Mobilização e participação: um jogo de soma zero?: um estudo sobre as dinâmicas
de conselhos de saúde da cidade de São Paulo
Governos e organizações sociais vêm encontrando crescentes dificuldades para
promover o envolvimento da sociedade no processo de tomada de decisões sobre
políticas públicas. Diversos problemas têm sido reconhecidos, e entre eles a
literatura sobre o tema tem ressaltado a ausência de envolvimento de forças
sociais ativas e a "captura" dos processos participativos por grupos mais
organizados1. Duas linhas de ação têm sido recomendadas para combater esses
riscos: a reestruturação dos mecanismos participativos2 e a mobilização dos
atores sociais3. Neste artigo, argumentamos que essas medidas tendem a levar a
um jogo de soma zero, já que, de um lado, mobilização sem estruturação aumenta
o risco de "captura" e, de outro, reestruturação sem mobilização pode
facilmente implicar a adoção de procedimentos formais que contribuem para
inibir uma participação mais espontânea e vívida. Sugerimos, em contrapartida,
que a conjunção de reestruturação e mobilização pode aumentar as chances de
êxito do projeto de gestão participativa.
A fim de avaliar as possibilidades e os limites da mobilização social e da
estruturação organizacional no projeto de promover o envolvimento da sociedade
nas deliberações acerca de políticas públicas, realizamos um estudo sobre as
dinâmicas de conselhos de saúde existentes em áreas da periferia do município
de São Paulo. Buscou-se examinar as relações entre a arquitetura desses
conselhos gestores, o histórico de mobilização comunitária e os debates sobre
políticas de saúde em cada uma dessas áreas.
Os conselhos de saúde foram instituídos pela Constituição Federal de 1988, que
os definiu como mecanismos responsáveis por reunir organizações da sociedade
civil, provedores de serviços e administradores públicos na gestão do sistema
de saúde. Esses conselhos operam em todos os estados e em quase todos os
municípios brasileiros, lidando com questões de prestação de serviços,
acompanhamento do orçamento e estabelecimento de prioridades. Hoje, além deles,
há conselhos de saúde locais nas grandes cidades.
Nossa pesquisa enfocou seis conselhos de saúde atuantes em localidades pobres e
caracterizadas por diferentes histórias de mobilização social. Comparamos as
dinâmicas de tais conselhos no tocante aos debates neles conduzidos e às
dimensões da inclusão, da participação e da rede de conexões. Essas dimensões
estão estreitamente relacionadas com os três eixos que Dryzek4 considera
essenciais para a democratização da vida política: ampliação do número de
pessoas efetivamente incluídas nas decisões coletivas, das questões submetidas
à deliberação democrática e da participação de atores autônomos e competentes.
O presente artigo está estruturado em seis seções além desta introdução. Na
próxima seção, busca-se situar os conselhos de saúde no contexto do debate
internacional sobre a gestão participativa e o aprofundamento da democracia. Na
terceira seção, expõem-se a metodologia e os pressupostos da pesquisa. Na
quarta seção apresenta-se uma breve caracterização dos movimentos populares de
saúde nas seis áreas sob estudo. Na quinta seção descrevem-se e comparam-se as
discussões e as dinâmicas verificadas em cada conselho. Em seguida, discutem-se
as relações entre a história de mobilização social nas áreas enfocadas e o
desempenho dos conselhos locais. Por fim, apresentam-se algumas considerações
sobre certos aspectos metodológicos e analíticos da pesquisa.
O DEBATE SOBRE O APROFUNDAMENTO DA DEMOCRACIA
É cada vez mais recorrente afirmar-se que para ampliar o potencial de
transformação social da democracia é preciso ir além da consolidação de suas
dimensões formais e estruturais. A par da garantia de eleições regulares,
partidos independentes e liberdade de expressão e associação, portanto, cabe
instituir mecanismos capazes de promover maior envolvimento dos cidadãos, maior
transparência e um fluxo de informações mais amplo e horizontal nas decisões
sobre políticas públicas.
Ao longo dos anos de 1980 e 1990, distintas perspectivas teóricas propuseram
formas mais abrangentes de democracia, ao mesmo tempo em que diversas
experiências baseadas nos ideais de participação, deliberação e
descentralização foram implementadas em diferentes países e relatadas por
diversos estudiosos5. Essas experiências acabaram por trazer à tona os riscos
presentes nos processos de "aprofundamento da democracia" (deepening
democracy). Esses riscos foram apontados por uma série de autores que
questionaram os efeitos de tais iniciativas. Suas advertências ecoam
preocupações colocadas anteriormente por autores como Weber e Schumpeter6, que
chamaram a atenção para os possíveis problemas associados a deliberações com
base em posicionamentos leigos e mal informados, tais como o populismo e o
oportunismo vinculados à figura do líder conectado às massas sem a
intermediação de partidos políticos, as assimetrias na capacidade de mobilizar
e participar e o fato de que interesses específicos podem se organizar mais
facilmente e, assim, obstruir políticas voltadas a um público mais amplo porém
menos organizado. Examinando experiências participativas de descentralização em
diversos países, Robinson7 afirma que elas apresentam limitações por falta de
comprometimento das lideranças locais, de mobilização política entre os pobres,
de recursos financeiros suficientes para assegurar sua sustentabilidade e de
capacitação técnico-administrativa dos participantes, além de haver disparidade
de informações entre eles.
Em outro sentido, vários autores mostraram que sob certas condições de
estruturação dos processos participativos, de organização da sociedade civil e
de envolvimento dos gestores públicos efetivamente ocorrem ganhos
redistributivos e aumento da participação de setores sociais tradicionalmente
marginalizados8. Também foi apontado que os processos deliberativos contribuem
para a mudança de posições e opiniões dos participantes, atenuando polarizações
em torno de questões polêmicas9.
Entretanto, trabalhos recentes que partiram dessa perspectiva mais otimista
apontaram que algumas questões importantes sobre o potencial democrático dos
processos participativos permanecem em aberto10. Diante da informalidade que
caracteriza essa forma de participação, como verificar se grupos
tradicionalmente marginalizados - sem conexões político-partidárias e que não
pertencem à rede de relações dos gestores públicos - estão sendo incluídos nos
processos deliberativos ou tendo acesso aos seus benefícios distributivos? Os
mecanismos participativos estariam de fato promovendo maior transparência no
modo de conduzir as políticas públicas? Há inovação nas políticas geradas a
partir das informações fornecidas pelos representantes da sociedade civil?
Em suma, esses trabalhos chamam a atenção para a ausência de especificação
sobre a qualidade dos processos de democratização (inclusão, envolvimento,
transparência) ou dos efeitos atribuídos à participação (inovação,
distribuição). Que grau, por exemplo, de inclusão ou de inovação deve ser
atingido para que o efeito desses processos possa ser inequivocamente
reconhecido como um "aprofundamento da democracia"? Soma-se a isso uma
indefinição quanto às circunstâncias em que gestores públicos, estrutura
organizacional e mobilização social, fatores reconhecidos por vários autores
como entraves aos processos deliberativos, deixariam de ser obstáculos e
passariam a ser fatores de facilitação11.
Tendo em vista essas questões, elaboramos uma metodologia que contribui para
avaliar em que medida os projetos participativos estariam avançando nesses
aspectos. Para desenvolver essa análise, planejamos inicialmente trabalhar com
fóruns participativos situados em áreas com diferentes histórias de mobilização
social, caracterizados por diferentes estruturas organizacionais e organizados
por gestores públicos com diferentes graus de comprometimento com o projeto
participativo. Como essa estratégia se mostrou inviável, decidimos nos
concentrar em localidades com diferentes histórias de mobilização, uma vez que
estudos anteriores já haviam explorado mais sistematicamente a importância das
demais variáveis nos resultados de experiências participativas12.
Para investigar a capacidade dos processos participativos de promover inclusão,
deliberação e inovação, adotamos a mesma linha de outros estudos que têm
enfatizado a necessidade de se construir modelos que possibilitem a análise e a
comparação sistemáticas de experiências participativas13. Eles ressaltam a
importância dessa linha de pesquisa para a identificação dos procedimentos e
dos incentivos que favorecem a expressão das demandas dos mais desfavorecidos.
Também chamam a atenção para a importância de investigar os impactos da
participação social na elaboração e na implementação de políticas públicas.
Para analisar a trajetória de mobilização dos atores da sociedade civil,
seguimos um grupo de autores para os quais o êxito de projetos participativos
ou descentralizadores depende dos contextos associativos em que são
implementados14. Esses autores destacam a importância dos processos de
mobilização para garantir a participação de atores que possuem menos recursos.
Em paralelo, autores que trabalham com a noção de "capital social" afirmam que
a participação e a deliberação só se efetivam em ambientes sociais com alguma
experiência de engajamento civil e mobilização política15.
Ambas as perspectivas têm reconhecida importância no debate sobre o
aprofundamento da democracia, mas de modo geral são tratadas em separado pela
literatura em questão. Neste estudo, elas foram consideradas conjuntamente,
como parte de um esforço de comparação sistemática de dinâmicas participativas
verificadas em localidades com diferentes histórias de mobilização social.
METODOLOGIA E PRESSUPOSTOS DA PESQUISA
A cidade de São Paulo tem um conselho de saúde de âmbito municipal e conselhos
locais em cada uma de suas 31 unidades político-administrativas
(subprefeituras). Esses conselhos seguem o modelo institucional estabelecido
pela Constituição Federal de 198816, e estão diretamente ligados à Secretaria
Municipal de Saúde.
O estudo de caso aqui apresentado baseou-se em uma pesquisa sobre a criação e a
organização dos 31 conselhos locais de saúde (CLs), realizada entre 2001 e
200517. A fim de comparar CLs estabelecidos em localidades similarmente pobres,
selecionamos seis subprefeituras com Índices de Desenvolvimento Humano (IDH)
entre 0,74 e 0,83 (ver Figura_1)18. Como estávamos interessados em verificar as
condições e os efeitos da participação social em localidades com diferentes
trajetórias associativas, selecionamos três CLs situados em áreas com forte
experiência de mobilizações relacionadas com demandas de serviços de saúde e
outros três em áreas com menor tradição de mobilização. Assim, o primeiro grupo
foi composto pelas subprefeituras de São Miguel, Cidade Tiradentes e M'Boi
Mirim, e o segundo por Casa Verde, Vila Prudente/Sapopemba e Parelheiros19. A
seção seguinte apresenta uma breve caracterização dos movimentos de saúde em
cada localidade.
Quatro métodos foram empregados para caracterizar e comparar os seis conselhos
selecionados: análise de um total de 83 minutas de reuniões dos conselhos
referentes ao período de janeiro de 2006 a agosto de 200720; aplicação de
questionário junto a 85 conselheiros representando usuários e gestores de
serviços de saúde21; observação participante das reuniões; e pesquisa
bibliográfica para reconstituição da história da mobilização popular nas
localidades sob estudo.
A pesquisa assumiu quatro hipóteses a serem averiguadas. Pressupôs-se que os
conselhos de áreas com maior experiência de mobilização social seriam mais
inclusivos e participativos e apresentariam redes de conexões mais amplas e
maior proporção de propostas para solucionar problemas no sistema público de
saúde. Esses pressupostos foram examinados em duas etapas.
Na primeira etapa, trabalhamos com um modelo elaborado para avaliar as
dinâmicas dos conselhos em termos de inclusão, conexões e
participação.Definimos para cada uma dessas dimensões um conjunto
devariáveisquepermitisse a atribuição devalor 0 ou 1, com valor 1 conferido aos
resultados mais positivos a partir de uma revisão bibliográfica. Na segunda
etapa,classificamos os debates realizados nos conselhos de acordo com duas
temáticas: questões de saúde e de participação. Uma vez agrupados, esses temas
foram codificado sem seis indicadores, epara cada um deles atribuiu-se valor 0
ou 1, conferindo-se valor 1 aos conselhos onde houve maior número de
intervenções em um dado tema. Os resultados dessas duas seções são discutidos
na quinta seção.
HISTÓRICO E PERFIL DOS MOVIMENTOS DE SAÚDE LOCAIS
Em meados dos anos de 1970, o município de São Paulo assistiu a um grande
aumento populacional e a uma ocupação territorial desorganizada em suas áreas
mais periféricas. Em conseqüência, houve um forte aumento da demanda por
serviços essenciais. Os moradores dessas áreas recém-ocupadas mobilizaram-se
para reivindicar esses serviços, o que em muitos casos resultou na formação de
movimentos populares organizados22.
Os movimentos por serviços de saúde emergiram no curso dessas mobilizações. Em
1977, um grupo de mulheres de vários bairros da Zona Leste começou a organizar
eventos e protestos públicos para pressionar a Secretaria Estadual de Saúde a
construir um centro de saúde na região23. Em 1979, o centro foi inaugurado e no
mesmo ano foi instituído um conselho para monitorá-lo, com membros eleitos por
mais de oito mil moradores da região24. Em 1981, outros dezoito conselhos foram
eleitos para monitorar os centros de saúde da Zona Leste.
A partir de 1989, o Movimento de Saúde da Zona Leste procurou intensificar suas
conexões com movimentos de saúde de outras regiões da cidade, visando à criação
de um conselho municipal de saúde. Nesse momento, os militantes do movimento -
muitos dos quais funcionários da Secretaria Estadual de Saúde - estavam
empenhados na luta por um sistema de saúde universal e no combate à
privatização dos serviços de saúde25.
Os movimentos de saúde têm uma trajetória muito semelhante a de outros
movimentos surgidos ao longo do período de redemocratização. Eles se
organizaram em torno das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e das pastorais
da Igreja Católica, das associações de bairro, dos grupos de educação popular e
dos movimentos contra a pobreza26. O Partido dos Trabalhadores (PT) também foi
uma fonte de apoio ao fornecer locais para reuniões e abrir espaço
institucional para os movimentos, além de lançar candidatos ligados a eles27.
Houve ainda uma conjunção de intelectuais, estudantes e artistas que deram uma
importante contribuição aos movimentos ao proporcionar-lhes condições políticas
e de infra-estrutura por meio de seus trabalhos e de sua influência social28.
Com relação às subprefeituras enfocadas neste estudo, cabe destacar
sucintamente alguns aspectos, a começar pelo grupo das três localidades com
maior experiência de mobilização social. Uma delas é São Miguel, que esteve
entre aquelas envolvidas no movimento de saúde pioneiro da Zona Leste. Já em
Cidade Tiradentes, também na Zona Leste, a mobilização comunitária
intensificou-se mais recentemente, sobretudo com o movimento organizado para
garantir a construção do hospital local. M'Boi Mirim, na Zona Sul, compõe uma
área pobre que há alguns anos apresentava altos índices de violência. A
presença de associações com poder de mobilizar a comunidade (como a Sociedade
Santos Mártires e o Fórum de Defesa da Vida) foi decisiva para que os moradores
se articulassem por melhores condições de vida. A luta pela construção do
hospital local foi um dos impulsos para esse contexto de mobilização social. Um
traço distintivo dos movimentos de saúde atuantes nessas três áreas é que eles
dão grande importância à preservação de sua autonomia em suas interações na
esfera política.
Entre as localidades com menor experiência de mobilização, Parelheiros,no
extremo da Zona Sul, teve participação de destaque nas mobilizações sociais da
segunda metade dos anos de 1970. Em anos mais recentes, porém, o movimento
organizado dessa área sofreu uma retração em virtude, pelo menos em parte, da
debilitação de setores progressistas da Igreja Católica que apoiavam os
movimentos populares locais.
Localizada numa porção menos periférica da Zona Leste, a área de Vila Prudente/
Sapopemba tem um movimento social historicamente menos organizado do que
aqueles de outras localidades da região, com os quais atuou em conjunto por
longo tempo. Esse fato está relacionado com a decisão do movimento local de
atuar de forma independente ao Movimento de Saúde da Zona Leste, o que acabou
por reduzir os apoios e os recursos disponíveis.
Na Zona Norte, onde está situada a subprefeitura de Casa Verde, verifica-se uma
intensa institucionalização do movimento de saúde (também característica da
Zona Oeste), já que sua organização e atuação se apóiam amplamente nos
mecanismos participativos implantados pelo poder público.
Essa síntese da trajetória dos movimentos populares locais visa contribuir para
a compreensão das dinâmicas dos CLs abordadas a seguir. Não obstante, cabe
ressaltar que outras formas de mobilização e organização também se fazem notar
no âmbito desses fóruns participativos.
OS CONSELHOS DE SAÚDE: DEBATES E DINÂMICAS
Nesta seção, comparamos as dinâmicas, as discussões e as propostas observadas
nos seis CLs selecionados para este estudo no período de janeiro de 2006 a
agosto de 2007. Começamos por examinar as dinâmicas dos conselhos em relação às
dimensões da inclusão, da rede de conexões e da participação, e, em seguida,
caracterizamos os debates ali realizados.
Para dar ao leitor uma idéia de como foram calculados os indicadores
apresentados nessa seção é apresenta a seguir uma breve explicação dos passos
que permitiram converter variáveis contínuas em dicotômicas (0 ou 1)29.
Para as três primeiras dimensões, foi atribuído o valor 1 aos conselhos que
apresentaram maior: (i) inclusão; (ii) participação; e (iii) conexões. Para a
quarta dimensão, associada os debates realizados nos conselhos, associou-se o
valor 1 aos conselhos em que houve maior número de intervenções referentes aos
seguintes temas: (i) problemas da saúde; (ii) influência política; (iii)
procedimentos. Os critérios valorativos que sustentam os julgamentos daquilo
que pode ser reconhecido, por exemplo, maior inclusão ou participação são
apresentados e discutidos no começo de cada subseção a partir de uma breve
revisão bibliográfica.
Os procedimentos metodológicos que permitiram a conversão de variáveis
contínuas em dicotômicas variaram em função dos dados disponíveis. Entretanto,
os dois exemplos apresentados a seguir foram os mais comuns. Primeiro exemplo:
para características da população como gênero, idade ou cor da pele,
identificamos o perfil da população na área de abrangência de cada conselho e
medimos a aderência entre a distribuição observada nos conselhos e a
distribuição "normal" observada na população (sendo considerada aderente uma
distribuição até 10% acima ou abaixo da distribuição normal). Assim, aos
conselhos que apresentaram uma distribuição compatível com a da população
atribui-se o valor 130. Segundo exemplo: com o objetivo de avaliar as conexões
entre os conselhos e os gestores da área da saúde tomou-se o total de nomes
citados, no caso 167, e calculou-se um número médio de citações por conselho. O
valor 1 foi atribuído àqueles conselhos em que foram feitas citações acima
dessa média.
A seguir são apresentados os resultados da análise para os seis CLS dessas
quatro dimensões.
Inclusão
O que nos habilita a descrever, comparar e avaliar processos participativos no
que diz respeito à promoção da inclusão? Não há resposta simples a essa
questão, já que há uma considerável diversidade de concepções acerca do tipo de
inclusão que um projeto participativo deve proporcionar.
Ao passo que as regulamentações dos conselhos de saúde estipulam uma
representação adequada da sociedade civil organizada, alguns autores enfatizam
a necessidade de promover a inclusão de setores sociais historicamente
marginalizados dos processos políticos31, o que significa dar atenção aos
segmentos populacionais não organizados e pouco mobilizados. Há ainda autores
que preconizam um método seletivo em que o perfil sociodemográfico dos
representantes espelhe aquele da população32. Esse método, conforme se
argumenta, evitaria o favorecimento daqueles com mais recursos, assim como a
monopolização dos debates por atores coletivos altamente politizados e com
posições polarizadas.
Entre os muitos critérios possíveis para definir um maior grau de inclusão,
adotamos indicadores que refletem um perfil mais plural nos aspectos
associativo e político, um perfil demográfico que espelha o da população e um
perfil socioeducacional com presença significativa dos menos favorecidos. O
Gráfico_1 sintetiza as informações apresentadas na Tabela_1, que apresenta as
variáveis relativas a esses perfis e os valores atribuídos a cada um dos CLs,
com achados mais positivos codificados como 1.
No caso dos perfis socioeducacional e demográfico, os indicadores apontam para
uma relação entre conselhos de áreas mais mobilizadas e maior inclusão. Quanto
às características identificadas, cabe fazer três observações. A primeira
refere-se à expressiva participação de não-brancos, especialmente no conselho
de Cidade Tiradentes, onde 70% dos membros declararam ser negros ou pardos. Em
segundo lugar, 23% dos conselheiros não tinham o primeiro grau completo. Por
fim, há um notável equilíbrio de gênero entre os conselheiros. Essas
observações sugerem que o perfil sociodemográfico dos membros dos CLs se
correlaciona ao da população das suas áreas de abrangência e que esse fato pode
ser relacionado com a experiência de mobilização social destas áreas.
No caso do perfil político,os dados mostram uma forte predominância de
conselheiros filiados ou simpáticos ao PT em cinco dos seis CLs, mas essa
predominância é mais expressiva nas subprefeituras de áreas com maior
experiência de mobilização social. Os casos deligação como utros partidos foram
encontrados em duas das subprefeituras onde há menor experiência de
mobilização. De modo similar, o indicador referente ao perfil associativo
aponta que os CLs de subprefeituras com menor mobilização apresentam maior
pluralidade de associações representadas.
Conexões
O que nos habilita a descrever, comparar e avaliar processos participativos no
que diz respeito às suas interações com outras instituições e processos de
políticas públicas? Também nesse caso não há respostas simples, já que existe
grande discordância quanto ao tipo de conexão e coordenação que se deve
estabelecer entre esses âmbitos.
Neste estudo, examinamos as conexões dos CLs com diversos atores sociais,
políticos e institucionais que tomam decisões relativas ao sistema de saúde. O
Gráfico_2 sintetiza as informações apresentadas na Tabela_2, que apresenta os
dados colhidos para essa dimensão de acordo com as menções feitas nas
entrevistas e nas minutas. Atribuiu-se valor 1 aos casos de maior porcentagem
de menções em ambas.
É impressionante o número de menções a instituições de saúde (971), órgãos
estatais (126) e fóruns participativos (36) citados nas entrevistas realizadas
e nas minutas das reuniões. Entre as associações representadas pelos
conselheiros, cerca de metade delas tem relações com os poderes Executivo e
Legislativo do município. Também é expressivo o número de organizações (264) e
políticos (37) mencionados pelos conselheiros. Os indicadores apontam
claramente para uma relação entre maior experiência de mobilização e maior rede
de conexões.
Participação
Vários autores que analisaram experiências participativas ressaltaram que as
relações entre os atores são marcadas por fortes assimetrias, que os agentes
estatais têm poder excessivo e que os fóruns participativos freqüentemente são
"capturados" por grupos político-partidários34. Alguns estudos sugeriram ainda
que certas características organizacionais têm a propriedade de minimizar essas
assimetrias, facilitando os processos deliberativos35.
O Gráfico_3 sintetiza os resultados da pesquisa em relação a esses aspectos. A
Tabela_3 apresenta os quatro indicadores iniciais consideram os procedimentos
organizacionais dos CLs quanto ao processo de seleção dos conselheiros, à
presença de facilitação e à coordenação da agenda de discussões. Os quatro
seguintes relacionam-se com a dinâmica participativa nas reuniões. Os dois
últimos referem-se à prestação de contas dos conselheiros aos setores por eles
representados e à satisfação dos conselheiros com o desempenho dos CLs.
No que diz respeito às variáveis dos procedimentos organizacionais, a pesquisa
apurou resultados pouco auspiciosos em todos os conselhos. Quanto às dinâmicas
participativas, os indicadores de "ambiente" sugerem que os debates nos CLs são
limitados, haja vista que poucos conselheiros intervêm nas reuniões e que 60%
das intervenções são feitas por conselheiros que se manifestam apenas uma vez
(o que sugere se tratar mais de informes do que de debates). Os indicadores de
prestação de contas e de satisfação, por fim, mostram que os conselheiros de
áreas com maior experiência de mobilização utilizam mais meios para manter suas
bases informadas e manifestam maior satisfação com o desempenho de seus
respectivos conselhos.
Os debates
O conjunto das 83 minutas analisadas evidencia que os conselhos discutiram uma
ampla gama de questões, que classificamos em três grupos temáticos: questões de
saúde, relativas a políticas e programas de saúde e problemas no acesso a
atendimentos e serviços; questões de participação, referentes a procedimentos
para a realização de eleições e reuniões; problemas locais, tais como aqueles
relativos a abastecimento de água, infra-estrutura urbana ou segurança. Aqui
vamos nos deter nos dois primeiros temas, fornecendo alguns breves exemplos dos
debates ocorridos durante o período da pesquisa.
Uma das principais discussões sobre política de saúde ocorridas em São Paulo
durante o período em foco girou em torno da concessão da gestão dos serviços de
saúde a entidades filantrópicas, as chamadas Organizações Sociais de Saúde
(OSSs). Os governos estadual e municipal estavam fortemente determinados a
adotar um modelo de gestão mediante contratos firmados com OSSs para
administrar os hospitais públicos e as recém-criadas unidades de Assistência
Médica Ambulatorial (AMAs), voltadas ao tratamento rápido de pacientes com
problemas de baixa e média complexidade. Em dezembro de 2005, setecentos
delegados reunidos na Conferência Municipal de Saúde deliberaram pela rejeição
das concessões a OSSs36, mas isso não impediu que o modelo fosse implementado
mediante lei municipal aprovada em janeiro de 2006.
Os conselhos de Casa Verde, Cidade Tiradentes, São Miguel e Parelheiros
criticaram acerbamente as OSSs, afirmando que faziam parte do "processo de
privatização da saúde no país", e o conselho de Parelheiros entrou com um
mandato de segurança contra as OSSs. O conselho de M'Boi Mirim agiu de modo
bastante diferente, dando apoio a uma OSS que atua na área e congratulando seus
funcionários pelos serviços prestados à população local. Todos os conselhos
discutiram a falta de controle social no âmbito das AMAs.
Ainda no que diz respeito às questões de saúde, os conselhos de São Miguel e de
M'Boi discutiram como diminuir o absenteísmo de pacientes em consultas
especializadas e sugeriram uma série de medidas para solucionar o problema. Com
relação às questões referentes à diversidade étnica e cultural, no conselho de
Cidade Tiradentes estiveram na pauta de discussões o Dia da Consciência Negra,
a II Conferência Municipal de Saúde da População Negra e a proposta de
realização de um seminário sobre anemia falciforme, ao passo que no conselho de
São Miguel discutiu-se a atenção à saúde da população indígena.
Sobre as questões de partipação, o conselho de Vila Prudente/Sapopemba
organizou reuniões em unidades básicas de saúde (UBS), de modo que os
conselheiros pudessem estar em contato direto com a realidade dos serviços
prestados. Nos conselhos de M'Boi Mirim e Casa Verde discutiram-se intensamente
os métodos e os procedimentos para a organização e a realização do processo de
seleção dos conselheiros.
O Gráfico_4 sintetiza a análise apresentada na Tabela_4, que apresenta a
análise comparativa dos debates realizados nos conselhos conforme seus aspectos
temáticos. Atribuiu-se valor 1 aos conselhos com maior proporção de
intervenções assinaladas em cada indicador.
Quanto à qualidade das minutas, podemos distinguir um grupo de conselhos cujas
minutas são menos detalhadas e registram um número mais reduzido de questões
discutidas (Casa Verde, V. Prudente/Sapopemba e São Miguel) e um outro em que
as minutas são mais detalhadas e relacionam uma gama de questões bem mais ampla
(M'Boi, Parelheiros e Cidade Tiradentes). Deve-se ressaltar que o grau de
detalhe das minutas depende da precisão do secretário executivo, de forma que
esses resultados podem não expressar com exatidão o teor dos debates.
De todo modo, a análise dos dados disponíveis revela diferenças importantes no
teor dos debates. Verificamos uma clara predominância dos aspectos relativos a
políticas e serviços de saúde nas minutas dos conselhos situados em áreas com
maior experiência de mobilização social. As questões ligadas à influência
política também são discutidas com maior freqüência nos conselhos dessas áreas,
ao passo que os temas referentes à organização, à participação e aos
procedimentos eleitorais aparecem com mais freqüência nas localidades com menor
experiência de mobilização, o que indica que os conselhos dessas áreas estão
buscando renovar suas dinâmicas.
Particularmente significativa é a constatação de intervenções relacionadas com
o reconhecimento de diversidades étnico-culturais, pois reforça a noção de que
a política da identidade e as ações afirmativas estão se consubstanciando no
país por meio de um complexo processo político em que os organismos
participativos - e particularmente os conselhos - desempenham um papel
importante.
DISCUSSÃO DOS PRESSUPOSTOS
Como exposto anteriormente, a pesquisa procurou avaliar as hipóteses que
sustentam a existência de uma associação positiva entre mobilização e
participação. Nesse sentido esperava-se que conselhos em localidades com maior
experiência de mobilização social apresentassem maior inclusão e participação,
conexões mais amplas e maior proporção de propostas para solucionar problemas
no sistema público de saúde. Os resultados apresentados na seção anterior
compõem um quadro heterogêneo.
A presença de recursos de mobilização mostrou-se um fator importante tanto para
a promoção de conselhos mais ativos como para o aumento da participação de
atores sociais menos favorecidos. Como vimos, há maior inclusão de pessoas com
menor grau de escolaridade, de mulheres e de não-brancos nos conselhos situados
em localidades que possuem um histórico de mobilização mais expressivo. Os
indicadores apresentados na Tabela_1 sugerem que os debates são conduzidos de
maneira diversa em conselhos localizados em áreas com maior ou menor
experiência de mobilização. Nos primeiros, verificam-se discussões marcadas por
posicionamentos mais incisivos e conflituosos, mas com melhores resultados nos
indicadores de monitoramento e inovação. Os conselheiros dessas áreas também
apresentam mais conexões com atores políticos e institucionais, o que ressalta
a inserção desses conselhos na cena política e corrobora a importância da
mobilização social na formação de elos que conectem a população pobre com a
esfera do Estado e da sociedade organizada.
Não obstante,a pesquisa também mostrou um ambiente em que a participação é
limitada, na medida em que poucos conselheiros levantam questões e sustentam
discussões sobre elas. Ocorre que a criação desses conselhos - em meio a um
marcante processo institucional de construção de fóruns participativos - não
foi acompanhada de inovações em sua rotina operacional, e em muitos casos isso
contribuiu, nas localidades mais mobilizadas, para uma tendência de mera
reprodução das posições dos movimentos de saúde locais. Os indicativos de que
os conselheiros de áreas mais mobilizadas apresentam maior satisfação com o
desempenho dos CLs e maior prestação de contas às suas bases podem estar
refletindo essa tendência. Nesse sentido, ao observarmos os perfis político e
associativo dos conselheiros constatamos que há maior pluralidade de
representação nos conselhos situados em áreas com menor experiência de
mobilização. Esses CLs são também aqueles que discutiram propostas de mudança
nos procedimentos para a seleção dos conselheiros e a condução das reuniões, o
que pode ser visto como uma tentativa dos participantes não ligados aos
movimentos de saúde de introduzir novas dinâmicas.
Esses resultados sugerem que é preciso atentar para a distinção entre as
variáveis examinadas e para as possíveis limitações dos estudos que tomam a
satisfação dos participantes como um dos principais indicadores da efetividade
de fóruns participativos. De um ponto de vista teórico, nossos achados chamam a
atenção para o caráter não linear dos ganhos obtidos. As três dimensões
enfocadas - inclusão, participação e conexões -, assim como os indicadores que
as configuram, seguem em direções diversas, e observamos conquistas em algumas
variáveis e reveses em outras, resultados que realçam a complexidade do
processo de democratização. O estudo também evidenciou a capacidade explicativa
do conceito de mobilização social, na medida em que ele permitiu identificar -
a despeito do reduzido número de casos - dois padrões de comportamento
distintos. De um lado, a experiência de mobilização mostrou-se um fator
importante tanto para a promoção de conselhos mais ativos como para o aumento
da participação de atores sociais mais vulneráveis. De outro, nas localidades
que carecem dessa experiência constatamos esforços mais sistemáticos para mudar
os procedimentos mediante os quais os conselheiros são eleitos e as reuniões
são conduzidas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo aqui apresentado explorou um modelo que propicia a comparação e a
avaliação de experiências institucionalizadas de participação social. Como
vimos de início, há um denso debate normativo sobre o papel que a participação
social pode desempenhar na democratização do acesso à política e às políticas
públicas, assim como diversos estudos empíricos que discutem as condições para
a participação. No entanto,não existem instrumentos metodológicos que
possibilitem comparar tais experiências de maneira sistemática. Procuramos
avançar nessa questão mediante um estudo empírico das relações entre as
diversas variáveis e dimensões em jogo, buscando examinar de um modo mais
preciso os processos pelos quais a participação social pode democratizar o
acesso às deliberações sobre políticas públicas.
O intuito dessa investigação foi mais o de testar e desenvolver as
possibilidades do modelo do que o de extrair conclusões sobre o comportamento
das variáveis sob estudo. Nesse sentido, cabe notar que trabalhamos com um
pequeno número de CLs, que o número de conselheiros diferia entre eles e que o
grau de detalhe das minutas dependia da precisão do secretário executivo -
fatores que limitaram o escopo do estudo. Apesar dessas limitações, abordamos
um conjunto de indicadores compatíveis com as variáveis descritas na literatura
e que permitem delinear uma visão geral do desempenho dos CLs.
Os dados apontaram a riqueza da experiência dos CLs tanto ao promover o acesso
dos menos favorecidos à esfera política como ao elaborar propostas para
solucionar problemas no sistema público de saúde. Como vimos, seis CLs atuantes
em áreas periféricas da cidade combinaram possibilidades de ativismo
(posicionamentos veementes, litígios, monitoramento) e coordenação
(planejamento, reformulação organizacional, ampliação de conhecimentos
técnicos). Isso sem dúvida representa uma inovação em face do modo tecnocrático
de discutir políticas de saúde. Resta saber em que medida essa renovação
estaria se traduzindo em melhores serviços de saúde para a população pobre (um
bom sinal nesse sentido é a recente ação empreendida por um órgão público
municipal em resposta às reclamações que lhe foram encaminhadas pelo conselho
de Parelheiros, as quais o levaram a fazer um levantamento detalhado sobre o
número de pessoas e o tempo transcorrido no aguardo de consultas e exames
especializados na Zona Sul).
O estudo também chama a atenção para as relações constitutivas entre os
processos de mobilização social e de construção institucional: ao passo que a
criação dos CLs ampliou o campo de atuação dos movimentos de saúde locais, a
presença desses movimentos fortaleceu tais fóruns participativos. Os resultados
da pesquisa indicam um jogo em que todos saem ganhando (win-win game), já que a
mobilização e a participação impulsionam a democratização das políticas
públicas de saúde ao longo dos eixos propostos por Dryzek37: maior inclusão de
participantes, ampliação das questões sob controle democrático e efetividade da
deliberação coletiva. Os ganhos poderiam, no entanto, ser maximizados se os
processos de mobilização social e de construção institucional, que ocorrem em
diferentes momentos (a abertura de espaços seguida por sua ocupação), fossem
sincronizados a iniciativas de inovação organizacional. Nesse sentido, uma
sugestão que se pode fazer àqueles interessados na participação social da
perspectiva da democratização tanto da política, como das políticas públicas é
a de que atentem sistemática e simultaneamente para três frentes: mobilização
social, estruturação organizacional dos fóruns participativos e capacitação dos
gestores públicos para enfrentar o desafio de facilitar a participação.
VERA SCHATTAN P. COELHO é doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e
pesquisadora do Cebrap, onde coordena o Núcleo de Cidadania e Desenvolvimento
(NCD).
ALEXANDRE SAMPAIO FERRAZ é doutor em Ciência Política pela USP e trabalha no
Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
FABIOLA FANTI é advogada, mestre em Ciência Política pela USP e assistente de
pesquisa do NCD-Cebrap.
MEIRE DE PAULA RIBEIRO é graduada em Ciências Sociais pela USP e assistente de
pesquisa do NCD-Cebrap.
[*] Este artigo apresenta resultados do projeto de pesquisa "Políticas públicas
de saúde e participação social na cidade de São Paulo", conduzido pelo Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) com apoio do Development Research
Centre on Citizenship, Participation and Accountability/Institute of
Development Studies/University of Sussex e do Centro de Estudos da Metrópole.
Os autores agradecem aos conselheiros das subprefeituras e a Carlos Neder por
sua colaboração e suas entrevistas, bem como a John Gaventa, Mark Warren,
Bettina von Lieres e Naila Kabeer por seus preciosos comentários e sugestões.
Frederico Menino discutiu e editou este texto intensivamente, ajudando a
aprimorar as versões anteriores.
[1] Avritzer, L. e Navarro, Z. (orgs.). A inovação democrática no Brasil. São
Paulo: Cortez, 2003; Coelho, V. S. e Nobre, M. (orgs.). Participação e
deliberação: teoria democrática e experiências institucionais no Brasil
contemporâneo. São Paulo: 34 Letras, 2004; Ansell, C. e Gash, A. "Collaborative
governance in theory and practice". Journal of Public Administration Research
and Theory Advance Access, 2007, vol. 18, nº 4, pp. 543-71.
[2] Fung, A. "Recipes for public spheres: eight institutional design choices
and their consequences". Journal of Political Philosophy, 2004, vol. 11, nº 3,
pp. 338-67.
[3] Gaventa, J. "Finding the spaces for change". IDS Bulletin, 2006, vol. 37,
nº 6, pp 23-33; Mohanty, R. "Gendered subjects, the State and participatory
spaces: the politics of domesticating participation in rural India". In:
Cornwall e Coelho (eds.). Spaces for change? The politics of participation in
new democratic arenas. Londres: Zed Books, 2007; Cornwall, A. "Negotiating
participation in a Brazilian municipal health council". In: Cornwall e Coelho
(orgs.), op. cit.
[4] Dryzek, J. S. Deliberative democracy and beyond. Oxford: Oxford University
Press, 2000.
[5] Dryzek, op. cit.; Fung e Wright, E. O. (eds.). Deepening democracy:
institutional innovations in empowered participatory governance. Londres:
Verso, 2003; Gaventa, op. cit.
[6] Weber, M. Essays in sociology. Oxford: Oxford University Press, 1946; e
Schumpeter, J. Capitalism, socialism and democracy. Londres: Allen and Unwin,
1976.
[7] Robinson, "Does decentralisation improve equity and efficiency in public
service delivery provision?". IDS Bulletin, 2007, vol. 38, nº 1, pp.7-17.
[8] Abers, R. Inventing local democracy: grassroots politics in Brazil.
Westview: Boulder, 2001; Wampler, B. e Avritzer, L. "Públicos participativos:
sociedade civil e novas instituições no Brasil democrático". In: Coelho e Nobre
(orgs.), op. cit.
[9] Abelson, J. e Gauvin, F.-P. Assessing the impact of public participation.
Canadian Policy Research Networks (research report). Ontario: McMaster
University, 2006.
[10] Coelho, "Democratization of Brazilian health councils". International
Journal of Urban and Regional Research, 2006, vol. 30, nº 3, pp. 656-71;
Dagnino, E. e Tatagiba, L. Democracia, sociedade civil e participação. Chapecó:
Argos, 2007; Bebbigton, A., Abramovay, R. e Chiriboga, M. "Social movements and
the dynamics of rural territorial development in Latin America". World
Development, 2008, vol. 36, nº 12, pp. 2.874-87.
[11] Andrade, I. A. L. "Descentralização e poder municipal no Nordeste: os dois
lados da moeda". In: Soares, J. A. O orçamento dos municípios do Nordeste
brasileiro. Brasília: Paralelo 15, 1998; Carneiro, C. B. L. "Conselhos: uma
reflexão sobre os condicionantes da sua atuação e os desafios de sua
efetivação". Informativo Cepam, 2002, vol. 1, nº 3, pp. 62-
70.
[12] Coelho, op. cit.; Wampler e Avritzer, op. cit.; Heller, P. "Moving the
State: the politics of democratic decentralization in Kerala, South Africa and
Porto Alegre". Politics and Society, 2001, vol. 29, nº 1, pp. 131-63.
[13] House, E. e Howe, K. "Deliberative democratic evaluation checklist".
Evaluation Checklist Project, 2000 <www.wmich.edu.edu/evalctr/checklist>; Rowe,
G. e Frewer, L. J. "Evaluating public-participation exercises". Science,
Technology & Human Values, 2004, vol.29, nº 4, pp.512-56; Abelson e Gauvin,
op.cit.; Ansell e Gash, op.cit.
[14] Cornwall e Coelho(orgs.), op.cit.
[15] Putnam, R. D. Making democracy work: civic traditions in modern Italy.
Princeton: Princeton University Press, 1993; Verba, S., Schlozam, L. K. e
Brady, H. Voice and equality: civic voluntarism in American politics.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995.; Costa, S. "Movimentos sociais,
democratização e a construção de esferas públicas locais".Revista Brasileira de
Ciências Sociais, 1997, vol. 12, nº 35.
[16] A Constituição definiu a saúde como um direito de todos os cidadãos e
atribuiu ao Estado a responsabilidade de instituir e manter um sistema de saúde
público unificado (Sistema Único de Saúde - SUS), cujos fundamentos prevêem
prestação de contas à sociedade e participação social.
[17] Coelho, op. cit.
[18] O IDH varia de 0,74 a 0,95 entre todas as subprefeituras de São Paulo.
[19] Essa classificação foi baseada em pesquisa bibliográfica e discutida com
Carlos Neder, ex-conselheiro de saúde, deputado estadual pelo PT e pesquisador
especialista em movimentos de saúde na cidade de São Paulo, e Nabil Bonduki,
ex-vereador e pesquisador especialista em movimentos social em São Paulo.
[20] Um formulário-padrão foi elaborado a fim de nortear a coleta e a análise
dos dados disponíveis nessas minutas.
[21] Do total de 61 conselheiros representantes de usuários, 34 (56%)
representavam alguma associação. De acordo com legislação municipal de 2004, os
conselhos gestores de saúde devem ter 24 membros e respectivos suplentes, 50%
dos quais representando usuários e os demais 50% correspondendo a
representantes de trabalhadores da saúde (25%) e a representantes do Poder
Público e de prestadores de serviços (25%).Esses questionários estão
disponíveis em http://www.centrodametropole.org.br/dados/saude/
questionario_conselheiros_gest_logos.pdf; http://www.centrodametropole.org.br/
dados/saude/questionario_conselheiros_usu_logos.pdf.
[22] Jacobi, P. Movimentos sociais e políticas públicas: demandas por
saneamento básico e saúde - São Paulo, 1974-1984. São Paulo: Cortez, 1993.
[23] Neder, C. A. P. Participação e gestão pública: a experiência dos
movimentos populares de saúde no Município de São Paulo.Campinas, SP:
dissertação de mestrado, Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, 2001.
[24] Bógus, C. M. Participação popular em saúde. São Paulo: Annablume, 1998.
[25] Ibidem.
[26] Singer, P. e Brant, V. C. (orgs.). São Paulo: o povo em movimento.Rio de
Janeiro: Vozes, 1983; Sacardo, G. A. e Castro, I. E. N. Saúde: conselho
municipal. São Paulo: Instituto Pólis (Cadernos do Observatório de Direitos do
Cidadão nº 8), 2002.
[27] Bógus, op. cit.; Machado, L. M. V. Atores sociais: movimentos urbanos,
continuidade e gênero. São Paulo: Annablume, 1995.
[28] Neder, op. cit.
[29] Para uma apresentação detalhada do cálculo de cada variável, ver http://
www.centrodametropole.org.br/v1/dados/saude/Anexos_Artigo_Saude_CDRCCEM.pdf.
[30] Como será explicado na próxima subseção adotamos um critério diferente
para as variáveis socioeconômicas, nesses casos o valor 1 foi atribuído aos
conselhos em que há forte presença de pessoas pobres e com poucos anos de
estudo.
[31] Gaventa, op. cit.; Cornwall, op. cit.
[32] Fishkin, J. e Luskin, R. "Bringing deliberation to the democratic
dialogue". In: McCombs, M.e Reynolds, A. (eds.). The poll with a human face:
the national issues convention experiment in political communication. Nova
York: Erlbaum, 1999.
[33] Os conselheiros declararam-se como representantes de movimentos populares
de saúde, de unidades de saúde, associações religiosas, associações de bairro,
sindicatos, grupos de direitos civis, fóruns participativos, movimentos de sem-
teto ou sem-terra, grupos comunitários ou filantrópicos, associações de pessoas
com deficiência ou como representantes não-filiados.
[34] Avritzer e Navarro, op. cit.; Ziccardi, A. Participación ciudadana y
políticas sociales en el espacio local. Cidade do México: Universidad Nacional
Autónoma de México, 2004; Coelho e Nobre (orgs.), op. cit.
[35] Gastil, J. e Levine, P. The deliberative democracy handbook. San
Francisco, CA: Jossey-Bass, 2005.
[36] Teixeira, A. C., Kayano, J. e Tatagiba, L. Saúde: controle social e
política pública. São Paulo: Instituto Pólis (Cadernos do Observatório de
Direitos do Cidadão, nº 29), 2007.
[37] Dryzek, op. cit.