaram
a essa tendência e à maior importância dos meios de comunicação que a
impulsiona. Em consequência, as eleições parlamentares se tornaram
personalizadas, mas permaneceram partidárias. Outro desenvolvimento era
concebível. As eleições poderiam ter se transformado em disputas principalmente
entre figuras públicas ou celebridades concorrendo a cargos como independentes.
Isso não ocorreu. Pode-se argumentar também que em vários países onde as
campanhas eleitorais são sujeitas a regulação pública rigorosa o sucesso dos
partidos em eleger seus candidatos provavelmente deve muito às leis eleitorais
e a várias regulações que dão vantagens de campanha, em particular em
financiamento e acesso a meios de comunicação públicos, a partidos
estabelecidos13.
Seja como for, o fato notável é que os partidos políticos são as principais
forças que moldam as alternativas oferecidas aos eleitores em eleições
parlamentares. Mesmo que candidatos de partidos não vençam em todos os casos, o
fato de que os partidos estão pelo menos presentes na maioria das disputas (já
que ganham na maioria) compele os independentes a se posicionarem em relação a
eles. Consequentemente, quando elegem representantes, os eleitores se defrontam
com um mapa cognitivo que é de fato desenhado essencialmente por partidos
políticos.
Ademais, o funcionamento interno dos parlamentos mostra poucos sinais de
redução da disciplina de votação partidária. Grupos parlamentares partidários
se comportam como unidades coesas14. Isso talvez se deva em parte ao fato de
que a maioria dos deputados foi eleita sob legendas partidárias. Uma explicação
mais provável está nas regulações parlamentares formais que dão importantes
vantagens procedimentais (em indicações para comissões, capacidade de
estabelecimento de agenda e outros recursos) a grupos de deputados que têm a
condição de "facção"15. Pode-se argumentar também que o grau de coesão da
facção reduz os custos de transação entre os deputados (um deputado que
quisesse aprovar uma legislação por conta própria teria de gastar muita energia
construindo uma coalizão), e que ela também resolve problemas de ação coletiva
(deputados que compartilham um objetivo cuja realização requer a contribuição
de todos seriam tentados a pegar carona nos esforços de outros, ou a desistir
diante da incerteza de que outros cooperem)16. Embora haja um debate contínuo
entre pesquisadores sobre o que explica a coesão partidária nos parlamentos, há
pouca dúvida de que a votação nas legislaturas ainda é amplamente governada por
alinhamentos partidários. Mas há mais. Não só os grupos parlamentares
partidários mantêm a disciplina de votação em todas as questões, como também
seus membros são também estáveis ao longo do tempo. Poder-se-iam imaginar
deputados individualmente se alternando com maior ou menor frequência entre
blocos de votação, com membros de cada bloco votando de maneira indisciplinada
em uma gama de assuntos. Mas de fato estudos empíricos demonstram que a
alternância entre um bloco e outro raramente acontece, seja em um dado período,
seja em períodos consecutivos. Os deputados na maioria permanecem membros da
mesma facção enquanto ocupam cadeiras nos parlamentos17. A principal razão para
isso parece ser que permanecer como membro do mesmo grupo parlamentar é o modo
mais seguro de ser novamente escolhido como candidato, embora em alguns países
mudar de facção durante um dado período seja também proibido por lei.
Finalmente, em sistemas parlamentares, a formação e a deposição de gabinetes
ainda são determinadas por partidos, não por coalizões variáveis de deputados
individuais. Nesses sistemas, o "núcleo do executivo" ainda está nas mãos dos
partidos políticos18. Isso também resulta primariamente de regulações legais,
às vezes de provisões constitucionais. Mas tais regulações estão em vigência na
maioria dos sistemas parlamentares. Elas não mostram nenhum sinal de estar
sendo relaxadas.
A consequência da coesão partidária no parlamento e no governo é que as
decisões políticas permanecem nas mãos dos partidos políticos, pelo menos
naquelas áreas de políticas que são organizadas segundo princípios
representativos19.
Isso, novamente, tem uma consequência importante. Os eleitores podem com muita
facilidade imputar a responsabilidade por uma política. Certamente, a clareza
da responsabilidade é diminuída em casos de coalizões governamentais (sem falar
de governos divididos em sistemas presidenciais ou semipresidenciais). Contudo,
a imputação de responsabilidade é muito mais fácil se os partidos se comportam
de maneira coesa nos parlamentos do que se as políticas forem determinadas por
coalizões sempre mutáveis de deputados individuais. O fato de que os partidos
são cada vez mais identificados com seus líderes até reforça a clareza da
responsabilidade. É mais fácil perceber um dado partido como um órgão coletivo
unificado se ele é identificado com seu líder.
Há uma segunda área em que os partidos não perderam força, a das campanhas
eleitorais. Nesse domínio, se houve alguma mudança, os partidos se tornaram
mais dinâmicos do que eram antes. O sinal mais visível, e mais bem documentado,
dessa vitalidade é a quantidade de recursos que os partidos dedicaram a
campanhas eleitorais. Vários estudos mostram que as despesas de campanha têm
aumentado. As campanhas eleitorais também foram profissionalizadas, empregando
cada vez mais especialistas pagos tanto em propaganda nos meios de comunicação
quanto em pesquisa de mercado20. Esses desenvolvimentos, porém, não são
normalmente vistos como marcas de vitalidade contínua. São tomados até como
sinais de declínio com a justificativa de que eles se afastam do modelo de
partido com filiação em massa, tal como descrito por Duverger na década de
1950. No modelo de filiação em massa, membros e ativistas de base do partido, e
não líderes partidários auxiliados por profissionais, deviam ser as forças
decisivas. É verdade que na maioria das sociedades industriais avançadas as
filiações a partidos se reduziram, às vezes numa taxa muito elevada, nas
últimas décadas21. Contudo, estudos cobrindo uma gama mais ampla de países
mostram diferenças significativas entre países, com o número de membros de
partidos até aumentando em democracias mais novas (como Espanha, Portugal e
Grécia) e em alguns países pós-comunistas (como Eslováquia e Hungria)22. Em
termos ainda mais amplos, considerando as democracias ao redor do globo, os
padrões de filiação a partidos parecem estar correlacionados a padrões de
desenvolvimento socioeconômico, com as democracias mais afluentes tendo os
níveis mais baixos de filiação partidária. Mais especificamente, a correlação
parece ser impulsionada pela penetração da televisão. A filiação a partidos é
normalmente mais elevada onde o acesso à televisão é menor23. Isso sugere que
os partidos filiam grande número de membros quando precisam deles para
propósitos de campanha "cara a cara". Vistas por esse prisma, filiações
partidárias mais escassas não refletem decadência. Adaptando-se à mudança
tecnológica, os partidos transformaram seus modos de mobilizar eleitores24.
A erosão das fidelidades partidárias só reforçou a necessidade de dinamismo na
mobilização de eleitores. Por certo, cada partido retém uma base nuclear de
eleitores fiéis. Mas, à medida que esse núcleo encolhe, cada partido precisa
buscar o apoio de eleitores em outro lugar. Os partidos não necessariamente
visam a maximizar o apoio eleitoral. Eles podem valorizar mais outros objetivos
(como pureza ideológica, por exemplo). Mas um partido que não buscasse se
contrapor ao declínio do apoio eleitoral estaria a caminho do esquecimento. A
mera sobrevivência, portanto, exige uma postura proativa. Ao mesmo tempo, dado
que a base central de apoio fiel está se reduzindo para todos os partidos, cada
um deles enfrenta também um eleitorado "disponível" em expansão. A questão é
quais segmentos desse grande eleitorado disponível determinado partido deve
visar em sua busca de apoio. Num ambiente tão incerto e imprevisível, a
resposta a essa questão não é de forma alguma evidente. É por isso que os
partidos recorrem a instrumentos de precisão, como pesquisas de opinião,
levantamentos e grupos focais , para melhor discernir os interesses dos muitos
segmentos disponíveis no eleitorado. Em última instância, porém, a liderança de
cada partido tem de escolher qual constelação de segmentos seria mais adequada,
dadas as restrições do partido, sua tradição, sua reputação e seu histórico. Ao
fazer essa escolha, cada partido constrói de fato seu público-alvo. Vale a pena
enfatizar que ao fazer essa escolha os partidos raciocinam em termos de grupos
de eleitores (como jovens, mães que trabalham, e assim por diante), e não em
termos de eleitores individuais25. Poder-se-ia dizer que cada um desses
públicos não existia como uma unidade antes da decisão do partido. Ao decidir a
composição do público ao qual querem se dirigir os partidos são não apenas
ativos, são também criativos.
Além disso, supondo que o público visado por determinado partido responda
favoravelmente em uma eleição, atendendo ao objetivo eleitoral do partido, o
partido não pode dar como certo esse apoio quando vier a próxima eleição.
Eleitores sem vínculo não votam em determinado partido apenas porque fizeram
isso na ocasião anterior. Portanto, rastrear os interesses dos eleitores ao
longo do tempo é igualmente decisivo. Para assegurar sua boa sorte eleitoral,
cada partido deve possibilitar que a composição de seu público-alvo mude (ainda
que marginalmente, por causa de restrições criadas pelo passado do partido) de
uma eleição à seguinte para se adaptar a mudanças nos interesses dos eleitores.
Em termos gerais, os partidos têm de mobilizar cidadãos em cada ocasião de
voto, tanto os levando - às vezes literalmente - aos locais de votação, quanto
atraindo a atenção e o interesse deles a cada vez. Ao passo que os fiéis
tradicionais a partidos votariam em "seu" partido a menos que tivessem um
motivo para não fazê-lo, o encargo da motivação mudou para eleitores
desvinculados: eles não votariam no mesmo partido em eleições sucessivas, ou se
absteriam de votar, a menos que fossem motivados a agir de outra forma.
De fato, vários estudos mostram que, longe de decair, os partidos reagiram ao
ambiente volátil gerado pela erosão das fidelidades partidárias tornando-se
mais proativos, ágeis e rápidos do que eram antes26. Há também evidências de
que essa transformação os tornou "mais cientes da opinião e das demandas dos
cidadãos"27. Na Europa Oriental, constatou-se que as posições políticas dos
partidos, tal como expressas em suas plataformas eleitorais, correspondiam
muito bem às orientações de seus apoiadores durante as décadas de 1970 e 1980.
A transformação dos partidos em organizações para fazer campanha não parece ter
diminuído sua capacidade de refletir anseios populares e de ligá-los à
formulação de políticas28.
A discussão precedente mostra que os partidos políticos em geral não têm
decaído. Eles permanecem fortes como organizações parlamentares e como
organizações para fazer campanha. O que mudou foi a relação de um número
crescente de eleitores com os partidos: há menos fiéis a partidos do que no
passado. Mas a fidelidade é só um dos tipos de relação com os partidos. Sua
característica distintiva é que ela motiva ações independentemente do contexto
em que essas ações ocorram. Em dada eleição o fiel ao partido vota em "seu"
partido por ligação afetiva, ou como um modo de expressar sua identidade social
e cultural, ou por hábito. Mas, seja qual for a motivação entre essas que
esteja operando, o voto dele não depende do contexto eleitoral particular em
que ele está agindo. Certamente, tais fidelidades duradouras a partidos
costumavam ser dominantes entre os eleitores quando os partidos funcionavam
como organizações de integração de massa, fornecendo redes sociais extensas
para grupos sociais bem definidos, fossem eles definidos por ocupação (como
trabalhadores de fábrica ou agricultores) ou por cultura (como o cristianismo).
Essa era a época do que chamo "democracia de partidos". Todavia, ligações
duradouras, baseadas em identidade e afetivas são apenas formas contingentes de
relacionamento com partidos. Elas se disseminam de forma generalizada em um
estágio particular de desenvolvimento socioeconômico e sob a influência de
subculturas particulares. Muitos dos eleitores de hoje podem ser desvinculados
de partidos e, no entanto, eles os usam em algumas circunstâncias.
Há boas razões para pensar que eleitores desvinculados se comportam dessa
maneira. Primeiro, nas sociedades industriais avançadas o enfraquecimento das
fidelidades partidárias foi particularmente pronunciado entre os segmentos
envolvidos politicamente e mais cultos da população29. Embora desvinculados de
partidos, esses cidadãos têm interesse em política e no resultado das eleições.
Segundo, pessoas não vinculadas a partidos ou que têm vínculos partidários
fracos parecem ser especialmente sensíveis ao caráter particular da eleição que
enfrentam. Elas votam quando o que está em jogo em determinada eleição é
percebido como muito importante (como quando há a perspectiva de elas
resultarem em uma mudança política) e quando os eleitores preveem que a disputa
eleitoral será acirrada. Mas eles se abstêm se alguma dessas condições não
ocorre30. Em contraste, os eleitores partidários participam em todas as
eleições independentemente de suas consequências previstas, e de esperar que os
resultados sejam apertados31. Portanto, em eleições parlamentares (já que essas
são dominadas por partidos), eleitores desvinculados votam em candidatos de
partidos, mas só quando o contexto lhes dá razões para votar. A questão-chave
aqui, porém, é que a decisão deles de votar em algum dos partidos é orientada
por fatores contextuais. Parece, então, que em algumas ocasiões os eleitores
desvinculados consideram os partidos úteis. Em outras palavras, para esses
eleitores os partidos são instrumentos que podem ou não ser empregados.
A noção de votação instrumental sugerida aqui deve, no entanto, ser entendida
em termos amplos. Pessoas que votam em partidos em eleições acirradas e que
envolvem questões muito importantes, mas não em outras, devem ser movidos por
considerações instrumentais. O voto deles deve ser motivado pelo desejo de
produzir algum efeito e de exercer algum tipo de influência. Senão, não se
explicaria por que eles votam só em tais circunstâncias. Mas isso não implica
que eles tenham uma ideia clara e precisa do resultado que desejam alcançar.
Nem implica que eles votem com base em um cálculo individualista de acordo com
o que é proposto pelas teorias-padrão de escolha racional do voto32. Eles agem
instrumentalmente no sentido de que seu voto é geralmente orientado no sentido
de efeitos e consequências. Essa ação instrumental pode ser ilustrada pela
expressão proverbial: "Votar para enviar uma mensagem". Cidadãos que votam para
"enviar uma mensagem" estão sem dúvida votando de modo instrumental. Seu voto
visa provocar um efeito. Não é uma ação expressiva. A motivação vem do efeito
previsto do voto, não da realização do ato de votar. Contudo, esse efeito não é
um resultado plenamente especificado33.
Os partidos políticos modernos sempre funcionaram como canais portadores dos
anseios do eleitorado34. Eles sempre foram, na realidade, ligações entre a
população e os ocupantes de cargos públicos. Mas os partidos de integração de
massa também desempenhavam muitas outras funções. Enviar mensagens às
autoridades públicas não era o único objetivo, nem mesmo o objetivo primário,
de seus eleitores. Os eleitores desvinculados, ao contrário, usam os partidos
políticos só como portadores de mensagens. Como os partidos ainda são fortes
nas arenas eleitoral e parlamentar, eles oferecem a eleitores desvinculados uma
série de canais disponíveis a ser usados de acordo com as circunstâncias.
Portanto, a diferença entre democracia de partido e democracia de público não é
que nessa última os partidos se tornaram obsoletos. A democracia de partido é
uma forma de governo representativo em que os partidos políticos são as
unidades fundamentais da vida política. Nessa forma os partidos refletem
clivagens socioeconômicas e culturais duradouras na sociedade. Os grupos
sociais gerados por tais clivagens são unidos pelas fidelidades duradouras de
seus membros. Cada partido pode contar com a fidelidade política desses
membros. Assim, cada partido constitui uma espécie de agência coletiva
unificada dotada de identidade duradoura. Nessas condições, os partidos podem
ser vistos como os sujeitos políticos fundamentais no funcionamento da
democracia representativa. Eles se alternam no governo ou compartilham o poder
(dependendo da natureza do sistema político) segundo os resultados das
eleições.
Na democracia de público, em contraste, os partidos ainda são decisivos, mas já
não são unidades bem definidas dotadas de identidade duradoura. Eles têm de
buscar ativamente o apoio dos eleitores a cada votação, ajustando seus temas de
campanha a interesses variáveis dos eleitores, e reconfigurando,
consequentemente, a composição de seu público-alvo. Ademais, mesmo que dado
partido continue a visar o mesmo público-alvo durante várias eleições, a
composição de seu apoio real está fadada a mudar, já que é improvável que as
reações dos diversos segmentos que formam esse público-alvo variem exatamente
da mesma maneira de uma eleição à seguinte. Portanto, os partidos já não podem
ser vistos como sujeitos políticos no sentido de que não têm identidade bem
definida e duradoura. Eleições sucessivas sempre alteram a composição de seu
apoio. Os partidos deixaram de ser sujeitos políticos também em outro sentido.
Para um número crescente de eleitores desvinculados, eles se tornaram apenas
instrumentos a ser empregados dependendo das circunstâncias.
Assim, na democracia de público os cidadãos participam das eleições dependendo
do contexto. E a composição do apoio a cada partido também varia de acordo com
as circunstâncias. Esse padrão de envolvimento dos cidadãos na política
específico do contexto se estende, todavia, para além do voto. Ele também
caracteriza a participação não eleitoral.
O AUMENTO DA PARTICIPAÇÃO POLÍTICA NÃO INSTITUCIONALIZADA
Na realidade, ao lado da erosão das fidelidades partidárias, a outra mudança
notável que ocorreu durante as últimas décadas é o aumento da participação
política não institucionalizada. Um número crescente de cidadãos, ao que
parece, participa de manifestações, assina petições ou então pressiona, por
suas reivindicações, diretamente os tomadores de decisão. Essas ações são mais
difíceis de medir do que a votação. Além disso, não há nenhum acordo entre os
pesquisadores sobre como exatamente as conceitualizá-las. Alguns autores se
referem a elas como "participação não eleitoral". Outros falam de "participação
não institucionalizada" ou de "participação não convencional". E outros ainda
preferem a expressão "política de protesto"35. A despeito dessas incertezas
conceituais, há pouca dúvida de que os modos de engajamento cívico evoluíram de
maneira significativa nas últimas décadas. Tanto levantamentos regionais (como
o Eurobarometer) quanto levantamentos mundiais (como as três ondas da World
Values Survey) mostram que números crescentes de cidadãos declaram ter de fato
se engajado em uma ou mais das seguintes atividades: assinar petições,
participar de manifestações, aderir a boicote de consumidores, aderir a greves
não oficiais e ocupar prédios ou fábricas36. Evidências de levantamentos
certamente sofrem de várias limitações. Todavia, a tendência exibida nesses
levantamentos é consistente demais ao longo do tempo, e (mais importante)
consistente demais entre diversos países, para ser descartada. É verdade também
que levantamentos são melhores para captar atitudes e valores do que o
comportamento real37. Mas estudos individuais por país do comportamento real
confirmam que ações como manifestações de rua têm crescido38. Geralmente,
estudos empíricos de democracias concordam que os repertórios da ação coletiva
mudaram na direção dessas formas não institucionalizadas de participação
política. Modos de ação e formas de organização que costumavam caracterizar
movimentos sociais antissistema na década de 1960 se normalizaram, tornando-se
parte do funcionamento comum dos sistemas representativos39.
Casos de participação política não institucionalizada parecem ter três
características principais. Primeiro, eles ocorrem episodicamente, dependendo
das oportunidades geradas por contextos particulares. Manifestações, ocupações
e greves não oficiais são normalmente provocadas por acontecimentos e
circunstâncias específicos. Cidadãos e ativistas participam dessas ações não
por fidelidade, nem por predisposição, mas primariamente porque uma
oportunidade de fazê-lo se apresenta40. Segundo, esses episódios de ação
coletiva se relacionam a questões específicas. Os cidadãos se mobilizam em
torno de uma questão que é de interesse particular deles, não de uma gama de
questões e decisões públicas. Ademais, as coalizões que se envolvem variam
dependendo da questão em jogo. Cada questão envolve diferentes públicos e
diferentes ativistas41. Nesse aspecto, os padrões de participação não
institucionalizada correspondem de certo modo aos padrões de participação
eleitoral analisados antes. Finalmente, ao participar dessas ações coletivas,
os cidadãos pressionam por suas reivindicações diretamente os tomadores de
decisão. Nisso, a participação política não institucionalizada parece se
desviar dos princípios da democracia representativa, e talvez pô-los em risco.
Na verdade alguns analistas interpretaram o aumento desse tipo de participação
como um sinal de crise na representação política.
Mas não é esse o diagnóstico formulado nos vários estudos comparativos
publicados na última década. É surpreendente notar que de vários ângulos todos
esses estudos enfatizam que a democracia representativa foi transformada, mas
não minada, pela crescente importância da participação política não eleitoral.
Em sua análise de países europeus ocidentais, Hans-Dieter Klingeman e Dieter
Fuchs demonstram que o aumento da participação não institucionalizada não é um
sinal de insatisfação com a democracia representativa. Embora a relação entre
cidadãos e o Estado tenha sido "transformada", eles argumentam, o apoio dos
cidadãos aos elementos estruturais centrais da democracia representativa não
foi erodido. Além disso, os autores sublinham que essa transformação das
ligações entre cidadãos e governo ocorreu "dentro da estrutura institucional
das democracias representativas". Os temores de crises, eles notam, derivavam
da subestimação da capacidade adaptativa das instituições representativas42. Em
uma análise mais recente que examina as maneiras como as democracias estão se
transformando por meio da expansão do acesso à tomada de decisão pública, os
autores observam de forma incisiva que isso é feito "de uma maneira que se
baseia nas instituições representativas, e não as substitui"43. Finalmente, em
seu estudo das democracias ao redor do mundo, Pippa Norris se concentra ainda
em outro aspecto. Ela destaca que os cidadãos de hoje não se tornaram apartados
da vida pública. O ativismo político não morreu, ela insiste, os cidadãos das
democracias não estão concentrados exclusivamente em seus assuntos privados.
Dessa perspectiva, o aumento das formas alternativas de ativismo parece até
rejuvenescer a democracia representativa. "Em suma", escreve Norris, "ao
contrário de suposições populares, os órgãos tradicionais que ligam os cidadãos
e o Estado estão longe de mortos. E, como uma fênix, a reinvenção do ativismo
cívico permite que energias fluam não apenas através de canais convencionais,
mas também de diversas vias alternativas"44. As democracias representativas de
fato foram capazes de acomodar o aumento da participação política não
institucionalizada.
Minha exposição anterior não mencionou esse fenômeno. Embora notasse que formas
não eleitorais de expressão política não são mais estruturadas de acordo com
clivagens partidárias (diferentemente do que se dá na democracia de partido),
erroneamente me concentrei em pesquisas de opinião, e não em manifestações ou
assinatura de petições, como a forma dominante de participação não eleitoral na
democracia de público. Portanto, a discussão precedente deve ser lida como uma
correção a minha análise original. Todavia, a exposição geral dos princípios do
governo representativo apresentada em meu livro contribui para explicar por que
a democracia representativa não é incoerente com algum grau de influência
direta dos cidadãos na tomada de decisão sobre políticas. Meu livro também
argumenta que as instituições representativas têm uma capacidade de adaptação
maior do que geralmente se supõe. Aqui vale a pena enfatizar dois pontos.
Primeiro, o governo representativo é um sistema complexo composto de vários
elementos. É importante ter em mente que, embora eleições recorrentes sejam um
mecanismo central desse sistema, elas não são seu único componente. Entre
outros elementos, incluem-se provisões para a discussão pública e, o que é mais
relevante para o presente contexto, garantias do que chamo neste livro
"liberdade de opinião pública", que é a liberdade de expressar publicamente
opiniões e de levá-las à atenção daqueles que governam. Como demonstra a
Primeira Emenda à Constituição americana, o "direito das pessoas de reunir-se
pacificamente e de petição ao governo para a reparação de injustiças" tem sido
parte do sistema representativo desde seu nascimento. Isso não quer dizer que o
que é considerado uma "reunião pacífica" foi fixado e não questionado desde o
início. Nem quer dizer que o direito a manifestar-se diante do Parlamento foi
sempre inconteste em todos os sistemas representativos. Bem ao contrário, tanto
o exercício real quanto o escopo desse direito foram objetos de debates e lutas
ardentes. Permanece, porém, o fato de que o governo representativo não foi
inventado como um sistema em que os representantes, uma vez eleitos,
substituiriam inteiramente os representados até a eleição seguinte. Os
cidadãos, entendia-se, reteriam o direito de fazer suas vozes ou queixas
ouvidas a qualquer momento45.
Além da Primeira Emenda à Constituição americana, os textos de duas figuras
importantes confirmam que desde seu estabelecimento o governo representativo
foi entendido como envolvendo uma expressão não eleitoral das pessoas. Em sua
clássica exposição das liberdades modernas, Benjamin Constant caracterizou
assim os direitos políticos dos cidadãos no governo representativo: "Finalmente
é direito de todos exercer alguma influência sobre a administração do governo,
seja elegendo todos os governantes ou governantes específicos, seja por meio de
representações, petições, demandas às quais as autoridades são mais ou menos
compelidas a dar atenção"46. De sua parte, Edmund Burke, comprometido como era
com a independência dos deputados em relação aos anseios de seus eleitores,
escreveu em uma de suas cartas: "As pessoas em geral têm seus órgãos por meio
dos quais podem falar ao Parlamento e à Coroa por uma petição respeitosa, e,
embora não com autoridade absoluta, mas com peso, elas podem instruir seus
representantes"47.
Em segundo lugar, o governo representativo é constitutivamente flexível. Reside
aí a fonte de sua adaptabilidade e resiliência. O sistema é flexível porque
alguns dos princípios que o organizam não são totalmente especificados,
particularmente no que diz respeito à influência dos cidadãos sobre as
políticas. Os princípios do governo representativo implicam que as preferências
dos cidadãos devem ter alguma influência sobre as políticas. Todavia, esses
princípios não determinam exatamente quanto peso os anseios dos cidadãos devem
ter. A representação implica que os governos sejam responsivos aos anseios dos
representados. Mas a responsividade admite graus, diferentemente do
assentimento, por exemplo. Quando os deputados são depostos pelo voto, eles não
devem ser responsivos ao veredicto dos eleitores. Devem cumpri-lo. O caráter
relativamente inespecífico da responsividade assume particular importância com
respeito a manifestações, petições e outras ações não eleitorais. Os governos
têm vários incentivos e oportunidades para levá-las em consideração. Mas quanto
peso eles precisam conferir a essas ações não é especificado. Portanto, há
espaço para ajuste e flexibilidade.
Grande parte da teorização que ocorre hoje sobre a democracia se baseia em uma
distinção entre democracia schumpeteriana, na qual os cidadãos escolhem
regularmente entre elites, mantendo-se quietos no meio-tempo, e democracia
participativa, em que os cidadãos tomam decisões políticas em todos os
momentos. Fazer a distinção entre esses dois tipos pode ser instrutivo, mas
exclui a democracia representativa, que não é nenhum deles.
* Publicado originalmente como posfácio a Manin, Bernard. Principes du
gouvernement représentatif. 2. ed. Paris: Flammarion, 2012, pp. 309-35.
** Revisão técnica de Fernando Limongi.
1 Ver, em particular, para mencionar alguns dos mais importantes desses
estudos: Klingeman, Hans-Dieter e Fuchs, Dieter (orgs.). Citizens and the
State. Oxford: Oxford University Press, 1995; Norris, Pippa
(org.). Critical citizens: global support for democratic governance. Oxford:
Oxford University Press, 1999; Pharr, Susan e Putnam, Robert
(orgs.). Disaffected democracies: what is troubling the trilateral countries.
Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000; Norris,
Pippa. Democratic phoenix: reinventing political activism. Cambridge: Cambridge
University Press, 2002; Cain, Bruce E., Dalton, Russell J. e
Scarrow, Susan E. (orgs.). Democracy transformed? Expanding political
opportunities in advanced industrial democracies. Oxford: Oxford University
Press, 2003.
2 Essa lista de funções dos partidos não pretende ser exaustiva. Nem
corresponde ao padrão de estrutura tripartite (partidos no eleitorado, partidos
como organizações, partidos no governo) encontrado na literatura, já que essa
estrutura não parece adequada para captar as mudanças pelas quais os partidos
passaram nas últimas décadas. As funções mencionadas aqui visam somente a
ilustrar a variedade de coisas que os partidos fazem, sugerindo que algumas de
suas atividades talvez não evoluam da mesma maneira que outras.
3 Ver em particular: Dalton, Russell J. e Wattenberg, Martin P. (orgs.).
Parties without partisans: political change in advanced industrial democracies.
Oxford: Oxford University Press, 2000.
4 Dalton, R. J. "The decline of party identifications". In: Dalton e Wattenberg
(orgs.), op. cit., pp. 19-36. O conceito de identificação
partidária foi tema de muito debate acadêmico. É suficiente observar aqui que,
embora a aplicabilidade da noção além dos Estados Unidos (onde ela teve origem)
fosse questionada, pesquisadores que executaram levantamentos em outros países
vieram a adotar variantes dela. O conceito e suas variantes têm em comum um
significado central que evolve dois componentes. Eles designam uma orientação
psicológica para determinado partido que é tanto duradoura (de algum modo
ligada ao senso de identidade própria da pessoa captado por perguntas como
"Você se considera próximo do partido X, Y, Z...?") quanto afetiva (que
consiste em sentimentos positivos em relação ao partido preferido, e não em
conhecimento, ou avaliação fundamentada dele). Esses dois componentes são bem
captados pela expressão "vínculo partidário", comumente usada em estudos
europeus ocidentais. Para uma breve resenha dos debates sobre a noção de
identificação partidária, ver Schmitt, Hermann e Holmberg, Sören. "Political
parties in decline?". In: Klingeman e Fuchs, op. cit., pp. 94-9.
5 Ver Dalton, Russell J., McAllister, Ian e Wattenberg, Martin P. "The
consequences of partisan dealignment". In: Dalton e Wattenberg (orgs.), op.
cit., pp. 38-42.
6 Ibidem, pp. 44-45.
7 Sobre a Alemanha, ver Scarrow, Susan E. "Embracing dealignment, combating
realignment: German parties respond". In: Mair, Peter, Müller, Wolfgang C. e
Plasser, Fritz (orgs.). Political parties and electoral change: party responses
to electoral markets. Sage, 2004, p. 91. Na França, vários
estudos documentaram a importância crescente da "votação intermitente",
particularmente entre os grupos de idade mais jovens. Ver Héran, François.
"Voter toujours, parfois... ou jamais". In: Cautrès, Bruno e Mayer, Nonna
(orgs.). Le nouveau désordre électoral. Paris: Presses de Sciences-Po, 2004,
pp. 351-66.
8 Isso é possível em graus variados na Austrália, na Alemanha, nos Estados
Unidos e na Suécia. Em todos esses países a cisão do voto cresceu nas últimas
décadas. Ver Dalton, McAllister e Wattenberg, op. cit., pp. 46-7.
9 Ibidem, pp. 48-9.
10 Norris, Democratic phoenix, op. cit., pp. 103-4.
11 Strøm, Kaare. "Parties at the core of government". In: Dalton e Wattenberg
(orgs.), op. cit., pp. 190, 204. O autor nota, porém, um leve
crescimento no número de independentes.
12 Ver Mair, Müller e Plasser (orgs.), op. cit., pp. 11, 265-6 ("Os partidos
tornam os líderes deles", escrevem os autores, p. 265). Ver também Farrell,
David M. e Webb, Paul. "Political parties as campaign organizations". In:
Dalton e Wattenberg (orgs.), op. cit., pp. 102-28.
13 As vantagens na competição eleitoral desfrutadas por partidos bem
estabelecidos foram destacadas em Katz, Richard S., Mair, Peter. "Changing
models of party organization and party democracy: the emergence of the cartel
party". Party Politics, vol. 1, no 1, 1995, pp. 5-28.
14 Ver Bowler, Shawn. "Parties in legislatures: two competing explanations".
In: Dalton e Wattenberg (orgs.), op. cit., pp. 157-79.
15 Essa é a explicação preferida por Shawn Bowler (ver acima) com base em
extensa documentação.
16 Essa linha de raciocínio sobre as causas da disciplina partidária nos
parlamentos foi iniciada pela obra de Gary Cox. Ver, em particular, Cox, Gary,
McCubbins, Matthew. Legislative Leviathan: Party Government in the House.
Berkeley: University of California Press, 1993. Cox e
McCubbins enfatizaram a reputação eleitoral do partido como o bem coletivo que
beneficiaria todos se eles pudessem resolver os dilemas da ação coletiva. É por
isso que contratam um "Leviatã" para controlá-los. Em obra mais recente,
Michael Thies propõe estender essa lógica a situações em que o bem coletivo
buscado pelos deputados de uma dada Fraktion é a promoção de alguma posição
política comum em um conjunto de questões centrais. Ver Thies, Michael. "On the
primacy of party in government: why legislative parties can survive party
decline in the electorate". In: Dalton e Wattenberg (orgs.), op. cit., pp. 238-
57.
17 Ver Bowler, op. cit., pp. 175-9. "Contudo, os partidos legislativos parecem
notavelmente estáveis", escreve o autor (p. 177).
18 Ver Strøm, op. cit., pp. 180-207, especialmente pp. 197-201. Ver também
Bowler, op. cit., pp. 167-8.
19 É claro que se pode argumentar que os partidos já não controlam várias áreas
de políticas, como as políticas regulatórias monetárias. Mas esses domínios de
políticas foram inteiramente (e deliberadamente) eliminados da esfera
representativa. Agências reguladoras independentes ou bancos centrais
independentes não foram criados como instituições representativas.
20 Ver Farell, David M., Webb, Paul. "Parties as campaign organizations". In:
Dalton e Wattenberg (orgs.), op. cit., pp. 102-28. Vários estudos documentaram
que os partidos se concentram cada vez mais em campanhas eleitorais e empregam
mais expertise profissional. Ver, por exemplo, Panebianco, Angelo. Political
parties: organization and power. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. Em seu livro, Panebianco argumenta que os partidos se
tornaram "partidos eleitorais-profissionais" (ver em particular o cap. 14).
21 Ver Scarrow, Susan E. "Parties without members?". In: Dalton e Wattenberg
(orgs.), op. cit., pp. 79-101. A autora destaca, porém, que o
declínio na filiação partidária deve ser interpretado com cautela. Ele pode ter
ocorrido primariamente entre os membros mais periféricos que nunca estiveram
profundamente envolvidos nas atividades regulares dos partidos. Com base em
vários estudos por país, parece que só 10% a 45% dos membros participam
regularmente das atividades de seus ramos locais (p. 95).
22 Ver Mair, Peter, Biezen, Ingrid van. "Party membership in twenty European
democracies, 1980-2000". Party Politics, vol. 7, no 1, pp. 5-21.
23 Ver Norris, Democratic phoenix, op. cit., pp. 119-34.
24 Se essa mudança foi acompanhada por um declínio na democracia
intrapartidária é tema de muito debate acadêmico. Ela é também difícil de
avaliar, já que os partidos modernos sempre combinaram envolvimento dos membros
e controle pela liderança partidária. Assim como o próprio governo
representativo, eles sempre foram instituições "mistas". Os partidos de
campanha de hoje parecem ser mais centralizados que seus homólogos anteriores
no que diz respeito à estratégia partidária. Ao mesmo tempo eles abriram os
processos de escolha de liderança e de candidatos aos filiados em geral, ou
mesmo a apoiadores fora da organização partidária. Sobre isso, ver Scarrow,
Susan E., Webb, Paul e Farrell, David M. "From social integration to electoral
contestation. The changing distribution of power within political parties". In:
Dalton e Wattenberg (orgs.), op. cit., pp. 129-53.
25 Ver Mair, Müller e Plasser (orgs.), op. cit., p. 12.
26 Ver, em particular, Mair, Müller e Plasser (orgs.), op. cit., especialmente
pp. 1-19, 265-8. Os autores escrevem, por exemplo: "Os partidos, ou pelo menos
suas lideranças, tiveram de aprender a se tornar mais flexíveis e responsivos"
(p. 266).
27 Ver Farell, David M., Webb, Paul. "Parties as campaign organizations". In:
Dalton e Wattenberg (orgs.), op. cit., p. 123.
28 Ver Klingeman, Hans-Dieter. "Party positions and voter orientations". In:
Klingeman e Fuchs (orgs.), op. cit., pp. 182-205. Um estudo
anterior estabeleceu que as plataformas eleitorais dos partidos são bons
preditores de suas prioridades legislativas quando no governo; ver Klingeman,
Hans-Dieter, Hofferbert, Richard, Budge, Ian. Parties, policies and democracy.
Boulder: Westview Press, 1994.
29 Dalton, R. J. "The decline of party identifications". In: Dalton e
Wattenberg (orgs.), op. cit., pp. 32-3. Dois outros pontos são dignos de nota.
Primeiro, a erosão dos vínculos partidários não foi acompanhada de apatia e
desinteresse político crescentes. Bem ao contrário, há evidências de níveis
crescentes de interesse político e interesse no resultado das eleições (ibidem,
pp. 56-7). Segundo, em um estudo anterior de países europeus ocidentais, os
autores concluíram que o enfraquecimento dos laços partidários não diminuía o
apoio à democracia. Ver Klingeman, H. D., Fuchs, D. "Citizens and the State: a
relationship transformed". In: Klingeman e Fuchs (orgs.), op. cit., pp. 428-35.
30 Ver Franklin, Mark N. Voter turnout and the dynamics of electoral
competition in established democracies since 1945. Cambridge: Cambridge
University Press, 2004 (ver em particular pp. 163-4). Uma das
afirmações centrais no livro de Franklin é que o "caráter particular" de cada
eleição impulsiona amplamente variações no comparecimento dos eleitores para
votar. Esse caráter particular é definido pelos dois critérios mencionados aqui
(percepção de que há questões muito importantes em jogo e expectativa de
resultados apertados). A teoria do comparecimento de Franklin inclui também
outras afirmações. Note que, em seu estudo das democracias ao redor do globo,
Pippa Norris chega a uma conclusão muito semelhante no que diz respeito a
variações no comparecimento. Ver Norris, Democratic phoenix, op. cit., pp. 69-
72.
31 Embora aparentemente intuitiva, essa conclusão é importante. Alguns estudos
sugerem que a erosão das fidelidades partidárias causa menor comparecimento dos
eleitores para votar porque o vínculo partidário (ou identificação partidária)
tem uma correlação estreita com a participação eleitoral no nível individual.
Essa visão pode ser encontrada, por exemplo, em Wattenberg, Martin P. "The
decline of party mobilization". In: Dalton e Wattenberg, op. cit., pp. 64-76.
Franklin afirma, em contraste, que: "Portanto, em estudos individuais que não
levam em conta o caráter das eleições, a função da identidade partidária é mal
entendida. Geralmente ela é vista como um dos fatores que geram comparecimento
elevado, mas não é isso que ocorre. Em eleições com baixo comparecimento, a
identificação partidária é um fator que evita que o comparecimento caia ainda
mais, mas com toda certeza não ajuda a elevar o comparecimento em uma eleição
em que o comparecimento é alto" (Franklin, op. cit., p. 164). Em outras
palavras, a identificação partidária afeta o comparecimento em eleições onde há
pouco em jogo e/ou naquelas em que a disputa não é muito apertada.
32 Essas teorias, como se sabe, falham em explicar por que as pessoas votam.
33 Em sua teoria do comparecimento dos eleitores, Mark Franklin destaca a
importância de motivações como "enviar uma mensagem" ou "dar um mandato".
Todavia, sua perspectiva é um pouco diferente da que estou assumindo aqui. Ver
Franklin, op. cit., pp. 40-2.
34 Ver, por exemplo, Kircheimer, Otto. "The transformation of European party
systems". In: Lapalombara, Joseph, Weiner, Myron. Political parties and
political development. Princeton: Princeton University Press, 1966, pp. 177-
200. Kircheimer argumenta que, entre outras funções, o
partido opera como um "portador de mensagens" (p. 190).
35 Um dos estudos mais completos dessas ações (em países europeus ocidentais),
aquele conduzido por Richard Topf, é intitulado "Beyond electoral
participation" (In: Klingeman e Fuchs, op. cit., pp. 51-95). Os organizadores
desse volume, de sua parte, usam a expressão "participação não
institucionalizada" (ver Klingeman, H. D., Fuchs, D. "Citizens and the State: a
relationship transformed". In: Citizens and the State, op. cit., especialmente
pp. 422-3, 428-32). "O aumento observado na participação não
institucionalizada em praticamente todos os países", escrevem esses autores, "é
a conclusão mais inequívoca neste volume" (p. 431). Em seu estudo das
democracias ao redor do mundo, Pippa Norris emprega a expressão "política de
protesto" e ao mesmo tempo questiona se ela ainda é apropriada hoje. Ver
Norris, Democratic phoenix, op. cit., capítulo 10, pp. 188-212 (ver em
particular pp. 190-1).
36 Para países europeus ocidentais, ver em particular Topf, R. "Beyond
electoral participation". In: Klingeman e Fuchs (orgs.), op. cit., pp. 51-95.
Para democracias no mundo inteiro ver Norris, Democratic phoenix, op. cit., pp.
194-202.
37 Enquanto estudos anteriores se concentravam no "potencial de protesto" dos
respondentes fazendo perguntas como "Você poderia participar de
manifestações?", as análises mais recentes mencionadas aqui se concentram
naqueles atos que os respondentes dizem que de fato praticaram. Sobre isso ver
Norris, Democratic Phoenix, op. cit., p. 194.
38 Para a França, ver, por exemplo, o meticuloso estudo de Olivier Fillieule,
Stratégies de la rue. Les manifestations dans la France des années 1980. Paris:
Presses de Sciences Po, 1996.
39 Ver Tarrow, Sydney. "Mad cows and social activists: contentious politics in
the Trilateral countries". In: Pharr, Susan, Putnam, Robert (orgs.).
Disaffected democracies: what's troubling the Trilateral Countries. Princeton:
Princeton University Press, 2000, pp. 270-90. Sobre o
surgimento de novas formas de participação política, ver também Dalton, R. J.,
Scarrow, S. E., Cain, B. "New forms of democracy? Reform and transformation of
democratic institutions". In: Cain, Dalton, Scarrow (orgs.), op. cit., pp. 1-
20.
40 Ver Norris, Democratic Phoenix, op. cit., p. 194. A importância da estrutura
de oportunidades figura com destaque nas análises de movimentos sociais.
41 Ver, em particular, Tarrow, op. cit., p. 289.
42 Klingeman, Fuchs, "Citizens and the State...". In: Klingeman e Fuchs
(orgs.), op. cit., pp. 437 (ênfase no original), 434.
43 Dalton, R. J., Cain, B. E., Scarrow, S. E. "Democratic publics and
democratic institutions". In: Cain, Dalton e Scarrow (orgs.), op. cit., p. 252.
44 Norris, Democratic phoenix, op. cit., pp. 222-3.
45 Ver capítulo V de Princípios do governo representativo, "Liberdade de
opinião pública".
46 Ver Constant, Benjamin. "The Liberty of the Ancients compared with that of
the Moderns" [1819]. In: Political writings. Organizado por Biancamaria
Fontana, Cambridge: Cambridge University Press, 1988, p. 311.
A ênfase é minha.
47 Burke, Edmund. "Third Letter on a Regicide Peace" [1797]. In: Select works
of Edmund Burke. A new imprint of the Payne Edition. Prefácio e nota biográfica
de Francis Canavan. Indianapolis: Liberty Fund, 1999, 4 vols., vol. 3, p. 238.