Brasil, sociedade nacional-dependente
Uma sociedade que não possui a ideia de nação dificilmente experimentará um
desenvolvimento sustentável. Os países que realizaram sua revolução capitalista
originalmente e hoje são ricos desenvolveram-se sempre com base em um projeto
nacional. A mesma experiência tiveram, no século XX, os países retardatários,
mas essa experiência foi ainda mais marcante porque tiveram que enfrentar um
obstáculo do qual foram poupados os primeiros: o imperialismo moderno,
industrial, dos países que se industrializaram nos dois séculos anteriores. Ou
o país retardatário logra se afirmar como nação, constrói seu Estado, e define
uma estratégia nacional de desenvolvimento, ou crescerá lentamente e não
alcançará os padrões de vida dos países ricos. Nesse processo de construção
social a iniciativa cabe geralmente a uma elite política, mas, afinal, é o
Estado que acaba por liderar o desenvolvimento econômico. Em um segundo
momento, no processo de democratização que se segue à revolução capitalista, a
sociedade civil e a nação se democratizam internamente, e passam a ser
intermediários legítimos entre a sociedade como um todo e o Estado. Nesse
quadro teórico, nação e sociedade civil expressam o contrato social básico
existente nas sociedades modernas. Mas enquanto esse processo de organização da
sociedade não se aprofunda, uma segunda maneira de organizá-la politicamente é
através de pactos políticos voltados para o desenvolvimento. Nesse caso, a
legitimidade do Estado e de seus governantes continua a estar relacionada ao
apoio que têm na sociedade civil ou na nação, mas, mais concretamente, passa a
depender do bom êxito da coalizão de classes no poder em promover o
desenvolvimento econômico. Nessas coalizões, é necessário distinguir, dentro da
classe capitalista, os empresários e os capitalistas-rentistas e, dentro da
classe tecnoburocrática, a burocracia pública e a privada. Os pactos
desenvolvimentistas implicam sempre a coalizão entre empresários industriais e
a tecnoburocracia pública; e quando se trata de uma coalizão popular, implica
adicionalmente a participação das classes populares.
Neste ensaio tentarei apresentar uma interpretação da sociedade brasileira a
partir desses pressupostos. Para compreendê-la distinguirei três ciclos
políticos da sociedade e do Estadopelos quais passou a sociedade brasileira
desde sua independência, e, desde os anos 1930, cinco pactos políticosou
coalizões de classe. Partirei de uma hipótese básica: as elites burguesas,
políticas e intelectuais brasileiras são essencialmente ambíguas ou
contraditórias em relação à questão nacional. Por isso, argumentarei que é
falsa a tese que se tornou dominante nas ciências sociais brasileiras nos anos
1970, e até hoje subsiste, segundo a qual "não há nem nunca houve uma burguesia
nacional no Brasil", como é igualmente falsa a tese oposta que veria a
burguesia industrial brasileira como tão nacionalista como foram as burguesias
dos países ricos quando se desenvolveram, e como são hoje as burguesias e os
tecnoburocratas nos países asiáticos dinâmicos.
Cada indivíduo será nacionalista ou dependente, dependendo de como entende o
papel de seu governo e de seu Estado. Será nacionalista se acreditar que o
governo deve defender os interesses do trabalho, do conhecimento e do capital
nacionais, e se entender que, para isso, deve ouvir seus concidadãos ao invés
de aceitar sem críticas as políticas e reformas propostas pelos países ricos,
supostamente mais competentes. Mas isso não significa que os nacionalistas não
se interessem pelas ideias desenvolvidas nos países ricos. Depois, por exemplo,
da humilhação sofrida em 1853, quando o Ocidente os obrigou a abrir seu país
para o comércio internacional, os japoneses realizaram em 1868 a primeira
revolução nacionalista moderna, a Restauração Meiji, cuja diretriz fundamental
foi a de copiar a tecnologia e as instituições ocidentais. Surgia assim o
primeiro caso de revolução capitalista retardatária - de um desenvolvimento
que, para acontecer, teve que enfrentar o imperialismo moderno dos hoje países
ricos. As elites dos países latino-americanos têm maior dificuldade em se
identificar com sua nação do que as elites japonesas e, mais amplamente, do que
as asiáticas, porque uma parte de seus membros se vê como "europeia" e rejeita
a existência de interesses divergentes entre seu país e os países ricos. Essa
elite europeia com frequência considera inferior seu povo pobre e mestiço - e
se associa às elites externas, ao invés de se associar a seu próprio povo. Não
é surpreendente, portanto, que o problema da dependência seja mais grave na
América Latina do que na Ásia. Mas daí não se deve concluir que as elites
latino-americanas e brasileiras sejam sempre dependentes. Dada a intrínseca
ambiguidade dessas elites, uma interpretação mais adequada do Brasil é, talvez,
a de ser uma sociedade nacional-dependente.
CICLO ESTADO E INTEGRAÇÃO TERRITORIAL
O Brasil estabeleceu as precondições para a sua revolução nacional e
capitalista no século xix, ao lograr a unidade do território nacional e ao
iniciar o processo de modernização através da cultura e exportação de café e do
emprego de mão de obra assalariada que isso requereu. Na clássica discussão
sobre a quem coube a primazia na construção do Brasil, se à sociedade ou ao
Estado, se à nação ou à elite patrimonialista que dirigiu o Estado imperial, há
pouca dúvida que, ao contrário do que aconteceu na Inglaterra, na França, ou
nos Estados Unidos, essa primazia coube inicialmente ao Estado, ou, mais
precisamente, ao aparelho do Estado. Em 1822, a parca população brasileira
espalhada por um imenso território não podia ser considerada uma nação. Mas o
Estado - um Estado patrimonialista - era uma realidade. Não obstante todas as
suas limitações, foi a grande herança que Portugal deixou para o Brasil. A fuga
de d. João VI para o Brasil em 1808 trouxe esse Estado - suas leis, suas
práticas e sua burocracia. É esse aparelho burocrático e esse sistema legal que
as elites brasileiras da época usaram para adotar uma constituição e, em
seguida, construir seu Estado-nação. Tratava-se de uma elite formada por uma
burocracia patrimonialista, senhores de terra e comerciantes de escravos. Uma
elite, portanto, heterogênea, e, a não ser no caso da burocracia
patrimonialista, sem ideia de nação e de Estado.
É a partir dessa base que se desenrolaram os três grandes ciclos políticos do
desenvolvimento brasileiro - os ciclos que marcaram a relação entre a sociedade
e o Estado na história independente do Brasil. O primeiro é o da formação do
Estado e da integração do território sob seu comando, e cobre o período do
Império; denomino-o Ciclo Estado e Integração Territorial. Depois do período de
transição da Primeira República, temos o segundo ciclo - o Ciclo Nação e
Desenvolvimento - que vai da Revolução de 1930 até meados dos anos 1970 e
coincide com a revolução capitalista brasileira. Finalmente, a partir de meados
dos anos 1970 - quando já se considerava que a revolução capitalista havia sido
"completada" e o Brasil estava maduro para a democracia, mas o regime era
autoritário, ao mesmo tempo que a desigualdade social era enorme - ganha força
a luta pela democracia e pela diminuição da desigualdade. Chamo esse ciclo que
começa de Ciclo Democracia e Justiça Social, em que estava a sociedade
brasileira até meados dos anos 2000. Desde então, é possível que uma síntese
esteja se produzindo entre os dois últimos ciclos políticos - uma síntese que
se caracteriza por um desenvolvimentismo social e ambientalista - mas é cedo
ainda para julgar.
Quando, nos anos 1950, tive minha "introdução ao Brasil" lendo os trabalhos dos
grandes intelectuais nacionalistas do ISEB (em especial, Guerreiro Ramos,
Ignácio Rangel e Hélio Jaguaribe), aprendi que a história brasileira se dividia
em três períodos: colonial, semicolonial (Império e Primeira República) e da
revolução nacional e capitalista. Aceitei essa periodização, mas sempre me
incomodei com a ideia de que todos os grandes atores políticos do Império
haviam afinal presidido um período semicolonial. De fato, não havia nesse
período nem nacionalismo, nem ideia de nação. A subordinação cultural à Europa
era total. E o desenvolvimento que houve - principalmente o desenvolvimento do
café - não contou com apoio significativo do Estado; foi resultado da
iniciativa de uma burguesia agrária que abandonou o trabalho escravo e soube
aproveitar a oportunidade que a produção do café apresentava para transitar de
um capitalismo mercantil e patriarcal para um capitalismo onde a ideia e a
prática modernas de produtividade já estavam presentes, ainda que de forma
incipiente.
Mas, além dessa realização econômica, houve o grande esforço político no Brasil
imperial de integração do território nacional, da extensão da lei do Estado a
toda a população do país. Hoje, quando o Brasil tem um Estado efetivo, nos
preocupamos quando traficantes de drogas o desafiam tentando transformar as
favelas em zonas sob sua jurisdição. No século xix, o problema da
"estaticidade" - da afirmação do poder do Estado e do direito sobre todo o
território nacional - era um problema mais grave1. A integração nacional
simplesmente não existia. As dificuldades de comunicação e transporte eram
imensas. As revoluções buscando autonomia de províncias, as rebeliões de
escravos, o surgimento de jagunços ou senhores de guerra que dominavam amplas
regiões eram problemas constantes2. A figura do imperador foi importante para
que o país assegurasse o aumento gradual da estaticidade e para que lograsse a
unidade territorial, mas é preciso salientar o trabalho de políticos
extraordinários que lutaram pela integração do território nacional, como foi o
caso do Padre Feijó, de Bernardo de Vasconcelos e do Visconde do Uruguai. O
grande debate parlamentar era o do governo unitário apoiado pelos conservadores
contra a federação apoiada pelos liberais3. Essas expressões, "conservadores" e
"liberais", tinham pouca relação com suas correspondentes na Europa. Os
conservadores não estavam buscando manter a ordem através da conservação das
tradições, nem os liberais estavam buscando a liberdade ainda que com algum
risco da ordem pública. Os liberais defenderam a federação, mas os
conservadores afinal prevaleceram durante grande parte do Segundo Reinado
porque, em uma época em que um governo centralizado era uma condição necessária
para a integração territorial do país, defenderam o caráter unitário do Estado
brasileiro. Assim, uma elite política patrimonialista conservadora, que
representava seus próprios interesses e os da classe proprietária de terras e
da classe mercantil, contribuiu para a formação do Estado e para a integração
territorial do país. Mas como, por um lado, estava envolvida no tráfico de
escravos e na produção agrícola de exportação, e, pelo outro, era culturalmente
dependente da Europa, não tinha a ideia de nação e não promoveu a revolução
nacional e industrial brasileira. Pelo contrário, em geral se opôs a ela, seja
porque considerava que a indústria seria "artificial" no Brasil, seja porque
considerava o Brasil "um país essencialmente agrícola".
Quando se discute a relação Estado-sociedade, há a clássica questão da
primazia. Em geral a sociedade, a nação, precede o Estado. Não foi esse o caso
do Brasil. Na relação sempre dialética entre sociedade e Estado-nação, foi este
que prevaleceu no primeiro ciclo. Por isso sua grande burocracia
patrimonialista - que José Murilo de Carvalho estudou tão bem4- era quem
comandava politicamente o país. Era ela que, associada aos senhores de terra,
construía o Estado brasileiro (o sistema constitucional-legal e a administração
pública que o garante) ao mesmo tempo que integrava seu Estado-nação. Essa
elite não era nacionalista, não estava voltada para a industrialização e não
tinha uma atitude "anti" em relação ao imperialismo, que, conforme Barbosa Lima
Sobrinho acentuou5, é definidora do nacionalismo nos países da periferia do
capitalismo. Conforme observou Adrián Gurza Lavalle6, referindo-se ao problema
da nação, "a impossibilidade de se admitir a existência do Estado-nação como um
dado do século xix foi ponto cego para boa parte do pensamento político-social
brasileiro". A elite não foi, portanto, capaz de construir o Estado enquanto
nação, mas o construiu enquanto Estado e enquanto território unificado.
O Ciclo Estado e Integração Territorial foi bem-sucedido. No final do Império a
unidade territorial e a estaticidade - a extensão do poder do Estado sobre a
sociedade - estavam praticamente asseguradas. Entretanto, o Império falhara ao
se atrasar em resolver o problema fun-damental da escravatura. Resolveu-o muito
tarde, e não foi por acaso que a República foi proclamada um ano e meio depois.
Mas a República não resolveu os problemas existentes; pelo contrário, os
agravou ao adotar, prematuramente, o federalismo, o que abriu espaço para o
ressurgimento dos coronéis e dos senhores de guerra. Na virada do século xix
para o XX estava na hora de o Estado dar um apoio decisivo à indústria
brasileira nascente, concentrada no estado de São Paulo. Era o momento de
fortalecer o Estado para que se desencadeasse a revolução nacional e
industrial. Esse Estado foi, no entanto, enfraquecido.
CICLO NAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
Por essas razões considero a Primeira República um período de transição. Mas é
também o momento em que o Ciclo Nação e Desenvolvimento começa no nível da
sociedade. Agora é na sociedade e não no Estado que surgem as primeiras grandes
figuras do nacionalismo brasileiro: Silvio Romero, Manoel Bonfim, Euclides da
Cunha, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Roberto Simonsen. No plano da
sociedade o ciclo alcança um momento clássico nas obras de Oliveira Vianna,
Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Azevedo Amaral;e chega a sua
definição completa no pensamento dos grandes intelectuais do ISEB já citados e
na obra de Barbosa Lima Sobrinho e Celso Furtado7.
Passando do plano da sociedade para o do Estado, é preciso considerar uma
mudança fundamental. Ao contrário do que aconteceu na Independência, agora é a
sociedade que se antecipou ao Estado. Enquanto no nível da sociedade as ideias
nacionalistas já estavam avançadas desde o início do século, apenas a partir da
Revolução de 1930 surgirá o primeiro pacto político voltado para o
desenvolvimento: o Pacto Nacional-Popular de 1930 (1930-59) - um pacto
autoritário e industrializante que poderia também ser chamado de "nacional",
porque envolve a burguesia comprometida com a industrialização, e "popular",
porque envolve as classes populares. Esse pacto tem Getúlio Vargas como seu
principal ator político. Vargas compreendeu a gravidade da crise mundial
iniciada com o crash da bolsa de Nova York em 1929 e a oportunidade que se
abria para o Brasil. Assim, rompeu a aliança que fizera com os liberais (que
representavam os interesses do café e do comércio externo) e se associou aos
nacionalistas que vinham se manifestando cada vez mais ativamente no plano
político, principalmente no movimento tenentista. Ao mesmo tempo, como líder
político populista, buscou pela primeira vez na história do país apoio nas
massas urbanas. Vargas logrou unir em um pacto informal diversas classes e
setores sociais: a burguesia industrial nascente, a burocracia pública moderna
que também estava dando seus primeiros passos, a classe trabalhadora urbana,
intelectuais nacionalistas e de esquerda, e setores da velha oligarquia: os
setores "substituidores de importações" (que não produziam para a exportação)
como eram o dos criadores de gado (do qual Vargas fazia parte) do Sul e do
Nordeste. Na oposição ficavam a oligarquia agrário-exportadora e os interesses
estrangeiros.
O Pacto Nacional-Popular de 1930 irá se beneficiar da Grande Depressão dos anos
1930 para desencadear a revolução industrial brasileira. A queda dos preços do
café leva a uma forte desvalorização da moeda local o que, imediatamente,
estimula a indústria. E a estimula de forma permanente porque, a partir de
então até 1992, o governo brasileiro manterá o controle das entradas de capital
e do câmbio. Aos poucos, a partir de 1930, começa a se configurar uma
estratégia nacional de desenvolvimento - uma estratégia nacional-
desenvolvimentista - com amplo apoio na sociedade, exceto a antiga oligarquia
exportadora de commoditiese a classe média de profissionais liberais que servia
àquela oligarquia. Era uma industrialização comandada pelo Estado (state led),
como foram as revoluções industriais dos países que as realizaram
atrasadamente, como o Japão, a Alemanha, a Áustria e os países escandinavos8.
Pela primeira vez na história do país o governo liderava com êxito uma política
voltada para a industrialização, e o Brasil alcançava as taxas de crescimento
mais elevadas.
O Brasil estava realizando sua revolução nacional e industrial, ou seja, sua
revolução capitalista, e construindo seu Estado-nação. O regime era autoritário
como, aliás, foram os regimes políticos de outros países no período em que
realizaram suas respectivas revoluções capitalistas9. Em 1945, com o fim da
Segunda Guerra Mundial, um golpe de Estado encerra os quinze anos de governo
Vargas, os últimos sete dos quais haviam sido de governo autoritário (o Estado
Novo). Nos dois primeiros anos seguintes à guerra, durante o governo do general
Eurico Gaspar Dutra, há uma tentativa desastrosa de liberalização comercial,
mas o governo é obrigado a voltar à estratégia nacional-desenvolvimentista de
Vargas. Em 1950, ele é eleito presidente com grande maioria, mas, em 1954,
acusações infundadas de corrupção levantadas pelo partido liberal, a udn (União
Democrática Nacional), levam a novo golpe de Estado e ao suicídio de Vargas. Um
ano depois, no entanto, com a eleição de Juscelino Kubitschek e sua política de
industrialização acelerada, restabelece-se o Pacto Nacional-Popular de 1930 e a
respectiva estratégia. Entretanto, o desequilíbrio econômico deixado por esse
presidente, a Revolução Cubana de 1959, que provoca forte radicalização
política em toda a América Latina, e a eleição de Jânio Quadros, um líder
populista de direita, para a presidência da República em 1960 e sua renúncia em
1961 causam uma grande crise política e econômica, marcando o final do Pacto
Nacional-Popular de 1930 e levando ao golpe de Estado autoritário-modernizante
de 1964.
Com o golpe de 1964, cuja origem está no acirramento da Guerra Fria na América
Latina e na radicalização política propiciada pela Revolução Cubana de 195910,
este ciclo nacionalista entra em colapso, na medida em que os empresários
industriais, que constituíam a burguesia nacional - ou seja, uma classe
capitalista comprometida com os interesses nacionais -, e os militares, que
sempre foram o esteio do nacionalismo brasileiro, atemorizados com a ameaça
comunista, se associaram aos norte-americanos na instauração de um regime
militar no Brasil. Forma-se, então, um novo pacto político - o Pacto
Autoritário-Modernizante de 1964 - que, ao contrário do que se pensava então,
dará continuidade à estratégia nacional-desenvolvimentista do período anterior.
Esse pacto político teve a mesma composição do anterior em termos de elite -
burguesia nacional e burocracia pública (na qual os militares haviam se tornado
dominantes) -, mas excluía os trabalhadores e os intelectuais de esquerda,
enquanto os interesses estrangeiros, que haviam sido importantes no momento do
golpe, perdem em seguida boa parte de sua influência11. Mesmo assim, o regime
militar não perde o apoio dos países ricos, não obstante a estratégia nacional
de desenvolvimento fosse nacionalista ao dar clara precedência às empresas
nacionais sobre as estrangeiras, e embora a política de desenvolvimento
econômico estivesse apoiada no Estado e no controle da taxa de câmbio. Este
apoio era possível porque o país continuava aberto aos investimentos das
empresas multinacionais, e porque durante a Guerra Fria os Estados Unidos não
estavam empenhados em determinar a forma de organização social e econômica dos
países em desenvolvimento. O pacto foi comandado pela tecnoburocracia pública e
contou com a participação ativa da burguesia industrial, que se envolverá
principalmente na indústria de bens de capital, enquanto o Estado continuava a
investir na infraestrutura e nas indústrias de base - no caso da petroquímica,
em associação com o capital externo12.
Nos dois períodos do Ciclo Nação e Desenvolvimento - o do Pacto Nacional-
Popular de 1930 e o Autoritário-Modernizante de 1964 -, o nacional-
desenvolvimentismo foi a estratégia nacional de desenvolvimento comum. Nos dois
casos, enfrentou a oposição dos setores liberais e alienados de uma burguesia
inicialmente mercantil e depois de uma burguesia rentista associada a
profissionais financistas, sempre associada aos interesses estrangeiros.
Entretanto, no caso do Pacto Autoritário-Modernizante de 1964, seu colapso
envolverá a participação ativa das classes populares, e a coalizão de classes
que substitui será democrática e desenvolvimentista: o Pacto Democrático-
Popular de 1977. Seguir-se-ão dois outros pactos - o Pacto Liberal-Dependente
de 1991 e, talvez, um novo pacto desenvolvimentista. O Quadro_1 apresenta a
periodização que estou adotando: como toda periodização, apresenta problemas,
mas espero que facilite a compreensão do argumento.

CICLO DEMOCRACIA E JUSTIÇA SOCIAL
O Ciclo Democracia e Justiça Social começa a ser gestado no início dos anos
1960, quando as lutas pela reforma agrária e por outras "reformas de base"
mobilizaram setores significativos da sociedade brasileira, inclusive os
trabalhadores rurais que, até então, estavam excluídos da vida política. O
golpe militar de 1964 interrompeu o processo, mas o caráter excludente do novo
Pacto Autoritário-Modernizante estabeleceu as bases para que, mais adiante, as
ideias de democracia e redução da desigualdade se tornassem dominantes no
Brasil. O "milagre econômico" (1968-73)13, que marca o final do Ciclo Nação e
Desenvolvimento, criou a impressão para a esquerda e para os intelectuais de
que o desenvolvimento econômico estava agora garantido, e fortaleceu a ideia de
que o grande desafio que o país agora enfrentava deixara de ser o
desenvolvimento econômico (que os militares estavam promovendo) para ser o da
transição para a democracia e a redução das gritantes desigualdades sociais.
É nesse quadro que surge, entre intelectuais de esquerda, tanto os católicos
quanto os marxistas (vários destes professores da Universidade de São Paulo
"aposentados" autoritariamente pelo regime militar), o novo ciclo político
longo, o Ciclo Democracia e Justiça Social14. O novo ciclo tem como pano de
fundo o golpe de 1964 e o "milagre econômico". Supõe que o desenvolvimento
econômico ocorrerá, mas de forma desigual, e passa a fazer a crítica da
concentração "para cima" da renda da classe média provocada pela política
econômica do regime militar15. O pensamento de esquerda no Brasil, durante os
anos 1970, estará, portanto, voltado para a crítica do regime autoritário e do
modelo de desenvolvimento concentrador de renda da classe média para cima que o
Pacto Autoritário-Modernizante promovia, e para a reivindicação de democracia e
justiça social.
O novo ciclo ganhou impulso no plano político em 1977, com o início da crise do
regime autoritário. A crise se desencadeia como uma reação ao "pacote de abril"
de 1977, um conjunto de medidas violentamente autoritárias que o presidente
Ernesto Geisel adota nesse mês, depois de, nos dois anos anteriores, ter
anunciado que estava iniciando a "distensão" ou a "abertura" democrática. As
medidas autoritárias foram recebidas de forma negativa pela burguesia, e, a
partir de então, esta, pela primeira vez desde 1964, deixa de dar amplo apoio
ao governo, e, gradualmente, se associa às forças democráticas. Com esse fato
histórico novo iniciava-se a transição democrática no Brasil e, como primeiro
momento do Ciclo Democracia e Justiça Social, formava-se o Pacto Democrático-
Popular de 1977, um pacto abrangente que foi impulsionado pela crise econômica
que começa em 1980 (a grande crise da dívida externa e da alta inflação
inercial) e alcança a democracia no final de 1984, depois de ampla mobilização
popular - a campanha das Diretas-Já. No entanto, no início de 1987, esse pacto
entra em colapso, na medida em que não logrou enfrentar a grande crise
econômica16. O momento maior que coroou o Ciclo Democracia e Justiça Social foi
a promulgação da Constituição de 1988 - uma constituição democrática, social e
participativa, que foi recebida com frieza pelas elites conservadoras do país,
que a consideraram "utópica" e "inviável". Não obstante, a sua determinação
mais significativa - o estabelecimento de um sistema universal de saúde -
tornou-se realidade com o sus - o Sistema Único de Saúde. Ao começar, em meados
dos anos 1970, esse ciclo estava diante de um país em que a desigualdade era
imensa; trinta anos depois, não obstante o neoliberalismo que atingiu o mundo e
se refletiu no Brasil, estava instalado no país um Estado do bem-estar social,
e a desigualdade, embora continuasse elevada, havia diminuído sensivelmente17.
O país da "modernização seletiva" de que nos fala Jessé de Souza não
desaparecera;o Brasil modernizou-se, adotou "o código valorativo dominante - o
código do individualismo moral ocidental";mas nessa modernização o ex-escravo
vai ser abandonado, e dará origem a "um exército de párias urbanos e rurais sem
lugar no processo produtivo e sem lugar na comunidade política"18. Esse quadro
só começará a mudar quando, nos anos 2000, o subproletariado brasileiro,
beneficiado pelo aumento do salário mínimo e por uma ampla gama de serviços
sociais públicos, assume papel político proativo e, nas eleições presidenciais
tanto de 2006 quanto de 2010, a clivagem de renda e de classe passa a ser
determinante.
ELITES E DEPENDÊNCIA
No final dos anos 1960, ao mesmo tempo que começava o Ciclo Democracia e
Justiça Social, surge a "teoria da dependência", a grande crítica à tese
nacional-desenvolvimentista da revolução burguesa. De acordo com essa
perspectiva de inspiração marxista, os países em desenvolvimento seriam
intrinsecamente dependentes, suas classes dirigentes seriam necessariamente
subordinadas às grandes potências imperiais ou ao Norte, de forma que estariam
equivocados aqueles que acreditavam que as sociedades subdesenvolvidas seriam
duais, modernas e semifeudais ou tradicionais, e que uma burguesia nacional
poderia liderar uma revolução capitalista e levar o país ao desenvolvimento -
uma tese que estava no centro da ideologia nacionalista e do projeto
desenvolvimentista. Essa interpretação, aparentemente confirmada pelos golpes
militares, em 1964 no Brasil e em 1967 na Argentina, ganha corpo em Santiago do
Chile, onde se reuniam os exilados políticos. Ali, logo se dividiu em dois
grupos, um, radical - o da "superexploração imperialista" -, que conclui pela
necessidade da revolução socialista, dado o pressuposto de que a ausência de
uma burguesia nacional tornava impossível construir uma nação e realizar uma
revolução capitalista; outro, moderado e curiosamente antinacionalista - o da
"dependência associada" -, que, a partir do mesmo pressuposto, conclui pela
conveniência de o Brasil se associar ao Norte19.
A interpretação da dependência estava correta quando fazia a crítica da
desigualdade e do autoritarismo, mas equivocou-se gravemente em relação ao
nacionalismo e à revolução burguesa. Entre 1930 e 1980 o Brasil contou com uma
estratégia nacional de desenvolvimento, que só foi possível porque havia aqui
uma burguesia nacional ou razoavelmente nacional. As elites dos países em
desenvolvimento, em especial dos países latino-americanos, são elites
contraditórias ou ambíguas, em parte dependentes, em parte nacionais. Sofrem de
alienação cultural e política em vários graus. Essa alienação tem como origem
um fato objetivo - o grau mais elevado de desenvolvimento do país hegemônico -
e um conjunto de fatos imaginários: a vontade perversa de reproduzir padrões de
consumo do exterior, a crença de que, para crescer, um país como o Brasil
"precisa" dos capitais dos países ricos, etc. 20 Mas, em compensação,
especialmente em um país grande como o Brasil, os interesses de suas elites
pelo mercado interno e a possibilidade que elas têm de contar com o Estado
nacional para poderem aproveitar esse mercado e investir são também fatos
objetivos que levam a burguesia a ser nacional.
As duas teorias da dependência simplificavam a realidade social complexa do
Brasil. Havia nelas um elemento de ressentimento e de busca de responsáveis
"internos", entre as esquerdas, pelo golpe de 1964. Um ressentimento que se
tornou especialmente claro no ensaio que Caio Prado Jr. publicou então,
culpando o Partido Comunista Brasileiro pela derrota das esquerdas21. Mas havia
nas novas ideias um aspecto correto que explica por que a teoria da dependência
associa-da foi dominante intelectualmente no Brasil nos anos 1970 e 1980. Dado
o rápido crescimento da economia, o grande problema do Brasil no momento
deixava de ser o desenvolvimento econômico para ser a democracia e a
desigualdade. Como o país completara sua revolução industrial e capitalista,
muitos acreditaram que o desenvolvimento econômico estivesse assegurado, e que
agora bastava lutar por mais igualdade e mais liberdade. Para eles não havia
solução para o problema da alienação das elites dos países latino-americanos,
porque elas seriam intrinsecamente dependentes: não existira no passado nem
existirá no futuro uma burguesia nacional no Brasil. Apoiados no golpe de 1964,
pelo qual essa burguesia e a tecnoburocracia pública se aliaram aos Estados
Unidos para derrubar o governo de esquerda do presidente João Goulart,
rejeitavam a possibilidade de uma revolução nacional e capitalista, sem
perceber que os empresários e burocratas públicos associados ao regime militar
estavam continuando a política nacionalista de Vargas. Para esses intelectuais
- eles, sim, dependentes - não existiria outra via para o desenvolvimento senão
a de nos subordinarmos e contarmos com a solidariedade dos países ricos22.
É preciso, porém, reconhecer a debilidade do nacionalismo entre as elites
econômicas e intelectuais brasileiras principalmente nos anos 1990, vítimas, em
vários graus, de alienação cultural e política. São nacionais, mas tendem a ser
dependentes. Esta alienação tem como origem permanente o grau mais elevado de
desenvolvimento do país hegemônico, que implica superioridade não apenas no
plano econômico e tecnológico, mas também institucional e cultural. Tal
superioridade, porém, não deveria levar à subordinação se as elites nacionais
se dessem conta de que os interesses dos países ricos não são os dela.
Entretanto, a necessidade de absorver as novas tecnologias, a reprodução de
padrões de consumo do exterior, e o interesse (legítimo) de copiar e adaptar
instituições levam muitos a imaginar que isso só possa ser feito através da
subordinação. Por outro lado, a necessidade mais imaginária do que real de
crédito externo induz essas elites à política do confidence building, ou seja,
de aceitar sem a devida crítica as recomendações vindas dos credores através
das agências internacionais para conseguir, assim, confiança dos credores.
Entretanto, as elites brasileiras, principalmente a burguesia industrial, não
são apenas dependentes: são também, e contraditoriamente, nacionais,
identificadas com o interesse nacional. Existe nelas uma ambiguidade básica em
relação à questão nacional. Por isso a sociedade brasileira não é simplesmente
dependente, mas nacional-dependente. Vive essa permanente contradição que só
pode ser expressa por um oxímoro. Em certos momentos, sua dependência aumenta,
como aconteceu em 1964, por medo do comunismo, ou como aconteceu nos anos 1990,
quando a hegemonia ideológica neoliberal era absoluta e o desenvolvimentismo
pós transição democrática se transformara em populismo. Em outros momentos,
porém, é nacionalista, porque o atendimento de seus interesses depende do
desenvolvimento do país. Quanto mais dependente e menos nacional forem as
elites nacionais, mais o país estará próximo da semiestagnação. Quanto menos
dependente e mais nacional, maior será a probabilidade de um verdadeiro
desenvolvimento.
Para termos uma perspectiva histórica desse problema, é preciso considerar a
enorme divisão das elites brasileiras que tem origem no golpe militar de 1964.
Antes dele Getúlio Vargas havia logrado liderar a grande aliança nacional-
desenvolvimentista, que unia a burguesia nacional, os trabalhadores e os
técnicos do governo, resultando em taxas de crescimento econômico
extraordinárias. O golpe militar, porém, separou os trabalhadores e as
esquerdas dos empresários, levando a teorias equivocadas e ressentidas sobre a
dependência, segundo as quais seria impossívelhaver no Brasil ou na América
Latina uma burguesia nacional, dado o caráter dependente dessa burguesia. Ora,
a burguesia, como as demais elites brasileiras, são, de fato, dependentes, mas
não são sólida e definitivamente dependentes. A teoria da dependência que faz
sentido reconhece a ambiguidade básica da sociedade brasileira e de suas
elites, afirmando seu caráter nacional-dependente. Em certos momentos essas
elites são alienadas, em outros, nacionais. Existem, porém, no Brasil forças e
interesses internos suficientemente grandes para sustentar a constituição de
elites nacionais, e de estratégias nacionais de desenvolvimento.
No caso do Brasil, a essa condição geral somou-se, nos anos 1980, a crise do
Estado brasileiro e sua contrapartida internacional, a globalização e a
hegemonia neoliberal. Enquanto a crise do Estado levava as elites nacionais a
descrer de uma estratégia de desenvolvimento baseada no interesse nacional, a
globalização abria espaço para a ideologia neoliberal segundo a qual o
desenvolvimento deve ficar por conta apenas do mercado, e para a ideologia
"globalista" que anunciava o fim do Estado-nação e o surgimento de um conjunto
de empresas multinacionais e de seus executivos racionais e liberais voltadas
para o desenvolvimento universal. Somam-se a esses outros dois fatores: o
colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria. A partir daí os empresários
brasileiros não necessitavam de uma aliança automática com os Estados Unidos, e
podiam ganhar independência, mas a ideia da "superioridade" do modelo anglo-
saxão de desenvolvimento prevaleceu.
CRISE DOS ANOS 1980 E COLAPSO DO PACTO DEMOCRÁTICO-POPULAR
Em meio ao processo de transição democrática, o desenvolvimento econômico foi
interrompido no Brasil e em toda a América Latina pela crise da dívida externa
e pela alta inflação inercial que se desencadeou em 1980. No início, foi
essencialmente uma crise de balanço de pagamentos resultante das entradas
excessivas de capitais e a consequente sobre apreciação cambial, ou, em outras
palavras, foi o resultado da crença na existência de uma "restrição externa" e
da equivocada política de crescimento com poupança externa que sanaria essa
restrição. Ao contrário do que muito se disse, o esgotamento do modelo de
substituição de importações não foi um fator causal da crise. Conforme
demonstrou Maria da Conceição Tavares em seu trabalho clássico de 196323, esse
esgotamento ocorrera no final dos anos 1950. Refletindo esse fato, o Brasil,
desde o final dos anos 1960, se engajou com êxito em uma política de exportação
de manufaturados, de forma que, no início dos anos 1980, mais de 50% de suas
exportações era de bens industriais24.
Os militares e empresários nacionalistas que, nos anos 1970, aceitaram o
endividamento externo, assim como seus críticos democráticos, não sabiam que o
capital se faz em casa, não obstante as dramáticas advertências de Barbosa Lima
Sobrinho a esse respeito25. Não sabiam (e até hoje as elites brasileiras não
sabem) que a tese da "restrição externa", defendida por economistas de todos os
tipos, inclusive os estruturalistas, deixa de ter fundamento a partir do
momento em que o país passa a exportar manufaturados26, nem se davam conta de
que a "solução" para essa restrição não é recorrer a déficits em conta corrente
ou à poupança externa. Não percebiam que o composto "restrição externa/poupança
externa" - a discutível falta estrutural de divisas fortes para financiar os
investimentos, que seria "resolvida" pelo endividamento externo - é um
equívoco. Não dispunham, portanto, naquela época, da teoria econômica
necessária para criticar a "estratégia" de desenvolvimento recomendada aos
países em desenvolvimento pelos países ricos, baseadas em déficits em conta
corrente e endividamento externo - uma estratégia que impedia o crescimento
econômico dos países retardatários27. O crescimento dos anos 1970 com elevados
déficits em conta corrente financiados por endividamento externo resultou, nos
anos 1980, na grande crise da dívida externa e na alta inflação inercial que
paralisaria o desenvolvimento econômico brasileiro.
A grande crise dos anos 1980 apressou a derrota do regime militar. Entretanto,
a transição democrática produziu uma euforia na sociedade brasileira que logo
se transformou em populismo econômico generalizado. As novas esperanças se
cristalizaram na estabilização dos preços alcançada pelo Plano Cruzado (1986),
e foram seguidas de profunda decepção popular quando esse plano entrou em
colapso no fim do mesmo ano. O desastre não foi apenas econômico; foi também
político, porque levou ao colapso o Pacto Democrático-Popular de 1977. O Plano
Cruzado, bem pensado em termos teóricos, foi realizado no quadro de
irresponsabilidade fiscal e cambial reinante no país. Ignoraram-se as
restrições econômicas impostas pelo câmbio valorizado, que levava a elevados
déficits em conta corrente, e pelo orçamento público desequilibrado28. No final
dos anos 1980 forma-se, afinal, o consenso sobre o imperativo da
responsabilidade fiscal. E no início da década seguinte começa a abertura
comercial. A indústria brasileira não era mais uma "indústria infante" e podia
dispensar proteção alfandegária. Entretanto, a reforma ignorou que uma parte
importante do que se imaginava ser proteção tarifária à indústria era, na
verdade, neutralização da doença holandesa. Naquela época, porém, isto não
estava claro para ninguém.
PERDA DA IDEIA DE NAÇÃO
No período de grande crescimento da economia brasileira, entre 1930 e 1980, os
liberais e mais tarde os neoliberais (que no passado também eram
significativamente chamados "livre-cambistas") estiveram fora do poder
político. Só assumiram o poder por breves períodos, em 1945, em 1954, e em
1960. A rendição do Brasil ao Norte em 1991 sob o comando de políticos e
burocratas liberais ocorreu no segundo ministério do governo Collor, depois de
quatro anos de vácuo de poder (1987-1990) causado pelo colapso do Plano
Cruzado. Forma-se, então, um novo pacto político dominante no Brasil - o Pacto
Liberal-Dependente de 1991 - que adotará as reformas econômicas e as políticas
macroeconômicas previstas pelo Consenso de Washington. Dessa maneira, o país
voltou por um tempo à condição semicolonial que tivera antes de 1930. Dado que
a nação é um desafio e uma construção de cada dia, como é possível que um país
abandone sua revolução nacional e capitalista, quando sabemos que ela é
condição do desenvolvimento econômico? Só a perda da ideia de nação decorrente
da teoria da dependência associada, somada à gravidade da crise da dívida
externa e da alta inflação que se desencadeia em 1980, e a hegemonia ideológica
neoliberal que se materializa nos anos 1990 podem explicar esse retrocesso.
O nacionalismo foi a ideologia que cimentou a formação dos Estados-nação: foi o
sentimento de solidariedade que transformou povos, geralmente dotados de
razoável identidade étnica e principalmente cultural, em nações. Estas, dotadas
de um mercado interno seguro e de um instrumento de ação coletiva (o seu
Estado), passaram a deliberadamente competir no mercado ou na arena
internacional e a promover seu desenvolvimento. Nos anos 1950 e 1960, Hélio
Jaguaribe, Guerreiro Ramos e Ignácio Rangel explicaram o desenvolvimento como
um processo de revolução nacional que se expressava na transferência dos
centros de decisão para dentro do país. E principalmente Hélio Jaguaribe
mostrava que essa revolução implicava um grande acordo de classes envolvendo os
empresários ou a burguesia nacional, os trabalhadores e os técnicos do governo.
O nacionalismo não tinha qualquer caráter étnico, nem religioso; era apenas
econômico, e motivo de orgulho para seus adeptos, porque estavam todos
envolvidos na formulação de um grande projeto comum de desenvolvimento. Os
adversários naquele momento eram a oligarquia agroexportadora, que usava o
liberalismo para evitar a neutralização da doença holandesa via imposto sobre
exportações, e o imperialismo dos países industriais.
Nos anos 1980 e 1990, porém, dado o desgaste do nacionalismo causado pelo
regime militar, a gravidade da crise econômica interna e a força do "caminho
único" neoliberal, a revolução nacional brasileira paralisou-se, e o Brasil
ficou sem o conceito de nação. Os empresários com espírito nacional ficaram em
minoria, enquanto os capitalistas rentistas, interessados em obter altas taxas
de juro, e o setor financeiro que os serve, aproveitavam-se da instabilidade
macroeconômica do país para garantir a continuidade de uma política de juros
internos elevados, câmbio sobreapreciado, e forte dependência externa. Nas
economias modernas - no capitalismo do conhecimento ou dos profissionais - o
poder do setor financeiro deriva, de um lado, de seu papel quase público de
criar moeda, e, de outro, de seu conhecimento de política macroeconômica - um
conhecimento que deriva de sua necessidade de contratar um grande número de
economistas para gerir suas próprias tesourarias e a riqueza de seus clientes.
A política macroeconômica e o conhecimento da teoria das finanças tornaram-se
estratégicas: têm mais poder aqueles que conhecem ou que aparentam conhecer
melhor essa técnica social. No caso brasileiro, a instabilidade macroeconômica
crônica acentuou esse poder.
A fragilidade da sociedade brasileira diante da pressão ideológica externa está
relacionada à alienação de seus intelectuais. Amplos setores de sua elite
intelectual de esquerda, ressentida desde o golpe militar de 1964, recusava
desde então qualquer aliança com os empresários, a partir do pressuposto de que
"seria impossível haver uma burguesia nacional em países dependentes", mas que
esse fato não teria importância já que o desenvolvimento econômico brasileiro
estava assegurado pelos investimentos das empresas multinacionais... 29Ao
adotarem tal pressuposto, as esquerdas inviabilizavam o próprio conceito de
nação. Só existe uma nação quando, apesar dos conflitos de classe, há uma
solidariedade básica entre elas em relação à competição com as demais nações.
No passado essa solidariedade era essencial para ganhar a guerra. Hoje, é
necessária para poder crescer e competir na arena global. Enquanto as elites
dos países ricos sabem (ou até os anos 1970 sabiam) bem disso e eram
nacionalistas, a começar pelos Estados Unidos, as elites econômicas, políticas
e intelectuais brasileiras ignoraram essa simples verdade e, no início dos anos
1990, pelas três razões acima referidas, submeteram-se ao Norte30.
A perda da ideia de nação ocorreu inicialmente entre os intelectuais
brasileiros a partir da hegemonia da "teoria da dependência associada" nos anos
1970. Entre 1968 e 1973, no quadro de um regime militar nacionalista e
repressivo, ocorreu o "milagre econômico" durante o qual as taxas de
crescimento econômico foram em média de 10%. A reação dos intelectuais
progressistas foi ver na política do regime militar a confirmação de que não
podia haver no Brasil uma burguesia identificada com a nação. Mas, segundo essa
visão, a ausência de burguesia nacional não impedia o desenvolvimento
econômico, que agora seria "assegurado" pelas empresas multinacionais. Assim,
abandonaram a interpretação nacional-desenvolvimentista e anti-imperialista do
ISEB, da cepal e do Partido Comunista Brasileiro e, na prática, se subordinaram
ao Norte. Ao invés de entenderem que a dependência tornava a burguesia nacional
ambígua e contraditória - ora nacional, ora dependente - e que era legítimo
firmarem um pacto político com ela, preferiram uma interpretação purista que
conduzia os socialistas de volta às origens do seu pensamento baseado no
internacionalismo e na luta de classes. Mas afinal, nos anos 1990, a maioria
dos que nos anos 1970 adotaram as teses da dependência associada e rejeitaram o
nacionalismo abandonaram o socialismo que haviam partilhado na juventude.
Não obstante esse retrocesso ocorrido entre 1964 e meados dos anos 1970, a
partir do Pacto Democrático-Popular de 1977 o nacionalismo voltou a ser uma
ideologia a caracterizar a sociedade brasileira no quadro da luta pela
democracia. Entretanto, esse pacto democrático, popular e social durou apenas
dez anos. A burguesia nacional, que, segundo a teoria da dependência, não
existiria, se associou às forças populares e democráticas na luta pela
democracia e pela diminuição da desigualdade social. Entretanto, o fracasso do
governo democrático que se instala em 1985 em lograr estabilizar a economia
devido às políticas econômicas populistas que então adota, além de desmoralizar
o pacto de 1977, desmoralizou também as ideias nacionalistas e
desenvolvimentistas, que passam a ser confundidas com o populismo. Temos então,
após o fracasso do Plano Cruzado, ou, mais amplamente, o fracasso do Pacto
Democrático-Popular de 1977 em resolver a grande crise da dívida externa e da
alta inflação, um momento de vácuo político - um momento em que a coalizão de
classes deixa de ter vigência e a nova coalizão ainda não se definiu. Em
consequência, nas eleições de 1989, os candidatos democráticos que haviam
participado e liderado o Pacto Democrático-Popular de 1977 (Ulysses Guimarães,
Mário Covas e Lula) são derrotados por um jovem político oportunista. Ao mesmo
tempo, a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o colapso da União Soviética em
1991 consolidam a hegemonia neoliberal, que era também uma hegemonia americana.
Por todas essas razões, somadas à ambiguidade nacional-dependente das elites
brasileiras, não foi surpreendente que a partir do governo Fernando Collor de
Mello o Brasil tenha abandonado a ideia de nação e se submetido ao Consenso de
Washington.
UM NOVO DESENVOLVIMENTISMO?
O momento em que o Brasil perdeu sua autonomia nacional, no governo Collor,
coincidiu com o colapso da União Soviética e a hegemonia dos Estados Unidos e
das ideias neoliberais. Entretanto, desde o início dos anos 2000, começou a
ficar evidente para todos o fracasso das políticas neoliberais, primeiro, nos
países em desenvolvimento, e, depois, no centro da economia mundial, e o quadro
ideológico começou a mudar. Em certos casos reformas como a privatização de
empresas não monopolistas e políticas econômicas como a restauração das
finanças públicas eram necessárias ou recomendáveis, mas elas foram
acompanhadas por políticas equivocadas, como a abertura financeira,
liberalização e desregulamentação indiscriminadas, a política de crescimento
com déficits em conta corrente financiados por endividamento externo, a
política de altos juros e de apreciação cambial para controlar a inflação. Não
houve, tampouco, preocupação em neutralizar a doença holandesa e a tendência à
sobre apreciação cíclica da taxa de câmbio. A consequência foi baixo
crescimento e reprimarização (ou desindustrialização) da economia. E, por isso,
passamos a ver, com frequência cada vez maior, membros das elites brasileiras
se darem conta que, de um lado, um Estado-nação forte e autônomo continuava
importante no quadro dessa competição em escala mundial que é a globalização,
e, de outro, que as reformas ou políticas ortodoxas não promoviam nem o
crescimento nem a estabilidade financeira do país; garantiam apenas baixa
inflação. Abria-se, assim, espaço para se pensar uma estratégia nacional de
desenvolvimento - um novo desenvolvimentismo.
Em toda a América Latina, a partir de 1999, líderes políticos nacionalistas
foram eleitos. No Brasil isto ocorreu com a eleição de Luiz Inácio Lula da
Silva. O governo Lula (2003-2010) deixou confusas as elites conservadoras,
decepcionou a esquerda mais radical, foi saudado como uma volta à ideia de
nação pelos nacionalistas de centro-esquerda, e maravilhou a grande massa de
trabalhadores pobres. Entretanto, os dois primeiros anos do governo Lula foram
marcados por crise econômica e por crise política. Esta - a crise do "Mensalão"
- quase custou ao presidente seu cargo. Mas Lula revelou então sua grande força
pessoal e sua liderança política, voltou-se para o povo em busca de apoio, e
acabou se reelegendo com grande maioria em 2006. Terminou seu segundo governo,
em 2010, com índices de popularidade jamais vistos, e logrou eleger Dilma
Rousseff para sucedê-lo na presidência da República.
Lula assumiu a presidência em janeiro de 2003, quando a crise de balanço de
pagamentos de 2002 estava em seu auge, o crédito externo bloqueado pelos
credores e o dólar sendo vendido a quase R$ 4, 00. Enquanto era um partido de
esquerda que criticava a social-democracia e se pretendia revolucionário, o PT
havia proposto políticas econômicas radicais, se não irresponsáveis, em relação
à política fiscal e ao pagamento da dívida externa. Sabendo que essa havia sido
uma das causas de sua derrota eleitoral em 1998, mudou o tom e o conteúdo de
suas propostas em um documento de sua campanha eleitoral de 2002, a Carta aos
Brasileiros. Isto, porém, não impediu que o mercado financeiro desconfiasse do
candidato do Partido dos Trabalhadores. A essa desconfiança somou-se a
equivocada política de juros que o Banco Central havia adotado em 2001 de
elevação da taxa básica de juros para impedir a depreciação do real e assim
controlar a inflação. O aumento da taxa de juros levou ao aumento do déficit em
conta corrente, o que fragilizou o já frágil crédito do país. O resultado dessa
política econômica pró-cíclica e da desconfiança em relação ao novo governo foi
a crise de balanço de pagamentos do final de 2002, quando os credores
internacionais suspenderam novamente a rolagem da dívida externa brasileira,
como já haviam feito em 1998, causando novamente violenta depreciação do real.
Durante os dois primeiros anos do novo governo do PT a economia brasileira
viveu um período de ajustamento maior do que necessário de suas contas
externas. Diante da crise e da desconfiança pela qual era em parte responsável,
o novo presidente decidiu não arriscar. O essencial para ele era recuperar a
confiança dos mercados financeiros e, com esse objetivo, fez tudo o que esse
mercado pedia:elevou a taxa de juros e aprofundou o ajuste fiscal, embora a
taxa de juros real já fosse muito alta e o ajuste já viesse sendo feito desde
1999. A recessão de 2003 foi o reflexo dessa política. É verdade que houve
também queda da inflação, mas esta deveu-se menos à recessão e mais à
apreciação cambial e ao fato de que a bolha inflacionária causada pela
desvalorização de 2002 cedera. Diante dessa política macroeconômica equivocada,
a oposição de centro-direita, agora representada pelo psdb, associada às elites
rentistas e financeiras e aos economistas ortodoxos, concluiu que "nada" mudara
no novo governo em relação ao anterior, tendo, assim, ficado "demonstrado" o
acerto das políticas ortodoxas que haviam sido praticadas desde 1991.
É um equívoco, porém, dizer que nada mudou. A mudança começou a partir do
terceiro ano do governo Lula, e se manifestou no apoio à empresa nacional
através do bndes, em uma política distributiva baseada principalmente no
aumento do salário mínimo e na expansão da Bolsa Família. Não houve avanço em
relação à taxa de câmbio, que continuou sobreapreciada, mas a política
distributiva criou mercado para a indústria brasileira, compensando, assim, a
perda que ela sofria pela contínua apreciação do real. Por outro lado, houve
baixa da taxa de juros, em parte devido à crise financeira global de 2008 que
levou a uma baixa de juros em todos os países, em parte pela pressão informal
do presidente e de setores cada vez mais amplos da sociedade brasileira contra
a absurda taxa de juros real praticada pelo Banco Central.
Embora os intelectuais orgânicos do neoliberalismo dissessem que cerca de 9%
seria a taxa "natural" de juros do Brasil, abaixo da qual a inflação
aumentaria, a taxa de juros real chegou a 5% do pib no final do governo sem que
houvesse descontrole inflacionário.
CONCLUSÃO
Dadas as mudanças na política econômica é legítimo se falar em um novo pacto
político desenvolvimentista no Brasil? Um Estado nos países em desenvolvimento
só deixa de ser semicolonial e se torna desenvolvimentista quando o país
apresenta taxas de crescimento elevadas que garantem o alcançamento (catching
up). Nos anos 1980 a economia brasileira estagnou, e entre 1990 e 2005 cresceu
a taxas per capitaem torno de 2%. Essas taxas não asseguram e não configuram um
Estado desenvolvimentista. Entre 2006 e 2010 cresceu a uma taxa próxima de 4%
ao ano, o que já poderia levar o Estado brasileiro a merecer esse adjetivo;mas
em 2011 cresceu 2, 7% e em 2012 essa taxa não deverá ser muito diferente. Na
verdade, mesmo uma taxa de 4% ao ano não é sustentável com o nível da taxa de
juros e da taxa de câmbio que prevalecem há muito na economia brasileira. Essa
taxa de crescimento foi possível, apesar do câmbio baixo e dos juros altos,
porque, a partir de 2004, os preços das commoditiesexportadas pelo Brasil
aumentaram muito, e porque a política distributivista de Lula compensou, com a
expansão do mercado interno, a perda do mercado externo pelas empresas
industriais. Mas esse tipo de compensação é necessariamente temporário. Logo,
como começou a ocorrer já em 2010, o câmbio sobreapreciado, além de impedir as
exportações de manufaturados, estimula as importações e estas roubam o mercado
interno das empresas nacionais. Os preços das commodities, por sua vez,
deixaram de crescer. Não é surpreendente, portanto, que o país volte a crescer
a taxas insuficientes, substancialmente menores do que as dos países asiáticos
dinâmicos, inclusive os demais BRICs (China, Índia e Rússia).
Tanto o discurso do ex-presidente Lula como o da presidente Dilma têm sido
antes distributivista do que nacionalista. O PT nunca aceitou as ideias
neoliberais, mas foi também atingido pelo antinacionalismo da teoria da
dependência associada. Ainda que tenha incorporado intelectuais
desenvolvimentistas, foi e é um partido que se originou do Ciclo Democracia e
Justiça Social. Mas parece já ter percebido que também esse ciclo está se
esgotando, e que o desenvolvimento econômico, no quadro mais amplo do
desenvolvimento sustentável, é prioritário.
O desenvolvimento do Brasil estará sempre condicionado a sua política
econômica, mas o essencial é saber se ele conta ou não com um pacto político
que lhe permita definir uma estratégia nacional de desenvolvimento ou de
competição internacional. Em que situação estão hoje, em fevereiro de 2012, a
sociedade brasileira e suas elites? Continua uma elite alienada, ou o
nacionalismo e um novo desenvolvimentismo renascem? O governo Lula e agora o
governo Dilma estão contribuindo para que a segunda alternativa ganhe força, e
para a formação de um novo pacto político que poderá ser chamado Pacto
Democrático-Popular de 2005. A criação, já em 2003, do Conselho Nacional de
Desenvolvimento, reunindo elites empresariais, sindicais e associativas,
revelou essa vontade de reconstituir um pacto político nacional. A determinação
dos dois presidentes de se associarem à burguesia industrial e aos
trabalhadores foi sempre clara. Embora a penetração do Partido dos
Trabalhadores na intelectualidade brasileira de esquerda tenha sido abalada
pela ortodoxia dos primeiros anos de governo, ela é ainda significativa.
Conforme assinalou André Singer, as concessões que o governo fez aos setores
conservadores fizeram com que perdesse parte do apoio da esquerda, mas, em
compensação, o presidente ganhou o apoio da massa dos eleitores pobres
brasileiros de uma maneira que parece durável31. Eli Diniz e Renato Boschi
conduziram pesquisa sobre as percepções da elite burocrática federal na área
econômica, e verificaram que uma parte substancial dos entrevistados viu
mudança significativa no governo Lula, alguns, desde o primeiro, outros, a
partir do segundo mandato, "quando se verifica a ampliação, no interior do
governo, do espaço ocupado pelo grupo desenvolvimentista"32.
Presidentes e governos são importantes para que voltemos a ter um novo pacto
nacional e popular, mas o fundamental é o movimento da própria sociedade. Ora,
no nível da sociedade civil ou da nação, também vemos os atores sociais se
movimentarem na direção de um Estado desenvolvimentista. Para isto, a
associação fundamental é a dos empresários industriais com os trabalhadores
organizados. Há tempos não se pode mais falar em "luta de classes" para
caracterizar a forma pela qual se relacionam ambas as partes33.
Existem, portanto, sinais de que um novo pacto democrático e popular está se
formando, unindo empresários, tecnoburocratas públicos e trabalhadores. E, a se
confirmar essa previsão, parece também que caminhamos em direção a um novo
ciclo da sociedade e do Estado - um ciclo desenvolvimentista social e
ambientalista - que se constitua em uma síntese entre o Ciclo Nação e
Desenvolvimento e o Ciclo Democracia e Justiça Social.
Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas
(FGV).
[*] Agradeço a Daniela Theuer Linke, José Jobson do Nascimento Arruda e José
Marcio Rego pelos comentários. A responsabilidade pelos argumentos é
naturalmente apenas minha.
[1] Sobre a estaticidade e a formação do Estado ver a introdução a Oszlak, O.
La formación del Estado argentino. Buenos Aires: Editorial Planeta, 1997.
[2] Não devemos confundir os "coronéis" com os "senhores de guerra" ou
"jagunços". Os primeiros eram chefes políticos locais autoritários, geralmente
senhores de terra, que obtinham a patente de coronel na Guarda Nacional -
a força pública estadual dominante antes de o Exército realizar essa função. Os
senhores de guerra eram armados e em certas regiões (como na Chapada
Diamantina, na Bahia) eram denominados "jagunços"(Walfrido Morais. Jagunços e
heróis. Salvador:Empresa Gráfica da Bahia/Assembleia Legislativa da Bahia,
1997, 5a. edição revisada. Primeira edição, 1963), como
também eram assim denominados os bandos de bandidos que operavam no sertão, e
também os revoltosos e fanáticos. Dada essa imprecisão do termo, estou aqui me
referindo a"jagunços ou senhores de guerra" para deixar claro que não estou me
referindo nem aos bandos armados, nem aos revoltosos fanáticos.
[3] Diogo Antônio Feijó pertenceu ao Partido Liberal e, como regente, deu uma
grande contribuição à integração territorial do Brasil. Bernardo de
Vasconcelos, que era originalmente liberal, rompeu como Padre Feijó e foi
fundador do Partido Conservador.
[4] Carvalho, J. M. A construção da ordem. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 1980.
[5] Barbosa Lima Sobrinho, A. Estudos nacionalistas. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1981.
[6] Gurza Lavalle, A. Vida pública e identidade nacional. São Paulo: Globo,
2004, p. 41.
[7] O ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros -foi um órgão do
Ministério da Educação que existiu entre1955 e1964; o grupo de intelectuais que
o formou existia desde o início dos anos 1950, e entre 1952 e 1955, publicou
cinco números dos Cadernos do Nosso Tempo. Sobre o ISEB ver Toledo, C. N. (org.
). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro:
R evan, 2005.
[8] O trabalho clássico a respeito é de Alexander Gerschenkron (Economic
backwardness in historical perspective: a book of essays, Nova York: Praeger,
1962). No caso do Japão, que não é analisado por esse autor,
a revolução industrial ocorre entre1880e 1910, e é inteiramente estatal. Os
japoneses, entretanto, estavam decididos a copiar a tecnologia estrangeira, não
apenas no plano da engenharia, mas também no das instituições. Por isso, entre
1908 e 1910, promoveram ampla privatização.
[9] Ao contrário de crença arraigada, os Estados Unidos não foram exceção nessa
matéria. Só alcançaram o sufrágio universal muito depois de realizar, na
primeira metade do século XIX, sua revolução industrial e, assim, completar sua
revolução capitalista.
[10] Sobre os fatos históricos novos que determinaram o golpe militar e o fim
do Pacto Nacional-Desenvolvimentista de Vargas, ver o quarto capítulo de
Bresser-Pereira, L. C. Desenvolvimento e crise no Brasil.São Paulo: Editora 34,
[1968] 2003.
[11] Guilhermo O'Donnell denominou esse pacto "burocrático-autoritário" (cf.
O'Donnell, G. Modernization and bureaucratic authoritarianism: studies in South
American politics. Berkeley: Institute of International Studies of the
University of California, Berkeley, Modernization Series nº9, 1973). Eu sempre
o denominei "autoritário-modernizante". Na quinta edição de Desenvolvimento e
crise no Brasil(op. cit. )resolvi usar a expressão de O'Donnell, mas decidi
mais tarde voltar à expressão original que reflete melhor o caráter
modernizador desse pacto.
[12] Peter Evans(Dependent development: the alliance of multinational, local
and state capital in Brazil. Nova Jersey: Princeton University Press, 1979)fez
a aná lise da "tríplice aliança" envolvendo o Estado, capital
nacional e capital estrangeiro, que, no caso da indústria petroquímica, foi uma
aliança formal prevista na política do Estado.
[13] Entre 1968 e 1973 as taxas de crescimento do PIB estiveram próximas de 10%
ao ano.
[14] O Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento Econômico) será, nos
anos 1970, o grande centro intelectual crítico do regime autoritário
brasileiro.
[15] Fiz a primeira análise publicada do novo modelo de crescimento com
concentração de renda da classe média para cima(Bresser-Pereira, L. C. "Dividir
ou multiplicar? A distribuição da renda e a recuperação da economia
brasileira", Visão, 21 de novembro de 1970. Disponível em
<www.bresserpereira.org.br> . Republicado em Bresser-Pereira,
L. C. Desenvolvimento e crise no Brasil, op. cit. , pp. 168-78), a partir de
uma conferência de Antonio Barros de Castro. Seguiu-se o texto bem conhecido de
Maria da Conceição Tavares e José Serra (Tavares, M. C. eSerra, J. "Mas allá
del estancamiento, una discusión sobre el estilo del desarrollo reciente de
Brasil". El Trimestre Económico, 33 (152), out. -dez. 1971).
[16] Analisei originalmente atransição democrática brasileira em O colapso de
uma aliança de classes(São Paulo:Brasiliense, 1978).
[17] Gastando cerca de ¼ do PIB com despesas sociais de educação, saúde,
cultura, previdência social e assistência social, o Brasil hoje, por esse
parâmetro, se aproxima dos países europeus definidos como Estados do bem-estar
social.
[18] Souza, J. A modernização seletiva. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 2000, pp. 254e266.
[19] Os dois textos fundadores da teoria da dependência são os de André Gunder
Frank ("Desenvolvimento do subdesenvolvimento". In: Pereira, L. (org. ).
Urbanização e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, [1966]1973)e de
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto(Dependê ncia e
desenvolvimento na América Latina. São Paulo: Difusão Europeia do Livro,
[1969]1970). Minha crítica a ela está em Bresser-Pereira, L.
C. "As três interpretações da dependência". Perspectivas - Revista de Ciências
Sociais(UNESP), São Paulo, v. 38, jul. -dez. 2010, pp. 17-48.
[20] A necessidade é "imaginária" porque, conforme demonstrei em outros
trabalhos, a política de crescimento com poupança externa causa muito mais
aumento do consumo do quedo investimento; é "ideológica" porque nada interessa
mais aos países ricos do que convencer os países em desenvolvimento de que
precisam de seu capital para crescer.
[21] Ver Prado Jr. , C. A Revolução Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1966. Na verdade, o PCB já aderiu à tese da revolução burguesa em
seu congresso de 1958 - uma tese que já vinha sendo defendida com clareza pelos
intelectuais nacionalistas do ISEB desde o início dos anos 1950.
[22]Não creio, no entanto, que isto seja verdade. Não é apenas o
desenvolvimento econômico asiático e a experiência brasileira bem-sucedida de
desenvolvimento entre 1930e 1980 que demonstram o equívoco da teoria da
dependência associada. Para entender as elites dos países latino-americanos é
preciso entender que elas são ambíguas, contraditórias, como são também suas
elites intelectuais. Especialmente em países grandes como o Brasil, há muitos
atores que tornam nacionais as classes dirigentes:um passado de lutas, a força
da identidade cultural, a lógica dos interesses econômicos dos empresários no
mercado interno, e a existência de um Estado que pode proteger os interesses
dessas elites (e do povo) diante da concorrência e do imperialismo dos países
ricos. No Brasil há forças poderosas contribuindo para um nacionalismo
econômico e patriótico. Afinal ele pode às vezes ser o país de Macunaíma de
Mário de Andrade, mas é muito mais o país da Emília de Monteiro Lobato.
[23]Tavares, Maria da Conceição. "Auge e declínio do processo de substituição
de importações no Brasil". In:Tavares, M. C. Da substituição de importações ao
capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. Originalmente publicado em
espanhol, 1963.
[24]A política de exportação de manufaturados foi concebida e desenvolvida por
Antonio Delfim Neto, primeiro como ministro da Fazenda (1967-73) e, mais tarde,
como ministro do Planejamento (1979-1984). Envolveu a neutralização da doença
holandesa através de um amplo sistema de subsídios às exportações de
manufaturados. Esses "subsídios" apenas corrigiam a taxa de câmbio nominal
brasileira que se mantinha sobre apreciada devido às rendas ricardianas
propiciadas pela exportação de commoditiesque utilizavamos recursos naturais
amplos e baratos do Brasil.
[25]Barbosa Lima Sobrinho, A. Japão: o capital se faz em casa. Rio de Janeiro:
Paze Terra, 1973.
[26] A explicação para a restrição externa era a de que os países ricos teriam
uma baixa elasticidade-renda em relação aos bens primários exportados pelos
países em desenvolvimento, enquanto que nestes haveria uma elevada
elasticidade-renda em relação à importação de bens manufaturados.
[27] Não sabiam(a) que, dada a existência de doença holandesa ou maldição dos
recursos naturais no Brasil (a sobre apreciação crônica da taxa de câmbio
decorrente de rendas ricardianas originadas na exploração de recursos
naturais), sua neutralização requer que o país apresente equilíbrio ou
superávit em conta corrente;(b) que a poupança externa não se soma à interna
mas em grande parte a substitui e induz o aumento do consumo em detrimento do
investimento;(c) que, ao abrir seu mercado interno ao investimento direto, o
país estava oferecendo este ativo precioso aos investimentos diretos
estrangeiros sem que, em troca, o Brasil pudesse ocupar o mercado interno dos
países ricos por falta das empresas multinacionais necessárias.
[28] Em1987, assumo o Ministério da Fazenda em um quadro de crise total. (Na
semana em que assumi o ministério, Celso Furtado e Olavo Setubal, dois homens
muito diferentes mas igualmente notáveis, disseram-me, separadamente,
praticamente a mesma coisa: que eu era "um louco" ao assumir o Ministério da
Fazenda na "pior crise que o Brasil enfrentava desde 1930"). O populismo
econômico era de tal monta que, ao decidir que era necessário promover o ajuste
fiscal, quase fui expulso do PMDB. Foi necessária a intervenção do presidente
do PMDB, deputado Ulysses Guimarães, para que isso não acontecesse. Contribuí
para a reorganização mínima da economia, depreciei o câmbio, e defini o modelo
de solução da crise da dívida externa que se transformaria, mais tarde, no
Plano Brady, de março de 1989. O plano, concebido pelo secretário do Tesouro
Nicholas Brady a partir de duas ideias que eu apresentei na reunião anual do
FMI e do Banco Mundial em setembro de 1987, equacionou a crise da dívida
externa. Mas o Plano Bresser não logrou controlar a inflação, e, no final
daquele ano, sem apoio político para realizar o ajuste necessário e adotar um
plano definitivo de neutralização da inércia inflacionária, pedi demissão.
[29] Mais coerentes, mas utópicos, foram aqueles - os defensores da teoria da
dependência radical, baseada na tese da superexploração imperialista - que, a
partir do mesmo pressuposto de "impossibilidade" de uma burguesia nacional,
concluíram pela revolução socialista a ser realizada naquele momento.
[30] Durante os Trinta Anos Neo liberais do Capitalismo, na medida em que o
lucro das empresas multinacionais deixa de ser realizado principalmente no
próprio mercado interno, o nacionalismo das elites dos países ricos também
passa a sofrer. Ao invés da coalizão elites-povo, que, não obstante os
conflitos de classe, define a nação, começamos a verem cada país central a
busca por coalizões transnacionais, na forma de acordos com as elites
econômicas dos outros países. A grande crise desses países a partir de 2008
está relacionada a esse fato, mas não cabe aqui discuti-lo.
[31] Singer, A. "Raízes sociais e ideológicas do Lulismo". Novos Estudos
Cebrap, 85, nov. 2009, pp. 83-104.
[32] Diniz, E. e Boschi, R. "Uma nova estratégia de desenvolvimento?". Trabalho
apresentado ao 8º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas, São Paulo,
setembro de 2010. A ser publicado em Bresser-Pereira, L. C.
(org. ). Depois da crise. Rio de Janeiro: Editorada Fundação Getúlio Vargas,
2012.
[33]Quando, em 2004, organizei o primeiro Fórum de Economia da Fundação Getúlio
Vargas, com o patrocínio da Fiespe das centrais sindicais, eu estava apenas
reconhecendo um acordo que vem crescendo no Brasil. Em maio de 2011, a Fiesp, a
CUT, a Força Sindical e o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo organizaram o
Seminário Brasil do Diálogo, da Produção e do Emprego, que reuniu mais de mil
empresários em um grande centro de convenções na Mooca. Em outubro desse ano as
centrais sindicais e a Fiesp lançaram o manifesto"Por um Brasil com menos
juros, maior produção e mais emprego".