Objetos da observação - lugares da experiência: sobre a mudança da concepção de
arte no século XX
The birth and rebirth of picturial space é o título de um livro de John White,
dos anos 1950, o qual mostra, a partir do exemplo do renascimento italiano, que
o espaço nas artes plásticas não é simplesmente um recurso já dado, do qual se
pode dispor livremente, mas é uma formação cambiante e sumamente exigente, que
deseja ser constantemente recriada1. O tema da seção "A invenção e a reinvenção
do espaço"2 apanha e amplia ao mesmo tempo essa tese, pois não se trata mais,
hoje em dia, de um espaço pictórico aparentemente, isto é o que menos
importa. Nos últimos anos, a arte contemporânea ultrapassou de muitas maneiras
esses limites. O espaço pictórico foi, por fim, o grande tema da arte nos anos
1960. Nunca a espacialidade das obras de arte foi discutida de modo tão intenso
e controverso como nos debates artísticos e da crítica de arte dessa época.
Questões relativas à realização da obra reduziram-se a problemas da organização
espacial: bidimensionalidade versus ilusão de profundidade, espaço aberto ou
fechado, hierarquias versus all-over. Até mesmo os conteúdos foram definidos a
partir de propriedades espaciais: como resultado do efeito da pintura e da
escultura na constituição do espaço, considerando-se a tensão existente entre o
espaço imaginário e o espaço que é fisicamente experimentado, com base na
proximidade ou distância dos elementos artísticos em relação aos outros objetos
presentes nesse espaço.
Hoje, o interesse por esses problemas, se já não se extinguiu, refluiu
consideravelmente em favor de questões sobre o lugar e a função de formulações
artísticas no contexto do assim chamado "espaço real". Resumindo: no discurso
que é hoje hegemônico, a preocupação com a espacialidade das e nas obras de
arte foi retirada da pauta artística nos espaços institucionais e sociais
existentes. Pode-se lamentar o amontoado indiferente das formas, cores e
citações, com o qual a pintura busca há alguns anos produzir novamente. Mas não
se reconhecem apenas déficits na alteração desse campo de interesses: a
ampliação das concepções artísticas, das estratégias e modos processuais
ampliação que atinge potencialmente todos os espaços de ação trouxe à
lembrança uma condição de existência das obras de arte modernas cujo alcance
foi longamente subestimado. A arte moderna está destituída de lugar. E que por
toda parte tenhamos de estar preparados para ela, parece ser a conseqüência
pós-moderna dessa condição.
Nesse contexto a falta de um lugar não significa, em primeira mão, o fato
histórico de que a práxis artística tenha perdido a sua base herdada, quando as
instituições que tradicionalmente a sustentavam, a Igreja e o Estado, perderam
a sua autoridade representativa. Com o surgimento de uma esfera pública
burguesa para a arte, afastou-se essa iminente calamidade de ocorrer um
rompimento com a tradição. Desde meados do século XX a arte moderna está
relativamente bem estabelecida nas sociedades ocidentais. Isso em nada altera a
falta de garantias no espaço da representação, insegurança surgida na primeira
crise, ocorrida no século XIX, quando, ao desaparecer a missão de representar
uma imagem estrita da realidade, caducava também o conceito tectônico
[tektonisch] do espaço imaginário. Esse achado fundamental na história
ocidental das artes plásticas demonstrou-se não apenas potencialmente
explorável e cambiável, mas também resistente a grandes agravos e contestações.
A força desse protótipo revela-se, retrospectivamente, e, talvez de modo mais
claro, no fato de que ele estava em condições de aceitar ou integrar os muitos
abalos e ataques expressivos, dramáticos e maneiristas a que estava sujeito.
Quando o estrato tectônico [tektonisch] se dissolveu, por vezes de forma
bastante abrangente e significativa como nos quadros de Goya e Turner ,
desapareceu também a possibilidade de provocação e de protesto3. A novidade nos
primórdios da pintura moderna consiste, portanto, não apenas na confrontação
direta com a realidade da percepção. Para a constituição da imagem, foi de
igual modo urgente a tarefa de conceder à multiplicidade e à turbulência do que
se observa o seu devido lugar na superfície do quadro.
As diferentes soluções que especialmente a pintura francesa de meados do XIX
encontrou para esse problema são conhecidas e se separam dos desenvolvimentos
observados no XX por meio de uma ruptura decisiva. Mas esbocemos rapidamente as
principais mudanças ocorridas com relação à tradição, porque elas permitem que
se reconheça uma alteração agravante no caráter de obra dos quadros. O enfático
conceito de obra, tributário do salto na filosofia da arte que se observara
entre Karl Philipp Moritz e Schelling, é tão inadequado para o diagnóstico
dessa transformação quanto o seu pedantismo romântico a preferência pelo
fragmento e pelo processo. Nem as categorias do completo-em-si-mesmo [des In-
sich-Vollendeten] ou do fundado-em-si-mesmo [des in-sich-Gegründeten], nem a
moderna apologia do aberto, do incompleto, correspondem de modo preciso ao tipo
de imagem, o qual, grosso modo, formou-se entre o realismo de Manet e o
aparecimento dos pós-impressionistas. Pois a intenção de criar o espaço
correspondente ao contexto da percepção na imagem produziu, na agenda da
reflexão artística, três modificações imprevistas no caráter da imagem: uma
temporalização radical da apreensão espacial, um rebaixamento do motivo em
favor da articulação de sua percepção, e, conseqüentemente, uma atualização da
relação até então desconhecida entre o observador e a imagem.
O discurso peculiarmente arcaizante de Cézanne em torno dos campos ou "planos"
["Plånen"] les plans pode servir como exemplo dessa transformação, sempre
que ele fala do espaço em seus quadros4. O termo significava originalmente, no
século XVII (aproximadamente na época de Abraham Bosse), a clássica divisão do
espaço em primeiro plano, plano médio e plano de fundo. Mas na pintura de
Cézanne não existe mais essa estruturação clara e estática do espaço. Os
"planos" coloridos projetam-se a partir de uma profundidade incomensurável, de
um "não-se-sabe-de-onde" on ne sait d'où , como escreveu Maurice Merleau-
Ponty5; e as relações de distância e proximidade, do que está adiante e atrás,
transformam-se, embora não o façam de maneira dramática, pelo movimento do
olhar que os articula. A muito comentada solidez das construções pictóricas de
Cézanne não é nada mais que a relação ou conexão contínua daquela mobilidade6.
O espaço imagético desenvolve-se sobre e através do tempo da observação. Isto
era novidade. Decerto o tempo utilizado na observação de quadros tivera um
papel importante, mas enquanto o observador pôde se fiar no reconhecimento
sempre renovado de sinais iconograficamente seguros, inseridos numa ordem
espacial apreensível, este aspecto permaneceu oculto. Somente com a retirada
dos fatores estabilizantes a temporalidade pôde realmente aparecer.
Essa temporalização do olhar alterou o caráter de obra dos quadros. Pois ela
significava que o objeto ou motivo já não eram fundamentais para o conteúdo da
representação; eram, no máximo, um ensejo para a realização artística de sua
percepção. O olhar tornou-se, ele mesmo, conteúdo; e com ele todas as sensações
que o acompanham, as quais não são de natureza meramente visual. Van Gogh
ressaltou de modo bastante claro essa mudança da expressão na constituição do
modo de sentir, quando ele advertiu Émile Bernard dos temas cristãos: para se
criar a impressão de angústia não é necessário se afligir, como Cristo no Monte
das Oliveiras bastam as oliveiras7. Uma boa parte da perplexidade que a
pintura moderna do XIX suscitou no público consiste nesse afastamento da visão
e conteúdo representacionais. Ao invés de assegurar o observador de uma
ordenação das coisas que fosse confiável, os quadros propiciavam uma grande
variedade de acessos a uma realidade, a qual parecia se encobrir cada vez mais,
à medida que surgia um novo ponto de vista artístico. Apenas no século XX a
arte moderna encontrou o seu primeiro representante, o qual falava sem reservas
dessa multiplicidade dos modos de ver. Tratava-se de Marcel Proust: na apologia
que a Recherche faz da "única viagem verdadeira", a qual não consiste na busca
de novas paisagens, mas na possibilidade de que nós "tivéssemos outros olhos a
fim de observar o mundo com os olhos de um outro, com os olhos de outros cem;
para poder observar os cem diferentes mundos, dos quais cada um de nós vê um e
é um em si mesmo"8.
Quando, em 1923, apareceu esse elogio de Manet, Monet e dos demais, a apreensão
da imagem se havia mais uma vez alterado; mas de modo algum ela se alterara de
maneira continuada e conseqüente, como há muito os relatos modernos querem
fazer crer. Provavelmente foram as obrigatórias "exposições rememorativas",
ocorridas na primeira década do novo século, que chamaram a atenção de uma
geração mais jovem para uma possibilidade já colocada e resgatada. O processo
de articular os próprios modos de ver derivado da perda da imagem
representativa da realidade não significava necessariamente que o observador
tivesse sido colocado numa relação fora de si mesmo, dirigida para fora, diante
de um motivo em plein air. A comprovada capacidade das obras de arte de
constituir um lugar de experiência localizado entre o fator que a ensejou e o
observador pôde voltar-se, igualmente, para o observador. Em vez de constituir
um novo acesso a um exterior supostamente conhecido, os primeiros quadros
fauvistas, expressionistas ou cubistas primeiramente nos representam, e, na
verdade, no sentido confrontador de que nós de um modo em parte intrigante,
em parte liberador somos, por meio deles, trazidos para fora de nós e postos
em relação conosco mesmos. Nós não vemos o mundo "com outros olhos": diante dos
quadros, descobrimos em nós mesmos a possibilidade de estarmos no mundo de uma
maneira diferente.
Para que essa ruptura pudesse ocorrer, a arte teve de se desnudar
completamente, desvencilhando-se de todos os subterfúgios e segredos. Pois
apenas dessa maneira a relação entre imagem e observador podia se tornar uma
base aberta que abria para ambos os lados um novo conceito de obra. O motivo do
ateliê, tal como Matisse o concebeu, em 1911, e que Picasso, Beckmann, Braque e
muitos outros tomaram como declaração do espaço artístico da ação, significou
para a modernidade do século XX o que a ética do trabalho sur le motif havia
significado para o pintor do XIX: o certificado de uma autocompreensão
artística transformada. Muito longe de sinalizar um afastamento da arte com
relação ao mundo, a imagem do atelier comprova que aquilo que é mais sagrado
(Ingres) se revela aos olhos da sociedade exatamente aquilo que os homens
haviam antes buscado nas imagens divinas. Isto não significa necessariamente
uma trivialização. Entendido como espaço do artista, o espaço pictórico se
revela como uma esfera de usos, relações e ligações específicos, a qual afasta
dos contextos herdados ou costumeiros tudo aquilo que a penetra. Estar num
lugar não significa simplesmente ocupar uma posição; à experiência do lugar
pertence, em geral, um contraponto no espaço, o qual pode ser meramente uma
coisa, um olhar ou, mais raramente, a presença perceptível do nada.
Em síntese, não importando como o espaço se revela nos quadros, diante de sua
superfície o lugar de mobilização da experiência deslocou-se, aparentemente, na
arte do século XX, para a relação entre a imagem e o observador. Isto vale para
as confluências ascendentes das praças de de Chirico, bem como para as famosas
janelas de Matisse, as quais sublinham a sensação de unidade e extensão do
espaço, abrindo o espaço pictórico para dentro, para o observador9; e isto
vale, sobretudo, para a determinação do espaço em Mondrian, o qual em aberta
contradição com as interpretações metafísicas correntes no fim de sua vida
gabava-se de ter sido provavelmente o primeiro a subverter a disposição da
moldura do quadro, para deixar claro onde a imagem se encontra: no espaço entre
a superfície pictórica e o espectador10. A primazia do primeiro plano em
detrimento do plano de fundo pode ser descrita como uma tendência da arte no
século XX, à qual mesmo as obras dos surrealistas não se contrapõem. Bem
observados, mesmo os mundos delirantes de Dalí não são profundos. Antes, eles
se apresentam de maneira teatral no primeiro plano.
Enquanto os quadros se abriam para o espaço comum do observador, eles se
tornavam involuntariamente semelhantes às coisas no espaço: peinture-objets
"pintura-objetos" como diziam os cubistas11. Isto ocasionou um considerável
deslocamento de pesos no âmbito das artes plásticas. Pois a escultura, que, do
ponto de vista da representação plástica, havia sido relegada a um segundo
plano na Europa, adquiria agora quase o mesmo status da pintura. A concentração
que a moderna pintura francesa do XIX realiza na percepção sur le motif não
pudera ainda compensar o velho preconceito, pois o espaço pictórico retirado à
força de seu sentido da visão permaneceu um campo imaginário da visão, uma
janela que se tornara igualmente opaca. Somente os painéis cubistas abalaram
esse paradigma. Talvez nada mostre melhor a peculiar mudança na concepção de
arte no século XX que o desenvolvimento da escultura, realizado de modo
bastante independente em relação à história da pintura. Como objeto no espaço,
a escultura pôde corresponder à nova exigência de constituição dos lugares da
experiência de um modo mais direto e abrangente que a pintura12. Assim,
Brancusi tomou a mácula tradicional das esculturas a de que elas quase sempre
necessitam de um pedestal para ficar na altura que se convencionou para a
pintura e o reverteu em favor delas mesmas. Para isso ele fez ressaltar
literalmente a base de sustentação da escultura, por meio da construção em
camadas, as quais ela partilha com o espectador.
Observando-se o século como um todo, poderia parecer que as distorções
decisivas tenham todas ocorrido por volta de 1910. A partir do ateliê, que
tematiza o espaço de ação do artista, parece haver uma linha direta que conduz
ao exibicionismo do performer, o qual emprega o seu corpo como meio de
representação; e mesmo a decisão do pintor Donald Judd de preterir o caráter de
aparência dos quadros em favor de "specific objects"13 parece estar presente na
revivescência da comparação hierárquica do paragone entre escultura e pintura
nos objetos pictóricos de Picasso, em 1913. Mas a continuidade engana. As
possibilidades de comparação mostram que existe uma relação genuína entre a
modernidade americana e a européia, mas elas ocultam ao mesmo tempo um
deslocamento recente do enfoque, o qual se tornou visível o mais tardar no
início dos anos 1960. Hoje mal se pode imaginar o quão libertadora e animadora
foi a recepção das direções artísticas que se seguiram ao expressionismo
abstrato proveniente dos Estados Unidos. O rumor pós-existencialista e aquela
presunção historicamente neutra, que em cada abstração nebulosa logo adivinhava
uma vibração "cósmica", foram abafados por um positivismo estético implacável:
"It is what it is"14. Mais ainda, o categórico protesto do espaço "real",
fisicamente vivenciado, fora tão mais autêntico quanto independentemente de
preferências estilísticas e partidarismos parecia confirmar uma tendência do
início do século, a qual não obtivera até então um desfecho. No bojo da
recepção de Jasper Johns, Allan Kaprow, John Cage, Richard Hamilton e outros,
Marcel Duchamp tornava-se uma espécie de superpai da arte do século XX. A
apresentação de Bedroom ensemble (1963), de Claes Oldenburg, por Sidney Janis,
em 1964, e a instalação minimalista de Robert Morris, na Green Galery, nesse
mesmo ano, são apenas dois exemplos da convergência do que é aparentemente
oposto numa intenção comum15. "The art of the real" era o título de uma
exposição coletiva do Museu de Arte Moderna, que, em 1968, buscou apresentar
uma primeira síntese da arte americana dos anos 1950 e 196016.
Passaram-se ainda duas décadas antes que, em face de explosivas conseqüências,
ficasse claro em que consistia a força artística irruptiva dessa orientação
extraordinariamente estimulante e exitosa: na desintegração da interioridade da
obra de arte. A maneira européia de atualizar a arte como lugar da experiência
baseava-se em última instância e por força da estrutura interna e da própria
postulação da obra no enredamento do espectador numa relação que abria um
acesso específico ao mundo. O enfoque americano foi bastante diferente. Já nos
quadros de Mark Rothko, Barnett Newman e Clifford Still a complexidade interna
e a contundência da construção da imagem se escondia curiosamente atrás do
"impact", do efeito imediato que posições simples e de longo alcance exerciam
sobre a sala de espera compartilhada pela imagem e pelo espectador. Essa
tendência foi confirmada e fortalecida, no fim dos anos 1960, por meio do
surgimento do tipo clássico de exposição da modernidade americana: uma reunião
de quatro a cinco expositores, em princípio semelhantes, abrigados num espaço
fechado, o mais neutro possível: o, desde então, muito discutido "white
cube"17. Mas apenas a aceitação e a formação dos conceitos de environment e de
instalação, nos anos 1970, introduziram a ambigüidade que parece estar inserida
na concentração em torno do efeito espacial "real" da obra de arte. Pois a
ascensão e a ampliação rigorosamente ativadas desse aspecto da organização
temporária da sala da galeria até à land art conduziu finalmente à
conseqüência aparentemente lógica de abandonar a precisão e a peculiaridade das
normas artísticas, não mais a partir de dentro, desenvolvendo os "intrinsic
relationships" dos artefatos, mas de suprimir os respectivos dados espaciais e
contextuais nas condições gerais exteriores [Rahmenbedingungen]. Em lugar da
livre vagabundagem e da hospedagem em artefatos relativamente autárquicos,
introduziu-se a organização objetiva de situações espaciais que se encontram em
expansão.
Esta mudança de orientação, que se pretende "pós-moderna", apresenta
aparentemente um poderoso argumento: o fato histórico de que as obras de arte
se destinam tradicionalmente a lugares e funções legitimados para isso. A
acentuada diminuição desse aspecto na arte moderna não se originou,
naturalmente, de nenhuma presunção do artista, mas da dissolução daquela
estrutura rígida de lugares e atos representativos, a qual, até aqui, havia
marcado a realidade da alta cultura. O ideal da obra autônoma, não ligada a
qualquer localidade, foi um reflexo inteiramente involuntário no âmbito das
artes, em resposta à liquidação de ordenações e orientações sociais rígidas.
Liquidação que, pelo menos desde a Revolução Industrial, tornou-se o fator
social dominante. E esta mobilização das relações não sofreu qualquer
decréscimo desde então ocorreu justamente o contrário. Se, por isso mesmo,
nas duas últimas décadas a insistência em torno de imposições e intervenções se
tornou um motivo determinante nas artes, observa-se menos um retrocesso ou
anacronismo do que uma resposta direta à problematizada "Atopia" do mundo
moderno, presente na moderna crítica da civilização, de Nietzsche a Foucault. A
explícita configuração de lugares na arte contemporânea parece ser apenas a
resposta dada de modo complementar a um sensível embaraço: a crescente ausência
de um lugar para a experiência.
Com isto se revela uma dialética peculiar: quanto mais naturalmente os artistas
monopolizam o espaço "real" como lugar que determina o seu trabalho, tão mais
evidente se torna a incerteza dessa premissa. O que vincula tão diferentes
instalações como a Toilette (1992), de Ilya Kabakov, o Creation Myth (1998), de
Jason Rhoades, e o Weather Project (2003), de Olafur Eliasson18? Seguramente
não são os recursos artísticos empregados, nem uma relação formal ou de
conteúdo. A evocação kabakoviana impregnada de lembranças da casa na União
Soviética, a produção que Eliasson faz de uma para-natureza no museu e as
caóticas acumulações de lixo tecnológico que Jason Rhoades espalha não poderiam
ser mais distintas entre si, do ponto de vista formal e conteudístico.
Entretanto, todas as três instalações são concordes na aceitação de uma
condição, sem a qual elas não poderiam ter existido: elas precisam, cada uma,
de um invólucro ou recipiente, nos quais elas se organizam e dentro dos quais
elas podem lograr um efeito seja esse retorno um container conscientemente
ocupado (Kabakov), um salão preexistente e que estava arrumado de um modo
específico (Eliasson), ou a indispensável ampliação de um espaço interno
desocupado (Rhoades). Nenhuma providência artística parece ser tão importante
quanto essa decisão a priori, pois apenas o apoio de uma moldura preexistente
permite manter a organização de um modo tão aberto, que um espaço de vivência
autêntico, experimentável ao se transitar dentro dele, passa a existir. Dentro
desse espaço o observador pode dispor, sem instrução prévia e até certo ponto,
de um olhar contemplativo19.
Entrar e imergir, em vez de defrontar e ficar diante de algo é a forma como se
pode descrever as regras do jogo estético do environment e da instalação. O
fato de que eles sejam empregados como estratégia de incremento das vendas das
grandes lojas de comércio não diminui de maneira alguma o seu poder de atração.
A experiência de estar inserido, de habitar e de se ver envolto é inegavelmente
uma experiência espacial mais antiga que a da distância para as coisas e entre
as coisas. O problema reside muito mais na redução e no enganoso aumento dessa
sensibilidade, tão logo ela seja simulada em limites e invólucros
preexistentes. Pois o horizonte, o onde do estar-no-espaço não é, realmente,
uma inclusão "real", nem uma moldura restritiva, mas é uma delimitação
indefinida e possível cuja relativa amplidão ou estreiteza se revela no trato
com as coisas. Se essa interioridade insegura se consolida de antemão pela
suposição de um efetivo espaço-container, surge uma separação real comparável à
do espaço privado, a qual, com a preferência por anteparos autarquia,
tranqüilidade negocia também as suas desvantagens: isolamento e toda sorte de
autismos estéticos. Entre os artistas importantes que realizaram instalações,
apenas Bruce Nauman se insurgiu desde o começo contra o caráter privativo desse
encasulamento, contra a "cela branca", e também contra a caverna escura da
videoarte [Bildschirmkunst], perturbando e rompendo a unidade da experiência
espacial por meio da alteração dos planos consagrados, da assincronia do som e
da imagem, da inversão de seus fluxos e de outros recursos artísticos.
O parcelamento dos espaços da experiência é, porém, apenas um aspecto
problemático da "arte do real". Seu reverso não parece menos incerto: o
freqüente enfraquecimento que se observa na organização interna, nas relações
formais e de conteúdo, no enfraquecimento que acompanha o encapsulamento. Uma
vez que a coesão parece estar garantida pela delimitação espacial, as
instalações muitas vezes se esgotam num disparatado amontoado ou no
espalhamento de apetrechos, cujas relações entre si permanecem visivelmente
subdeterminadas e por meio disso, em certas circunstâncias, são percebidas
como sendo muito significativas. Não é por acaso que a instalação, ao lado da
performance e do vídeo, seja a forma artística global mais valorizada. O
provimento de espaços expositivos com despojos culturais cria sempre um
ambiente que é de algum modo interessante, embora, em casos mais raros, se crie
mais que uma vaga sensação de familiaridade no que é estranho: quem haveria de
contestar que a desarrumação se apresente em toda parte onde esteja o homem20?
De modo ainda mais claro que o pré-requisito de um container, a tendência ao
relaxamento da estrutura interna permite reconhecer a mensurabilidade da idéia
de configurar de modo "mais real" o lugar da experiência. Felizmente o problema
não é filosófico; a afirmação enfática mostra a sua legitimidade artística e
seus limites muito mais numa imagem-chave da modernidade do pós-guerra
americano: o Ateliê vermelho (1911), de Henri Matisse. Desde 1948 no acervo do
Museu de Arte Moderna, este quadro balizou o surgimento de uma "arte do real".
Ele mostra, por meio da unidade e opacidade da cor, um espaço interior
hermeticamente fechado, maciçamente premido na superfície: um mundo
permanentemente vermelho, no qual a porta se fechou, a janela foi velada, o
relógio parou somente os quadros representados no quadro indicam que ainda
existe um outro lugar além dessa atmosfera surpreendentemente densa. Mas o
caráter fechado desse espaço é decididamente imaginário; a mesma cor
impenetrável que enfeixa o espaço numa unidade recusa ao mesmo tempo aquele
projetivo olhar para algo, bem como o desenvolvimento de uma empatia, abrindo
caminho tão-somente para a relação entre o espectador e a superfície vermelha
como lugar da experiência21. A história da conquista do "espaço real" por meio
da arte adquire desde esse ponto de partida um sentido passível de
reconhecimento: tanto em sua grandiosa ambição quanto em sua limitação cada vez
mais patente. Pois, em sua exclusividade, tornar este espaço imaginário real
exigiu não apenas suprimir e fazer esquecer a efetiva mensuração de um
invólucro existente. Era preciso que esse processo fosse tão longe quanto o
mundo vermelho de Matisse, o qual transborda e ultrapassa a estrutura
perspectivista do motivo do ateliê (algo que Mark Rothko conseguiu em suas
melhores séries de quadros)22. Para que esse tipo de espaço pictórico pudesse
se tornar realidade também do ponto de vista de seu conteúdo, foi preciso que,
no lugar dos desenhos e contornos, objetos concretos e demarcações fossem
trazidos a uma estrutura de relações que produzisse uma convicção análoga e o
círculo se fecha o mais tardar nesse ponto, uma vez que as ligações não são
grandezas reais em si mesmas; elas são, antes, imaginárias. Se houve um artista
da instalação que chegou a realizar essa contraditória obra de arte, este foi
antes Joseph Beuys, e não um dos "espaço-realistas" minimalistas.
A imaginária exclusividade do Ateliê vermelho chama a atenção, contudo, para um
outro fato, aparentemente secundário. Enquanto o quadro exibe um espaço
possível na verdade improvável se examinado à luz de um julgamento racional
, ele praticamente não exclui outros mundos, de modo que ele pode coexistir
perfeitamente com determinações diferentes de lugar, no mesmo espaço de
exposição. Ao contrário disso, o parcelamento do espaço disponível por meio de
instalações e environments acarretam um dilema que não se pode mais ignorar: o
que acontece com os espaços reclamados e reivindicados com exclusividade pelos
artistas, quando eles têm de ser arrumados a fim de ceder o lugar a novas
aquisições? A pressão para o desalojamento é inevitável, uma vez que os lugares
e as instituições destinados às obras de arte são limitados. Além disso, o
encargo tradicional de apresentação e conservação por meio da posse dos
recursos disponíveis tornou-se insustentável. Onde dispor espaços artísticos
completos, que não podem se apresentar ou estar pendurados juntos ou na
companhia do trabalho de outros expositores? Procura-se pensar em enormes
ajuntamentos de containers que se podem ampliar indefinidamente, cujas unidades
podem ser, de acordo com as necessidades, objeto de troca e enviadas para o
mundo todo. Ou, ainda, procura-se pensar nos grandes columbários que se
localizam em áreas abandonadas ou à margem das regiões populosas, os quais,
como pontos de peregrinação, expõem as privações do caminho, predecessoras do
encontro com a arte.
Estas não são visões extravagantes, como demonstram dois projetos
excepcionalmente lúcidos que vieram a público em maio de 2003. Na cidade de
Basiléia inaugurou-se o "Armazém de Exposições" ["Schaulager"] da Fundação
Laurenz, com uma apresentação pormenorizada de Dieter Roth: um centro de
coleção de arte nova, motivado por uma crescente limitação dos museus, os quais
podem exibir apenas uma fração de suas coleções. O novo centro tem a virtude de
dispor para um público interessado o seu acervo na forma de algo que se
encontra explicitamente "armazenado"23. Os arquitetos Herzog & de Meuron
criaram para isso o edifício adequado, tomando por base aquilo que eles
consideraram ser um módulo-container. De um modo totalmente diferente, mas
respondendo igualmente a uma aguda exigência contemporânea, apresenta-se o
museu da Dia Art Foudation, inaugurado nessa mesma época, em Beacon, uma vila
operária no vale do rio Hudson, distando cerca de cem quilômetros da cidade de
Nova York24. Erigiu-se no galpão de uma antiga fábrica de papelão o maior
espaço de exposição do mundo, destinado a uma arte que é espaço-dependente e
espaço-determinante. Foram evitadas as limitações de estilo, bem como uma
descrição histórica coerente das obras. Apenas o momento em que vieram a
público, os anos 1960, foi decisivo para a sua escolha. Seu principal atrativo
constitui-se em amplas instalações de minimal art e land art, completadas por
seções de obras de Joseph Beuys, Andy Warhol, Richard Serra, Gerhard Richter e
outros.
Essas tentativas engajadas de levar a sério a mudança do caráter de obra nas
artes plásticas do século XX deixa naturalmente em aberto uma última questão:
não seria o caso de se pensar que, com a transformação do objeto da observação
em lugar da experiência, a dimensão histórica do tempo perdeu o seu significado
primário de contato com a arte? (e com ele a tarefa dos museus de fazer
coleções?) Não se pode descartar essa hipótese completamente, como sugere o
desaparecimento da histórica formação do indivíduo; e mesmo esse
desaparecimento não seria de se lamentar completamente possivelmente há
outras formas de memória além do armazenamento e da conservação. Mas o museu
moderno não é apenas o relicário dos estetas, o centro de documentação para
historiadores e o abrigo de emergência para os artistas que se protegem
daqueles que os desprezam. Ele é, sobretudo, a imprescindível sala de espera da
arte moderna. E, por fim, a determinação do lugar vincula-se ao fator temporal
da experiência artística. Alguns dos mais significativos agitadores da arte
moderna, Cézanne e Duchamp à frente (para não citar novamente o Ateliê
vermelho), não teriam chegado jamais à sua devida medida, se nas coleções
aparentemente voltadas para o passado não houvessem podido esperar pelo seu
tempo, a futura atualidade. A mesma reserva é válida para o estabelecimento de
uma arte especificamente espacial, com prazo delimitado. Mas é um tanto
simplista e limitada a idéia de que a mera possibilidade de se entrar em algum
lugar permita o acesso à experiência de um espaço. Como dar tempo suficiente a
esses espaços e a seu conteúdo, de tal modo que as pessoas ultrapassado o
evento da primeira apresentação possam neles se encontrar a si mesmas, ou
seja, possam se encontrar dentro deles? A pergunta talvez caiba, para a sua
surpresa ou consternação, aos próprios artistas.
[1] White, John. The birth and rebirth of pictorial space. 3-a ed. Londres,
1987 [1957] .
[2] O autor se refere à seção do periódico na qual este ensaio se insere. [N.
T.]
[3] Hetzer, Theodor. Francisco Goya und die Krise der Kunst um 1800. In:
Berthold, Gertrude (org.). Schriften Theodor Hertzers (Zur Geschichte des
Bildes von der Antike bis Césanne). Stuttgart, 1998, vol. 9, pp. 141-63.
[4] Cf. o capítulo "Os planos". In: Schmidt, Bertram. Césannes Lehre. Kiel,
2004, pp. 194-226.
[5] Merleau-Ponty, Maurice. L'il et et l'esprit. Paris, 1964, p. 68f.
[6] Cf. a seção "Cézanne und die Tiefe des Bildraumes", em Kudielka, R.
"Chromatische und plastische Interaktion. Über die Wirkungsweise der Bildfarbe
im Werke von Bridget Riley". In: Hoormann, Anne e Schawelka, Karl (orgs.),
Who's afraid of. Zum Stand der Farbforschung. Weimar, 1998, pp. 135-39.
[7] Van Gogh, Vincent. Carta 21, a Émile Bernard. In: V. W. Van Gogh (org.),
Verzamelde brieven van Vincent Van Gogh, Amsterdã, 1954, vol. 4, p. 236.
[8] Proust, Marcel. Auf der Suche nach der verlorenen Zeit. Trad. Eva Rechel-
Mertens. Frankfurt am Main, 1979, vol. 10 (Die Gefangene 2), p. 347.
[9] Matisse, Henri. "Entretien avec Tériade" (1929). In: Fourcade, Dominique
(org.). Écrits et propôs sur l'art. Paris, 1972, p. 99f.
[10] "So far as I know, I was the first to bring the painting forward from the
frame, rather than set it within the frame." In: The new art - The new life.
The collected writings of Piet Mondrian. Holtzman, Harry e S. James, Martin
(orgs.). Londres, 1987, p. 357.
[11] Sobre o conceito de "peinture-objet", cf. Hess, Walter. Dokumente zum
Verståndnis der modernen Malerei. Reinbeck bei Hamburg, 1997, p. 75f.
[12] A própria história artística da escultura é o tema do livro de Dieter
Rahm, Die Plastik und die Dinge. Zum Streit zwischen Philosophie und Kunst,
Freiburg, 1993. A relação com a pintura moderna é discutida de modo mais
detalhado em Kudielka, R. "Aufstellen statt Repråsentieren. Zur Bedeutung des
Paradigmas der Plastik in der Moderne." In: Kluxen, Andrea (org.), Ästhetische
Probleme der Plastik im 19. und 20. Jahrhundert. Nürnberg, 2001, pp. 249-72.
[13] Judd, Donald. "Specific Objects." In: Arts Yearbook, 8, 1965, pp. 74-82. Tradução alemã em Stemrich, Gregor (org.), Minimal art. Eine
Kritische Retrospective. Dresden; Basel, 1995, pp. 59-73.
[14] Essa mudança transformou-se, em 1964, numa espécie de lema daqueles
artistas que hoje são caracterizados como pertencentes à minimal art. O
argumento foi debatido criticamente, em fevereiro de 1964, numa discussão
radiofônica sobre o tema "New nihilism or new art?", publicado depois, em 1966,
por Lucy Lippard, sob o título "Questions to Stella and Judd. Interview by
Bruce Glaser", na edição de setembro de Art News; reimpresso em Battock,
Gregory (org.), Minimal art. A critical anthology. Londres, 1968, pp. 148-64. Sobre uma história da recepção, cf. Feldman, Paula e
Schubert, Karsten (orgs.), It is what it is. Writings on Dan Flavin since 1964.
Londres, 2004.
[15] A Bedroom ensemble refere-se a uma lembrança que Oldenburg tinha de um
motel localizado na estrada costeira que leva a Malibu. Nele cada quarto era
matizado pelo caráter de um determinado tipo de pele animal: tigre, leopardo,
zebra etc. O conjunto misturava estes padrões e os combinava com a aparência
dada por folhas de madeira marmorizadas, das quais as texturas eram imitadas
com recursos fotográficos. Curiosamente Oldenburg não via em seu trabalho
qualquer diferença de princípios com relação a uma instalação abstrata, como a
de Morris, a qual dramatizava o espaço da galeria por meio de corpos puramente
geométricos: "Geometry, abstraction, rationality - these are the themes that
are expressed formally in 'Bedroom'[...]. 'Bedroom' might have been called a
composition for (rhomboids) columns and disks". In: Russel, John e Gablik, Suzi
(orgs.), Pop art: redefined. Londres, 1969, p. 95f.
[16] A tradução do título para a temporada européia da exposição é
esclarecedora no contexto atual: "O espaço na arte americana: 1948-1968 - The
art of the real", catálogo da Kunsthauses Zürich, 1969.
[17] O'Doherty, Brian. In der weißen Zelle: Inside the White Cube. Berlim:
Wolfgang Kemp, 1996. O ensaio apareceu pela primeira vez em
1976, em três números seguidos do periódico americano de arte Artforum.
[18] A instalação Die Toilette, de Kabakov, pôde ser vista, em 1992, na
Documenta de Kassel. O Weather project, de Eliasson, dominou durante cinco
meses, a partir de outubro de 2003, a antiga Sala das Turbinas na Tate Modern,
em Londres. E o Creation myth, de Rhoades, foi exibido, no outono de 2004,
dentro da Flick Collection, no Museu de Arte Contemporânea de Berlim, Hamburger
Bahnhof.
[19] Peter Sloterdijk seguiu esse deslocamento de pesos até as "construções
auto-referentes do museu", as quais celebram a "exposição do espaço de
exposições": "Os recipientes demonstram de maneira cada vez mais clara a sua
demanda por precedência, em detrimento de seu conteúdo". In: Sloterdijk, Peter.
Sphåren III: Schåume. Frankfurt am Main, 2004, p. 813.
[20] Sobre essa linguagem global, cf. Kudielka, R. Weltkunst Allerweltkunst?
Vom Sinn und Unsinn der Globalisierung in den bildenden Kunsten. In: Jahrbuch
14 der bayerischen Akademie der Shönen Künste, Munique, 2000, vol. 1, pp. 441-
59.
[21] Uma exposição exemplar da complexidade desse quadro aparentemente simples
encontra-se em Elderfield, John. Matisse in the collection of the Museum of
Modern Art. Nova York, 1978, pp. 86-89.
[22] O papel central do Atelier vermelho na arte de Mark Rothko, atestado pelo
próprio artista, já foi discutido várias vezes; talvez, de modo mais
convincente, por Eliza E. Rathbone e Mark Rothko, em "The Brown and Gray
Paintings." In: American art at mid-century: The subjects of the artist,
catálogo da National Gallery of Art. Washington, 1978, pp. 245-66.
[23] Vischer, Theodora (org.), "Roht-Zeit". Eine Dieter Roth-Perspektive.
Shaulager Basel, 2003. - O "Armazém de Exposições" mantido
pela Fundação Laurenz, abriga o acervo da Fundação Emanuel-Hoffmann.
[24] Sobre o surgimento e a concepção de Beacon, cf. o artigo de Lynne Cooke;
Topos Raum. Die Aktualitåt des Råumes in den Künsten der Gegenwart. Berlim,
Akademie der Künste, Verlag für moderne Kunst Nürnberg, 2005, pp. 72-89.