Trabalho em transição: uma comparação entre São Paulo, Paris e Tóquio
Os mercados urbanos de trabalho, notadamente os grandes mercados
metropolitanos, têm se destacado pela intensidade com que neles vem se
manifestando o fenômeno do desemprego. Parcela significativa de atenção da
comunidade científica, assim como do interesse das políticas públicas, tem se
dirigido a entender e intervir sobre tal tendência. Entretanto, uma observação
mais detida permite concluir que essas transformações nem de longe se
restringem à intensificação do risco de cair ou permanecer no desemprego. Com
efeito, a própria organização dos mercados metropolitanos de trabalho tem sido
afetada, o que tem alterado o padrão das transições entre situações
ocupacionais, quer se trate da transição entre situações de emprego e
desemprego, quer se trate da transição entre situações de atividade e
inatividade.
Arguo, aqui, que padrões de transição ocupacional variam segundo a maneira como
se institucionalizam, nas diferentes sociedades, os sistemas de emprego e de
proteção social, os chamados "regimes de welfare".2 Para argumentar nessa
direção, retiro as informações empíricas de um projeto comparativo
internacional que estudou dinâmicas de mercados metropolitanos de trabalho em
contextos diferenciados por suas lógicas institucionais.3 Para tanto, foram
comparados resultados de três surveys. O primeiro deles teve lugar na França,
em três grandes regiões, incluindo-se, dentre elas, a região metropolitana de
Paris-Île de France; nele foram pesquisados eventos ocupacionais vividos por
demandantes de emprego no período compreendido entre 1993 e 1998. O segundo
teve lugar no Brasil, e se realizou na região metropolitana de São Paulo,
colhendo dados sobre transições ocupacionais no período 1994-2001. O terceiro
teve lugar no Japão, na região metropolitana de Tóquio, tendo colhido
informações relativas ao período 1990-2001.
Por que escolher justamente essas três metrópoles? Porque elas ilustram três
tipos distintos de regimes de welfare, a saber: (i) um sólido e inclusivo
sistema público, como o erigido na França, cujo ápice coincide com os chamados
"trinta anos gloriosos" de expansão capitalista no pós-guerra; (ii) um pujante,
conquanto seletivo, sistema privado de proteção, estabelecido, no Japão,
durante a vigência do chamado "modelo de emprego vitalício"; e (iii) uma
recente e restrita experiência de proteção ao desemprego, como a brasileira,
que se constitui no curso da redemocratização do fim dos anos 1980, e que se
erigiu sobre a base de um mercado onde predominavam intensas transições entre
ocupações e, nessas, uma situação de assalariamento restrito.
As análises comparativas que serão aqui apresentadas apontam para um resultado
principal. Conquanto, em todos os casos, os vínculos de trabalho tendam a
tornar-se mais frágeis, intensificando-se as transições entre situações
ocupacionais, a forma assumida por esse processo varia fortemente de metrópole
para metrópole, configurando distintos padrões de transição ocupacional, os
quais refletem as normas de emprego e de proteção ao desemprego prevalecentes
nos seus respectivos contextos institucionais.
São Paulo ocupará, neste artigo, o centro do meu interesse interpretativo. A
comparação será, assim, um recurso metodológico não apenas para sustentar o
argumento principal, como para melhor desvelar as especificidades do caso
paulista. Que dizer, então, dos padrões assumidos pelas transições e
trajetórias ocupacionais, incluindo as formas do desemprego, nessas três
situações onde variam sistemas de emprego e regimes de welfare? Veremos a
seguir.
SÃO PAULO: DESEMPREGO RECORRENTE, TRANSIÇÕES INTENSAS E FRONTEIRAS NEBULOSAS
Desde a década de 1950, São Paulo consolidou-se como a maior metrópole
brasileira, concentrando uma parcela significativa do produto interno bruto do
Brasil, em particular da produção industrial. A partir dos anos 1980, mas de
forma especialmente notável ao longo da década de 1990, a região passou por uma
nova onda de mudanças, que permite entrever importantes processos em curso. No
campo econômico, ela deixou pouco a pouco de ser o principal pólo brasileiro de
atração de investimentos industriais e passou a dividir, especialmente com
outras regiões do próprio estado mas também com outras unidades da Federação, o
peso relativo que antes lhe cabia na produção nacional. Em contrapartida, as
atividades terciárias cresceram e se diversificaram, ampliando-se as funções de
comando de negócios, notadamente de grandes empresas nacionais e
transnacionais.
Tal processo de reestruturação, intensificado ao longo dos últimos quinze anos,
se por um lado aumentou a competitividade e a capacidade de inserir-se numa
economia mais globalizada, por outro atingiu profundamente o mundo do trabalho,
com efeitos sobre as condições de ocupação e renda dos que nela residem. Dois
importantes sinais dessa nova realidade evidenciaram-se. O primeiro deles foi a
elevação significativa do tempo de procura de trabalho, que dobrou em dez anos;
tal crescimento deu-se a um ritmo particularmente acelerado na segunda metade
dos anos 1990, sobretudo depois de 1997. E por mais que variem as estatísticas
e metodologias, fica evidente que a procura de trabalho se tornou mais árdua; e
isto afeta tanto aqueles em situação de desemprego aberto como o conjunto dos
que buscam uma ocupação. Um segundo sinal das mudanças no mercado de trabalho
foi o novo patamar alcançado pelas taxas de desemprego; se somados o desemprego
aberto e o oculto (pelo trabalho precário ou pelo desalento), nos anos 1990,
tais taxas passaram a estar acima dos dois dígitos, tendo chegado a
ultrapassar, nos momentos mais críticos, 20% da população em atividade.
Ora, quando o alongamento dos tempos de desemprego e de procura de trabalho
convive com um sistema de proteção pouco efetivo produz-se um efeito de elevada
insegurança ocupacional, que se expressa, em realidades como a de São Paulo,
num intenso trânsito entre situações no mercado de trabalho, indicativo do
esforço individual no sentido de obter algum rendimento que permita a
sobrevivência, dada a fragilidade da proteção institucional. Nos anos mais
recentes o trânsito no mercado de trabalho se intensifica, aumentando tal
insegurança; nessas condições, os indivíduos passam com muita freqüência da
condição de ativos à de inativos, de ocupados à de desempregados (e vice-
versa). Não deixa de ser eloqüente a evidência de que, de acordo com dados da
Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), no momento da nossa pesquisa de campo,
em 2001, nada menos que três quartos dos indivíduos economicamente ativos
mudavam de situação no mercado paulistano de trabalho a cada doze meses.
Tais condições produziram um fenômeno algo diferente do que foi observado, em
especial a partir de 1980 nos países europeus economicamente mais avançados.
Neles, foi o aumento do desemprego de longa duração que se constituiu no
desafio, tanto para a interpretação dos cientistas sociais quanto para os
modelos de financiamento das políticas de proteção social construídas ao longo
de uma sólida experiência de regimes públicos de welfare. Entre nós, na
ausência de tal experiência histórica de proteção, a intensificação das
transições no mercado de trabalho e, sobretudo, o fenômeno da recorrência do
desemprego, tornaram-se desafios ao entendimento.
Isso fica evidente quando analisamos os resultados do estudo longitudinal que
procurou retraçar os percursos de indivíduos em idade ativa, nas suas
transições entre situações no mercado de trabalho da região metropolitana de
São Paulo, entre janeiro de 1994 e abril de 2001. Os dados foram colhidos por
meio de um questionário suplementar anexado à PED, inquérito por amostra
domiciliar representativa da população economicamente ativa da Região
Metropolitana de São Paulo. Durante nove meses, entre abril e dezembro de 2001,
cerca de 27 mil domicílios foram pesquisados e, neles, aplicado o questionário
suplementar com um aproveitamento final de 83% dos casos. A duração do tempo de
coleta foi uma decorrência da necessidade de produzir-se uma amostra que, por
seu tamanho, pudesse ser representativa de todos os segmentos, inclusive dos
desempregados, o menor contingente e o que mais de perto interessava à pesquisa
comparativa. Assim, gerou-se uma base de informações sobre 53.170 indivíduos,
dos quais, no momento da entrevista, 28.189 foram classificados como ocupados,
6.627 como desempregados e 18.354 como inativos. Como, pela metodologia PED,
são considerados em idade ativa os indivíduos com 10 anos e mais, o
questionário teve que se restringir aos respondentes que, em 2001, tinham ao
menos 16 anos. Somente para esses haveria uma história ocupacional possível de
ser recomposta e que recuasse até o ano de 1994, marco inicial do levantamento
quantitativo. A partir dos dados desse survey montou-se o painel retrospectivo
analisado em seguida, recobrindo o período compreendido entre janeiro de 1994 e
o momento da coleta, em 2001.
Mas, por que o ponto de partida em 1994? Como se tratava de um questionário
retrospectivo, erros ou lapsos de memória do respondente tinham de ser
minimizados. Para tanto, tomou-se o ano de 1994 como um marco significativo de
tempo para a reconstituição das trajetórias, visto que, naquele momento, um
plano de estabilização monetária (o chamado "Plano Real") alterou referentes
importantes do cotidiano econômico, de modo a funcionar como um demarcador
factível para a organização da memória do respondente; e isso se mostrou válido
no pré-teste.
Uma primeira apresentação dos resultados, ao modo da Figura_1, permite
acompanhar, em sucessivos cortes transversais, a série temporal dos movimentos
no mercado de trabalho, ao longo do período compreendido entre janeiro de 1994
e abril de 2001, empreendidos pelos que compõem o estoque de 53.170 mil
indivíduos pesquisados em nosso survey na Região Metropolitana de São Paulo.
Para montagem dessa série, e também das análises que se seguem, foi necessário
elaborar um calendário dos eventos ocupacionais vividos por cada um dos cerca
de 50 mil indivíduos no período. Tal tarefa não era trivial. Por se tratar de
um questionário suplementar a uma pesquisa (a PED) de tipo transversal, não era
possível coletar a informação sobre o percurso ocupacional indagando sobre
todos os eventos, na forma de um questionário-calendário, que fosse não apenas
retrospectivo e longitudinal, mas também exaustivo. Assim, foram coletadas
informações sobre três eventos ocupacionais, entre 1994 e 2001: o mais recente,
o que lhe antecedeu e aquele que era reputado, pelo respondente, como o mais
importante para descrever a sua situação no período de referência da pesquisa.
O interstício entre os dois primeiros era igualmente caracterizado. Com base
nessas informações montou-se o calendário de situações ocupacionais relativo a
cada indivíduo.
Um primeiro aspecto logo se destaca. As figuras polares dos assalariados
regulares e dos desempregados ocasionais, que seriam típicas do mundo do
trabalho presidido pela relação salarial, são ali minoritárias. Se observarmos
a Figura_1, mês a mês, veremos que a conjunção entre os assalariados regulares
com carteira assinada e os direitos que lhe são associados (no máximo 25% dos
casos) e os indivíduos em desemprego aberto (ao redor de 8% dos entrevistados a
cada momento) deixa de fora, em média, nada menos que três quartos dos
entrevistados. Dito de outra maneira, tais figuras clássicas parecem ser
insuficientes para se descrever a situação dos cerca de 50 mil indivíduos cujas
posições no mercado de trabalho foi possível acompanhar ao longo de primeiros
sete anos depois do Plano Real (ou seja, entre 1994 e 2001).
Já aquelas outras situações a que muitas vezes se alude como "de fronteira",
por representarem uma zona conceitualmente cinzenta no mercado de trabalho ,
são numericamente bem mais significativas. Apenas para tomar um exemplo, o
leitor pode observar, na Figura_1, aquela ampla camada formada (ano após ano)
pelos indivíduos que, não estando na situação de ocupados, engrossam as
fileiras dos que devem estar situados no desemprego ou na inatividade; seu
estoque alcança, em média, 30% dos casos.
Para documentar de modo preciso esse fenômeno da intensificação das transições
sob um contexto de recorrência no desemprego, sugerido já na Figura_1, faz-se
necessário um outro tipo de análise. Em vez de uma fotografia sobre a situação
do estoque de casos a cada momento, uma análise do fluxo dos indivíduos no
mercado. Tomando cada indivíduo como unidade de observação, e acompanhando seus
vários movimentos no mercado de trabalho ao longo do período de tempo
considerado podem-se identificar os percursos típicos que congregam, ao longo
do tempo, subgrupos de pessoas que expressam um mesmo padrão de trajetória
ocupacional.
Aqui vale um rápido parêntesis metodológico sobre como fazê-lo. Foram
associados dois procedimentos, o da análise fatorial e da análise de clusters.
A análise fatorial permite identificar padrões que sintetizam as recorrências
manifestas nos percursos individuais, de modo que cada uma das trajetórias
pessoais pode ser classificada, em seguida, segundo essas recorrências, gerando
trajetórias típicas ou agregadas. Para tanto, parte-se da análise de uma matriz
em que se entrecruzam todas as observações (no caso, os 53.170 indivíduos
entrevistados), segundo todos os meses de coleta (no caso, os 76 meses
compreendidos entre janeiro de 1994 e abril de 2001), por todos os tipos de
posição no mercado de trabalho (no caso, tipificando as nove situações
alternativas no mercado indicadas na Figura_1). Dessa imensa matriz, da ordem
de 53.170 x 76 x 9, foram extraídos os fatores que, em seguida, permitiram
classificar os percursos singulares em torno a padrões, identificando, assim,
os aglomerados (clusters) de trajetos ou classes de trajetórias. Estas classes
de trajetórias agregadas serão o foco da análise em seguida.
E qual o achado mais intrigante da observação feita sobre a Região
Metropolitana de São Paulo? Um intenso movimento entre atividade e inatividade
e não somente entre desemprego e ocupação se constituía na mais importante
característica das transições entre situações ocupacionais dos indivíduos. Os
quadros_1, 2 e 3 apresentam as classes de trajetórias ocupacionais que puderam
ser observadas, respectivamente, para os que estavam ocupados, desempregados e
inativos em 2001. Vejamos um a cada vez.
Em abril de 2001, pouco mais da metade dos casos (53% deles, perfazendo 28.189
indivíduos) foi classificada, no momento da entrevista, como constituída por
pessoas "ocupadas". A análise dos seus percursos permitiu identificar sete
grupos de casos, que tinham em comum partilhar um mesmo padrão de trajetória
ou, para dizê-lo em bom português, sete classes de trajetórias típicas, que são
apresentadas no Quadro_1.
Há um elevado percentual de casos sobre os quais, dada a intensidade das
transições, o percurso resulta de impossível classificação; isto é, não há um
padrão identificável e o tipo de trajetória resta "ignorado" (30%). Entretanto,
comparando-se os dados dos quadros_2 e 3 aos do Quadro_1, chama a atenção como
esse percentual (evidência da maior instabilidade das trajetórias) é
especialmente mais reduzido entre os "ocupados" do que é entre os "inativos"
(onde alcança 50% dos casos) ou entre os "desempregados" (onde chega a 69% dos
casos).
Isto permite, por um lado, intuir que o risco do trânsito intenso entre
situações no mercado de trabalho é muito desigualmente distribuído.4 Mas pode-
se intuir também que tal risco parece estar fortemente informado pelo próprio
percurso, de sorte que a inclusão no mundo dos ocupados dota os indivíduos de
redes de relações que, conquanto não lhes assegurem "bons empregos" (somente
30% deles formam o núcleo duro que reúne assalariados com carteira e
empregadores), parecem ser capazes de reduzir a recorrência das transições,
fazendo-as menos prováveis (1 em cada 3 casos entre os ocupados, contra 2 em
cada 3 casos em se tratando de desempregados).
Vejamos mais de perto cada uma das trajetórias típicas dos ocupados. Os dois
primeiros grupos configuram os tipos clássicos: os assalariados formalmente
registrados e os seus empregadores (classes 1 e 2). Entretanto, este núcleo
duro num mercado capitalista de trabalho reúne apenas um terço dos ocupados.
Para completar a descrição dos dois terços restantes, temos que passar ao mundo
onde são intensas as transições ocupacionais, o mundo da recorrência no
desemprego e/ou na inatividade, e da privação de direitos.
Nele se configuram quatro distintos tipos de percurso (numerados no Quadro_1
como 3 a 6), onde estão estampadas as situações de ocupação por vezes ditas
"atípicas" perante a relação polar clássica: são os que, embora ocupados em
abril de 2001, têm uma trajetória anterior construída fora da ocupação, entre o
desemprego e a inatividade (tipo 3); são aqueles de tão intensa transição que
não é possível identificar um padrão em seus trajetos (tipo 4); são os
autônomos (tipo 5); e são os trabalhadores no serviço doméstico (tipo 6).
Finalmente, uma última classe de percurso é constituída por aqueles que, embora
tendo passado parte significativa da trajetória anterior em relações
assalariadas de trabalho, careciam dos principais direitos que se lhes
associam, por não terem contrato formal de trabalho (classe 7).
Pelo seu significado numérico, dois grupos se destacam: o daqueles que fizeram
trajetórias dominantemente no assalariamento desprotegido e os que, por
transitarem tão intensamente, não têm padrão de trajetória identificável.
Juntos, eles reúnem nada menos que 48% dos indivíduos que, em 2001, estavam na
situação de ocupados.
E o que acontece quando se observam as trajetórias típicas dos que a pesquisa
encontrou, em 2001, na condição de desempregados?
Tal como antecipado, é justamente entre os desempregados que a intensidade das
transições ocupacionais se faz mais forte: para dois terços dos casos (nada
menos que 4.549, ou 69% deles) nenhum padrão de trajeto é identificável e o
percurso não pode ser descrito dada a pequena parcela do tempo recoberto pela
soma dos três eventos que foram coletados. Isso faz com que 4 em cada 7
desempregados, por transitarem tão intensamente entre situações no mercado de
trabalho, tenham trajetórias sobre as quais pouco se pode dizer, por carecerem
de um padrão mínimo de regularidade que permita retratar os sete anos
observados. Visto como um conjunto trata-se de um grupo levemente mais
masculino, mas equilibrado no que concerne à participação por sexo e cor; no
que respeita à idade, tem um formato bi-modal: um sub-grupo mais jovem (30% dos
casos entre 18 e 24) e outro mais idoso (49% deles entre 30 e 49); por isso
mesmo, chefes e filhos predominam. A escolaridade é baixa e o desemprego aberto
é aquele que assume a forma mais importante no momento da entrevista (63%).
Será possível dar algum sentido substantivo a esses achados? Acredito que sim.
Em primeiro lugar, eles parecem sugerir que a intensidade das transições entre
situações no mercado de trabalho é a norma no percurso dos desempregados;
transições tão recorrentes que não há padrão perceptível para a trajetória. Em
segundo lugar, mesmo ali onde se identifica um padrão de trajeto a partir dos
três eventos coletados, a situação fronteiriça que se situa entre desemprego e
inatividade é também a marca dominante. Ela se constitui na segunda classe de
trajetória, por sua significação numérica (cerca de 22% dos casos). Está
formada por um grupo caracteristicamente feminino (73% dos casos), em sua
maioria constituído por cônjuges (52%) e marcado pelo predomínio não apenas das
mulheres, mas das mulheres brancas. Sua escolaridade é ainda mais baixa que a
do grupo anterior; além de conter mais analfabetos, metade do grupo é
constituída por pessoas com escolaridade muito baixa, que sequer concluíram os
estudos fundamentais. O "desemprego oculto pelo desalento" é a forma de
desocupação mais importante entre eles.
Ora, se a saída recorrente do mercado de trabalho parece ser muito mais comum
que o esperado, tanto entre os ocupados como entre os desempregados, que dizer
do padrão de transição ocupacional daqueles entrevistados que já estavam, em
2001, na condição de inativos?
No Quadro_3 pode-se verificar que existe, por certo, um contingente que mais se
aproxima do que imaginamos devessem ser os indivíduos inativos: trabalhadores
de maior idade, que se retiraram do mercado de trabalho, via de regra
aposentando-se, depois de uma trajetória regular de trabalho; não deixa de ser
significativo reconhecer que eles são dominantemente brancos. Mas essa não é a
situação majoritária entre os que encontramos, em 2001, na condição de
"inativos"; ao contrário, tal situação recobre apenas 8% dos casos. Novamente
aqui, a maioria é formada por aqueles trabalhadores que vivem tão intensas
transições, e entre tão diferentes situações, que sequer podemos identificar um
padrão de trajetória. Observe-se que eles formam a classe mais importante, com
quase 50% dos casos dos inativos entrevistados (classe 1 no Quadro_3). A
segunda classe em importância é formada por aqueles que, sem ocupação, podiam
situar-se no desemprego ou na inatividade.
Qual seria, então, o achado analiticamente mais intrigante desse conjunto de
resultados? Arrisco sugerir que, no caso da maior metrópole brasileira, o
mercado de trabalho não demarca, ao menos com a clareza que seria
analiticamente esperada, as fronteiras que separam a "atividade econômica"
(para o que "ocupação" e "desemprego" se constituem nas situações alternativas
típicas) da "inatividade econômica". Dito de outro modo, a inatividade deixou
de ser, ao menos entre nós, um fenômeno de mão-única, que tem lugar nos
extremos da trajetória ocupacional, em precisos momentos do ciclo de vida do
trabalhador, a saber: num momento inicial, de entrada no mercado de trabalho
(quando jovens passam da condição de inativos à de ativos) e no momento final
de saída do mercado de trabalho (quando idosos passam da condição de ativos à
de inativos). Isto equivale a dizer que o movimento de entrada e saída da
atividade econômica (ou da força de trabalho que se oferece no mercado) pode
ser tão regular quanto o movimento entre ocupação e desemprego. Em
conseqüência, as transições ocorrem de modo igualmente provável entre todas as
três possíveis situações vis-à-vis o mercado de trabalho (ocupação, desemprego
e inatividade), e não somente entre aquelas duas, típicas da operação ordinária
do mercado capitalista de trabalho (ocupação e desemprego).
Será isto diferente, se compararmos São Paulo a outras metrópoles nas quais
distintos regimes de institucionalização do emprego e do desemprego foram
erigidos? Tal como dito no início, dois outros estudos empíricos foram
conduzidos em Paris e Tóquio, abordando transições e trajetórias em momentos de
expansão significativa do risco do desemprego. Com base nos dados ali coletados
foi possível aplicar os mesmos procedimentos estatísticos utilizados para o
caso de São Paulo, de modo a identificar padrões de trajetórias agregadas.5
A questão, que explorarei doravante, poderia ser assim formulada: considerando
os percursos dos desempregados nas três metrópoles, e tendo em mente que a
instabilidade ocupacional e as transições ocupacionais são crescentes num
contexto de flexibilização no uso do trabalho, como descrever a diversidade dos
tipos de trajetórias que são produzidas? Existirão diferenças entre uma
realidade, como a brasileira, onde impera o desemprego de tipo recorrente, e
outras, como as de Paris e Tóquio, onde desemprego de longa duração é a figura
que se destaca? Inexistindo diferenças, seria possível concordar com o
argumento de que o Brasil seria uma sorte de antevisão perversa do futuro que
espera os países onde se erigiram regimes relativamente sólidos de proteção
social, sejam eles públicos, como na França, ou privados, como no Japão?
Deveríamos, com isso, respaldar hipóteses como a de uma "brasilianização" das
sociedades ocidentais, conseqüente à transformação dessas em sociedades de
risco?6
PARIS: FORAM-SE OS "ANOS GLORIOSOS"?
No caso de Paris-Île de France a análise baseou-se no painel "Trajectoires des
demandeurs d'emploi et marché local de travail" (TDE-MLT), conduzido pelo
Ministère du Travail et de la Solidarité.7 Esse painel teve como ponto de
partida uma coorte de novos inscritos junto à ANPE (Agence Nationale pour
l'Emploi), no período abril-junho de 1995. Foram considerados apenas os
indivíduos com menos que 55 anos no momento de início do desemprego e que
residissem em uma de 8 zonas (ou "bacias de emprego", conforme denominadas)
selecionadas para análise em três regiões (Île-de-France, Nord Pas-de-Calais e
Provence-Alpes-Côte d'Azur). Como parte desse estudo, foram montados dois
instrumentos de acompanhamento longitudinal: um painel retrospectivo e outro
prospectivo. No primeiro, foram colhidos dados da história ocupacional
imediatamente antecedente do indivíduo (período 1993-1995), por meio de
entrevista realizada quando da sua inscrição. No segundo caso, do painel
prospectivo, foram cobertos 33 meses compreendidos entre 1995 e 1998, a partir
de três levantamentos de acompanhamento. No primeiro (face a face), realizado
em 1996, foram alcançadas 8.125 pessoas; no segundo (por telefone), realizado
em 1997, logrou-se preservar 6.480 dos respondentes iniciais; no terceiro
(também por telefone), realizado em 1998, restaram 5.262 dos respondentes
iniciais.
Analisarei aqui apenas o material colhido pelo painel prospectivo,
restringindo-o aos 1.624 indivíduos pesquisados na região metropolitana de
Paris-Île de France.8 Assim fazendo, busco aproximar tanto os lapsos de tempo
tomados como referência para recobrir os percursos ocupacionais, como os tipos
de espaços em que os indivíduos disputam trabalho: duas metrópoles, São Paulo
(entre 1994 e 2001) e Paris (entre 1995 e 1998). É certo que um fator de relevo
diferencia os dois levantamentos e convém estar atento a ele antes de comparar
resultados. No caso brasileiro, a análise se sustenta em um painel
retrospectivo, enquanto que no caso francês num painel prospectivo. Tal
distinção coloca um problema metodológico importante; o recurso à memória para
reconstruir um lapso de tempo significativo, vivido num mercado muito instável
como o brasileiro, por certo afeta a qualidade dos dados para São Paulo. Mas há
também um limite teórico adicional: no caso parisiense podemos refletir com
segurança sobre o efeito que a passagem pelo desemprego impõe ao curso das
trajetórias ocupacionais, atuando como um elemento importante a desigualar os
competidores no processo de redistribuir as oportunidades de emprego; já no
caso paulistano isso não nos será possível, visto que apenas podemos analisar
trajetórias prévias ao desemprego. Nenhuma das duas restrições, entretanto,
empana, como veremos, a clareza com que se distinguem os processos nessas
metrópoles.
No caso de Paris-Île de France, é certo que o desemprego se torna um fenômeno
que, desde os anos 1980, atinge duramente seu mercado de trabalho.9 Entretanto,
à diferença de São Paulo, a análise dos percursos ocupacionais dos
entrevistados revela o peso das situações típicas de um mercado capitalista
organizado, onde domina a chamada "norma salarial".
Na Figura_2, de maneira equivalente ao que vimos antes para São Paulo, uma
sucessão de cortes transversais permite visualizar a situação do entrevistado
em cada um dos 35 meses pesquisados. Chama a atenção o fato de que, se
considerarmos os dois estratos formados pelos que haviam estado em desemprego
aberto e os que haviam estado ocupados sob a relação salarial típica (o
contrato de duração indeterminada, CDI), em qualquer dos 35 meses observados,
eles reúnem sempre a maioria dos casos. O leitor bem se recorda de que, em São
Paulo, uma conjunção equivalente deixava de fora nada menos que três quartos
dos entrevistados.
Essa diferença fica ainda mais evidente quando, por meio da análise fatorial e
de clusters, procuram-se identificar as classes de trajetórias agregadas que
resumem os percursos ocupacionais típicos dos 1.624 parisienses entrevistados
ao longo dos 35 meses pesquisados (Quadro_4). O desemprego de longa duração se
destaca como a situação numericamente mais importante. Ora, uma desocupação
aberta de tal magnitude e a tal ponto duradoura só é possível num contexto,
como o francês, em que a institucionalização do desemprego se faz mediante um
sistema de proteção de elevada abrangência e capilaridade, diversificado pelos
benefícios que outorga e duradouro pelo tempo de proteção a que dá direito.
Por certo, há aqueles que fazem um percurso de saída do desemprego e que os
conduz a novas ocupações. Essas, entretanto, se localizam no mundo dos
empregados regulares, diretamente contratados (seja por tempo indeterminado,
seja por tempo determinado, seja transitando entre uma e outra forma de
contrato). Dessa forma, metade da amostra pode ter seu padrão de trajetória
descrito somente a partir daquelas duas situações historicamente típicas da
condição de ocupado num mercado capitalista de trabalho: o desemprego protegido
e o assalariamento regular de longa duração. E se incluirmos o assalariamento
por tempo determinado, o CDD (novidade que desafia a norma salarial dos "30
gloriosos") teremos nada menos que três quartos da amostra. E conquanto as
transições sejam mais intensas ali onde as trajetórias agregadas remetem às
modalidades ditas "atípicas" de emprego (sub-contratados ou sob outros tipos de
emprego), é sempre possível (à diferença de São Paulo) identificar um padrão de
trajetória como dominante no percurso. Finalmente, a passagem à inatividade não
abrange mais que 5% dos casos na região de Paris-Île de France.10
TÓQUIO: A FRATURA DO "SISTEMA DE EMPREGO VITALECIO"
Que dizer do caso japonês? À diferença do levantamento feito na região
metropolitana de Paris, onde um painel prospectivo acompanhou uma coorte de
desempregados inscritos na Agencia Nacional para o Emprego (ANPE) e pôde
recuperar anualmente sua história ocupacional no período estudado, no caso da
região de Tóquio trata-se de uma enquete por questionário, feita com uma única
coleta, de tipo retrospectivo, que permitiu analisar uma amostra de demandantes
de emprego em agências do sistema público de emprego japonês.
Por certo essas diferenças não são casuais. No caso francês, era possível
conceber um painel e um questionário de tipo calendário, dada a importância do
sistema público de intermediação, requalificação e assistência, erigido pela
ANPE; importante seja por sua cobertura e eficácia em termos dos benefícios
(que atraem mais que 80% dos desempregados para ali se registrarem), seja (e,
sobretudo, para os alvos da pesquisa) por suas formas de acompanhamento e
avaliação dos "bons desempregados" (para referir aqueles que cumprem as "boas"
regras da procura ativa de trabalho). Essas razões, sem dúvida, viabilizaram,
na França, o rico painel longitudinal. Já no caso japonês, a cobertura do
sistema público é algo ainda em construção, razão pela qual o retorno do
demandante à agência é menos regular, bem como (e isto é especialmente
importante) mostrou-se impossível, pela resistência do entrevistado
(culturalmente explicável), agendar contato pessoal de seqüência, que
facultasse a montagem de um painel prospectivo, seja na sua residência ou por
telefone.
Os dados do survey realizado no Japão foram, assim, colhidos em doze agências
de emprego (Hello Work), do sistema PESO - Public Employment Security
Office (Shokugyo antei sho), num único levantamento, executado no período
compreendido entre 1 e 31 de agosto de 2001. Essas agências localizavam-se em
quatro municípios da Região Metropolitana de Tóquio: Tóquio, Kanagawa, Chiba e
Saytama. Foram entregues questionários individuais a todas as pessoas que
afirmaram estar procurando trabalho quando abordadas pela equipe de
pesquisadores presentes na agência. Algumas delas preencheram o questionário no
local, enquanto outras o levaram para casa, enviando-o posteriormente pelo
correio. Ao todo foram entregues em mãos 6.222 questionários, com a taxa de
retorno de 27,1%, do que resultaram 1.685 questionários preenchidos e 1.503
casos válidos.
Dadas as limitações da coleta, e dada ainda a importância (apesar da crise) do
sistema de emprego dito "vitalício", os pesquisadores decidiram indagar apenas
por um único evento ocupacional anterior, para aqueles que estivessem
demandando trabalho na condição de desempregados; ou seja, apenas um evento
ocupacional foi pesquisado, acreditando-se que ele bem descreveria uma história
longa de passagens pelo mercado de trabalho que poderia remontar ao início dos
anos 1990, perfazendo onze anos no total. E, de fato, é notável a importância
desse único e duradouro emprego assalariado regular, que se revelou a situação
mais recorrente na história anterior dos atuais demandantes em agências na
Região Metropolitana de Tóquio. É o que se vê na Figura_3, na qual a situação
ocupacional do estoque dos entrevistados é apresentada, mês a mês, entre
janeiro de 1994 e julho de 2001.
Enquanto o desemprego se constitui numa situação absolutamente minoritária,
qualquer que seja o mês observado (à exceção, naturalmente, do momento da
coleta), o emprego assalariado de tipo permanente ganha notável proeminência na
caracterização dos percursos, agrupando a maior quantidade de casos. Notável
porque, no caso japonês, um único emprego pode explicar parcela ponderável das
trajetórias dos atuais demandantes durante onze anos da sua biografia
ocupacional.
O desemprego, por sua vez, além de durar relativamente pouco (ante o padrão
francês do desemprego de longa duração, por exemplo), também não pode ser
caracterizado por sua recorrência, como no caso brasileiro. Na região de
Tóquio, se recorrência há, ela parece ser a recorrência do emprego, duradouro e
protegido pelo assim-chamado "sistema de emprego vitalício". Mas a presença
(também marcante) de uma parcela de indivíduos cujos percursos restam ignorados
evidencia a intensidade da fratura da norma ocupacional do emprego vitalício,
manifesta no início dos anos 2000, sugerindo a urgência de aprofundar o estudo
das formas de transição entre situações ocupacionais também no Japão.
Quando se analisam padrões de trajetórias agregadas, no caso de Tóquio, fica
ainda mais saliente como a parcela mais importante desse mercado de trabalho se
organiza ao redor de situações típicas do sistema de emprego vitalício. Veja-se
o Quadro_5.
Nada menos que 50% dos indivíduos demandando trabalho nas agências do sistema
"Hello Work" haviam feito, antes do desemprego, uma trajetória de vínculo
permanente a um único emprego regular. Contrariamente a esses, cerca de um
terço (mais exatamente 38%) havia feito um percurso que, pela falta de
informação na coleta, não pode ser descrito; a indicar, como dito antes, que se
trata de uma situação de recorrência entre empregos, antes extraordinária mas
agora crescente, com a dissolução de alguns dos pilares da antiga forma de
institucionalização do sistema de emprego no Japão. Afora esses, todos os
outros tipos de trajetória são extremamente minoritários pelo número de casos
que os perfazem (2,6% vinham de um desemprego duradouro; 4,7% provinham do
trabalho em tempo parcial, sendo majoritariamente mulheres; e 3,6% de outras
situações).
Mais que o risco do desemprego duradouro (como no caso parisiense) ou da
transição intensa sob desemprego recorrente (como no caso paulistano),
parecemos (ainda) estar aqui ante a recorrência do emprego.
REFLETINDO EM PERSPECTIVA: CONVERGIREMOS PARA MERCADOS "BRASILIANIZADOS"?
Vistas, assim, numa perspectiva comparada, as realidades das três metrópoles
parecem sugerir que, conquanto se intensifique a instabilidade nos percursos
ocupacionais, nem de longe seria possível referir um movimento de
"brasilianização" dos mercados antes protegidos. No caso francês, onde um
pujante sistema público se erige, a figura que a ele se ajusta é a do
desemprego de longa duração; e se transições há, elas se fazem entre os que se
movem nas formas ditas "atípicas" de trabalho, mas nem de longe põem em risco
seja a caracterização de padrões nessas trajetórias, sejam as fronteiras do
mercado de trabalho (por uma passagem recorrente à inatividade). No caso
japonês, as transições também se dão no interior do mercado de trabalho; e, num
contexto de desemprego relativamente reduzido (embora crescente), é provável
que elas se façam preponderantemente entre situações ocupacionais, típicas e
atípicas, as quais merecem maior estudo. Já no caso brasileiro, os paulistas
nem dispõem de uma estrutura institucional que lhes faculte manter-se longa e
duradouramente no desemprego, nem vivenciam uma norma salarial que tenha
generalizado o vínculo formal e durável como experiência; assim sendo, a norma
parece ser a enorme recorrência de transições. Se em momentos anteriores (mais
exatamente até os anos 1980), tais transições se verificavam dominantemente ao
interior do mercado de trabalho (entre ocupação e desemprego); atualmente seu
padrão desafia as fronteiras desse mesmo mercado, banalizando o movimento de
saída e entrada da atividade econômica, pari passu com a intensificação das
transições entre situações ao interior do mercado, conseqüência da maior
flexibilização das relações de trabalho. Ante a recorrência (japonesa) dos
empregos, quiçá se possa afirmar a recorrência (brasileira) do desemprego,
irredutível, seja em sua forma, seja em suas implicações, ao desemprego de
longa-duração, que tanto desafia a arquitetura dos regimes de proteção de um
Estado de bem-estar como o francês.
Com efeito, a especificidade do padrão de transição ocupacional que tem lugar
em São Paulo parece fundar-se em duas características principais. Em primeiro
lugar, num tipo de mobilidade no mercado de trabalho marcada pelo que vim
denominando como "desemprego recorrente", para diferenciá-lo do fenômeno do
"desemprego de longa-duração" que se manifesta com clareza (ainda que em graus
distintos) nas duas outras regiões metropolitanas, constituindo-se no grande
desafio às políticas públicas e, por que não dizê-lo, à sustentabilidade dos
sistemas de proteção, ao menos tal como erigidos durante o último ciclo longo
de expansão capitalista, que beneficiou tanto Paris quanto Tóquio. Em segundo
lugar, na Região Metropolitana de São Paulo, o modelo de transição no mercado
de trabalho parece contemplar tanto a mobilidade que se faz entre situações de
ocupação e desemprego (ou seja, a mobilidade que ocorre nos limites internos ao
mercado, tal como analiticamente costumamos entendê-lo) como a mobilidade entre
situações de atividade e inatividade (ou seja, a mobilidade que ocorre para
além dos seus limites, pelo trânsito entre ocupação, ou desemprego, e
inatividade).
Ora, um trânsito ocupacional que ultrapassa as bordas do mercado de trabalho
seria usualmente esperado apenas em momentos determinados do ciclo de vida:
seja no início deste (quando se ingressa na ocupação, deixando a inatividade,
movimento que ocorreria na passagem da juventude para a idade adulta, ao final
do ciclo escolar), seja ao seu final (quando se deixa o mercado de trabalho,
depois de uma longa vida ativa). Diferentemente da expectativa teórica,
construída a partir do estudo de mercados de trabalho em que uma norma salarial
foi institucionalizada, no caso de São Paulo mover-se, cruzando as fronteiras
de saída do mercado, parece ser um tipo de transição tão banal quanto mover-se
entre ocupação e desemprego. Ademais, longe de ser este um padrão restrito a um
grupo social, circunscrito e marcado pela sua progressiva desafiliação, em São
Paulo isso pode ser flagrado como norma para parcela quantitativamente muito
significativa da população em idade ativa.
Vimos, enfim, que, sob distintos sistemas de emprego e formas de
institucionalização do desemprego, diversos são os padrões assumidos pelas
transições e trajetórias ocupacionais, inclusive por suas formas do desemprego.
[1] Agradeço a Paulo Henrique da Silva e Marcus Farbelow pelo suporte na
preparação e processamento dos dados, bem como à equipe da Fundação Seade, que
compartilhou decisões relativas à concepção e implementação, no Brasil, do
survey que facultou este estudo. As análises se beneficiaram, igualmente, do
apoio e sugestões recebidos de Maria-Teresa Pignony e Kurumi Sugita, a quem
também agradeço.
[2] Sigo pista aberta por Duncan Gallie e Serge Paugam em Welfare Regimes and
the Experience of Unemployment in Europe (Oxford: Oxford University Press,
2000).
[3] Trata-se do projeto "Chômage: Approches institutionnelle et biographique.
Une comparaison Brésil, France, Japon", que coordenei em São Paulo. Os
levantamentos de campo e análises em Paris foram conduzidos por Didier
Demazière e Maria-Teresa Pignoni; em Tóquio, ficaram a cargo de Helena Hirata e
Kurumi Sugita. No Brasil contamos com financiamentos do CNPq (Auxílio Pesquisa
469792-00 e Programa de Cooperação Bilateral CNPq-CNRS Projeto 690030-01-0), do
CEM (Programa Fapesp/CEPID 1998/14342-9) e da William and Flora Hewlett
Foundation (US-Latin America Program, Grant 200-5377).
[4] Detalhes nessa linha de argumentação podem ser encontrados em um outro
texto no qual evidenciou-se que tal risco variava significativamente segundo a
condição de sexo e racial. Ver Guimarães, Nadya Araujo; Silva, Paulo Henrique
da; e Farbelow, Marcus V. "Transições ocupacionais, recorrência do desemprego e
desigualdades de sexo e cor. São Paulo numa perspectiva comparada", comunicação
apresentada ao VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, Painel
50, Coimbra, 15-18 set. 2004. Versão digital em http://_www.fflch.usp.br/
sociologia/nadya.
[5] Entretanto, convém observar que, como os dados para Paris e Tóquio foram
colhidos em agências de emprego (e não em domicílios, como em São Paulo), os
seus achados somente são comparáveis aos que antes apresentamos com respeito
aos desempregados paulistas.
[6] Ao modo, por exemplo, do que sugere Ülrich Beck em The Brave New World of
Work (Cambridge: Polity Press, 2000).
[7] De fato o painel TDE foi o primeiro dentre os três levantamentos realizados
e serviu de inspiração para os dois surveys conduzidos posteriormente em São
Paulo e Tóquio, realidades onde inexistiam inquéritos oficiais de tipo
longitudinal recobrindo mais amplamente o mercado de trabalho.
[8] Em "Brasilianizando o Ocidente?" (Inteligência, Rio de Janeiro: v. VII, n.
28, pp. 92-110, 2005), comparei os resultados obtidos para São
Paulo com o conjunto dos dados do TDE analisados por Maria-Teresa Pignony e
Cristel Poujouly em "Trajectoires professionnelles et récurrence du chômage"
(DARES. Premières Informations et Premières Synthèses, Paris, Ministére de
l'Emploi et de la Solidarité, n. 14.3, abr. de 1999).
[9] Extensa literatura pode atender eventual interesse do leitor por maior
informação a respeito. Destaco: Demazière, Didier. La sociologie du chômage.
Paris: La Découverte, 1995 ; Freyssinet, Jacques. Le chômage.
Paris: La Découverte, 1984; Friot, Bernard e Rose, José. La
construction sociale de l'emploi en France - Les années soixante à
aujourd'hui. Paris: L'Harmattan e Forum, 1996; Gautié, Jerôme.
"Transitions et trajectoires sur le marché du travail", Quatre-Pages, Paris,
Centre d'Études sur L'Emploi, n. 59, sept. 2003; Maruani,
Margaret e Reynaud, Emmanuèle. Sociologie de l'emploi. Paris: Éditions La
Découverte, 1993; Supiot, Alain (ed.). Au-delà de l'emploi.
Paris: Flammarion, 1999.
[10] Para maiores detalhes no estudo dos padrões de transição ocupacional no
caso francês, ainda analisando esta mesma base de dados ver, além do texto de
Pignony e Poujouly (op. cit.), três outros trabalhos: Pignony, Maria-Teresa;
Poujouly, Christel; Viney, Xavier. "Sortir du chomage: des chances inegales
selon le contexte local". DARES. Premières Informations et Premières Synthèses,
Paris, Ministére de l'Emploi et de la Solidarité, n. 26.1, jun de 1998; Canceill, Geneviève; Huyghues Despointes, Hervé.
"L'Inscription à l'ANPE et apres: itineraires de chomeurs". DARES. Premières
Informations et Premières Synthèses, Paris, Ministére de l'Emploi et de la
Solidarité, n. 37.1, set. de 1999; e Canceill, Geneviève;
Huyghues Despointes, Hervé. "Passage par le chomage et dynamique des revenues".
DARES. Premières Informations et Premières Synthèses, Paris, Ministére de
l'Emploi et de la Solidarité, n. 04.3, jan. de 2002.