Ilegalismos urbanos e a cidade
Doralice, 40 anos, mora em um bairro da periferia paulista com o marido, o
filho e mais a mãe, um irmão e um sobrinho. Doralice é diarista. Ganhos parcos
e irregulares, não mais do que três casas para cuidar da faxina. Provida de
dotes culinários amplamente celebrados pela família, houve um tempo em que
resolveu vender pão e broas que ela preparava durante o dia. Vendia à noite nas
proximidades de um hospital em uma barraca improvisada na perua Kombi do
marido. O empreendimento não deu muito certo e depois de alguns meses foi
desativado.
Mas Doralice é uma mulher batalhadora e não deixa escapar oportunidades para um
ganho a mais para sua família. Assim, por exemplo, não hesita quando surge a
oportunidade de montar uma banca de CDs piratas em um bairro próximo à sua
casa. Um ponto de venda bastante modesto, mas que aciona redes de escalas
variadas, a começar pelos garotos de uma favela ao lado, chamados para garantir
a venda durante o dia, enquanto ela sai para o seu trabalho de diarista. Há
também uma cascata confusa de intermediários que passa pela sociabilidade
vicinal, mas que transborda amplamente o perímetro local: um parente próximo
fez o contato com o agenciador dos CDs, um tipo obscuro que mantém relações
obscuras com um "estúdio" obscuro em que os CDs são copiados e mais os agentes
que empresariam esse negócio hoje amplamente expansivo e presente em qualquer
ponto da cidade. Doralice não consegue reconstruir os percursos que os CDs
percorrem até chegar a seu modesto ponto de venda - a partir de certo ponto o
circuito fica, como se diz nos meios populares, "embaçado". Afinal, seguir os
traços desse artefato não é tarefa fácil. A rigor isso definiria toda uma
agenda de pesquisa que haveria de nos conduzir pelos fios da várias redes
superpostas de que é feito o hoje redefinido mercado informal. Por ora basta
dizer que são redes que passam pelo lado oficial, formal e cintilante da
indústria cultural, que transbordam para os dispositivos sociotécnicos
acionados nas fronteiras incertas do informal e ilegal, para se enredar nos
múltiplos circuitos do comércio ambulante por onde circulam produtos de
procedência conhecida, desconhecida, duvidosa ou ilícita, para então se
condensar nas miríades de pontos de venda espalhados pela cidade. E aqui
voltamos à Doralice.
Ela conhece muito bem as coisas da vida e sabe que não teria condições de
bancar o seu negócio em algum lugar mais disputado e mais rendoso. Perguntamos
a ela por que não um lugar mais rendoso já que ela teria acesso ao
"fornecedor", acesso ademais garantido por relações de confiança, vínculos de
proximidade e família. A resposta foi precisa: ela não teria "capital" para
pagar fiscais ou então a polícia e muito menos para compensar as perdas na
eventualidade de um "rapa". Enfim, Doralice é desprovida do cacife necessário
para lidar com os representantes da ordem que parasitam os negócios infomais-
ilegais com a força da chantagem e da extorsão, definindo, em grande medida, os
modos como esses mercados se organizam e se distribuem nos espaços urbanos1.
Sendo assim, ela teve que se contentar com os ganhos irrisórios de uma banca
pobre instalada em um lugar pobríssimo. Ganhos irrisórios e, além do mais,
incertos, pois vez e outra (e muito freqüentemente) seus fornecedores ou
intermediários desaparecem porque foram presos ou ficaram eles próprios
devedores no perverso (e violento) mercado da proteção, ou então porque as
relações de confiança foram, em algum momento e por razões as mais variadas
(traições, disputas, deslealdades), rompidas em algum ponto dessa rede por onde
se fazem as conexões entre as pontas mais pobres da cidade e os circuitos de
uma riqueza cada vez mais globalizada. Aliás, foi por isso mesmo que ela
desistiu do negócio.
Decididamente, Doralice está longe de ser uma empreendedora. O que fazia não
era mais do que um bico. Mais um entre tantos outros expedientes de que lança
mão para lidar com as urgências da vida. Assim, por exemplo, ela não titubeia,
nas horas do aperto, em mobilizar uma espantosa rede que opera o mercado de
receitas médicas fraudadas para conseguir o remédio de que depende a vida do
marido, e que passa por dentro das farmácias de maior porte da região,
expediente, aliás, rendoso para os que inventam (balconistas e farmacêuticos de
plantão, com a conivência de fiscais e outros) os artifícios para fazer da
compra-e-venda dessas receitas um recurso a mais para complementar os
baixíssimos salários pagos no mercado formal de trabalho. Doralice passou a ter
uma tal familiaridade com esse mercado negro de receitas que ela própria, vez e
outra, se transforma em uma intermediária, o que lhe rende uns trocados a mais
cada vez que uma vizinha aflita (quase sempre mulheres, raramente homens) vem
solicitar seus "conhecimentos" e "boas relações" para resolver um problema de
urgência doméstica. Em outro momento qualquer e conforme as circunstâncias,
Doralice não encontra nenhuma razão moral para recusar o "serviço" que lhe é
proposto por um conhecido próximo e de confiança, e colocar a encomenda de
"farinha" em sua bolsa, entrar em um ônibus, atravessar a cidade e
tranqüilamente levar a mercadoria a seu destino, trazendo de volta um ganho
modesto, mas que fará toda a diferença em um orçamento doméstico garantido no
dia a dia, sem que por isso ela se considere comprometida com o "mundo do
crime". Como ela diz, "não estou fazendo nada de errado, não roubo, não mato" -
ela apenas está se virando como pode, como em tantas outras circunstâncias de
sua vida.
Haveria mais a dizer sobre os percursos desta não muito pacata dona de casa. A
rigor, há toda uma agenda de pesquisa que poderíamos definir a partir de uma
situação como essa: seja seguir os produtos, os CDs pirata ou as receitas
médicas fraudadas ou então a droga, para reconstituir, na medida do possível, a
cadeia de conexões que define os circuitos por onde trafegam; seja fazer a
etnografia dos agenciamentos práticos acionados nesses pontos de condensação de
relações e mediações, tal como essa "história minúscula" permite entrever. Duas
vias diferentes e complementares que certamente nos permitiriam prospectar os
circuitos superpostos de um mundo urbano atravessado por expansiva trama de
ilegalismos, novos e velhos, entrelaçados nas práticas urbanas, seus circuitos
e redes sociais. Esse o ponto que interessa, por ora, reter.
O fato é que, hoje, a vida social parece atravessada por um universo crescente
de ilegalismos que passam pelos circuitos da expansiva economia (e cidade)
informal, o comércio de bens ilegais e o tráfico de drogas (e seus fluxos
globalizados), com suas sabidas (e mal conhecidas) capilaridades nas redes
sociais e nas práticas urbanas. É nesse ponto que a história de Doralice
interessa. Trata-se de um jogo situado de escalas que se superpõem e se
entrelaçam nas "mobilidades laterais", para avançar uma discussão a ser feita
nas páginas seguintes desse personagem urbano, cada vez mais comum em nossas
cidades, que transita nas fronteiras borradas entre o informal e o ilegal ao
longo de percursos descontínuos entre o trabalho incerto e os expedientes de
sobrevivência mobilizados conforme o momento e as circunstâncias.
É sempre possível dizer que nada disso é novidade, apenas repõe o que sempre
esteve presente em nossas cidades. No entanto, pouco entenderemos do que vem
acontecendo se nos mantivermos presos a um marco descritivo-analítico pautado
pelas mazelas de uma modernidade incompleta. Tampouco entenderemos o que se
passa se tomarmos situações como essas aqui descritas apenas e tão-somente como
caso exemplar da "viração" própria das desde sempre conhecidas situações de
pobreza. Na verdade, poderíamos multiplicar os exemplos (voltaremos a eles ao
final) e, a partir de cada situação, tal como "postos de observação", apreender
os perfis de um mundo urbano alterado e redefinido pelas formas contemporâneas
de produção e circulação de riquezas, que ativam os diversos circuitos da dita
economia informal, que mobilizam o "trabalho sem forma", para usar a expressão
de Chico de Oliveira, e se processam nas fronteiras incertas do informal, do
ilegal e também do ilícito2. É esse o plano de atualidade, no qual se inscreve
os percursos incertos de personagens urbanos como o aqui descrito. E cifra de
contemporaneidade, pois entra em ressonância com o que vem acontecendo em
outros lugares, também nas cidades dos chamados países do Norte.
O fato é que as relações incertas entre o lícito, o ilegal e o ilícito
constituem um fenômeno transversal na experiência contemporânea. São vários os
autores que vem chamando a atenção para essa transitividade entre o informal, o
ilegal e o ilícito, com uma preocupação, mais ou menos explicitada, em
distinguir a natureza da transgressão que se opera no âmbito da economia
informal ou então a que define as atividades ilícitas ou criminosas, como o
tráfico de drogas, armas e seres humanos3.
Bem sabemos que essa transitividade acompanha a história de nossas cidades, já
foi cantada em prosa e verso e tematizada por uma já longa e prestigiosa
literatura, para não falar das circunstâncias históricas que presidiram o desde
sempre expansivo mercado informal. Mas também é verdade que nos vemos hoje em
face do desafio de construir um espaço conceitual distinto do que vigorava até
recentemente e pelo qual a discussão se processava sob o ângulo das chamadas
incompletudes da modernidade brasileira. Será preciso trazer a situação
brasileira para outro prisma de referências. Essa é a preocupação que subjaz a
esse texto. Não se trata de fazer um balanço bibliográfico, tampouco rastrear
teorias e questões polêmicas, muito menos oferecer explicações ou marcos
conceituais alternativos. Isso exigiria muito mais do que é possível fazer no
escopo deste artigo. Arriscaria dizer que se trata não mais do que um
exercício, talvez uma experimentação a partir das pistas que os autores
comentados nos fornecem em suas pesquisas, e são essas que interessam, na
medida em que oferecem um repertório ampliado de referências pertinentes ao
cenário contemporâneo.
NAS FRONTEIRAS INCERTAS DO INFORMAL, ILEGAL E ILÍCITO4
Em artigo de 1997, Ruggiero e South lançaram mão da metáfora do bazar - a
cidade como bazar - para descrever as intersecções entre os mercados formais e
os mercados informais, ilegais ou ilícitos, tal como se configuraram, a partir
dos anos de 1980, nas metrópoles dos países centrais do capitalismo
contemporâneo5. Com evidente intenção polêmica, a metáfora evoca a alteridade
nos traços de "orientalismo" associados ao bazar, para chamar a atenção que
ele, agora, se encontra incrustado no núcleo das modernas (e ocidentais)
economias urbanas. Na mira dos autores, está um cenário urbano no qual se
expande uma ampla zona cinzenta que torna incertas e indeterminadas as
diferenças entre trabalho precário, emprego temporário, expedientes de
sobrevivência e atividades ilegais ou delituosas. Nas fronteiras porosas entre
o legal e o ilegal, o formal e informal, transitam as figuras contemporâneas do
trabalhador urbano, lançando mão, de forma descontínua e intermitente, das
oportunidades legais e ilegais que coexistem e se superpõem nos mercados de
trabalho. "Mobilidades laterais", definem os autores, de trabalhadores que
oscilam entre empregos mal pagos e atividades ilícitas, entre o desemprego e o
pequeno tráfico de rua, negociando a cada situação e em cada contexto os
critérios de aceitabilidade moral de suas escolhas. É isso propriamente que
caracteriza o bazar metropolitano: a intersecção entre os mercados irregulares
e os mercados ilegais, esse embaralhamento do legal e do ilegal, e o permanente
deslocamento de suas fronteiras.
O "bazar metropolitano", dizem os autores, começou a ganhar forma em meados da
década de 1980. No caso da Inglaterra e dos Estados Unidos, o momento da virada
conservadora de governos que fizeram por desmanchar direitos e garantias
sociais foi o ponto de arranque da precarização do trabalho e a redefinição dos
mercados urbanos de trabalho. Em termos gerais, anos de reestruturação
produtiva e da chamada flexibilização das relações de trabalho que terminou por
esfumaçar as diferenças entre trabalho, desemprego e expedientes de
sobrevivência, na própria medida em que o assim chamado informal instala-se no
núcleo dinâmico dos processos produtivos e, no mesmo passo, se expande pelas
vias de redes de subcontratação e formas diversas de mobilização do trabalho
precário, sempre nos limites incertos entre o legal, o ilegal, também entre o
ilícito e delituoso, quando isso envolve o tráfico de seres humanos direcionado
para as miríades de oficinas clandestinas que se espalham nesses circuitos
produtivos6.
Esses foram também anos em que as atividades ilícitas mudaram de escala, se
internacionalizaram e se reorganizaram sob formas polarizadas entre, de um
lado, os empresários do ilícito, em particular do tráfico de drogas e que, a
cada local irão se conectar com a criminalidade urbana comum, e, de outro, os
pequenos vendedores de rua, que operam nas margens da economia da droga e
transitam o tempo todo entre a rua e a prisão. Esses são os "trabalhadores
precários" da droga, que se multiplicam na medida em que o varejo se expande e
se enreda nas dinâmicas urbanas: modulação criminosa do capitalismo pós-
fordista, criminalidade just-in-time, define Ruggiero, que responde à
variabilidade, às oscilações e às diferentes territorialidades dos mercados. É
nesse sentido que as atividades ilícitas, não apenas o tráfico de drogas,
passam a compor as economias urbanas nos pontos de intersecção com os
expansivos mercados irregulares, multiplicando as oportunidades para a
circulação de bens e produtos de origem duvidosa, e que são transacionados no
jogo multiforme das interações sociais independentemente de serem legais ou
ilegais, ou de origem ilícita.
Por certo, as questões propostas pelos autores estão longe de dar conta de uma
problemática hoje tratada por uma vastíssima literatura sobre a economia da
droga em suas várias dimensões, escalas e formas de territorialização. Mas não
é bem esse o ponto que interessa aqui discutir. O que importa, isso sim, é
reter o plano em que os autores apresentam suas questões, colocando a cidade -
o bazar metropolitano - como plano de referência para situar os mercados
ilegais em suas interações com as dinâmicas urbanas. É justamente isso que,
assim parece, fez a fortuna desse texto nos debates recentes.
FORMAS CONTEMPORÂNEAS DE PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE RIQUEZAS
A noção hoje revisitada7 de "economia de bazar" circula entre pesquisadores às
voltas com processos próximos às situações descritas por Ruggiero e South. É
isso justamente que sugere o interesse da metáfora do bazar para a descrição
das cidades contemporâneas, oferecendo um prisma que coloca a cidade como plano
de referência para a descrição dos processos em curso. E é isso o que permite
colocar em perspectiva (e em diálogo) pesquisas que tratam dos vários circuitos
e redes de extensão variada que conformam o que se convencionou chamar de
economias subterrâneas nas periferias francesas, na superposição das atividades
informais e nos mercados de rua, nos quais os fluxos de dinheiro, mercadorias,
bens de origem ilícita e também drogas se entrecruzam em um complexo sistema de
trocas, se inscrevem no jogo das relações sociais e passam a compor as
dinâmicas urbanas que transbordam amplamente o perímetro estreito dos chamados
quartiers sensibles
8. Ou então, a "segunda grande transformação", para usar os termos de Palidda,
que atinge, por exemplo, os núcleos industriais italianos, transfigurando a
moderna e desenvolvida cidade de Milão, agora atravessada por toda sorte de
ilegalismos em que se articulam a migração clandestina, a ampla circulação de
produtos da contravenção, do contrabando e da pirataria, vindos sobretudo do
sudeste asiático (mas não só) e a nebulosa de relações entre o ilegal, o
informal e o ilícito, que acompanham os processos de terceirização produtiva ou
deslocalização das plantas industriais9.
Por outro lado, as pesquisas que tratam do que vem sendo chamado de novas
formas migratórias lançam luz sobre um outro vetor de constituição da "economia
de bazar", nas trilhas de outras dimensões das reconfigurações do capitalismo
contemporâneo. No contexto francês, Michel Peraldi faz uso dessa noção, com
referência ao texto de Ruggiero e South, para tratar das dinâmicas urbanas hoje
redefinidas sob o impacto de formas de circulação de bens e riquezas que seguem
os amplos circuitos da migração por onde se estruturam redes transnacionais de
um proliferante comércio ambulante10. São redes que atravessam fronteiras,
articulam centros comerciais espalhados em vários pontos do planeta e se
territorializam sob as diversas modulações do chamado mercado informal em
expansão nos centros urbanos do primeiro mundo, em particular nas cidades de
fronteira, situadas nos pontos de conexão entre esses vários circuitos, muitas
delas ponto de chegada de vagas migratórias anteriores e que agora se redefinem
nessa cartografia mutante do mundo contemporâneo.
Os circuitos por onde circulam os produtos até chegar aos mercados populares
nos centros urbanos fazem o traçado de verdadeiras redes transnacionais de
trocas informais nas fronteiras porosas do legal e ilegal, sempre tangenciando
os mercados ilícitos (drogas, armas, seres humanos). Ao lado do que se poderia
chamar de migração da miséria (a tragédia dos clandestinos sobre os quais tanto
se fala), observam-se novas formas migratórias que não visam à instalação nos
países de destino, colocando em movimento homens e mulheres que circulam entre
países e regiões conforme as circunstâncias e oportunidades de trocas e
comércio: as "formigas da mundialização" ou "novos nômades da economia
subterrânea", diz Tarrius11; pequenos comerciantes que praticam o que Peraldi
chama de commerce à la valise (quer dizer: os nosso conhecidos "sacoleiros"),
envolvidos em dispositivos comerciais transnacionais que articulam produtores
do Norte e consumidores do Sul12. Alguns, ou melhor, multidões deles são
independentes, outros operam sob a encomenda de comerciantes bem estabelecidos
nos entrepostos comerciais, algo como atacadistas que mobilizam as "formigas"
para o abastecimento dos produtos que serão, depois, negociados em outros
tantos locais13. Populações itinerantes que operam em redes mais ou menos
extensas, seguindo "os territórios circulatórios"14 tecidos por laços
familiares e de proximidade (núcleos sedentarizados das vagas migratórias
anteriores), ancoradas nas várias cidades e localidades por onde passam pessoas
e produtos15.
São esses circuitos transnacionais de migração que permitem a circulação de
bens e mercadorias que, sem esses novos migrantes, não chegariam aos mercados
populares do Norte ou do Sul. Esta é a tese defendida por Alain Tarrius: os
grandes atores econômicos da mundialização mobilizam os pobres como
consumidores, como clientes e também como passadores, fora das regras oficiais
e ao largo das convenções comerciais, fazendo os produtos chegarem aos países
pobres e às populações pobres dos países ricos. Assim, produtos eletrônicos
(filmadoras, computadores portáteis, mp3, aparelhos de DVDs etc.) despejados
aos milhares em Dubai, espalham-se pelo Leste europeu e chegam até as
periferias alemãs ou francesas graças às coortes de afegãos, iranianos,
georgianos e mais todos os "derrotados das guerras" que dizimaram os países
caucasianos nos últimos tempos. Esses "novos nômades", populações "em excesso",
seguem as redes sociais construídas nas trilhas das diásporas anteriores ou
recentes16 e são portadores de competências circulatórias (quer dizer, saber
passar pelas fronteiras, contornar as restrições, os controles e as
fiscalizações), transformando-se em atores de amplas transferências
internacionais de mercadorias. Essa competência circulatória, sugere Tarrius,
ajusta-se ao "projeto de uma mundialização selvagem, porque ultra-liberal",
quer dizer, "fazer chegar aos mínimos recantos solváveis do planeta,
mercadorias de que esses lugares seriam privados em função das oscilações
aleatórias das políticas nacionais":
[... ] eis, a titulo de exemplo, as peregrinações de uma câmara de
vídeo, de concepção nova - grava diretamente no DVD - dotada de boas
lentes, e que apareceu no mercado mundial em 2005. Em dezembro desse
ano, eram vendidas por 420 euros em Dubai e no Kowait, onde chegavam
massivamente, como 'destino final', enquanto os distribuidores
franceses, alemães e espanhóis as comercializavam por um preço em
torno de 1400 euros. Depois de uma passagem furtiva pelas fronteiras
dos emirados, graças às coortes de migrantes afegãos, iranianos,
caucasianos etc., esses aparelhos eram revendidos por volta de 440
euros em Beirute e em Istambul, e 430 euros em Sofia [... ]. Iremos
reencontrar essa mesma câmara, por 460 euros, nas periferias
francesas, tendo lá aparecido, como se diz, "caídas do caminhão"
[tombé du camion], mas que passaram pela Alemanha por intermédio dos
turcos que, por sua vez, as receberam dos afegãos e dos azeris, que
seguiram os itinerários que passam por Dubai. Quanto aos fabricantes,
eles respeitaram estritamente os acordos do comércio internacional,
entregando, como "destino final", centenas de milhares de aparelhos
em um Estado que conta com apenas alguns milhares de cidadãos17.
É de se notar, ainda comenta o autor, o aparente paradoxo de formas de
contrabando (é disso que se trata) próprias do mundo pré-capitalista e que são
agora mobilizadas a serviço da forma contemporânea do capitalismo. São formas
variadas de contrabando, mobilizando as "formigas da mundialização", e a elas
se deve ainda acrescentar práticas da falsificação e da pirataria que se
generalizam por todos os lados, muitas vezes com a conivência ou o incentivo
das próprias empresas interessadas em colocar em circulação o "nome da marca",
ampliando ainda mais seus mercados nessa espécie de fronteira de expansão do
capital que são os "pobres" e seus hoje proliferantes mercados de consumo, no
Norte e no Sul, à Leste e a Oeste do planeta. Sob esta lógica, diz ainda
Tarrius, em uma observação carregada de conseqüências, os migrantes passam da
anterior submissão ao lugar-cidade, à submissão às lógicas comerciais apátridas
das grandes empresas mundiais. Por certo, "a exploração não é menos sórdida,
mas as modalidades de autonomização do migrante são outras".
[... ] a mobilização dos pobres para passar, para contornar normas e
regras, produz novas formas de migração, povoadas por esses pequenos
atores transnacionais. Esses migrantes generalizam mobilidades de
formigas que se amplificam, em vez de se esgotar na sempiterna
concentração de populações em torno das diversas zonas de atividade
industrial, agrícola ou de serviços, campos da miséria. Eles são,
ademais, excedentes em relação aos limites das nações por onde
atravessam, estão fora do raio de ação das políticas ditas de
integração e de igualdade de oportunidades para os recém-chegados,
generosas mas pouco eficientes já há várias décadas para inúmeros
estrangeiros. Minoritários, certamente, mas notáveis atores das
circulações transnacionais, mantendo os vínculos com seus locais e
meios de origem, se organizando em redes já mundializadas, eles
produzem uma nova forma migratória carregada de sentido para o
conjunto das populações e dos Estados18.
Se, como sugere Ruggiero, o "bazar metropolitano" se constituiu nas trilhas das
mutações do trabalho e da implosão das formas reguladas do emprego, vemos aqui
um outro lado, em sintonia com o primeiro, modulações de um mesmo processo de
reconfigurações do capitalismo contemporâneo: modos de circulação de bens e
riqueza que ganham forma nessa espécie de comércio globalizado de "sacoleiros"
nos territórios circulatórios pelos quais os novos migrantes fazem sua
itinerância entre fronteiras e países e que se territorializam nos mercados
populares e no comércio de rua hoje em expansão nos centros urbanos dos países
do Norte e do Sul.
Essa é questão também tratada por Michel Peraldi ao estudar os mercados
populares que se constituíram no mediterrâneo francês (Marseille, sobretudo).
Atento aos circuitos de bens e pessoas (entre países do Magreb e da Europa) que
lá deságuam e, em suas pesquisas mais recentes, seguindo outros percursos e
outros mercados que ganharam forma na própria medida da endurecimento das
restrições nas fronteiras francesas19, Peraldi reforça a hipótese de uma
circulação ampla de mercadorias que se viabiliza em função dessas populações
circulantes. Versões contemporâneas de uma espécie de capitalismo mercantil,
talvez, diz ele, um "capitalismo de párias" (Weber), agora conectado aos
movimentos superacelerados de valorização do chamado capitalismo flexível (e as
cascatas transnacionais de subcontratações) sob a égide do capital financeiro e
que coloca em circulação volumes inimagináveis de modelos, marcas, tipos e
variações de estilo, tudo em rapidíssima rotação e ciclos cada vez mais curtos
de obsolescência de produtos mal saídos dos espaços produtivos, que vão se
substituindo uns aos outros conforme mudam as preferências, os públicos-alvos,
o jogo feroz das concorrências e as disputas de mercados. É esse capitalismo
perdulário e predatório que ativa tal comércio circulante. É desse formidável
desperdício que esse comércio circulante se alimenta. Na análise de Peraldi,
são três as funções desses mercados, entre a itinerância desses comerciantes
circulantes e seus modos de territorialização nos centros urbanos: capturar
produtos destinados a outros mercados, dando-lhes outras destinações
improváveis pelas vias oficiais dos mercados; relançar todos os invendidos
(estoques de falência, produtos com defeito, erros de programação etc.),
drenando esses produtos conforme lógicas de preferência e de usos locais, que o
mercado mundial ignora ou não pode atingir; por fim, reativar o ciclo
interrompido de mercadorias postas fora de circulação nas condições modais do
mercado mundial, as chamadas "pontas de estoque" que são relançadas,
transformadas e adaptadas aos mercados nos quais passarão a circular20.
Essas redes transnacionais por onde circulam produtos e pessoas criam condições
para a circulação de produtos que, em outras situações, não chegariam a esses
mercados: embargos, interditos, controles que marcam as fronteiras,
diferenciais de renda e riquezas que tornam difícil quando não impossível o
acesso a esses bens e mercadorias. Em outros termos: tais mercados alimentam-se
de obstáculos, interditos e proibições que vigoram para a circulação de
mercadorias entre países, além das normas e das legislações que codificam os
regimes de circulação em cada país. Mas é justamente aí que não só se qualifica
a competência desses pequenos comerciantes, mas também se especifica o sentido
do "bazar contemporâneo", tal como proposto por Peraldi: não tanto a oralidade
(acordos informais, regras de confiança, força da palavra dada) e as tramas
relacionais que os caracterizam, mas a capacidade de ultrapassar e contornar as
fronteiras e as diferenças que demarcam (e obstam) a circulação entre países.
Toda uma trama relacional é acionada e toda uma competência circulatória é
ativada justamente nas dobras do legal e do ilegal, nas dobras das fronteiras
políticas e desses territórios circulatórios que as transpassam o tempo todo:
suborno nas alfândegas, documentos falsos, negócios escusos com fiscais e
policiais, trocas de influência, compra de proteção, acertos com condutores de
caminhões etc. É nesse sentido que Peraldi faz uso da noção de "economia de
bazar": um dispositivo comercial que coloca em cena comerciantes estabelecidos
em seus postos, vendedores ambulantes, "sacoleiros", consumidores e mais a
trama de relações que passam por essa teia de intermediários e mediações, pelas
quais os agenciamentos são feitos nas dobras do legal e ilegal, do formal e
informal. A cada ponto dessa trama que viabiliza a circulação de mercadorias,
esses atores estão em situações relacionais, convocados a negociar
constantemente a "aceitabilidade moral de seus comportamentos" em uma situação
"que torna possível a coexistência da legalidade e da ilegalidade, e a mudança
permanente dos seus limites" nos termos de "negociações, sempre situadas, nas
cenas públicas ou privadas condicionadas pelas trocas mercantis"21.
***
Vale dizer que na mira desses autores está, na verdade, um ponto crítico que
pauta em grande medida as questões postas em discussão. Eles propõem um campo
de discussão que desativa essa espécie de amálgama confuso (e nada inocente)
que associa migração, miséria, terrorismo islâmico, fundamentalismo religioso,
tráfico ilícito e "crime organizado", acionando as obsessões securitárias, as
políticas repressivas e a legislação de exceção que vêm se multiplicando no
cenário europeu. Ao seguir as pistas dessas itinerâncias de bens e pessoas,
eles colocam em evidência os mundos sociais que se desenham nos "territórios
circulatórios" por onde transitam essas populações com base em uma densa trama
relacional, contraponto empírico e crítico aos cenários de miséria e degradação
associados ao tráfico de seres humanos e de legiões de clandestinos mobilizados
pelas redes de subcontratação e trabalho precário. Essas pesquisas terminam por
traçar um outra cartografia do mundo e da mundialização, e oferecem, por isso
mesmo, um outro jogo de referências para propor as questões pertinentes ao
cenário contemporâneo22.
Muito mais poderia ser dito a respeito dessas pesquisas. Por ora, vale reter
algumas questões que ajudam a requalificar o "bazar contemporâneo" que foi
nosso ponto de partida.
Primeiro: se há porosidade nas fronteiras do legal-ilegal, do formal-informal,
também é verdade que a passagem não é simples. Como parece evidente nos
comentários acima, é justamente nessas dobras que se dão os agenciamentos
políticos próprios aos mercados de proteção e às práticas de extorsão (fiscais,
polícia, agentes políticos, agentes locais dos poderes públicos etc.) em suas
várias modulações conforme circunstâncias de tempo e espaço, que também variam
conforme se alteram as condições políticas, os rigores repressivos e os
critérios de incriminação de bens e produtos em circulação23. Esse fato permite
situar em escala ampliada uma questão que Michel Misse já propôs há bastante
tempo e sempre volta a insistir como central para o entendimento das dinâmicas
urbanas próprias aos mercados informais e ilegais nas cidades brasileiras. Em
outros termos: nessa espécie de economia política dos ilegalismos urbanos, os
mercados de proteção (e práticas de extorsão) compõem a face política do "bazar
contemporâneo". Como afirma Misse, o mercado de proteção (com suas conhecidas
seqüelas violentas) é constitutivo das formas de regulação dos mercados
informais e ilegais24. Pois, então, fica a sugestão de que, hoje, essa é uma
questão central nos modos de funcionamento do capitalismo contemporâneo.
Peraldi propõe uma ousada (e interessante) hipótese de que é justamente nesse
ponto que vem se dando a apropriação privada dessa riqueza circulante em escala
transnacional, envolvendo esses "representantes da ordem" responsáveis pelo
controle das fronteiras e suas passagens. Embora seja longo o trecho, vale a
pena citar:
O contrabando e as circulações transnacionais de mercadorias não
podem se efetuar sem o envolvimento e o apoio diretos dos
funcionários do Estado, sobretudo os aduaneiros, que permitem
"comprar as rotas" [acheter la route] conforme uma expressão usual em
Tanger. O signo mais tangível da regularidade dos lucros do commerce
à la valise e de outras formas de contrabando pode ser averiguado
diretamente no luxo ostensivo das "vilas" que os aduaneiros argelinos
construíram nos bairros ricos de Oran, Tanger ou La Marsa. [... ]
Esses beneficiários do comércio transnacional podem ser encontrados,
agora, ao lado das classes médias dos países emergentes, nos mesmos
bairros em que moram, nas portas das escolas privadas em que seus
filhos estudam, nas mesmas estações balneárias onde passam as férias,
com a particularidade de terem sido formados na dobras do capitalismo
mercantil e também das economias rentistas. [... ] essas categorias
sociais são economicamente estéreis, na medida em que seus modos de
enriquecimento, por mais espetaculares que sejam, raramente
constituem um princípio de acumulação primitiva capitalista
convertida em alguma forma de investimento produtivo [... ]. Porém,
em geral, suas despesas suntuárias ou estatutárias
notadamentesoblógicas patrimoniais (filhos, casa, aquisições
imobiliárias) abrem espaço para as lógicas especulativas das quaissão
mais vitimas do que beneficiárias, deixando o campo livre para a
constituição de um capitalismo deslocalizado em campos que eles
próprios abriram. A emergência de um capitalismo chinês transnacional
nesses terrenos é, hoje, a manifestação mais visível e mais unificada
da qual será necessário ainda fazer a história e o inventário25.
Expedientes crapulosos, diz Peraldi, que se alimentam de todos os controles e
interdições que pesam sobre essas populações circulantes. Mas são esses mesmos
interditos, importante também dizer, que ativam a agenda securitária e as
políticas de exceção no cenário europeu, desdobrando-se na redefinição contínua
das formas de controle e suas modalidades operatórias26. Em outros termos, se
as migrações, como bem nota Sassen, é constitutiva da história do capitalismo27
e é hoje um vetor poderosíssimo dos modos de circulação de riquezas, não é
possível deixar de considerar os expedientes que se fazem justamente nas
fronteiras-passagens, bem como os deslocamentos e as redefinições que se
processam em função desses agenciamentos político-repressivos, com impactos
consideráveis nas regiões de passagem: conflitos, turbulências, violências,
controles mafiosos e, sobretudo, o que um autor chamou de "arquipélagos da
exceção" que redesenham a cartografia do mundo contemporâneo28.
Se há porosidade nos âmbitos formal-informal, legal-ilegal, lícitoilícito, isso
não quer dizer indiferenciação entre uns e outros, pois é justamente nas suas
dobras que se dão os agenciamentos políticos (corrupção, extorsão, repressão,
violência e as várias modulações dos mercados de proteção, entre outros) que
condicionam essa ampla circulação de bens, mercadorias, pessoas e populações
itinerantes. Em outros termos, ao contrário do que muitas vezes sugere a
metáfora dos fluxos e dos circuitos, os espaços não são lisos, e são justamente
suas asperezas, digamos assim, que interessa averiguar; é justamente aí que vai
se constelando a face política do "bazar contemporâneo". Por outro lado e ao
mesmo tempo, as pesquisas aqui comentadas sugerem que é também nessas dobras
que se circunscrevem campos de gravitação, para lembrar outra metáfora, dessa
vez vinda de Thompson, o historiador, de experiências regidas por uma espécie
de "arte do contornamento" que a competência circulatória descrita pelos
autores de alguma forma expressa, mas que também poderíamos (e podemos)
identificar como um traço transversal da experiência contemporânea, bastante
evidente, aliás, no âmbito de nossas cidades29.
Segundo: o tráfico de drogas está presente e também compõe este amplo circuito
transnacional de circulação de bens, mercadorias e pessoas. Não é o caso, nos
limites desse texto, de se deter nas circunstâncias que, sobretudo no correr
dos anos de 1990, fizeram desses tráficos uma proliferante e muitíssima rendosa
atividade com impactos consideráveis nas dinâmicas (e economias) urbanas nas
cidades e regiões por onde passam e se enraízam. Por enquanto, basta dizer que
as redes transnacionais da economia da droga mudaram de escala e amplitude no
correr desses anos. São outras modulações dos mesmos processos que ativaram as
migrações transnacionais das últimas décadas30, ganhando configurações
particulares conforme as circunstâncias geopolíticas (mutantes e turbulentas)
das regiões produtoras e de passagem31. Estruturam-se como verdadeiras
economias que se beneficiam das mutações recentes do capitalismo contemporâneo
(produção flexível, financeirização da economia, tecnologias digitais) nas
condições de ultraliberalismo e enfraquecimento das regulações estatais32. Vale
notar: se é verdade que os circuitos e as redes do comércio circulante
transnacional tangenciam e por vezes, sob circunstâncias locais, se articulam
com os tráficos ilícitos, essas redes não se confundem. Tarrius mostra,
sobretudo em suas pesquisas mais recentes (nas rotas do Leste europeu), que não
são as mesmas redes nem os mesmos agenciamentos locais. As conexões, os
comprometimentos e os modos de regulação (controles mafiosos e violentos no
caso das drogas) são outros, as rotas (com seus pontos/locais de passagem)
também elas não são as mesmas, apesar de sua proximidade nas vastas regiões, ao
Sul e ao Leste, por onde passam.
No entanto, a questão se coloca de outro modo quando vista sob o ângulo das
dinâmicas e economias urbanas das regiões em que a economia da droga se instala
e se ramifica: seja seus impactos nos mercados urbanos de trabalho e a questão
das "mobilidades laterais" de que fala Ruggiero e South33; seja suas
ramificações nas economias urbanas em uma nebulosa de relações pelas quais o
dinheiro da droga circula e impulsiona os mercados e os empreendimentos legais
com impactos consideráveis na economia local, para além do que se poderia
designar genericamente como operações de lavagem do dinheiro "sujo"34; seja, no
plano de seus modos de territorialização nas periferias urbanas, seu
imbricamento no jogo das relações sociais e na lógica da "viração" de todos os
dias, que se faz justamente nas fronteiras embaralhadas do legal e ilegal,
lícito e ilícito35; seja, ainda, a redefinição dos jogos locais de poder e seus
modos de regulação na disputa pela apropriação dessa forma nebulosa de riqueza
(entre corrupção, formas de clientelismo, acordos mafiosos, violência aberta ou
camuflada) em situações de encolhimento das prerrogativas estatais ou então de
perda do monopólio da violência legítima, para lembrar aqui a fórmula famosa de
Weber36.
Por fim, se a noção de "bazar metropolitano" interessa é sobretudo porque
oferece um plano de referência que permite situar (mas sem confundir em um
amálgama confuso) os vetores que hoje atravessam e estruturam as dinâmicas
urbanas atuais. São eles as mutações do trabalho (e as redes nebulosas de
subcontratação) que tornam incertas as diferenças entre trabalho precário,
emprego temporário, expedientes de sobrevivência e atividades ilegais - a zona
cinzenta em que operam as "mobilidades laterais" dos trabalhadores urbanos nos
principais centros metropolitanos da atualidade. São também as formas de
circulação de riqueza que se territorializam nas várias modulações do dito
mercado informal e do comércio popular proliferante nos centros urbanos por
onde circulam bens e produtos de origem duvidosa entre pirataria, contrabando,
falsificações ou simplesmente desvio dos circuitos produtivos oficiais. Trata-
se ainda do mercado dos bens ilícitos (drogas, sobretudo) também conectados em
redes transnacionais, com capilaridades nas dinâmicas urbana e que dependem,
assim como outros mercados ilegais, em seus modos de territorialização, dos
mercados (também ilegais) de proteção - esses também compõem o "bazar
metropolitano" na sua face política ou então crapulosa, para lembrar aqui a
discussão proposta por Peraldi.
DINÂMICAS URBANAS REDEFINIDAS
Bem sabemos que, entre nós, o "bazar metropolitano" não é exatamente uma
novidade. Esse trânsito entre o informal e o ilegal, quiçá o ilícito, sempre
ocorreu em cidades caracterizadas desde longa data por um expansivo mercado
informal, sempre próximo e tangente aos mercados ilícitos que também têm uma
história importante de ser, em outro momento, reconstruída37. Porém, se há,
hoje, a reatualização de uma história de longa duração, há também um
deslocamento considerável na ordem das coisas. É também nesse ponto que o
"bazar metropolitano" descrito por Ruggiero interessa como referência que
permite situar a contemporaneidade e as ressonâncias do que acontece aqui e lá.
Isso que sempre foi considerado uma evidência das incompletudes de nossa
modernidade, a "exceção do subdesenvolvimento", como diz Chico de Oliveira,
projetou-se no núcleo dinâmico de um capitalismo que mobiliza e reproduz o
"trabalho sem forma"38, ao mesmo tempo em que fez generalizar os circuitos
ilegais de uma economia globalizada nas sendas abertas pela liberalização
financeira, a abertura dos mercados e encolhimento dos controles estatais39, em
um tal intrincamento entre o oficial e o paralelo, entre o legal e o ilegal, o
lícito e o ilícito que essas binaridades perdem sentido e tornam obsoletas as
controvérsias clássicas em torno do formal e do informal40.
Por outro lado, se a situação brasileira tem que ser vista sob o ângulo dos
processos transversais que a atravessam, também é importante averiguar os modos
de sua territorialização, em interação com contingências locais, história e
tradições herdadas, assimetrias e desigualdades que lhes são próprias. Nesse
plano, a referência ao "bazar contemporâneo" também interessa, na medida em que
propõe a escala urbana para a descrição de recomposições, redefinições e
deslocamentos nas relações entre o informal, o ilegal e o ilícito em suas
interações com os circuitos urbanos de circulação de riqueza e as relações de
poder inscritas em seus pontos de intersecção41.
Será importante verificar o modo como as dinâmicas urbanas são redefinidas por
essas novas formas de produção e circulação de riquezas que caracterizam a
experiência contemporânea. Trata-se do engendramento de formas urbanas
atravessadas por circuitos econômicos em escalas variadas que se superpõem e se
entrecruzam nos mercados informais, também eles redefinidos, pois agora
conectados a economias transnacionais que mobilizam os trabalhadores e ativam
agenciamentos locais informais, também ilegais, para fazer circular bens e
mercadorias.
Basta seguir os produtos que circulam nos centros de comércio popular na cidade
de São Paulo, com a legião de ambulantes que fazem circular produtos de origens
variadas, quase sempre duvidosas, pondo em ação agenciamentos locais e
territorializados (verdadeiros dispositivos comerciais) que fazem a articulação
entre o informal e os circuitos ilegais das economias transnacionais
(contrabando, pirataria, falsificações). São pontos de ancoramento de um
capitalismo que, como diz Alain Tarrius, mobiliza os "pobres" como clientes,
consumidores e operadores ou passadores que garantem a circulação e a
distribuição de mercadorias que, sem esses circuitos nas fronteiras porosas do
legal e ilegal, quando não ilícito, não chegariam aos recantos mais pobres das
várias regiões do planeta. Disso temos as evidências na expansão mais do que
considerável dos mercados de consumo popular, que apresentam uma densidade
notável no centro da cidade, mas que se expandem igualmente nos bairros
periféricos em mercados locais apoiados em uma trama variada tecida nas
fronteiras incertas do informal, do ilegal e do ilícito.
É essa teia de mediações e esse jogo de escalas entrecruzadas que podemos
desdobrar a partir de qualquer um desses pontos de venda que se multiplicam nos
espaços urbanos e por onde circulam produtos os mais variados: os muito
modernos mercados de Cd pirata, produtos falsificados ou então contrabandeados,
dos cigarros vindos do Paraguai, passando por isqueiros vindos sabe lá de onde,
até os eletrônicos que chegam dos contêineres chineses desembarcados no porto
de Santos. São uma entre outras tantas fontes de renda para os que agenciam
esses pontos de venda, mobilizando redes locais de sociabilidade e mais uma
cascata confusa de intermediários por onde circulam produtos cuja origem convém
não perguntar, mas que fazem a alegria sobretudo dos mais jovens (mas não só
deles) com seus aparelhos de MP3, celulares modernos, aparelhos de som e DVD.
Esses entrecruzamentos entre dinâmicas urbanas e modos de territorialização de
circuitos econômicos transnacionais são igualmente perceptíveis nas redes de
subcontratação que se expandem, em cascata, em uma zona cinzenta que torna
indiscerníveis as diferenças do legal e ilegal, e que são mobilizadas, por
exemplo, por uma indústria têxtil em aceleradíssimo processo de integração ao
capital globalizado. Tomemos um exemplo, seguindo as pistas da pesquisa de
Carlos Freire na cidade de São Paulo42: nos pontos extremos da periferia leste
da cidade, o tradicional e hoje renovado trabalho a domicílio. Sob certa
perspectiva, exemplo paradigmático da atividade de sobrevivência, própria ao
mundo da pobreza com todas as limitações e vulnerabilidades que lhe são
definidoras nos pontos de junção entre precariedade e segregação urbana. No
entanto, basta seguir o traçado dos produtos para que outra topografia urbana e
social seja desenhada. A partir daí é possível desenrolar os fios dos circuitos
variados do chamado mercado informal e, em suas conexões, os vários coletivos
aí atuantes: os intermediários que fazem a conexão com os pólos globalizados da
economia e também com os negócios obscuros de procedência variada; as
associações comunitárias ditas filantrópicas que se transformam em agenciadoras
das redes locais de subcontratação numa peculiar mistura de apelo solidário,
clientelismo e jogo de poder nas disputas locais, tudo isso redefinido na
medida em que é justamente mobilizado por redes de subcontratação acionadas
sabe-se lá por quem e de modo muito obscuro, pois nunca se sabe ao certo de
onde vem a encomenda, muito menos quem paga pelo trabalho feito e para aonde
vai o produto realizado. Atravessando tudo isso, nos mesmos espaços e nos
mesmos territórios, os fluxos da migração clandestina trazem para os fundos da
periferia leste os bolivianos, agora personagens conhecidos da paisagem urbana,
que vivem e trabalham em condições mais do que penosas, já que em boa medida
são cativos dos coreanos que muito freqüentemente agenciam a migração e estão
muitíssimo bem instalados no centro da cidade. É dali que saem as encomendas
que vão circular pelas redes informais de subcontratação, mobilizando
bolivianos e mais boa parte do trabalho a domicílio nessas regiões distantes da
cidade, ativando os circuitos da produção têxtil que, no caso da zona leste da
cidade, se alimenta da história urbana da região e reatualiza a importância do
"centro velho" da cidade (Brás, Bom Retiro), onde estão instaladas as
confecções, onde se entrelaçam todos esses fios, abertos e subterrâneos ou
clandestinos, e são igualmente urdidas as vinculações com um mercado em
aceleradíssimo processo de integração no capital globalizado.
Essas linhas desdobram-se e encontram um ponto (outro ponto) de junção nos
lugares de concentração do comércio ambulante, onde todas as situações podem
ser encontradas lado a lado, num total embaralhamento do legal e do ilegal, do
lícito e do ilícito, do formal e do informal. Ali os produtos circulam por meio
de acordos nem sempre fáceis de serem mantidos entre organizações mafiosas,
gente ligada ao tráfico de drogas, comerciantes pobres, intermediários dos
coreanos (e de outros tantos), além dos fiscais da prefeitura que tentam fazer
valer as regulações oficiais, tudo isso misturado com pressões, corrupção,
acertos obscuros e histórias de morte. Todo um jogo de atores que atuam nessa
zona cinzenta feita de alianças, disputas ou acertos escusos, tudo isso regido
por relações de força que liberam uma violência sempre presente, sob formas
latentes ou abertas, mas potencialmente devastadoras. Mas é lá mesmo que
circulam produtos de procedência conhecida, desconhecida, duvidosa ou
simplesmente ilícita, mas também o "excedente", se é que é possível falar
nesses termos, das famílias que se viram como podem para bem aproveitar o tempo
que lhes sobra entre os ritmos descontínuos e incertos da produção sob
encomenda.
Todas essas linhas se entrecruzam nas práticas sociais, no plano das famílias,
da economia doméstica e das redes sociais, e aí o jogo social se faz em conexão
com outros tantos circuitos que embaralharam ainda mais as fronteiras do legal
e do ilegal, do formal e do informal, do lícito e do ilícito. É nesse plano que
o varejo da droga encontra seus pontos de ancoramento, se enreda nas tramas
urbanas em que os fluxos de dinheiro, de mercadorias, de produtos ilegais e
ilícitos se superpõem e se entrelaçam nas práticas sociais e nos circuitos da
sociabilidade popular. Por economia de texto, já que o tema exigiria muito mais
do que é possível nessas linhas43, é aqui que entram em cena figuras como a
prosaica Doralice, com a qual abrimos esse artigo, personagem urbano que, em
seus percursos, também nos faz ver o modo como esse imbricamento se conjuga nas
tramas da cidade. O fato é que indivíduos e suas famílias transitam nessas
tênues fronteiras do legal e do legal, sabem muito bem lidar com os códigos de
ambos os lados, sabem jogar com as diversas identidades que remetem a esses
diversos universos superpostos e embaralhados nas coisas da vida. Sabem,
sobretudo, exercitar essa especial "arte do contornamento" para evitar os
riscos alojados justamente nas dobras dessas fronteiras porosas: a violência da
polícia, sempre presente nesses percursos, e também a eventualidade de algum
desarranjo nos acertos instáveis com os empresários do ilícito, e não apenas o
tráfico de drogas44.
UMA NOVA GESTÃO DAS ILEGALIDADES?
A redefinição das relações entre o informal, o ilegal e o ilícito, de alguma
forma expressa na noção hoje revisitada de "economia de bazar", poderia ser
vista sob o ângulo de um deslocamento das formas de "gestão dos ilegalismos".
Lembremos: ao cunhar essa noção em Vigiar e punir (1975), Foucault desloca a
discussão da tautológica e estéril binaridade legal-ilegal, trazendo para o
centro da investigação os modos como as leis operam, não para coibir ou
suprimir os ilegalismos, mas para diferenciá-los internamente, "riscar os
limites de tolerância, dar terreno para alguns, fazer pressão sobre outros,
excluir uma parte, tornar útil outra, neutralizar estes, tirar proveito
daqueles"45. Na passagem do século XVIII para o século XIX, tratava-se de lidar
com uma "nova economia política dos ilegalismos populares", uma outra
distribuição dos ilegalismos que acompanhava as novas formas de produção e
circulação de riquezas (a economia urbano-industrial), seus modos de
apropriação (o instituto jurídico da propriedade privada) e as polarizações
conflituosas (e explosivas) de classes que desfaziam as cumplicidades
anteriores e se desdobravam nas "multidões confusas" que era preciso então
desfazer e ordenar sob a lógica dos dispositivos disciplinares então em
formação. Não seria arriscado dizer que, nesta outra virada dos tempos, do
século XX para o XXI, há um deslocamentos considerável na "economia interna dos
ilegalismos populares", acompanhando as atuais reconfigurações do capitalismo
contemporâneo. É o que se pode ler, em filigrana, nas várias pesquisas
comentadas ao longo deste texto. É isso o que está igualmente cifrado nas
clivagens nem sempre muito claras entre a transgressão que se opera no âmbito
da economia informal e a que se define a atividades ilegais ou propriamente
criminosas, como o tráfico de drogas.
Seja como for, se é de interesse compreender os novos ilegalismos urbanos, não
se poderá descartar do campo da investigação a face política do "bazar
metropolitano", seja no registro dos agenciamentos políticos que se fazem nas
dobraduras do legal e do ilegal - os mercados de proteção-extorsão que, como
enfatiza Michel Misse, são mais ou menos ferozes e violentos conforme o grau de
incriminação dessas atividades46 -, seja no registro do modo como os mercados
ilegais e ilícitos se redefinem, se deslocam, se reorganizam conforme alteram
as práticas de controle, punição, repressão, bem como as categorizações
jurídico-policiais que comandam seus modos de tipificação47.
Na verdade, isso definiria um amplo programa de investigação. Porém, essas
breves sugestões têm aqui o sentido de chamar a atenção para o fato de que as
redefinições das formas de controle afetam esses trabalhadores urbanos que
transitam nas fronteiras porosas do legal e ilegal, do formal e informal, do
lícito e ilícito. Quer dizer: afetam os percursos das "mobilidades laterais"
que agora passam, com uma freqüência cada vez maior, também entre a rua e a
prisão. O fato é que indivíduos com passagens pelos dispositivos judiciais-
carcerários são cada vez mais presentes no cenário urbano atual, aqui e
alhures48. A questão está na pauta dos debates atuais49. Impossível enfrentá-la
nos limites desse texto, pois envolve outros tantos aspectos do cenário
contemporâneo.
Mas se corremos o risco de passar de modo tão ligeiro por uma questão dessa
envergadura é porque não é possível evitá-la, menos por conta da lógica interna
de um argumento e mais, muito mais, por uma imposição de evidências de que não
se pode contornar. Faz parte do diário de campo de qualquer pesquisador que
circule pelas periferias da cidade a constatação de que é, hoje, quase
impossível encontrar uma família que não tenha contato e familiaridade, direta
ou indireta (conhecidos, vizinhos, parentes) com a experiência do
encarceramento. Isso levanta a pergunta sobre o modo como essa experiência
afeta práticas cotidianas e os modos de organização da vida familiar (apoios,
visitas, advogados, busca de recursos e solidariedades etc.) e, junto com isso,
a ativação de redes sociais que passam, também elas, por essas fronteiras
porosas do legal-ilegal, lícito-ilícito, para mobilizar recursos, suportes,
bens e informações de que depende a vida dos parentes aprisionados. Em outras
palavras, o dispositivo carcerário compõe atualmente uma referência urbana,
redesenha os circuitos da cidade e em torno dele, nas fronteiras também porosas
do fora e dentro de seus muros, há toda uma trama de relações que vai sendo
tecida em um jogo social variado que termina por desativar a binaridade
ordemdesordem pela qual os dispositivos disciplinares (aqui, novamente
Foucault) recortaram e formalizaram as transgressões50.
O ex-presidiário é hoje um personagem urbano presente (e cada vez mais
presente) nas tramas sociais do "bazar metropolitano": seja como operador dos
vários ilegalismos da economia urbanas; seja como componente importante nessa
espécie de reprodução ampliada dos mercados ilícitos (e da criminalidade
urbana) na própria medida em que se encontra cativo de formas de controle que o
mantém no circuito fechado da "delinqüência" - como diz Foucault, uma forma
subordinada dos ilegalismos populares; seja ainda porque está presente, o tempo
todo, nos agenciamentos da vida cotidiana e nas redes sociais que passam pela
família, pelas relações de vizinhança e todas as cumplicidades tecidas no jogo
das reciprocidades populares.
Mas é nesse ponto que se pode também reatar com a questão proposta no início
deste artigo, o plano de atualidade que atravessa essas realidades, em
ressonância com o que vem acontecendo em outros lugares. Temos aqui, talvez,
outra pista a ser seguida para entender alguns dos processos transversais que
atingem as sociedades atuais e que, nesse caso, remetem ao endurecimento penal
e das formas de controle. Esse é o outro lado do deslocamento das fronteiras do
formal-informal, legal-ilegal, lícito-ilícito, deslocamento que precisaria ser
analisado em relação às mudanças na "gestão diferencial dos ilegalismos". Isso
supõe colocar no foco da discussão os modos de incriminação e a redefinição,
como sugere Garland, das formas de controle na sociedade pós-disciplinar ou,
como propõe Wacquant, o lugar redefinido da prisão na sociedade pós-fordista,
como forma de gestão da pobreza, compondo e interagindo com dinâmicas urbanas
nas quais também se atualizam e se redefinem traços persistentes de nossa
história.
[1] Cf. Misse, Michel. Crime e violência no Brasil contemporâneo. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2006.
[2] A redefinição das relações entre o formal e o informal no capitalismo
contemporâneo e, mais particularmente, o lugar redefinido do informal sob a
lógica de um processo de acumulação que exige, mobiliza e aciona a sua
reprodução ampliada está hoje no centro de um debate que já conta com uma
importante literatura de referência. Para efeito desse artigo, vale citar
Portes, A., Castells, M. e Benton, L. A. (orgs.). Informal economy: studies in
advanced and less developed countries. Baltimore: Jonhs Hopkings University
Press, 1989.
[3] Essa é questão central de um projeto em curso, realizado em parce ria com
pesquisadores da Univer sidade de Toulouse Le Mirail (Acor do Capes-Cofecub).
Esse texto beneficia-se em larga medida dessa cooperação franco-brasileira. É,
sobretudo, devedor da interlocução com Angelina Peralva com quem partilho a
coordenação desse projeto. Textos e documentos de referência estão disponíveis
em <www.fflch.usp.br/sociologia/posgraduacao/sites/trajetorias/index.htm>.
[4] Retomo aqui e desdobro em outras direções questões tratadas em artigo
escrito em co-autoria com Daniel Hirata. Cf. Telles, Vera S. e Hirata, Daniel.
"Cidade e práticas urbanas: nas fronteiras incertas entre o ilegal, o informal
e o ilícito". Estudos Avançados da USP, vol. 21, nº 61, 2007, pp. 173-192.
[5] Ruggiero, Vincenzo e South, Nigel. "The late city as a bazaar: drug
markets, illegal enterprise and the barricades". The British Journal of
Sociology, vol. 48, nº 1, 1997, pp. 54-70.
[6] Ruggiero. Crime and makets: essays in anti-criminology. Oxford: Oxford
University Press, 2000.
[7] A referência a Clifford Geertz é passagem quase obrigatória pelos autores
que lançam mão atualmente da noção de "economia de bazar". Cf. Geertz,
Cliffort. "The bazaar economy in Cefrou". In: Geertz, C., Geertz, H. e Rosen,
L. (eds.). Meaning and social order in Moroccan society. Cambridge: Cambridge
University Press, 1979.
[8] Cf. Kokoreff, Michel. "Trafics de drogue et criminaliteé organisée: une
relation complexe". Criminologie, vol. 7, nº 1, 2004, pp. 9-32; Idem. "Faire du business dans les quartiers: elements sur les
transformations sociohistoriques de l'economie des stupefiants en milieux
populaires". Déviance et Société, vol. 24, nº 4, 2000, pp. 403-24; Duprez, Dominique e Kokoreff, Michel. Les mondes de la drogue. Paris:
Éditions Odile Jacob, 2000; Godefroy, Thierry. "Économies
parallèle ou métissées? Exemples d'activités hybrides". In: Bessette,
JeanMichel (org.). Crimes et cultures. Paris, L'Harmattan, 1999, pp. 159-174.
[9] Palidda, Savatore. "Milan global: entre affairisme et politiques
securitaires". In: Peraldi, Michel (org.). La fin des norias? Réseaux migrants
dans les économies marchandes en Méditerranée. Paris: Maisonneuve & Larose,
2002.
[10] Peraldi, Michel (org). Cabas et containers: activites marchandes
informelles et reseaux migrants transfrontailiers. Marseille: Maisonneuve et
Larose, 2002; Idem. "Marseille: reseaux migrants
transfrontailiers, place marchant et economie de bazar". Culture &
Politique, nº 3334, 1999, pp. 51-67.
[11] Cf. Tarrius, Alain. La mondialisation par le bas: les nouveaux nomades de
l'economie souterraine. Paris: Balland, 2002.
[12] Cf. Peraldi. "Aventuriers du nouveau capitalisme marchand: essai
d'anthropologie de l'éthique mercantil". In: Adelkhah, Fariba e Bayart,
JeanFrançois (orgs.). Voyage du développement: émigration, commerce et exil.
Paris: Karthala, 2007.
[13] Por exemplo, sírios búlgaros que passam as encomendas para os afegãos,
deixando a estes todos os riscos das passagens pelas fronteiras nos circuitos
que articulam Dubai e o Leste europeu, passando por Istambul. Cf. Tarrius. La
remontée des Suds: afghans et marocains en Europe Méridionale. Paris: L'Aube,
2007.
[14] "Território circulatório" é termo cunhado por Alain Tarrius para se
referir às tramas relacionais engendradas pelos e nos circuitos transnacionais
dessas populações itinerantes.
[15] Essas novas formas migratórias é matéria de uma já vasta bibliografia
fundada em pesquisas que seguem os circuitos dessa itinerância globalizada.
Além dos textos já citados, cf. Cesari, Jocelyne (dir.). La Méditerranée des
réseaux: marchands, entrepeneurs et migrants entre l'Europe et le Maghreb.
Paris: Maisonneuve & Lorose, 2002; Dimenescu, Dana. "Le
migrant connecté: pour un manifeste épistémologique". Migration/Societé, vol.
17, nº 102, pp. 275-292, disponível em <www.ticm.msh-paris.fr> ; Portes. "La mondialisation par le bas". Actes de la Recherche en
Sciences Sociales, nº 129, set., 1999.
[16] Há algo como uma geopolítica plasmada na cartografia dessas itinerâncias
que remete às turbulências que devastaram essas regiões ao longo das últimas
décadas, ao lado das restrições cada vez mais ferozes nas fronteiras européias.
[17] Tarrius. La remontée des Suds, op. cit., p. 10.
[18] Ibidem, p. 180.
[19] Nos últimos anos, também Istambul ou Dubai e de lá outras rotas em direção
ao Leste, da Ásia Central ao Sudeste asiático. Em todas essas rotas, perfila-se
um tramado de mercados populares, acompanhados de um proliferante comércio de
rua, fazendo circular produtos quase sempre de origem duvidosa (contrabando,
falsificações, fraude, pirataria). Esses mercados pontilham os centros urbanos
nos chamados países do Sul, inclusive os pobres e combalidos Estados africanos,
passando pelos também pobres e também combalidos países do Leste europeu ou da
região do Cáucaso. A propósito, ver os vários artigos que compõem a coletânea
organizada por Adelkhah e Bayart, op. cit. Quanto à América Latina, há
evidências de que processos semelhantes vêm ocorrendo.
[20] Peraldi, "Aventuriers du nouveau capitalisme marchand", op. cit.
[21] Peraldi, "Marseille: réseaux migrants transfrontaliers, place marchande et
économie de bazar", op. cit., p. 56. Como diz Peraldi, e também Tarrius, não
haveria mercado nem relações mercantis sem um dispositivo de cafés, bares,
restaurantes, casas noturnas ou de jogos, oficiais ou clandestinos, por onde as
informações circulam, por onde são tecidos os engajamentos recíprocos, os
acordos informais, as redes de confiança e os jogos de reciprocidades.
[22] Essa operação crítica é questão discutida em Tarrius. Les nouveaux
cosmopolitisme. Paris: L'Aube, 2000.
[23] Cf. Tarrius. "Audelà des Etatsnations: societés, cultures et réseaux de
migrants en Mediterranée occidentale". In: Peraldi (org.). La fin des norias?,
op. cit.
[24] Cf. Misse, op. cit.
[25] Peraldi, "Aventuriers du nouveau capitalisme marchand", op. cit., p. 109.
[26] Cf. Adelkhah e Bayart. "Introdution". In: Adelkhah e Bayart, op. cit. ;
Cuttita, Paolo. "Le mondefrontière: le contrôle de l'immigration dans l'espace
globalisé". Culture & Conflits, nº 68, pp. 61-84, 2008.
[27] Sassem, Saskia. Globalisation and its discontents: essays on the new
mobility and money. Nova York: The New Press, 1998.
[28] Ramoneda, Josep. "Archipel de l'exception". Culture & Conflits, nº 68,
2008, pp. 13-16.
[29] Tomo a expressão de Fresia, Marion. "'Frauder' lorsqu'on est réfugié".
Politique Africaine, nº 93, mar., 2004, pp. 63-81. Em seu
estudo sobre os inusitados percursos de jovens refugiados nas fronteiras do
Senegal e da Mauritânia, a autora levanta questões que têm paralelos
interessantíssimos com o que está sendo proposto aqui.
[30] Cf. Tarrius, La remontée des Suds, op. cit.
[31] Cf. Chouvy, PierreArnaud e Aureano, Guilhermo (eds). "Drogue et
politique". Cemoti, Cahier d'Études sur la Mediterranée Orientale et le Monde
Turco-Iranien, nº 32, 2001.
[32] Cf. Naim, Moises. Ilícito: o ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e
do trafico à economia global. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
[33] Ruggiero e South, op. cit.,
[34] Cf. Peraldi. "Economies criminelles et mondes d'affaires à Tanger".
Cultures & Conflits, nº 68, 2007, pp. 111-126. Ver também
Guez, Sabine. "À la frontière du légal et de l'illégal: travail et narcotrafic
à Ciudad Juarez (Mexique) et El Paso (ÉtatsUnis)". Problèmes d'Amerique Latine,
nº 66-67, 2007, pp. 9-20.
[35] Cf. Kokoreff, op. cit.
[36] Cf. Rivelois, Jean. "Le pouvoir clientéliste local. Une comparaison
mexicaine: l'intégration sociale par l'économie souterraine de la drogue".
Lusotopie, 1996, pp. 333-42. Ver também Chassagne, Philippe. "Opiacés et routes
des Balkans: facteurs géographiques, historiques et politiques du phénomène".
Hérodote, nº 112, 1º trimestre, 2004.
[37] Cf. Misse, op. cit. ; Zaluar, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico
de drogas. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2004.
[38] Cf. Oliveira, Francisco. "O or nito rrinco". In: Crítica à razão dualista/
O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
[39] A esse respeito, ver Naim, op. cit.
[40] Para essa discussão, tomando como referência a situação dos países
africanos, ver Bayart, Jean-François, Ellis, Stephen e Hibou, Béatrice. The
criminalization of the State in Africa. Bloomington: Indiana University Press,
1999; Bayart. "Le crime transnational et la formation de
l'État". Politique Africaine, Dossier Globalisation et Illicite en Afrique, nº
93, mar., 2004, pp. 93-104; Botte, Roger. "Vers un État
illégallégal?". Politique Africaine, nº 93, mar. 2004, pp. 7-21.
[41] Essa é a aposta inscrita nos vários artigos que compõem a coletânea
organizada por Kokoreff, Michel, Peraldi, M. e Weinberger, Monique, Economies
criminelles et mondes urbains. Paris: PUF, 2007.
[42] Cf. Freire, Carlos. Trabalho informal e redes de subcontratação: dinâmicas
urbanas da indústria de confecções em São Paulo. São Paulo: dissertação de
mestrado, FFLCH-USP, 2008.
[43] Permito-me remeter ao nosso artigo em que essas questões foram tratadas
com base em pesquisa realizada em um bairro da periferia paulista. Cf. Telles e
Hirata, op. cit.
[44] Desenvolvi essas questões em Telles, "Transitando na linha de sombra,
tecendo as tramas da cidade". In: Oliveira, Francisco e Rizek, Cibele (orgs.).
A era da indeterminação. São Paulo: Boitempo, 2007.
[45] Foucault, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 227.
[46] Misse. "Mercados ilegais, redes de proteção e organização local do crime".
Revista Estudos Avançados da USP, vol. 21, nº 61, 2007, pp. 139-158.
[47] Questão especialmente enfatizada por Kokoreff em suas pesquisas sobre os
"mundos da droga" no contexto francês. Cf. Kokoreff, op. cit. Entre nós, cf.
Misse, "Mercados ilegais... ", op. cit.
[48] Em todos os lugares, vem se dando o que Garland chama de "encarceramento
em massa". Vale a citação: "[Nos Estados Unidos] o encarceramento tornou-se uma
instituição social que estrutura as experiências de grupos sociais inteiros.
Tornou-se parte do processo de socialização. Cada família, cada domicílio, cada
indivíduo em sua vizinhança tem uma experiência pessoal e direta com a prisão -
por meio da esposa, de um filho, de um parente, de um vizinho, de um amigo.
Encarceramento que deixou de ser o destino de um punhado de indivíduos
criminosos, e tornase uma instituição que ganha forma para amplos setores da
população. [... ] Temos, hoje, verdadeiras bibliotecas de pesquisas em
criminologia sobre o im pacto da prisão sobre os indivíduos encarcerados, mas
quase nada sobre o seu impacto social nas comunidades e suas vizinhanças"
(Garland, David. Mass imprisionment: social causes and consequences. Londres/
Thousand Oaks, Calif. : Sage, 2001).
[49] Loic Wacquant e David Garland são referência obrigatória nessa discussão.
De Wacquant, ver "O lugar da prisão na nova administração da po breza". Novos
Estudos Cebrap, nº 80, mar., 2008. De Garland, ver The
culture of control: crime and social order in contemporary society. Chicago,
The University of Chicago Press, 2001, e também "As contradições da 'sociedade
punitiva': o caso britânico". Revista de Sociologia e Política, nº 13, nov.,
1999, pp. 59-80.
[50] A questões discutidas por Manuela Cunha no contexto português têm
paralelos notáveis com as situações encontradas nas periferias paulistas. Cf.
Cunha, Manuela. "Entre o bairro e a prisão: tráfico e trajectos". Lisboa: Fim
de Século, 2002.