Jorge Luis Borges: história social de um escritor nato
AL HIJO DE UM AMIGO
Ebria de significaciones
La Realidad trabaja en abierto misterio
Y logra a veces
Que no sólo el sueño sino la vida
Nos sea sueño.
Y cuando tanto logra
Lo que debía ser, cumplido está.
Porque una vez que sueño y vida,
Esas dos iluminaciones del Ser,
Confundem sus fuentes bajo nuestras miradas
El milagro inicial de Separación
En el milagro final de Identificación se agota
La Inteligencia cesa, la Visión descansa; ciérrase el círculo.
¿Para qué vino tu hijo y trae su alma
Con milagrosa humildad y altíssima cortesía
A practicar Sueño, Vida y Muerte
Y unirse al peregrinaje de las significaciones
Advirtiéndonos humildemente de la significación que él es?
A hacernos más ricos con saberlo
Y a formular una más completa palabra
De la ciencia de lo que nos espera.
Porque tal como yo le vi ayer
Saludar de alma a alma a una mujer
Vine a comprender lo que saludar era,
Que es reconocer la existencia de otro con tanta energía
Como la que pone Dios para invitar una alma a existir
Y esto yo no lo sabía
Y en retribución de enseñanza tan valiosa
Yo le digo: que no tema al ocaso
Porque es allí donde nacen más días
Y es donde recibiremos un Saludo
Que nos hará verdaderamente Nacer.
Y para allí voy caminando sin congoja alguna
Más seguro de mi eternidad y de la de mi hijo
Desde que vi cómo saluda el tuyo.
Tu hijo cuyo significado es Yo Saludo
Yo aplaudo todo vivir.
Macedonio Fernández1
A copiosa literatura de exaltação do escritor argentino Jorge Luis Borges se
aferrou em apagar as constrições sociais de sua trajetória, como se fora seu
desígnio exclusivo a rendição ao culto do escritor puro, o mais acabado
espécime contemporâneo do homem de letras, o qual teria se afirmado por força
apenas do gênio literário, e cuja gênese poderia subsistir na penumbra de
alusões, anedotas e esquisitices. Os artífices da legenda borgeana converteram
suas ficções em néctar dos atos de escrita, um Borges cifrado que requer a
prontidão cultivada do leitor, o supra-sumo da arte pela arte, a literatura
desvencilhada das demais práticas sociais, e buscaram constituir um repertório
de condutas, sentenças, excentricidades, caracteres, todos eles contribuindo na
modelagem de um Borges tão singular e inefável.
Esse descolamento entre vida e obra lhe garantiu as roupagens sulfurosas de
personas insólitas, a ponto de ser renomeado em francês como "Borgès"2, esse
argentino globalizado', destituído de vida pessoal, familiar, amorosa, infenso
a paixões e tomadas de posição políticas, até mesmo descolado do universo
cultural nativo, como se tivesse se transmutado no escritor puro por
excelência, sem raízes, devotado por completo ao cometimento de uma escrita sem
máculas, sem vestígio das práticas sociais que a viabilizaram. Jorge Luis
Borges, o único escritor latino-americano com status de sumidade literária,
teria logrado cancelar as marcas históricas de sua passagem pelo mundo social,
que ele mesmo formatou como narrativa solipsista, auto-suficiente, fora do
tempo e do espaço.
Borges contribuiu de modo decisivo para esse esforço minudente de
"espiritualização" de suas obras, apreendidas e reconhecidas como feitos
encantados de um mistagogo da narrativa ficcional. O passo crucial nesse
esforço de apagamento dos sinais remanescentes dessas experiências sociais
consistiu na virtual interdição de leitura, e mesmo de acesso, aos sete livros
de sua autoria, publicados na mocidade, entre os versos de estréia (Fervor de
Buenos Aires) em 1923, e a juntada de ensaios sob o título Evaristo Carriego,
em 19303. Teve a cautela de borrar todas as marcas de vínculos afetivos,
pessoais e profissionais ao eliminar dedicatórias, omitir nomes de pessoas
próximas, renomear certos poemas, como se quisesse purgar o bagaço de uma
multifacetada experiência social e expressiva em favor de uma escrita ora
incensada como pura invenção criativa, um artifício luminoso. Um milagre do
cânon literário, que nasceu pronto e rematado, um "escritor nato".
PATERNIDADE CONVULSIONADA NO CÍRCULO FAMILIAR DE LETRADOS POLÍGRAFOS
Borges foi educado num ambiente familiar de letrados, os quais costumavam se
reunir em casa de seus pais, em Palermo, nas noites de domingo. Além do pai
Jorge Guillermo e de Macedonio Fernández, acorriam às tertúlias domésticas
diversos personagens marcantes na formação de Borges, bem como na orientação de
lances decisivos de sua repentina afirmação como liderança intelectual, a meio
caminho entre o queixume e a contestação: seu primo, o escritor Álvaro Melián
Lafinur (1889-1958), animador do clã e vizinho de bairro; o poeta Evaristo
Carriego (1883-1912), conterrâneo de Jorge Guillermo, ambos originários da
província de Entre Rios, que recitava poemas seus e de outros argentinos
famosos, como Lugones, Almafuerte4 e Enrique Banchs5; o polígrafo Alfredo
Palácios; Marcelo del Mazo6 (1879-1968), primo de Macedonio Fernández; o
jornalista e poeta suíço-argentino Charles de Soussens (1865-1927). A conversa
começava antes do ajantarado e se estendia até a madrugada, em torno de
assuntos literários e políticos. A julgar pelas referências dos participantes,
valorizavam-se as tiradas brilhantes e espirituosas, as intervenções polêmicas,
as réplicas cortantes, tudo isso evidenciando a fruição deleitada de uma
tradição de oralidade por parte dessa geração de letrados de elite na capital
argentina.
Essa dinastia familiar remontava ao primeiro poeta da tradição lírica
argentina, Juan Crisóstomo Lafinur (1797-1824), figura destacada da época da
Independência. Sua reputação literária decorreu das elegias compostas por
ocasião da morte do general Belgrano, de cuja academia de cadetes, em Tucumán,
Juan fora aluno7. Apesar de não haver logrado um reconhecimento consistente,
tendo sido designado pelo próprio Borges como "poeta menor", Álvaro Lafinur
ocupava posições estratégicas no campo literário em constituição, responsável
pela seção "Letras Argentinas" (1912-1917) na revista Nosotros, o periódico
mais representativo do establishment literário portenho, fundado em 1907 e cuja
periodicidade com breve interrupção se prolongaria até 19438.
Os mais destacados integrantes do círculo íntimo de amigos literários do pai de
Borges Carriego, Soussens e Lafinur eram letrados típicos dessa geração
finissecular, instada a prestar serviços compulsórios à grande imprensa diária,
a cujos dirigentes buscavam se ligar. Esses magnatas lhes garantiam o sustento
material, a posse momentânea de uma filiação institucional prestigiosa, salvo-
conduto para o acesso aos espaços concorridos de sociabilidade, a um tempo
mundana e literária, e as benesses de viagens e missões internacionais.
Movendo-se num recesso de confrarias remuneradas, esses intelectuais podiam se
entregar, de tempos em tempos, aos arroubos de uma veleidade intentos com
freqüência cerceados pelos deveres profissionais como jornalista , dando vazão
à energia autoral em revistas literárias ou na esporádica publicação em livro
de versos e artigos já conhecidos. Aliás, a reputação desses letrados se deveu
muito mais ao trabalho de resgate memorialístico, empreendido por amigos e
admiradores, do que ao impacto exercido pelas obras. Tendo-se notabilizado por
uma única obra de repercussão, ou então, pela expectativa algo fantasiosa de
uma futura contribuição definitiva, da qual por vezes se conhecia até o título
e o índice de matérias, como no caso paradigmático do extraviado "Le Château
lyrique", de Soussens, esses letrados autodidatas produziram em resposta às
diretrizes convencionais das revistas literárias da época e raramente em função
de um projeto autoral reconhecível.
Borges foi se familiarizando com a vida literária pelo convívio com esses
jornalistas letrados, em sintonia fina com os modelos europeus de fatura
simbolista, muitos deles autodidatas que se prontificavam a exercer cargos e
posições que requeriam um domínio seguro da escrita. Homens viajados,
poliglotas, e como que "exilados" na Argentina, como Paul Groussac9, por
exemplo, os quais alicerçaram sua contribuição no manejo fluente de repertórios
cultos, cuja raridade lhes assegurava proeminência num campo intelectual em
gestação.
O mais complexo e matizado de seus relacionamentos nessa época envolveu a
figura marcante do pai. Jorge Guillermo Borges (1874-1938), advogado
praticante, professor de psicologia na Escola Normal para Línguas Modernas, era
um homem culto e sofisticado, com domínio apurado da língua inglesa, tendo
constituído uma biblioteca em cujo acervo se misturavam obras científicas,
filosóficas, literárias, relatos de viagens, enciclopédias, livros de estampas,
um mundo à parte em cujo interior sucedeu parcela substancial da socialização
cultural do jovem Borges.
Entretanto, ressalte-se este componente decisivo na história da família, seu
pai também parece ter nutrido, a vida toda, o desígnio persistente de uma
carreira intelectual, como bem o demonstram alguns poucos poemas, a tese de
doutorado, um conto, artigos em revistas de cultura e, em especial, uma novela
que chegou a publicar em livro em 192110, dois anos antes do livro de estréia
do filho.
Junte-se ao desmonte de tais pretensões o flagelo de uma cegueira progressiva,
cuja gravidade exigiu decisões familiares drásticas, como encetar uma
prolongada viagem à Europa em 1914, no intuito de lograr a cura por meio de
sucessivas intervenções, a experimentação de variados tratamentos e remédios, a
consulta a especialistas afamados. E ressurge com nitidez o quadro das
circunstâncias sofridas em que o jovem Borges foi como que "herdando" e
assumindo como coisa sua um projeto frustrado do pai.
Suas cartas de juventude e as fotos de mocidade de Borges permitem vislumbrar
os entusiasmos, as ousadias e os modos comportados de um rapaz de boa família,
bem posto na vida, que teve de interromper os estudos por conta de atribulações
familiares, às quais veio se juntar o anseio paterno, desejoso de atraí-lo para
o ofício intelectual. O que mais impressiona é a quase inesgotável
disponibilidade de tempo e recursos, que vão propiciando ao jovem Borges um
sobre-investimento em termos de aquisição e aprendizado de um fenomenal cabedal
literário. A intensa "europeização" de Borges transparece no apuro do vestuário
sempre de colete e paletó, camisa de colarinho alto engomado, gravata com
alfinete, ou laço borboleta, os cabelos repartidos e cuidadosamente penteados
para trás , bem como nos estereótipos externados a respeito dos
compatriotas11, sintoma de sua decepção ao se deparar com um universo político
e cultural acanhado quando do primeiro retorno em 1921.
Apesar de desnorteado por conta da deambulação dos seus, ao se haver com
constantes mudanças de rotas, metas e sentimentos, as cartas de juventude
permitem recobrar o quão intensamente Borges passou a vivenciar a vocação de
escritor como tábua de salvação. A entrega radical ao ofício literário, em meio
a decepções e euforias, se fez acompanhar pelo tônus de esoterismo de que se
revestem suas representações encantadas da atividade criativa.
O nomadismo familiar, a busca constante de cura, as interrupções provocadas
pelas inúmeras cirurgias, tudo isso deve ter infundido certa dose de suspense e
irrealidade na educação dos filhos, como se tais circunstâncias negativas
pudessem redundar em vantagens inesperadas, como um terreno de ousadia, um
frescor de invenção, uma suspensão escapista das servidões terrenas, uma
capacidade criativa mais atilada dele e de sua irmã Norah, dois anos mais moça,
a qual tornar-se-ia mais tarde gravadora e artista plástica12. Como se sabe,
Borges interrompeu os estudos após concluir o colegial em Genebra e não chegou
a prestar o concurso para agregação em letras, num momento em que pensou em se
tornar professor de inglês para poder se casar.
A educação de Jorge Luis e de Norah sucedera num regime um tanto segregado,
mesmo levando-se em conta as condições peculiares em que se dava a formação
escolar dos filhos de algumas famílias da elite argentina. Desejosos de lhes
proporcionar um ensino que fosse superior ao vigente nos estabelecimentos da
época, os pais contrataram uma professora particular estrangeira, a inglesa
miss Tink, a qual ministrava diversas matérias em inglês. Nos anos em que a
família Borges morou em Palermo, na casa da calle Serrano, vizinha à residência
da avó paterna inglesa, Fanny Haslam, falava-se espanhol e inglês, e Jorge Luis
era chamado pelo apelido de Georgie. Instalaram-se nessa rua em 1901 e nela
residiram até 1914, quando viajaram pela primeira vez à Europa.
Georgie tinha quinze anos no momento da primeira viagem familiar à Europa, em
fevereiro de 1914. A família residiu em Genebra até 1919, daí empreendendo
inúmeros deslocamentos entre Madrid, Sevilha e Palma de Mallorca, entre 1919 e
1921. Por conseguinte, sua formação intelectual e literária ocorreu em meio a
tumultuadas expectativas familiares no tocante às perspectivas de remediar a
cegueira paterna. Muito embora as fontes disponíveis sejam reticentes, e
bastante parcimoniosas a respeito da situação material da família Borges, pode-
se aventar a hipótese de que, nesse projeto de vilegiatura européia para
tratamento médico, o pai deve ter decidido lançar mão do pecúlio acumulado e da
parcela patrimonial que lhe coube por herança13. O empenho de comentaristas e
críticos e, em especial, as reiteradas alusões do próprio Borges, ao longo da
vida, intentaram transmutar essas razões práticas em inclinações intelectuais,
como se o pai de Borges tivesse desejado se afastar da Argentina para se
consagrar por inteiro às atividades do pensamento, a uma prática reflexiva
desinteressada, apenas acessível a um diletante dotado de recursos e de uma
abundante disponibilidade de tempo.
A confiança inabalável do jovem Borges em seu potencial efetivo como
intelectual sucedeu em meio à turbulência dos deslocamentos familiares, girando
o tempo todo em torno dos avanços da cegueira, doença congênita que havia
atingido seis gerações da família paterna, a qual, muito provavelmente, ele
deve ter se dado conta, acabaria por se manifestar no seu caso. De fato, mais
tarde, quase aos cinqüenta anos, após oito intervenções cirúrgicas, Borges
ficaria cego, embora tivesse logrado até mesmo transmutar essa desgraça em
matéria-prima de elucubrações em torno de certas peculiaridades de sua
apreensão do mundo circundante.
Por melhor que tivesse transcorrido a prolongada primeira estadia dos Borges na
Europa (1914-1921), pouco deve ter contribuído para sanar as fragili dades
físicas do adolescente postulante à carreira letrada. Além do descolamento da
retina quando criança e da necessidade de usar óculos desde pequeno, Borges
padecia de uma gagueira da qual só conseguiu se livrar já adulto. A piora da
cegueira paterna parece ter sido concomitante ao destape da voz literária do
filho. Quanto mais se inviabilizavam as pretensões intelectuais paternas, tanto
mais estridentes as ousadias do emergente veio autoral de Borges. Enquanto a
orfandade precoce do pai lhe obrigara a arranjar desde cedo uma profissão que
lhe garantisse a sobrevivência, Borges foi tendo de lidar com uma espécie de
orfandade diferida, na medida em que a cegueira paterna lhe infundiu um
sentimento irrefreável de urgência no tocante à definição precoce de uma
vocação literária. Tal decisão se fez secundar pela "opção" do celibato, pré-
requisito que deve ter lhe parecido indispensável ao êxito de um projeto
criativo de tal vulto.
A identificação de Borges com o pai lhe permitiu sondar e ajuizar as
experiências de outros parentes e antepassados, que também haviam manifestado
pendores literários. Existem indicações de que seu pai teria produzido muito
mais do que o pouco que se conhece originais que ficaram inéditos ou então
destruídos pelo autor, entre os quais uma seleta de ensaios, um livro de
histórias orientais e um drama. Parece difícil dissociar as lendas a respeito
do Borges pai como escritor bissexto da assunção, por parte do filho, das
prerrogativas inerentes à sua posição de escritor bafejado pelos lampejos do
recluso mago letrado. Havia, sem dúvida, uma interconexão perceptível entre, de
um lado, a falência física e o esboroamento do projeto intelectual do pai e, de
outro, a intensidade quase fervorosa com que o filho abraçou o ofício de
escritor.
O quiasma desses dois itinerários foi transferindo energias e recursos do pai
para o filho, tanto no plano dos trunfos familiares mobilizados, como em termos
da convicção íntima de ambos quanto ao desfecho desses caminhos cruzados.
Aliás, o confronto entre as fotos de Jorge Guillermo adulto e do jovem Jorge
Luis revela fortíssima semelhança de traços o rosto largo e ovalado, a testa
imensa, os cabelos negros lisos e repuxados para trás, o pescoço carnudo, os
olhos penetrantes e sugere algum empenho do filho em arremedar o jeitão
másculo do pai, como se os laços de continuidade pudessem ser tirados a limpo
pela impressionante parecença física.
O pai foi aos poucos abrindo mão das ambições literárias, acossado pelo avanço
da cegueira, que já o atingira em cheio antes mesmo dos quarenta anos, justo no
momento em que dispunha de alguma folga financeira. Os diagnósticos
desencontrados e as sucessivas intervenções não lograram nenhum alívio e
decerto aguçaram em ambos uma percepção distinta dos impasses: as frustrações
paternas atiçando os dilaceramentos filiais.
Tamanha sintonia com a figura paterna remonta à primeira infância, quando
Georgie se tornou bilíngüe, transitando com facilidade do espanhol associado
à linhagem materna, aos feitos dos militares evocados pela memória familiar
ao inglês, que lhe fora transmitido pelo pai e pela avó paterna, inglesa de
origem. O espanhol lhe soava então como a língua inferior dos serviçais de seu
país de origem; o inglês ostentava o status de língua culta, pulsante nos
livros maravilhosos de poetas e viajantes, que podia consultar na biblioteca
caseira.
Durante a temporada familiar na Suíça, Georgie aprendeu francês no colégio, que
dominava por completo, na fala e na escrita, como atestam as cartas de
juventude; e investiu ainda numa aprendizagem autodidata do alemão, da qual se
saiu tão bem a ponto de ousar traduzir poemas expressionistas. Ao chegar a
Madrid, quando a família decidiu iniciar o retorno por etapas, Georgie ficou
surpreso ao constatar que os poetas espanhóis de sua geração liam os autores
franceses em traduções e jamais no original, pois não dominavam nenhum outro
idioma. Deve ter sido um dos primeiros choques no processo gradativo de auto-
reconhecimento, como integrante poliglota de uma elite periférica de educação
tão esmerada.
Por maior que fosse o valor da moeda argentina em 1914, Borges não pôde se
equivocar quanto à condição material efetiva de sua família, tampouco se
esquivar a compará-la à abastança de outros clãs argentinos em temporada
européia naquela época. As mostras de uma progressiva tomada de consciência das
injunções de sua situação social estão na raiz das hesitações do que pretendia
fazer como intelectual: quais os gêneros que lhe atraíam como mais rentáveis,
de maior repercussão, os temas que lhe incitavam o tirocínio político, os
autores e obras que lhe permitiam achegas à atualidade política internacional
a Revolução Russa, a Guerra Mundial, as ideologias radicais.
Não resta a menor dúvida de que ele tentou com empenho e seriedade duas
cartadas: o ofício poético, dando continuidade aos feitos dos modernistas
hispano-americanos Darío, Nervo, Lugones sobretudo, sem esquecer os heróis
líricos da infância, Almafuerte, Carriego e Banchs; o ensaísmo culturalista, de
fundo politizado e messiânico, em formato inspirado em Schopenhauer, a
influência decisiva sobre a intelectualidade espanhola em fins do século XIX e,
por conseguinte, nos segmentos educados dos países hispano-americanos.
A formação intelectual de Georgie ocorreu num momento de crise aguda da
sociedade espanhola, conjuntura marcada pela perda de Cuba, a última colônia na
América, em meio à derrota sofrida na guerra com os Estados Unidos. A chamada
geração de 98, da qual faziam parte alguns dos intelectuais reverenciados pelo
jovem Borges, em especial Unamuno e Pío Baroja, emergiu nesse contexto e aí
definiu a agenda de trabalho e a visão de mundo, norteadas pelo voluntarismo
derivado do idealismo alemão14.
Ainda motivada pela recidiva da cegueira paterna, a segunda viagem dos Borges à
Europa (1923) fora a tentativa derradeira de sustar o rebaixamento social como
pior das ameaças. Nesse aperto, o jovem Borges herdou, paulatina e
irreversivelmente, os haveres tangíveis e intangíveis do pai, a biblioteca, as
disposições culturais sofisticadas, o domínio de línguas estrangeiras, as
ambições literárias, as veleidades políticas do círculo de elite a que
pertencia sua família, os fumos de um criollismo acendrado e, ainda, os amigos
e as diversas modalidades de apoio que se revelaram indispensáveis ao deslanche
bem sucedido da carreira de jovem tão promissor.
O fato de que a assunção de legado tão impressionante, desse cabedal invejável
de trunfos complementares, tenha ocorrido em contexto propício à absorção de
outras linguagens e repertórios expressivos, deve ter intensificado o apuro de
suas habilidades no ofício literário. Essa mescla raríssima de elevado capital
cultural como que aguçou a percepção sensível dos impasses a que estava exposto
o pai, relativamente jovem e já compulsoriamente aposentado por conta da
cegueira. Some-se a isso o acesso simultâneo a figuras estratégicas, de amplo
trânsito no interior da elite nativa, dando liquidez às investidas ousadas do
postulante.
Georgie foi educado num ambiente familiar consagrado à literatura, tendo sido,
amiúde, encorajado em sua precoce vocação literária. Estava ciente desse
suporte familiar, do apoio proporcionado pela rede de parentes e amigos que
acompanharam o despertar e o amadurecimento de suas pretensões, bem como dos
privilégios decorrentes dessa proximidade social de um círculo intelectual tão
bem posicionado na cena cultural portenha. E a prova contundente dessa tomada
de consciência pode ser aferida pelo exame dos seus empreendimentos mais
ambiciosos no exercício de uma liderança inconteste naquela geração de
vanguarda.
Assim, a fatura e a difusão dos manifestos de vanguarda se esclarecem no
contexto de uma parceria familiar. A proclama divulgada no lançamento da
revista mural Prisma, afixada nas paredes da capital argentina, em novembro de
1921, logo após o retorno da Europa, era também subscrita pelo primo irmão
Guillermo Juan Borges15, filho do tio paterno, Francisco Eduardo Borges, único
irmão de seu pai, pelo crítico espanhol Guillermo de Torre, futuro cunhado, e
ilustrada pela irmã Norah Borges. A revista mural constituiu, de fato, uma
iniciativa viabilizada, de cabo a rabo, pela chancela familiar. Afora o já
citado manifesto, cujo mentor fora Borges, o mural incluía poemas do primo
Guillermo Juan, e do amigo íntimo da estadia em Mallorca, Jacobo Sureda. A mãe
emprestou baldes de cola, brochas e escadas para o trabalho no centro de Buenos
Aires.
Ou então as antologias poéticas que teve a oportunidade de organizar e divulgar
na primeira mocidade, antes mesmo de haver estreado em livro. Os autores e os
poemas selecionados constituem a resposta tácita aos apoios que vinha recebendo
dessa rede de letrados com os quais partilhava afinidades de fundo e de forma.
Em dezembro de 1921, Georgie publicou a antologia "Lírica argentina
contemporânea" numa revista espanhola prestigiosa16. Assim como já fizera ao
incluir um poema do primo Guillermo Juan na seleção de versos demonstrativos da
estética ultraísta, encartada no artigo-proclama do novo credo estético,
divulgado na revista Nosotros, em dezembro de 192117, desta feita Georgie erige
um panteão de poetas, referidos, em maioria, ao universo familiar de
socialização literária.
A antologia se abre com um poema de Macedonio Fernández, "Al hijo de um amigo",
que lhe fora dedicado, como que intentando lastrear uma linhagem literária
cultivada em âmbito caseiro e confiada pelo amigo querido do pai à sua guarda,
como líder inconteste da nova geração. Como Georgie é o objeto afetivo do
recado, o poema se encerra com a louvação de sua figura como elo entre a
geração emergente e a turma de letrados veteranos, da qual faz parte Macedonio,
o autor da homenagem. Ressalte-se a razão invocada pelo mentor para comprovar o
valor diferenciado de Georgie: a superioridade era afirmada pela cortesia do
tratamento conferido às mulheres. Ora, Macedonio perscrutava atributos
singulares do protegido na conduta de sociabilidade em vez de cravar seu
cabedal em dotes de natureza intelectual.
Não tendo como reverenciar a obra de Macedonio, àquela altura ainda
inexistente, quase toda inédita, mais alardeada do que tangível, Georgie
elabora o escorço biográfico desse luminar nativo a partir das feições da
personalidade excêntrica, salientando o prumo de polemista imbatível, a postura
de ente filosofante, a prática extravagante de militante anarquista bissexto,
os dotes de pensador ousado e original, o qual se impôs muito mais pela vida do
que pelas obras, pelos encantos da conversação, da expressiva oralidade, do
jeito pessoal de tocar guitarra.
A seleção feita por Georgie reteve ainda versos de Marcelo del Mazo, primo de
Macedonio e comensal dos domingos em Palermo, um soneto de Enrique Banchs,
autor do livro de versos preferido do pai, e um poema do primo Álvaro Melián
Lafinur18. Uma antologia referida quase por inteiro às coordenadas de suas
experiências de socialização literária, como que um acerto visando retemperar
afinidades por meio de contraprestações, marcadas pelo espírito de clã e pelos
juízos personalistas e idiossincrásicos do jovem Borges, desejoso de retribuir
préstimos e equilibrar trocas nessa parceria.
Interpreto o ensaísmo borgeano dos anos 1920 como fruto da curiosidade em
apreender, de dentro de um universo de tradições culturais, as peculiaridades
de uma condição social e política periclitante. Na medida em que os trunfos de
linhagem e de antigüidade na classe dirigente não conseguiam sustar a rápida
deterioração das expectativas de futuro social dele mesmo e dos familiares, a
qual tendeu a se acelerar tanto mais por força da invalidez paterna, Borges
mergulhou por inteiro na atividade intelectual. Era o único escape, a saída
honrosa ao alcance de um jovem brilhante, cujas perspectivas de promoção
classista se haviam embaçado por conta dos impasses familiares.
Entre fins de 1919 e o primeiro trimestre de 1921, com vinte e poucos anos,
Borges realizou uma produção intelectual de envergadura para a sua idade,
testando habilidades num espectro diversificado de gêneros e formatos
expressivos. Em 1921, ano miraculoso em matéria de produtividade literária,
Borges escreveu poemas e prosas poéticas, resenhas e diatribes, contos curtos,
ensaios e manifestos, realizou traduções de poesias alemãs19.
As viagens do clã Borges teriam assim lhe propiciado a oportunidade rara de
iniciação prática e com riscos elevados em diversas frentes da atividade
intelectual, como que glosando, ao seu modo, os gestos pregressos de
atrevimento paterno, ou então, o que dá no mesmo, os reptos da criatividade
paterna que ele reelaborou em chave cada vez mais idealizada à medida que
envelhecia. Não estava ao alcance de qualquer um, àquela fase da mocidade,
poder transitar entre o ensaio crítico, com intentos de intervenção estética e
doutrinária, o virtual domínio técnico de outras linguagens e estilos
expressivos por meio de traduções, a militância petulante em revistas de
vanguarda, a fatura poética audaciosa e o exercício desaforado da liderança
intelectual.
No curto período de estadia em Buenos Aires, entre as duas viagens à Europa,
Borges parece ter se apaixonado e ficado quase noivo de Concepción Guerrero,
dando mostras de querer estabilizar-se no plano profissional. Conhecera a noiva
em casa da família Lange, da qual era aparentado por intermédio do tio militar.
Pensou em se tornar professor de inglês, a fim de garantir o sustento, plano
que por si só esclarece as perspectivas travadas do futuro que então conseguia
vislumbrar. Não soa, pois, tão descabido aventar a hipótese de que uma das
finalidades tácitas da segunda viagem familiar teria sido apartá-lo da amada,
fazê-lo esquecer tal envolvimento, convencê-lo dos enguiços a que se expunha um
jovem com tantos embargos, no intuito de que não descurasse da atividade
intelectual como meta central de vida.
As viagens familiares, encetadas por razões práticas imperativas, quase todas
ligadas à busca por socorro médico capaz de reverter a galopante cegueira
paterna, foram sendo repensadas por Georgie como percurso iniciático. Tal
itinerário encantado lhe propiciou inflar os propósitos dessa "vocação"
insuflada pelos familiares, pelos amigos próximos do círculo doméstico e, ao
fim e ao cabo, cultivada por ele mesmo, com requintes de autodidata excêntrico.
Nessa movida de energias se confundiam os intentos paternos, imperativos e
compensatórios, e os empenhos do herdeiro ao se apropriar dos haveres do pai e
da família.
Tudo se passa como se o projeto literário de Borges tivesse se viabilizado por
incitações derivadas de uma confluência excepcional de expectativas dos seus,
convertidas em pulsões próprias, a começar pelos desígnios projetivos do pai,
atiçados pelas esperanças difusas manifestadas pelos demais parentes letrados,
pelos escritores que freqüentavam sua casa, até a adoção do jovem tão promissor
por parte de amigos chegados do pai, quase como o objeto dileto de seus
investimentos afetivos e intelectuais. O fecho dessa herança presuntiva,
trabalhada de parte a parte, consistiu no financiamento paterno do livro de
estréia de Georgie, cuja impressão de uma tiragem de trezentos exemplares
custou 130 pesos.
O caso Borges atesta a seu modo o papel estratégico desempenhado pelo declínio
material e político de certas famílias desse setor criollo empobrecido da elite
argentina, nas quais foram recrutados alguns integrantes destacados da primeira
geração da vanguarda. A vanguarda portenha reuniu jovens de famílias ilustres
alguns até endinheirados, em estágios variáveis de retrocesso econômico aos
filhos de famílias de origem imigrante. Os moços criollos preferiram se
consagrar aos gêneros elevados, a poesia e o ensaio, ao passo que os
descendentes de imigrantes se arriscaram na prática de novos formatos
literários como as crônicas, as reportagens, a crítica militante de livros,
filmes e espetáculos, os folhetins, e os relatos ficcionais curtos. O
diferencial dessas propensões era decerto o manejo desempenado e altivo da
língua pátria por parte dos herdeiros criollos.
Enquanto Borges, Girondo e Bernárdez teimavam em testar os dotes expressivos na
inovação de gêneros legítimos, a poesia e o ensaio, Arlt, por sua vez, se
aventurou em novos feitios paraficcionais, a meio caminho entre a reportagem, a
chaga viva do documento, e um fio mais ou menos esquálido de trama romanesca.
Os vanguardistas de boa cepa infundiam aos escritos os prumos estrangeirados e
a substância do aprendizado europeizante. Os contemporâneos de procedência
imigrante permaneciam atados às agruras desse itinerário atribulado e não
conseguiam sequer nublar a memória dessa carga de humilhações na transcrição
literária da história sofrida de suas famílias.
PADRINHO EXCÊNTRICO (MACEDONIO FERNÁNDEZ) E APRENDIZAGEM DE ESTESIAS
O exame das relações entre o jovem Borges e o letrado Macedonio Fernández
permite recuperar uma segunda fornada de energias propulsoras do dispositivo
vocacional borgeano. Nascido em Buenos Aires no mesmo ano de seu pai, filho de
um estancieiro, Macedonio foi colega de turma e amigo íntimo do pai de Borges,
tendo freqüentado juntos o Colégio Nacional de Buenos Aires no secundário e,
mais tarde, a Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade de Buenos
Aires, na qual ambos se formaram e defenderam a tese de doutorado, em 189820.
Pertenceram a uma turma famosa da faculdade, a qual incluía nomes ilustres que
se tornaram figurões da economia, da política e da cultura argentinas21. Além
dos diversos amigos em comum, o pai de Borges freqüentava a casa dos pais de
Macedonio, local de encontro de políticos e homens de letras, muitos dos quais
participaram da criação do Partido Socialista em 1896. O modo de funcionamento
desses encontros deve ter contribuído para as feições de sucessivos círculos de
amigos letrados que se organizaram em torno da tutela exercida por Macedonio.
Julio Molina y Vedia, outro integrante das tertúlias, herdeiro de uma dinastia
de grandes proprietários de terras, também amigo do pai de Borges, interessado
em filosofia e literatura, era arquiteto, o responsável pela construção da casa
dos Borges na calle Serrano22, revestida com elementos art nouveau na fachada.
Jorge Guillermo viria a resenhar um livro de poemas de Julio, em 1929.
Macedonio, por sua vez, comparecia com regularidade às tardes de domingo na
casa dos Borges.
Entre os tempos de universitário e os primeiros anos da década de 1920, quando
começam a ser divulgados alguns de seus textos em revistas de vanguarda, a
produção intelectual esparsa de Macedonio se assemelha em toda linha àquela do
pai de Borges: ensaios sobre costumes e logradouros argentinos, sonetos
bissextos, escritos filosóficos de esotérico teor metafísico, sem falar do
aceso interesse de ambos por psicologia. Macedonio tinha gosto em conceber
aforismos e reflexões inusitadas, mesclando tais lampejos com citações de
leituras em seus cadernos. Entre 1897 e 1920, ou seja, entre os 23 e os 46 anos
de idade, Macedonio produziu apenas alguns poemas e artigos, tendo firmado
presença quase mítica muito mais por intervenções orais, pela fluência e pelas
tiradas de sua conversa, pela boa estrela de sua imagem entre os amigos23.
Ao emitir o juízo de que "o talento de Macedonio era eminentemente verbal",
Borges contribuiu para a tendência crítico-historiográfica de apreender o
veterano letrado como conversador de primeira, tornando esse virtuosismo, em
meio aos embates da oralidade, uma forma sutil de detração dos dotes como
escritor. O fundo de verdade nessa aposta borgeana pode ser atestado pelo exame
de certas modalidades de sua expressão literária nos dois livros publicados no
final dos anos 192024.
Assim, em Papeles de recienvenido, os breves escorços autobiográficos nos quais
infunde uma tagarelice afetada, permeada por uma reflexividade ácida e auto-
irônica, deixam aflorar lampejos de auto-representação, como a declaração de
pertença às antigas famílias criollas, os olhos azuis como faiscante traço
recessivo do rentista discreto. Esse mesmo volume comporta falas e improvisos
pré-fabricados, enunciados em jantares comemorativos, de homenagem a escritores
e artistas amigos ("Brindis de recienvenido"), um epistolário endereçado aos
amigos íntimos ("Correo casero de recienvenido"), sem falar da "Miscelânea" ao
final do livro e das centenas de revelações íntimas eufemizadas naqueles textos
em que se misturam arroubos filosofantes, intervenções jornalísticas, poemas e
contos dedicados à esposa morta.Advogados atuantes, especialistas em
psicologia, casados, na mesma época, com mulheres procedentes de famílias
prestigiosas da elite nativa, Jorge Guillermo e Macedonio também desfrutavam de
acesso aos mesmos espaços de sociabilidade da nata de bacharéis: o Jóquei
Clube, as festanças comemorativas da formatura em direito, as temporadas de
verão nas propriedades de parentes. Ao que tudo indica, Macedonio deve ter se
correspondido com Jorge Guillermo durante a estadia dos Borges na Europa, o que
permitiu ao jovem Borges seguir de perto as peripécias políticas e espirituais
dessa espécie de mago politiqueiro iniciado nos recessos da psique humana.
Os traços que o distinguiam devem ter impressionado um bocado Borges, a começar
pelas investidas políticas de Macedonio, que teria chegado a ponto de externar
a pretensão de lançar-se candidato extrapartidário à Presidência da República
nas eleições vencidas por Marcelo de Alvear. Gozação ou intento frustrado, tal
projeto foi levado tão a sério por todos os circunstantes, que acabou por
integrar-se ao anedotário canônico sobre Macedonio. Conforme dão a entender as
cartas trocadas com o primo e confidente, Marcelo del Mazo, essa aventura
para a qual mobilizou uma legião de amigos, inclusive o pai de Borges, então em
Madri, e na qual fica difícil deslindar a realidade da fabulação alimentou
sucessivos projetos literários, desde a novela projetada em colaboração com o
jovem Borges25, até a fatura caprichosa do personagem presidencial em sua
novela mais ambiciosa, publicada muitos anos depois26.
Macedonio foi se convertendo num duplo da figura paterna, réplica positiva e
isenta das deficiências do modelo, encarnada num vulto de homem com traços
análogos de geração e de classe. Tais vantagens decerto lhe infundiram o desejo
de assumir a missão de como que perfilhar o jovem Borges, quer em termos de
sociabilidade, quer em chave literária, como fez questão de registrar no poema
"Al hijo de un amigo", composto nessa época e de pronto acolhido pelo
homenageado na antologia mencionada. Os versos de abertura nessa composição
ungem o jovem Borges como o messias em defesa da doutrina do projeto abortado
pela geração dos veteranos.
Essa paternidade vicária foi assumida pelo escritor bissexto e pelo pupilo, com
conseqüências de peso para a imagem pública e a fortuna crítica do padrinho
literário e existencial, incensado como precursor do Borges maduro e realizado,
dando margem a certo rearranjo do panteão literário argentino. Borges precisava
dessa mexida de posições: entronizar Macedonio como o mestre da geração
inovadora equivalia a derrubar Lugones do pódio prevalecente na década de 1920.
O empenho em alardear a oralidade criolla de Macedonio, tanto por parte do
jovem Borges como pelos vanguardistas da revista Martín Fierro, dotou-o de uma
efígie enigmática, homem misterioso, que teria se afastado dos familiares e dos
círculos exclusivos em que fora educado, notabilizado por idiossincrasias e
tiques do argentino de alta estirpe. Macedonio seria quase a antítese do
escritor convencional festejado, como Lafinur, outro arrimo de Borges.
Não tendo jamais pisado em algum país europeu ou latino-americano, Macedonio
foi se conformando às feições do eterno "recienvenido", candidato plausível e,
a um tempo, inviável como liderança política ou ideológica, uma referência
emblemática no cultivo dessa mística do criollo que se basta a si mesmo. Tocava
guitarra, apreciava os românticos alemães e os prelúdios de Rachmaninoff, vivia
trocando de pensão ou residindo em casas afastadas do centro, cultivando as
manias e as maquinações do gênio recluso.
O rentista Macedonio Fernández del Mazo conseguia sobreviver da venda de terras
no campo e de terrenos na capital, uma calculada dilapidação do patrimônio
familiar. Apesar das feições narrativas pouco convencionais do famoso relato
autobiográfico, de 1929, as esparsas achegas do livro manejam esses fumos de
prestígio por meio de predicados inerentes à sociabilidade oligárquica, tendo
logrado acionar os recursos expressivos que lhe permitiram simular o rechaço do
cotidiano reprodutor de seu grupo de origem. O Macedonio de olhos azuis, que
redigia cadernos secretos de reminiscências, nunca divulgados, tomava mate e
acolhia os amigos nos cômodos escuros em que morava, cultuando a conversa, o
humor, as tiradas paradoxais, as charadas, numa curtição inveterada da
"amizade" como credo existencial.
As excentricidades de Macedonio em diversos domínios, que se haviam
intensificado após a viuvez em 1920 a troca constante de locais de
residência, as paixonites por prostitutas, um trem de vida inusitado para o
ramerrão burguês como que avivaram em Borges a empatia pelo personagem e o
interesse crescente por seus escritos. Borges acabou enxergando-o como uma
espécie de pai substituto, ou melhor, o sucedâneo senhor de si, sem os óbices
paternos, igualmente imaginativo, mas destrambelhado, propenso a condutas
intempestivas e surpreendentes.
Macedonio se correspondeu com o filósofo francês Arréat em torno da substância
do ego e, por quase seis anos, com o filósofo norte-americano William James.
Depois de formado, ele e outros colegas, entusiastas do ideário socialista
romântico, inspirado em Lasalle e Saint-Simon, tentaram estabelecer uma
comunidade utópica e anarquista numa ilha selvagem do Paraguai em terras
pertencentes à família Molina y Vedia , primeira evidência do interesse
candente pela atividade política. A exemplo do pai de Borges e de tantos
bacharéis e letrados dessa geração nos países latino-americanos, leitores
convictos de Spencer e infensos aos poderes do Estado, Macedonio se enquadrava
no perfil dos membros da elite dirigente de livres pensadores e anarquistas,
atentos aos grandes acontecimentos do momento.
Por conta desses ligamentos, não é de se estranhar que o jovem Borges tenha se
afeiçoado a Macedonio e o tenha convertido em modelo de excelência
"clandestino". Nos primeiros anos dessa amizade um tanto assimétrica, o mestre
"subterrâneo" e o discípulo "afilhado" apreciavam os mesmos filósofos em
especial, Schopenhauer , e partilhavam tantas afinidades políticas que
formularam o projeto, jamais encetado, de escrever uma novela fantástica que
abordaria os meios empregados pelos maximalistas a multiplicação de muitas
pequenas moléstias para provocar uma neurastenia geral em todos os habitantes
de Buenos Aires e abrir assim caminho ao bolchevismo.
Com o regresso dos Borges em 1921, e sob a instigação maravilhada de Jorge Luis
pelo quase mítico guru e por seus escritos, Macedonio se incorporou à vida
literária portenha, colaborando em diversos periódicos e ampliando o rol de
fervorosos jovens admiradores na vanguarda. Em 1927, Macedonio deve ter instado
Borges a aderir à candidatura de Hipólito Yrigoyen, tendo ambos participado do
Comité Irigoyenista de Intelectuales Jóvenes. Os dois primeiros livros de
Macedonio foram editados no final dos anos 1920, o primeiro deles custeado pelo
autor, numa tiragem de apenas duzentos exemplares, o segundo com selo das
edições Proa27.
Macedonio também fez as vezes de intermediário entre Borges e os intelectuais
veteranos da geração precedente, os quais detinham o controle dos principais
periódicos e empreendimentos editoriais de vanguarda, como as revistas Proa 2 e
Martín Fierro e a Editorial Proa. Refiro-me ao condomínio de interesses e
frentes de investimento envolvendo Evar Méndez, Ricardo Güiraldes e Oliverio
Girondo, esse último o único da geração de Borges. Num campo intelectual ainda
em gestação, como o argentino, no qual a fortíssima ingerência do poder
econômico deixava espaço restrito aos rompantes de autonomia por parte de seus
integrantes, mesmo daqueles mais trunfados social e intelectualmente, a
proteção conferida pelos grandes investidores tanto mais valiosa quando esses
empreendedores exerciam em paralelo uma atividade literária, como nos casos de
Güiraldes e Girondo constituía a moeda decisiva das relações de força e de
sentido naquele universo restrito de trocas. Macedonio aproximou Borges dos
figurões no universo literário argentino da década de 1920. De imediato, Borges
soube consolidar laços de amizade com cada um deles, passando a colaborar na
revista dirigida por Girondo e Evar Méndez, tornando-se parceiro de Güiraldes e
Evar Méndez no projeto da Editorial Proa e, por fim, ajudando a promover a
empreitada latino-americanista dos martinfierristas liderados por Girondo em
sua viagem de 1924.
As diversas intervenções no debate em torno dos graus de originalidade de
Macedonio acabaram por ricochete se transmutando em indagações a respeito de
Borges como plagiário de Macedonio. Daí em frente, ao longo de toda a vida,
Borges jamais deixou de endossar as influências recebidas de Macedonio, os
empréstimos sucessivos de seus achados, aforismos, reinações, de seu léxico
chacoalhado por significações forjadas. Em retrospecto, a interação tão
estratégica de Borges com Macedonio lhe permitiu testar expectativas e
intentos, como pretendente trunfado à carreira intelectual entre os muitos
egressos dos antigos ramos da elite argentina, como integrante de uma família
orgulhosa de sua linhagem, dos feitos militares e políticos dos antepassados,
buscando guarida num modelo de escrita pouco convencional, fora dos parâmetros
daquela geração. Tal exemplo lhe proporcionou um modelo de intelectual
destoante, de leitura difícil, cujos atributos mais ostensivos procediam de uma
inserção social acidentada, e não de uma prática intelectual profissional.
O convívio próximo com Macedonio lhe permitiu uma sondagem mais distanciada do
imaginário e dos padrões de sensibilidade dos círculos sociais a que pertenciam
aquelas famílias criollas. Esse relacionamento lhe espicaçou o empenho em
discernir os impensados e as excentricidades daquela mentalidade, em deslindar
os meandros de suas preferências políticas e doutrinárias ou os esquadros de
apreciação da tábua de valores do que se considerava então autenticamente
"argentino". Macedonio fez a ponte entre a primeira socialização familiar,
demasiado turvada pelos sentimentos tumultuados de Borges diante dos reveses
familiares, e a tomada de rumos para uma carreira intelectual em sintonia com
seus "iguais".
A recepção crítica favorável a Borges, desde a arrancada de sua trajetória
intelectual, ao longo dos anos de 1920, deveu-se às relações privilegiadas que
logrou estabelecer com os letrados veteranos da geração paterna Macedonio
Fernández, Evar Méndez, Ricardo Güiraldes, Roberto Giusti e também com
lideranças de peso na cena cultural espanhola e latino-americana. Primeiro com
o poeta Rafael Cansinos-assens, os ensaístas Ramón Gomez de la Serna e
Guillermo de Torre, logo adiante Ortega y Gasset, Alfonso Reyes e outros nomes
destacados do establishment cultural e literário hispano-americano. A rigor, o
único companheiro de geração literária que mereceu sua atenção foi Oliverio
Girondo, por razões que pouco têm a ver com as preferências literárias ou
pessoais de Borges. A caracterização desses letrados pertencentes ao círculo do
pai de Borges, em especial Macedonio Fernández, propicia um flagrante matizado
da rede de interdependências a que estavam conectados, naquele espaço social
trincado pelas incertezas quanto ao futuro dessa fração da elite argentina,
detentora de um superavit de capital cultural que lhe permitiria infundir
energias explosivas na modelagem do projeto criativo de seus herdeiros.
Borges adquiriu prontidão técnica e ideológica por meio desse círculo de
letrados, o qual fazia as vezes de microcosmo vibrante do universo de
interações ao alcance de seus calouros. Não se podem descarnar os desígnios
doutrinários dos primeiros livros, tingidos a cada página pelos ideais e
ruminações queixosas daqueles homens cultos criollos, relegados pela nova
dinâmica de oportunidades econômicas, nostálgicos da herança prestigiosa das
antigas gerações familiares, tão orgulhosos dos políticos, militares e
periodistas, entre seus ilustres antecessores. Não foi por acaso, capricho ou
apenas vontade própria que Borges se empenhou com garra nesse estrondo
expressivo. Sua primeira década como escritor altamente produtivo evidencia o
intento de assumir a dianteira como ideólogo traquejado, capaz de viabilizar a
redenção dos valores conservadores, sob ameaça iminente de serem desfibrados.
Na tentativa de fundir, nessa prática poética e ensaística, a bandeira
patriótica e o estro lírico tão fortemente associado às figuras de Banchs e
Almafuerte, o jovem Borges quis por à prova o calibre de seu cabedal, então a
serviço de um programa recessivo, o qual pudesse trazer alento, ou ao menos
sustar o esvaimento das pretensões de influência política dos círculos criollos
a que pertenciam ele próprio e todos os seus. A apreensão do caráter, do estilo
e da substância temática das obras dos anos 1920 deve, pois, estribar-se no
resgate dos laços íntimos do estreante Borges com esses setores, no interior
dos quais ele foi socializado e, no limite, convencido quanto à legitimidade e
à urgência das palavras de ordem de sua redenção. Tais experiências modelaram
as feições e os feitos extraordinários desse talento fulgurante, como que
empurrado, alçado mesmo, desde os escritos de juventude, à condição
privilegiada de porta-voz e herdeiro das "iluminações" alardeadas pelos
mentores e patronos.
Girondo, Borges e Bernárdez28 foram alguns dos escritores vinculados à
vanguarda martinfierrista que, de fato, se formaram em contato e proximidade
com as propostas de renovação da cultura européia no período de entreguerras.
Eles tiveram o privilégio de empreender, no mais das vezes em companhia de suas
famílias, sucessivas viagens à Europa. O envolvimento crescente com linguagens
e procedimentos das vanguardas locais, em especial na França e na Espanha, mas
também na Alemanha e na Itália, abriu-lhes oportunidades de veicular seus
textos em revistas européias, e ainda lhes propiciou uma reação crítica
favorável naqueles espaços estratégicos de difusão. A vocação literária de
todos eles resultou, portanto, do embate entre constrições contrastantes: de um
lado, as expectativas dos círculos sociais e intelectuais a que pertenciam na
Argentina, as obras e os autores festejados daquela tradição cultural, a agenda
de temas e prioridades derivados de uma dada conjuntura histórica; de outro, os
modelos de inovação estética e literária em vigência na cena européia de
vanguarda.
Nas condições de operação do campo literário argentino nos anos 1920 e 1930, em
lugar de priorizar o significado estético das iniciativas e obras dessa geração
de vanguarda, os arroubos criativos de juventude se tornam inteligíveis nos
marcos da socialização desses "herdeiros", em especial nos casos exemplares de
Girondo e Borges, impregnados por completo pelo universo de valores, padrões de
gosto e expectativas de suas famílias, ou seja, dos círculos de elite em que se
modelaram tais projetos intelectuais. Basta atentar às inúmeras modulações com
que Borges intentou manejar o gênero biográfico, a começar pelo experimento
multifacetado que desaguou no ensaio Evaristo Carriego, para nos darmos conta
da incessante reciclagem de sentidos a que foi tentando sujeitar os retratos
hirtos dos antepassados, os relatos memorialísticos das grandes figuras do
Centenário, mesclados às representações personalizadas de personagens
prensados, literalmente, entre a legenda histórica, a memória familiar e de
classe, e o enredo ficcional.
Fervor de Buenos Aires foi recepcionado por uma dúzia de resenhas, na Argentina
e na Europa, algumas delas subscritas por escritores de certa reputação, como
Enrique Díez-Canedo, Salvador Reyes e Ramón Gomez de la Serna, este último
tendo publicado a sua na prestigiosa Revista de Occidente. O livro seguinte de
Borges, Inquisiciones, mereceu resposta de voltagem idêntica, tendo feito jus a
resenhas em periódicos locais e àquelas assinadas por Cansino-assens, Guillermo
de Torre e Pedro Henríquez Ureña em publicações espanholas. Luna de Enfrente, o
segundo livro de versos, suscitou resenhas pelos companheiros de maior
prestígio na turma vanguardista Bernárdez e Marechal , além do artigo
firmado pelo crítico e futuro cunhado, Guillermo de Torre, outra vez na Revista
de Occidente. Tais reações garantiram a Borges um cabedal invejável de
prestígio, um lugar de primazia, abrindo-lhe oportunidades e iniciativas que
ele jamais poderia ter sem respaldo dos veteranos, os quais lhe permitiram
calçar uma posição de força no comando da geração argentina de vanguarda.
FERVOR DE BUENOS AIRES: IMAGINÁRIO DE CLASSE
Da perspectiva daqueles círculos letrados, nenhum dos registros, proclamas e
tomadas de posição assumidos pelo jovem Borges soava de todo como novidade. A
geração intelectual precedente, a do Centenário, vinha batendo naquelas teclas
doutrinárias com que se aprumaram as principais frentes de combate ideológico e
cultural. Num momento de crise e de baixa do prestígio político e simbólico da
Espanha após a humilhante derrota sofrida diante dos Estados Unidos, os
intelectuais hispano-americanos haviam cerrado fileira em torno da defesa do
hispanismo, alardeando a centralidade espiritual da alma mater da ex-metrópole
e forjando um linguajar de nomeação dos laços preferenciais. Na Argentina, os
escritores veteranos haviam realçado a linha divisória entre nosotros, os
argentinos de pura cepa espanhola, descendentes dos antigos colonizadores, os
verdadeiros criollos, donos legítimos do país, e ellos, os imigrantes
adventícios, potenciais diluidores da identidade criolla. A língua espanhola
era o suporte quase místico dessa comunhão de valores, tanto mais exaltada
quanto maior a concorrência que lhe faziam os idiomas falados pelos imigrantes,
ou pior, os dialetos mesclados como o cocoliche ou o lunfardo.
Em contraponto ao influxo irresistível dos imigrantes como força social
"dissolvente" do caráter argentino idealizado, o gaúcho incensado como alicerce
da "argentinidade" fora associado a um passado nacional anterior ao fluxo
migratório, às reformas educacionais e eleitorais empreendidas pelos dirigentes
da República liberal e, mais importante de tudo, à predominância da agricultura
intensiva de exportação como ponta de lança de um novo estágio de integração da
economia argentina no capitalismo.
Nessa atmosfera política e cultural de resistência às transformações em curso
no plano econômico, propagadas nas feições renovadas do sistema político-
eleitoral e nos lineamentos de uma estrutura social em ebulição, a nova geração
da vanguarda literária não conseguiu se esquivar dos sentimentos ambivalentes
de rancor e ressentimento, os quais pareciam predominar em certos círculos
declinantes da antiga elite criolla de onde procedia a maioria de seus
integrantes. Os poemas e ensaios de Borges dos anos 1920 se enquadravam, pois,
nesse prumo afinado com os desafios e questionamentos suscitados pelo
criollismo29. Em meio às rivalidades geracionais, as ameaças à sobrevivência
desse legado nacionalista estavam a exigir uma defesa desabrida e consistente
das linhagens e obras representativas da literatura gauchesca, uma revisão
corajosa do passado histórico ajuizado pela ideologia modernizadora dos
liberais e, no tranco, um resgate simbólico do mundo social de um setor de
classe sitiado, o qual se sentia acossado pelos imigrantes emergentes.
Ao contrário do que postula certa literatura promocional da vanguarda literária
argentina, o jovem Borges nunca esteve confinado às revistas de vanguarda e,
desde os primeiros tempos do retorno a Buenos Aires, fora convidado a colaborar
em diversos espaços controlados pelo establishment literário portenho. A
maturação desse relacionamento culminou com o convite para assumir uma coluna
mensal no diário La Prensa. A intensa circulação no interior do campo
intelectual e jornalístico argentino contribuiu decisivamente para realçar o
impacto de seus escritos, divulgados, quando calhava, em jornais e periódicos
vinculados aos grupos dirigentes.
A leitura atenta dos livros de estréia de Jorge Luis Borges, nos dois gêneros
em que exercitou os pendores nacionalistas a poesia e o ensaio permite
apreender a teia de significados que infundiu em seus escritos e na militância
intelectual à testa do movimento de renovação literária na década de 1920.
Fervor de Buenos Aires30 e Inquisiciones são livros aprontados em sintonia
apurada, lances complementares de um mesmo projeto intelectual e político, a
serviço de desígnios idênticos de revigoramento de uma identidade criolla
autêntica e no qual se reconheciam os círculos da elite cultivada aos quais
estava endereçado.
O cerne do argumento nacionalista do jovem Borges está patente na versão
revisionista da história pátria, ora ministrada em versos nativistas, em
preitos de homenagem a heróis familiares, ora vazada numa reapreciação de
figuras históricas controversas. O caudilho Juan Manuel de Rosas serviu como
medida de argentinidade dessa perspectiva militante. A derrota de Rosas em
Caseros (1852) fora a senha para a paulatina destruição do mundo criollo, com a
ocupação dos pampas pela agricultura de exportação, pela construção das
ferrovias e pelas políticas incentivadoras da imigração. Esse esquema de
contrastes gritantes vai adquirindo feições que se resumem, de um lado, numa
condenação dos gringos, do elemento estrangeiro, da cultura européia e, de
outro, numa exaltação do gaúcho, de uma ignorância telúrica tida como
depositária dos atavios autênticos do nativismo.
O jovem Borges não desdenhou o combate ideológico travado inclusive na arena
conceitual das classificações, conferindo voltagem e personalidade à noção
arcaica de criollidad em lugar de "argentinidade", e buscando situar, designar
e qualificar os suportes materiais e simbólicos desse modo de ser na cultura
popular, na tradição literária, nos autores que lhe pareciam encarnar e
sustentar o vigor dessa originalidade civilizacional. Em lugar da apreensão
passadista, que pudesse se contentar em repor as perdas de substância
assinaladas, Borges intentou garantir outros fundamentos à renovação dos mitos
criollos, adaptando-os, na medida do factível, às circunstâncias cambiantes das
lutas ideológicas naquela conjuntura. Logo, a representação literária de traços
típicos do que ele designou como "lírica criolla" é bastante similar às idéias
sustentadas por Lugones, em especial a tendência a explicar a lírica gauchesca
em função de peculiaridades da geografia dos pampas e do estilo inconfundível
de vida.
Em vez de salientar a herança racial e cultural da criollidad, como faziam
alguns luminares da geração precedente Gálvez, Rojas, Lugones , o jovem
Borges equacionou o dilema em termos de engajamento político, a começar pela
audácia de revirar de ponta cabeça o antigo debate entre civilização e
barbárie. Recusou as arengas liberais, sobretudo a postura modernizante
sustentada por Sarmiento, e recuperou uma civilização criolla que o estadista
indigitara como atraso e carência de progresso. A linguagem dos primeiros
poemas encampa a linha nacionalista expressa em Inquisiciones, podendo-se,
assim, enxergar Borges como exegeta de um grupo social específico, a gente
decente e "bem nascida", os integrantes do seu círculo íntimo de convívio,
mostra representativa da elite cultural argentina.
Fervor de Buenos Aires reúne 45 composições já bastante demarcadas em relação
ao credo ultraísta, nas quais predominam o tom intimista, as lembranças da
infância, da família, da casa dos pais, do bairro onde cresceu e de outras
vizinhanças na cidade de Buenos Aires, da história e da civilização
argentinas31. O assunto substantivo da coletânea, que perpassa todos os eixos
temáticos abordados, é a evocação nostálgica da classe de origem por meio das
experiências, lembranças e valores de seu círculo de sociabilidade.
Um terço dos poemas tematiza a Buenos Aires das vizinhanças de classe média e
alta nos bairros da região nucleada em torno de Palermo, alheando-se do
rebuliço do porto e dos logradouros agitados do centro comercial. Borges
prefere mirar as ruas tranqüilas dos bairros afastados, daqueles arrabaldes
onde o campo ainda resiste ao avanço da cidade, como bem o demonstram inúmeras
incursões líricas ao longo do livro. A opção pelo sítio urbano contemplado pelo
estro lírico se faz acompanhar pela compaixão endereçada aos pares criollos, em
detrimento dos imigrantes, em especial os italianos. Essa predileção por uma
Buenos Aires do descampado, dos quarteirões retilíneos, de casas baixas, é o
reverso do rechaço da região portuária, da agitação mercantil dos negócios, dos
anúncios luminosos, dos prédios altos. O poeta estreante enxergou Buenos Aires
da perspectiva de sua casa e do bairro de Palermo em que estava situada, região
apartada do centro, entrecortada de praças vazias e povoada de casas térreas,
providas dos elementos arquitetônicos e decorativos característicos da vivência
criolla vestíbulos, balaustradas, balcões, beirais de telhado, pátios e
cisternas.
Nesses ambientes, a ritmação do cotidiano era medida pelas pausas impostas pelo
estilo de vida, como os momentos de fruição do mate, por exemplo, e não pelos
relógios modernos. As referências esparsas aos imigrantes embutem lamúrias de
um mundo que está se esboroando, dando alento às queixas pela perda de traços
nativos. O jovem Borges assumiu uma postura lírica defensiva, resistindo a
tratar literariamente dos elementos modernos e cosmopolitas de Buenos Aires,
então em ritmo frenético de mudança.
Borges é um andarilho antenado, munido de lentes possantes para registrar o
próprio universo social. Sua perambulação descarta os espaços em que transitam
os trabalhadores imigrantes, na busca quase obcecada pelos poentes
fantasmagóricos tão bem exaltados no livro. Tais preferências e idiossincrasias
foram anotadas pelos primeiros críticos e resenhistas da obra, e mais tarde
reprocessadas como matéria-prima em análises centradas na dimensão ideológica
das obras de Borges naquele período.
Os poemas se repartem em torno de cinco eixos temáticos Buenos Aires,
reminiscências familiares, "argentinidade", metafísica e vivência amorosa ,
embora alguns deles possam ser encaixados em diversas rubricas. Quero
interpretá-los aqui em termos de uma apreensão muitíssimo apurada de suas
experiências de classe, como expressão dos reclamos daquela parcela derrotada
da elite de onde provinha e com a qual se identifica. Ele estava imbuído do
sentido doutrinário de seu proselitismo literário e da relevância estratégica
de seu experimento, por assim dizer, de delegação poética. Se a originalidade
da poesia borgeana, como sugere Beatriz Sarlo32, reside na conjunção de vetores
potencialmente contraditórios a postura do resgate criollista temperada pelas
inovações da linguagem de vanguarda , frise-se o quanto esse recado fervoroso
logrou vocalizar os queixumes classistas. A retomada dos mesmos temas
equacionados em chave poética nos termos discursivos dos ensaios reforça a
incidência contundente do vetor ideológico por detrás de ambas modalidades de
expressão.
Contraposta ao alvorecer dos operários para outra jornada de trabalho, a tarde
constitui o momento ideal para as andanças do poeta, como que realçando e
infundindo cores nostálgicas aos procedimentos da memória classista. Os poemas
consagrados ao tratamento elegíaco de Buenos Aires são, em maioria,
reconhecíveis pelo nome dos logradouros nos títulos. Tais sítios configuram um
cinturão em torno de Palermo, o bairro mítico em cujo território foi erguida a
casa dos pais, o espaço de socialização afetiva, modelo no qual se podem
rastrear os componentes mágicos desse cenário de gênese de uma sensibilidade
criolla.
"O Jardim Botânico", por exemplo, se localiza na divisa de Palermo, bem próximo
da calle Serrano, demarcando o território urbano em que transitam nosotros,
aqui evocados por meio de sensualidades ajustadas à posição e à idade dos
"viventes": a conjugal, tingida pelo travo incestuoso; a libidinosa, travada
por interditos. "A praça San Martín", dedicado a Macedonio Fernández,
"espectador apaixonado de Buenos Aires", o modelo masculino do autor, relança o
poeta numa apreensão, em câmera lenta, dos espaços privilegiados dessa
interação entre iguais. "A Recoleta", nome do cemitério encravado na região
elegante da alta burguesia, insinua certa impregnação daquela criollidad
ameaçada de extinção, incitando-o a fazer um paralelo entre a morte dos entes
próximos e a tomada de consciência de sua sina33. A imagem do cemitério provoca
uma reversão de expectativas, o hálito estranho de uma ressurreição das
esperanças mundanas por meio do ofício poético.
"Vila Urquiza" enaltece o bairro da periferia, o arrabalde que está deixando de
ser rural. "Caminhada" aprofunda essa errância do bardo, agora exposto aos
vestígios tangíveis de um mundo social em desagregação: o perfume dos vapores
do mate, os cheiros do mato, as hortas recobertas pelo asfalto, a especulação
imobiliária. O fecho torna o poeta espectador vicário de um mundo fantasma,
dessorado, esgarçado, habitado por vultos reminiscentes de uma sociabilidade
pretérita. "Rua desconhecida" chafurda nos devaneios decepcionados do autor,
como que prensado entre as constrições familiares, que o empurram para o
refúgio do trabalho intelectual, e as servidões temporais com escassas rotas de
escape à desdita social34. O vislumbre do candelabro judaico metaforiza o
contraponto entre as gerações familiares, cujo convívio caloroso não logrou
reverter o destino social dos mais jovens, premidos pelos impasses derivados da
cegueira paterna35. Vidas cúmplices, interdependentes, os moços atingidos em
cheio pelas vicissitudes dos adultos.
As evocações familiares ancoram outro conjunto de composições e esclarecem as
motivações mais doídas do poeta, como se fora o ventríloquo de uma classe
acossada. "Sala vazia" exibe flagrantes de um cômodo desgastado, no qual os
restos do passado de ostentação permitem recompor os laços de família.
Los muebles de caoba perpetúan
entre la indecisión del brocado
su tertulia de siempre. ("Sala vazia")
Os versos do terceto inicial remontam uma conversa entre fantasmas, em que os
dialogantes são os móveis com tecido puído.
Los daguerreotipos
mientem su falsa cercania
de vejez enclaustrada en un espejo
y ante nuestro examen se escurren
como fechas inútiles
de aniversarios borrosos.
A estrofe seguinte focaliza os retratos emoldurados, pendurados na parede,
imagem de grande impacto, cujos personagens, remoçados nas fotos, recobram suas
ligações numa verossimilhança desbotada. Estampas de gente que era moça naquele
tempo caduco, de sala cheia.
Con ademán desdibujado
su casi-voz angustiosa
corre detrás de nuestras almas
con más de medio siglo de atraso
y apenas si estará ahora
en las mañanas de nuestra infancia.
A cena subseqüente rememora o vozerio desses personagens, na força da idade,
jovens adultos que cuidavam do poeta criança.
La actualidad constante
convincente y sanguínea
aplaude en el trajín de la calle
su plenitud irrecusable
de apoteosis presente
mientras la luz a puñetazos
abre un boquete en los cristales
y humilla las seniles butacas
y arrincona y ahorca
la voz lacia
de los antepasados
A cena toda se anima de repente, o barulho da rua ressoa no interior do cômodo
entregue às baratas, e o fulgor da vida presente cintila nos cristais e revela
o mau estado das poltronas avariadas. O poema se fecha com menção à voz cansada
dos antepassados, afeitos à abastança, numa sala com móveis de peroba, lustres
de cristal e poltronas de brocado. Eis o poema-chave do livro, cujos versos
condensam o substrato histórico de uma falência coletiva, ora reciclada como
matéria literária, objeto de memória, apagamento sensível, energia filtrada por
um dialeto expressivo destinado à fruição de uma minoria de outros decaídos.
"Final de ano" invoca um momento intenso da sociabilidade familiar, no qual se
comemora a passagem do tempo, a despeito do sentimento inarredável de clausura
do poeta em sua condição social36. "Um pátio" louva o espaço mágico da casa, na
confluência do mais íntimo com o mais externo o vestíbulo, os beirais do
telhado, o poço, a terra e o céu , síntese de um ideal apaziguado de convívio
criollo, exaltando o universo familiar como núcleo da vida verdadeira37. No
poema "Vizinhanças", a evocação do pátio dilata as esferas de circulação, num
lugar geométrico entre o ambiente externo das ruas de arrabalde e as alcovas
com espelho e móveis de peroba38. "A volta" é outra variante dessa viagem
poética pelas paragens da infância, pelos sítios fronteiriços à casa paterna,
"província de minha alma".
As duas composições intituladas "Inscrição sepulcral", dedicadas aos bisavôs
materno (Isidoro Suárez, 1799-1846) e paterno (Francisco Borges, 1832-1874),
restituem a linhagem familiar na legenda de uma elite nativista, pela exaltação
de heróis patriotas. O bisavô materno é o elo com a independência argentina,
por ter participado da batalha de Junín contra o exército espanhol e, até mais
importante, da perspectiva do jovem Borges revisionista, responsável pelo
parentesco torto da família com o caudilho Rosas, parente afastado da bisavó
uruguaia. O bisavô paterno, ferido de morte em batalha, lutou na Guerra do
Paraguai e atuou no comando sob as ordens de Mitre, chefe da facção derrotada
nas guerras de unificação. Os versos encomiásticos inscrevem o nome da família
nos embates decisivos da história nacional, conferem legitimidade à vocação
nativista do poeta-ideólogo e propagam os fumos de pretensão social do clã
Borges. Atitude poética idêntica à de Lugones ao reivindicar o título de bardo
nacional, vinculando tal mandato aos feitos guerreiros dos antepassados.
Os poemas "O truco" e "Rosas" reconsideram a figura lume da história argentina,
o caudilho onipotente Juan Manuel de Rosas, o ás de espadas, na visada
favorável do jovem Borges entronizado como verdadeiro pai da pátria. O tirano
libertador teria sido a liderança providencial, o rosto vigoroso e apaixonado
desse "outro país" que não se consegue enxergar na capital, o homem emblemático
da Argentina profunda, imersa na "realidade primordial do gozo e sofrimento
carnais", de uma história cíclica, destino prefigurado.
En el ámbito desamorado
de la sala taciturnamente rendida
cuyo reloj austero derrama
un tiempo ya sin aventura ni asombro
sobre la lastimosa blancura
que amortaja la pasión roja de la caoba,
alguien en queja de cariño
pronunció el nombre familiarmente horrendo. ("Rosas")
O poema "Rosas" se inicia num cômodo similar àquele evocado em "Sala vazia",
com mobília de peroba e relógio de parede, de molde a justificar a invocação do
"nome familiarmente horrendo" em virtude dos já mencionados longínquos laços de
parentesco.
Famosamente infame
ese nombre fué desolación en las calles,
idolátrico amor entre el gauchaje
y horror de puñaladas en la historia.
A tensão narrativa se estriba numa conjunção contraditória "familiarmente
horrendo" e "fervorosamente infame" , no intuito, decerto, de incensar nas
lutas pela afirmação nacional o personagem ímpar como encarnação vibrante das
expectativas antiliberais da geração emergente de letrados. O jovem Borges
absolve o déspota dos crimes e desmandos, por conta da necessidade premente de
convertê-lo em reserva espiritual e núcleo de resistência ao ímpeto das
reformas liberais que estão mudando as feições do país.
No ensaio-libelo de Inquisiciones, "Queixa de todo criollo", Borges explicita
sua postura revisionista da história argentina. A derrota infligida a Rosas
teria acarretado a destruição do mundo criollo, arrasado pela valorização das
terras, o que impulsionou a agricultura de exportação em detrimento da pecuária
extensiva, levando na enxurrada os personagens gaúchos que viviam à sombra da
economia autárquica. A tragédia criolla teria então se consumado pela ocupação
produtiva dos pampas, pela dissolução do gauchismo, por uma depreciação
cultural avassaladora dos afazeres e costumes dos criollos.
"Música pátria" recupera alguns elementos típicos da criollidad, em especial o
romanceiro festivo que se exprime pela cantilena de motivos autóctones,
costurados pela batida melódica, que se resolve num bordão nativo marcante. O
ressoar dessa música é tanto mais tocante quando o poeta se confunde com a
figura do caminhante, paralisado de emoção ao reconhecer a música da terra:
"siente como si le palparan el corazón con la mano". Esse poema também se
presta a uma leitura hispanicista, de louvação aos feitos espanhóis, desde a
expulsão dos árabes, passando pelas conquistas nas Índias, até se instalarem
nos pampas, desta feita a música vibrando pela voz da guitarra criolla, em meio
à matança dos índios. "A noite de São João" reitera a lamúria por aquele mundo
que está desmoronando, as guitarras e o fogaréu nas ruas, uma cidade em
convulsão, onde "as ruas foram campo um dia"39.
A lembrança da amada reponta no poema "Cidade", no qual o jovem Borges rechaça
os emblemas gritantes da modernidade, quase um refrão a percorrer o livro
inteiro, ao contrapor a afetividade do aconchego familiar à estridência do
tumulto urbano40. Em "Ausência", o lamento sofrido pela perda amorosa recobre a
paisagem, a passagem do tempo, as palavras, sinais evocativos do ente querido:
"Tu ausencia ciñe el alma/ como cuerda que abarca una garganta".
O poema "Sábados", dedicado à noiva Concepción Guerrero, rememora os encontros
do casal desfeito, talvez na sala da família Lange, onde se conheceram e onde
costumavam se ver, embalados pela música no piano.
Siempre la multitud de tu hermosura
en claro esparcimiento sobre mi alma.
El corazón refleja
Tus labios que una noche serán besos
En ti está la delicia
Como está la crueldade en las espadas.
Sobrevive a la tarde
La blancura gloriosa de tu carne.
Tú
Que ayer solo eras toda la hermosura
Eres también todo el amor, ahora.
O poema crava certa veemência amorosa que se faz perceptível na oscilação entre
imagens esquivas e físicas da amada: a beleza, a voz, os lábios, a carne. Os
poemas "Flor de âmbar" e "Troféu" modulam a queixa suscitada pelo amor rompido,
o poeta lembrando das andanças do casal enamorado pela cidade.
"Despedida" inclui os versos de amor que encerram o livro, numa alusão
inequívoca à segunda viagem familiar à Europa, a qual selou o destino social do
jovem Borges, obrigando-o a romper o noivado.
Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes
y el mar será un milenio entre nosotros.
Os versos finais como que prenunciam a resignação do poeta diante de sua
desdita afetiva, o reverso da unção como porta-voz genuíno da nova geração
literária. O livro de estréia prenunciava os rumos do mandato de vida e
trabalho que lhe fora designado e em nome do qual o poeta-ensaísta abdicava da
paixão.
* Este artigo é versão do texto publicado na revista Actes de la recherche en
sciences sociales, n. 168, junho de 2007.
[1] Ver Jorge Luis Borges. Textos recobrados, 1919-1929. Buenos Aires: Emecé
Editores, 1997, pp. 132-133.
[2] Emir Rodríguez Monegal. Borgès.Trad. de Françoise-Marie Rosset. Paris :
Seuil, 1970. Coleção Écrivains de Toujours.
[3] Fervor de Buenos Aires (Buenos Aires : Imprenta Serantes, jul. 1923, 64
pp.,300 exs. edição do autor; reedição facsimilar, Buenos Aires, Alberto
Casares, 1993); Inquisiciones (Buenos Aires: Editorial Proa,
abr. 1925); Luna de Enfrente (Buenos Aires : Editorial Proa,
nov. 1925); El tamaño de mi esperanza (Buenos Aires :
Editorial Proa, jul. 1926); El idioma de los argentinos
(Buenos Aires, 1928); Cuaderno San Martín (Buenos Aires :
Editorial Proa, 1929, Coleção Cuadernos del Plata, II, 280 exs.); Evaristo Carriego (Buenos Aires, 1930).
[4] Pedro Bonifacio Palacios Almafuerte (1854-1917), nascido num povoado da
província de Buenos Aires, autodidata, alicerçou sua notoriedade como mestre
desprendido, pronto a difundir os ideais de sua missão civilizadora nos pampas
longínquos. Publicou apenas um volume de poesias em vida, Lamentaciones (1906),
o que não o impediu de alcançar ampla ressonância pública por conta de
composições patrióticas, que denunciam a crise argentina e frisam sua
solidariedade com os pobres e humildes, em versos marcados por certo tom
messiânico, de fundo cristão. Exerceu influência perceptível sobre poetas
argentinos de fins do século XIX e início do XX, inclusive Lugones e Carriego.
Consultar Diccionario de la literatura latinoamericana, Argentina, parte I
(Washignton D.C. : Unión Panamericana, 1960, pp. 8-12) e ainda
Vicente Osvaldo Cutolo, Nuevo diccionario biografico argentino (1750-1930)
(Buenos Aires, Editorial Elche, 1968, tomo I, A-B, pp.94-95).
[5] Enrique J. Banchs (1888-1968), nascido em Buenos Aires, publicou aos
dezenove anos o primeiro livro de versos, Las barcas, editado pela revista
Nosotros em 1907. Em contraponto a Almafuerte, Banchs se firmou como a voz
lírica por excelência no entresséculos, autor de baladas, canções, romanças,
trovas e coplas, louvado pela mestria técnica, pelo domínio dos modelos
clássicos, com forte inclinação arcaizante e medievalista. La urna (1911),
justamente a composição mais apreciada pelo pai de Borges, considerada a obra-
prima de Banchs, é tida como o exemplo mais perfeito da lírica argentina.
Consultar Diccionario de la literatura latinoamericana, Argentina, parte II ,
pp. 234-238.
[6] Poeta e escritor, filho do político Ignacio del Mazo, amigo íntimo de
Carriego, e autor de uma trilogia sobre o tango, muito elogiada por Borges.
[7] Ver Diccionario de la literatura latinoamericana, Argentina, parte I, pp.
101-102.
[8] Sobre as circunstâncias de funcionamento do emergente campo literário
argentino no qual surgiu Nosotros, consultar o testemunho abalizado de um dos
fundadores da revista, o crítico e historiador literário Roberto F. Giusti,
Visto y vivido (anécdotas, semblanzas, confesiones y batallas) (Buenos Aires:
Editorial Losada S.A., 1965), em especial as pp. 93-103, nas
quais delineia um panorama da cena intelectual portenha no início do século XX,
com seus cafés, cenáculos, teatros, temporadas de ópera, cinemas, exposições de
arte, livrarias, padrões de atividade editorial, panteão nacional e
internacional etc. Ver ainda Manuel Gálvez, Recuerdos de la vida literária (I),
Amigos y maestros de mi juventud/ En el mundo de los seres ficticios, com
estudo preliminar de Beatriz Sarlo (Buenos Aires: Taurus, 2002, ed. original,
1944 e 1961).
[9] Ver Paula Bruno. Paul Groussac, un estratega intelectual. Buenos Aires:
Fondo de Cultura Económica de Argentina /Universidad de SanAndrés, 2005. Para aquilatar a reação de Borges à contribuição de Groussac,
consultar, entre outras fontes, o trecho da entrevista concedida a Maria Esther
Vázquez, Borges, sus días y su tiempo. Madri: Punto de Lectura, 2001, pp. 247-
257.
[10] Jorge Guillermo Borges : Hipoteca Naval, tese de doutorado apresentada à
Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade Nacional de Buenos
Aires em 1897, 63 pp., Buenos Aires: Tipo-Lito L. Franjoni); "El jardín de la cúpula de oro", conto inédito, sem data, 1908(?),
conservado num exemplar da tese de doutorado de Wenceslao C. Azevedo Laprida,
tio da mãe de Borges; "Momentos (I-III)", Nosotros, X, 48,
abr. 1913, pp. 147-148, poema; "Hacia la nada", Grand Guignol,
2, Sevilha, 10 mar. 1920, pp. 1-2, teatro; "El cantar de los
cantares", Grand Guignol, 2, Sevilha, 10 mar. 1920, pp. 5-7; El caudillo, Palma de Mallorca: Imprenta Mallorquina de Juan Guasp
Reinés, 1921, 195 pp. (reedição com prólogo de Alicia Jurado, pp. 11-23, Buenos
Aires: Academia Argentina de Letras, 1989, 155 pp.); "Rubaiyat. Castellenizado del inglés de Fitzgerald por Jorge Borges",
(1): Proa 2, 5, dez. 1924, pp. 55-57, tradução; Proa 2, 6, jan. 1925, pp. 61-
68. Ver Carlos García. El joven Borges, poeta (1919-1930) (Buenos Aires:
Corregidor, 2000, pp. 211-307).
[11] «No me abandones en el destierro de la ciudad cuadriculada y de los
jovencitos que hablan de la argentinidad y del civismo y de lo que significa el
general Bartolomé Mitre para los siglos venideros. !Horror!Horror!», em carta
endereçada ao amigo Jacobo Sureda, em março de 1921, reproduzida no volume
Cartas del fervor (ed. cit., p. 194). O que mais o afligira às vésperas de
retornar a Buenos Aires seria logo convertido em linha diretriz de suas
preocupações como ensaísta da criollidad.
[12] Leonor Fanny Borges (1901-1998), chamada Leonora, Nora e, ao que parece,
mais tarde, a pedido do marido Guillermo de Torre, Norah. Macedonio Fernández
costumava chamá-la de Leonorita, para diferenciá-la da mãe, dona Leonor.
[13] Ver Alejandro Vaccaro. Georgie (1899-1930), Una vida de Jorge Luis Borges.
Buenos Aires : Editorial Proa/ Alberto Casares, 1996. Verdadeira mina de informações sobre a infância e a primeira mocidade
de Borges, refere-se às casas de aluguel que a mãe de Borges, Isabel de
Acevedo, havia recebido de herança. Essa biografia contém excelente
documentação fotográfica sobre o jovem Borges e família. Para outras fotos,
consultar Nicolás Helft e Alan Pauls. El factor Borges, nueve ensayos
ilustrados. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2000.
[14] Ver E. Inman Fox. La crisis intelectual del 98 (Madri, Editorial Cuadernos
para el Dialogo, 1976); Donald Shaw. La generación del 98
(Madri, Cátedra, 1997); José Luis Calvo Carilla. La cara
oculta del 98, místicos e intelectuales en la España del fin de siglo (1895-
1902) (Madri, Cátedra, 1998).
[15] Guillermo Juan Borges (1906-1965), chamado «Willie» ou «Willy», era filho
do irmão do pai de Borges, o militar Francisco Eduardo Borges (1872-1940).
[16] Esta antologia foi publicada na revista Cosmópolis, Madrid, nº 36, dez.
1921, reproduzida no volume já mencionado, Textos recobrados, pp. 132-141.
[17] Esta seleta de versos ultraístas constava do texto «Ultraísmo», Nosotros,
Buenos Aires, ano 15, vol. 39, nº 151, dez. 1921, reproduzido
no volume Textos recobrados, pp.126-131.
[18] Adiante, Borges redigiu uma resenha elogiosa, ainda que um tanto evasiva,
das narrativas reunidas por Lafinur no volume Las nietas de Cleopatra (Buenos
Aires: Gleizer), publicada na revista Valoraciones, La Plata, nº 12, fev. 1927, retomada no volume Textos recobrados, p. 283.
[19] As resenhas de 1919 saíram em La Feuille. Journal d'Idées et d'Avant-
Garde, II, 306, 20 ago. 1919, p. 6 ; os trabalhos de 1920-1921
foram difundidos nas revistas Grecia, Gran Guignol, ambas de Sevilha, no jornal
Última Hora e nas revistas Baleares (Palma de Mallorca), Cervantes, Ultra,
Tableros e Cosmópolis (Madri).
[20] A tese de Macedonio se intitulava De las personas, feita sob a orientação
de Carlos Malalagarriga, jornalista e jurista espanhol então exilado em Buenos
Aires devido a atividades republicanas, tradutor de Bergson. Ver Álvaro Abós.
Macedonio Fernández, la biografía impossible. Buenos Aires: Plaza & Janés,
2002.
[21] Entre os letrados consagrados dessa turma, destaca-se Enrique Rodríguez
Larreta (1875-1961), novelista, poeta, dramaturgo e ensaísta argentino cuja
reputação se firmou com a novela histórica La gloria de Don Ramiro, una vida en
los tiempos de Felipe II (1908). Ver Diccionario de la literatura
latinoamericana, parte II, cit., pp. 311-315.
[22] A partir de 1901, a família Borges residiu nessa rua, primeiro em casa (nº
2135) de propriedade da avó paterna, Fanny Haslan, em seguida numa casa nova
(nº 2147) que mandaram erguer num lote vizinho.
[23] Alguns dos textos mais antigos constam do primeiro volume das obras
completas de Macedonio Fernández, Papeles antiguos (Escritos 1892-1907),Datos
para una biografía.