Situação de Sítio
"eu escuto o que tem que ser dito"
Claudia Roquette-Pinto, "no jardim", em Os dias gagos
No curso da mais vertiginosa transformação da sociedade brasileira, marcada
pelo fim das políticas de desenvolvimento, pela estagnação econômica com
aumento da concentração de renda, período em que o cosmopolitismo financeiro e
a desfaçatez ideológica dos neoconservadores andaram de rédeas soltas,
esperávamos tudo tudo mesmo , menos que coincidisse com esses anos um novo
ciclo de retradicionalização da poesia. Retradicionalizar significa incorporar
as tradições modernas, traduzir o teor originariamente crítico delas em formas
convencionais e auto-referidas, mediante o trabalho de linguagem e sob o amparo
do "rigor de construção", paradoxalmente assumidos como princípios capazes de
preservar a autonomia poética e o ofício do verso. Como se vê, fundem-se aí
vários horizontes da experiência moderna: a abertura historicista trazida pela
existência de um museu da poesia moderna, a consciência formal do poema como
artefato lingüístico, o teor construtivo das vanguardas dos anos 1950, a antiga
autonomia esteticista e até, quem diria, o gosto provinciano pelo artesanato do
verso. De imediato, esse movimento sem programa parecia reagir à
desqualificação formal e à baixa mímese a que os poetas marginais haviam
submetido a poesia brasileira nos anos 1970, embora tendesse a escapar ao
compromisso dos confrontos. Sob a fiança de linhagens prestigiosas da tradição
moderna e já sem propósito radical, a invenção poética se desloca da
experimentação dos procedimentos (como no tempo da vanguarda) para a
conceitualização dos conteúdos, tratados frivolamente como matéria de
variações. O que mudou nesse quadro foi o peso e o sentido da tradição, que não
parece incompleta, nem é considerada obstáculo, sequer precisa ser superada ou
transformada agora todas as tradições estão franqueadas, conquanto o poema
desarme a inquietação autoproblematizadora, caracteristicamente moderna, à
procura de dicções elevadas e pluralistas que desrealizem sua matéria ao mesmo
tempo que a ornamentem1. Pensando bem, uma retradicionalização desse tipo, que
reafirma linguagens já testadas e reassegura a soberania do poético, só poderia
mesmo se converter numa proposta de renovação, ou reação às poéticas
existentes, num período de regressão social e econômica, como o que ocorreu
simultaneamente ao auge do pós-modernismo internacional, na segunda metade dos
anos 1980. Por estranho que pareça, ou por tudo isso, uma época de tamanhas
transformações e conseqüências sociais, como as das duas últimas décadas do
século passado, não contou no Brasil com um ponto de vista artístico relevante
da parte da produção poética. A poesia deixou de ser companheira de viagem do
presente, deu as costas aos acontecimentos, os quais no entanto a afetavam no
mais íntimo de sua capacidade criativa.
Mais do que uma simples volta antivanguardista ao literário, essa
retradicionalização bastante frívola foi uma forma de acomodar a crise da
representação em moldes aliteratados e poetizantes. Em tais circunstâncias,
restou aos jovens criadores e a outros já não tão jovens a recombinação
desencantada de erudição, o jogo de referências literárias e artísticas, dentro
do espírito genérico da intertextualidade pós-moderna, que no caso brasileiro
veio auratizar o poema e sublimar o presente. A escrita abstrata e descarnada
precisou se "poetizar", disfarçando a rarefação referencial e a indeterminação
discursiva, ainda que subsistissem nela muitas manchas de divagação lírica,
confessionalismo e alguma reflexão existencial. De outro ângulo, pode-se dizer
também que, com a rotinização e o esgotamento da vanguarda, o que sobreviveu
desta no período deixou de ser matriz de experimentação para se tornar um ideal
de alta cultura, depuração e refinamento poéticos e, acima de tudo, intérprete
da tradição literária mundial. Todos esses elementos convivem, como se sabe,
contraditoriamente, na poesia concreta desde os seus primórdios e, por essa
razão, ela pôde atravessar os decênios de 1980 e 1990 ainda como um padrão
válido, suprindo com suas posições mais recentes a falta geral de debate
estético ou programa poético.
A partir dos últimos anos de 1990 surgiram indícios de mudança no panorama,
sinalizando talvez que a retradicionalização pós-moderna perdia fôlego. Sinais
esparsos mas indicadores de que algo entrava em movimento e poderia alterar os
termos que possibilitaram o chamado boom produtivo da poesia. Pouco a pouco, a
sintaxe deixa de ser um recurso de obscurecimento do assunto, cuja dissolução
se convertia em espetáculo, como é recorrente na obra de Carlito Azevedo. Ou
seja: o poema que espetaculariza a proliferação e a desmontagem de suas imagens
perde espaço para uma poesia de horizonte oprimido e desanimado, de rotina de
ninharias, como se lê nos livros de Tarso de Melo e Ronald Polito2. Redescobre-
se o tom menor associado a contextualizações mais densas e pessoais, que pode
se conciliar com algum experimentalismo da linha gráfica e do arranjo em blocos
fora de sincronia com o ritmo e a enunciação como nos poemas de Ricardo
Domeneck3. Ressurge o interesse pelo poema em prosa e certos impulsos de
narratividade como os que percorrem, entremeados à rarefação, os Planos de fuga
e outros poemas, de Tarso de Melo, ou Louco no oco sem beiras, de Frederico
Barbosa, uma composição feita de poemas breves que se reestruturam no corpo
narrativo de um livro4. Também é curioso que a poesia concreta tenha gerado,
nessa altura, em autores mais ou menos tocados por ela, ou em crise com, uma
poesia de protesto, reclamação, indignação e desespero existencial como se vê
neste último título e em Contracorrente, do mesmo autor, assim como na produção
de Régis Bonvicino a partir de Ossos de borboleta, culminando com a crítica
feroz de Página órfã, que a mais de um resenhista pareceu poesia política5. O
assunto volta a ser relevante (sic), exigindo a precisão no seu tratamento, o
que pode ter as conseqüências de um retorno ao real, se não for uma demasia a
expressão. Esse retorno, narrado com um timbre claro e sereno que provoca
desconforto, aparece igualmente em Novo endereço, de Fabio Weintraub, que se
detém em situações de sofrimento da intersubjetividade em meio a destroços
indistintos de fábricas, peças, corpos, em meio a dentes, unhas, pés6.
Evidências dessa alteração são a volta da referencialidade concreta, do país
real, dos problemas sociais, da decadência urbana, por vezes mesclados ao
padrão impositivo da intertextualidade. Em Cais, de Alberto Martins, a
descrição da cidade-porto (Santos e cercanias), incrustada na paisagem de lodo
e luto, quer desfazer a euforia culturalista do modernismo que valorizou a
informalidade popular e a miscigenação geral, as quais já não podem ter lugar
na elegia de um país que não passa de uma triste e permanente infecção
colonial7.
De lá para cá, o índice de insatisfação cresceu muito, a ponto de a crítica
jornalística com falta de jeito apressar-se em rotular alguns exemplares dessa
linha como "neoparticipante" ou como uma "retomada da poesia engajada"8. Hoje
lemos poemas e livros inteiros que abordam a desagregação da sociedade
brasileira, nome mais específico para o contemporâneo, cuja matéria inclui
obviamente pobreza, marginalidade, mendicância, crianças de rua, catadores de
lixo, classe média empobrecida, violência urbana, tráfico de drogas,
criminalidade. Tudo isso pede uma reformulação das questões que o ciclo da
retradicionalização antes nos propunha, embora esta ainda continue em vigência,
ou continuará por bom tempo como coadjuvante. Mas a questão que me interessa
aqui é saber por que uma poética ancorada na rarefação, ou então na dissolução
da referência, quer agora contextualizar a referência? É possível dentro da
poesia feita de poesia essa volta?
Que surpresa não foi para os leitores o aparecimento de "Sítio"9 da parte de
Claudia Roquette-Pinto, a poeta contemporânea que parecia até então trancada no
seu universo privado e burguês, alinhada a uma poesia delicada, erótica e
feminina. É bom lembrar que ela começou a escrever nos anos 1980 mas nunca
adotou o tom confessional nem usou a imaginação poética, como fazia a poesia
liberada daqueles tempos, para apresentar a mulher como sujeito, como pólo
ativo e manipulador (recuperando o imaginário patriarcal do ângulo feminista).
Ao contrário, retomou certa expressividade, tons e tópicas tradicionais do
lírico para escapar aos clichês do feminismo, reconhecendo quem sabe que a
"liberação" deu problema e o quanto tal emancipação tinha de insatisfatória. A
melhor definição dessa estratégia chegou com o livro cujo título é justamente
Corola10, publicado em 2000, em que seu jardim imaginário assinalava com um quê
perverso tal dissidência. Quase ninguém viu a provocação desse jardim que não
conhecia ruptura alguma entre público e privado. Apontada muitas vezes como
intimista, metaforizante, fechada em si mesma e fora da vida, Claudia
certamente escreveu "Sítio" para responder à incompreensão que cercava o seu
trabalho.
"Sítio"
O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: "Pai!
acho que um bicho me mordeu!" assim
que a bala varou sua cabeça?
É um poema construído por incertezas, desde o primeiro verso, pela hesitação
entre o que se sabe e o que não se sabe, ou pela indecidibilidade, para usarmos
um termo da moda, mas indecidibilidade aqui estranhamente ligada a recursos da
descrição. Tem o poeta condições de ver e descrever o que ele vive, se nem sabe
que acontecimento é esse? A construção coloquial "[O morro] está pegando fogo"
funde planos de sentido que vão do referencial imediato (incêndio), à locução
popular corrente (tem briga, tem complicação, tem bafafá), à transposição
metafórica: atmosfera de medo e desespero com chamas, fumaça, fuligem, reais ou
não. Assim como o título admite muitos significados (lugar definido, terreno,
pequena fazenda, assalto, ataque, estado de sítio)11. O horizonte está nublado,
empoeirado, enfumaçado, irrespirável, não se enxerga nada, não se pode sequer
saber se o sol está se pondo um clima de sufocação que culmina na imagem do
"céu invertido", equivalente à tópica do "mundo às avessas", figura clássica de
catástrofe, de mundo fora-de-ordem. O poema está centrado numa natureza hostil,
convulsionada por uma corrente opressora, contra a qual não há consolo, não há
saídas. Mas que conflagração é essa que altera tudo, o ar, o movimento do
corpo, o trânsito e os elementos da natureza? E que transtorna as imagens,
expandidas em metamorfoses sucessivas que conferem atributos animais ou humanos
aos carros, ao engarrafamento, à beira de uma espécie de desespero autista
("desespero surdo" contraposto a "ruído motor").
A metamorfose do dado objetivo em digressão metafórica é construída pela
seqüência de sete blocos oracionais delimitados por ponto, exceto o último em
que dois pontos anunciam a citação de uma notícia, escrita ou falada,
aparentemente elucidativa. Todos os blocos são compostos para explicar o verso
inicial, cuja condensação de sentido merece ser desdobrada e parafraseada,
embora nada se esclareça suficientemente, ou melhor, nem o fato bruto oferece a
referência que falta para completar a contextualização. Nessa atmosfera de
distinção difícil, criada pela indecidibilidade e pelos deslizamentos de
sentido, não há causas nítidas ou determinantes até a bala é um bicho, a fala
da vítima, um equívoco.
Claudia Roquette-Pinto é poeta que manteve interlocução por assim dizer
sistemática com várias frentes da poesia contemporânea (Poesia Concreta, Sylvia
Plath, Paul Celan, Language Poetry, entre outros), além de uma experiência
comum ou geracional afinada com poetas brasileiros de tendências diferentes,
como Carlito Azevedo, Régis Bonvicino e Antonio Cícero. Mas desde o início ela,
que não se fechou numa tendência só, fundiu experiências internacionais e
nacionais preferidas, incluída a vanguardista, e vinculou sua mescla a uma
tremenda carência lírica. É o que cria o curto-circuito da força artística do
poema de que tratamos.
"Sítio" se estrutura portanto a partir de um complicador: a dificuldade em
lidar com a referência, porque Claudia participa daquela tendência
contemporânea dominante que cultiva a desrealização do referente, o lacunar,
imagens obscuras e autônomas, a pura textualidade das designações em cadeia,
cuja prática poética não se disciplinou na relação com o dado imediato da
realidade. Daí a ousadia de um poema como esse, que está experimentando a
partir de uma poesia referencialmente rarefeita a explicitação referencial, sem
abrir mão da imagética introspectiva que é própria da autora. E como ela faz
isso? Mostrando ou criando afinidades entre o seu mundo mais privado e a
situação social do Rio de Janeiro, do morro, da violência urbana, entre as suas
imagens secretas e prediletas e esse mundo lá fora. "Sítio" generaliza para o
espaço urbano sentimentos e sensações que a poeta desenvolveu no âmbito de sua
própria insatisfação, explicando desse modo a psicologia aparentemente reclusa
de Corola. Pois foi a partir deste livro que seus poemas passaram a tratar do
medo e da violência por meio de dilemas perceptivos e sensoriais: "Suspenso na
rede do sono na tarde indecisa/ em ser, ainda, tarde, ou ver-se noite/ o corpo,
em seu torpor, não acredita/ sequer na hipótese de um corpo/ (em morte, em
vida, e/ o que dizer do encontro)"12. Ou: "Dentro do pescoço/ o poço, vazio,/
caindo intempestivamente/ até que o fio/ da expiração se estique/ o ar
arrebente o dique/ do que insiste em ser/ oco [...]"13. Neste conjunto de
poemas inquietantes, que fogem ao ramerrão da produção contemporânea, existe um
estudo obsessivo de processos de introspecção e descontrole, muitos deles
traduzidos em situações incessantes de vertigem e queda. Tais processos compõem
uma estrutura radical de insatisfação, cujas figurações imagéticas, por vezes
perversas e até masoquistas, revelam o quanto o ensimesmamento está tomado pela
sociedade presente; o jardim, ou seja, o mundo privado, já fora invadido pela
conturbação externa (a mesma de "Sítio"?) e o sujeito poético dilacerado pela
violência de sua imaginação e de suas emoções em Corola são os próprios
sentimentos que estão em estado de guerra14. Digamos que aí a poeta estivesse
buscando técnicas para expor o custo físico e emocional de sobreviver no
inferno da violência urbana, que não é diretamente nomeado, mas figurado em
muitas variações de aflição, pânico, insegurança e asfixia, sempre dentro do
pequeno território de um jardim, quase um mundinho dickinsoniano de flores,
bichinhos, vida e afazeres caseiros15.
Em resumo, Claudia traz para "Sítio" os símbolos desse universo recluso e joga-
os para o plano explícito da realidade, usando todavia os mesmos recursos
poéticos anteriores, a par do descontrole expressivo que lhe é próprio, para
incluir no poema a circunstância do dia-a-dia do Rio de Janeiro, ainda que não
a domine por inteiro e deixe expostas as dificuldades e limites dessa inclusão.
Observe-se a recorrência de imagens características de toda a sua poesia,
geradas por referências domésticas (panos úmidos, caldo sujo de claras em
neve), amorosas (coração das rosas), arquitetônicas (cúpula), florais
(crisântemos, margaridas, rosas), as quais ela agora pretende remeter ao
contexto da violência urbana. Para aumentar a estranheza, o acontecimento é
narrado como um fenômeno natural, atmosférico ou climático, inclusive pelo uso
de prosopopéias alucinadas de predileção da autora, como se lê no quinto bloco:
o mar, que aí não se abre para horizonte algum, é representado como um cachorro
hidrófobo em convulsões de espuma, sempre à beira da morte. A desordem é
acompanhada pela natureza, como se a premonição de morte fosse aos poucos
engendrada pela própria paisagem, naquele sítio. Esta opção descritiva, por sua
vez, prepara e acentua a quebra do bloco final.
De um foco aparentemente centralizado, o poema apresenta diferentes tomadas da
zona do conflito (o morro, o ar, os carros, o sol e o céu, o mar, o fuliginoso
jardim, a caixa refrigerada, o menino na varanda), as quais, por assim dizer,
deslizam ou se alternam da angulação objetiva para a subjetiva. Os versos mais
denotativos, como "Os carros, no viaduto", logo se transformam numa
metaforização irritada até chegar ao auge do desespero anônimo. A autora joga
sistematicamente, desde a primeira linha, com a possibilidade de a informação
denotada ser corroída e modificada pela gratuidade da imagem poética. Outro
recurso influente para o deslocamento do sentido, num fluxo contínuo até os
dois pontos fatais, é o reforço de tonicidade (assim Antonio Candido designa a
tendência a extrapolar o esquema rítmico convencional do verso medido pela
multiplicação de tônicas intermediárias), que sobrecarrega o verso com
acentuações fortes, espelhadas pelas rimas toantes, gerando um efeito de
suspensão, opressão e lerdeza que subjetiviza a denotação: "[o] mOrro estÁ
pegAndo fOgo./ [o] Ar incÔmodo, grOsso, /fAz do menOr movimEnto um esfOrço".
Esse modo de trabalhar os planos objetivo e subjetivo assinala a dificuldade de
separá-los em meio à conflagração e o quanto o acontecimento externo contamina
a intimidade.
São vários os fatos e acontecimentos que ocorrem em momentos diferentes do dia:
no entardecer (meio indeterminado) e na madrugada (mais definida). Entre eles
há uma indicação temporal no pretérito perfeito ("deitou") que quebra a
descrição do presente imediato e introduz a duração temporal (pela locução
gerundiva "vai escurecendo") na rotina ininterrupta de fumaça, fuligem e
sufocação "penugem antagonista" que contamina "dia a dia" as flores do
jardim privado como uma espécie de floração nova e ecológica do medo. O
episódio do menino e da bala perdida é um desses fatos, porém acrescentado à
composição sob a forma explícita de colagem de notícia ou relato oral fecha o
poema em chave ultra-realista que, em retrospecto, transforma o que veio antes.
Usuais na poesia de Claudia, colagens de materiais externos, na forma de
excertos tirados de outros textos ou de empréstimos de passagens, partes de
frase ou palavras, aparecem freqüentemente destacados pelo itálico, expondo a
convergência entre a circunstância do poema e as leituras da autora, muitas
casuais como ela mesma assume. A inserção arbitrária, muitas vezes prosaica,
comenta de outro espaço a carência lírica que se formulava por introspecção,
para ressaltar salvo engano que esta é dessacralizada e não dispensa o dado
objetivo mesmo que colhido em leituras passageiras. Ou então para ressaltar que
a impureza do lirismo admite a situação parafrástica, a glosa infinita, certa
intertextualidade ou ironia despistadora. Em "Sítio" não há gratuidade, a
citação em itálico cola no texto um pedaço de notícia que desvenda (em parte) o
significado das cadeias imagéticas anteriores, lançando a opacidade destas
noutro patamar, menos cifrado ou alusivo. Estranha à empostação e ao padrão
imagético dominante no poema, a aposição realista do episódio da bala perdida
tem sua dose de indeterminação, melhor, de incerteza, análoga às digressões
metafóricas e prosopopéias. Tanto que, no coração da notícia, a fala do menino
vem transcrita em tipo redondo, como se já estivesse incorporada ao texto e
fosse justamente ela também uma fala da poeta.
Até onde posso ver, o poema confronta uma situação protegida de medo (no abrigo
de um sítio, um apartamento, uma casa, o que for) com a cena da criança exposta
a uma bala perdida numa varanda (quando?). É este o instante de rompimento da
condição protegida nessa varanda vulnerável, momento em que a vítima perde por
assim dizer a proteção imaginária de seus medos. O arranjo formal atesta que a
poesia que oferece proteção por imagens falha diante da bala perdida e precisa
empreender uma volta à referência, mesmo que com isso se rompa o ritmo, a
imagética e o timbre da escrita. Por ser o poema meio desconjuntado, na
alternância de registros descritivos e expressivos, o achado poético é notável,
ao reproduzir o mesmo desconhecimento da criança sobre o que se passa vide a
fala inadequada do menino num momento grave: "Pai! acho que um bicho me
mordeu!". Vejo aí a sugestão de similaridade entre a criança baleada e o ponto
de vista do poeta, cuja posição é equivalente à do menino que morre sem saber o
que está acontecendo e pronunciando uma fala também imagética (mordida de um
bicho pateticamente metafórico).
Uma onda de perplexidade retroage pelo poema todo. Nesse sentido, a grande fala
que o poeta poderia enunciar seria com toda a probabilidade uma expressão
errada numa hora errada de quem morre por acaso ou por engano por uma bala
perdida (sugestão reforçada pela tipologia)16. Esta pode ser uma alegoria do
que é fazer poesia hoje numa sociedade como a brasileira: o testemunho que o
poeta pode dar está aquém dos acontecimentos, ele não tem uma visão clara do
que está se passando, sua solidariedade é restrita e seu alcance político nulo.
Aqui a indecidibilidade se torna fator de agonia, medo, desespero e cria um
clima de aberração e emudecimento, pois a voz que o poema acolhe como sua é a
voz de um morto. A fala da criança, apesar do engano, tem uma espécie de
clareza inútil e terminal sobre a psicologia do estar em sítio.
Lembro que a palavra que indicia presença humana está situada em posição
sintaticamente indeterminada nas duas ocorrências: "entre panos úmidos, mudos"
e "De madrugada,/ muda na caixa refrigerada," (além do possessivo de "e vem
acabar na nossa porta"). A mudez dá pista de que o humano está intimidado,
deixando ver na referência cifrada uma intenção generalizante. A mesma intenção
de "tímpanos, pálpebras:", perdidos no meio do tiroteio, sem ouvir e enxergar,
mas destacados pelo corte do verso. Todos estão mudos em "Sítio", menos o
menino que solta suas últimas palavras em meio a um mar de ruídos, fumaça e
tiros.
Apesar dos dêiticos de proximidade (agora, desta, este, nossa) e dos verbos no
presente, que organizam as relações espaciais e temporais do discurso, a
ausência de marcas explícitas da subjetividade tem sentido forte, a indicar o
estatuto instável do sujeito na figuração da cena e sobretudo que a
circunstância individual conta pouco para entendê-la e explicá-la. Ainda assim,
a poeta cria imagens e sonoridades para algo de que não sabe a extensão nem o
teor real, todas marcadas, como vimos, pela indeterminação do que é objetivo e
subjetivo: a atmosfera de fora é sentida por um corpo caseiro como andar em
claras em neve, assim como o sol não pode ser avistado sob a poeira. A própria
existência do mar que traz conforto interior vem agora, em movimento contrário
que anula a quietude da contemplação, morrer ao mesmo tempo como imagem e
realidade. Desse modo, o sujeito vai assumindo que não domina nem temporal nem
espacialmente o problema que está abordando, sempre em busca de algo maior que
transcende a experiência pessoal e coletiva, mas que não se sabe o que é e pode
ser uma experiência traumática. A imagética sensorial e perceptiva está ao
longo do poema associada às limitações do corpo, que não alcança a cena. O
corpo está emperrado, travado; mesmo os corpos dentro dos carros também não
conseguem atravessar esta "cúpula de pó". Os objetos perdem nitidez até que a
enigmática "carga de agulhas cai queimando/ tímpanos, pálpebras:", como se
fosse o fogo anunciado na abertura. A violência banalizada está patente nos
objetos, utensílios e tarefas diárias, ou no jardim, cada coisa transmutada
pelo medo em metáforas vagamente autônomas, cuja aparência ameaçadora mimetiza
a percepção de quem tudo experimenta como espectador aterrorizado (testemunha
que não enxerga). O corpo vai sendo arrastado a seu limite, testado na sua
capacidade de agüentar a pressão, que pode ser tão concreta quanto o próprio
medo. Enfim, tudo o que diz respeito ao corpo está marcado por lentidão, mudez,
intransparência, paralisia, enquanto a notícia proveniente de uma fonte externa
(rádio? televisão? voz?) é clara, nítida, objetiva. É a sinopse esclarecedora
que chega para situar toda a cena. Contudo, a carga estetizante dos versos
anteriores era aflitivamente opaca, ao passo que a informação externa e em
itálico, que oferece uma verdade simples e direta, a chave dos acontecimentos
descritos, capta muito pouco da experiência do poema. A sucessão de imagens
fragmentadas e poetizantes registrava a miséria do corpo, com sua imaginação
reduzida a paranóia e medo, sem discernimento maior e sem reação crítica. Mas
se o factual da notícia rompe aquela cadeia imagética, a poetização não exclui
o factual, ganha com sua inserção. Eis o alcance desta construção formal que,
entre outros acertos, é também uma maneira de mostrar que um poema difícil,
enigmático, sobre uma situação já corriqueira nas grandes cidades brasileiras,
rebate a urgência da mídia, que naturalizou e banalizou a violência, tanto
quanto se subtrai às exibições de denúncia ou compaixão literárias, que por
sinal são mesmo inúteis diante do tamanho e da irresolução do problema.
A propósito, com finalidade de comparação, vale a pena mencionar aqui o último
livro de Régis Bonvicino, Página órfã, que surpreendeu por acentuar e expandir,
em larga escala em relação a seus livros anteriores, a precisão da referência
para dar conta da conjuntura de guerra e luta social que atravessamos. Nele se
encontra a mesma matéria do poema de Claudia, embora seu registro direto seja
agressivo, os elementos líricos permaneçam intocados, os materiais de colagem e
o zapping de linhas, marcados pelo realismo incisivo, pareçam anunciar uma
enérgica resposta política. Este livro que, se arrisca muito no enfrentamento
do resultado da crise do capitalismo contemporâneo, apanhada em múltiplas
situações, países e línguas, extravasa uma indignação aparentemente explosiva,
uma gesticulação exacerbada de ativismo que não articula (sobrepõe apenas) as
imagens do horror econômico. O poeta percorre freneticamente cenas de cidades
apinhadas de pobres e mendigos, ruas cheias de lixo e sucata, ao lado do
exibicionismo dos ricos, da indústria da moda, dos ícones do consumo, como se a
poesia, transcrita numa objetividade ostensiva, tivesse o frescor do grafite.
Mesmo que tudo seja invariavelmente exposto em fragmentos, citações, recortes,
a plenitude literal do mundo on-line a apodrecer fica sempre preservada para
assegurar a radicalidade dessa exposição vexaminosa. Tudo é feio, fétido,
podre, obsceno, e esse pitoresco negativo é tão espetacular quanto é exultória
a violência antidiscursiva do poeta. Cenas e imagens irrompem (ou nos atacam)
esquematicamente, como numa peça publicitária ou de agit-prop: a máquina de
contrastes dos poemas está sempre equiparando sujeira e consumo, selvageria e
técnica, top models e mendigos. Em contraponto à barbárie total surgem
recorrentemente, em espaço contíguo, instantes de lírica da natureza, flores e
vegetação de nomes raros, assinalando o ritmo eterno e indiferente da natureza
como uma pastoral dentro do lixo. Negatividade artística para Bonvicino é o
poema deliberadamente grosso, antipoético, repleto de miséria e sujeira, mas
cuja abjeção é um termômetro da fibra de quem o escreveu.
Noutras palavras, o resultado lamentável de uma era de globalização e
neoliberalismo se converte por um reducionismo gritante em Página órfã na
contraposição da desgraça dos pobres à obscenidade escandalosa dos ricos e
famosos, contraposição que se repete vezes sem conta - o que é muito pouco para
uma poesia política que ainda apregoa dialogar com a Language Poetry. Nessa
militância imaginária, entre indignação e fúria, Bonvicino dispensa qualquer
simpatia social, confiando apenas na heroicização positiva de sua negatividade.
Afinal, a sociedade contemporânea é um mundo que não pode ser compreendido mas
tão-somente odiado (o ódio é aqui alçado a reação política), e a
espetacularização da catástrofe pode ainda oferecer uma saída honrosa, ou uma
construção regeneradora, para o poema em meio a tanta degradação, da qual ele
está fora. Tal como a borboleta do poema "Página", que sabe de ramo em ramo
reinventar seu mimetismo, o poeta vê que o que existe mesmo é "a flor da azálea
/ o lixo real, / e o verdadeiro / desta página"17. Fabio Weintraub, que
discutiu o lado moralizador da escamoteação (pós-moderna?) desse sujeito
poético, apontando o sistema de compensações que subsiste nas ambivalências da
fé última na verdade da poesia, observou certeiramente: "Sobretudo no que tange
à venalidade, o tom de reprimenda é ainda reforçado pela marca de distinção que
o eu lírico se atribui, figurando-se como um 'mau negociante de inutilidades',
fabricante de algo que não se vende, portador da redentora "praga das palavras"
("Prosa"). // Em contrapartida, nos poemas habitados por mendigos e toda sorte
de refugo humano, não há propriamente deslocamento ou cisão da voz lírica [...]
ela não assume o ponto de vista daqueles a quem retrata, nem se instabiliza
radicalmente a ponto de prescindir de pausas epifânicas"18.
Mas como tratar a violência e não apenas incluí-la no poema? Claudia Roquette-
Pinto não se furta à dureza dos fatos, interessada que está no estudo do medo
como matéria de uma poesia que tenha pertinência para o seu tempo. Está
interessada em figurar o império de uma violência indeterminada e disseminada,
que molda o ritmo do cotidiano, colonizando a cidade, deturpando o sistema
emocional de seus habitantes. Tudo é neuroticamente normal nesse sofrimento
recolhido em meio ao caos é um ângulo perplexo e rotinizado, bem diferente da
objetividade assertiva e vistosa com que Régis Bonvicino registra em Página
órfã a aberração que avassala uma sociedade dividida entre a miséria das ruas e
o desaforo do consumismo. Voltando a "Sítio": aí se valoriza a contaminação
entre externo e interno, entre o eu e o que está pegando fogo, em seu
sofrimento sem distância ou escapatória, pois a desestruturação do mundo
privado coincide na sua descrição com a conflagração morro afora. Talvez seja o
caso de ressaltarmos na solução poética de "Sítio" a ousadia de uma técnica um
tanto enviesada, mas eficaz, de encostar na vida. Não há brutalismo, portanto
não se privilegia a excitação hedonista do consumo da violência com seu excesso
de abjeção, por meio de imagens chocantes e abstratas como faz a mídia o
tempo inteiro, franqueando uma ilusão de proximidade que dessensibiliza e
dessolidariza. Tanto é verdade que a colagem de um relato não implica em
"Sítio" sobrecarga factual alguma, ou valorização do documento ou da informação
prévia, visto que a referencialidade e a literalidade são postas em dúvida pelo
todo do poema, cuja contundência depende do confronto de imagem e realidade. Em
linha contrária ao fetiche da literalidade, a presença da violência ressalta o
torpor físico num espaço social que se estreita, confinando a atividade mental
a uma profusão de fantasias de destruição, neuroses e fobias (a mesma que leva
a indústria do medo a sempre clamar por um reforço de repressão e segurança).
Alastrada pelo poema, a violência se desdobra em temas conexos como proteção
imaginária, desproteção real, incomunicação, fetichismo, terror, opressão
física e psíquica, que desenham um quadro objetivo mais complexo e nuançado da
dissolução da sociabilidade, a qual se reflete no indivíduo confinado. Mesmo
fora do confronto, a vida em contato com a violência se esteriliza, a
neobarbárie da praça de guerra concerne tanto aos protegidos quanto aos
envolvidos diretamente nela: os protegidos também vivem como miseráveis, são
outros miseráveis, aqueles que habitam a clausura da propriedade ("na nossa
porta", "na caixa refrigerada"19). A vida protegida alimenta a cultura do medo,
produzindo mecanismos de recalque e esquecimento, círculos viciosos de
culpabilização e compaixão ou, então, uma aceitação tolerante da desigualdade
social, da segregação dos pobres, da imposição de um modo único de vida e
consumo. "Sítio" é um raro poema sobre o custo interior dessa sobrevivência.
Dito de forma sumária, o que a poesia de Claudia Roquette-Pinto vem
experimentando é um padrão novo de resposta artística à experiência do
presente, a partir de formas de meditação que não se subtraem aos aspectos
destrutivos das transformações da vida urbana o mesmo padrão que vejo em
Valdo Motta20, embora tratado de um ângulo de classe diametralmente oposto. Ao
mesmo tempo que entram no conflito social, ambos preferem formas mais complexas
de representação que possam captar o desamparo do indivíduo diante da
modernidade de forças poderosas que ele não alcança; ambos não acreditam que a
verdade da poesia passe incólume pela miséria contemporânea, que está onde
menos se espera e não só nos espaços em que se costuma segregá-la. São poetas
que assumem a vulnerabilidade da poesia e expõem as carências do sujeito,
sempre em correlação com a complexidade de um processo externo, que se cumpre à
distância, em cuja atualidade eles identificam situações sociais novas (e seus
figurantes) no sítio do contemporâneo, não importa se a referência é clara ou
rarefeita. Nesse quadro, o poeta pobre como Valdo Motta olha para a tradição em
busca de riquezas que precisam ser expropriadas pelos que não tiveram acesso a
elas, com um prazer alegre e destemido de auto-superação; ao passo que um poema
como "Sítio", mas sobretudo um livro como Corola, agarram-se à figuração da
miséria interior dos protegidos e de um sofrimento intérmino a se atravessar.
Enquanto Claudia acentua a intensa e opressiva irrelevância do presente, em que
sujeito e humanidade estão acuados, sem consolo nem perspectiva de saída, Valdo
Motta desenvolve fantasiosas formas de automistificação que mostram a
desproporção entre a grandeza da missão e a precariedade de meios de um vate
orgulhoso, deblaterando contra as adversidades do mundo.
Se questões dessa ordem voltaram a freqüentar a pauta atual da produção poética
brasileira, e podem hoje ser verificadas num conjunto expressivo de obras, são
ainda raríssimos os momentos, salvo melhor juízo, em que passam a interferir no
processo de composição do poema e a discutir os mecanismos de subjetivação, da
imaginação mais privada, da imediatez lírica, das formas de apresentação do
mundo contemporâneo as exceções merecem por esse motivo ser estudadas e
debatidas. Sendo assim, não poderia terminar esta análise sem, a título de
provocação, perguntar por que a relação com a tão insatisfatória realidade
atual demorou tanto a chegar à poesia num país em que a violência é
constitutiva da própria sociabilidade:
■ Foi preciso que criadores de outra extração social (Paulo Lins,
rappers, presidiários, a subliteratura marginal de Ferréz etc.)
lançassem publicamente esses temas, por meio de formas que a muitos
pareceram toscas e neonaturalistas?
■ Ou que o fracasso do neoliberalismo se explicitasse inteiramente,
ao longo do segundo mandato de FHC (1998-2002), com sua
desmobilização, inércia e agravamento das irresoluções, para que os
produtores culturais se animassem a entrar nessa realidade socio-
cultural próxima e desconhecida?
■ Ou terá sido o próprio atraso da esquerda brasileira, como está se
evidenciando no completo êxito do governo Lula, que não estava
preparada para pensar de modo independente e criticamente os impasses
da sociedade globalizada, sem recursos de desenvolvimento?
■ Ou então pode ter sido a massificação vertiginosa da sociedade
brasileira posterior a 1964, que fez com que a literatura perdesse a
sua audiência de classe e não tenha conseguido se articular com as
mudanças sociais vividas desde então?
■ Ou as formas construtivistas das vanguardas poéticas surgidas desde
os meados do século XX, em conjunto com as formas de nacionalismo e
populismo, que tanto marcaram a poesia brasileira, foram (ou são
ainda) impedimento à invenção de experimentos poéticos avançados,
capazes de formular a crise contemporânea? É isso o que poderia
explicar por que os poetas chegaram tardiamente a esses temas num
país que já teve a antilira de João Cabral, a estética da fome de
Glauber Rocha, o Cinema Novo, a obra de Iberê Camargo do período
final, a música popular com seus casos de amor e seus casos de
polícia, o imaginário da violência social e do mando autoritário em
Graciliano Ramos e Guimarães Rosa?
■ Ou, por fim, a larga aceitação de um ponto de vista teórico e
estético que condiciona a existência de complexidade (e criatividade)
literária à desrealização referencial, à recusa da disciplina
mimética, à indeterminação de sua matéria, não terá retardado a
incorporação distanciada e crítica da violência contemporânea? Flora
Süssekind, que num texto recente chegou à mais acabada formulação
desse ponto de vista, é taxativa: só se pode considerar uma obra
complexa quando sua formalização não se atém, ou não se rende, à
atração mimética e à representação contextual, mas a desestabiliza,
ou consegue sabotá-la, pela deriva, dissipação, perversão ou pelo
informe (os termos são dela) para potencializar as estratégias do
oblíquo21. Ou, ao contrário, não seria mais produtivo sugerir que tal
preceito da teoria contemporânea é o que tolhe o conhecimento da
experiência pela forma da poesia?
Sabemos que a poesia brasileira contemporânea sofre de verdadeiro complexo de
inferioridade diante do padrão ético-engajado do rap mais comercial,
profundamente ligado à experiência da pobreza. É claro que poemas como "Sítio"
e a poética de Corola são ainda raros e certamente não podem ser considerados
uma alternativa ao simultaneísmo tosco e ultra-realista desse gênero musical.
Porém, algo decisivo da realidade histórico-social não lhes escapa, nem a
poesia permanece impotente e sem voz na circunstância dos conflitos que a
afetam, os quais, como vimos, ela interioriza. Por último, para completar esse
quadro, não me furtarei a dizer que deveríamos dar o braço a torcer ao fato de
que a Indústria Cultural soube se apropriar, reelaborar e apresentar
internacionalmente esta sociedade nova e degradada que é o Brasil, na
atualidade consternadora de sua luta de classe selvagem e desqualificada rumo a
um patamar mais democrático de consumo. Terá sido mais sensível aos fenômenos
sociais resultantes do colapso da modernização do que os profissionais
exigentes da poesia e da teoria, quer dizer, nós mesmos que estudamos a poesia
contemporânea. Para nosso espanto, tenho de perguntar: a arte exigente tem
menos inquietação hoje no Brasil do que a vulgaridade da Indústria Cultural?
[1] "Tudo hoje é campo de experimentação ao mesmo tempo: das formas fixas aos
suportes e gêneros absolutamente mesclados, o que pressupõe uma estratégia que,
a princípio, não recusa nada, e de alto risco porque exige jogadores cada vez
mais treinados em quaisquer regras de jogos. [...] Mas o interessante é a
convivência civil desses registros, momentaneamente possível" (Ronald Polito.
"Notas sobre a poesia no Brasil a partir dos anos 70". Cacto. Poesia &
Crítica, São Paulo: nº 2, 2003, pp. 70-71). Como se vê, a simples constatação
vai se tornando gradativamente uma justificação, que converte o ponto de
chegada da poesia contemporânea numa espécie de destino.
[2] Tarso de Melo. Planos de fuga e outros poemas. São Paulo/Rio de Janeiro:
CosacNaify/7 Letras, 2005, e Ronald Polito. Terminal. Rio de
Janeiro: 7 Letras, 2006.
[3] De Ricardo Domeneck: Carta aos anfíbios. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005, e A cadela sem Logos. São Paulo/Rio de Janeiro: CosacNaify/
7 Letras, 2007.
[4] Frederico Barbosa. Louco no oco sem beiras. São Paulo: Ateliê Editorial,
2001.
[5] Idem. Contracorrente. São Paulo: Iluminuras, 2000. De Régis Bonvicino:
Ossos de borboleta. São Paulo: Editora 34, 1996, e Página órfã. São Paulo:
Martins, 2007.
[6] Fabio Weintraub. Novo endereço. São Paulo/Juiz de Fora: Nankin Editorial/
FUNALFA, 2002.
[7] Alberto Martins. Cais . São Paulo: Editora 34, 2002.
[8] Numa resenha de três livros de poesia lançados em 2007, Fabrício Carpinejar
diz: "A principal força da tripla aparição é a retomada da poesia engajada. Ela
se torna possível, desde que feita sem partido e finalidade. É distinta poesia
política, fundada na ironia inteligente, numa cadeia imaginária e solidária
entre os amigos e na readequação do verso à síncope urbana. Abruptos quando
necessário, mas sem sacrificar o lirismo". "Livros retratam a pulsão da capital
paulista". Caderno 2, O Estado de S. Paulo, 27/01/2008, p. D-2.
[9] Publicado pela primeira vez na revista Inimigo Rumor. Rio de Janeiro:
Viveiros de Castro Editora, nº 10, maio 2001, p. 54).
Republicado em outras revistas de poesia, em versões modificadas, foi incluído
como poema de abertura do livro Margem de manobra. Rio de Janeiro: Aeroplano
Editora, 2005, pp. 11-12.
[10] Claudia Roquette-Pinto. Corola. São Paulo: Ateliê Editorial , 2000.
[11] Ver a análise de Marcelo Sandmann, "Poesia em estado de sítio", que faz um
levantamento exaustivo das possibilidades referenciais do poema (Sebastião, São
Paulo: nº 2, 2002, pp. 82-87).
[12] Claudia Roquette-Pinto, Corola, p. 19.
[13] Idem, p. 49.
[14] Em depoimento na mesa-redonda "Poesia tem sexo, sexo tem poesia?" (Itaú
Cultural, SP, 22/11/ 2004), Claudia Roquette-Pinto declarou que os temas
básicos de sua poesia são amor e guerra.
[15] Não foi a impressão que na época teve Carlito Azevedo ao resenhar o livro:
"A metáfora é um instrumento perigoso, tanto pode ser nociva, ao transformar
qualquer coisa em qualquer coisa, anulando a diferença e especificidade de cada
coisa, como pode ser 'revelação', como se pela metáfora o que falasse fosse
justamente a voz da diferença. Felizmente, em Corola, há uma predominâcia deste
segundo tipo de metáfora, como no caso da estranha e forte 'árvore de fogo', ou
do 'buquê de ruídos' que as abelhas inauguram sobre uma flor de cerejeira. Mas
há também metáforas meramente retóricas, nada distantes do ornamentalismo
retórico da geração de 60: 'despir a esperança'/ como uma mortalha'// Arrisco
aqui que essa ultrametaforização do mundo tem relação absoluta com o fato da
autora colocar entre parênteses a experiência urbana" "A vida como metáfora",
no. com.br, 16 de novembro de 2000, no site www.no.com.br/revista, acessado em
14/03/2004.
[16] Ou como sugere Marcelo Sandmann: "A bala terá certamente sido disparada no
primeiro verso, para chegar a seu alvo no verso derradeiro, depois de uma
distensão temporal impressionante e uma trajetória que agrega/ desagrega todo o
complexo de espaços (naturais e sociais) da grande metrópole"(op. cit., p. 86).
[17] Bonvicino, Régis. Página órfã, op. cit., p. 84.
[18] Fabio Weintraub. "Caos moralizado". K Jornal de Crítica. São Paulo: nº 12,
junho 2007, p. 7.
[19] O que pode significar uma caixa assim, ainda por cima reforçada pela
gelada e entorpecedora rima "madrugada/ refrigerada": um quarto? um
apartamento? ou uma gaveta de necrotério?...
[20] Desenvolvi esse aspecto em "Revelação e desencanto: a poesia de Valdo
Motta". Novos Estudos, São Paulo: Cebrap, nº 70, novembro 2004, pp. 209-33.
[21] Diferentemente do ponto de vista que esboço aqui, Flora Süssekind, em
"Desterritorialização e forma literária. Literatura brasileira contemporânea e
experiência urbana" (Literatura e Sociedade. São Paulo: nº 8, 2005, pp. 60-81), apresenta um amplo painel de obras que desenvolvem
estratégias de abordagem da violência: "... é fundamentalmente um imaginário do
medo e da violência que organiza a paisagem urbana dominante na literatura
brasileira" (p. 65). Apesar da abrangência sociológica desse estudo, com muitos
dados paralelísticos, sou de opinião que o seu exemplário de espaços não-
representacionais e operações de desterritorialização refere-se à violência em
geral, sem considerar a particularidade histórica do fenômeno que se alastrou a
partir dos meados da década de 1980.