Voz, Sexo e Abismo: Alfonsina Storni e Horacio Quiroga
Voy a dormir
Dientes de flores, cofia de rocio,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos encardados.
Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.
Déjame sola: oyes romper los brotes...
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases
para que olvides... Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido...
Alfonsina Storni, La Nación, 26 de outubro de 1938.
Alfonsina Storni (1892-1938) e Horacio Quiroga (1878-1937) são escritores
profissionais emblemáticos do campo literário argentino, nas três primeiras
décadas do século XX, numa conjuntura em que o ofício letrado respondia às
necessidades de uma fervilhante indústria cultural de impressos. Prensados
entre o rechaço movido pelos líderes da vanguarda martinfierrista e a adulação
concedida pelos periódicos de ampla tiragem, eles deram feição inovadora a
gêneros canônicos por meio de linguagens ajustadas às preferências do público
emergente e aos moldes imperativos da mídia impressa. Outsiders aos olhos de
Borges e congêneres; ícones de uma pujante indústria cultural que se espraiava
em variados gêneros e formatos expressivos. Embora tivessem se amoldado às
oportunidades de trabalho na imprensa e nas revistas de variedades - a
coqueluche do mercado de publicações destinadas à massa de leitores de origem
imigrante -, acolheram tais apelos com o bagaço de vidas atormentadas. A
repercussão comercial e artística dessa desova literária heterodoxa incomodou
os baluartes da vanguarda portenha que, em inúmeras ocasiões, não hesitaram em
depreciar o valor de temíveis concorrentes. Na pele de forasteiros recém-
integrados à cena portenha, eles responderam aos intentos de desqualificação
com recursos políticos e literários ao seu alcance, juntando a excelência de
letrados profissionais à entonação candente do pesadelo privado.
Meu interesse por Alfonsina e Quiroga tem a ver com a condição de escritores
menores a que foram relegados por largo tempo pela história e pela crítica
literária, numa conjuntura de expansão da indústria cultural de que se tornaram
baluartes. A condição marginal favorece a visada do campo literário em gestação
pelo flanco de voz dos ilegítimos, pela balança de experiências dissonantes,
pela bainha de méritos estéticos denegados. Pretendo, de um lado, esmiuçar as
condições que viabilizaram a legitimação contestada de heróis culturais em
colisão com o establishment dito inovador e, de outro, evidenciar de que modos
essas trajetórias acidentadas supriram a matéria-prima vazada em artefatos
literários reticentes aos parâmetros vigentes. Alfonsina e Quiroga foram
inovadores sem o saber, dando voz a vivências chocantes em relação ao
imaginário romântico-nacionalista da elite criolla.
O itinerário insólito dessa parelha de escritores permite rastrear o vínculo
entre o sofrimento de perdas sucessivas - de lastro material, de afetos, de
parceiros, de reconhecimento - e um projeto literário imerso em idiossincrasias
temáticas e linguagens destoantes. Alfonsina levou ao paroxismo o acerto de
contas da mulher pobre e desprotegida com o desgosto amoroso que enfrentou com
fibra e valentia. Quiroga, por sua vez, erigiu aos trancos um universo
ficcional inquietante no qual buscou decantar a enfiada de lutos vividos em
registro de culpa e expiação.
No início dos anos de 1920, eles se tornaram amigos íntimos, amantes, em
convívio num círculo de artistas, letrados e editores; liam e comentavam o que
escreviam, discutiam projetos, trocavam livros, ideias, desgostos; nos últimos
anos de vida, ficaram gravemente doentes na mesma época. O suicídio dele
dilacerou Alfonsina, mas, quem sabe, desbastou a resistência que ainda a
impedia de ousar fazer o mesmo. O fato de ambos terem sido vitimados pelo
câncer, então incurável, apressou a decisão autoral do aniquilamento. Foram
sujeitos apaixonados que não se deixaram abater, desde os desenganos da
juventude até o desfecho do drama. A exemplo de tantos artistas e escritores
contemporâneos, a vida e a obra de Alfonsina e de Quiroga se mesclam num
sorvedouro intragável em que circunstâncias externas, sentidas por eles como
sendo em parte de sua responsabilidade, modelaram a redenção como projeto
literário e sublimação.
Não obstante, em virtude das exigências prementes em que sucedeu a
concretização das veleidades literárias de ambos, a indústria cultural jogou
papel decisivo nessa partida. Assim como tiveram de se curvar às demandas
compulsórias que lhes faziam os veículos em que trabalhavam, souberam sujeitar
os materiais de divulgação a seu respeito aos lances promocionais que foram
lhes garantindo a cotação de celebridades. Atendiam à agenda do momento, nas
crônicas e intervenções na imprensa; aprenderam a se valer da mídia para
amplificar a presença na cena cultural e espicaçar a curiosidade pelos seus
feitos orais e por escrito. A declamação, por exemplo, prática em grande voga,
proporcionou a Alfonsina chaves de composição, oportunidades de franqueza
confessional e o expediente quase infalível de sedução performática. As
exigências temáticas e estilísticas postas pela indústria cultural se revelaram
tão ou até mais decisivas do que as injunções derivadas das origens de classe.
Dito de outro modo, o eco classista reverberou, acintosamente, mediado pelas
engrenagens engessadas da mídia. A jovem provinciana sem recursos e o herdeiro
periclitante tiveram de calibrar os tóxicos aptos a modelar o ímpeto criativo
palatável ao gosto da freguesia sem pedigree.
VIDAS DE ROMANCE
Horacio Silvestre Quiroga era o quarto filho de Prudencio Quiroga, homem de
posses e detentor do cargo honorário de vice-cônsul argentino, na cidade
uruguaia de Salto, onde vivia a família1. Quando Horacio tinha um ano, o pai
disparou o tiro que o matou, não se sabe se de modo deliberado. Presenciou
outro drama aos dezoito anos: o padrasto, mesmo imobilizado por um derrame,
suicida-se com um tiro de escopeta na cara, deflagrado pelos dedos do único pé
ainda ágil.
Em 1898, Quiroga e o amigo (e futuro biógrafo do escritor) Brignole fazem a
primeira visita ao poeta Leopoldo Lugones, em Buenos Aires, dando início à
amizade duradoura que pesaria em seu futuro pessoal e profissional. Entre março
e junho de 1900, o jovem Quiroga viajou pela Europa, tendo redigido um diário
dessa estada atribulada2. Em 1901, seus irmãos Pastora e Prudencio falecem de
febre tifoide, no Chaco argentino.
De volta a Montevidéu, vive por um tempo em companhia de amigos, aos quais se
junta o primo de um deles, Federico Ferrando; fundam uma agremiação literária,
experimentam drogas (haxixe); datam do período os primeiros escritos. Em 1902,
sucedeu o segundo evento trágico que reaprumou tudo. Ao examinar um fuzil em
casa de um amigo, Quiroga mata sem querer Federico Ferrando; é preso, mas logo
posto em liberdade, por conta da rede de apoio; deixa o país e se hospeda em
casa da irmã mais velha, em Buenos Aires. A sequência de desastres vai obrigá-
lo a mudar planos e viabilizá-los com o remanescente da herança paterna.
Em 1903, convidado por Lugones, integrou a expedição de estudos subvencionada
pelo Ministério da Educação Pública, liderada pelo mestre, às ruínas jesuíticas
de San Ignacio, em Missiones. A viagem motivou a virada no sentido da
existência. Tendo adotado a cidadania argentina, a que tinha direito pela
ascendência paterna, radica-se em Buenos Aires. Já em 1904, entusiasmado pelo
sonho de se embrenhar na selva, gasta o legado ao instalar-se na região do
Chaco, em sítio afastado, a sete léguas da capital regional. Começa a construir
o rancho; planta dez hectares cuja colheita é dizimada pela seca; ao longo de
dois anos, escreve alguns contos. As empreitadas econômicas malsucedidas, os
inventos abortados e o resguardo literário foram, desde o começo, os suportes
contraditórios dessa aventura em terra inóspita. Difícil deslindar por que
razões ele equacionou assim o esquadro de sobrevivência.
Estavam lançadas as sementes do projeto existencial, norteado pelo engate entre
lides manuais e intelectuais, exposto às intempéries e catástrofes, vividas
como experimentos probatórios. O fracasso econômico não liquidou o desígnio de
dar continuidade a esse estilo de vida alternativo, a criar do zero "um mundo
completo e ordenado a sua medida"3. Em outubro de 1905, vende a propriedade no
Chaco e passa a dividir o apartamento, em Buenos Aires, com Brignole, recém-
doutorado na Europa. Era o começo do envolvimento na vida literária: frequenta
os cafés e as reuniões nas casas de Lugones e de Gálvez; colabora em
periódicos, Caras y Caretas, El Hogar, Atlántida, Nosotros, Papel y Tinta. O
único livro dessa mexida, El crimen del otro (1904), enfeixa narrativas
modernistas, calcadas em procedimentos e temáticas inspirados em Edgard Allan
Poe.
Alfonsina Carolina Storni nasceu na localidade de Sala-Capriasca, na Suíça
italiana, para onde a família havia se refugiado no intuito de curar a
depressão e o alcoolismo do pai4. Ela era a quarta filha, concebida apesar do
estremecimento conjugal, em meio a sinais iminentes de derrocada material no
âmbito doméstico. Entre fins da década de 1870 e 1883, os irmãos Storni,
procedentes de Gênova - por ordem de idade, Ángel, Pablo, Antonio e Alfonso, o
último o progenitor da escritora -, foram se estabelecendo na cidade argentina
de San Juan, a mais de mil quilômetros da capital, em província afastada cuja
incorporação à ferrovia andina ocorreria apenas em 1885. Os Storni prosperaram
depressa com os lucros auferidos em diversos negócios: fábricas de soda e de
cerveja; construtora; mina de prata; serviços de intermediação financeira
(usurários). Os irmãos mais velhos nasceram nos anos de bonança familiar, por
volta do biênio 1887-8; logo em seguida, a saúde abalada do pai motivara a
temporada na cidade suíça de onde provinha o clã.
Alfonsina tinha quatro anos ao regressar à Argentina, em companhia da mãe, três
anos após a volta do pai, que viera cuidar de sua parte na divisão do
patrimônio familiar. Embora tenha recebido o feminino do nome paterno, decerto
um consolo que fizesse o pai recobrar ânimo, fora deixada com a mãe em situação
de abandono. O falecimento do tio Antonio (1895) havia desencadeado rixas em
torno do inventário, quando os irmãos Storni tinham se endividado pela compra
de máquinas e imóveis. A crise econômica familiar se intensifica entre 1896 e
1900, ano em que os pais se mudam para Rosario em busca de alento financeiro e
respiro profissional. Na chegada, Alfonsina frequenta um colégio prestigioso de
freiras, mas tem de interromper os estudos com a falência do pai. Só voltaria à
escola sete anos depois.
Valendo-se do pouco que sobrara, o pai investe em empreitadas comerciais: um
café próximo à estação ferroviária; outro botequim com boliche. Com dez anos,
Alfonsina lavava pratos, servia as mesas, em situação de penúria e humilhação.
Nada deu certo. A família passa a depender dos trabalhos esporádicos da mãe:
aulas particulares, emprego operário, balconista. O pai se afunda em desespero.
Desde mocinhas, Alfonsina e a irmã ajudam nas despesas como vendedoras em lojas
de modas. A morte do pai (1906) encerra o ciclo de descenso sem bússola.
Passados dois anos, a mãe se casa com um contador ativo em Rosario, também
imigrante de origem italiana. O aperto material acaba em despejo, a família se
transfere para Santa Fé, onde a mãe reabre sua escola com a ajuda de Alfonsina.
Passara da condição de menina protegida à de prestadora de serviços. Havia
perdido o pai, o prestígio familiar, o conforto, o acesso à educação, fora
obrigada, de repente, a improvisar-se como peça de reposição na divisão do
trabalho doméstico. A penosa aprendizagem de desclassificação, de
desmoralização, de destituição, será o insumo vibrante do trabalho poético.
Ao longo de 1908, desejosa de se livrar do confinamento familiar, Alfonsina se
junta a uma companhia de teatro em giro pelas províncias. Após trabalhar como
zeladora escolar, ela regressa a Rosario, em 1911, e retoma os estudos para a
carreira docente na Escola Elementar. Nessa fase penosa de conclusão do curso
normal, prestes a ingressar no mundo adulto, Alfonsina se enamora de um homem
casado, jornalista e político conhecido na cidade. Grávida, relegada e decidida
a ter o filho, ela viaja em definitivo para Buenos Aires, com apenas dezenove
anos. Não tinha emprego nem relações, nenhum pecúlio, somente o diploma.
Ao contrário das privilegiadas contemporâneas de ofício - Delfina Bunge de
Gálvez, Nydia Lamarque, Norah Lange, Victoria Ocampo -, a normalista
interiorana tinha apenas a escolaridade adquirida com tropeços no curso normal.
Era um trunfo modesto se comparado ao cabedal requintado das escritoras
pertencentes à elite portenha, acostumadas a viagens ao exterior, fluentes em
francês, cujas famílias cosmopolitas residiam na capital, protegidas pela
parentela, pelo casamento e pela generosidade condescendente dos mentores
letrados. O saldo dessa desigualdade era a injunção inarredável: Alfonsina
tirava o sustento do trabalho intelectual.
Na fase de adaptação na capital do país, prestou diversos serviços: caixeira em
farmácia, em loja de departamentos; datilógrafa e redatora de anúncios em
importadora. Aos vinte e seis anos, assina uma coluna fixa na revista La Nota,
divulga uma novela no semanário Mundo Argentino e, mais importante, faz a
estreia poética, La inquietud del rosal5. Nos anos subsequentes, reparte o
tempo entre o trabalho docente e a atividade literária. A recepção crítica
favorável e o relativo sucesso de público da coletânea ampliaram o círculo de
sociabilidade. Aproximou-se do grupo de letrados da revista Nosotros - onde
divulga poemas -, do qual participam alguns dos melhores amigos: Roberto
Giusti, Alfredo Bianchi, Horacio Quiroga, Arturo Capdevilla, Manuel Gálvez,
Fernández Moreno. Os livros seguintes - El dulce daño (1918)6,
Irremediablemente... (1919)7 e Languidez (1920)8 - foram publicados com
chancela da Cooperativa Editorial Ltda. de Buenos Aires, da qual eram
acionistas Gálvez, Quiroga, Benito Lynch e a própria Alfonsina, os três últimos
como minoritários. Nessa altura, passa a frequentar as reuniões na residência-
ateliê do jovem aquarelista Emilio Centurión, onde se reúnem artistas e
escritores do que seria designado grupo Anaconda. Por seu intermédio,
diversifica o rol de periódicos em que trabalha - Caras y Caretas, Babel - e
assume coluna fixa no suplemento de artes e letras do diário La Nación.
Tais coordenadas permitem reconstruir o mercado de oportunidades que conecta
esses letrados à indústria cultural nascente, universo de sociabilidade no
interior do qual toma feição o trabalho literário e jornalístico de Alfonsina.
Ela afia o repertório expressivo ao lidar, ao mesmo tempo, com formatos sui
generis: versos rimados e melodiosos, para leitura dramática em recitais de
declamação; crônicas em linguagem desempenada que abordam assuntos de interesse
de um público bastante heterogêneo. A despeito do encaixe em tradições
distintas, tais modalidades textuais dialogavam entre si, inclusive por conta
da superposição de audiência.
CELEBRIDADES LITERÁRIAS
As colunas de Alfonsina Storni em La Nota e em La Nación abordam os tópicos
candentes da agenda feminista da época e discutem os impasses então enfrentados
pelas relações de gênero, no âmbito doméstico, no mundo do trabalho, na vida
amorosa e no espaço político9. A força persuasiva de Alfonsina se apoia em
materiais autobiográficos e no recurso contumaz aos faits divers, às manchetes
do noticiário, à cobertura do cotidiano.
A revista La Nota, editada em Buenos Aires entre 1915 e 1921, era um periódico
despretensioso de divulgação cultural, em que intelectuais de renome escreviam
sobre literatura, política internacional, faziam escorços biográficos, e onde
inseriam poesias, contos e fragmentos de novelas prestes a sair em livro10. A
revista, com certo viés semi-intelectual, teria surgido como resposta pacifista
às pretensões expansionistas da Alemanha. Havia empenho em cultivar a conversa
com o leitor, cujas cartas e artigos reativos a matérias publicadas encontravam
espaço garantido.
Alfonsina foi convidada a colaborar na página de assuntos femininos, em coluna
fixa intitulada "Feminidades" ou "Vida feminina", entre março e novembro de
1919. Antes disso, ela já se fazia presente com poemas, escritos em prosa e
aforismos, mantidos em paralelo à coluna. O ano de 1919 assinalou inflexão
importante do envolvimento de Alfonsina na cena cultural portenha. Ela havia
publicado o terceiro livro de poemas, Irremediablemente..., de enorme impacto
na crítica e na imprensa; continuava contribuindo em inúmeros periódicos; já se
tornara autora premiada; circulava em panelas literárias e se ligou ao pessoal
do Partido Socialista; dava recitais de poesia com regularidade. O convite para
assumir a coluna, fazendo jus à remuneração, atestava o status já alcançado e
lhe trazia segurança profissional e financeira.
As crônicas em La Nota reuniam textos em defesa da agenda feminista da época,
escritos de feitio autobiográfico assinados por supostas leitoras e artigos
anedóticos em torno de situações da vida cotidiana. Uma crônica instigante -
"La carta ao Padre Eterno" - enseja insólita declaração de pertencimento.
Alfonsina frisa a condição de mulher pobre e os efeitos disso sobre as
perspectivas de vida, em meio a cortantes alusões a diferenças de classe.
Lamenta a dificuldade em pronunciar línguas estrangeiras; se insurge contra
doutrinas intelectuais justificadoras da pobreza; evidencia a proximidade entre
as imagens suntuosas de Deus e a indumentária dos ricos; queixa-se de não
possuir agasalhos adequados ao inverno.
Sustenta a defesa entusiástica e incondicional do programa feminista, buscando
infundir veracidade ao texto pelo apelo à ironia, ao subentendido, ao lugar-
comum que incomoda, ao clichê que converte uma personagem ou uma cena em objeto
de ridículo. Poder-se-á resumir o cerne temático dessa provocação ao exame
sarcástico e por vezes cruel de estereótipos do ideal feminino. As crônicas
alternam assuntos genéricos - o casamento, o adultério, o divórcio, nem sempre
nessa ordem - a figurações de homens e mulheres no desempenho de papéis nessas
modalidades de contrato. As noivas, os maridos, a mulher balofa, a esposa
traída, suportes críveis de ilusão e decepção amorosa. A cronista se vale
amiúde de aportes autobiográficos - a mãe solteira sem direitos legais, o filho
desprovido de pensão paterna, a mulher repudiada pelos homens - de modo a
salientar o tônus de verdade das tomadas de posição.
Entre abril de 1920 e julho de 1921, Alfonsina foi responsável pela coluna
"Bocetos femininos" no jornal La Nación, um dos portentos da imprensa
argentina11. Em vez de seção feminina integrada aos cadernos do jornal, a
coluna faz parte do suplemento dominical em página dupla consagrada à "mulher
moderna". A colunista adotou o pseudônimo masculino Tao Lao, autor de um
clássico da filosofia chinesa, cuja tradução em espanhol fora publicada em
1916, com sucesso retumbante junto à inteligência. Tal escolha configurou uma
voz autoral apaziguada, o duplo do ancião oriental sem dogmatismo, narrador
tolerante, magnânimo e isento de viés sexual. A rigor, por se tratar de
personagem dotado de qualidades e inclinações bastante distintas das de
Alfonsina, Tao Lao constitui de fato um heterônimo.
As crônicas veiculadas em La Nación atingiram um público feminino bem mais
amplo e mereceram cuidados na modelagem discursiva de um locutor culto,
desapegado das pulsões da carne. Afora o desígnio de conferir autoridade
estrangeira à análise, de lhe instilar a aura de sabedoria associada a um
repertório consagrado, vale a pena apreciar as vantagens da assunção de um
duplo forasteiro, capaz de observar, com desprendimento e argúcia, a temática
feminista em pauta. Em vez da tinta politizada de antes, as crônicas empreendem
a reconstrução ficcional de estereótipos femininos fortemente sexuados,
qualificados por critérios de idade, de instrução e de renda, atuantes no
mercado de trabalho portenho. Entenda-se a expressão no sentido amplo de espaço
social em que mulheres negociam a existência em diferentes domínios de
experiência - ocupacional, material, conjugal, espiritual.
Após abrir a série com a parábola em torno de "heroínas" destacadas em
profissões improváveis, estatisticamente insignificantes, Alfonsina elabora a
exegese bombástica da divisão do trabalho inerente à profissão de aquarelista
em artigos de venda corrente - leques, postais, cartazes, caixinhas. A maioria
dos textos se empenha em esboçar um ponto de vista inusitado sobre o trabalho
feminino, ora mirando a excepcionalidade, ora a condição servil, ora fazendo
graça das ocupações femininas padronizadas. A datilógrafa, a normalista e a
costureira por conta própria são tipos manietados, confinadas em reboliços
cotidianos que afligem o leitor como se fossem clausuras prisionais. A
escritora discorre ainda sobre os afazeres das mulheres burguesas, dondocas
vaidosas e consumistas, freguesas vespertinas nas lojas de departamentos,
protagonistas do mundo refratário ao trabalho. No outro extremo da hierarquia,
o agito das que batalham em profissões femininas majoritárias na classe
trabalhadora - empregadas domésticas, professoras, telefonistas, enfermeiras,
entre outras. O travo de classe é o toque endiabrado da cronista.
O material confessional aflora os tormentos que atazanam a escritora. O artigo
"La mujer bella", por exemplo, elabora em torno do embate entre corpo e alma,
buscando valorar a dimensão espiritual da formosura. Em suas palavras, a mulher
brindada pelos dotes do pensamento "há de ser senhor da vida, como terá sido
alguma vez a beleza plástica, exterior, decorativa"12. "Por qué las maestras se
casan poco" deixa entrever a posição em falso em que Alfonsina se encontrava.
Ciente das vantagens e do prestígio associado ao capital cultural amealhado por
meio da escolaridade, Alfonsina designa como óbice incontornável ao casamento
das professoras a insuperável dissonância de status. Elas estariam prensadas
entre os de baixo, cujos varões lhe parecem aquém de suas expectativas, e os de
cima, os profissionais liberais, para os quais elas não cumprem os requisitos
mínimos de renome familiar e patrimônio material. A origem imigrante da
população argentina serve de mote a uma taxativa autopromoção étnica.
Entretanto, o rastreamento dos tópicos abordados acaba por evidenciar as razões
estruturais capazes de explicar as vicissitudes por que passava a mulher
argentina. As novas relações de gênero e as transformações da condição feminina
são referidas à crise da família e aos empecilhos à reprodução tradicional de
papéis na divisão social e sexual do trabalho. Outras passagens frisam a
influência crescente exercida pelas mídias florescentes na indústria cultural.
O cinema ocupa lugar de destaque nesse imaginário, ao exercer um formidável
efeito-demonstração na difusão de estilos de consumo, de paradigmas atraentes
de gênero, de representações e utopias de felicidade.
Horacio Quiroga equaciona em chave distinta o relacionamento profissional com a
indústria cultural. Embora tivesse aprontado textos sob encomenda envolvendo
extensa pauta de assuntos que lhe foram sugeridos pelos editores, o sustento
provinha da escrita de contos, em ritmo acelerado, e dos ganhos auferidos em
cargos públicos, primeiro na atividade docente, em seguida exercendo funções
burocráticas no corpo diplomático uruguaio. O quinhão herdado facultou a compra
de propriedades e dos equipamentos indispensáveis à prática de seus hobbies -
marceneiro, ceramista, apicultor, destilador, proprietário rural -, o homem de
mil talentos e habilidades que ele converteu em sujeito miraculoso de um
projeto de redenção13.
Já havia publicado antes em revistas portenhas, mas somente após o retorno a
Buenos Aires, em 1905, com o fracasso na região do Chaco, Quiroga vai se lançar
por inteiro na vida literária. Frequenta tertúlias semanais em casa de Lugones,
o mentor da confraria que passaria a integrar como irmão maior14; inicia a
colaboração em Caras y Caretas e, em seguida, em El Hogar, Atlántida, Nosotros,
Papel y Tinta, bem como no jornal La Nación. Por intercessão de Lugones, é
nomeado professor de língua e literatura castelhana numa escola normal da
capital. Por enquanto, os contos e o trabalho docente lhe bastam como receita;
continua solteiro e esperançoso de garfar recursos familiares para um segundo
projeto de vida alternativa, enfurnado com a natureza.
Em 1906, com auxílio pecuniário materno, adquire uma propriedade perto de San
Ignacio, em Missiones; aí ele constrói o galpão-oficina-laboratório e a
moradia, iniciativas que exigem estada prolongada entre novembro de 1908 e
fevereiro de 1909. No ano anterior, a novela Historia de un amor turbio sai em
livro com o relato Los perseguidos. Aos trinta e um anos, casa-se com uma ex-
aluna da Escola Normal, adolescente de dezoito anos, e se embrenha na selva por
muitos anos. A sogra e uma amiga devota acompanham o casal, fixando residência
na vizinhança do escritor. A presença invasiva da sogra e o choque de
expectativas entre cônjuges com experiências de vida tão díspares acirraram o
enfrentamento conjugal. A mística da vida selvagem tampouco deve ter aplacado
as resistências da mulher. Nessa segunda estada prolongada, Quiroga teve dois
filhos15, continuou comprando terras com o fito de explorar erva-mate e viveu à
custa de contos veiculados em revistas de ampla circulação.
A leitura da correspondência permite acompanhar sucessivos contratempos em
múltiplas iniciativas produtivas e, nas entrelinhas, a contabilidade atenta dos
rendimentos que lhe garantia a mídia impressa. O famoso conto La gallina
degollada, publicado a primeira vez em julho de 1909, aborda os
desentendimentos de um casal que decerto se assemelhavam ao desacerto conjugal
do autor que então tomava vulto. O piso de violência a que haviam chegado
culminou com o suicídio da esposa, em dezembro de 1914, que se envenenou com a
ingestão de sublimado.
No ano subsequente, Quiroga retorna a Buenos Aires e faz sucessivos gestos de
reaproximação com o Uruguai: recupera a cidadania uruguaia; retoma a amizade
com colegas de juventude; participa de eventos literários em Montevidéu;
valendo-se do apoio de um amigo de Salto, Baltasar Brum, agora ministro das
Relações Exteriores, é designado para um cargo honorário no consulado uruguaio
em Buenos Aires, promovido a cônsul de segunda classe em 1919. Continua assim
equilibrando recursos entre o encosto burocrático e o rendimento pela
literatura veiculada na mídia.
Datam desse tempo encontros decisivos para o futuro de suas pretensões
literárias: a reaproximação com Lugones, o início da amizade com o jovem editor
Samuel Glusberg16 e o romance intermitente com Alfonsina Storni. A franquia
concedida por Lugones encorajou Glusberg a adotá-lo como autor da casa, a
exemplo do que faria em favor dos demais integrantes da confraria17. O namoro
com Alfonsina reforçou os sentimentos de pertinência ao grupo Anaconda, espaço
de respiro e afirmação de escritores e artistas que se viam esnobados pela
vanguarda martinfierrista. Apesar dos catorze anos de diferença, Alfonsina terá
sido talvez a única parceira amorosa capaz de enfrentá-lo como igual: eram
adultos experientes e sofridos; exerciam o ofício intelectual; partilhavam o
mesmo círculo de amizades; sentiam-se injustiçados pela geração vanguardista; e
careciam do reconhecimento a que faziam jus.
Entre 1917 e 1931, o período-chave de produtividade e de enaltecimento de sua
personalidade autoral, Quiroga reside em Buenos Aires, em companhia dos filhos,
em diversos domicílios, com interrupção eventual para férias esticadas em
Missiones. Em 1917, por gestão de Manuel Gálvez, que recém criara a Cooperativa
Editorial Buenos Aires, Horacio publica o primeiro grande sucesso de venda,
logo esgotado, Cuentos de amor, de locura y de muerte; em 1918, ainda sob
chancela de Gálvez, faz experimento bem-sucedido em literatura infantil,
Cuentos de la selva para ninõs. Firmava-se como escritor profissional, capaz de
diversificar as frentes de investimento, atento aos novos gêneros, à dilatação
do repertório de assuntos, aos moldes de relato e ao imaginário trazidos pelo
cinema; demonstrava flexibilidade no manejo de temáticas e de linguagens,
endereçadas a públicos variados. Tais lançamentos lhe abriram espaço na
indústria de livros, na qual fincou presença pela mão do editor cujas
exigências apuraram as marcas do estilo enxuto e provocativo.
A década de 1920 foi um período de comprovada fecundidade literária, como
demonstram oito títulos de Quiroga lançados pela editora Babel, de Glusberg:
três obras em primeira edição, uma antologia e quatro reedições. O contista se
torna colaborador habitual nas revistas mantidas pelo editor, La vida literária
e Babel, essa última tendo organizado o número especial em sua homenagem, em
novembro de 192618. O círculo de amigos, escritores e artistas aprontara a
apoteose comemorativa de um autor popular, cuja reputação se fizera fora das
trincheiras da legitimidade vanguardista. Lugones, Quiroga, Alfonsina e
Martínez Estrada haviam resistido às diretrizes ditadas por Borges e demais
artífices da revista Martin Fierro. Logo adiante, no início dos anos 1930, a
nata vanguardista estaria abrigada pelo condão prestigioso e endinheirado de
Victoria Ocampo na revista Sur.
As cartas trocadas com amigos de juventude, desde o começo da carreira
literária, registram os focos de negociação com os editores responsáveis pelas
revistas em que colaborava: temáticas e gêneros preferidos, níveis de
remuneração, tamanhos. Quiroga se mostra bastante atento às mudanças em curso
no mercado editorial de revistas que pudessem acolher e remunerar seus
escritos; tampouco hesita muitas vezes em intermediar a encomenda de
ilustrações em favor de artistas amigos. No momento em que cuidava da edição do
último livro em vida, Más allá19, faz um balanço de sua impressionante produção
de contista, muito aquém dos 247 contos reunidos na edição das obras
completas20. Juntando-se os artigos literários, as críticas de arte e de
cinema, os textos e notas de jornal, a obra de Quiroga justifica o estrelato na
indústria cultural.
POÉTICA CONFESSIONAL
A voz poética de Alfonsina transita nos territórios explorados nas crônicas,
mas faz soar um cantabile dramático ancorado em repertório pós-modernista,
refinando procedimentos inspirados em Rubén Darío e epígonos. Os poemas, em
especial nos cinco primeiros livros, derivam o tônus convincente, a tinta
derramada, da tensão entre a linguagem antiquada, amaneirada, alambicada,
preciosista - eivada de clichês e palavras incomuns, algo engessada -, e o
alvoroço confessional da intimidade. É a mesma toada de perdas e desenganos que
se presta à enunciação poética ou à escrita policiada das colunas na grande
imprensa.
Ao iniciar a carreira literária, Alfonsina tinha vinte e quatro anos, era mãe
solteira de um menino, vivia com a renda de seus trabalhos. Estava acossada,
desde cedo, por carências materiais e afetivas que iriam modelar o perfil
criativo. Em vista de tais circunstâncias, em meio ao acanhamento prevalecente
na cena cultural portenha, Alfonsina cuidou de plasmar a voz em registros
complementares: a jovem poetisa incendiada pela energia amorosa; a redatora
feminista represada e capaz de escrutinar as prerrogativas de gênero. O
estrondo em versos incidia sobre os recessos da pulsão erótica, fazendo da
autora eco de constrições mortificantes e porta-voz de contingências incômodas:
quase um joguete pelos imponderáveis de vida ou um facho de desejo carnal.
Nessa fase em que Alfonsina se amolda à projeção das leitoras, a
incandescência, o choque e o escândalo derivam de explosões de queixas e
ressentimentos. Os poemas pungentes são devaneios descabelados de sensualidade,
gritos lancinantes de deserção, confissões despudoradas que de pronto atiçam a
cumplicidade do leitor. A dicção adquire o timbre de desnudamento cujo tempero
consiste no idioma de compromisso, travado pela obediência a um batido cânone
literário. Embora a crítica literária costume frisar a linguagem passadista
como defeito estético, acredito que a insistência da autora em explorar esse
suporte cediço logrou, pouco a pouco, converter o pedágio em recurso de
estranhamento.
O livro de estreia inaugura o idioma da brancura, da transparência, da limpeza,
no qual pululam cisnes, lírios, cristais, hóstias, círios, pombas, tules, que
figuram o impasse da virgindade rota21. Seres imaculados povoam o cenário
natural e íntimo movido pelos ritmos temporais, em cujos recessos se engastam
estados da alma. Flores, sonhos, perfumes, quimeras, a avalanche de palavras
conotadas pelo estro lírico certificado, léxico encantatório importado dos
simbolistas franceses e dos mestres modernistas à la Rubén Darío. O figurino
poético por vezes descola do destape confessional desbragado. Os poemas
emblemáticos da coletânea - a trinca La loba, La muerte de la loba e El hijo de
la loba - asseveram as escoras de vida da autora. Tratam de enunciar, com
estardalhaço, a penúria de classe, a condição subalterna da mulher, o
isolamento social, reclamos tanto mais convincentes por conta do revide à
depreciação de si, dissimulada em soberba. Versos esparsos sobre o ofício
poético sinalizam a couraça defensiva que por enquanto apenas se insinua;
outros indiciam a reflexividade mórbida que vai tomar vulto adiante. Tão moça,
descartada, não lhe parece valer a pena suportar a vida, sendo preferível dar
cabo de tudo com um golpe de punhal22.
A coletânea seguinte, El dulce daño (1918), se abre com dois poemas de
autocomiseração, qualificando o sentido do título como desespero e antevisão da
morte. Em lugar do clamor ético, a linha de força consiste no derrame de
confissões amorosas, oscilantes entre a decepção de praxe e o anseio pela
saciedade, entre a tristeza pela ausência do parceiro e o ardor da paixão
consumada. A palavra "dulce" e derivados tonalizam contrastes rascantes -
"dulce tortura", "¿No sabes que la muerte es la dulzura [...]?" - , tal como
prenuncia o título ou, então, se emparelham como matiz de substantivos
previsíveis. A figura feminina autoral adquire feições de insetos e de animais
em escala que vai da fragilidade à ferocidade, das esvoaçantes abelhas e
mariposas, tirando lascas do néctar, à fortaleza inexpugnável da leoa.
A tessitura poética esgarça o território feminino do branco, do translúcido,
sem máculas - cera, linho, pérola, cristal, neve -, em contraposição ao negro
masculino, à miragem da entrega, à volúpia da conquista. As cenas de amor têm
lugar em meio à profusão de flores raras - madressilvas, açucenas, mirtos,
acácias, papoulas, violetas - com personagens cujos traços físicos evocam
pedras preciosas - turquesas, rubis, esmeraldas. O amor teria o condão mágico
de garimpar beleza e perfeição no limbo.
A composição mais famosa do volume, "Tú me quieres blanca", faz culminar a
cantilena de provocação erótica em que negociam a figura mirrada da pombinha,
prestes a ser esmagada, e o homem negro aludido como orangotango23. A
instigação erótica suscitada se nutre da entrega, submissão incondicional ao
desvario de potência. A rendição logo reverte em cobrança, feita a um parceiro
desejado, mas intratável. O pressentimento da morte ronda o poema em que a
narradora se faz de Cleópatra24; adiante, o prenúncio como que antecipa o
suicídio no mar. São eloquentes os versos do poema "Supremo cortejo",
acrescentado à reedição de 192025.
Nos livros dessa fase, a voz lírica alardeia o ego refém de pulsões que não se
consumam em meio à frustração, ao engodo. Os versos transitam entre lampejos
apaziguados de doçura, capaz de impregnar seres e paisagens, e quadros sombrios
anunciadores da aniquilação. Os procedimentos de composição se prestam, sem
dúvida, às pontuações rítmicas da poesia declamada. O apelo a refrãos, a
estribilhos, à reiteração de palavras ou expressões idiomáticas em registro
coloquial, a interjeições e interpelações, a circunlóquios, tais expedientes
insinuam um diálogo cifrado com o interlocutor amoroso no intento de fisgar a
adesão do ouvinte ou leitor.
Os poemas marcantes do terceiro livro, como "Hablo conmigo", cravam o
ressentimento amoroso como mote irrecusável da mulher repudiada. Persiste aí a
maciez feminina, a poetisa imersa em devaneios, que infunde aos topos da
natureza - a noite, a lua, a estrela, a tarde, o sol, o gelo, o mar - conteúdos
derivados da linguagem de sentimentos íntimos, sem amarras de contexto. Eis o
limite a que chega o rendimento expressivo da partitura amorosa sem travas
reconhecíveis no ambiente em que ecoa.
Já no introito em prosa de "Languidez" (1920), Alfonsina abandona a poesia
subjetiva para enxergar "o que está ao meu redor"26. Trata-se de um livro de
transição, no qual se mesclam versos sobre Buenos Aires, o rio da Prata, o
subúrbio, sítios até agora ausentes, a poemas de amor que contrastam o arrastão
do desejo a estribos sociais. O poema "Languidez" aborda a relação com o filho,
veio temático insistente no volume, como se a existência dele refreasse a
lassidão do desejo materno. Poemas em série - "El clamor", "La que comprende",
"Al hijo de un avaro" - extravasam os tumultos da mãe solteira, tornando
palpável, no corpo do filho enjeitado, a herança dupla, a culpabilidade materna
e o egoísmo do pai. Na letra do poema, o filho é mirrado, cabelos descoloridos,
sem viço, pele macilenta, como se tamanha carga pudesse ser transtornada pela
genitora rancorosa que clama a Deus para que o filho não seja mulher.
Dessa feita, entretanto, o lirismo explora uma trilha autobiográfica original.
Na composição "Carta lírica a otra mujer", Alfonsina empreende um mea culpa
comovente ao contrastar seu contributo à desdita amorosa ao desafogo amargo
desferido contra a concorrente. O reconhecimento dos atrativos físicos que não
possui incita à tomada de consciência das razões objetivas que lhe fizeram
perder a parada amorosa. A vingança frustrada pelo verso é o respiro de revide
à derrota, reconstruída com minúcias masoquistas: grito de amor traído, entoado
com requintes de crueldade autodestrutiva. O veneno do desengano adquire feição
de orgulho ferido, faz da necessidade virtude e exagera os contornos do ente
autárquico. Outra vez afloram versos atestando o domínio do ofício, embora
jamais seja tratado em chave técnica ou como profissão de fé. A prática poética
parece cumprir função vicária, cobra ânimo para compensar o desamor27. "Un
cementerio que mira el mar" retoma a obsessão por imagens que vaticinam o
suicídio por afogamento28. Nesse volume repleto de cantilenas melodiosas,
"Monotonia" e "Un dia..." se assemelham a letras musicais a serem declamadas29.
Ocre (1925) é rebento privilegiado de maturação. Em lugar do desajuste
gritante, nos livros precedentes, entre a linguagem rebuscada, um tanto
convencional, e a pegada da explosão confessional, parece ter sobrevindo o
plasma entre dicção e experiência. Os poemas de amor desistem dos apelos
chorosos de efeito e peitam o enfrentamento sem rebuços do amor carnal. Apesar
do imenso sucesso de público, os escritos em prosa Poemas do amor (1926)30 são
bastante decepcionantes, ainda mais se confrontados à linguagem enxuta e
calibrada dos versos despudorados de Ocre. Como a própria autora sugere -
"Escribo estas líneas como un médium, bajo el dictado de seres misteriosos que
me revelaram los pensamientos"31 -, ela aprontou um livro espírita no qual
empreende um solilóquio com um parceiro que não se materializa.
Entre 1915 e 1925, Alfonsina se joga de cabeça na indústria de entretenimento.
Redige relatos curtos, divulgados em periódicos de novelas, valendo a pena
mencionar um par de narrativas sobre a traição amorosa: os desfechos consistem,
respectivamente, no suicídio da adúltera e na morte da esposa traída. Em março
de 1927, ocorre a estreia do primeiro texto teatral, com recepção crítica
negativa32. Alfonsina diversifica as frentes de produção literária - teatro
adulto e infantil, crônicas, relatos ficcionais, diários de viagem -, participa
com empenho em entidades corporativas de escritores e assume novos encargos
docentes.
No verão de 1935, é diagnosticada portadora de um tumor no seio, logo extraído
pelo mesmo cirurgião que iria operar em breve Quiroga. Nos três últimos anos de
vida, a perda de amigos queridos, desaparecidos em circunstâncias trágicas,
acirrou o desespero com o estado de saúde. Horacio Quiroga se suicidou com a
ingestão de cianureto, em 1937, ao se dar conta de que o câncer de próstata era
incurável. Em fevereiro de 1938, o poeta Leopoldo Lugones, a figura máxima da
literatura argentina, se mata com arsênico e uísque; em setembro, Eglé, filha
de Quiroga, estimada por Alfonsina, também se suicida. A sequência desses
desastres afetou em cheio o que havia sobrado de alento.
Após nove anos de mutismo, Alfonsina publica a coletânea Mundo de siete pozos
(1934)33, onde enfrenta com desenvoltura e franqueza tópicos delicados da
experiência amorosa. Deixa à mostra a atração física pelos homens, retomando,
em chave inédita, dimensões "inconvenientes" de curiosidade na matéria.
"Retrato de un muchacho que se llama Sigfrido" apela, já na estrofe inicial, a
imagens fálicas explícitas, ao mapear as partes do corpo por movimentos
alusivos34. "Ecuación" evoca os atos do coito que se consuma em lubricidade
desenfreada35. "Uno" é o retrato de um desconhecido, que incendeia a artista,
num disparo de fantasias que apalpam o corpo masculino36. Poema projetivo, em
espaço de confrontação urbana, no qual a autora está mais em cena do que o
objeto de seu desejo.
A despeito de alguns versos lacrimogêneos, de imagens pré-fabricadas, de
alusões desgastadas, esparsos pelo volume, vibra, em surdina, a tramoia do
desmanche. Esse andamento toma vulto por meio da obsessão pelo mar - território
de abrigo, rota de fuga, espaço de convulsão, mastigação da vida. A ideia fixa
de sumir na água, que veio à tona desde o livro de estreia, reponta aqui em
cenas seriadas de aniquilamento. O segmento intitulado Motivos de mar abriga os
eixos de condensação da tópica suicida. O corpo arrastado a lançar raízes na
"carne do mar" parece haver esgotado a energia erótica em troca de um sítio
enlaçado por "flores de coral". O mar é apropriado como ataúde, remanso da
solidão, envoltório nivelador da paisagem por inteiro. A tempestade assombra o
barco dos homens; o mar e o céu se confundem na noite; o giro de luz do farol
não resgata o "coração mortal"; o sono dos peixes costeia "o corpo frio
horizontal".
Em 1938, é publicado o último livro de Alfonsina em vida, sob o título
misterioso de Mascarilla y trébol37, em alusão velada à máscara mortuária
recoberta pela vegetação do sepulcro. Uma coletânea de versos sem rima, ditados
pelas circunstâncias do câncer, em linguagem um tanto hermética no entendimento
dos críticos da época. No introito, a autora apela à colaboração do leitor para
estes "antissonetos de postura literária", brotados "quase em estado de
transe", redigidos em lugares públicos, em viagens, em noites de insônia.
Correlaciona a "nova direção lírica" a "mudanças psíquicas fundamentais"38.
A série de poemas sobre o rio da Prata reconstrói paisagens do rio em
movimento, enoveladas a sentimentos obscuros, ora focalizando as águas no
entorno urbano, ora acompanhando o andamento do rio em gradação de prestígio
social. Mas a temática reiterada na obra lida de algum modo com a morte: o
esvanecimento do ciclo de vida, as questões metafísicas da existência. O soneto
"Sugestión de un sauce" explora, de modo sutil, o clima um tanto mórbido que
perpassa o livro. A cena se passa no cemitério onde jaz a "criança morta que
vai pensando sobre ramos de trevo": o musgo, a erva, o limo e o trevo são
vegetações rasteiras que insinuam o terreno aplainado e a matéria orgânica que
recobre a terra esparramada sobre as covas39. Árvore emblemática da morte, os
galhos chorões do salgueiro metaforizam a vida que está perdendo seiva. "El
hijo" prossegue o trabalho de antecipar a morte ao enxergar as indefinições do
feto - o sexo, o caráter - como notícia fúnebre precoce de quem nivela a
gravidez à deformação profética do corpo. "Juventudes" registra os sinais
contraditórios do que terá de ser40. Outros sonetos proclamam faíscas de vida
no mundo do qual a autora está se sentindo apartada, posta de lado. Indagações
obsessivas em torno da dificuldade em atinar por que razões alguém faz por
merecer tais misérias. A progressão do livro como que atesta a ruptura dos
vínculos entre a poetisa e o contexto, um grito de revolta no vácuo41.
Os poemas oscilam entre a febre de rendição à derrota iminente e o empenho em
preservar trunfos pessoais, arreglo entre a voz e o silêncio. O mundo parece
estar desabando, em meio a cenários alternativos às garras do desmanche42.
Mesmo os versos de condolência, endereçados ao pai, ou a Quiroga, enredam de
pronto a sobrevivente saudosa. O soneto assustador "El muerto huyente"
contrasta o sol abrasador do meio-dia à decomposição do cadáver, o calor a pino
incapaz de sustar a geleira corporal43. Três poemas sobre a criação artística,
no cinema e na música, esmiúçam as ilusões de vida suscitadas pelos truques do
arranjo estético. O livro se fecha com poemas esquisitos que, a pretexto de
divagar sobre a prática poética, de fato resumem o mea culpa daquilo que de
fato conta e de que a autora não quis abrir mão, o prazer sexual e a poesia.
TINTAS DO CORPO E DA ALMA
A iconografia de Alfonsina Storni evidencia as metamorfoses da figura social e
intelectual. Assim como em outras dimensões de desempenho profissional, os
retratos, desenhos e caricaturas como que esgarçam as feições predominantes da
persona pública que ela mesma ajudou a converter em celebridade na indústria
cultural. Eis os momentos-chave dessa imagética: o rostinho faceiro da moça sem
arrimo, em voo solo, incógnita; a estampa elaborada da mulher feita,
independente, senhora de si, juntando a profissional bem-sucedida aos dotes de
dona de casa e de mãe extremosa; os traços etéreos da artista capaz de ombrear
a concorrência masculina.
O exame das imagens recupera a perspectiva integrada do trabalho da mídia e do
manejo da cobertura promocional por parte da escritora. A imprensa estava
empenhada em levar ao público a cena arrumada e coerente da mulher com nome
próprio, cuja existência pessoal e literária fugia aos modelos convencionais de
conduta. Alfonsina, por sua vez, impregna tais registros, em especial as fotos
destinadas à mídia, de conotações conciliatórias que se desprendem de cenários,
da gestualidade, da postura corporal, da indumentária, gestando um padrão
recorrente de marcadores para consumo externo.
O conhecido retrato com vestido fechado de veludo escuro, o pescoço coberto
pela gola alteada, os braços cruzados na frente, o rosto inclinado de leve,
enfiado na roupa, os olhos espertos mirando a câmera, os cabelos arrebanhados
para trás, exalta a jovem curiosa em meio ao turbilhão citadino (Figura_1). A
estampa cuidada da moçoila-criança, adulta antes do tempo, um tanto retraída
diante do mundo hostil. O recato, a disciplina e a reserva contornam a pose. Um
close do rosto de Alfonsina, feito por Alberto Routín em 1916, em moldura oval,
focaliza a beleza dos olhos, a cabeleira, o nariz petulante, o semblante
compenetrado e atento (Figura_2). Uma foto sugestiva de 1925 é o close da
cabeça inclinada, os cabelos emaranhados com leveza, o sorriso prazeroso,
contraindo a bochecha e os olhos, dentes brancos emoldurados pelo batom que
cintila (Figura_3). Retrato em preto e branco saturado de luzes nos cabelos e
no rosto, como se a efígie da escritora baixinha emergisse com brilho do fundo
branco. Imagem tirada por um profissional, que decerto escolheu a melhor pose
da série em que instruiu a modelo a se sujeitar ao enquadramento.

[/img/revistas/nec/n97/07f02.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f03.jpg]
Outra foto impressionante revela o quão maleável ela se submetia aos comandos
do fotógrafo (Figura_4). Esse instantâneo algo rebuscado mostra a cabeça
apoiada no braço esquerdo, estirado sobre a mesa, o braço direito com a mão
esticada defronte o rosto. A luz saturada inunda o cabelo, o tecido que recobre
desde o ombro até a manga comprida, alonga a mão, os dedos, fulge com
delicadeza em pontos do rosto. A modelo parece repousar, em momento de entrega.
Os traços de Alfonsina palpitam na penumbra, em contraste com a aura que a
circunda.
[/img/revistas/nec/n97/07f04.jpg]
Um registro de 1920 (Figura_5) retrata a escritora sentada, de meio corpo,
inclinada para a câmera que mira de frente, braços cruzados sobre o joelho,
vestido escuro com pregas largas, manga comprida, gola clara rente ao cangote,
os cabelos para trás, repartidos na testa, a fisionomia séria, absorta, imagem
desglamorizada da jovem letrada em pose de madona. O ícone reduzido às feições
básicas do rosto, a representação ideal da escritora nata. As fotos mencionadas
comprovam o intento de construir sua imagem literária, como que congelando
instantâneos na estampa de uma personalidade tão extravagante naquela época.
[/img/revistas/nec/n97/07f05.jpg]
O flagrante misterioso da mão de Alfonsina segurando a pena sobre a folha de
papel, o pulso com manga recoberta de pluma, lembra a imagem poderosa e
personalíssima da escritora francesa Colette, da qual foram feitos inúmeros
registros na intimidade (Figura_6). Em foto tirada no final da vida, já doente,
Alfonsina, de pé, um tanto contrafeita, tensa, cara amarrada, veste um peignoir
escuro, gola e mangas com debrum em plumas, o figurino da mão escriba.
[/img/revistas/nec/n97/07f06.jpg]
Outra leva de fotos foi tirada em casa por profissionais da imprensa,
destinadas a ilustrar reportagens a respeito de Alfonsina, nas revistas Caras y
Caretas, Mundo Argentino, El Hogar, entre outras. O retrato batido no interior
do apartamento, no bairro Belgrano, na esquina das calles Cuba e Iberá, exibe a
estampa retocada da intelectual fora de série, capaz de arrebanhar trunfos de
todo tipo (Figura_7). Alfonsina está de pé, de lado, o antebraço direito
apoiado sobre a mureta da lareira, o dedo indicador esticado, a mão esquerda no
bolso do vestido, agasalhada com um cardigan desabotoado, sapatos estilo
Guilhermina, de salto baixo, tira atravessada no tornozelo, o penteado
caprichado, posicionada em espaço nobre da residência. A lareira-aquecedor
ocupa o canto da sala, enquadrada por lambris de madeira e, no arremate, papel
de parede estampado. O mobiliário pesado destoa da figura miúda da personagem.
Chamam atenção o abajur art-nouveau, o entalhe no espaldar da cadeira, o relevo
floral na guarnição metálica da lareira. Ela parece à vontade no ambiente, bem
trajada, cuidada, em pose voluntariosa. Um registro esclarecedor mostra
Alfonsina em close, os cabelos à la garçonne, sorridente, comprimindo os olhos,
dando a ver a falha entre os caninos na arcada superior (Figura_8). Uma das
raras fotos em que se pode enxergar esse traço, que confere ao semblante um ar
matreiro e receptivo.
[/img/revistas/nec/n97/07f07.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f08.jpg]
Também posou cozinhando em casa, de cabelo preso em trança, avental branco
cintado, segurando a panela e mexendo a colher de pau, a cabeça inclinada, ao
fundo a parede com azulejos claros (Figura_9). Ou então, em 1928, encostada na
quina do balcão de ferro de sua residência, a mão esquerda espalmada sobre a
balaustrada, de vestido fechado e casaco de pele, com sapatos boneca de sua
preferência, misto de reserva e esmero (Figura_10). Em foto de 1930, Alfonsina
de pé, o cotovelo esquerdo apoiado no tampo da lareira de mármore com borda
decorativa entalhado em pedra, em salão luxuoso, com lambris pintados de branco
e apliques dourados, entalhes e painéis decorativos com vasos de flores, o piso
com desenho geométrico em mármores coloridos (Figura_11). A escritora enverga
vestido estampado, de gola alta, mangas até o cotovelo, sapatos de salto baixo
em estilo Guilhermina, cabelos repartidos e repuxados, de batom, em postura
reflexiva, olhando a câmera, o rosto refletido no espelho. Um pequeno vaso
cloisonné sobre a lareira se interpõe entre as imagens. Nesse viés
estereotipado da senhora elegante e refinada, se destaca a foto de corpo
inteiro, de frente, com sapatos de salto, de tailleur claro, o casaco com
botões cruzados sobre a blusa de tecido sedoso e gola alta, um solidéu preto no
cabelo, maquiada, os braços cruzados sobre a cintura, as mãos segurando luvas e
uma trousse de festa (Figura_12). Tirada por volta de 1924, ela está delgada,
elegante, vestida com apuro, reverente aos ditames da moda e ao ideal burguês
de compostura.
[/img/revistas/nec/n97/07f09.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f10.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f11.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f12.jpg]
Existem testemunhos contraditórios sobre a imagem de Alfonsina ao vivo. Por
vezes é descrita como feiosa, de baixa estatura, sem maiores atrativos como
mulher; outros contemporâneos - por exemplo, a poetisa chilena Gabriela Mistral
- enalteceram os atrativos que a favoreciam. A pele rosada, os olhos azuis, de
colorido cambiante, os cabelos ruivos com mechas prateadas, o nariz assertivo,
empinado, traços que são restituídos naqueles retratos executados por artistas
amigos. Tais feições coincidem com a imagem que ela tinha de si: "Yo soy una
criatura femenina de diecinueve años, monísima y gentil. Tengo, Señor, una
cabellera rubia y ondulada que peino con donaire, dos manos blancas y finas,
una figura encantadora y un alma buena; esto por sobre todas las cosas".
O desenho a bico de pena de Emilio Centurión (1894-1970), executado por volta
de 1922/3 (Figura_13), apresenta Alfonsina com rosto oval, de traços incisivos,
olhos intensos, cravados no espectador, sobrancelhas grossas arqueadas, testa
larga, nariz saliente, lábios bem desenhados, com arremate dos cabelos puxados
para trás. Embora não se possa enxergar aí a mulher formosa, o artista logrou
inscrever no engate das feições, na liga do semblante, o estalo comovido da
beleza de expressão. A despeito da testa contraída, das olheiras, do olhar
assustado, da apreensão que perpassa a fisionomia, o desenho de Centurión
condensou uma visada benfazeja de Alfonsina, um daqueles dias em que qualquer
um de nós fica bonito. O desenho cancelou a falha nos dentes, a figura baixinha
e a névoa de tristeza na mirada.
[/img/revistas/nec/n97/07f13.jpg]
Sem contar as estampas póstumas do escritor, que acompanharam a lenta
recuperação de prestígio de sua contribuição à literatura argentina44, a
iconografia de Horacio Quiroga em vida se reparte entre fotos, caricaturas e
desenhos executados por artistas amigos (Figuras_14, 15, 16 e 17). As fotos de
família do jovem Quiroga mostram um rosto cheio, imberbe, envergando a fatiota
burguesa com gravata e colarinho branco; em flagrante com um grupo de
praticantes de esgrima, Horacio aparece de bigode e farta cabeleira (Figuras_18
e 19). A foto de Quiroga dândi, sentado, de calça clara listrada e casaco
escuro, de gravata e colarinho alto, a perna esquerda cruzada no joelho, mãos
enfiadas nos bolsos da calça, deve ter sido tirada na volta da viagem à Europa,
quando ainda residia em Montevidéu (Figura_20). A cabeleira, a barba e o bigode
já definem a feição do semblante maduro no rosto do moço elegante, sem tapar os
lábios. Em foto tirada pouco antes de se casar, ele aparece de barba aparada,
bigodes de pontas compridas, cabelos ondulados, de casaco escuro, gravata e
colarinho engomado; já sobressaem nesse retrato as linhas marcantes do rosto
apaixonado, a testa larga, o nariz imponente, os olhos fundos e perturbadores
(Figura_21). Daí em diante, o cromo esquemático do escritor inclui a barba
crescida, os cabelos em desalinho e a luz prateada dos olhos verdes.
[/img/revistas/nec/n97/07f14.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f15.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f16.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f17.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f18.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f19.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f20.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f21.jpg]
As fotos na selva revelam o homem compenetrado à la Robinson Crusoé, barbudo,
abatido, suado, de calça e botas, o peito nu, esquálido, o relevo dos ossos
empurrando a pele (Figuras_22, 23 e 24). Físico de artesão, convicção de
fanático, vocação de bruxo. Por vezes, comprimido entre o cabelo crescido e a
barba cobrindo a boca, o rosto se resume ao retângulo côncavo de nariz, olhos e
testa, com duas linhas fundas que sulcam a fisionomia45 (Figura_25). Uma capa
da revista Claridad estiliza os traços marcantes do escritor: os cabelos negros
repartidos ao meio, a testa imensa, os olhos penetrantes realçados pela curva
cheia das sobrancelhas, o bigode e a barba compondo um cavanhaque preto,
repiques de luz no penteado e nos pelos (Figura_26). Duas fotos em close, na
mocidade e no último ano de vida, dão a ver os mesmos traços, mas pontuados
pela idade: na juventude, o negrume dos cabelos, da barba e do bigode,
conformando a moldura do sedutor; na maturidade, os fios brancos, esparsos no
cabelo e tingindo metade do cavanhaque (Figuras_27 e 28). O mais impressionante
dessas imagens é a parecença fisionômica de Horacio com o pai, o qual também
tinha cavanhaque e bigode volumosos, nariz pronunciado e olhos cativantes46
(Figura_29).
[/img/revistas/nec/n97/07f22.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f24.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f25.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f26.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f27.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f28.jpg]
[/img/revistas/nec/n97/07f29.jpg]
Embora visto em reprodução precária, o desenho do artista Emilio Centurión
restitui o rosto de Quiroga tal como descrito acima (Figura_30), mas amaciando
a mirada, infundindo ternura e compaixão ao olhar, esbatendo de leve o preto da
barba e contrapondo o cabelo ondulado ao lado soturno da fisionomia onde mal se
enxergam os lábios. Os olhos transmitem um misto de emoção e reserva, como que
facultando ao escritor um fôlego de felicidade. O retoque da figura trai a
veneração do artista pelo escritor, como se fosse possível sustar os efeitos do
tempo.
[/img/revistas/nec/n97/07f30.jpg]
DESFECHOS AUTORAIS
Em 1927, o cinquentão Quiroga casa-se com María Elena Bravo, moça de vinte
anos, que conheceu na condição de amiga da filha Eglé. Quis deslanchar outra
parceria amorosa estribada em assimetrias - de idade, de gênero, de
experiência, de expectativas - que prenunciavam desde o início o embate
conjugal. No ano seguinte, nasceu a filha que recebeu o prenome materno. Em
1931, ele decidiu retornar a San Ignacio, sendo nomeado cônsul uruguaio naquele
povoado; instala-se aí com a segunda família. Logo afloram sérias desavenças e
a mulher retorna por um tempo a Buenos Aires.
Nos últimos anos de vida, com o trabalho ficcional em retração, a obra de maior
interesse é a correspondência mantida com alguns amigos do peito, em especial
Julio E. Payró e Ezequiel Martinez Estrada47. Uma enfiada de imprevistos e
reveses amargura o período, sentindo-se ameaçado pela impotência em mais de um
sentido. O arranjo frágil do qual dependia começou a ruir com a perda da
sinecura diplomática. A morte do protetor uruguaio levou à dispensa do cargo de
cônsul. O apuro financeiro piorava em razão do insucesso das investidas
econômicas - a venda de laranjas, a produção de erva-mate - e de proventos em
baixa na imprensa. Junte-se a tal desarranjo o desgaste junto à esposa e o
desmonte do casamento de Eglé, culminando com a volta de ambas a Buenos Aires,
em 1934 e 1935, respectivamente.
Em meio à maré de enguiços, surgem sintomas de problemas na próstata. As
dificuldades na micção se misturam à ansiedade em torno da virilidade em risco.
As missivas aos amigos estão repletas de registros dubitativos sobre ereção e
ejaculação, como se quisesse preservar a potência sexual do comprometimento
glandular. Em janeiro de 1936, após derradeira tentativa de reconciliação, a
esposa e a filha regressam a Buenos Aires. Entrementes, os filhos do primeiro
casamento continuam às turras com o pai. Em setembro de 1936, baldados os
tratamentos que havia testado, Quiroga viaja a Buenos Aires para se operar.
Alguns meses depois, apesar do silêncio a respeito, acaba por descobrir um
câncer na próstata, em lugar da hipertrofia benigna a que se agarrara como
diagnóstico. Quiroga dribla a vigilância no hospital onde estava internado,
visita amigos, despede-se de Eglé, adquire cianureto na farmácia e se mata em
19 de fevereiro de 1937.
O profissionalismo de Alfonsina se faz sentir até os últimos dias de vida.
Assim como procedera antes, ao conciliar o trabalho literário e a presença em
recitais de declamação, ao estimular a feitura de reportagens na propaganda dos
livros ou, então, ao intervir em outras frentes da cena cultural, como
colunista na imprensa ou autora dramática, ela jamais abriu mão de sua
iniciativa na indústria cultural. Os cuidados dispensados à imagem pública
dependeram de seu envolvimento, devendo-se entender tais atitudes como parte do
domínio que aprendeu a exercer sobre diversas personae. A poetisa, a
professora, a jornalista, a dramaturga, a declamadora, a dona de casa, a mãe
solteira, a self-made celebridade, tais papéis se coadunavam e garantiam a
autoridade cultural nas mídias do momento. A inteligibilidade de sua conduta ao
dar andamento ao plano de se matar não destoa da sintonia com as expectativas
do público e com o timing dos veículos em que atuava.
Desde setembro de 1938, diante dos sinais de piora ostensiva, ela começou a
conceber a saída de cena como se fora o demiurgo de circunstâncias que ela
provocaria e cujos efeitos de fato se fizeram sentir na cobertura do infausto
evento pela imprensa da época. Entre 14 de janeiro e 1-º de março de 1938,
Alfonsina passa temporada no chalé da amiga María Sofía Kussrow48, em Colonia,
no Uruguai, cujos fundos tocavam a margem do rio da Prata. Sem forças para
continuar trabalhando e dando aulas, em 13 de setembro, viaja de volta a
Colonia, retornando à capital argentina no dia 26 de setembro. A notícia do
suicídio de Eglé Quiroga, filha de Horacio, moça linda de trinta anos, olhos
azuis e cabelo ruivo como o de Alfonsina, se junta ao agravamento do câncer.
Fechava-se o cerco de revezes que não lhe davam saída. Imagina se proteger com
novo retiro, dessa vez buscando se hospedar na pensão de outra amiga; em 18 de
outubro, toma o trem noturno para Mar del Plata, despedindo-se na estação do
filho Alejandro, então com vinte e seis anos. Na antevéspera, La Nación havia
publicado o poema de adeus, "Romancillo cantábile", decerto escrito na estada
anterior em Colonia, cujos versos finais douram a pílula49.
Dores pavorosas lhe atestam o pior e toma providências que lhe parecem
compulsórias: chama a criada e dita uma carta para o filho50; redige o poema
derradeiro, "Voy a dormir"51, e no sábado, dia 22, vai ao correio enviá-lo ao
jornal, que recebeu o envelope na noite do dia 23. Por desígnio da autora, era
o original de sua colaboração póstuma. O poema fora escrito com tinta vermelha,
a mesma que usou no bilhete endereçado ao chefe de polícia: "Não culpem ninguém
pela minha morte"52. Perto da meia-noite do dia 23, pede socorro ao médico da
cidade, que constata a metástase generalizada e lhe receita analgésicos na dose
que ela quiser. No dia 25, terça-feira, sai de casa no início da madrugada e
joga-se ao mar. "Voy a dormir" chegara a tempo de sair ao pé do necrológio em
La Nación, em 26 de outubro de 193853. O corpo foi levado de trem a Buenos
Aires, velado no Clube Argentino de Mulheres e enterrado no mausoléu da família
Botana54 no cemitério Chacarita. A foto do rosto de Alfonsina no caixão55,
reproduzida em El Diario, exibe as feições vigorosas do semblante apaziguado,
sem rastos de violência.
1 Ver Brignole, Alberto J. e Delgado, José María. Vida y obra de Horacio
Quiroga. Montevidéu, 1939; Jitrik, Noé. Horacio Quiroga, una
obra de experiencia y riesgo. Buenos Aires: Ediciones Culturales Argentinas,
1959 (cronologia por Oscar Masotta e Jorge R. Laforgue;
bibliografia por Horacio Jorge Becco); Orgambide, Pedro. Horacio Quiroga. El
hombre y la obra. Buenos Aires, 1954; Monegal, Emir
Rodríguez. Genio y figura de Horacio Quiroga. Buenos Aires: Editorial
Universitaria de Buenos Aires, 1967; El desterrado, vida y
obra de Horacio Quiroga. Buenos Aires: Losada, 1968; Estrada,
Ezequiel Martínez. El Hermano Quiroga. Montevidéu, 1957;
Sarlo, Beatriz. "Horacio Quiroga y la hipótesis técnico-científica". In: La
imaginación técnica, sueños modernos de la cultura argentina. Buenos Aires:
Nueva Visión, 1992, pp. 21-42; Avaro, Nora. "El relato de la
'vida intensa' en los 'cuentos de monte' de Horacio Quiroga". In: Jitrik, Noé
(dir.). Historia crítica de la literatura argentina, vol. 6; "El imperio
realista". Gramuglio, María Teresa (org.). Buenos Aires: Emecé Editores, 2002,
pp. 179-200; Martínez Carlos Dámaso. "Horacio Quiroga: la
búsqueda de una escritura". In: Viñas, David (dir.). Yrigoyen entre Borges y
Arlt (1916-1930). Buenos Aires: Pardiso:Fundación Crónica General, 2006, pp.
192-9; Tarcus, Horacio (ed.). Cartas de uma hermandad:
Leopoldo Lugones, Horacio Quiroga, Ezequiel Martínez Estrada, Luis Franco,
Samuel Glusberg. Buenos Aires: Emecé, 2009; Quiroga, Horacio.
Todos los cuentos, edição crítica. Napoleón Bascino Ponce de León e Jorge
Laforgue (orgs.), coleção Archivos, 2-ª ed., 1996.
2 Quiroga, Horacio. Diario de viaje a Paris. Introdução e notas de Emir
Rodrígues Monegal. Montevidéu: Número, 1950; Diario y
correspondência. Buenos Aires: Losada, vol. V/Obras, 2007.
Quiroga passou fome e necessidades em Paris, tendo de emprestar dinheiro para
retornar ao Uruguai. Voltou magro, envelhecido e com a barba que adotou para
toda a vida. Existem muitas versões enfeitadas acerca dessa estada parisiense,
nenhuma delas tão reveladora como o diário redescoberto em 1949.
3 Monegal, Emir Rodríguez. El desterrado ..., op. cit., p. 89.
4 Ver Capdevilla, Arturo. Epoca, dolor y obra de la poetisa Alfonsina Storni.
Buenos Aires: Centurion, 1948; Roxlo, Conrado Nalé e Mármol,
Blanca. Genio y figura de Alfonsina Storni. Buenos Aires: Editorial
Universitaria de Buenos Aires, 1964; Andreola, Carlos
Alberto. Alfonsina Storni, vida-talento-soledad. Buenos Aires: Plus Ultra,
1976; Delgado, Josefina. Alfonsina Storni, una biografia.
Buenos Aires: Planeta, 1990; Paz, Julieta Gómez. Leyendo a
Alfonsina Storni. Buenos Aires: Vinciguerra, 1992; Galán, Ana
Silvia e Gliemmo, Graciela. La otra Alfonsina. Buenos Aires: Aguilar, 2002; Pleitez, Tania. Alfonsina Storni, mi casa es el mar. Madrid:
Espasa Calpe, 2003; Muschietti, Delfina. "Mujeres: feminismo
y literatura". In: Viñas David. Yrigoyen entre Borges y Arlt (1916-1930), op.
cit., pp. 111-36; Storni, Alfonsina. Obras/Poesía, tomo I. Prefácio e
organização de Delfina Muschietti. Buenos Aires: Losada, 1999; Obras/Prosa: narraciones, periodismo, ensayo, teatro, tomo II.
Prefácio e organização de Delfina Muschietti. Buenos Aires: Losada, 2002.
5 Storni, Alfonsina. La inquietud del rosal. Buenos Aires: Juan Roldán, 1916. Edição de 500 exemplares custeados pela autora, tendo
merecido resenha na revista Nosotros.
6 Storni, Alfonsina. El dulce daño. Buenos Aires: Cooperativa Editorial Buenos
Aires, 1918. Edição patrocinada por Manuel Gálvez; segunda
edição em 1920.
7 Storni, Alfonsina. Irremediablemente... Buenos Aires: Cooperativa Editorial
Buenos Aires. Também editado por Gálvez; segunda edição em
1920.
8 Storni, Alfonsina. Languidez. Buenos Aires: Cooperativa Editorial Buenos
Aires, 1920. Edição que logo se esgotou, outra vez bancada
por Gálvez; recebeu o Primeiro Prêmio Municipal de Poesia. Nesse ano, publica-
se, em Buenos Aires (Imprenta Cappellano), um volume de suas poesias em
italiano.
9 Ver Diz, Tania. Alfonsina periodista, ironia y sexualidad en la prensa
argentina (1915-1925). Buenos Aires: Libros Del Rojas/Universidad de Buenos
Aires, 2006.
10 Storni, Alfonsina. Obras/Prosa, op. cit., pp. 801-96.
11 Storni, Alfonsina. Obras/Prosa, op. cit., pp. 897-1002.
12 "Y la mujer dulce, exquisita, íntima, que a sus condiciones naturales de
mujer une las agregadas por lo más elevado del pensamiento, exalta un tipo
femenino insustituible: el que ha de ser señor de la vida, como lo fue alguna
vez la belleza plástica, exterior, decorativa." In: Storni, Alfonsina, op.
cit., p. 936.
13 Quiroga era um curioso (dissecção de animais), um leitor fanático de manuais
técnicos, um conhecedor de física e química industriais, um inventor inveterado
(aparato para matar formigas, etc.) e também exercia como amador certas funções
profissionais carentes de pessoal na região: barbeiro, pedreiro, alfaiate,
cirurgião.
14 A esse respeito, ver o ensaio Tarcus, Horacio. "Un estudio de afinidad
electiva". In: Cartas de una hermandad: Leopoldo Lugones, Horacio Quiroga,
Ezequíel Martínez Estrada, Luis Franco, Samuel Glusberg. Buenos Aires: Emecé,
2009, pp. 11-69.
15 Eglé nasceu em 1911 e Darío em 1912.
16 Nascido em 1898, na Rússia, filho de um rabino que imigrou por conta dos
pogroms, Samuel Glusberg foi trazido à cena cultural pelo tio sionista e
socialista, por cujo intermédio se aproximou de escritores, entre os quais
Lugones e Quiroga. No campo editorial, com empréstimo do tio, começou lançando
uma coleção de folhetos baratos, com textos de escritores prestigiosos - Amado
Nervo, Lugones, Quiroga, Fernández Moreno, Payró, Alfonsina Storni -, tendo
alcançado notável sucesso de vendas. Em 1922, Glusberg fundou a editora Babel
(sigla da Biblioteca Argentina de Buenas Ediciones Literarias), tornando-se o
editor exclusivo de Lugones. Em apenas uma década de atividade, constituiu um
catálogo com autores modernistas e de outras tendências, entre os quais todos
os companheiros da irmandade lugoniana. Também fundou revistas literárias -
Babel, revista de arte y crítica (1921-1928), La vida literária (1928-1932) -,
nas quais colaboraram os amigos de sempre, acrescidos por uma rede de
escritores latino-americanos. Entre 1923 e 1929, Glusberg editou oito livros de
Quiroga, com selo Babel: El salvaje, sem data; Historia de un amor turbio,
1923; El desierto, 1924; Anaconda, 1924; Cuentos de amor, de locura y de
muerte, 1925; La gallina degollada y otros cuentos, 1925; Los desterrados.
Tipos de ambiente, 1926, 2-ª ed., 1927; Pasado amor, 1929. A novela Pasado amor
fora publicada, em fascículos, no jornal La Nación, em 1927.
17 Refiro-me aos escritores Ezequiel Martínez Estrada e Luis Franco.
18 Em 1925, a editora espanhola Calpe lança uma antologia de seus contos, La
gallina degollada.
19 Más Allá foi editado por uma cooperativa organizada por César Tiempo e
premiado pelo Ministério da Educação.
20 Dados compulsados por Pablo Rocca no terceiro volume das Obras completas,
Cuentos I, Buenos Aires, Losada, 2002. Ver também Quiroga, Horacio. Todos los
cuentos, op. cit., que reúne 211 contos.
21 Eis alguns versos nesse veio no poema "Claror lunar". In: Obras/Poesía, op.
cit., p. 54.: "Lirios, lirios, más lirios... llueven lirios./img/revistas/nec/
n97/ La noche es blanca como la ilusión [...]/ Hay una vaga claridad de
círios./img/revistas/nec/n97/ La luna es una hóstia en comunión [...]"
22 Tormento tematizado no poema "¿Vale La pena?", op. cit., pp. 102-03: "No
vale, no, la pena./img/revistas/nec/n97/ Preferible es entonces/ Abrirse el
corazón a golpe de puñal/ Y destuir con la muerte, salvadora y fatal,/ El
corazón tan frio como entraña de bronce./img/revistas/nec/n97/ [...]/ No vale,
no, la pena soportar esta vida [...]/ Y es mejor desangrarse a golpe de puñal/
Y entrar pronto a la senda donde todo se olvida..."
23 Versos das estrofes finais do poema "Fuerza blanca", op. cit., pp. 141-42:
"Hombre negro: ¿qué dices de la blanca Paloma/ Garra toda de lirios, fuerza
toda de aroma,/ Que con flores te dobla las manos de titán?/ [/img/revistas/
nec/n97/07s1.jpg]Oh, mátala si puedes, rey negro de la selva!/ ¡Oh, mátala y
que luego tu libre mano vuelva/ Taladora a sus mañas!... ¿Lloras, orangután?"
24 Versos do poema "Presentimiento", op. cit., p. 152: "Tengo el presentimiento
que he de vivir muy poço./ [...]/ Para acabarme quiero que una tarde sin
nubes,/ Bajo el límpido sol,/ Nazca de un gran jazmín una víbora blanca/ Que
dulce, dulcemente, me pique el corazón."
25 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 157-58: "Quiero muerta y helada, estatua
nieve y nácar/ Un supremo cortejo todo blanco de rosas:/ [...]/ Mi cuerpo y
Dios de frente caminarán a solas/ Hacia el mar, hacia el mar, hacia el mar!
[...]"
26 "Inicia este conjunto, en parte, el abandono de la poesia subjetiva, que no
puede ser continuada cuando un alma há dicho, respecto de ella, todo lo que
tenia que decir, por lo menos en un sentido. Tiempo y tranquilidad me han
faltado, hasta hoy, para desprenderme de mis angustias y ver así lo que está a
mi alrededor". In: Storni, Alfonsina, op. cit., p. 213.
27 Versos do poema "El ruego", op. cit., pp. 246-47: "Que está la tarde ya
sobre mi vida,/ Y esta pasión ardiente y desmedida/ La he perdido, Señor,
haciendo versos!"
28 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 259-61.
29 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 227 e 232.
30 Storni, Alfonsina. Poemas de amor. Buenos Aires: Nosotros, 1926. O livro
alcançou três edições em curto espaço de tempo; a tradução francesa de Max
Daireaux, Poèmes d'amour, saiu no mesmo ano.
31 Storni, Alfonsina, op. cit., p. 613.
32 Trata-se da comédia em três atos, El amo del mundo, estreada em 10 de março
de 1927 pela companhia Fanny Brena. Alfonsina escreveu Polixena y la
cocinerita, farsa trágica em prosa e verso, um ato e um epílogo, para ser
representada pela famosa declamadora Berta Singerman, amiga íntima e
profissional habituada a recitar seus poemas.
33 Storni, Alfonsina. Mundo de siete pozos. Buenos Aires: Tor, 1934 (2-ª ed.,
Tor, 1935).
34 Versos do poema "Retrato de un muchacho que se llama Sigfrido", op. cit.,
pp. 346-48: "Que se llama Sigfrido/ Tu nombre suena/ como los cuernos de caza/
despertando las selvas vírgenes./ Y tu nariz aleteante,/ triángulo de cera
vibrátil,/ es la avanzada/ de tu beso joven [...]"
35 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 348-50: "[...] Mi lengua:/ Madura./img/
revistas/nec/n97/ Ríos floridos/ bajan de sus pétalos./ [...]/ Mi cuerpo:
estalla./ Cadenas de corazones/ le ciñen la cintura./ La serpiente inmortal/ se
le enrosca al cuello..."
36 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 360-61: "¿Me siente acaso? ¿Sabe que está
sobre/ su tenso cuello este deseo mio/ de deslizar la mano suavemente/ por el
hombro potente?"
37 Storni, Alfonsina. Mascarilla y trébol, círculos imantados. Buenos Aires:
Mercatali, 1938.
38 Eis o fecho do introito: "es como si un corazón sensiblemente agitado y
estallante se empeñara en querer certificar que las mareas que lo turban suben
de sus legítimos torrentes". In: Storni, Alfonsina, Obras/Poesia, op. cit., p.
394.
39 Storni, Alfonsina, op. cit., p. 402: "Debe existir una ciudad de musgo/
[...]/ Y unos frios espejos en la yerba/ [...]/ [...] y una niña muerta/ que va
pensando sobre pies de trébol./ [...]/ nacientes hojas,obre el blando limo."
40 Storni, Alfonsina, op. cit., p. 407: "Henchida estaba mi garganta de aire/
reverdecido y exultantes ojos/ me modelaban por que bien muriese."
41 Storni, Alfonsina, op. cit., p. 409: "Ya os escucho de nuevo, desasida,/ y
tú el pequeño mío, cómo cantas/ en mi balcón: "por qué me abandonaste?"."
("Regreso a mis pájaros")
42 Storni, Alfonsina, op. cit., p. 411, versos do poema "Gran cuadro": "No; no
era un cuadro aún para pintores/ de mucho fuste, pero entré en la tela/ y ágil
movió la muerte sus pinceles."
43 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 417-18: "Enciende el sol su mediodía y,
solo,/ se yergue un luto en la yacente losa/ [...]/ En vano afuera el llanto
clama al muerto;/ cuesta abajo rodando en sus neveras/ ni en gases deletéreos
ya responde."
44 A foto da urna funerária de Quiroga, de Stefan Erzia, está reproduzida em
Monegal, Emir Rodríguez. Genio y figura de Horacio Quiroga, op. cit., p. 185.
45 Ver a foto reproduzida em Monegal, Emir Rodríguez, op. cit., p. 112, em que
o escritor parece personagem de Dostoievski.
46 A foto de Prudencio Quiroga está reproduzida em Monegal, Emir Rodríguez, op.
cit., p. 13.
47 Ver Quiroga, Horacio. Diario y correspondência, vol. V, op. cit., pp. 357-
442, e Tarcus, Horacio (ed.), Cartas de una hermandad, op. cit., pp. 153-214.
48 Alfonsina dedicou-lhe o poema "La Colonia a medianoche". In: Mascarilla y
trébol..., op. cit., pp. 399-400.
49 Storni, Alfonsina, op. cit., pp. 566-67: "Pasando el río grande/ esa que te
ama/ no se muere... verdea como las ramas" (1938).
50 "No te escribo yo porque me siento un poco cansada. Hago escribir con la
mucamita. Sueñame que me hace falta. Te escribo tan solo para que veas que te
quiero. Te besa cariñosamente tu hermana, Alfonsina Storni". In: Roxlo, Conrado
Nalé e Mármol, Mabel, op. cit., p. 165.
51 Algumas fontes sustentam que o poema - epígrafe deste artigo - fora escrito
antes desse transe.
52 Os detalhes mobilizados no texto procedem das fontes biográficas já
mencionadas, em especial de Andreola, Carlos Alberto. Alfonsina Storni..., op.
cit., pp. 167-202.
53 Storni, Alfonsina, op. cit., p. 600. O repertório de vocábulos e de imagens
nesse poema retoma na íntegra a atmosfera depressiva do último livro,
Mascarilla y trébol, aqui levada ao paroxismo. O procedimento consiste em
transfigurar o corpo - "dentes de flores", "manos de hierbas" - e os objetos -
"cofia de rocio", "edredón de musgos encardados" - ou, então, em enunciar a
fantasia do sumiço do mundo social na natureza, ao substituir a lâmpada de
cabeceira pelas estrelas.
54 Salvadora Medina Onrubia de Botana, esposa de Natalio Botana, editor-
proprietário do diário portenho Crítica, amiga íntima da poetisa, havia cuidado
dela após a cirurgia em 1935.
55 Reproduzida em Andreola, Carlos Alberto, op. cit., p. 192.