Autobiografia e sujeito histórico indígena: considerações preliminares
Sabemos que a etnologia indígena nos Estados Unidos detém uma certa senioridade
sobre a sua equivalente no Brasil. Com vários decênios de antecedência, ela
desenvolveu uma ampla estrutura nas universidades e nos museus, e atingiu
padrões descritivos que abaixo do Oiapoque não seriam comuns até os anos 1970.
A junioridade, certo, tem também suas vantagens, e a nossa etnologia atual
apresenta uma vitalidade que hoje seria difícil encontrar mais ao norte.
Excetuando essa comparação tão bem inserida no relato Norte-Sul, as referências
mútuas tão pertinentes se atendermos à unidade cultural do continente são
raras. Entre a etnologia norte-americana e a brasileira instala-se uma
distância dada pela cronologia e pelas opções teóricas. Dada, também, por uma
tendência nem sempre confessada de entender os índios como um assunto interno
às nações; ou pelo crédito excessivo dado a rótulos como latino ou anglo-
americano. Podemos lamentá-lo: essa comparação seria em muitos sentidos
reveladora.
UMA HISTÓRIA AMERICANA
Um deles é o que aqui vamos examinar. A autobiografia indígena um gênero
praticamente inédito no Brasil, como depois veremos , desempenha um papel
importante na história da etnologia e na própria história indígena dos
distantes vizinhos do norte. Uma bibliografia crítica datada em 19812 reúne 577
referências. As autobiografias indígenas são um item comum nos catálogos
editoriais norte-americanos, e algumas delas (Black Elk speaks é o melhor
exemplo) têm sido sucesso de venda e marcado presença em tendências globais
como a New Age. Essas autobiografias constituem um conjunto heterogêneo, que
vai de relatos de uma ou duas páginas, questionários e cartas, até livros
completos. Podem ser histórias de vida projetadas como tais, ou o que os
especialistas chamam de autobiografias cumulativas, um apanhado de documentos
escritos em primeira pessoa, dos quais o analista pode inferir uma seqüência
autobiográfica. A autoria pode se distribuir de modos muito variados entre o
protagonista expresso do relato e o seu editor-entrevistador-amanuense. Em
termos gerais, e sem que os marcos sugeridos possam ser entendidos como
limites, seria fácil sugerir uma periodização dessa literatura.
As autobiografias mais temporãs escritas já desde a época colonial, mas
avolumando-se com a Independência fazem parte da literatura missionária: são
testemunhos de conversão, em que os neófitos se esforçam em demonstrar os
frutos da evangelização e da educação cristã, ou da civilização sem mais nem
menos.
Mais tarde, e em paralelo à marcha para o Oeste, passam a primeiro plano os
relatos co-autorais, redigidos por escritores profissionais, jornalistas ou
simpatizantes da causa indígena que exploram a curiosidade pelo exótico ou a
simpatia do público urbano por esse mundo em declínio. É o momento em que
aparecem clássicos como as memórias de Genónimo, George Bent ou Bear Head.
A primeira metade do século XX é o momento em que a autobiografia indígena é
promovida pelos antropólogos, inspirados embora não exclusivamente pelas
preocupações da escola de Cultura e Personalidade. Os pesquisadores pretendem
encontrar nesses depoimentos não só uma fonte conspícua de informações
etnológicas, mas sobretudo uma aproximação mais imediata à alma indígena e às
relações entre indivíduo e padrão cultural. Entrevistas, histórias de vida ou
depoimentos escritos às vezes pelo próprio protagonista, às vezes na sua língua
e às vezes mesmo com a ajuda de pictografias ou silabários indígenas, acabam
constituindo um excepcional corpus de documentação, que excede em muito o
volume do que foi encaminhado aos prelos acadêmicos ou comerciais. Depois de
decênios de intensa produção, o interesse pelas autobiografias decai no meio
antropológico, devido à saturação do público, à desaparição dos protagonistas
que haviam conhecido a vida indígena antes do confinamento em reservas, e
também ao crescente ceticismo quanto às virtudes epistemológicas do método.
Mas renasce pouco depois, desta vez já como uma iniciativa indígena, e acaba
constituindo talvez o principal gênero da literatura contemporânea escrita por
native americans. Enquanto tal reingressa na academia, mas desta vez através
dos departamentos de estudos literários, estendendo-se logo a seguir pelos
novos departamentos de estudos culturais.
CALVINO E LOYOLA
Como disse antes, o contraste com o caso brasileiro é flagrante: a entrada
"autobiografia" simplesmente não aparece nos repertórios bibliográficos da
etnologia brasileira3. Não se pode descartar que no meio dessa vasta produção
possamos encontrar alguma breve narração em primeira pessoa, ou recompilar umas
quantas autobiografias cumulativas, mas, ao que parece, nunca um indígena
brasileiro decidiu-se ou foi solicitado a relatar sua vida, e não o mito ou a
história do seu povo. Mesmo a geração recente de escritores indígenas que vem
timidamente ganhando espaço no mundo literário ignora esse gênero
significativamente, mostra-se muito mais disposta a escrever mitos. A meio
caminho entre a experiência norte-americana e a brasileira embora mais
próxima desta , a bibliografia etnológica dos países hispano-americanos
apresenta uma lista curta embora significativa de títulos, em sua maior parte
co-produzidos por antropólogos norte-americanos. Neste caso, o que torna o
contraste mais acentuado é a existência de uma vasta literatura devida a
autores indígenas, que floresce no século XVI para definhar depois com o
enregelamento do regime espanhol e a decadência das elites indígenas que se
processa durante o século XVII. Em geral, autores como Tezozómoc, Alva
Ixtlilxóchitl ou o Inca Garcilaso dedicam-se à história de uma dinastia ou de
uma pólis indígena, sem que nunca transpareça uma dimensão autobiográfica,
mesmo quando o autor se apresenta como personagem relevante da trama ou quando,
como no caso de Felipe Huamán Poma, lembra de incluir um auto-retrato entre as
numerosas ilustrações de sua obra. Para os fins deste artigo, o contraste entre
o caso brasileiro e o hispano-americano é circunstancial e menor: a comparação
com o caso norte-americano esclarece algumas constantes que, embora maximizadas
na literatura brasileira, podem se aplicar sem muitas restrições a outras
situações "latinas". Nas páginas a seguir saltarei sem grandes precauções dos
dados peruanos ou guatemaltecos aos brasileiros: as diferenças entre estes, que
sem dúvida existem, deveriam ser analisadas num estágio mais avançado da
pesquisa.
Não é preciso procurar muito para dar com as razões desse contraste maior entre
o Norte e o Sul. A autobiografia, longe de ser um discurso espontâneo de um
indivíduo natural, é um gênero caracteristicamente ocidental, com marcos bem
conhecidos: as confissões de Santo Agostinho ou Rousseau, as vidas ou diários
de Cellini ou Pepys, a ficção pouco fictícia de Proust... Mas o Ocidente não é
um só. O individualismo anglo-saxão, com suas raízes calvinistas
especialmente com essa predestinação que só pode se inferir do exame da própria
trajetória , procura no relato autobiográfico uma verdade religiosa ou
científica que nunca poderia se dar com a mesma densidade em outro tipo de
relato. Essa elaboração do eu é um fator essencial do individualismo
constitutivo das sociedades liberais modernas, e muito especialmente da norte-
americana, onde o relato autobiográfico dos grandes homens as memórias de
Franklin são um modelo cumprem um papel insubstituível entre os textos
fundadores. De igual modo, as autobiografias indígenas ocupam um papel de
exceção para representar os índios: nenhum etnógrafo bate neste sentido a Black
Elk ou a Don Talayesva.
Fora do calvinismo, a reflexão autobiográfica ocidental não ocupa o mesmo
lugar, mas não está de modo algum ausente. Vejamos o caso católico: o sujeito
por excelência da tradição católica é corporativo, o corpo místico da Igreja;
seu sacramento supremo recebe o nome de comunhão, e a salvação é uma empresa
coletiva. Um outro sacramento, o da confissão com sua propedêutica, o
exercício espiritual inaciano , fornece um digno equivalente da
autoconsciência formadora do indivíduo protestante. Mas essa ocasião de auto-
exame é, sintomaticamente, objeto de segredo donde as eventuais reclamações
dos missionários de que os índios teimam em fazer a sua confissão em voz alta.
As virtudes devem ser públicas, os pecados devem ser privados; o vício
individualiza. Antes de excluir o gênero autobiográfico ou o individualismo
em geral da tradição ibérica em que o Brasil se insere, é preciso lembrar a
importância que na literatura espanhola teve um gênero pseudo-autobiográfico, o
da novela picaresca, cujos protagonistas são por definição membros da
marginália. É digno de atenção que esse gênero de ficção hiperrealista que
teve um influxo considerável em outras literaturas européias fosse
incorporando outras narrativas às vezes genuinamente autobiográficas, que,
mesmo relatando trajetórias honrosas vidas de soldados, por exemplo ,
tendiam fatalmente a ser escritas e lidas segundo as mesmas convenções que as
dos patifes. Só essa ficção tingida de reflexão moral atinge um teor
autobiográfico que falta em relatos afirmativos de gestas pessoais. O
conquistador de México, Hernán Cortés, tinha no final da sua vida, ao que
parece, alguns escrúpulos sobre a legitimidade da sua façanha, mas nem tais
dúvidas nem quaisquer outras foram escritas pelo conquistador, que no entanto
já compusera umas detalhadas "Cartas de Relación." A extensíssima literatura
memorial dos conquistadores, monopolizada pela res gestae, nunca tematiza o eu,
o que sugere algo mais que a sua ausência: o seu lugar antiestrutural. Um
relato como o de Crashing Thunder4, que Brumble compara às confissões de Santo
Agostinho, poderia ser também comparado a essa literatura picaresca, em que o
protagonista faz inventário dos seus enganos, seus pequenos ou grandes delitos.
No contexto anglo-saxão, Crashing Thunder é um signo do surgimento de um eu
autêntico entre os índios; no contexto latino poderia ser o do desencantamento
de um mundo primitivo. O lugar das autobiografias em um e outro mundo não se
diferencia em termos, digamos, cognitivos, senão pelos valores que a elas se
associam.
MIMESE OU TRADUÇÃO
Os editores ou amanuenses que solicitam aos índios um relato de sua vida não se
limitam a "recolher" autobiografias: antes, convocam os índios a adotar,
inventar ou reinventar um gênero inédito para eles, e, o que é mais importante,
um eu narrativo que provavelmente não figurava entre as acepções locais do
sujeito. Decerto não estamos a descobrir nada a esse respeito. As
autobiografias co-elaboradas pelos antropólogos da primeira metade do século XX
demonstram uma preocupação crescente primeiro quanto à objetividade do narrado,
depois quanto à influência do pesquisador-editor. No primeiro caso, podem se
levantar objeções quanto às traições da memória do protagonista, ou à sua
vontade de demonstrar mais méritos ou mais conhecimento dos que realmente lhe
cabem. Ele pode se permitir descrições ou interpretações demasiado
idiosincráticas; e o relato em si não digamos sua publicação é um evento
político em que o depoente fala ou cala em virtude dos seus interesses e seus
receios. Enfim, sobre o narrado pode pairar como uma sombra o desígnio simples
e muito freqüente de atender aos desejos do editor, o que dá lugar ao segundo
conjunto de objeções.
A opacidade do editor, de início, parecia fácil de exorcizar com bons
propósitos de isenção científica; mas a cada novo controle estabelecido ela se
revela em níveis cada vez mais profundos. O editor, às vezes na calada do
texto, censura ou completa informações dependendo dos seus objetivos, altera a
redação para conseguir um texto mais claro ou mais atrativo para os leitores
aplicando-lhe um verniz beletrista ou enfeitando-o com detalhes exóticos ,
introduz divisões num relato corrido, ordena o texto segundo uma seqüência
temporal linear; exige do narrador determinadas informações que lhe parecem
necessárias, elimina repetições. Mesmo se consegue se abster de todas essas
intervenções, ele deverá quase sempre traduzir. Se a princípio todas as
cautelas se debruçavam sobre a fidelidade aos dados, a consciência crítica dos
etnógrafos foi reclamando progressivamente uma fidelidade à estrutura original,
muito mais difícil de conseguir, ou simplesmente inexeqüível, já que a própria
pergunta que deslancha o relato é, talvez, profundamente estranha às respostas
previstas na cultura do nativo. Se Boas já havia manifestado sua desconfiança
perante a veracidade factual dos relatos autobiográficos, o que se poderia
dizer da sua autenticidade formal? Afinal, que visão da alma indígena poderiam
dar esses textos condicionados pelas convenções narrativas de um gênero
estranho?
Nos estudos mais recentes, a peculiaridade cultural e histórica do gênero
autobiográfico e a interação entre o protagonista e os seus editores e
amanuenses têm deixado de ser um obstáculo epistemológico para passar a
primeiro plano da análise. Evita-se assim uma certa falácia construcionista,
essa que nos faz supor que revelar o caráter construído de algo seja o mesmo
que anular sua existência. A escrita de autobiografias indígenas não equivale à
recitação de uma lição aprendida, mas a uma tradução. Os autobiógrafos não só
acomodam dados indígenas numa estrutura recebida; suas obras remetem também a
gêneros narrativos indígenas, que com freqüência deixam a sua marca no
resultado. Alguns eventos típicos da tradição oral poderiam se entender como
antecedentes nativos da narração autobiográfica: é o caso dos coup tales,
relatos de feitos guerreiros muito mais parecidos a um curriculum vitae, um
arquipélago de fatos sem fio condutor mas preocupado em citar testemunhas ,
das apologias pessoais suscitadas pelas acusações de feitiçaria, e correlatos
mais firmes de uma tradição ocidental onde o relato de Santo Agostinho ocupa um
lugar fundador das narrações de busca de poder xamânico (lembremos que
narrações desses dois tipos são citadas extensamente por Lévi-Strauss no seu
texto sobre o feiticeiro e sua magia). Deixando de lado essa pré-história,
deveremos reconhecer que as autobiografias acabaram sendo, não menos que o
cavalo outro esquema importado do Velho Mundo , um fenômeno genuinamente
indígena. Nas palavras de Brumble5, fundamento do panorama até aqui
apresentado, as autobiografias indígenas percorrem no espaço de alguns decênios
a distância que a literatura ocidental percorreu em quinze séculos: mas mesmo
com essa aceleração o processo é uma assimilação paulatina, não uma mimese
instantânea. Em todo esse processo, em que as perguntas dos pesquisadores, as
prédicas e censuras dos missionários, e os modelos literários da literatura
ocidental se somam para fazer surgir um eu narrativo formatado segundo os
padrões euroamericanos, não faltam indícios de outros modos de conceber o
sujeito. Não necessariamente no que é dito, mas sobretudo nas resistências que
o modelo autobiográfico encontra para se realizar. Pensemos no freqüente
desinteresse muitas vezes resolvido expeditivamente pelos editores na
seqüência cronológica linear, ou na negativa de incluir fatos ligados à
infância, talvez anteriores à aparição enquanto tal da pessoa que escreve. Ou,
como bem percebe Paul Radin no seu prólogo às reminiscências de Crashing
Thunder, nessa inconstância da alma indígena, manifesta na liberdade com que o
narrador alinhava atitudes contraditórias, sem focalizar e justificar a
contradição, como se esperaria de um autor convicto da unicidade do seu ser.
Mesmo na escrita dos literatos indígenas atuais, integrados no campo literário
global, descobrem-se características que seria ingênuo vincular sem mais à sua
condição étnica, mas que em qualquer caso se distanciam criativamente do padrão
autobiográfico convencional: veja-se o modo como N. Scott Momaday,
provavelmente o expoente mais ilustre dessa literatura, combina suas
reminiscências pessoais às memórias de família, aos recursos da narração oral
indígena e relatos míticos.
FALANDO DE SI
Ora, uma vez convenientemente desconstruída a história da autobiografia
indígena norte-americana, nada pode fazer pensar que num processo muito
diferente, como o que se encontra no Brasil, não haja história a fazer, ou
objeto a deconstruir. A falta de autobiografias na etnologia brasileira não é
mais natural que a sua exuberância no mundo anglo-saxão.
Poderíamos começar a percebê-lo considerando que as potenciais raízes nativas
de uma narrativa autobiográfica não existem menos ao Sul que ao Norte. Minha
própria experiência etnográfica entre os Yaminawa, à qual devo recorrer na
falta de pistas em outros autores, me faz pensar na existência de um ângulo
cego. As narrativas autobiográficas ganharam espaço entre os meus dados de
campo não respondendo a uma expectativa teórica, mas precisamente contrariando
os seus desígnios, que, caracteristicamente, apontavam para a memória coletiva.
Falarei mais adiante dessa expressão "híbrida" que seria o relato
autobiográfico dos líderes, destinado a uma audiência externa de ONGs e público
nacional; também ficará para mais tarde a discussão do modo de enunciação dessa
que aparece de praxe como memória coletiva. Por enquanto, basta considerar que,
durante a minha pesquisa, o tipo de performance a que os Yaminawa devotavam
mais interesse e isso, tanto como enunciadores quanto como público eram os
cantos yamayama, cujo registro e audição iam consumindo as preciosas fitas e
pilhas do pesquisador, ante o desassossego deste, que preferia reservá-las para
outros fins. Os yamayama são, ao mesmo tempo, poesia lírica e história: falam
dos pais e da sua ausência, das mudanças no modo de vida, dos amantes, dos
encontros e das rupturas amorosas. São cantos de alguém, objeto de viva
curiosidade por ser cantos de alguém. As eventuais alusões aos mitos e a
considerável padronização dos seus textos e sua música não apagam uma
referência clara a personagens concretos. Mais tarde voltaremos a essa questão
com base em outros dados. Fora dessa expressão individual por excelência dos
yamayama, a enunciação autobiográfica segue se manifestando. A prática
xamânica, embasada numa iniciação e num exercício individual, é um terreno em
que a memória individual pode ser igualmente identificada: os depoimentos que
pude recolher a esse respeito dificilmente se dedicavam a formular as
convenções ou as origens míticas de um paradigma xamânico. Antes centravam-se
nos percalços do aprendizado, via de regra frustrado pelas tensões entre o
aprendiz e o iniciador muitas vezes um pai que lamentava esse mesmo
desinteresse no aprendizado que o filho lamentava mais tarde, na minha frente.
As próprias visões xamânicas ou os episódios violentos em que às vezes podia
concluir a trajetória de uma xamã renomado foram-me apresentados como memórias
pessoais: para ilustrar os perigos do modo antigo de xamanismo, um dos meus
informantes me mostrava no meio do couro cabeludo a cicatriz de uma bordunada
recebida no mesmo episódio em que seu pai, suspeito de agressão mística,
perdera a vida. Em resumo, o caminho entre o sujeito Yaminawa e esse eu
narrativo do modelo autobiográfico parecia ser muito curto, se não tinha sido
já percorrido de um modo plenamente independente. Não há, no caso, editores de
quem suspeitar. Parece claro que a missão cristã entre os Yaminawa tem feito um
trabalho mais considerável do que tendem a pensar tanto eles como os seus
antigos missionários; mas dificilmente teria chegado ao ponto de induzir uma
interiorização e um auto-exame tão difícil de alcançar mesmo em processos
manifestos de conversão.
O eu tem efetivamente um lugar no discurso das Terras Baixas da América do Sul;
mas não tem sido criado para ele um lugar na literatura. Vale a pena notar que
um dos discursos mais famosos da etnologia das Terras Baixas, aquele que a
vítima do banquete antropofágico Tupinambá proferia pouco antes de ser abatida,
era precisamente um discurso autobiográfico, em parte equivalente dos coup
tales norte-americanos, embora as façanhas da vítima se enlaçassem nele com as
dos seus predecessores e as dos seus herdeiros, girando em torno da vingança.
Um trabalho recentemente publicado de Suzanne Oakdale entre os Kayabi do Baixo
Xingu é provavelmente o primeiro texto que faz do discurso autobiográfico o
centro de uma análise da noção de pessoa6. A autobiografia se encontra dentro
dos mais diversos discursos: na fala política dos líderes, tradicionais ou pós-
modernos; na abertura dos cantos xamânicos, em que o curador desdobra as
experiências que fazem dele um especialista apto para tratar das aflições e
enfrenta as críticas e o ceticismo dos seus ouvintes; nos cantos do Jawosi,
executados para dar fim ao luto com uma série de cantos bélicos, em que a
relação com o inimigo fornece um modelo latente à relação que os enlutados
devem estabelecer com os seus mortos. O traço mais marcante desses discursos é
o seu estilo citacional, que já mereceu a atenção de outros autores, e
especialmente de Eduardo Viveiros de Castro na sua análise do xamanismo
Araweté7. Embora o discurso seja regido por um "eu", o enunciador pode estar
emprestando sua voz a uma longa série de outros. Isso acontece quando o
narrador/cantor executa uma peça herdada de outro, especialmente de algum
parente morto; quando explicita os pensamentos prováveis da própria audiência,
em cuja boca o narrador põe comentários eventualmente hostis do que ele está
fazendo; quando fala às vezes de si mesmo sob o nome de um inimigo morto
ou, menos dramaticamente, de um estrangeiro que conheceu durante as suas
viagens. A citação, de resto, não precisa ser simples. Pode se desdobrar em
cascata, quando o emissor cita alguém que cita alguém que cita alguém. Esse
desvio do eu organiza um tortuoso conjunto de jogos de linguagem. Se de uma
autobiografia ao estilo ocidental esperamos saber, antes de mais nada, quem e
que é o narrador em seus próprios termos, aqui o narrador define sua identidade
por meio do que outros fizeram ou disseram dele; é uma extrospecção antes que
uma introspecção. Se de uma autobiografia ocidental esperamos que seja
essencialmente original, pessoal e intransferível, neste outro caso não há
incompatibilidade entre o pessoal e o paradigmático. Uma narração padronizada,
ou aprendida, ou expressa em termos totalmente genéricos pode problematizar o
efeito autobiográfico sem no entanto anulá-lo. O emissor pode usar esses
discursos de outros metaforicamente e referir-se por meio deles a uma
experiência pessoal; de outro lado, os ouvintes, carentes das claves que
remetem às vozes citadas, podem entender o narrado como uma experiência
puramente individual (é o que acontece, provavelmente, com os cantos yamayama
de que falávamos anteriormente). O essencial é, então, o consenso de falante e
ouvinte: a fala trata da sua própria vida. O estilo citacional é muito mais que
um artifício retórico, ele transcreve a via que o enunciador tem seguido em pós
da aquisição de conhecimento, e a formação da pessoa, através de encontros
dialógicos ou agônicos. É a expressão de um processo de devir-outro, da
absorção de saberes, nomes e afetos tomados de outrem.
Em geral, as análises do discurso indígena tendem, neste ponto, a desmentir a
ilusão individualista: é obvio que narrações como as que foram aqui rapidamente
aludidas não são produtos de um balanço interior. Não definem o sujeito pela
originalidade dos predicados, muito pelo contrário. Seriamos ingênuos se
procurássemos nelas uma expressão espontânea e direta do indivíduo.
Presta-se menos atenção ao fato de que essas narrações também não podem ser
colocadas pacificamente na boca de um sujeito coletivo. Para começar, o
percurso desse discurso citacional vai muito além das dimensões terrenas do nós
sociológico; ou mais exatamente vão contra ele. O eu forma-se pela confluência
de vozes de mortos, inimigos, animais, espíritos, objetos; todos eles alheios a
seu convívio habitual. A análise de Oakdale indica como o coro, repetindo as
frases do cantor, cuida de afirmar a presença desse grupo ao qual ele pertence,
apropriando-se da sua errância. Mais que para dissolver o eu dentro do grupo,
essa presença do coletivo serve como um limite à confusão do eu com entidades
além do grupo mesmo. Afinal, o ponto final desse devir outro, se não fosse
socialmente controlado, só poderia se identificar com a morte.
A INVENÇÃO DO SUJEITO COLETIVO
Se as autobiografias indígenas não são propriamente individuais, também não
pode se dizer que sejam coletivas. Os modos de enunciação regidos por um eu ou
por um nós são atalhos em direção a uma ética do discurso, a nossa, que prevê
como significativas as ações e as representações individuais ou coletivas, mas
que em geral foge desse disse-me-disse que seria a tradução literal do falar
citacional. Mas o disse-me-disse é um modo certeiro de ligar o discurso
individual a uma estrutura que não se encerra na tensão entre sociedade e
indivíduo, que se configura a cada momento por um jogo de perspectivas nunca
totalizadas. A nossa sociologia dá um estatuto ambíguo e em geral perverso a
todo discurso que expresse esse tipo de estrutura: rumor, boato, maledicência,
intriga. São discursos próprios de uma língua bífida forked tongue, em
inglês, é uma expressão muito mais comum dessa mesma metáfora , com a qual o
enunciador se posiciona só parcial ou temporariamente, ou em que o dito depende
da contribuição parcial de uma pluralidade de vozes. Uma ou outra imagem podem
claramente evocar o conceito de divíduo, popularizado por Marilyn Strathern,
que descarta um sujeito separado de suas relações. As coisas não se dizem em
absoluto, por um eu ou um nós absoluto, mas de alguém para alguém por alguém. É
óbvio que na hora de resumir para um público global o que os índios dizem, esse
tipo de discurso deve ser traduzido em termos de solilóquio ou de sociolóquio.
A insistência norte-americana em que os indígenas ofereçam um eu coerente e
significativo à curiosidade sentimental ou científica dos brancos, essa
invenção do eu, essa transformação em ícones dos rostos individuais, não se
contrapõe no caso brasileiro a uma maior fidelidade aos dados, mas a uma outra
normalização destes, dessa vez em termos de um sujeito coletivo. Deixemos de
lado os textos antropológicos em que, em virtude de diversas opções teóricas,
sem filiação nacional exclusiva, o sujeito da descrição fica sendo a estrutura,
o modelo, o grupo, etc. A diferença aparece quando deve-se selecionar um
sujeito histórico. É demasiado fácil, mas não ocioso, confrontar o valor
representativo que cabe no Norte e no Sul, respectivamente, aos retratos em
primeiro plano de Edward S. Curtis (ou aos seus equivalentes tantas vezes
usados como capa das edições de autobiografias) e às fotografias xinguanas de
Maureen Bisilliat, que focalizam sobretudo peles. Estas últimas são, é claro,
peles pintadas, suporte de uma inscrição social; os conjuntos de dançantes
rituais ou de guerreiros cumprem o mesmo papel; as figuras individuais também,
mas só na medida em que apareçam inequivocamente paramentadas. O protagonista é
sempre um grupo, ou a marca de um grupo.
Um exemplo também fácil é o dos etnónimos. Ou mais exatamente dos etnónimos
verdadeiros, sobretudo aquelas "autodenominações" que podem se traduzir
literalmente como "nós", "os humanos", "os verdadeiros humanos". O
reconhecimento relativamente recente da historicidade indígena, paralelo ao
reconhecimento do movimento indígena como agente histórico, não poderia ser
feito sem a legitimação de modelos outros de historicidade. E, sendo necessário
que os índios definam a sua própria história, é de se esperar que o façam
definindo igualmente seu próprio nome. Mas essa exigência política pode acabar
num paradoxo, o de que essa história se apresente enunciada em nome desses
"nós", que sem dúvida cumprem um papel importante na sociologia indígena, mas
que, como vimos num item anterior, estão longe de ser os protagonistas do
discurso histórico local, que, pelo contrário, conta sistematicamente com a
citação do discurso alheio. Nesse sentido, a demanda de uma história própria
expressa em nome próprio e nos próprios termos não é muito diferente da demanda
de um eu narrativo: supõe que uma autobiografia, desta vez coletiva, está dada,
disponível para o pesquisador estrangeiro ou nativo.
Não se poderia dizer que essa hipóstase coletiva seja exclusiva da etnografia
brasileira, nem sequer da etnografia em geral: outros primitivos, outras
minorias, os próprios Estados-nação são com freqüência submetidos a ela. Mas
decerto ganha um estatuto especial dentro de uma ordem jurídica em que os
índios têm lugar como pessoa coletiva em contraposição à pessoa individual que
serve de medida ao resto. Isto é, o que encontramos no Brasil não é só uma
ordem individualista com matizes corporativos, mas uma ordem individualista com
matizes corporativos em que uma exceção coletiva explícita é marca reservada da
minoria étnica. O padrão é mais rígido do que podemos pensar: se, como vimos, a
autobiografia está ausente da etnologia brasileira, a biografia sem mais é
igualmente uma lacuna. Fora algumas referências a figuras fundadoras como
Araribóia ou Tibiriçá, cuja individualidade parece estar ligada ao seu papel
como ancestrais da nação mestiça, o único escrito de corte biográfico que
consigo lembrar é um breve artigo que Herbert Baldus dedica a um "índio
aculturado", analisando com um certo pendor entomológico as vacilações de Tiago
Aipobureu entre os dois mundos que conhece8. Tiago Aipobureu por muito que a
sua aculturação o segregue do coletivo Bororo, e portanto o individualize em
certa medida não é chamado a se manifestar sobre o processo por ele vivido,
enquanto o pesquisador analisa seu aspecto físico. Porém, responde a uma
pergunta sobre o destino do seu povo e relata alguns mitos, com excelente
caligrafia (também perscrutada com a ajuda de um grafólogo). No Brasil, a
representação do índio como coletivo foi sempre uma marca que o opunha ao
branco, seja em sentido negativo (o índio carece de entidade própria, fora da
que lhe confere o seu grupo), seja em sentido positivo (os índios vêem-se
livres do individualismo mesquinho que nos aflige). O vigor de um sujeito
coletivo, as celebrações dessa coletividade no trabalho comunitário, numa
política formulada sempre em termos assambleários cujas diretrizes são sempre
tomadas por consenso, numa reciprocidade entendida antes como virtude social do
que como rede relacional, são traduções de uma das variantes da teoria política
ocidental, essa alternativa coletivista que, malgrado os ensaios laicos, segue
encontrando no cristianismo sua raiz mais poderosa.
AUTOBIOGRAFIA E ETNOPOLÍTICA
Isso nos leva a considerar a autobiografia no contexto da política indígena
recente, em que assistimos à alteração eventualmente à inversão de algumas
tendências seculares. Uma poeta indígena norte-americana se exprime a respeito
de um clima adverso ao "eu" no contexto das políticas de identidade: "I have
heard Indian critics say, referring to poetry, that it is best if there are no
'I's' in it. I grew up and continue to live among people who penalize you for
talking about yourself and going on endlessly about your struggles"9. Por outro
lado, é provável que a constituição de sujeitos individuais representativos
esteja cada vez mais a reforçar as ações políticas dos movimentos étnicos no
mundo "latino".
O caso mais sintomático dessa tendência é o de Rigoberta Menchú, co-autora, com
a antropóloga francesa Elizabeth Burgos-Debray, do best-seller Me llamo
Rigoberta Menchú, y así me nació la conciencia. A autobiografía de Menchú, uma
denúncia pungente do genocídio cometido nos anos 1980 contra os índios da
Guatemala, foi talvez o principal fator que a levou a uma posição de destaque
entre os líderes indígenas do continente é hoje presidente de uma fundação
que leva seu nome e ao Premio Nobel da Paz de 1992. Uma adequada combinação
de sujeito coletivo e sujeito individual pode ser especialmente eficaz quando
os líderes indígenas devem enfrentar ao mesmo tempo um público nacional e
internacional. Isso fica mais claro à luz da polêmica que seguiu ao exame que o
antropólogo David Stoll fez das tergiversações incluídas no livro de Menchú10.
Parece haver pouco lugar a dúvidas sobre os fatos: Menchú se apresenta como
testemunha presencial de episódios que não presenciou e oferece uma
interpretação dos fatos que simplifica a relação dos indígenas com a guerrilha
guatemalteca. Mas, sobretudo, se autoconstrói como uma camponesa indígena
iletrada, quando de fato seguiu uma educação formal num internato religioso
que, de resto, mal teria lhe permitido participar, nos termos em que ela narra,
da vida do proletariado nativo guatemalteco. Na polêmica parece ficar claro
para todos os implicados que, interpretações políticas à parte (a guerra foi
iniciada pelos guerrilheiros ou pelo Exército; as condições de vida dos
indígenas estavam melhorando ou piorando na época?), a substância do narrado
por Menchú é autêntica. Se ela não presenciou pessoalmente esta ou aquela
barbárie, se esta aconteceu em tal lugar e em determinado momento ou a cem
quilômetros ou cem dias antes ou depois, pouco importa. Por outro lado, o fato
de apresentar como narrativa autobiográfica o que poderia ter sido narrado mais
veridicamente em termos citacionais ("soube que em tal lugar...") não é
indiferente. Em suma, o que Menchú oferece com tão grande sucesso não é uma
narração individual, mas um eu narrativo que pode servir como metonímia de todo
um povo.
A etnopolítica dos últimos 25 anos, como bem sabemos, tem contado com o
pressuposto de povos indígenas estreitamente ligados a um território e a uma
tradição. Embora a pertença étnica seja legalmente medida pelos critérios
definidos por Barth, a prática política exige uma sobredeterminação dessa
indianidade, especialmente mediante a apresentação corporal. Identificar-se e
ser identificado como índio é bastante para reivindicar uma indianidade mínima
que garante no papel os direitos constitucionais, mas uma posição sólida no
campo etnopolítico exige algo mais, isto é, parecer índio. O aspecto índio
requer, para além dos atributos físicos ou ornamentais, o respeito de certas
condições ecológicas e culturais e de uma "lei do índio" baseada num padrão
coletivista. Protagonistas de primeira linha dessa etnopolítica têm sido
algumas novas elites indígenas que com muita freqüência vivem em condições
muito diferentes das enfrentadas por aqueles povos que representam, mas cuja
legitimidade está condicionada precisamente por uma argüível continuidade lá
na aldeia desse modo de vida. Seria interessante comparar a situação desses
representantes do movimento indígena à dos autores das primeiras autobiografias
indígenas norte-americanas, como Samuel Ashpo, David Fowler, Hezekiah Calvin,
Joseph Johnson e Tobias Shattock11. Embora pareça fácil pensar neles como
expoentes da domesticação colonial, muito distantes da militância dos
protagonistas do movimento indígena atual, é possível reconhecer também a
amplidão das semelhanças: sua personalidade política se define pela educação
formal recebida em geral de instituições missionárias , pelo domínio dos
códigos e especialmente da linguagem e da escrita do branco, e pela aliança com
determinados setores da sociedade nacional. Também, note-se, pela implicação em
projetos de alcance coletivo, como a política em prol da garantia das terras. A
diferença está precisamente no recorte da autobiografia: se no caso dos norte-
americanos esta se destina a ilustrar exemplarmente um processo de "virar
branco", o discurso do agente do movimento indígena trata do processo contrário
de virar índio12. Se nas cartas e outros documentos que conformam aquelas
autobiografias pioneiras se insinua na sombra a permanência de hábitos
tradicionais, e também a consciência de uma condição étnica que se impõe à
revelia do esforço por fugir a ela, ao agente do movimento indígena cabe, pelo
contrário, consolidar pelo relato uma ligação com a etnia (que eventualmente
resulta difícil de identificar no modo de vida do autor). Desta vez é o
percurso cumprido no mundo dos brancos o que permanece por sua maior parte no
âmbito do não-dito.
PESQUISA E INVENÇÃO
Mas do que estaríamos a falar aqui? Essas autobiografias que tratam do virar
índio, que elaboram o vínculo com um modo de vida tradicional, e que deixam no
plano de fundo a vida nos internatos, as cidades e as estradas do branco, como
já dissemos, não foram escritas (ou, ao menos, publicadas). Este artigo tem uma
relação complexa com o seu objeto; começa deduzindo-o de uma diferença, como
ausência e não como dado. Depois passa a identificar elementos que poderiam
substanciar esse objeto, preencher esse vazio criado pela reflexão. Enfim, na
medida em que serve como discussão preliminar de uma pesquisa em estágio
inicial, pode contribuir à produção em maior escala desse mesmo objeto: algumas
dezenas ou centenas de relatos autobiográficos podem estar disponíveis para uma
continuação deste texto. A análise precede o seu objeto. O paradoxo é notório,
mas caberia perguntar se a pesquisa antropológica pode escapar a ele em última
instância. Os objetos de outras ciências são reputados menos sensíveis à
procura. A busca, por exemplo, do elo perdido não garante a aparição desse elo
perdido; tem dado lugar, é verdade, a falsificações como a de Piltdown; nada
comparável à copiosa elaboração de história, modelos e tradições que pode
responder às indagações de um etnógrafo. Mas a antropologia tem percebido nos
últimos tempos que o fado do nativo consiste, precisamente, na sua incapacidade
de falsificar. A influência do pesquisador pode iniciar o processo, mas escapa
de seu domínio para ser logo coberta por grossas camadas de invenção local. As
autobiografias que por acaso surjam deste projeto serão irremediavelmente
autênticas.
E, a rigor, o objeto inexistente desta análise não é assim tão inexistente: a
autobiografia pode faltar na literatura etnográfica, mas não falta na prática
etnopolítica, e representa um recurso maduro para ser usado em grande escala.
Um bom exemplo é o do Concurso de Autobiografias para mulheres líderes de
comunidades indígenas e camponesas organizado por Fidamérica, um órgão ligado
às Nações Unidas. Segundo Fidamérica, o objetivo do concurso é "estimular a las
mujeres dirigentes a que cuenten la historia de su vida, para que otras mujeres
campesinas e indígenas de otros países, puedan rescatar lecciones y
experiencias...", mas também "que las instituciones que apoyan el desarrollo
agrícola y rural en cada país y a nivel internacional también puedan aprender a
través de estas autobiografías, para que en adelante sus actividades faciliten
el desarrollo de nuevas dirigentes mujeres". A promoção de autobiografias,
apresentada em primeiro lugar como um meio de arrecadar dados e experiências, é
sobretudo uma estratégia segura de empowerment ou, em outros termos, de
formação de elites locais. Mais perto de nós, uma resposta autobiográfica é
indispensável cada vez que um agente do movimento indígena quer se firmar
perante os meios de comunicação e os aliados do terceiro setor. Pinçando só
alguns exemplos bem conhecidos, a apresentação autobiográfica é um elemento
importante para a consolidação de representantes indígenas. Divino Tserewahu,
videomaker xavante, começa um dos seus documentários com um breve depoimento
que estabelece as razões de sua atividade. Davi Kopenawa entremeia suas
elaborações cosmológicas e históricas com reminiscências pessoais13, e o mesmo
tipo de inserção autobiográfica se dá nas apresentações orais que Daniel
Mundurucu faz das suas produções literárias, embora estas mesmas tenham como
tema principal a mitologia do seu povo. Ocioso é dizer que essas observações
sobre a autobiografia como elo legitimador do líder com a sua comunidade são
absolutamente preliminares e apontam somente para uma das possibilidades que se
abrem nesse campo.
Ou mais exatamente na face externa desse campo. A produção de autobiografias
não poderia se reduzir à resposta a uma demanda urbana. Isso seria fugir da
análise de suas conseqüências internas, sobretudo no balanço de autoridade na
aldeia. Sabemos que a circulação no mundo dos brancos e os conhecimentos
adquiridos nesse percurso são matérias-primas para a formação da pessoa, e
especialmente dessa superpessoa que é o líder. O mesmo mediador que relata
perante os brancos sua inserção numa sociedade tradicional deve encenar perante
o seu povo o roteiro complementar, a história dessas capacidades adquiridas no
convívio com os outros. O discurso autobiográfico é em ambos casos o meio mais
adequado para esses fins.
Nesse sentido, podem-se reexaminar os motivos pelos quais o xamanismo tem se
estendido desde um lugar de articulação dos domínios do cosmos gerido em
privado a um lugar público de representação de uma identidade indígena
genérica. O xamã, antes um sujeito extraordinário, ou um momento extraordinário
do sujeito, é agora um índio-tipo. As análises dessa representação, que se
distancia de fórmulas anteriores como as do índio guerreiro ou defensor do
equilíbrio natural, apontam que definir o xamanismo como uma instituição
guardiã de saberes possibilita uma aliança simultânea com as ONGs
internacionais e com setores nacionais interessados na defesa do patrimônio (um
feito que as antigas representações estavam longe de realizar)14. Sem
contradizer essa leitura, poderíamos acrescentar aqui que o xamanismo pode
incorporar esse valor genérico porque é no xamanismo que podemos encontrar um
percurso inequivocamente indígena, mas passível de formulação detalhada em
termos de autobiografia: o sujeito entre mundos é um equivalente aceitável do
indivíduo fora do mundo que na teoria dumontiana sugere um ponto de articulação
entre as visões holistas e individualistas. Um chefe indígena poderia muito bem
representar os seus seguidores, e poderia se apresentar como um guardião
adequado de um conhecimento coletivo. Mas para um chefe resulta difícil
compatibilizar o pressuposto de uma entidade coletivista com a criação de uma
individualidade substantiva, que pelo contrário serve muito bem à legitimação
pública de um xamã.
Não convém prosseguir: esse e outros temas poderão ser examinados com mais
fundamento em trabalhos posteriores. A um texto programático como este basta
indicar seus objetivos, de fato muito diversos. Um deles é chamar a atenção
para um objeto emergente, o discurso autobiográfico enunciado pelos líderes do
movimento indígena, peça chave para entender a formação e os rumos desse
movimento. Talvez, num contexto em que a voz indígena já tenha ganhado seu
espaço na arena política, promover a narração autobiográfica seja também um
modo de dotar essa voz da pluralidade que as sociedades indígenas sempre têm
incluído na sua constituição. Esse propósito poderia parecer impertinente se
supuséssemos que a etnopolítica deva adotar esse perfil sindical, segundo o
qual uma voz única representa uma vantagem estratégica. Mas eis aí o início de
uma boa discussão: reivindicações cujo móvel inicial é a peculiaridade
sociocultural deveriam ser promovidas mediante a abolição dessa mesma
peculiaridade?
Mas a narração autobiográfica é também um tema de reflexão para a etnografia; é
um ângulo cego que vale a pena focar, sobretudo quando se atenta para a
transformação como um âmago, e não como um acidente, das sociedades indígenas.
Afinal, uma autobiografia é um bom lugar de encontro entre a estrutura e a
história. Ninguém poderia, é claro, resgatar por toda a parte um sujeito
autobiográfico latente: é previsível que as respostas oferecidas pelos povos
indígenas a essa indagação sejam muito diferentes. A saliência do discurso
autobiográfico é por isso mesmo uma variável muito relevante quando se trata de
comparar sociologias sabidamente diversas. Não se trata tampouco de promover na
escrita etnográfica um padrão biográfico já ensaiado alhures, mas de procurar a
diversidade também sobre esse eixo, ensaiando outros modos de (d)escrever uma
história de vida. Em última instância, pouco poderia se esperar de uma
colaboração entre a história e a antropologia se no seu esforço de escrever uma
história outra se esquecesse de indagar a respeito do seu sujeito.
[1] Este trabalho se insere nas atividades do projeto "Transformações
indígenas: os regimes de subjetivação ameríndios à prova da história" (NuTI-
PRONEX), desenvolvido em parceria com o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o
PPGAS-UFSC.
[2] David Annotated Brumble.