A técnica como capital e o capital humano genético
Em Naissance de la biopolitique, curso ministrado por Foucault no Collège de
France em 1979 e publicado como livro na França no final de 2004, é esboçada a
história do que o autor vai chamar de arte liberal de governar. Nessa história
que começa, de certa forma, em meados do século XVIII, uma transformação
importante é produzida: surge um novo princípio de limitação da arte de
governar que não é mais extrínseco à razão governamental2, como era o direito
com relação à razão de Estado. Naquela época surge a economia política,
argumenta Foucault, como princípio de limitação interna da nova razão de
governo. Em outras palavras, a razão governamental moderna passa a objetar o
excesso de governo. Assim, o princípio que vai se impor será: não demasiado
governo; é o princípio da frugalidade do governo: "A virtuous and laborious
people could always be 'cheaply governed' in a republican system" teria sido
a afirmação feita por Benjamin Franklin no final do século XVIII3. Franklin é
lembrado por Foucault como uma das figuras emblemáticas dessa concepção de
governo frugal; concepção central, por outra parte, para o liberalismo até
hoje. Dessa forma, dirá Foucault, o instrumento intelectual, a forma de cálculo
e de racionalidade que fez possível a autolimitação dessa razão governamental
na forma de uma autolimitação de fato, geral e intrínseca às operações próprias
do governo, não é o direito mas a economia política entendendo por economia
política, salientará o autor, de forma ampla e prática, todos os métodos de
governo suscetíveis de garantir a prosperidade de uma nação.
Contudo, argumenta Foucault, será nos Estados Unidos, mais concretamente na
Universidade de Chicago, na década de 1960, onde vai se produzir uma
transformação epistemológica essencial da análise neoliberal: o que vai mudar é
o que tinha sido o objeto, o domínio de objetos, o campo de referência geral da
análise econômica. O objeto da economia deixará de ser o estudo dos mecanismos
da produção, dos mecanismos da troca e dos fatores de consumo dentro de uma
estrutura social dada. O novo objeto passa a ser a análise e o estudo da forma
por meio da qual os indivíduos destinam recursos raros para fins alternativos
(para fins que concorrem entre si por esses recursos). A teoria do capital
humano, elaborada por representantes do neoliberalismo norte-americano ao que
Foucault chama, alternativamente, de "anarco-capitalismo" ou "anarco-
liberalismo" , vai ser a responsável por toda uma mudança na forma de pensar e
no tipo de relacionamento entre governantes e governados. Na opinião do autor,
ela representa nada menos que a reinterpretação em termos estritamente
econômicos de um domínio que até então era considerado como não econômico. A
economia vai tornar-se, assim, a ciência do comportamento humano. A sua tarefa
será, então, a análise do comportamento humano e da racionalidade inerente a
tal comportamento: "A economia", dirá Foucault, "não é mais a análise de
processos, é análise da racionalidade interna, da programação estratégica da
atividade dos indivíduos"4. Por isso, análises como a da teoria do capital
humano permitem problematizar de uma outra forma domínios que eram,
tradicionalmente, tratados pela sociologia ou pelas ciências sociais em geral:
a educação, a cultura, as migrações, a saúde, a criminalidade, o divórcio etc.
Com os neoliberais norte-americanos estamos, portanto, diante da generalização
ilimitada da forma econômica do mercado, a qual vai se tornar princípio de
inteligibilidade dos comportamentos individuais5.
[A teoria do capital humano] permite reintroduzir esses fenômenos [a
educação, a criação dos filhos, a saúde etc.], não como puros e
simples efeitos de mecanismos econômicos que ultrapassarão os
indivíduos e que, de certa forma, os atarão a uma máquina imensa na
qual eles não serão os amos; ela permite analisar todos esses
comportamentos em termos de empresa individual, de empresa de si
mesmo com investimentos e retornos6.
O CAPITAL HUMANO INATO E O CAPITAL HUMANO ADQUIRIDO
Se o capital humano é composto das capacidades, habilidades e destrezas com
valor econômico e se a maior parte dessas capacidades é o produto de um
investimento prévio feito pelo indivíduo, a família ou a sociedade, é verdade
também que existem capacidades com as quais os seres humanos já nascem,
capacidades inatas que constituem também uma forma de capital. Dito em outros
termos, segundo os teóricos do capital humano, todas as capacidades úteis dos
habitantes, sejam elas herdadas ou adquiridas, conformam o capital humano de
uma população, embora para os efeitos do cálculo econômico sejam as adquiridas
as que mais interessam. Na entrada "capital humano" da International
encyclopedia of the social sciences, na sua edição de 1968, o economista da
Universidade de Chicago Theodore W. Schultz, um dos fundadores da teoria do
capital humano e Prêmio Nobel de economia, vai dizer:
as capacidades herdadas de uma população são semelhantes às
propriedades originárias da terra no sentido de que são "dadas pela
natureza" em qualquer período de tempo significativo para a análise
econômica. As variações genéticas que poderiam afetar a distribuição
e nível dessas capacidades acontecem tão vagarosamente que não têm
relevância para a análise econômica. Da mesma forma parece ser
verdadeiro que a distribuição das capacidades herdadas dentro de uma
grande população mantém-se, aos efeitos práticos, constante ao longo
do tempo, e que a distribuição dessas habilidades é aproximadamente a
mesma seja o país pobre ou rico, atrasado ou moderno, sempre que a
população seja numerosa7.
Como contraponto, acrescentará Schultz,
o quadro é bastante diferente no caso das capacidades adquiridas que
têm valor econômico. A formação e manutenção dessas capacidades são
análogas à formação e manutenção do capital humano reproduzível.
Essas capacidades, evidentemente, são sujeitas à depreciação e
obsolescência. Além disso, a distribuição e o nível das capacidades
adquiridas podem ser alterados significativamente durante o período
de tempo que é relevante para a análise econômica. Historicamente,
elas têm sido alteradas profundamente nos países que desenvolveram
uma economia moderna8.
E, portanto, o nível de desenvolvimento dessa forma de capital constituído
pelas capacidades com valor econômico que os habitantes adquirem ao longo da
vida seria, então, o fator que permite explicar a grande diferença entre os
países pobres e ricos. Isso porque a quantidade de capital humano por
trabalhador varia muito entre os países, conclui o autor.
Sendo assim, e embora as capacidades inatas do homem tenham, em princípio,
menor relevância para os objetivos de avaliação do crescimento econômico que
motivaram as primeiras formulações da teoria do capital humano, é importante
analisar alguns dos desdobramentos que esse tipo de pensamento pode ter hoje
quando as mudanças tecnológicas e, em particular, os avanços da genética
parecem mudar o quadro descrito por Schultz algumas décadas atrás.
A QUESTÃO DO MELHORAMENTO DE CAPITAL HUMANO GENÉTICO
Resulta interessante notar a analogia que Schultz faz entre, por um lado, as
capacidades herdadas no homem e as propriedades originárias da terra e, por
outro, entre as capacidades adquiridas e o capital material reproduzível. Umas,
pelo fato de serem dadas pela natureza, mudam muito vagarosamente, o que as
torna pouco relevantes para a análise econômica. As outras estão sujeitas a
mudanças significativas num período menor de tempo, o que as torna muito mais
interessantes para esse fim aos olhos do economista norte-americano. O motor
dessas mudanças, o que determina o valor econômico dessas capacidades, é o
investimento (ou a falta dele e a sua conseqüente depreciação e obsolescência).
Para autores como Schultz e Gary Becker (outro fundador da teoria do capital
humano em Chicago, nos anos 1960, e também Prêmio Nobel de Economia, em 1992),
que criticam e devemos conceder que com razão a adoção acrítica do legado
conceitual da economia política clássica feita por muitos dos seus colegas e
contemporâneos modelos e conceitos formulados numa outra época e em resposta
a um outro conjunto de problemas9 , é preciso reavaliar, como já mencionamos
acima a respeito do trabalho, a importância e o significado econômicos de cada
um dos fatores de produção para a economia moderna.
Porém, não deixa de resultar curiosa a comparação feita por Schultz entre o que
para Ricardo eram "as energias produtivas da terra", "as energias originárias e
indestrutíveis do solo"10, e as capacidades inatas do homem. Ambas são
suscetíveis de serem tratadas de forma semelhante pela economia, segundo
Schultz, pelo fato de serem dadas pela natureza e, portanto, não serem
resultado de uma ação deliberada para produzi-las, como no caso do capital
material ou das capacidades adquiridas. Por outro lado, também em relação aos
efeitos da análise econômica, a distribuição das capacidades herdadas sempre
que dada uma grande população podia ser assumida como constante tanto ao
longo do tempo quanto entre os países. Como vimos, para Schultz estava claro
que o que poderia afetar o nível e a distribuição dessas capacidades eram as
variações genéticas, mas os efeitos destas só se manifestavam ao longo do tempo
e com lentidão tal que podiam ser perfeitamente deixadas de lado11.
É importante notar como desdobramentos desta questão que ainda estavam por vir
não escaparam ao olhar perspicaz, no final dos anos 1970, do professor de
História dos Sistemas de Pensamento do Collège de France. Falando sobre os
elementos constitutivos do capital humano no curso ditado em 1979, e já
referido acima, Foucault vai argumentar:
[N]as análises, eu diria clássicas, desses neoliberais, nas análises
de Schultz ou naquelas de Becker, por exemplo, é dito explicitamente
que a constituição do capital humano só tem interesse, e só se torna
pertinente, para os economistas, na medida em que esse capital se
constitui graças à utilização de recursos raros, e de recursos raros
cujo uso seria alternativo para um dado fim. Ora, é bem evidente que
não temos que pagar para ter o corpo que temos, ou que não temos que
pagar para ter o equipamento genético que é o nosso. Isso não custa
nada. Tudo bem, isso não custa nada enfim, precisamos ver...12.
Não havia dúvidas para Foucault de que o que interessava aos economistas de
Chicago em termos de constituição do capital humano eram as capacidades
adquiridas, isto é, a constituição mais ou menos voluntária de um capital
humano ao longo da vida dos indivíduos. As capacidades adquiridas através do
investimento são o que aumenta o valor do capital humano, diferenciando os
seres humanos em função de suas habilidades e destrezas específicas, ou seja,
tornando cada indivíduo possuidor de uma combinação específica de recursos,
depositário não apenas de uma certa quantia, mas de uma certa composição de
capital humano, que, em função dos benefícios oferecidos pelo mercado, deverá
escolher onde melhor "aplicar". Certamente estava claro que era do lado dos
elementos adquiridos que se colocavam todos os problemas e os novos tipos de
análise que eram apresentados pelos neoliberais norte-americanos13. Em outras
palavras: as capacidades adquiridas tinham interesse econômico por serem
recursos raros para fins alternativos. E, como vimos, as capacidades inatas,
por sua vez, eram tomadas em média como uma constante a ser desconsiderada, e
isso também não escapava a Foucault. No entanto, e embora diante dos avanços da
genética a questão dos elementos hereditários do capital humano não tivesse
ainda emergido como problema, "alguma coisa está a caminho de nascer", alguma
coisa "que poderia ser, conforme vocês prefiram, interessante ou inquietante",
anunciará Foucault durante seu curso:
A genética mostra bem que um número muito mais considerável de
elementos que nós não podíamos imaginar até o presente está
condicionado pelo equipamento genético que nós temos recebido de
nossos ascendentes. Ele permite em particular estabelecer, para um
indivíduo dado, quem ele é, as probabilidades de contrair tal ou qual
tipo de doença, numa idade dada, durante um período dado da sua vida,
ou de uma forma qualquer sem importar qual momento da sua vida. Dito
de outra forma, um dos interesses atuais da aplicação da genética às
populações humanas é a de permitir reconhecer os indivíduos em risco
e o tipo de risco que os indivíduos correm ao longo de toda a sua
existência. [Do momento] que podemos estabelecer quem são os
indivíduos em risco, e quais são os riscos de que a união de
indivíduos em risco produza um indivíduo que terá ele próprio tal e
tal característica em relação ao risco do que ele será portador,
podemos perfeitamente imaginar isto: que os bons equipamentos
genéticos vão se tornar uma coisa rara, e que na medida em que serão
uma coisa rara, isso pode perfeitamente estar, e é totalmente normal
que esteja, no interior dos circuitos e do cálculo econômico, isto é,
das escolhas alternativas14.
Como podemos perceber, uma nova questão é colocada: o problema da raridade dos
bons equipamentos genéticos e, portanto, o problema de como reproduzi-los.
Porém, não basta dispor de um bom equipamento genético. É preciso achar alguém
disposto também a ter um descendente que conte com um equipamento genético
igual ou melhor para poder garantir o resultado. Ora, como bem destaca
Foucault, produzir uma criança cujo capital humano inato seja elevado tem
implicações sociais e econômicas várias. Da mesma forma que, para aumentar ao
longo da vida as capacidades adquiridas da criança seu capital humano e fonte
de rendas futuras , serão precisos investimentos consideráveis. Neste caso,
serão necessários investimentos prévios para poder achar alguém com um bom
material genético que queira ser "co-produtor" desse capital humano futuro.
Portanto, será preciso trabalhar o suficiente e ter uma renda e um status
social também suficientemente elevados para poder achar um parceiro cujo
capital humano seja também considerável. "Preciso salientar, no entanto", dirá
Foucault, "que não estamos de forma alguma aqui beirando a zombaria: trata-se
simplesmente de uma forma de pensar ou de uma espécie de problemática que
atualmente está em estado de emulsão15."
No entanto, para o filósofo, a inquietação em relação à genética não deve ser
pensada nos termos tradicionais do racismo. Não seria esse o problema que se
coloca para a sociedade atual com os desenvolvimentos recentes da genética.
Para Foucault, o que encontraria relevância política em relação à genética na
atualidade é o problema do melhoramento do capital humano dos indivíduos:
[N]o momento que uma sociedade formule a si mesma o problema do
melhoramento do seu capital humano em geral, não pode não aparecer o
problema do controle, da filtragem, do melhoramento do capital humano
dos indivíduos, em função, certamente, das uniões e das procriações
que resultarão [...]. E é portanto em termos de constituição, de
crescimento, de acumulação, de melhoramento do capital humano que se
coloca o problema político da utilização da genética. Os efeitos,
digamos, racistas da genética são certamente algo que é preciso temer
e que está longe de estar superado. Porém, não me parece que seja o
eixo político principal na atualidade16.
A QUESTÃO DA MUDANÇA TECNOLÓGICA
Antes de encerrar sua aula de 14 de março de 1979, na qual introduziu o tema do
neoliberalismo norte-americano, Foucault chamará a atenção novamente para a
importância de considerar as derivações lógicas e as conseqüências políticas de
um tipo de pensamento como o que estava sendo difundido nos Estados Unidos por
aqueles economistas e professores em Chicago. Dirá a esse respeito:
podemos sem dúvida varrer com um gesto esse gênero de análise, ou em
todo caso praticar a seu respeito a pura e simples atividade de
denunciação. No entanto, acredito que isso seria ao mesmo tempo falso
e perigoso. Com efeito, esse tipo de análise permite em primeiro
lugar revisar em parte um certo número de fenômenos que têm sido
sinalizados há um certo tempo [...] e aos quais não temos dado
exatamente o status suficiente. É o problema do progresso técnico
[...]17.
Embora Foucault não explicite a referência, esse tema tinha preocupado a
Schultz de forma particular, a ponto de ter dedicado o segundo capítulo do seu
livro O capital humano: investimento em educação e pesquisa (Investment in
human capital .The role of education and research), publicado em 1971, ao que
ele vai chamar de "A questão não resolvida das mudanças tecnológicas". O
problema que ali se coloca é justamente o da extensão do âmbito ao qual se
aplica o conceito de tecnologia e a necessidade de incluir a mutação técnica
dentro da análise econômica. Schultz vai criticar seus colegas economistas pelo
uso restrito que eles vêm fazendo do conceito de tecnologia, aplicando-o apenas
aos "bens de capital", isto é, a estruturas e equipamentos, deixando assim de
fora da mutação técnica a terra e o homem. Ao mesmo tempo vai criticar a
prática estabelecida pela economia de abordar a mutação técnica como parte de
um domínio que se situa no exterior da teoria econômica. Ele vai reclamar que,
embora seja óbvio que o progresso na ciência e na tecnologia tivesse se tornado
uma das principais fontes do crescimento econômico, a economia continuava
tratando a mutação técnica como se fosse um processo exógeno, que tinha a ver
com decisões tomadas em outros âmbitos e por técnicos, e não por economistas. A
origem desse problema é novamente atribuída à falta de revisão dos fundamentos
da teoria econômica. Como já foi apontado, desde o começo os economistas
abstraíram as mutações ocorridas na tecnologia, mas essa simplificação, que era
perfeitamente aceitável quando a estrutura conceitual da economia política foi
erigida, vai se tornar totalmente inaceitável numa época em que o crescimento
econômico depende mais e mais da mutação técnica. Schultz sintetiza isso com as
seguintes palavras:
A tradição teórica da economia é abstrair-se da mutação técnica; um
dos pressupostos básicos da formulação clássica da teoria econômica é
que a tecnologia permanece constante. Para os primeiros economistas,
isto era uma engenhosa simplificação; e a teoria que daí resultou
era, em geral, relevante para os problemas então sob consideração.
Mas, no momento em que precisamos lidar com o moderno crescimento
econômico, de há muito que se tornou óbvio que a suposição de que a
tecnologia permanece constante é absolutamente contrária aos fatos do
crescimento moderno. Não obstante, a despeito da forte prova empírica
[...], a mutação técnica ainda não se transformou numa componente
integral da teoria econômica. Permanece à parte, exógena, e essa
marginalização é uma das principais razões por que a teoria do
crescimento é de tão pouca relevância na explanação do crescimento
econômico18.
A proposta de Schultz para sair desse impasse será pela via da integração da
mutação técnica à teoria econômica, o que se conseguiria transformando, para os
fins da análise econômica, a tecnologia em uma forma de capital. Mas antes de
avançar nessa proposta de Schultz e analisar suas implicações, precisamos
voltar à primeira crítica que ele faz a seus colegas pelo uso de um conceito de
tecnologia restrito aos "bens de capital". A respeito da concepção clássica da
economia ele argumentará:
Embora esta abordagem inclua instrumentos, aparelhos e equipamentos,
exclui, como regra, entidades biológicas tais como animais e plantas
e outros organismos que entram como itens de receita e de energia no
processo de produção. [...] Enquanto todas essas entidades estão
sujeitas à mutação técnica, no sentido que, em última instância, cada
entidade existente pode ser substituída por uma outra com atributos
técnicos diferentes, o processo de mutação técnica consiste numa
porção de mutações marginais da estrutura de capital historicamente
adquirida, incluindo-se a estrutura das ambiências domésticas19.
O que Schultz vinha a propor nesse capítulo inicial do seu livro sobre capital
humano o capítulo seguinte será o central, e reproduz quase sem alterações o
seu célebre artigo publicado em The American Economic Review de 1961,
"Investment in human capital" era a adoção de um conceito englobante de
tecnologia que incluísse os atributos técnicos de todos os fatores e de todos
os produtos. A idéia do autor era que esse conceito levasse em conta não apenas
as propriedades técnicas do tradicionalmente classificado como bens de capital,
mas também as propriedades técnicas originárias da terra no sentido ricardiano.
Para Schultz, as propriedades técnicas da terra são parte integral de uma dada
tecnologia, e considerá-las como tal era a forma que ele via de estender a
análise econômica ao âmbito das diferenças técnicas, neste caso, entre parcelas
de terra. Com o mesmo critério, e seguindo o mesmo raciocínio, deviam ser
consideradas as capacidades inatas dos seres humanos no fim das contas, eram
igualmente dadas pela natureza. Assim, as capacidades inatas dos homens
passavam a ser integradas também dentro da economia como uma forma de capital.
Um conceito abarcante de tecnologia presumivelmente incluiria também
[além das propriedades técnicas originárias do solo] as capacidades
inatas do homem. Estas, também dadas pela natureza e por períodos de
tempo, são também relevantes para a análise econômica, e as
diferenças em tais capacidades no seio de uma população qualquer mais
vasta estão sujeitas a mudanças significativas20.
Ora, certamente deve chamar a atenção do leitor que Schultz, pouco tempo depois
de afirmar a quase irrelevância econômica das capacidades inatas do homem no
seu artigo de 1968 para a International Encyclopedia of the Social Sciences,
pareça estar afirmando o contrário em seu livro de 1971. Aqui se abre, no
entanto, uma janela interessante nesse tipo de pensamento que parece nos
permitir ver além das suas proposições imediatas. O que importa a Schultz e,
segundo ele, deve ser motivo de interesse para a economia não são as
capacidades em si mesmas no caso, as capacidades naturais enquanto tais ,
mas as mudanças que as capacidades venham a apresentar e sejam elas mudanças
originadas pela natureza ou, mais provavelmente, pelo investimento. De certa
forma, é colocada em xeque aqui a categorização rígida que dividia as
capacidades dos homens entre inatas e adquiridas, deslocando, assim, a ênfase e
colocando-a na própria mudança. Seja como for que aconteça, será a mudança o
objeto de estudo dos economistas e, como vemos, dessa forma, o objeto da
análise econômica estende-se ainda mais. Será possível, portanto, incorporar
mudanças prévias ao nascimento? Mudanças no nível genético que visem alterar
futuras capacidades dos homens ainda antes de eles nascerem?
Na verdade, aqui tocamos num terreno no qual Schultz não avança21, e tampouco
Foucault. Como vimos, a preocupação que suscita neste último uma forma de
pensar como a proposta pela teoria do capital humano diante dos avanços da
genética, uma certa forma de colocar os problemas em termos de destinação de
recursos raros para fins alternativos, é uma preocupação centrada, claramente,
nos aportes que a genética pode fazer em termos de informação, e nos efeitos
sociais e econômicos que podem devir por esse "saber mais". Dito em outras
palavras, o modo como Foucault chama a atenção para o problema político da
genética está colocado em termos de informação e não de intervenção. Porém, há
quase trinta anos desse seu assinalamento, e com quase trinta anos a mais de
avanços na genética, será exagero pensar em termos de intervenção genética
quando estamos tratando de um assunto como as capacidades humanas, assunto que,
por outra parte, já foi colonizado pela economia? Ou, dito de outra forma,
quando as capacidades humanas têm valor econômico, os investimentos para
produzi-las podem estar também no plano da genética?
Sem a pretensão, nem a possibilidade, de discutir aqui o que podem e o que não
podem oferecer hoje, ou num futuro próximo, a genética e a bioengenharia em
termos de melhoramento das capacidade humanas com valor econômico, o que nos
motiva a colocar as questões acima tem, provavelmente, uma origem semelhante ao
que parece ter levado Foucault a centrar sua atenção nas análises dos
neoliberais americanos. O que procuramos mostrar aqui é como as implicações
lógicas de uma formulação como a da teoria do capital humano abrem espaço para
pensar o humano como uma forma de capital se entendemos por "humano" as
características próprias do homem, entre elas, as capacidades, habilidades e
destrezas dos seres humanos que interessam à economia e permitem pensar o
humano como uma forma de capital inclusive antes de o ser humano nascer. Dirá
Schultz:
Desta forma, a idéia de mutação técnica diz respeito a atributos
técnicos outros que não as propriedades originárias da terra e as
inatas capacidades de trabalho. Mas o investimento para melhorar o
solo e as habilidades adquiridas do homem podem alterar os atributos
técnicos da terra e do homem. Daí, através do investimento, eles
também estão sujeitos a mudanças técnicas22.
Naturalmente, Schultz não devia ter em mente a possibilidade de induzir
mutações genéticas quando escrevia aquelas linhas há mais de três décadas.
Porém, quando coloca a questão da alteração das propriedades originárias da
terra e, da mesma forma e com o mesmo objetivo, afirma a possibilidade de
alteração das capacidades de trabalho do homem, parece legítimo perguntar: mas
qual é o limite? Há limite a uma formulação como essa quando o que está em jogo
é uma fonte potencial de valor econômico? Dito de outra forma, quando ele
afirma que o homem é sujeito de mudanças técnicas através do investimento, qual
é a barreira que impedirá que esse investimento seja feito antes mesmo de esse
homem nascer? Ou ainda, com que argumento um pai disposto a investir no
aprimoramento do capital humano do seu futuro filho poderá ser dissuadido23?
Contudo, é fácil imaginar aqui a resposta que daria um Schultz ou um Becker a
essas questões: essas são considerações de tipo moral, alegariam, que não dizem
respeito ao tipo de trabalho científico que eles fazem nem ao objeto de estudo
da ciência econômica. Mas quando a economia pretende, como ciência, estender
seu objeto a toda a atividade humana, pretende ser a via de inteligibilidade
para compreender a racionalidade interna da ação humana ou, em outros termos,
se pretende a ciência do comportamento humano24, sobra espaço para outras
instâncias como as da política ou da ética? Mais ainda, o que acontece quando
os conceitos inspirados em teorias científicas se tornam valores sociais25? O
que acontece quando certos discursos "científicos" se tornam prescritivos e
não apenas descritivos ou explicativos do "bom funcionamento do social"? O
que acontece quando as noções de valor econômico e valor moral se aproximam
demasiadamente, se entrelaçam, se tornam indistinguíveis? Assim, dispor de um
alto estoque de "capital humano" é apenas economicamente bom? Desenvolver as
capacidades individuais que permitirão a inserção no mundo do trabalho é apenas
desejável do ponto de vista social? E, se for, podemos afirmar que é moralmente
bom, que é eticamente, digamos, "responsável" para usarmos uma formulação
cara ao mundo da "ética empresarial"?
Voltemos, antes de concluir, à proposta de Schultz de integrar a mutação
técnica à teoria econômica e revisemos rapidamente algumas de suas implicações.
Em primeiro lugar, para que a mutação técnica deixe de ser exógena à economia,
o economista sugere tratar todas as técnicas, novas e velhas, como formas de
capital ou, em outras palavras, transformar a tecnologia em capital para os
objetivos da análise econômica; isto é, determinar o valor econômico das
entidades que contribuem para a produção, quaisquer que sejam seus atributos
técnicos o que significa, claro, trazer para o campo econômico a tarefa de
avaliar a contribuição de cada atributo específico das entidades e, para isso,
a necessidade de desenvolver instrumentos de medida e quantificação, na forma
de técnicas e modelos econométricos, que permitam mensurar seu desempenho em
termos de resultados econômicos. Em segundo lugar, estender o conceito das
indústrias que produzem os "bens de capital" para além do que foi entendido
tradicionalmente como capital. Ou seja, tratar boa parte da pesquisa
científica, e também uma grande parte da educação e de outras atividades que
geram capacidades com valor econômico, como "indústrias" que produzem novas
formas de capital mais eficientes do que as velhas formas de capital. Em
resumo, o que Schultz propõe, como é sugerido no subtítulo do seu livro, é
redefinir o papel da pesquisa e da educação como "indústrias" e incluí-las
estas numa análise global do processo de crescimento econômico.
Quais são as implicações dessa proposta? Principalmente, podemos resumir, uma
redefinição dos conceitos no interior do domínio da economia. Schultz, no
entanto, vai apontar as seguintes: 1. a técnica passa a ser pensada como
capital: "a técnica não é nada mais, nada menos, do que uma unidade de
capital"; 2. enquanto "um feixe de técnicas que representam uma tecnologia é
uma estrutura de capital"; 3. e "uma mutação técnica é uma alteração de uma
estrutura de capital"; 4. pelo que "uma nova e mais eficiente técnica acarreta
um investimento, na formação desse tipo de capital". Assim, "a longa e
duradoura posição de se distinguir, tentativamente, entre técnicas e o capital
vai por águas abaixo"26. Mas, o que é mais importante, a carga analítica recai
na economia, isto é, recai a partir dali nos materiais conceituais
("investimento", "capital" etc.) com que se constrói o edifício da ciência
econômica, e não, curiosamente, nos aspetos propriamente técnicos das mudanças.
Isto é, dito com outras palavras palavras que dificilmente soarão estranhas
para alguém que olhe o mundo hoje : as decisões técnicas a respeito das
mudanças tecnológicas passam a ser pensadas prioritariamente em termos de
investimentos e retornos ao investimento.
Fica claro, portanto, que a questão do melhoramento do capital humano genético
é apenas um aspecto (inclusive, ainda por vir) de uma problemática maior que se
abre quando uma forma de pensar o problema econômico se expande a outras áreas
e objetos aos quais é aplicada a racionalidade interna estabelecida pela
própria economia. A questão da mutação técnica já faz parte, indubitavelmente,
do corpo duro das doutrinas que explicam hoje o crescimento econômico pela via
da inovação e que estimulam os investimentos em ciência e tecnologia para mudar
e melhorar produtos e processos de produção. Quando conceitos como "capital
humano", definidos dentro do âmbito de uma teoria científica, passam a ser
difundidos como uma forma de as pessoas pensarem a respeito de suas
capacidades, habilidades e destrezas, mas também como uma forma de se pensarem
(e pensarem suas vidas) só a partir das capacidades com as quais elas podem
mais diretamente se inserir no mundo social hoje, isto é, através do jogo do
intercâmbio econômico; quando essas capacidades raras se tornam por esse mesmo
motivo desejáveis e, portanto, passam a orientar uma série de ações, uma série
de esforços ("investimentos") dirigidos a obtê-las, a melhorá-las, a atualizá-
las, a incrementá-las; quando, portanto, esses conceitos passam a ser
internalizados como valores que orientam as condutas, como um ethos ao qual
podemos caracterizar chamando-o de "empresarial"27 ; talvez, nesse momento,
seja oportuno reler com maior cuidado uma das frases de Schultz citadas acima,
tentando analisar seus possíveis desdobramentos quando, como agora, o que está
em questão são "entidades biológicas" como os seres humanos: "Enquanto todas
essas entidades estão sujeitas à mutação técnica, [...] em última instância,
cada entidade existente pode ser substituída".
[1] Este artigo faz parte do trabalho de pesquisa "Da ética protestante ao
ethos empresarial: 'capital humano' e 'empreendedorismo' como valores sociais"
realizado no âmbito do meu pós-doutorado no Programa de Formação de Quadros do
Cebrap. Agradeço especialmente a José A. Giannotti, coordenador, e aos colegas
do programa; e gostaria de agradecer também a leitura crítica e os comentários
de Maria Carlotto (Cebrap), Pedro Ferreira, Anderson Santos, Rafael Alves da
Silva e Diego Vincentin, do CTeMeUnicamp.
[2] Por "razão governamental" Foucault entende os tipos de racionalidade que
atuam nos procedimentos através dos quais a conduta dos homens é dirigida por
meio de uma administração estatal. Por outra parte, ao falar em "arte de
governar" deixa claro que não está tratando da prática do governo real, mas da
maneira deliberada, pensada, de governar melhor e, ao mesmo tempo, da reflexão
a respeito da melhor maneira de governar (Cf. Foucault, Michel. Naissance de la
biopolitique. Paris: Gallimard, 2004, pp. 4, 337)
[3] Franklin teria feito essa afirmação em 1778, em carta a Charles de
Weissenstein (Cf. Ibidem, pp. 30, 49 n.1, 327).
[4] Ao mesmo tempo, para Foucault, a teoria do capital humano representa um
avanço da análise econômica ao interior do seu próprio domínio (ibidem, p.
229). Esta teoria, ao criticar a economia política clássica pela forma em que
conceituou o trabalho, propõe a sua re-introdução no campo da análise econômica
a partir do ponto de vista de quem trabalha (Cf. Santos, Laymert Garcia dos.
"Apresentação". In: López-Ruiz, Osvaldo. Os executivos das transnancionais e o
espírito do capitalismo: capital humano e empreendedorismo como valores
sociais. Rio de Janeiro: Azougue, 2007, pp. 16-18).
[5] "Eu acredito que temos ali não apenas a conseqüência pura e simples da
projeção numa ideologia, ou numa teoria econômica, ou numa opção política, das
crises atuais do capitalismo. Parece-me que o que vimos nascer ali é, por um
período talvez breve ou talvez um pouco maior, algo como uma nova arte de
governar, ou em todo caso uma certa renovação da arte liberal de governar"
(Foucault, op. cit., p. 232).
[6] Ibidem, p. 237. Sobre a difusão da forma "empresa" como parte constituinte
de um novo ethos na sociedade contemporânea, ver López-Ruiz, Osvaldo. "Ethos
empresarial: el 'capital humano' como valor social". Estudios Sociológicos,
vol. XXV, n. 74, mai-ago 2007, pp. 399-425.
[7] Schultz, T. W. "Capital, human". In: Sills, David L. (ed.). International
encyclopedia of the social sciences. New York: Macmillan & Free Press,
1968, pp. 278-279.
[8] Ibidem, p. 279.
[9] Os primeiros economistas assumiram como uma de suas suposições fundamentais
que o estado das artes permanecia constante. Na época de Smith ou de Ricardo,
ter começado por abstrair-se das mudanças no terreno do estado das artes
constituiu, sem dúvida enfatizará Schultz , "um golpe de mestre". Mas, nesse
mundo, as mudanças ocorriam com uma lentidão glacial, concluirá Schultz: "a
mutação técnica podia ser ainda tomada como um evento não-usual, pedindo apenas
um breve capítulo 'Sobre a Maquinaria' [alude aqui aos Princípios de economia
política e tributação, de Ricardo, de 1817]. O progresso econômico estava
enraizado na divisão do trabalho e na ampliação de um acervo de capital
'homogêneo', com algum retardamento ramificado advindo dos rendimentos
decrescentes em relação à terra" (Schultz, T.W. O capital humano: investimento
em educação e pesquisa. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973, p. 23).
[10] Ricardo, David. Principios de economía política y tributación. México:
Fondo de Cultura Económica, 1994 [1817], pp. 51-52.
[11] Por outro lado, estudos empíricos como o de Leibowitz concluiriam que: "A
educação da mãe estava significativamente relacionada com o QI [quociente de
inteligência] do filho, enquanto a do pai não, o que indicaria que os
investimentos da família [home investments: principalmente, o tempo dedicado
pela mãe ao cuidado dos filhos] mais do que fatores totalmente genéticos estão
por trás dessa relação" (Leibowitz, Arleen. "Home investment in children",
Journal of Political Economy, vol. 82, n. 2-II, mar.-abr. 1974, p. 129). Vale a pena lembrar que outros trabalhos dedicados ao que foi
chamado de "economia da fertilidade" foram publicados em dois suplementos
especiais do Journal of Political Economy, tendo Schultz como editor. Esses
suplementos "New economic approach to fertility" (vol. 81, n. 2-II, 1973) e
"Marriage, family human capital, and fertility" (vol. 82, n. 2-II, 1974)
trazem contribuições de Schultz e Becker como: "The value of children: an
economic perspective", do primeiro, e "On the interaction between quantity and
quality of children", do segundo em co-autoria com H. Gregg Lewis.
[12] Foucault, op. cit., p. 233.
[13] "Formar o capital humano, formar portanto essas espécies de competência-
máquina que vão produzir a renda, enfim, que vão ser remuneradas por uma renda,
isso quer dizer o quê? Isso quer dizer, claramente, fazer o que é chamado de
investimentos educativos" (Ibidem, p. 235).
[14] Ibidem, p. 234 (grifos nossos).
[15] Ibidem.
[16] Ibidem, pp. 234-235.
[17] E continua: "ou ainda daquilo que Schumpeter chamava da 'inovação'"
(ibidem, p. 237, grifos nossos).
[18] Schultz, op. cit., pp. 21-22.
[19] Ibidem, p. 20.
[20] Ibidem, p. 19.
[21] Schultz não avança, mas Becker flerta. Embora não sugerindo o
aprimoramento do capital humano pela via da intervenção genética, num artigo de
1973 ele afirma: "se a seleção natural genética e o comportamento racional se
reforçam entre si na produção de respostas mais velozes e mais eficientes às
mudanças no ambiente, talvez essa função preferencial comum tenha evoluído ao
longo do tempo pela seleção natural e a escolha racional como função
preferencial melhor adaptada à sociedade humana" (Michael, R. T. e Becker, G.
"On the new theory of consumer behavior". Swedish J. Econ., vol. 75, n. 4, dez.
1973, pp. 378-96). Já em 1976, Becker vai publicar "Altruism,
egoism, and genetic fitness: economics and sociobiology" (Journal of Economic
Literature, vol. 14, n. 3, pp. 817-826), no qual argumenta que
tanto a economia como a sociobiologia deveriam combinar as técnicas analíticas
dos economistas com as técnicas em genética populacional e entomologia da
sociobiologia. Critica também os economistas por não terem incorporado os
efeitos da seleção genética e, antes de propor um "modelo econômico do
altruísmo", afirma: "Eu acredito que uma análise mais poderosa pode ser
desenvolvida ao juntar a racionalidade individual da economia à racionalidade
de grupo da sociobiologia" (p. 818).
[22] Schultz, op. cit., p. 19.
[23] Embora o assinalamento de Foucault esteja, como argumentamos, focalizado
nas implicações sociais e econômicas da informação genética, ele tem o mérito
de antecipar em muitos anos, como bem lembrará Laymert Garcia dos Santos, a
agenda das discussões contemporâneas sobre biogenética: "De certo modo,
antecipando o que viria e, ao mesmo tempo, demarcando o terreno a partir do
qual a bioengenharia do humano não só se torna possível como socialmente
necessária e individualmente desejável, vale dizer, portanto uma aspiração
social irreprimível, Foucault permite compreender por que numa perspectiva
neoliberal 'não há alternativa' senão deixar que o mercado decida pela
manipulação do genoma humano. Mais ainda: permite perceber que ele certamente o
fará, apesar de todas as objeções dos humanistas e das salvaguardas que os
especialistas em ética possam colocar" ("O futuro do humano". Relatório 2005 do
Projeto de Pesquisa Capes, São Paulo.p. 9 [mimeo] grifos nossos).
[24] Se houver qualquer dúvida, basta ler a introdução a "A theory of marriage"
de Becker, em que afirma: "Em anos recentes, os economistas têm usado a teoria
econômica mais audazmente para explicar o comportamento fora do setor do
mercado monetário, e um crescente número de não-economistas têm seguido o
exemplo deles. Como resultado, a discriminação racial, a fertilidade, a
política, o crime, a educação, a tomada de decisão estatística, as situações
adversas, a participação trabalhista, os usos do tempo de 'lazer', e outros
comportamentos são muito mais bem compreendidos. De fato, a teoria econômica
pode bem estar a caminho de prover um marco unificado para todo comportamento
que envolva recursos raros, não-comercializáveis tanto quanto comercializáveis,
não-monetários, tanto quanto monetários [...]" (Journal of Political Economy,
vol. 81, n. 4, pp. 813-814 grifo do autor).
[25] Desenvolvemos nosso argumento de que conceitos que são formulados
inicialmente dentro de uma teoria econômica como, por exemplo: "capital
humano", "inovação", "empreendedorismo" etc. passam a ser difundidos depois
como valores sociais em: López-Ruiz, Os executivos das transnacionais e o
espírito do capitalismo, op. cit.; "O jovem rural: empreendedor e
capitalista?", Marco Social, n. 8, set. 2006, pp. 18-21; "¿Somos todos capitalistas? Del obrero al trabajador-investidor".
Nueva Sociedad, n. 202, mar.-abr. 2006 , pp. 87-97.
[26] Schultz, op. cit., 28.
[27] Conforme propusemos em "Ethos empresarial", op. cit.