Poder, redes e ideologia no campo do desenvolvimento
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Há sempre crises conceituais se desdobrando internamente ao campo do
desenvolvimento e da cooperação técnica, promovendo momentos profícuos para
realizar mudanças nas formações discursivas relacionadas. Se quisermos ir além
de teorias e conceitos reciclados, novas formulações precisam se basear em uma
crítica do campo maior das atividades de desenvolvimento1. Após várias décadas
de proeminência do discurso sobre desenvolvimento, não há mais lugar para
inocência. Inspirado pelo conhecido argumento de Durkheim2 segundo o qual
religião é a sociedade adorando a si própria, entendo desenvolvimento como a
expansão econômica adorando a si mesma. Isso significa que precisamos conhecer
o sistema de crença que subjaz a essa devoção assim como as características do
campo de poder que a sustenta.
Poder, uma noção central deste texto, tem muitas definições. Minha própria
concepção baseia-se na combinação de três fontes diferentes. Para Richard
Adams3, poder é o controle que um coletivo possui sobre o ambiente de outro
coletivo. Das diversas visões de Max Weber, reterei aquela do poder como a
capacidade de incitar pessoas a fazerem o que não querem. Já a noção de poder
estrutural, de Eric Wolf4, enfatiza a capacidade que forças e relações
históricas especialmente aquelas que definem acesso ao trabalho social têm
de criar e organizar cenários que constrangem as possibilidades de ação das
pessoas e de especificar a direção e distribuição de fluxos de energia. Poder,
assim, refere-se à capacidade (a) de ser sujeito do seu próprio ambiente, de
ser capaz de controlar seu próprio destino, quer dizer, de controlar o curso da
ação ou dos eventos que manterão a vida como está ou a modificarão; ou (b) de
impedir as pessoas de se tornarem atores "empoderados". Já que o
desenvolvimento sempre implica transformação5 e tipicamente ocorre por meio de
encontros entre insiders e outsiders localizados em posições de poder
diferentes, as iniciativas de desenvolvimento estão ancoradas e atravessadas
por situações em que desigualdades de poder abundam. A dificuldade de realizar
mudanças internamente à chamada "comunidade de desenvolvimento" está
intimamente relacionada ao fato de a mesma ser um campo de poder.
DESENVOLVIMENTO COMO CAMPO DE PODER
Bourdieu6 define um campo como uma série de relações e inter-relações baseada
em valores específicos e práticas que operam em dados contextos. Um campo é
heterogêneo por definição; ele é feito de diferentes atores, instituições,
discursos e forças em tensão. Dentro de um campo, tudo faz sentido em termos
relacionais por meio de oposições e distinções. Estratégias de cooperação ou
conflito entre atores determinam se uma doutrina particular é hegemônica, não
obstante seus sucessos ou falhas7.
O campo do desenvolvimento é constituído por atores que representam vários
segmentos de populações locais (elites locais e líderes de movimentos sociais,
por exemplo); empresários privados, funcionários e políticos em todos os níveis
de governo; pessoal de corporações nacionais, internacionais e transnacionais
(diferentes tipos de empreiteiros e consultores, por exemplo); e pessoal de
organizações internacionais de desenvolvimento (funcionários de agências
multilaterais e bancos regionais, por exemplo). As instituições são parte
importante desse campo; elas incluem vários tipos de organizações
governamentais, organizações não-governamentais, igrejas, sindicatos, agências
multilaterais, entidades industriais e corporações financeiras.
A estrutura e a dinâmica de cada campo de desenvolvimento estão marcadas por
diferentes capacidades de poder e interesses que são articulados por meio de
processos históricos de estruturação de redes. "Desenvolvimento" abarca
diferentes visões e posições políticas, variando do interesse em acumulação de
poder econômico e político a uma ênfase em redistribuição e igualdade. Em
conseqüência, lutas de poder são comuns entre atores, internamente às
instituições e entre elas. Nós de poder diferenciado operam dentro de uma rede
de relações e se expressam concretamente em disparidades existentes entre,
digamos, as capacidades e ações do Banco Mundial e aquelas de uma pequena ONG
na Índia. Barros8, no seu estudo de movimentos e políticas ambientais globais,
cunhou a noção de "agentes nucleares", aqueles com mais poder para influenciar
a configuração e tendências de um campo (no seu caso, as Nações Unidas, o Banco
Mundial e as ONGs mais influentes). Os atores e as instituições mais poderosos
do campo de desenvolvimento são designados, às vezes pejorativamente, pelo
rótulo "indústria do desenvolvimento". Eles se empenham na reprodução do campo
como um todo, já que seus próprios interesses são intimamente conectados à
existência do campo. Os atores e instituições menos poderosos são grupos locais
vulnerabilizados por iniciativas de desenvolvimento que destroem as relações
entre povos indígenas, seus territórios e culturas como os reassentamentos
forçados para a construção de represas e provêem o cenário mais óbvio da
vulnerabilidade de populações locais vis-à-vis ao "desenvolvimento". A natureza
da distribuição de poder dentro do campo do desenvolvimento dependerá dos
processos por meio dos quais as redes são formadas e das características das
intervenções institucionais decorrentes do drama do desenvolvimento.
CRIANDO REDES E CONSÓRCIOS: A CONSTRUÇÃO DE INSTITUIÇÕES
Redes relacionadas à expansão e ao crescimento econômicos não são novas. Desde
a Revolução Industrial, por exemplo, elas têm operado na construção de projetos
de infra-estrutura de grande escala (PGEs), como canais, ferrovias, represas e
outras grandes obras que formam a quintessência dos chamados "projetos de
desenvolvimento"9. Os PGEs têm características estruturais que lhes permitem
ser tratados como "expressões extremas" do campo do desenvolvimento: o tamanho
do capital, territórios e quantidade de pessoas que eles controlam; seu grande
poder político; a magnitude de seus impactos ambientais e sociais; as inovações
tecnológicas que freqüentemente criam; e a complexidade das redes que eles
engendram10. Eles juntam quantidades impressionantes de capital financeiro e
industrial, assim como de elites e técnicos estatais e trabalhadores, fundindo
níveis de integração locais, regionais, nacionais, internacionais e
transnacionais11. Como uma forma de produção ligada à expansão de sistemas
econômicos, os PGEs conectam áreas relativamente isoladas a sistemas mais
amplos de mercados integrados. Fluxos não-lineares de trabalho, capital e
informação entre tais projetos têm acontecido em escala global12. Os projetos
de grande-escala têm se apoiado em instituições poderosas tais como
organizações governamentais e multilaterais, escolas de engenharia, bancos e
corporações industriais , que têm desempenhado papéis importantes na economia
política dos últimos dois séculos. Muitas dessas instituições se tornaram
centros de difusão de idéias sobre novos e até maiores projetos; sobre
inovações tecnológicas; e sobre categorias, modelos e ideologias de progresso e
expansão industrial.
Por que deveríamos nos importar com essas conexões históricas? Precisamente
porque o campo do desenvolvimento herda muitas das crenças e práticas geradas e
transmitidas internamente ao campo dos projetos de grande escala. Não é uma
casualidade o fato que nos bancos multilaterais, por exemplo, antes do impacto
reformista do movimento ambientalista, projetos de infra-estrutura de grande
escala tenham sido, por muitos anos, alguns dos principais itens de suas
carteiras. Os circuitos que vinculam projetos nas escalas nacionais aos globais
têm construído uma rede multilocalizada por meio da qual informação e pessoas
circulam. Soluções técnicas e administrativas são intercambiadas e algumas
vezes melhoradas em projetos apresentados como vitrines para a implementação de
novos métodos e tecnologias. Por causa de seus enormes impactos ambientais e
sociais, os PGEs mostram claramente o desequilíbrio das relações de poder entre
populações locais e outsiders desenvolvimentistas. Por outro lado, esses
projetos têm também causado um aumento na capacidade de reação de atores locais
na forma de movimentos sociais e ONGs. As pessoas passaram a entender as
desigualdades inerentes a esse tipo de expansão econômica. O capital
estrangeiro, vários tipos de profissionais e técnicos expatriados comumente
ficam com a maior parte das riquezas produzidas em tais empreendimentos.
As conexões entre diferentes PGEs, assim como a continuidade intergeracional
que existe em muitas das profissões neles envolvidas, tornam mais evidente a
necessidade de traçar conexões e continuidades similares em outras áreas
centrais do campo do desenvolvimento. O Banco Mundial, o "Vaticano do
desenvolvimento internacional"13, exemplifica bem essa questão. Nos seus
primeiros anos, foi o herdeiro não só de muitos discursos coloniais sobre o que
viria a ser conhecido como "países do Terceiro Mundo", mas também de
funcionários das antigas administrações coloniais que estavam desaparecendo14.
O conhecimento sobre PGEs também permite entender o desenvolvimento como uma
força expansiva historicamente intrínseca à globalização, e revela tal expansão
como intervenções planejadas que dependem do estabelecimento de redes de
engenheiros, técnicos, políticos, lobistas, servidores públicos, e capitalistas
financeiros e industriais. Os relacionamentos pessoais são de extrema
importância para navegar através das complexas redes de interesses que existem
dentro e ao redor dos projetos; os relacionamentos também são as fundações
sobre as quais muitas redes, intra e intercategorias profissionais, se
constroem e propiciam diversos tipos de intermediações. Essas redes
freqüentemente se articulam a interesses locais, regionais, nacionais,
internacionais e transnacionais. Elas são perfeitas para revigorar o campo do
desenvolvimento mais amplo e complexo porque permitem o estabelecimento de
distintas coalizões, que são freqüentemente ad hoc, entre vários atores do
campo. Ao mesmo tempo em que essa flexibilidade permite alianças pragmáticas e
algumas vezes heterodoxas, que podem provar ser eficazes em muitas
circunstâncias, ela também é responsável por uma certa falta de transparência e
de responsabilidade nas prestações de contas.
Apesar de seu papel vital em manter a sinergia do campo do desenvolvimento, as
redes são fluidas demais para prover a regularidade, estabilidade, planejamento
racional e capacidade de previsão necessários às intervenções
desenvolvimentistas. A pragmática criação de redes é um instrumento cuja
eficiência se reflete na forte habilidade que as redes têm em mover-se de
cenários locais a nacionais, internacionais e transnacionais. As redes também
levam a uma perda relativa de homogeneidade entre os sujeitos coletivos
resultantes. Estes, em geral, existem como coalizões orientadas a uma tarefa
que, uma vez completada, redunda no desmantelamento do grupamento ad hoc. Esse
o motivo pelo qual as redes podem ser caracterizadas como atores pragmáticos,
fragmentados, disseminados, circunstanciais e até voláteis. Sua força vem
dessas características e de uma heterogeneidade que as capacita a estar à
altura de um campo político e econômico variante, com mais eficácia do que
atores tradicionais que, em geral, estão limitados pela necessidade de
coerência e coesão internas em termos ideológicos, organizacionais e políticos
(com os conseqüentes pesos institucionais e grandes investimentos de energia).
A unidade aparente desses atores tradicionais serve como uma identidade externa
que os qualifica como representantes de um segmento, uma corporação ou de
interesses precisamente delimitados. Mas a debilidade das redes advém
igualmente do seu pragmatismo: ele as impede de se tornarem atores que poderiam
ter uma presença mais duradoura e forte, se consolidadas em um sujeito mais
homogêneo e coerente com um objetivo programático compartilhado. Em
conseqüência, às redes se juntam outras entidades dentro do campo do
desenvolvimento, as instituições.
Quando redes chegam ao ponto de ter interesses e objetivos bem definidos e
duradouros, elas tendem a se tornar instituições baseadas não somente em
relacionamentos pessoais, mas também em racionalidade burocrática. Instituições
são as cristalizações de redes que têm projetos claros em vista e que podem ser
realizados dentro de um futuro previsível. A construção de instituições envolve
uma grande quantidade de cooperação técnica e monitoramento, e é, também, uma
forma de domesticar o ambiente imprevisível onde ocorre o "desenvolvimento".
As instituições de desenvolvimento são burocracias de tamanhos e complexidades
diferentes. Como Max Weber15 apontou, burocracias são uma forma de dominação,
de exercer poder. Quanto maiores as iniciativas de desenvolvimento, maior a
burocracia relacionada a elas e mais forte sua capacidade de exercer poder,
principalmente sobre instituições e atores que operam em níveis mais baixos de
integração. Com suas hierarquias, regras e necessidades reprodutivas,
burocracias são máquinas de indiferença:
Prestação de contas, Weber nos diz, é do que se trata a burocracia, e
prestar contas é aquilo em que muitos burocratas investem muita
energia para abortar ou evitar. Um cínico poderia definir poder como
o direito de não prestar contas16.
Esse "direito a não prestar contas" tem motivado muitas reações e muita
oposição a burocracias de desenvolvimento em escala mundial. Redes contra-
hegemônicas ou regulatórias, compostas por ONGs, movimentos sociais,
sindicatos, igrejas etc., têm tido papéis fundamentais na proteção dos
interesses de populações locais contra a grande quantidade de poder acumulado
por instituições de desenvolvimento. Muitas das agora freqüentes críticas
expressadas pelas próprias instituições de desenvolvimento sobre a natureza de
suas operações devem ser entendidas à luz das pressões e lutas dessas redes
contra-hegemônicas ou regulatórias. O fato de burocratas ou tecnocratas de
agências de desenvolvimento criticarem seus próprios modos de operação não é
necessariamente uma contradição, como pode parecer à primeira vista. É inerente
à racionalidade das burocracias produzir sua própria crítica, como uma forma de
disseminar e naturalizar a própria estrutura burocrática que elas parecem
criticar e à qual, algumas vezes, parecem se opor17. De fato, e isso é
especialmente verdadeiro na história do desenvolvimento, a capacidade de
produzir desculpas por erros cometidos, de reciclar formulações e de criar
novas panacéias faz parte dos "idiomas de auto-exoneração"18 em muitas
instituições19.
As burocracias também são campos de poder. Crítica e oposição às políticas mais
fortes institucionalmente relacionam-se a lutas de poder que se desenvolvem
dentro e fora das instituições em certas conjunturas. A disputa dentro do Banco
Mundial sobre o projeto de desenvolvimento da bacia do rio Narmada, na Índia, é
um exemplo de quão intricadas são tais lutas políticas20. A crítica,
entretanto, tem limites. Apesar dos esforços que as instituições fazem para
censurar seus funcionários, às vezes eles fazem alianças com redes contra-
hegemônicas ou regulatórias por sua própria conta e risco. A punição de tal
heresia é freqüentemente a demissão pura e simples; a ortodoxia e a teodicéia
burocráticas precisam parecer imaculadas.
Max Weber21 já tinha percebido a impossibilidade de uma forma pura de dominação
burocrática. Dentro do campo do desenvolvimento, relações pessoais são críticas
em momentos relevantes tais como o recrutamento de novos funcionários e a
promoção de aliados políticos. Na verdade, a proeminência de "amizades
instrumentais", um grande motor na criação de redes, é tão forte em grandes
organizações burocráticas que as redes normalmente se cristalizam em panelinhas
internamente a esses cenários22. Especialmente em situações de desequilíbrio de
poder, as panelinhas têm "funções instrumentais importantes ao tornarem uma
situação imprevisível em algo mais previsível e ao fornecerem apoio mútuo
contra surpresas perturbadoras, internas ou externas"23. Wolf conclui que "uma
perspectiva interessante" sobre grandes organizações "pode ser obtida olhando-
as enquanto organizações de aprovisionamento de panelinhas, ao invés do
contrário"24.
As instituições também se tornam parte de várias redes dentro do campo do
desenvolvimento. Elas criam redes por meio de complexos processos históricos e
políticos. Denominei esses processos de "consorciação", para chamar a atenção
para sua entidade resultante: o consórcio25. As instituições são os blocos de
construção dos consórcios que, por sua vez, transformam-se em novas
instituições, as quais podem virar as unidades de novos e mais complexos
consórcios. A consorciação é fundamental para entender o campo do
desenvolvimento, já que é o processo galvanizante que transforma redes de
instituições em consórcios destinados a cumprir papéis delimitados conforme
definido por um dado "projeto"26. A consorciação é um processo político
comandado por grupos de poder que operam em níveis mais elevados de integração.
É um encadeamento que mediante a organização de novas entidades orientadas a
tarefas econômicas e administrativas une, de fato, dentro de um projeto,
instituições e capitais internacionais, nacionais e regionais. É uma forma de
reforçar relacionamentos capitalistas de modo piramidal, em que níveis mais
elevados hegemonizam níveis mais baixos. O consórcio é a entidade social,
econômica, e política concreta que articula diferentes grupos de poder. O
processo político-econômico de criação de consórcios afeta diretamente o
potencial dos projetos de desenvolvimento. A consorciação significa que os
projetos reforçam a competição e a concentração de capital e poder entre firmas
capitalistas; ela facilita o processo de concentração de capital e poder
eliminando competidores mais fracos e cooptando alguns poucos selecionados.
A consorciação envolve um processo de mão dupla. Por um lado, permite a
pequenas unidades selecionadas participarem como parceiros juniores em tarefas
maiores do que sua capacidade financeira, tecnológica e administrativa
permitiria. Por outro lado, é uma forma de facilitar o acesso de corporações
maiores a novos mercados, que são freqüentemente protegidos ou altamente
disputados. Por meio de diferentes discursos sobre o potencial de um projeto
para o desenvolvimento local, regional e nacional, os parceiros mais fracos na
corrente associativa legitimam suas reivindicações de maior participação. O
desenvolvimento local ou regional é, assim, um argumento comum entre companhias
que operam em nível local ou regional, competindo com corporações nacionais ou
internacionais. Da mesma forma, o desenvolvimento nacional é o argumento usado
por corporações nacionais para defender seus interesses perante o capital
internacional e transnacional. Dada a característica de mão dupla da
consorciação, os discursos sobre desenvolvimento local, regional ou nacional
podem ser um argumento que os parceiros mais fortes, isto é, os representantes
das concentrações maiores de capital ou poder, usem para legitimar a
necessidade do projeto. A eloqüência do argumento desenvolvimentista é evidente
quando a cooptação de unidades menores é necessária.
Consórcios são um meio que as corporações têm para otimizar o uso de diferentes
redes que precisam ser ativadas para realizar diferentes objetivos econômicos e
políticos. Por exemplo, um consórcio operando na junção dos sistemas
internacionais e nacionais, e formado por grupos de poder nacionais e
transnacionais, pode fazer lobby tanto junto a instituições nacionais quanto a
internacionais e multilaterais. Formar um consórcio sempre implica uma
negociação, um processo baseado não só em critérios econômicos e
administrativos. A intervenção de poderosos atores os controladores ou donos
de capitais estatais, nacionais e transnacionais gera um campo de negociações
de poder que é politicamente estruturado. Escolher parceiros nacionais, por
exemplo, é uma decisão estratégica que leva em consideração que forte apoio
político dentro do Estado nacional pode ter mais valor que apoio financeiro ou
técnico. Na verdade, a definição da participação de cada parceiro em um
contrato é devida tanto a articulações políticas, à criação de redes e lobby,
quanto a avaliações técnicas da capacidade produtiva, financeira e técnica de
um determinado parceiro. A consorciação é, assim, ao mesmo tempo, um
instrumento de expansão econômica e um meio de estabelecer um campo político no
qual intermediários de diferentes redes estabelecem as condições para
participar em um projeto concreto. Desde os pontos mais baixos até os mais
altos, desenvolvimento é a ideologia/utopia que cimenta os diversos
interessados, redes e instituições.
DESENVOLVIMENTO: UMA IDEOLOGIA E UTOPIA DE EXPANSÃO
Ideologias e utopias são essencialmente relacionadas a poder. Elas expressam
disputas sobre interpretações do passado (ideologia) ou do futuro (utopia), e
lutam para instituir hegemonia estabelecendo certas visões retrospectivas ou
prospectivas como a verdade, como a ordem natural do mundo27. Desde a Segunda
Guerra Mundial, o desenvolvimento como um sistema de crenças tem sempre sido
marcado por leituras particulares do passado e por formulações sobre o futuro
em escala global28. Na sua análise sobre desenvolvimento, Escobar29 o considera
equivalente ao discurso colonial. De um ângulo diferente, Gilbert Rist30 trata
desenvolvimento como um sistema de crenças organicamente relacionado à expansão
mundial de sistemas de mercados integrados e como o "slogan mobilizador de um
movimento social que criou organizações e práticas messiânicas".
O fim da União Soviética (1989-1991) provocou fortes rearranjos do sistema
mundial e abriu o caminho para a consolidação de diferentes ideologias e
utopias de alcance global. Na década de 1990, dois discursos relacionados
tornaram-se hegemônicos: desenvolvimento sustentável e globalização. Ambos
parecem estar alcançando seus limites como slogans para o século XXI, abrindo
uma nova rodada de lutas ideológicas e utópicas, assim como novas oportunidades
de mudança. Para reformas radicais ou menores do desenvolvimento e da
cooperação, um conhecimento crítico dos sistemas de valor e da gramática do
desenvolvimento é tão crucial quanto expor sua estruturação como um campo de
poder. A exposição da obsolescência dos discursos hegemônicos é sempre
necessária a fim de ir além deles. O que está em jogo é a aceitação pelos
atores sociais de novos discursos sobre seus destinos.
Desenvolvimento é um dos discursos mais inclusivos no senso comum e na
literatura especializada. Sua importância para a organização de relações
sociais, políticas e econômicas fez com que antropólogos o considerassem como
"uma das idéias básicas da cultura européia ocidental moderna"31, "algo como
uma religião secular", inquestionada, já que "se opor a ela é uma heresia quase
sempre severamente punida"32. A amplitude e as múltiplas facetas do
desenvolvimento são o que permite suas muitas apropriações e leituras
freqüentemente divergentes. A plasticidade do discurso sobre desenvolvimento é
central para assegurar sua viabilidade continuada; ele está "sempre em processo
de transformação, de cumprir promessas"33. A variação das apropriações da idéia
de desenvolvimento, assim como as tentativas de reformá-la expressam-se nos
numerosos adjetivos que formam parte da sua história: industrial, capitalista,
para dentro, para fora, comunitário, desigual, dependente, sustentável, humano.
Essas variações e tensões refletem não apenas as experiências históricas
acumuladas por diferentes grupos de poder em suas lutas por hegemonia
internamente ao campo do desenvolvimento, mas também diferentes momentos de
integração do sistema capitalista mundial.
Desde o século XIX, e de maneira mais intensa após a Segunda Guerra Mundial, o
passo acelerado da integração do sistema mundial demandou ideologias e utopias
que pudessem dar sentido às posições desiguais dentro do sistema, que pudessem
prover explicações por meio das quais povos colocados em níveis mais baixos
pudessem acreditar que haveria uma solução para sua situação "atrasada". Não é
por acidente que a terminologia do desenvolvimento tenha envolvido normalmente
o uso de metáforas que se referem a espaço ou a ordem de forma hierarquizada:
desenvolvido/subdesenvolvido, adiantado/atrasado, Primeiro Mundo/Terceiro Mundo
etc. Essa hierarquia é instrumental, serve para fazer crer na existência de um
ponto que pode ser atingido caso siga-se um tipo de receita mantida por aqueles
Estados-nação que lideram a "corrida" para um futuro melhor. Ao usar o termo
"desenvolvimento", em vez de acumulação ou expansão, conotações indesejadas são
evitadas, como a diferença de poder entre as unidades do sistema (internamente
ou entre Estados-nação) em termos econômicos, políticos e militares; evita-se
também a percepção de que desenvolvimento é "uma expressão simples de um pacto
entre grupos internos e externos interessados em acelerar a acumulação"34.
"Desenvolvimento" opera como um sistema de classificação, estabelecendo
taxonomias de povos, sociedades e regiões. Edward Said e Arturo Escobar
mostraram a relação entre a criação de geografias e a ordem e poder mundiais35.
Pode ser dito com Herzfeld que "a criação e manutenção de um sistema de
classificação tem sempre [...] caracterizado o exercício de poder em sociedades
humanas"36. As classificações freqüentemente produzem estereótipos úteis para
sujeitar pessoas por meio de simplificações que justificam a indiferença à
heterogeneidade. Os estereótipos quase não conseguem esconder suas funções de
poder sob a superfície do idioma do desenvolvimento e da cooperação cujo léxico
é cheio de dualismos que se referem, de forma estática ou dinâmica, a estados
transientes ou a relacionamentos de subordinação (desenvolvido/subdesenvolvido,
países em desenvolvimento, mercados emergentes37 etc.). Estereótipos podem
também se tornar palavras-chave tais como assistência, ajuda, doadores/
recipientes, doadores/beneficiários que claramente indicam, de forma pouco
sutil, o desequilíbrio de poder entre duas séries de atores e legitimam a
transformação de uma série deles em objetos de iniciativas de desenvolvimento.
A alegação do desenvolvimento acerca de sua própria inevitabilidade é mais
outra faceta de suas pretensões universalistas. O fato de "desenvolvimento" ser
parte de um amplo sistema de crenças marcado por matrizes culturais do Ocidente
coloca grandes limitações a tais pretensões universalistas. É também mais uma
razão que explica por que, em muitos contextos não-ocidentais, vários povos e
agentes locais relutam em se tornar sujeitos do desenvolvimento. É difícil
discordar da afirmação de que não há método universal para alcançar uma "boa
vida"38. A pré-história do desenvolvimento reflete matrizes discursivas
ocidentais como a crença no progresso (que pode ser traçada até a Grécia
antiga39) e outras relacionadas a momentos tão decisivos quanto o Iluminismo
crucial para o desenrolar dos pactos econômicos, políticos e sociais da
modernidade ocidental e suas ideologias e utopias associadas (industrialismo,
secularismo, racionalização e individualismo, por exemplo). Leonard Binder
reconhece, em certas teorias de desenvolvimento, uma matriz ainda mais
estreita: a imagem dos Estados Unidos "como alguns liberais gostariam que nós
fossemos"40. Mais recentemente, no final dos anos 1980 e no começo dos anos
1990, a idéia de desenvolvimento sustentável reverberava com noções de
relacionamentos apropriados entre a humanidade e a natureza, típicas das
classes médias urbanas, protestantes, em países como Alemanha, Inglaterra e
Estados Unidos41.
Na realidade, desenvolvimento é mais um exemplo de um discurso globalizante,
similar ao que Appadurai chama de ideopanoramas "elementos da visão de mundo
Iluminista, que consiste em uma concatenação de idéias, termos e imagens,
incluindo 'liberdade', 'bem-estar', 'direitos', 'soberania', 'representação' e
o termo chave 'democracia'"42. Nesse sentido, termos como
"etnodesenvolvimento", inventados para se referirem a modelos indígenas de
desenvolvimento ou a modelos alternativos que poderiam respeitar valores e
culturas locais, são oxímoros. Eles indubitavelmente refletem aspirações
legítimas, mas se localizam na linha fina e paradoxal da aceitação do
desenvolvimento como uma categoria universal43.
Mencionarei brevemente outras questões antropológicas que tornam problemática a
pretensão do desenvolvimento, como ideologia e utopia, ao universalismo. A
primeira é a existência de noções de tempo que são radicalmente diferentes44.
Desenvolvimento depende de uma concepção que compreende o tempo como uma
seqüência linear de estágios avançando interminavelmente para momentos
melhores. Uma implicação desse construto ocidental é que crescimento,
transformação e acumulação se tornam princípios-guia de políticas. Mas em
muitas sociedades não-ocidentais o tempo é entendido como ciclos de eternos
recomeços, o que favorece o florescimento e a consolidação da contemplação,
adaptação e da homeostase como pilares de suas cosmologias. Nesta mesma linha,
não se pode subestimar o papel do controle do tempo particularmente do
relógio, a mãe da complexidade mecânica no desenvolvimento econômico nos
últimos séculos45. Sincronia e capacidade de previsão são a base das relações
de trabalho capitalistas e industriais. Outro grande divisor de águas é a
transformação da natureza em mercadoria, um processo histórico relacionado ao
desenrolar do capitalismo e da modernidade46 e que parece estar chegando a seu
clímax com a exploração, pelo capital, do código da vida (biotecnologia) e da
virtualidade (o ciberespaço e outras formas tecnológicas de virtualidade são
cada vez mais cruciais para as atividades econômicas). Muitos dos impasses
entre atores desenvolvimentistas e povos indígenas são baseados nessa diferença
cosmológica. O que para alguns são meros recursos, para outros podem ser
lugares e elementos sagrados.
Choques culturais formam o cenário mais amplo onde se localizam as questões de
línguas e racionalidade. A língua em geral e a língua escrita em particular são
grandes barreiras para a comunicação dentro do campo do desenvolvimento. Para
cooperarem, as pessoas precisam entender, e competência comunicativa não é um
recurso igualmente distribuído dentro das redes de desenvolvimento. Além disso,
a competência lingüística, como percebeu Bourdieu47, não pode ser separada da
análise de poder. Quem fala, para quem, através de que mídia e em quais
circunstâncias construídas, são elementos vitais de qualquer processo de
comunicação. A relação entre língua escrita e poder é ainda mais evidente,
sendo a escrita central para o desenvolvimento de Estados e burocracias,
tornando possível, entre outras coisas, apresentar regras como artefatos
impessoais48. Herzfeld vincula a idéia de uma língua abstrata perfeitamente
independente de seu contexto e o modelo ocidental de racionalidade a um desejo
de transcendência típico das "concepções judaico-cristãs e indo-européias sobre
a superioridade da mente sobre a matéria"49. Para ele, a "habilidade de
representar algumas formas de língua" como independentes de seus contextos é
onde "o exercício de poder reside"50.
O analfabetismo é uma grande barreira dentro do campo do desenvolvimento,
principalmente para aqueles projetos que defendem participação local. O
planejamento é o coração da iniciativa racional de desenvolvimento. Ele depende
do estabelecimento de regras e instruções escritas que precisam ser seguidas
se é que eficiência, objetivos burocráticos e prestação de contas devem ser
atingidos. Os projetos são os artefatos que sumarizam a necessidade de controle
sobre tempo, pessoas e recursos. Práticas contábeis, definições legais, planos,
objetivos racionais e o uso de tecnologias são altamente dependentes do
compartilhamento do mesmo horizonte cultural e de certos níveis de educação
formal. O fracasso de um projeto é quase certo se os atores desenvolvimentistas
forem incapazes de fazer com que as pessoas na base entendam o que o projeto é,
como deve ser implementado ou usado. Essa charada histórica e sociológica é a
raison dêtre da cooperação técnica e da capacitação para o desenvolvimento. É
também a causa principal de processos como a exportação da inteligência e
capacidade de planejamento dos projetos para centros estrangeiros e da fuga de
cérebros dois efeitos perversos que reforçam desigualdades estruturais entre
os Estados-nação. Como cultura e educação são determinantes estruturais dos
modos de vida das sociedades, e não mudam no ritmo que os projetos de
desenvolvimento requerem, expatriados ou outsiders de outras regiões de um
mesmo país são freqüentemente enviados para compensar deficiências locais. Seu
compromisso com a vida local é temporário. Eles são usualmente membros de redes
que se reproduzem em níveis de integração nacionais, internacionais e
transnacionais.
É certo que "transformação" é o núcleo duro do desenvolvimento como ideologia e
utopia e que, muitas vezes, a transformação é almejada por povos locais de
diferentes origens culturais. Sem dúvida, é da natureza de algumas inovações
cativar as pessoas, já que a mudanças que trazem tornam suas vidas mais
confortáveis, mais seguras e mais saudáveis. São complexas as razões pelas
quais algumas pessoas aceitam mudanças e outras não. Mas pelo menos três pontos
precisam ser explicitados sobre transformações, mudanças e inovações
tecnológicas: (a) a natureza da transformação e do contexto em que a mudança
vai ser introduzida define se vai ser bem-vinda ou não; (b) transformações,
mudanças e inovações tecnológicas são artefatos culturais que sempre envolvem e
afetam sistemas de poder; e (c) elas impactam sistemas sociais, culturais e
ambientais em graus variáveis (desde desastres totais a mudanças palatáveis
menores). Não há dúvida de que alguns projetos podem aumentar o acesso de uma
comunidade à modernidade. Mas é também verdade que "desenvolvimento" não
significa mudanças estruturais em distribuição de poder e esta é uma razão de
fortes críticas contra ele. Rist coloca essa questão de forma direta: "aqueles
com poder não têm interesse em mudanças, não importa que digam o contrário, e
aqueles que querem mudanças não têm os meios para impô-las"51.
O DESEQUILÍBRIO DE PODER: QUEM É SUJEITO DO DESENVOLVIMENTO?
"Dramas desenvolvimentistas" são tipos complexos de encontros que juntam atores
e instituições locais a outsiders. O fato de outsiders pretenderem planejar o
futuro de uma comunidade é indicativo do seu poder diferencial no encontro. Em
tais circunstâncias, instala-se uma dicotomia. Por um lado, há os objetivos e
racionalidades dos planejadores; por outro lado, o destino e a cultura das
comunidades. Antes da existência de um projeto de desenvolvimento, populações
locais dificilmente poderiam conceber que seu destino era suscetível de ser
seqüestrado por um grupo organizado de pessoas. Na realidade, planejamento
isto é, a determinação antecipada de como uma certa realidade será implica a
apropriação, por parte de outsiders, do poder das populações locais de serem
sujeito dos seus próprios destinos. De sujeito de suas próprias vidas, essas
populações se tornam sujeitas a elites técnicas prescientes.
Desenvolvimento cria dois tipos de sujeitos, um ativo e outro passivo.
"Sujeitos-passivos" são pessoas transformadas em objetos de imperativos
desenvolvimentistas. Os reassentamentos forçados representam os casos extremos
dessa categoria. A apropriação do projeto por parte da população local é
altamente improvável. Nessa situação, os atores locais em geral se defrontam
com opções estranhas, como estabelecer relacionamentos do tipo patrão-cliente
com outsiders desenvolvimentistas ou lutar para recuperar o controle sobre suas
vidas e ambientes. Na realidade, esses "sujeitos-passivos" inclinam-se a
resistir ao desenvolvimento, já que se relacionam com sua faceta mais
autoritária. Mas desenvolvimento também cria "sujeitos-ativos". Os agentes do
desenvolvimento são pessoas locais propensas a se tornar aliadas de iniciativas
de desenvolvimento porque podem identificar benefícios e interesses em comum
com os outsiders. A existência desses dois tipos de sujeitos mostra que a
apropriação das iniciativas desenvolvimentistas depende altamente de duas
variáveis diferentemente distribuídas internamente ao drama desenvolvimentista.
Uma é acesso a poder, a ser capaz de controlar seu próprio ambiente e evitar
ser o objeto da vontade de outsiders ou dos imperativos de forças estruturais
expansionistas e sem rosto. A outra é acesso a conhecimento e informação que
capacitem os atores a entender o que está acontecendo e, mais importante ainda,
o que vai acontecer com eles. Resistência ou participação são os resultados das
formas em que essas variáveis são combinadas. A autoconfiança dos atores locais
e a apropriação dos desígnios de um projeto só podem prosperar quando os atores
sentem que têm poder sobre seu ambiente.
Há dois modos correntes de gerar sujeitos-ativos/passivos e de lidar com eles.
A abordagem "de-cima-para-baixo" tende a criar "sujeitos-passivos". Esse modo
autoritário está baseado em redes que cooptam elites locais, não estabelecem
políticas compensatórias para aqueles impactados pelos projetos e não têm
preocupação com modelos e culturas locais. A abordagem "de-baixo-para-cima"
pretende criar "sujeitos-ativos" e é mais amigável à apropriação do projeto por
parte da população local. É verdade que esse modo é mais sensível a culturas e
modelos locais, incluindo modelos locais de administração52. Mas esse modo
participativo acaba sendo uma tentativa de compensar a perda estrutural de
poder que caracteriza as relações entre populações locais e outsiders quando um
projeto é iniciado. Participação e parceria tornam-se jargões da moda que não
conseguem mascarar o fato de que todos, no drama desenvolvimentista, sabem onde
se localiza o poder máximo nas tomadas de decisões.
Ambas as abordagens geralmente compartilham uma noção instrumental de cultura.
Cultura se torna uma "tecnologia gerencial de intervenção na realidade"53. Tal
definição funcional concebe a cultura como um conjunto de comportamentos e
significados inter-relacionados, ajustados e coerentes que podem ser
identificados e valorizados em termos de seus impactos positivos ou negativos
sobre os objetivos a ser atingidos. Essa noção de cultura cabe bem no campo do
desenvolvimento porque se ajusta perfeitamente à terminologia e racionalidade
dos planejadores. Mas expressa mal ao menos duas importantes considerações
sobre "cultura": (a) contradições e incoerências fazem parte da experiência
humana; e (b) cultura está inserida em e atravessada por relações de poder
historicamente definidas (desta forma, mudança cultural sempre se relaciona a
mudança de poder).
Certamente, qualquer que seja a abordagem, "de-cima-para-baixo" ou "de-baixo-
para-cima", poder e sistema político locais sempre serão impactados por
intervenções desenvolvimentistas. Dadas as características dos processos de
criação de redes e de consorciação típicos do campo do desenvolvimento, os
sistemas de poder local passam a ser módulos de circuitos mais amplos de poder
comandados por instituições de níveis mais elevados. Como sabemos, instituições
e atores transnacionais, internacionais, nacionais e regionais tendem a ter
mais poder dentro dos processos de criação de redes e consórcios porque eles já
começam com mais recursos. A abordagem autoritária "de-cima-para-baixo" tende a
reforçar diferenças previamente existentes em termos de classe, gênero, idade,
raça e etnicidade. Em contraste, a abordagem participativa "de-baixo-para-cima"
tende a introduzir novas lideranças, assim criando novas tensões dentro dos
sistemas de poder e político preexistentes.
Ambas as abordagens produzem "intermediários"54 que normalmente acumulam uma
grande quantidade de poder. Tais intermediários conectam as interseções de
diferentes níveis de integração e servem aos interesses dos grupos que
intermedeiam. Mas "eles também têm que manter um controle sobre [as] tensões
(entre os grupos que servem), senão o conflito torna-se incontrolável e
mediadores melhores tomam seus lugares"55. Em conseqüência, esse tipo de
intermediários-controladores prolifera dentro do campo do desenvolvimento e
consome muitos dos seus recursos. Eles criam suas próprias redes de poder
(compostas por membros de ONGs, consultores, funcionários de agências
multilaterais, líderes de sindicatos e movimentos sociais, políticos etc.), nas
quais muito da cooperação técnica de fato acontece. Os intermediários são
necessários em qualquer campo de desenvolvimento, já que mediações são
intrínsecas aos processos de criação de redes e de consorciação. Mas para
aumentar a qualidade da cooperação, os intermediários-controladores, isto é, os
mediadores especializados em acumular poder pessoal, precisam ter seu poder
regulado. Muitos dos resultados dos projetos de desenvolvimento relacionam-se à
natureza do sistema de intermediação e aos efeitos e distorções de poder que
podem gerar.
DESAFIOS PROGRAMÁTICOS
Neste artigo, apresentei as principais limitações e pressões que afetam a
cooperação técnica e o desenvolvimento. Não há soluções fáceis para os
conflitos de poder criados pelo campo do desenvolvimento. Somente mudando as
características da distribuição de poder dentro desse campo é que a cooperação
técnica e o desenvolvimento de fato mudarão. Isso implica que todos os atores e
instituições das redes têm de fazer política consciente e constantemente para
manter seus interesses vivos. A socialização do conhecimento de riscos e
oportunidades envolvendo mudanças trazidas pelo desenvolvimento é importante
para melhorar a qualidade da informação que os atores manipulam nessas arenas
políticas. Em conseqüência, as redes precisam ser composições democráticas de
instituições e atores com a capacidade real de decidir e intervir,
principalmente se o resultado desses processos de tomada de decisões não
agradar aos interesses mais poderosos envolvidos em um projeto específico. Para
alcançar esses objetivos, esferas públicas de discussão e decisão de questão de
desenvolvimento precisam ser promovidas, multiplicadas, tornadas mais
inclusivas e conseqüentes. A difusão de uma pedagogia democrática deveria
atravessar todo o campo do desenvolvimento e suas redes, de administradores e
funcionários estatais de alto nível a lideranças de base. O processo
associativo típico do campo do desenvolvimento deveria ser aberto aos
participantes de forma a igualar o poder de atores operando em todos os níveis
de integração. Essas são tarefas importantes para aqueles interessados em
transparência, responsabilidade social e fortalecimento da sociedade civil.
Eles encontrarão muitas resistências entre poderosos atores interessados no
status quo e entre aqueles para os quais a democracia não é um valor.
Para avançar no mundo globalizado, onde multiculturalismo é cada vez mais um
tema político transnacional, devemos admitir que "desenvolvimento" não é
exatamente o objeto de desejo de todos. Preferivelmente, perspectivas muito
mais abertas devem ser promovidas, visões sensíveis a diferentes contextos
culturais e políticos. Concomitantemente à distribuição de poder internamente
ao campo do desenvolvimento, diferentes princípios e sensibilidades precisam
ser disseminados. Cosmologias e idiomas de desenvolvimento precisam ser
radicalmente reformados. "Desenvolvimento" não pode insistir em supor que o
Ocidente é universal. "Cooperação técnica" não pode continuar usando uma língua
contaminada com metáforas de desigualdade e hierarquia. Se populações e
instituições locais não se perceberem como "sujeitos ativos" do
desenvolvimento, a apropriação dos projetos por parte das populações locais
continuará sendo um problema e a cooperação técnica continuará a reforçar
desigualdades estruturais entre Estados-nação.
Os processos de globalização, principalmente aqueles relacionados a novas
tecnologias de comunicação, estão promovendo muitas mudanças nos
relacionamentos entre cenários locais e globais. Neste quadro, a posição dos
sujeitos locais tem evoluído para formas que podem fazer a balança pender para
o lado de abordagens mais participativas dentro do campo do desenvolvimento.
Apesar de sua distribuição desigual, a internet está aumentando a capacidade de
intervenção das ONGs e movimentos sociais. O espaço público virtual é o
ambiente tecno-simbólico da comunidade transnacional imaginada-virtual, além de
ser um instrumento útil para reforçar vozes locais e articulações de atores
políticos heterogêneos no mundo transnacional56.
Em um planeta mais integrado, novos desafios aparecem e demandam elites
políticas e técnicas cosmopolitas inclinadas a aceitar o campo do
desenvolvimento global como uma comunidade heteroglóssica, na qual
desequilíbrios de poder precisam ser constantemente negociados em termos
políticos e culturais. O conflito é a alternativa a tornar a heterogeneidade um
valor central na promoção do convívio, criatividade e capacidade de inovação
humana.
Recebido para publicação em 15 de julho de 2007.
[1] Compartilho da opinião de Rist segundo a qual a crítica precisa ser
"entendida no seu sentido kantiano de exame livre e público ao invés de no seu
sentido usual de julgamento desfavorável" (Rist, Gilbert. The history of
development: from western origins to global faith. London, New York: Zed Books,
1997, p. 30). [ Links ]
[2] Durkheim, Émile. Las formas elementales de la vida religiosa. Buenos Aires:
Schapire, 1968. [ Links ]
[3] Adams, Richard. The second sowing: power and secondary development in Latin
America. San Francisco: Chandler Publishing Company, 1967. [ Links ]
[4] Wolf, Eric. Envisioning power: ideologies of dominance and crisis.
Berkeley: University of California Press, 1999. [ Links ]
[5] Berman, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia. das
Letras, 1987. [ Links ]
[6] Bourdieu, Pierre. Questions de sociologie. Paris: Editions de Minuit, 1986.
[ Links ]
[7] Perrot, Marie-Dominique e outros. La mythologie programmée: léconomie des
croyances dans la société moderne. Paris: PUF, 1992, pp. 202-204.
[ Links ]
[8] Barros, Flávia Lessa de. "Ambientalismo, globalização e novos atores
sociais." Sociedade e Estado, vol. XI, nº 1, 1996, pp. 121-137.
[ Links ]
[9] Minha opção por enfocar os projetos de grande escala é de ordem
metodológica. Estou seguindo a idéia de Alfred Kroeber ("On human nature".
Southwestern Journal of Anthropology, nº 11, 1955, pp. 195-204) de que é
[ Links ]preciso estudar "as mais extremas expressões" de uma série de
fenômenos para melhor entendê-los. Os engenheiros militares primeiro e depois
os engenheiros civis tiveram um grande papel na estruturação desse campo, a
partir do século XVIII (Ribeiro, Gustavo Lins. "Cuanto más grande mejor?
proyectos de gran escala: una forma de producción vinculada a la expansión de
sistemas económicos". Desarrollo Económico, nº 105, 1987, pp. 3-27).
[ Links ]
[10] Ibidem.
[11] Inspirado em Julian H. Steward (Theory of culture change: The methodology
of multilinear evolution. Urbana e Chicago: University of Illinois Press,
1972), [ Links ]interpreto os níveis de integração como um espectro
formado por níveis locais, regionais, nacionais, internacionais e
transnacionais, com poderes diferentes de estruturação. Para fins de
simplicidade e clareza, faço a seguinte equação: o nível local corresponde à
localização de nossas experiências fenomenológicas imediatas diárias, isto é, à
série de lugares onde uma pessoa ou um grupo executam atividades diárias
regulares, interagindo com ou sendo expostos a diferentes redes e instituições
sociais. O nível regional corresponde à definição político-cultural de uma
região dentro de um nação, como o Sul dos Estados Unidos, ou a Galícia, na
Espanha. Os níveis nacionais, internacionais e transnacionais se referem à
existência do Estado-nação e às diferentes relações dentro, fora e através
dele.
[12] Ribeiro, G. L. Transnational capitalism and hydropolitics in Argentina.
Gainesville: University of Florida Press, 1994; [ Links ]e idem.
"Ethnic segmentation of the labor market and the 'Work Site Animal':
fragmentation and reconstruction of identities within the world system". In:
Schneider, Jane e Rapp, Rayna (orgs.). Uncovering hidden histories. Berkeley:
University of California Press, 1995, pp. 336-350. [ Links ]
[13] Rich, Bruce. Mortgaging the earth: The World Bank, environmental
impoverishment, and the crisis of development. Boston: Beacon Press, 1994, p.
195. [ Links ]
[14] Kraske, Jochen e outros. Bankers with a mission: The presidents of the
World Bank, 1946-91. Oxford: Oxford University Press, 1996, p. 136.
[ Links ]
[15] Weber, Max. "Sociología de la dominación". In: Economía y Sociedad.
México: Fondo de Cultura Económica, 1977, pp. 695-1117. [ Links ]
[16] Herzfeld, Michael. The social production of indifference: exploring the
symbolic roots of western bureaucracy. Chicago: The University of Chicago
Press, 1992, p. 122. [ Links ]
[17] Ibidem.
[18] Ibidem, p. 46.
[19] Inspirado no conceito de teodicéia de Weber, um conceito relacionado às
várias formas pelas quais sistemas religiosos procuram interpretar a aparente
contradição de persistência maléfica em um mundo divinamente ordenado, Herzfeld
diz que a "teodicéia secular [...] provê meios sociais para as pessoas lidarem
com a decepção. O fato de que os outros nem sempre contestam até mesmo as mais
absurdas tentativas de explicar o fracasso [pode ser] a evidência de uma
orientação muito prática que se recusa a minar as convenções de auto-
justificação porque virtualmente todos [...] podem precisar utilizá-las no
curso da vida" (ibidem, p. 7).
[20] Rich, op. cit.
[21] Weber, op. cit., p. 708.
[22] Wolf, Eric. "Kinship, friendship, and patron-client relations in complex
societies." In: Pathways of power: building an anthropology of the modern
world. Berkeley: University of California Press, 2001 [1966], pp. 166-183, p.
174. [ Links ]
[23] Ibidem, p. 179.
[24] Ibidem.
[25] Ribeiro, Transnational Capitalism and hydropolitical in Argentina, op.
cit.
[26] Os argumentos seguintes estão baseados no meu estudo sobre a construção da
represa de Yacyretá (ibidem). Mantendo as diferenças em mente, consorciação
também acontece em projetos menores e naqueles que são implementados em nome do
"desenvolvimento sustentável" (Pareschi, Carolina C. PD/A e PP-G7: construindo
modelos de ação e interação do desenvolvimento sustentável. 2001 (mimeo).
[27] Manheim, Karl. Ideology and utopia. New York: Harvest Books, s/d.;
Ricoeur, P. Lectures on ideology and utopia. New York: Columbia University
Press, 1986. [ Links ]
[28] Ribeiro, G. "Environmentalism and sustainable development: ideology and
utopia in the Late Twentieth Century". Environment, Development and
Reproduction. Research Texts 2. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos da
Religião, 1992. [ Links ]
[29] Escobar, Arturo. Encountering development: the making and unmaking of the
Third World. Princeton: Princeton University Press, 1995. [ Links ]
[30] Rist, op. cit., p. 218.
[31] Dahl, Gudrun e Hjort, Anders. "Development as message and meaning".
Ethnos, nº 49, 1984, pp. 165-85, p. 166. [ Links ]
[32] Maybury-Lewis, David. Development and human rights: the responsibility of
the anthropologist. Trabalho apresentado no Seminário Internacional sobre
Desenvolvimento e Direitos Humanos, ABA (Associação Brasileira de Antropologia)
Unicamp, Campinas, 1990, p. 1. [ Links ]
[33] DSA (Department of Social Anthropology). Development as ideology and folk
model. A research programme of the Department of Social Anthropology at the
University of Stockholm, s.d., pp. 4-5. [ Links ]
[34] Furtado, Celso. Criatividade e dependência na civilização industrial. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 77. [ Links ]
[35] Said, Edward. Culture and imperialism. New York: Alfred A. Knopf, 1994;
[ Links ]e Escobar, op. cit.
[36] Herzfeld, op. cit., p. 110.
[37] Ver Perrot e outros, op. cit., p. 189.
[38] Rist, op. cit., p. 241.
[39] Ver Delvaille, Jules. Essai sur lhistoire de lidée de progrès jusquà la
fin du XVIII siècle. Genève: Slatkine Reprints, 1969; [ Links ]e Dodds,
E. R. The ancient concept of progress, and other essays on Greek literature and
belief. Oxford: Oxford University Press, 1973. [ Links ]
[40] Binder, Leonard. "The natural history of development theory". Comparative
Studies in Society and History, nº 28, 1986, pp. 10-12. [ Links ]
[41] Ribeiro, "Environmentalism and sustainable development", op. cit.
[42] Appadurai, Arjun. "Disjuncture and difference in the global cultural
economy". In: Featherstone, Mike (org.). Global culture. Londres: Sage
Publications, 1990, pp. 9-10. [ Links ]
[43] Sobre etnodesenvolvimento, ver os textos de Stavenhagen, Rodolfo.
"Etnodesenvolvimento: uma dimensão ignorada no pensamento desenvolvimentista".
Anuário Antropológico, vol. 84, 1985, pp. 11-44; [ Links ]e Davis,
Shelton H. "Indigenous peoples, environmental protection and sustainable
development (a sustainable development occasional paper)". International Union
for Conservation of Nature and Natural Resources,1988, [ Links ]por
exemplo. No livro Autodesarrollo indígena en las Américas (IWGIA, Copenhagen,
1989), [ Links ]a expressão etnodesenvolvimento foi substituída por
"auto-desenvolvimento indígena", aparentemente porque os participantes
indígenas do simpósio organizado pelo Grupo de Trabalho Internacional para
Assuntos Indígenas "não gostaram do conceito de 'etnodesenvolvimento' e
preferiram conceber desenvolvimento como um tipo de auto-determinação"(ibidem,
p. 10). Leituras antropológicas críticas de ideologias/utopias ocidentais
colocam dilemas que podem atingir nossas próprias predileções políticas.
Responsabilidade social, transparência e prestação de contas, por exemplo,
claramente não são categorias universais. No seu estudo comparativo de
burocracias, Herzfeld concluiu que essas categorias formam "uma amálgama
socialmente produzida, culturalmente saturada de idéias sobre pessoa, presença
e política. [Seus] significados são culturalmente específicos e sua operação é
restringida pelas formas mediante as quais seus operadores e clientes
interpretam suas ações. Sua administração de identidade pessoal ou coletiva não
pode se tornar independente da experiência social" (op. cit., p. 47).
[44] Lévi-Strauss, Claude. Raça e história. Lisboa: Presença, 1980.
[ Links ]
[45] Landes, David S. Revolution in time: clocks and the making of the modern
world. Cambridge: Harvard University Press, 1983. [ Links ]
[46] Jameson, Frederic. "Postmodernism, or the cultural logic of late
capitalism". New Left Review, nº 146, 1984, pp. 53-92. [ Links ]
[47] Bourdieu, P. "A economia das trocas lingüísticas". In: Ortiz, Renato
(org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1983 [1977], pp. 161 e ss.
[ Links ]
[48] Goody, Jack. The logic of writing and the organization of society.
Cambridge: Cambridge University Press 1986. [ Links ]
[49] Herzfeld, op. cit., pp. 19-20. [ Links ]
[50] Ibidem, p. 119.
[51] Rist, op. cit., p. 243.
[52] Sobre isso, ver Marsden, David. "Indigenous management and the management
of indigenous knowledge". In: Wright, Susan (org.). Anthropology of
organizations. Londres: Routledge, 1994, pp. 41-55. [ Links ]
[53] Barbosa, Lívia. Igualdade e meritocracia. a ética do desempenho nas
sociedades modernas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, 2001, p.
135. [ Links ]
[54] Wolf. E. "Aspects of group relations in a complex society: Mexico". In:
Pathways of power: building an anthropology of the modern world. Berkeley:
University of California Press, 2001 [1956], pp. 124-138, p. 138.
[ Links ]
[55] Ibidem.
[56] Ribeiro, G. "Cybercultural politics: political activism at a distance in a
transnational world". In: Alvarez, Sonia, Dagnino, Evelina e Escobar, Arturo
(orgs.). Cultures of politics/politics of culture: revisioning latin american
social movements. pp. 325-352.