Alucinações e alegorias: W. G. Sebald se recorda de W. Benjamin, leitor de
Paris
Será a escrivaninha o lugar dos fantasmas?
W. G. Sebald, Austerlitz
I
Parece que tudo ou quase tudo já foi dito sobre a obra de Sebald, cuja escrita
tão singular, inspirada inteiramente pela vergonha e pela tristeza, não deixa
de fascinar o público e de chamar a atenção de comentaristas do mundo inteiro.
A força de atração de seus textos se explica apenas em parte por sua qualidade
estilística e esforço contínuo de reconstituir o alemão pré-nazismo; ela
resulta antes de tudo de um compromisso tão delicado quanto profundo com as
vítimas da Shoah, de uma vontade de saber e de dizer, de penetrar nos recantos
mais sombrios da história do século XX, vontade ainda mais masoquista pelo fato
de o próprio Sebald ser filho de um simpatizante de Hitler. Em Austerlitz, a
última obra do escritor e seu verdadeiro testamento espiritual1, que hesitamos
em chamar de romance, a determinação sebaldiana toma proporções quase suicidas,
e isto a despeito das precauções do autor em não se expor demais, de se
esconder não somente atrás de um narrador que se parece com ele, mas, ainda,
atrás do protagonista judeu, Austerlitz, que tomará o lugar do narrador e cuja
voz terminará por se confundir com a própria voz do autor2. (Com efeito, muitas
das observações que o narrador empresta a seu protagonista correspondem mais à
própria poética sebaldiana e, de uma maneira geral, à sua visão de mundo.) Além
do que, Austerlitz dará, ao longo de sua narração, a palavra a outros
narradores ou narradoras, de modo que há um efeito de reflexos infinitos (mise
en abyme) da narrativa, bem apropriado a esta busca do inexprimível.
Resumamos brevemente a biografia do protagonista - que não é nem herói nem
anti-herói, mas antes uma testemunha da história contemporânea - tal como ela é
revelada progressivamente, à medida que o texto avança.
Jacques Austerlitz é um sobrevivente da Shoah que por muitos anos ignorou seu
nome verdadeiro, sua identidade e suas origens, pois foi acolhido, ou adotado,
muito jovem por um pregador britânico e sua esposa. Quando o narrador, um jovem
alemão radicado na Inglaterra e dez anos mais novo que ele, o conhece na
estação central de Antuérpia, na Bélgica, Austerlitz está realizando uma
pesquisa em história da arquitetura e demonstra conhecimentos assombrosos sobre
o assunto. Neste momento, no início do romance, datado de junho de 1967, nem o
protagonista nem o narrador sabem que ele é de origem judaica, ao passo que o
narrador conhece muito bem suas próprias origens e sofre com elas, sobretudo
quando ele faz a visita, recomendada por seu interlocutor, ao Forte de
Breendonk, o que ele associa, ao entrar no cômodo onde os soldados da SS
torturavam seus prisioneiros, às práticas de higiene de seu pai, os "temores"
de sua primeira infância3.
Ao longo de cinquenta páginas que contam diversos encontros do narrador com
Austerlitz, não sabemos de nada sobre a vida deste último, mas ficamos sabendo
muito sobre suas opiniões em relação ao funcionamento, ou melhor, ao caráter
disfuncional da arquitetura na era capitalista: das grandes estações de trem
urbanas às concepções de cidade operária ideal, passando pelo monstruoso
palácio de justiça em Bruxelas, primeiro exemplo, segundo Austerlitz, do
monumentalismo burguês - o último, que figurará no final do livro, será a
Grande Biblioteca do presidente francês de faraônica memória.
É apenas trinta anos depois do primeiro encontro, em dezembro de 1996, que o
narrador esbarra por acaso, perto de outra estação, desta vez londrina, com seu
herói, cujo rastro ele tinha perdido nos anos de 1970. Lá, num hotel perto da
Liverpool Street Station, Austerlitz lhe informa que havia abandonado seus
estudos de arquitetura e se põe a contar-lhe o que aprendeu nesse meio tempo a
respeito da própria biografia. Biografia cheia de peripécias e mistérios, de
catástrofes esquecidas, ou recalcadas, das quais algumas voltam à superfície
sob a forma de crises existenciais, períodos de depressão, desejos suicidas,
ataques de pânico ou de paranoia etc. Entretanto, sua nova pesquisa sobre o
tempo que perdeu vai chegar, surpreendentemente, a resultados concretos, pois
Austerlitz terminará por reencontrar o rastro de suas origens, seu lugar de
nascimento, Praga, e até o endereço de sua mãe, cuja melhor amiga, Vera - que
em 1995 ainda mora no mesmo lugar em que morava em 1938, e que, como vizinha,
na época trabalhava como babá -, lhe revelará seu destino trágico. Levada e
confinada pelos nazistas em Terezín (Theresienstadt), depois de ter enviado o
filho único em um dos últimos transportes de crianças para Londres, às vésperas
da guerra, a mãe seria deportada, em 1944, para um campo de extermínio no
Leste.
Desse momento em diante, Austerlitz passará seu tempo à procura dos vestígios
da mãe em Terezín, assim como dos vestígios do pai em Paris, onde termina sua
narrativa, num bistrô no boulevard Auguste Blanqui. É da estação que tem seu
próprio nome, a sinistra estação de Austerlitz, que o protagonista parte para
os Pirineus, depois de descobrir que seu pai, Maximilien, esteve internado,
como tantos judeus alemães, no campo de Gurs. Despedindo-se do narrador, ao
qual havia oferecido, um pouco antes, a única foto que possuía de sua mãe, ele
lhe entrega as chaves de sua casa em Londres, a qual, segundo acabara de
descobrir, dava para um velho cemitério judaico. A sua terá sido uma odisseia
sem retorno, sua procura do tempo perdido será feita sob o signo do
irreparável, do Unwiederbringliches.
Se os textos de Sebald são extremamente difíceis de resumir e de memorizar,
Austerlitz é, sob este aspecto, sem dúvida o mais difícil, por ser constituído
de um sistema de remissões, de alusões e de correspondências cuja lógica
poética se adivinha antes de compreendê-la, se é que chegamos a compreendê-la.
Ao lado de Austerlitz, os grandes textos da modernidade parisiense, sobretudo
aqueles do Segundo Império, que Sebald, professor de literatura europeia e
grande leitor de Benjamin, conhece de perto, parecem praticar jogos de
analogias, de correspondências e de coincidências quase translúcidas. Em meu
livro sobre Junho de 1848, O velho mundo desce aos infernos4, apresentei o
axioma que preside a estes jogos de balanço entre o íntimo e o político,
formulados e aplicados pelos escritores mais diversos, como Baudelaire,
Flaubert ou Heine de um lado, e Alphonse Toussenel ou Alexandre Herzen de
outro. O axioma talvez tenha sido resumido da maneira mais atraente na
autobiografia de Herzen. Isso porque a vida dele é a sua perfeita ilustração:
"O que vemos na grande cena dos acontecimentos políticos se repete sempre sob
forma microscópica em cada recanto da vida privada"5. Assim, os amores do anti-
herói de A educação sentimental repetem ou até mesmo antecipam os acasos da
história da Segunda República, da mesma forma que as desventuras amorosas do
"eu" poético de As flores do mal correspondem mais ou menos visivelmente aos
choques e aos desastres da história de 1848.
Para dar uma ideia da maneira como Sebald utiliza este material modernista,
esboçarei algumas das variações em Austerlitz do motivo da passante. É óbvio
que, ao compor seus próprios quadros - parisienses ou simplesmente urbanos
(Stådtebilder) - Sebald lembra-se de seus predecessores franceses do século
XIX, de Balzac a Proust, passando por Baudelaire e Flaubert, assim como André
Breton, Georges Perec e Claude Simon. Isto não impede que a versão emblemática
deste motivo se encontre no soneto dos Quadros parisienses, dos quais Benjamin
propôs uma leitura que marcará profundamente nossa geração - a minha e,
portanto, a de Sebald. Segundo Benjamin, a tripla descoberta do soneto "A uma
passante" reside na invenção de uma espécie de amor à primeira vista
especificamente citadino, que supõe uma nova experiência da circulação urbana.
A passante baudelairiana tem a multidão parisiense como suporte necessário, é a
multidão que a leva, que a empurra em direção ao homem exaltado, eletrizado
pelo encontro. A multidão é, pois, o catalisador indispensável da epifania
erótica. Contudo, esta mesma epifania coincide com o choque da desaparição do
objeto tão espontaneamente e tão violentamente desejado. Benjamin deduz disso,
com sua prodigiosa clarividência, que "o arrebatamento desse habitante da
cidade não é tanto um amor à primeira quanto à última vista"6. Escavando ainda
mais as intuições benjaminianas, chamei a atenção da crítica para a dimensão
ou, convém dizer mais precisamente, para o potencial alegórico do poema
baudelariano. Potencial que se anuncia desde o primeiro verso - "A rua em torno
era um frenético alarido" -, o que pode remeter a uma situação cotidiana, banal
da circulação urbana (como a frase final de O veredito de Kafka), mas
igualmente a um cenário de motim ou revolução7. No segundo caso, a bela
desconhecida "nobre com sua perna de estátua", cujo olho parece um "céu lívido
onde aflora a ventania", assume, por um efeito de superposição, diria Sebald,
uma aura alegórica, lembrando tanto A liberdade sobre as barricadas de
Delacroix, grande pintor da vida moderna, como as numerosas alegorias
republicanas na obra de Daumier, um dos artistas preferidos de Baudelaire. O
encontro demasiado breve com a beleza de "dor majestosa" pode, neste caso,
fazer pensar no encontro com a História, ao qual a geração de 1848 faltou
irremediavelmente, crispada que estava diante da face augusta da República, à
qual um amigo de Baudelaire, o chansonnier Pierre Dupont, tinha, depois dos
sangrentos dias de junho de 1848, atribuído uma face de Medusa8.
Seja a aparição da bela desconhecida na multidão de Paris de ordem puramente
privada ou seja ela política, graças ao uso refinado, talvez clandestino, da
alegoria, o denominador comum do drama contado em "A uma passante" é exatamente
a impotência do homem num momento decisivo: incapaz de aproveitar a ocasião que
o acaso da rua lhe apresenta, ele corre para a derrota por falta de propósito e
audácia. Baudelaire teria inscrito no seu quadro parisiense uma alusão ao
famoso adágio de Maquiavel, segundo o qual a fortuna é de um sexo que cede
apenas à violência e que repele todo aquele que não sabe ousar?9 Nesse caso, a
passante parisiense encarnaria uma alegoria dupla: a da Fortuna e da Liberdade.
Lido de tal modo, o soneto seria uma versão camuflada e aprofundada dos poemas
do ciclo Revolta, começando por "A negação de São Pedro", que Benjamin
associava à figura de Auguste Blanqui.
II
Ora, a constelação da passante que se teria amado e que se deixa passar por
impotência, aparece várias vezes, bastante discretamente, é verdade, nos
relatos autobiográficos de Austerlitz. A passagem mais surpreendente figura no
relato, datado - indiretamente - de 19 de março de 1997, de uma crise que
Austerlitz atravessou após sua aposentadoria antecipada da universidade. No fim
desta crise, quando ele não consegue mais nem escrever nem ler - e que lembra
aquela de Lord Chandos - ele se entrega a um noctambulismo londrino. Ao voltar
de suas excursões noturnas lhe acontece "de julgar reconhecer [...] um rosto,
que me era familiar de uma época muito distante", portanto aquele de "uma
passante com um vestido dos anos 30 que baixa a vista ao passar por mim". E o
protagonista continua: "Era em momentos de particular fraqueza, quando eu
acreditava não poder mais seguir em frente, que me vinham tais alucinações. Às
vezes me parecia que o rumor da cidade morria ao meu redor, que o tráfego fluía
em silêncio pela rua ou que alguém me puxava pela manga"10. Sebald parece
esboçar nessas poucas linhas uma variação em prosa do soneto parisiense,
variação em que a diferença leva vantagem sobre a analogia, ao mesmo tempo em
que se alimenta dela.
O que constitui um acontecimento memorável na existência do narrador e herói do
soneto baudelairiano ("Que luz... e a noite após! Efêmera beldade/Cujos olhos
me fazem nascer outra vez,") não passa de um fenômeno patológico para o
sonâmbulo de Londres, este judeu que não sabe que é judeu, que explica na mesma
passagem que ele teria sido várias vezes vítima deste gênero de perturbações:
"Tive muitas dessas experiências na Liverpool Street Station, para a qual eu
era sempre irresistivelmente atraído nas minhas caminhadas"11. Se a alucinação
- aquela da mãe subitamente reaparecida - toma o lugar da alegoria - aquela da
Liberdade que se deixa desaparecer na noite do tempo -, é porque entre 1848 e
1997 houve duas guerras mundiais e a Shoah, traumatismos bem diversamente
dramáticos, bem diversamente devastadores, infligidos ao homem pela História.
Notem que a estação de trem, que Baudelaire curiosamente não admite na sua
poesia parisiense, assim como não admite a fotografia12, toma o lugar da rua no
relato de Austerlitz, e que o banho de multidão que Baudelaire inventou como o
melhor remédio contra o spleen não provoca nada além de enfado ou desgosto no
herói sebaldiano. Vejam, sobre esse aspecto, a extraordinária descrição que
Austerlitz faz de seu passeio na zona de pedestres de Nuremberg, onde ele olha
aborrecido o "povo alemão que passava por mim sem cessar", visivelmente
inconsciente de sua pesada herança nazista, descrição que é concluída com uma
cena grotesca: uma velhinha, com chapéu tirolês, lhe dando de esmola a moeda de
um marco alemão com a efígie de Adenauer!13.
Há outras passagens no livro de Sebald em que o motivo da passante vem à tona,
muitas vezes de maneira singularmente deformada, transposta para o domínio do
fantasmagórico. Tentando imaginar a fisionomia de sua mãe ou recuperar uma
imagem dela, Austerlitz inventa, por assim dizer, seu próprio filme sobre
Terezín, já que não consegue obter uma cópia do filme de propaganda nazista,
Der Führer schenkt den Juden eine Stadt [O Führer presenteia os judeus com uma
cidade]. Neste filme imaginário ele põe em cena uma nova versão do encontro com
a passante da estação de trem:
E me imaginava também, disse Austerlitz, vendo-a andar pela rua com
um vestido de verão e um casaco leve de gabardine: em meio a um grupo
de moradores do gueto que saía para dar uma volta, ela é a única que
se dirigia a mim e se aproximava passo a passo, até que afinal, como
eu supunha sentir, ela saía do filme e se dissolvia em mim14.
A passante fusional, cujo fim trágico Austerlitz conhece, é evocada aqui por um
tipo de técnica de autossugestão. Seu encontro tem mais de alucinação do que
aquele com a bela desconhecida do soneto de As flores do mal, cujo luto fez
mais de um intérprete pensar em Mme. Aupick, a viúva Baudelaire e mãe do poeta.
A impotência do homem no poema explicar-se-ia, segundo uma leitura
psicanalítica, por essa conotação incestuosa do desejo masculino. Na alucinação
de Austerlitz, se esboça um tipo de fusão com a mãe desaparecida, o que sugere
que a impotência do narrador tem a ver com a impossibilidade de cumprir o luto
de sua mãe deportada, cuja imagem lhe escapa para sempre.
Ao contrário de muitos autores que romancearam assuntos relativos à Shoah,
Sebald não joga com o voyeurismo do público, e tem horror ao amálgama da
história dos campos de extermínio com cenas de amor mais ou menos sentimentais
e apimentadas, ou escabrosas, ao modo, por exemplo, de Bernhard Schlink ou
Jonathan Littell. Sua idiossincrasia vai tão longe que ele priva o romance ou a
prosa narrativa de um elemento essencial: o relato amoroso, a aventura erótica.
Como tantos heróis sebaldianos, Austerlitz parece não conhecer outra paixão
além da intelectual. No entanto, há vestígios de uma intriga amorosa, que se
multiplicam ao fim do livro. Intriga amorosa que tinha começado - ficamos
sabendo à página 254 [na tradução brasileira] no final dos anos de 1950, quando
Austerlitz, jovem pesquisador trabalhando na Biblioteca Nacional de Paris,
conheceu uma frequentadora de nome proustiano, Marie de Verneuil, que o havia
abordado por escrito no departamento de manuscritos e tentado cativar este
jovem triste com conversas sobre seu trabalho, isto é, sobre a história da
arquitetura. Essa relação intermitente, da qual Austerlitz fala tanto com
discrição como com pathos, não se concretiza literalmente pela falta de
disponibilidade libidinosa da parte do jovem estrangeiro. O que resta de
discurso amoroso no relato de Austerlitz parece se alimentar de lembranças de
leituras, de certos motivos baudelairianos - o "tarde demais! nunca talvez!" da
Passante15 poderia servir de leitmotif ao texto sebaldiano - assim como das
lembranças do Diário de Kafka (ao qual o herói deve seu nome)16: foi para ir a
Marienbad - onde Kafka e Felice Bauer passaram, em julho de 1916, dez dias no
hotel Osborne-Belmoral, o que Austerlitz e sua amiga ignoram e que Sebald finge
ignorar que Marie de Verneuil convidou Austerlitz, para curá-lo, quer dizer,
liberá-lo de suas inibições e de seu isolamento. Ele conhecerá bem mais tarde,
tarde demais talvez, a causa profunda de seu revés amoroso em Marienbad, no dia
de seu 38º aniversário no quarto 38 do Hotel Palace: seus pais o haviam levado,
em 1938, a Marienbad, ao hotel Osborne-Belmoral, imortalizado pelo casal
trágico de noivos de Praga e de Berlim. Dito de outro modo, Sebald, na sua
astúcia narrativa, quer que caiba ao leitor descobrir que seu herói repete em
Marienbad, em 1972, sem se dar conta e por outras razões históricas, o fiasco
amoroso de seu antigo concidadão, o Dr. Kafka.
III
Que tudo "continue assim", isto é a catástrofe.
W. Benjamin, "Parque central".
E é a mesma astúcia narrativa que faz Sebald aparentemente esquecer que
Austerlitz, ao trabalhar na Biblioteca Nacional da rue Richelieu, ocupa o lugar
de Walter Benjamin, leitor emblemático desta biblioteca, onde passou a parte
mais tranquila de seu tempo de exílio e onde depositou, antes de escapar para
Marseille, os manuscritos que pertenciam ao projeto do livro sobre as passagens
parisienses e também os do projeto sobre Baudelaire17.
Como frequentador da Biblioteca Nacional da rue Richelieu, Austerlitz é
sucessor, senão herdeiro, de Benjamin, que havia escrito numa carta a
Horkheimer, em Nova York, datada de 15 de dezembro de 1939: "Nada no mundo,
para mim, poderia substituir a Biblioteca Nacional"18 (isto para justificar
suas hesitações em deixar Paris e acelerar as medidas para a obtenção de um
visto para os Estados Unidos). No início de seu exílio parisiense e de sua
correspondência com Adorno, ele tinha expressado, numa carta a este último, o
desejo de introduzir seu amigo aos segredos da Biblioteca Nacional: "Ela
comporta, de fato, uma das salas de biblioteca mais curiosas da Terra, e aí se
trabalha como num cenário de ópera"19. Empoleirado no alto do belvedere da
torre sudeste da Biblioteca Mitterrand, Austerlitz, que supostamente ignora
tudo sobre sua filiação com o leitor Benjamin, recorda-se de seus próprios
achados de jovem leitor, durante o inverno de 1959, nesta sala, abandonada
depois em proveito da Grande Biblioteca. Ora, o livro Paris, seus órgãos, suas
funções, sua vida na segunda metade do século XIX, de Maxime du Camp, do qual
sua melancolia parece lhe recordar uma passagem, é um livro que Benjamin tinha
descoberto e citado vinte anos antes de Austerlitz, e a passagem de que este se
lembra é, na verdade, o famoso texto de Paul Bourget consagrado a Du Camp,
citado longamente por Benjamin no seu Baudelaire, ao qual nem Austerlitz, que
se lembra desta reminiscência na sua última conversa com o narrador - que
acontece num bistrô do boulevard Auguste Blanqui -, nem o autor fazem
referência20. Se Austerlitz, no seu relato, qualifica o livro de Du Camp como
"crucial para meus próprios trabalhos"21, adivinha-se o jogo de esconde-esconde
do próprio Sebald: é sem nenhuma dúvida o texto no qual este se baseou para
escrever a passagem relativa a Du Camp, a saber, o Baudelaire de Benjamin, e
talvez, mais precisamente, o capítulo intitulado "A modernidade" - que foi
decisivo para o empreendimento sebaldiano, especialmente Austerlitz. O relato
da visão repentina sobre a Pont-Neuf, que teria inspirado ao grande viajante Du
Camp a ideia de sua obra monumental, está aí encaixado numa reflexão sobre a
concepção baudelairiana da modernidade. No coração desta, há observações um
pouco elípticas, mas tão profundas sobre "O Cisne", poema urbano fundador, que
descortina, por meio de uma prática moderna da alegoria, o que Benjamin chama
de "a precariedade da grande cidade"22. Está claro, do meu ponto de vista, que
Sebald, aliás, Austerlitz, retoma por conta própria as teses que Benjamin
apresenta sobre "O Cisne". E ele também solta o suspiro melancólico: "Foi-se a
velha Paris" ("O Cisne", v. 7), onde, como diz Benjamin, "a deploração do que
existiu" vai junto com "a ausência de esperança pelo futuro"23. Onde
Baudelaire, em "O Cisne", opõe a Paris romântica e boêmia, desaparecida graças
ao embelezamento estratégico do prefeito Haussmann,
ao Novo Louvre do Segundo Império, Austerlitz/Sebald opõe, com o apoio das
fotografias, a idílica Biblioteca Nacional da rue Richelieu à bárbara e
gigantesca Pseudo-Biblioteca do Presidente Mitterrand, cujo nome, no entanto,
não é pronunciado nesta amarga filípica, como o nome de Napoleão III não o é em
"O Cisne". Em compensação, uma implicação particularmente perturbadora do
título Austerlitz e do nome de seu protagonista fazendo referência a um crime
coletivo do qual foi palco o bairro de Austerlitz, sob a ocupação nazista, a
saber, o crime da perseguição, espoliação e deportação dos judeus, que foi
quase apagado pela construção desse monumento da cultura pós-moderna. Os
sarcasmos que o autor faz Austerlitz e um bibliotecário dizerem, que revelam os
lados secretos dessa história, culminam nesse resumo lacônico24:
[...] onde eles foram parar, isso hoje ninguém mais diz saber, pois o
fato é que toda a história foi sepultada no sentido mais literal do
termo sob os fundamentos da Grande Bibliothèque do nosso presidente
faraônico, disse Lemoine25.
Novo Carrossel e Novo Louvre em Baudelaire, Grande Biblioteca em Sebald: dois
exemplos de uma arquitetura "faraônica", quer dizer, totalitária, servindo para
recalcar dois crimes coletivos - a repressão de 1848 a 1851 no caso de "O
Cisne", a política antissemita do Reich e de seus colaboradores franceses em
Austerlitz -, a oferecer o generoso perdão cultural dando acesso ao "tesouro de
toda a nossa herança literária"26, para citar, à semelhança do próprio
Austerlitz, o jargão do eterno filisteu burocrata. (Pelo jogo de remissões
internas, o autor nos deixa compreender que o jargão cultural oficial de hoje
não está tão distante do estilo fascista, como gostaríamos de crer.)
Diante de uma verdadeira rede de correspondências que o autor de Austerlitz
elabora com os Quadros parisienses de Baudelaire, por meio da leitura proposta
por Benjamin, o leitor prevenido não se espantará muito quando se deparar, na
própria descrição da Grande Biblioteca, com algumas alusões oblíquas a "O
Cisne" baudelairiano.
Na praça do Carrossel o poeta - ou o eu do poema - se identifica com o pássaro
"que escapara enfim ao cativeiro" (v. 17), exilado ele também em plena Paris e
evocando o relâmpago revolucionário27. Quanto a Austerlitz, este se coloca na
pele das árvores encerradas no retângulo formado pelas quatro torres da nova
biblioteca. Ele as considera vítimas do homem, da política, "trazidas da
floresta de Bord, não sei de que modo, para esse local de exílio", o que faz
pensar em "O Cisne", assim como a reflexão seguinte de Austerlitz em relação a
"[essas] árvores, algumas das quais talvez ainda pensem em sua pátria
normanda"28, tipo de variante dos belos versos evocando a impotente revolta do
cisne:
Junto a um regato seco, a ave, o bico abrindo,
No pó banhava as asas cheias de aflição,
E dizia, a evocar o lago de onde viera;
"Água, quando cairás? quando soarás, trovão?"29
Se Baudelaire encerra seu poema invocando "uma lembrança antiga me ressoa
infinda", "a alma exilada à sombra de uma faia" (v. 49), Austerlitz registra
sem pathos a queda dos pássaros, a quem a floresta exilada no interior do
edifício abominado foi fatal30.
O que mais chama a atenção nesta aproximação do romance de Sebald com os
Quadros parisienses é que o procedimento sebaldiano de alegorização da
arquitetura - ao qual remete à imagem da "deusa dos tempos passados" na
proximidade do impressionante relógio da estação de Antuérpia31 - se acha
prefigurado numa estrofe célebre de "O Cisne", da qual Benjamin escolherá um
hemistíquio como epígrafe do capítulo "Baudelaire ou as ruas de Paris" de suas
Passagens:
Paris muda! Mas nada em minha nostalgia
Mudou! Novos palácios, andaimes, lajedos,
Velhos subúrbios, tudo em mim é alegoria,
E essas lembranças pesam mais do que rochedos32
Observem que o poeta de "O Cisne" não se permite perceber as numerosas
alegorias oficiais que ornamentam o Novo Louvre de Napoleão III. Elas são fruto
da mesma inspiração daquelas sobre a fachada da estação de Antuérpia comentadas
por Austerlitz: alegorias glorificando "as divindades do século XIX - a
mineração, a indústria, o transporte, o comércio e o capital"33. O portal norte
do Louvre mostrando a Inteligência e o Trabalho a serviço da França34.
Acrescentemos que não é certamente por acaso que Austerlitz se encontra com o
narrador no bistrô Le Havane, no boulevard Auguste Blanqui (que é nomeado cinco
vezes) para lhe fazer as últimas confidências. Trata-se da rua onde Blanqui
habitara no final da vida, até sua morte,"cujo nome com som de bronze, quase
apagado pela socialdemocracia, fez tremer o século passado" como Benjamin
constata nas suas Teses sobre o conceito de história, que Sebald estudou com
afinco35. Benjamin associa em vários lugares de seu Baudelaire e de Passagens a
figura do poeta à do revolucionário, sendo a passagem mais conhecida aquela que
fecha o capítulo "A modernidade":
Porém, mais profundas que a diversidade entre ambos eram suas
afinidades - a teimosia e a impaciência, a força de indignação e a do
ódio e também a impotência, quinhão de ambos... Num trecho famoso,
Baudelaire se despede de um mundo onde "a ação não é a irmã do
sonho". Seu sonho não era tão solitário quanto ele podia crer. A ação
de Blanqui foi a irmã do sonho de Baudelaire. Os dois estão juntos,
eles são as mãos juntas sobre a pedra sob a qual Napoleão III tinha
enterrado as esperanças dos combatentes de junho36.
Austerlitz é apresentado como um grande solitário, o que aproxima Sebald de
Baudelaire e Blanqui, assim como do próprio Benjamin37; Austerlitz é um
solitário cuja força de indignação explode ao final de uma vida traumatizada
pela História, dedicada ao fracasso, fracasso que ele erroneamente crê ser o
resultado de um erro pessoal38. A procura de um pai, cujo destino hipotético
parece com o de Benjamin ("ele rumara para o sul a pé sobre os Pirineus e
desaparecera em algum lugar durante a fuga"39), vai terminar ou não no silêncio
que aparece no texto depois de Austerlitz partir da estação que leva seu nome
na direção do campo de Gurs nos Pireneus, onde o pai fora antes aprisionado.
O fim abrupto do último livro de Sebald tem algo muito inquietante. Leva-nos a
pensar na constatação lapidar de Benjamin a propósito do último poema de As
flores do mal, "A Viagem": "A última viagem do flâneur: a Morte. Sua
destinação: o Novo"40. No entanto, Austerlitz, que parece impregnado da
filosofia da história de Blanqui, autor de A eternidade pelos astros, não
parece mais acreditar no Novo messiânico, não mais que seu inventor Sebald.
DOLF OEHLER é professor de literatura comparada na Universidade de Bonn.
[*] Artigo originalmente apresentado no Simpósio "Literatura, História e
Filosofia", organizado pelo programa de pós-graduação em Ciência da Literatura
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (outubro de 2010).
[**] Revisão de Julia Bussius.
[1] Sebald morreu num acidente de carro, em dezembro de 2001, pouco depois de
sua publicação e depois da destruição do World Trade Center, outro exemplo da
megalomania arquitetural que discutiremos mais adiante.
[2] Como todos os livros de Sebald, Austerlitz está entre os antípodas do
romance polifônico descrito por Bakhtin. Poderíamos falar de uma narração
monocórdia em várias vozes. O fato de uma fotografia, que Austerlitz diz haver
tirado em Terezín e reproduzido no texto (p. 186), ter sido na verdade tirada
pelo autor e mostrar seu próprio reflexo é um indício revelador desta fusão das
instâncias narrativas. Outro exemplo: o famoso "diz fulano diz sicrano diz
beltrano" com que tanto brincamos.
[3] Sebald, W. G. Austerlitz. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia
das Letras, 2008, p. 29.
[4] Oehler, Dolf. O velho mundo desce aos infernos. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999.
[5] Herzen apud Oehler, Le spleen contre l'oubli. Juin 1848. Trad. G.
Petitdemange e S. Cornille. Paris: Payot, 1996, p. 148.
[6] Benjamin, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo.
Trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Batista. São Paulo:
Brasiliense, 1994, p. 43.
[7] Cf. Oehler. "Os recursos da alegoria: A uma passante". Lectures de
Baudelaire. Les Fleurs du Mal. St. Murphy: Presse Universitaires de Rennes,
2002, pp. 57-68.
[8] Cf. de Dupont o poema "O canto do voto": "Faz ver, desmanchando o ardil:/Ó
República! A estes perversos/Tua grande face de Medusa/No meio de clarões
vermelhos!".
[9] Cf. o final do cap. XXV de O príncipe: "Tenho para mim que é melhor ser
impetuoso que prudente: porque a fortuna é mulher, e é preciso, caso se queira
mantê-la submissa, dobrá-la e forçá-la. De resto, vê-se que ela se deixa vencer
mais por estes que por aqueles que procedem friamente; no entanto, na condição
de mulher, ela é sempre amiga dos jovens, os quais são menos respeitosos, mais
ferozes e, com maior audácia, a comandam". Citado de Opere di Niccolò
Machivelli. Florença: Niccolo Conti, 1820, vol. IV, p. 367 [Ed. bras.: O
príncipe. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2010,
p. 134]. Lembro que Baudelaire projetava um diálogo entre Maquiavel e
Condorcet.
[10] Sebald, op. cit., p. 129.
[11] Ibidem, p. 129.
[12] A ferrovia e a fotografia são ainda demasiado ligadas à ideologia do
progresso no tempo de Baudelaire, ideologia à qual o poeta é alérgico. Em A
vida parisiense, de Jacques Offenbach, segundo Benjamin, a primeira peça de
teatro que se passa numa estação de trem, a estação é o lugar de chegada do
turista ávido de prazer (cf. Benjamin. Passagens. Belo Horizonte/São Paulo:
Editora da UFMG/Imprensa Oficial, 2006, p. 966). Cem anos mais tarde as
estações de trem serão vistas como os lugares onde se decide o destino dos
judeus: deportação ou salvamento. Visto assim, Austerlitz é uma resposta
melancólica a Offenbach.
[13] Sebald, op. cit., p. 219.
[14] Ibidem, pp. 238-39.
[15] Há também o remorso pelas palavras não ditas em circunstâncias datadas -
novembro de 1968, agosto de 1972.
[16] Austerlitz é o nome do personagem que procede à circuncisão do sobrinho de
Kafka em Praga, descrita numa nota do Diário de 24/12/1911.
[17] Cf. Missac, Pierre, "Walter Benjamin na Biblioteca Nacional, Paris". Neue
Rundschau, nº 1, 1985, pp. 174-97. Sebald faz alusão a
Benjamim, citando as lembranças nostálgicas de seu herói: "[...] a sala da
cúpula, com os seus abajures de porcelana verde que difundiam uma luz tão
agradável e serena, está deserta, os livros foram retirados das estantes que se
seguiam em forma de círculo e os leitores, que antes se sentavam a
escrivaninhas numeradas com tarjetas de esmalte, em contato próximo com seu
vizinho e em silenciosa harmonia com aqueles que o precederam, parecem ter se
dispersado aos quatro ventos" (Sebald, op. cit., pp. 266-67, grifos meus).
[18] Benjamim, W. Gesammelte Briefe. Bd. VI, 1938-1940. Frankfurt am Main:
Suhrkamp, 2000, p. 373. Para Benjamin, a biblioteca - mais do
que o navio - é o verdadeiro emblema da cidade: "Paris é uma biblioteca
atravessada pelo Sena".
[19] Adorno, Th. W. e Benjamin. Correpondances 1928-1940. Paris: Gallimard,
2006, p. 35 (Carta de 9 de março de 1934).
[20] Comparem-se as passagens respectivas do Baudelaire de Benjamin (op. cit.,
pp. 84-5) e Austerlitz (op. cit., p. 279).
[21] Sebald, op. cit., p. 277.
[22] Benjamin, Charles Baudelaire, op. cit., p. 81.
[23] Ibidem, p. 81.
[24] Haveria uma alusão às cumplicidades do presidente com os atores de Vichy?
Penso que Mitterand não foi questionado sozinho.
[25] Sebald, op. cit., p. 279.
[26] Ibidem, p. 272.
[27] Cf. minha própria leitura de "O Cisne": "Ein hermetischer Sozialist. Zur
Baudelaire-Kontroverse zwischen Walter Benjamin und Bert Brecht". Diskussion
Deutsch, 26/1975, pp. 569-84 (reproduzido em H. Engelhardt e D. Mettler (eds.),
Baudelaire. Die Blumen des Bösen. Frankfurt: Suhrkamp, 1988, pp. 215-75. Eu havia sugerido uma associação da imagem do pássaro
revoltado com o nome e a figura de Blanqui.
[28] Sebald, op. cit., p. 271.
[29] Grifo meu. Baudelaire, "O Cisne". As flores do mal. Trad. Ivan Junqueira.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
[30] Sebald, op. cit., pp. 271ss.
[31] Ibidem, p. 12. O olhar alegorizante de Austerlitz lembra o de Benjamin,
que transforma uma simples atendente de caixa em "quadro vivo, alegoria da
caixa" (Cf. Passagens, op.
cit.).
[32] Baudelaire, "O Cisne", op. cit., vv. 29-32.
[33] Sebald, op. cit., p. 14.
[34] Cf. Oehler, Terrenos vulcânicos. Trad. Samuel Titan Jr e outros. São
Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 124.
[35] Eu mesmo traduzi para o francês o excerto da décima segunda tese de
Benjamin. Sobre as leituras benjaminianas de Sebald, ver Hutchinson, Ben. W. G.
Sebald: Die dialektische Imagination. Berlim: De Gruyter, 2009, pp. 35-6.
Blanqui também fez comparações entre a megalomania urbanística de Napoleão III
e a dos faraós, o que Benjamin registrou na seção "Haussmanização, lutas de
barricadas": "Quando a construção avança, tudo avança, diz um adágio popular
que se tornou um axioma econômico. Nessa lógica, cem pirâmides de Quéops,
elevando-se juntas até as nuvens, atestariam uma superabundância de
prosperidade. Cálculo singular" (A. Blanqui apud Benjamin. Passagens. Belo
Horizonte/São Paulo: Editora da UFMG/Imprensa Oficial, 2006, p. 183).
[36] Benjamin, Charles Baudelaire, op. cit. p. 98.
[37] Não é por acaso que Benjamin insiste sobre "a solidão de Baudelaire e a
solidão de Blanqui", ele a conhece bem, sobretudo a partir de 1933.
[38] "Em algum ponto do passado, pensei, eu devo ter cometido um erro e agora
vivo uma vida que não é a minha", se diz Austerlitz no momento mesmo em que
está mais perto da passante tão desejada (Sebald, op. cit., p. 208).
[39] Sebald, op. cit.,p. 250.
[40] Benjamin, Passagens, op. cit. p. 984.