Religião como solvente: uma aula
solvente: adjetivo e substantivo de dois gêneros.
Rubrica: química. líquido capaz de dissolver um grande número
de substâncias, como a benzina, a acetona, o álcool etc.
(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
NOTA PRÉVIA
Não é sempre que ocorre, mas mesmo pesquisadores experientes podem ter lá os
seus insights. Refiro-me a insights prolíferos, desses que improvisadamente
destapam rico filão teórico ou descobrem todo um continente empírico-fenomenal
que se oferece farto à exploração, descobrimento prometendo descobrimentos. Mas
também não é sempre que bate essa sorte de acontecer um insight que se faça
acompanhar de um período intelectualmente produtivo "por causa dele". Pois
comigo aconteceu. Tive um, pouco tempo atrás. Tive mesmo, e tudo me faz crer
que vale a pena prosseguir na prospecção, perfurando a mina.
Foi em Berlim, há um ano e meio. Nos primeiros dias de dezembro de 2004,
durante estada patrocinada pelo convênio Capes-DAAD para dar um curso de outono
na Universidade Livre de Berlim (Freie Universitåt Berlin FU-Berlin) nos
meses de novembro e dezembro, longe de casa e com muito tempo para ler e
cismar, deu-se o estalo diretamente em alemão: "Religion als Lösemittel" a
religião como solvente.
O curso como um todo era sobre temas e problemas culturais brasileiros,
ministrado em conjunto com meu amigo e colega Sérgio Costa, mas a parte que me
cabia lecionar tinha como foco a diversidade religiosa no Brasil de hoje.
Título que lhe dei: "Diversidade religiosa à brasileira'".
O maior frio em Berlim. E os dias, de luz só branca, curtos demais. Noite caía
sem a menor cerimônia às quatro da tarde. Resultado: período noturno alongado,
horas noturnas de sobra sem tevê, boas para ler muito e escrever um pouco. Até
mesmo para reler coisas antigas, verdadeiro luxo. Li muito sobre religiões no
Brasil, mas sobretudo reli. Reli boa parte da produção brasileira em sociologia
da religião. Muita coisa que previdentemente levara comigo na bagagem, e tudo o
mais que pudesse encontrar na biblioteca por sinal bem boa do
Iberoamerikanisches Institut (IAI). Pouca coisa teórica, porém muita pesquisa
empírica, o que foi bom, pensando bem, pois recompor naquele breve intervalo
berlinense meu estoque de informações factuais sobre o chamado campo religioso
no Brasil acabou adensando o repertório de base e o clima de fundo para o
momento do estalo que sobreviria. E que de fato sobreveio na última semana do
curso, início de dezembro. Talvez tenha acontecido porque naquelas releituras
todas acabei, sem dar-me conta, prestando atenção mais seletiva a certos dados
quantitativos e outros achados empíricos que de repente se tornaram mais
relevantes e contundentes do que os havia considerado até aquele momento, e
eles então se reapresentaram perante minha vontade de análise carregados de
"sinais sinalizando", digamos assim, verdadeiras placas de trânsito apontando
para uma determinada direção que ao longo do século XX já vinha sendo
palmilhada pelo "desenvolvimento religioso"2 em nosso país, direção a que eu
mal dava atenção, apesar de ela já se projetar como uma tendência histórica
bastante bem delineada empiricamente, como agora a vêem meus olhos de ver.
UMBANDA MINGUANTE
Ultimamente tenho andado cismado com o abalo demográfico que a umbanda sofreu
nas décadas finais do século XX. O decaimento numérico da umbanda foi de tal
modo significativo entre 1980 e 2000, que o desempenho demográfico das
religiões afro-brasileiras no agregado ficou seriamente atingido por ele. Em
1980, o contingente de afro-brasileiros declarados ao censo, que, já diminuto,
chegava a apenas 0,6% da população brasileira residente, caiu em 1991 para 0,4%
e continuou caindo em 2000, chegando então a 0,3%. "De 1980 a 1991, feitas as
contas na ponta do lápis, os afro-brasileiros perderam 30 mil seguidores
declarados, perda que na década seguinte subiu para 71 mil."3 Conclusão do
especialista no assunto: "o segmento das religiões afro-brasileiras está em
declínio". É que nem diz o mineiro, acrescento eu: "antigamente as coisas
eram piores, mas foram piorando".
Passar os olhos pelas tabelas de religião do Censo 2000 e de repente avistar os
números da umbanda, podendo além do mais compará-los com os do candomblé, só um
pouquinho mais otimistas, confesso que me deu uma tristeza, sei lá, patriótica.
Eu não podia acreditar naquilo. Não esperava, não tinha idéia de que estivesse
acontecendo isso com o "meu Brasil brasileiro"! Que o catolicismo caísse, e
caísse cada vez mais, era esperado, isso afinal vem acontecendo faz tempo. Que
o luteranismo refluísse, estava na lógica. Mas a umbanda, a "religião
brasileira"4 por antonomásia, essa Kulturreligion mestiça de índio, negro e
europeu, prosopopéia consumada de nossa decantada miscigenação constitutiva,
que os cientistas sociais mais patriotas, em uníssono com outros tantos
patriotas intelectuais, consideraram como forma religiosa plenamente ajustada,
posto que sincrética, à realidade brasileira, mesmo à mais urbana e modernizada
das "realidades brasileiras", eis aí um fenômeno realmente fenomenal, que dá o
que pensar.
Desde a publicação em 2002 da tabulação avançada do Censo 2000 sobre o quesito
religião que não me sai da cabeça a fragilização da umbanda, componente
depressivo a mais na projeção imagética de uma atmosfera cultural de "bye-bye,
Brasil"5, é ou não é? Encabulado com o declínio censitário da umbanda, o
"Brasil brasileiro" indo para o ralo também desse ponto de vista, comecei
naquele momento a matutar seriamente: quanto mais se amplia no Brasil a
diversidade religiosa livre das amarras de um Estado confessional,
multiplicando para os brasileiros as possibilidades objetivas de livre escolha
em face de maior estoque de religiões em oferta, aumenta para o sociólogo da
religião a exigência de se perguntar "que forma de religião" acaba se saindo
melhor nesse processo predatório de "seleção cultural" a olho nu que aqui se
instalou desde as últimas décadas do século XX. Não tem mesmo outro jeito: em
sociologia da religião é preciso sempre começar distinguindo. Ou, o que dá na
mesma: classificando. Classifiquemos, então, diria Marcel Mauss ("Classons
donc"6).
Mas qual classificação? Qual delas, se são tantas as modalidades de classificar
que desde os clássicos fomos empilhando no estoque de ferramentas lógicas da
nossa disciplina? Como fazer a escolha apropriada de um bom recurso
classificatório? E isso meditando sem esquecer (e eu lá conseguia?) que o
último Censo Demográfico do século XX me levara com seus cuidados estatísticos
a uma tomada de consciência repentina: entre 1980 e 2000, a taxa de crescimento
das religiões afro-brasileiras foi negativa no Brasil7.
Rupturas pós-tradicionais com a tradição religiosa... rupturas pós-coloniais
com o modo colonial de sincretismo religioso... por que então não privilegiar
de novo, na análise, o viés da ruptura com a tradição, se hoje no Brasil,
conforme o Censo 2000, três das principais religiões classificadas pela
sociologia como tradicionais o catolicismo, o luteranismo e a umbanda ,
mesmo que cada qual se mostre tradicional de um ponto de vista diverso, estão
dando sinais evidentes de falta de fôlego em sua capacidade de reprodução
ampliada, fazendo com que a noção sociológica de destradicionalização, hoje
enfatizada por uma influente vertente da teorização contemporânea em
sociologia, valide-se empiricamente a cada ano que passa, também nestes nossos
pagos, como um dos mais acertados conceitos macrodescritivos aplicáveis a essa
transição religiosa verdadeira transição cultural em passo acelerado , cuja
curva os dados sobre religião coletados pelos censos do IBGE acompanham desde
1940.
O crescimento aparentemente irrefreável das conversões às igrejas pentecostais
e neopentecostais de raiz protestante está aí para mostrar que hoje no Brasil
(e de alto a baixo na América Latina) vivenciar uma religião implica muitas
vezes, para um número crescente de pessoas, romper com o próprio passado
religioso. Nessas rupturas proliferantes com mundos religiosos que antes
pareciam bastar, mas de repente não mais, os adeuses são muitos. Entre eles, o
adeus ao sincretismo umbandista que se supunha aderido com homóloga perfeição à
identidade cultural brasileira.
E foi por conta disso que acabei descobrindo que valia a pena trazer à baila
uma vez mais, na verdade trazer à tona, aquele velho e bom recurso
funcionalista de classificar as religiões por função.Chamemo-lo sem maiores
pruridos de classificação funcional.
Desde meus primeiros passos na pesquisa de campo em sociologia da religião,
quando comecei a trabalhar no velho Cebrap da rua Bahia com o grande mestre
Candido Procopio Ferreira de Camargo, funcionalista assumido no meio de
marxistas de todo naipe, aprendi que para poder explicar o que ele chamava de
"surto seletivo de desenvolvimento religioso no país" é sempre bom dirigir a
vista para os aspectos funcionais das diferentes religiosidades. Uma
classificação que ele considerava "muito útil" no enfrentamento analítico de um
campo de forças religiosas diversas e com desigual potencial de desenvolvimento
é a que distingue entre religiões étnicas (em jargão funcionalista: religiões
com função de preservação de subculturas étnicas) e religiões universais
(abertas a todo e qualquer indivíduo, independentemente de tribo, etnia ou
nacionalidade). Assim escreveu Procopio, o estilo sempre enxuto:
A classificação funcional das religiões apresenta utilidade para
explicar o crescimento diferencial de formas religiosas. Nesse
sentido, distinguem-se as seguintes: 1) as que preservam determinado
patrimônio étnico-cultural, favorecendo a auto-identificação de um
grupo social; 2) as de caráter universal, abertas para a conversão de
todas as pessoas.8
Se uma das verdades empíricas que o sociólogo da religião está proibido de
desconsiderar é aquela segundo a qual há religiões e religiões, hão de ser de
importância crucial para nossa disciplina os atos de classificar e comparar. E
uma das classificações com as quais ainda faz bem retomar contato é justamente
esta: há religiões de preservação de um determinado patrimônio étnico e
religiões de caráter universal, "abertas para a conversão de todas as pessoas",
disse-o Candido Procopio em palavras que associam imediatamente, na definição
de religião universal, duas idéias: a de abertura e a de conversão. "Religião
de conversão", portanto, fica sendo uma categorização que se encaixa com maior
propriedade no segundo grupo funcional, e é assim que eu a retomo aqui, na
medida em que coloca no centro mesmo do recente boom de interesse sociológico
pela "modernidade religiosa" a figura figura móvel!, sublinha Hervieu-Léger9
não só do convertido, mas também do "convertível", da pessoa que está desde
já e sempre-já convidada a se converter, melhor ainda, daquela pessoa (no
sentido forte do termo em seu uso antropológico) que por mudar de religião se
individualiza, se faz ipso facto mais indivíduo, um ser humano abstraído dos
vínculos herdados, desincompatibilizado de um passado que, vai ver, já não era
lá essas coisas, e assim se desloca, feito indivíduo, num campo religioso que
se faz et pour cause mais plural e, além disso, tendencialmente pluralista,
bombardeado que está por escolhas religiosas individuais irregulares e
desreguladas.
Há um outro aspecto aí que me interessa voltar a nomear com o jargão mais
convencional da sociologia: é que na conversão religiosa se passa de um status
(religioso) adscrito para um status (religioso) adquirido. A conversão, posto
que mudança de uma religião de origem para uma religião de escolha, descreve um
movimento propriamente dito de mobilidade social. E se avançarmos algo mais no
tratamento teórico dessa abertura à mobilidade que passa a afetar os diferentes
contendores religiosos, se bem que nem todos, creio ser possível encaixar os
termos da definição de Candido Procopio em termos próprios à formulação mais
ambiciosa de uma tese, cujo objetivo é indicar fortemente o sentido dessa
"abertura para todos", que é a seguinte:
É universal a religião estruturalmente voltada para a conversão da
pessoa em indivíduo.(Enunciado 1)
Com nova ênfase, dá para perceber o quanto continua heuristicamente útil a
classificação funcional defendida por Candido Procopio. Oportuníssima é a luz
que ela consegue jogar sobre a dinâmica atual do campo religioso "pelo menos no
Brasil", como parecia modestamente pretender o velho mestre10. Mas não só no
Brasil, sabemos.
Além da validade heurística inerente a essa classificação funcional hoje fora
de uso, encontro no livro Católicos, protestantes, espíritas, escrito por
Candido Procopio e sua equipe do Cebrap11, a elaboração de uma listagem das
"instituições religiosas brasileiras", que em forma de quadro aloca sob cada
uma das duas funções as religiões correspondentes. O quadro por si só conserva
seu interesse. Quem o observa a trinta e tantos anos de distância, o mínimo que
pode ver é que de lá para cá algumas religiões mudaram de função. Deixaram a
função "de preservação de um patrimônio étnico-cultural" para se tornarem "de
caráter universal". Vejamos.
Religiões de caráter universal: Igreja Católica Apostólica Romana; Igreja
Católica Apostólica Brasileira; Igreja Anglicana; Batista; Congregacional;
Episcopal; Luterana; Metodista; Presbiteriana; Presbiteriana Independente;
Igrejas Pentecostais: Assembléia de Deus; Congregação Cristã no Brasil; Igreja
do Evangelho Quadrangular; Evangélica Pentecostal "O Brasil para Cristo";
Igreja Adventista do Sétimo Dia; Igreja Adventista da Promessa; Igreja de Jesus
Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmon); Espiritismo Kardecista; Umbanda;
Teosofia.
Religiões com função de preservação do patrimônio étnico-cultural: Judaísmo;
Igrejas Ortodoxas (armênia, grega, russa, síria); Islã; Budismo; Seitas
sincréticas ligadas à colônia japonesa e seus descendentes (Seicho-no-Yê,
Igreja Messiânica Mundial, etc.); Candomblé; Xangô; Religiões Indígenas12.
De 1973 para cá, o que foi que mudou nesse panorama? Para além do fato bruto e
mais evidente que é a ausência óbvia das denominações pentecostais surgidas
posteriormente, principalmente das neopentecostais (a Universal do Reino de
Deus, a Internacional da Graça Divina, etc.), o que chama a atenção é a
localização de umbanda e candomblé em separado. Na lista de 1973 a umbanda
entra no rol das "religiões de caráter universal", ao passo que o candomblé e o
xangô figuram na coluna das de "preservação do patrimônio étnico-cultural".
Interessante: quando aplicado às afro-brasileiras em 1973, o esquema funcional
teve o efeito de separar umbanda e candomblé em classes distintas de religião
com distinta função social.
Hoje não é mais assim. Hoje os cultos afro-brasileiros em sua totalidade, mesmo
os candomblés mais "africanizados" que porventura viermos a encontrar em
pesquisas de campo, já se comportam bastante acentuadamente, embora não
inteiramente, como religiões universais sem reserva de mercado de natureza
étnica ou racial13.
O CANDOMBLÉ SEM ETNICIDADE
O antropólogo Livio Sansone lançou recentemente um livro intitulado Negritude
sem etnicidade (2004). Pois então. É algo mais ou menos parecido com isso uma
espécie de "religiosidade afro-brasileira sem etnicidade" que hoje em dia se
experimenta diretamente no próprio candomblé e em tradições congêneres, como
batuque, xangô, tambor de mina.
A umbanda, como sabemos, desde sua criação na década de 1920 se auto-
representou como dirigida a todos os brasileiros: negra, índia e branca, the
Umbanda is for all of us14. Assim foi desde o berço, melhor, desde a concepção,
pois com ela não se pretendia nem uma religião negra nem uma religião só de
negros, pelo contrário: "a umbanda é de todos nós", bradava seu lema. Já o
candomblé, vivido e transmitido como "uma religião de preservação do patrimônio
cultural específico do negro", com o passar do tempo foi, por sua vez,
"constituindo-se em religião para todos", constata Prandi15, e foi com essa
inflexão que na segunda metade do século XX ele se espalhou pelas grandes
cidades brasileiras, muitas das quais no Sudeste, onde antes dos anos 1960 não
passava de uma referência cultural regional para quem voltasse os olhos em
direção à Bahia16.
Atenção a um ponto: os deslocamentos verificados da perspectiva do esquema
funcional obedecem a um padrão. Padrão claramente "desenvolvimental", digamos,
para evitar as armadilhas do termo "evolutivo". As alterações de função no
interior do campo religioso brasileiro têm se dado sempre e invariavelmente na
mesma direção: de religião étnica para religião universal. Não mais em direção
contrária, conforme costumava acontecer com as grandes religiões universais
quando trazidas pelos imigrantes europeus e asiáticos, sendo os casos mais
notórios o luteranismo dos colonos alemães e o budismo aqui implantado pelos
imigrantes japoneses. No decorrer da segunda metade do século XX, o padrão que
se desenhou foi o de religiões perdendo a função de preservar identidades
étnicas para se tornarem universalistas em sua missão salvífica e universais em
seu horizonte de recrutamento. Não mais em direção contrária, repito.
A mudança de função, e conseqüentemente de destinatários, que a equipe de
Candido Procopio já pudera identificar na dinâmica exibida "no Brasil" pelo
luteranismo17 acabaria na seqüência por alcançar um reduto étnico por
excelência, o candomblé e congêneres. Isso para não falar das "novas" religiões
ligadas à colônia japonesa e seus descendentes, tipo Seicho-no-Yê, etc., que
acabaram passando pelo mesmo processo de desobstrução étnica.
DE AFRO-BRASILEIROS A "BLACK EVANGELICALS"
Posto o problema nesses precisos termos quantitativamente referendáveis, a
curiosidade científica fica pedindo que se indague da composição por cor dos
grupos religiosos afro-brasileiros, vulgarmente dados como religiões de negros
até hoje. Pois bem, essa "fome de realidade" um dia transformou-se na decisão
de quantificar por amostragem a composição por cor das confissões religiosas; e
vice-versa: a composição religiosa de cada um dos contingentes de cor
identificados por autodeclaração. Reginaldo Prandi e eu fizemos isso com base
em dados amostrais de abrangência nacional, gentilmente cedidos pelo Datafolha,
que desde então os coleta em campanhas eleitorais presidenciais18.
Vou salientar aqui os dados de cor referentes às religiões afro-brasileiras.
São o meu foco, e creio que isso basta para fundar empiricamente meu argumento.
Conforme o esperado em qualquer palpite de senso comum, os negros marcam, sim,
maior presença nas religiões afro-brasileiras. Se no total da população sua
participação é de 7,3%, no conjunto das afro isso vai a 18,0%. A participação
dos pardos é maior, chega a 29,2%. Negros e pardos juntos perfazem 47,2% do
chamado "povo de santo". Quase a metade (ora direis). Sim, mas não mais que
isso. A taxa é expressiva, sem dúvida, mas já não é majoritária. Significa que
no conjunto das afro-brasileiras, ironia da vida, a maioria absoluta é de
brancos: 51,2%!
Na umbanda, tomada isoladamente, a maioria branca é ainda mais acentuada:
56,6%, fazendo cair para 42,7% a proporção de pretos mais pardos (15,2% e
27,5%, respectivamente). No candomblé, entretanto, a cor da maioria muda
simetricamente em relação à umbanda: 56,8% é a proporção de pretos mais pardos
no candomblé (23,9% e 32,9%, respectivamente). Os brancos aí são 40%,
contingente minoritário mas obviamente numeroso, grande o suficiente para
desconstruir demograficamente a velha imagem do candomblé como reduto religioso
de negros, portador coletivo que entretanto continua a ser de um passado
africano que paradoxalmente não é mais o passado real de grande parte de seus
adeptos individualmente tomados. Ainda que todos sejam, sim, africanizados em
religião.
É óbvio, não?, ça va sans dire, que os brancos do candomblé não estão ali para
celebrar retrospectivamente sua pertença primordial a uma etnicidade africana.
Nem muito menos para "defender", por absurdo, sua identidade racial e social de
brancos, o que não passaria, para dizer o mínimo, de fanfarronice. Sua
identidade "africana" é na verdade "africanizada" pela fé, uma identidade, como
diria Weber, "puramente religiosa", a qual por isso mesmo deixou de ser co-
extensiva à identidade étnica real dos 40% de seguidores brancos do candomblé.
Para cercar ainda melhor o problema da disjunção crescente entre religião e
etnicidade e poder melhor contemplar o paradoxo de uma religiosidade étnica sem
primordialidade possível para boa parte dos seus atuais seguidores, convém
também olhar ao inverso os dados da mesma pesquisa. Depois de examinar como se
distribuem as coortes de cor no interior de cada confissão religiosa, vamos ver
como se distribuem dentro de cada cor declarada as filiações religiosas
declaradas.
Encontro aí um dado que é crucial para meu argumento: entre os pardos, a opção
pelas igrejas evangélicas já se mostra um pouco mais elevada que entre os
brancos (14% contra 12,6%), mas é entre os pretos que a pesquisa encontrou a
freqüência mais alta de filiações evangélicas (17%; para sermos exatos, 16,8%).
Em nosso país, portanto, na passagem do século XX para o XXI, as estatísticas
mostram que entre os negros a proporção de convertidos aos diversos grupos
evangélicos, mas principalmente aos pentecostais, é maior do que entre os
pardos e os brancos, nesta ordem. Dito de outro modo: se, por um lado, ainda
não é maior no Brasil de hoje o número de negros evangélicos do que o número de
negros católicos, longe disso, por outro lado é fato que há muito mais negros
evangélicos do que negros kardecistas, do que negros umbandistas, do que negros
no candomblé, do que negros nas "outras religiões" e negros se declarando "sem
religião". E se formos esmiuçar mais, verificaremos que a taxa de negros
pentecostais (que é de 14,2%) é significativamente mais alta que a de brancos
pentecostais (9,1%) e amarelos pentecostais (6,3%)19, mais alta até mesmo que a
de pardos pentecostais (11%).
Deixando agora o milieu evangélico, a quantas anda a presença demográfica de
negros declarados nas religiões afro-brasileiras? Num país majoritariamente
católico, onde 75% dos brancos se declaram católicos bem como 76% dos pardos, a
proporção de católicos é curiosamente menor entre os negros: 70,1%. Façamos a
partir daí outras contas: se 70,1% dos negros são católicos, 16,8% são
evangélicos e 2,7% são espíritas kardecistas, se há 1,7% de negros que se
declaram seguidores de outras religiões e 5,7% se dizem sem religião, sobra,
vejam bem, um nicho apertadinho de 3,0% de negros repito: 3% e nada mais!
que se declaram cultuadores dos orixás. Pela pesquisa do Datafolha, esses 3%
repartem-se em 1,7% de umbandistas 1,3% de candomblecistas.
Noutras palavras: quando num primeiro momento nosso olhar focaliza a
distribuição de cor no interior de cada religião, constata-se o esperado, isto
é, que no Brasil a religião com a maior participação de pretos é o candomblé
(vimos que 23,9% dos candomblecistas declarados são negros). Quando, porém, o
que nosso olhar procura é a participação de cada agrupamento religioso no
interior de cada agrupamento de cor, basta prestar um pouco mais de atenção
para constatar que os negros convertidos ao pentecostalismo se mostram em
proporção muito maior (14,2%) do que os que se dizem adeptos das religiões dos
orixás (3,0%).
E, como há um lado em nossa curiosidade que só se satisfaz com números
absolutos, não custa recorrer às tabelas do Censo 2000 para mais esta espantosa
constatação: no ano 2000, havia no Brasil 1.675.680 negros evangélicos,
praticamente 1 milhão e 700 mil, perto de 2 milhões de negros evangélicos
contra menos de 100 mil negros (95.521) declarando-se adeptos dos cultos afro-
brasileiros (66.398 na umbanda e 29.123 no candomblé). Muita diferença!
PROCURA-SE UMA CHAVE
Uma religião universal define-se minimamente por sua "abertura a todos". Mas
essa definição mínima não dá conta do problema. A mera idéia de abertura a
todos não me basta, não me parece capaz por si só de captar as implicações
diruptivas é isso que me interessa de uma religiosidade ativamente
universalista, cujo exemplo mais característico se acha nas religiões
monoteístas de missão universal, religiões cujo dinamismo constitutivo está
fundado sobre a crença em uma missão divinamente revelada, que outra não é
senão a missão de propagação universal da própria revelação emissária. Missão
de fazer proselitismo pregando oportuna e inoportunamente, de não sossegar
enquanto não se alcançar a conversão ("submissão", diz-se no islã) de cada um
que tenha sido chamado por Deus.
Para esse tipo de religião, está claro, qualquer acento posto na identidade
étnica compartilhada, qualquer resquício de compromisso com um determinado povo
ou população, qualquer apego cultural cívico-particularista torna-se um
empecilho no mínimo desconfortável e, no limite, inconcebível, localismo sem
sentido para o universalismo da graça (ou pelo menos da glória) divina. Por
isso é que o monoteísmo radical dos protestantes, de apelo fortemente
individualista, combina muito menos com qualquer apego étnico do que o também
radical monoteísmo islâmico: bem que o islã gostaria de ver o mundo inteiro
submetendo-se a Alá, o Deus único, só que isso tem criado tensões com demandas
exclusivistas recorrentes, que o querem identificado com um povo em particular,
o árabe, tal como o judaísmo o é com o povo judeu20.
Também no Brasil fica evidente que dentre as religiões de visada e missão
universal, cujo número e variedade não param de aumentar, saem-se melhor
aquelas de cunho conseqüentemente individualista e militantemente missionário.
Ou seja, as congregações protestantes levam vantagem numa estrutura de campos
culturais que é cada vez mais concorrencial, assim como se torna concorrencial
a estrutura interna de cada campo, tal como hoje ocorre com o campo religioso.
Toda a teoria sociológica, da mais clássica à mais contemporânea, está aí para
nos entregar a chave da explicação dessa notória vantagem comparativa de que
goza o protestantismo de modo especialíssimo: o protestantismo é por
excelência, e radicalmente, uma religião de conversão individual. Para ele,
conta menos como validação da fé professada a herança religiosa ou "linhagem na
fé" do que o ingresso voluntário como "born again" numa congregação de
"renascidos". O que vale é a inscrição pessoal num meio só de crentes. A
formulação mais radical desse princípio deu no conceito puritano da believers'
Church21.
A esta altura quer me parecer que estamos na pista certa de uma boa chave
explicativa: produzir indivíduos por dissociação é condição sine qua nonpara
correr desimpedida a difusão de uma religião que se pretende universal. Há que
ser individualizadora a religião, se quiser converter fora do grupo de origem
do profeta, já que ninguém é profeta em sua terra.
A CHAVE: RELIGIÃO UNIVERSAL DE SALVAÇÃO INDIVIDUAL
Por atualíssima, e também nesse sentido insubstituível, não dá para
desconsiderar, que dirá menosprezar, a contribuição metodológico-individualista
de Weber em sociologia da religião. Seu esquema a cada dia me parece mais
atual, mormente quando me vejo às voltas com o novo desafio de enfrentar
teoricamente a modernidade religiosa brasileira em plena hipermodernidade
global. Nada mais rentável, com efeito, neste ensaio cujo tema é a religião
como solvente, do que pinçar em sua obra exatamente aqueles momentos nos quais
ele vai pôr o dedo na ferida (incurável) da tensão (insolúvel) entre a religião
universal de conversão individual e a esfera doméstica ou familiar, nada
melhor. E Weber chega à mais contundente formulação dessa tensão
irreconciliável na "Consideração intermediária", ensaio consagrado aos
conflitos insanáveis entre os valores últimos, em tudo e por tudo
incomensuráveis, que regem a legalidade própria de cada esfera cultural, ensaio
cujo subtítulo "Teoria dos graus e direções da rejeição religiosa do mundo" é
mais conhecido que o próprio título. Ali se lê:
Quando a profecia de salvação criou comunidades de fundamento
puramente religioso, a primeira força com a qual entrou em conflito
foi a comunidade naturalmente dada, o clã, o qual temia sua
desvalorização por aquela. Quem não pode hostilizar os membros da
casa, o pai e a mãe, não pode ser discípulo de Jesus: "Não vim trazer
a paz, mas a espada"(Mt 10,34) está dito nesse contexto(e, notar bem:
apenas nesse). É certo que a maioria esmagadora de todas as religiões
regulamentou também os laços de piedade filial intramundana. Mas,
quanto mais abrangente e internalizadamente se concebeu o escopo da
salvação, tanto mais evidente se considerou que o crente deve estar
mais próximo, antes de tudo, do salvador, do profeta, do sacerdote,
do confessor e do irmão na fé do que da parentela natural e da
comunidade matrimonial enquanto puramente tais. Com a desvalorização,
ao menos relativa, dessas relações e o rompimento da vinculação
mágica e exclusiva ao clã, a profecia, sobretudo onde se transformou
numa religiosidade soteriológica congregacional, criou uma comunidade
social nova [eine neue soziale Gemeinschaft].22
É um momento weberiano magnífico, insólito (para não dizer insolente) por sua
crueza sociológica de "especialista sem coração", já que fala da religião
desfazendo laços de família, laços de sangue que a todos nós se afiguram de
alguma forma sagrados, esse estalo sociologicamente brilhante aparece também,
em outra versão, no capítulo "Sociologia da Religião" de Economia e
sociedade23.
Seja como for, o que pretendo salientar com essa verdadeira punção weberiana
que escolhi a dedo é o argumento de fundo que desnuda, com toda a capacidade
que isso tem de incomodar, a lógica implacavelmente individualizante inerente
ao conceito que sua sociologia da religião elabora de religião congregacional
de salvação. Por razões de brevidade, aponto meu comentário diretamente para a
última frase da citação, que fala da "religiosidade soteriológica
congregacional" como criadora de uma "comunidade social nova". Só quero dizer,
fazendo blague, que tudo se passa como se o grande clássico alemão tivesse em
mente, com sua sociologia da religião, não "as formas elementares da vida
religiosa", como fez Durkheim, mas sim "as formas elementares da nova vida
religiosa"24. Olhando para o fenômeno religioso de um ângulo de visão
polarmente oposto ao de Durkheim, Max Weber o percebe privilegiadamente não
como algo que consolida o passado, o herdado e o adscrito, consagrando-os por
dentro e para dentro, mas como algo que os conflagra por dentro, aberto que é
para fora e para o futuro, para a invenção de uma vida comunitária nova,
buscada, experimentada e escolhida pelo "indivíduo-agora-individuado" que se
disponibilizou a deixar-se levar por um chamado, um convite, um anúncio, vou
dizer: por uma interpelação, na qual se reconhece e então se converte.
Eis uma forma de religião especialmente diruptiva, efetivamente destrutiva.
Diruptiva e predatória, extrativista. E de fato. Uma religião de salvação
individual só se apruma num primeiro momento por via extrativa: extrai
sistematicamente os membros das outras coletividades, das quais, antes de ouvir
a "boa nova" que interpela à apostasia, eles se pensavam estrutural e
inercialmente como parte e parcela. Mas não, religião de conversão não tem a
menor consideração. Destaca partes e desata nós, despedaça relações sociais
herdadas e desmembra coletividades já constituídas. Congregacionalista, "con-
grega" indivíduos que ela própria "des(a)grega" de outras greis, por secessão
ou abdução, indivíduos que ela recruta desenraizando, desterritorializando-os
de seus assentamentos convencionais, desviando-os de suas rotas convencionais,
desqualificando sistematicamente outros sistemas religiosos de crença e vida
prática, criticando ou condenando sem pedir licença outras condutas de vida e
pautas de comportamento, religiosas ou não, coletivas ou não, significativas ou
não.
A religião universal de salvação individual desencalha pessoas de rotinas
comunitárias estabelecidas e as desenreda das tramas já dadas de comunicação e
subordinação somente para, uma vez individualizadas, isto é, liberadas e
autonomizadas, engajá-las como indivíduos na constituição de uma comunidade
nova, in fieri, que só lhes tem a oferecer laços puramente religiosos, vínculos
religiosos verticais e horizontais que em sua depurada especificidade religiosa
hão de aparecer exatamente como são, dotados que se tornaram de um sentido
subjetivo inteiramente distinto, novo, outro: como diz Weber,
ausschliesslich religiös
25. Vejo numa passagem como essa um daqueles importantes momentos de pico da
sociologia de Weber em que ele dá asas às suas visões nada consoladoras a
respeito de como certos tipos de configuração relígio-cultural anteciparam a
dinâmica da modernidade26.
Sem nenhum compromisso com o passado e tensionada de futuro, porquanto traz em
si a modernidade religiosa in nuce, a religiosidade congregacional é a forma
elementar da vida religiosa que fez a cabeça de Max Weber e que eu, hoje, tenho
a satisfação de lhes reapresentar com outras ênfases.
DEFINITIVAMENTE, WEBER NÃO É DURKHEIM
O objeto de interesse sociológico que Weber circunscreve com sua
Religionssoziologie é coisa muito diferente do de Durkheim. O que na verdade
interessa àquele é identificar a dinâmica própria, e propriamente religiosa,
daquela fraternidade nova de seguidores que, no limite do tipo ideal, vai
resultar na formação de seitas. Noutras palavras, em "comunalização" sectária.
A palavra seita, vale lembrar, vem do verbo latino secare, cortar, separar
cortando'27.
Não estando constituída de antemão por laços extra-religiosos, a religião de
tipo congregacional vem a se constituir como uma associaçãoespecificamente
religiosa de indivíduos que ela mesma desmembrou de outros coletivos
(religiosos ou não, tanto faz). Dá para ver por que os advérbios exclusivamente
ou puramente são estratégicos na caracterização que Weber faz de uma religiöse
Vergemeinschaftung ("comunalização" religiosa), evitando chamá-la de religiöse
Gemeinschaft (comunidade religiosa). Com efeito, se se trata de formar ab ovo
uma comunidade religiosa, isto é, uma comunidade constituída e mantida por
laços especificamente religiosos, então o primeiro passo em regra há de ser
este: dissolver vinculações comunitárias anteriores, sejam elas quais forem,
soltar os indivíduos de suas antigas amarras comunitárias, já sejam estas
religiosas ou de outra ordem. O que Weber nos faz ver é que, de partida, está
deflagrada uma competição dos "novos laços" (que são de fraternidade puramente
religiosa entre "irmãos de fé") com os "antigos laços" (que são de fraternidade
entre irmãos de sangue, de cor, de localidade, de pátria; ou de uma religião
herdada, nativa, agora depreciada). Os vínculos que precisam ser cortados,
incluindo-se aí os simbólicos, são os de pertença para trás, o que leva a uma
atitude iconoclasta; converter-se, afinal, é trocar de religião, e isso às
vezes pede algum iconoclasmo.
A figura da espada, que a fala de Jesus citada por Weber menciona, não poderia
ser mais adequada quando a injunção é mesmo essa de cortar laços aparentemente
tão sólidos e sagrados como os de sangue. Weber vê nesse lance uma luta, luta
cultural desde logo, do sagrado contra o sagrado28. Destroçar o sagrado herdado
é básico, no sentido atual da expressão "é básico". Diferentemente pois da
religião totêmica à Durkheim, ei-nos diante da religião congregacional à Weber,
que funciona em primeiro lugar, estamos vendo, como solvente. Isso porque e
neste momento lanço mão até de Parsons em meu apoio, quando sintetiza nos
seguintes termos sua leitura da sociologia da religião de Max Weber "o
interesse principal de Weber está na religião como uma fonte de dinâmica da
mudança social, não na religião como um reforço da estabilidade das
sociedades"29. "Mais direto impossível", como gosta de dizer o macaco Simão na
Folha de S. Paulo.
O que uma religião universal visa e quer é o indivíduo, e para isso os produz,
produz indivíduos. O indivíduo destituído de laços é a unidade simples que lhe
interessa coletar (re-legere), coisa que vai fazer interpelando-o diretamente
na segunda pessoa do singular. Não apessoa enquanto cortejo pulsante de
relações já prontas, feixe complexo de posições sociais com suas injunções
convencionais, parte integrante de uma unidade coletiva integral, holística,
não a pessoa, mas o indivíduo como unidade. Espero com isso tornar claro de uma
vez por todas que, quando em Weber se diz religião "de religiosidade
congregacional" está-se dizendo o mesmo que religião "de conversão individual".
Essa preciosíssima noção weberiana (tão sociológica conquanto inteiramente
antípoda à visada durkheimiana) que exatamente por se mostrar assim tão
certeira como prognóstico dos desenvolvimentos futuros que se efetivariam na
predominância crescente dessa forma de religião no decorrer da modernidade, tão
realista avant la lettre na captação sagaz da capacidade corrosiva de que é
capaz uma religião quando moderna, tão auto-evidente em sua validade heurística
nem bem lhe ouvimos o estalo com o mínimo de atenção ou de interesse
intelectual não pode, acho eu, continuar sendo ignorada por cientistas
sociais brasileiros que se dedicam por vocação científica ao estudo
cientificamente sociológico das religiões em nosso país. Em sua radicalidade já
de berço, vejo essa idéia como absolutamente estratégica e indispensável se
quisermos abordar de um bom ângulo de visão o tipo-matriz de religiosidade que
hoje em dia permeia, moderníssimo e pós-moderno, os mais importantes surtos de
crescimento confessional congregacional no agitado campo religioso do Brasil e
de todos os outros países da América Latina.
A religião que interessa à sociologia da religião weberiana não é aquela que
antes de mais nada celebra uma comunidade já dada ou vigente. Para começo de
conversa, a instância religiosa elementar que lhe interessa é a da religião que
cria, a do carisma (pessoal ou institucional) que inventa ex nihilo comunidades
sempre novas, mesmo que ao preço de ter que cortar outras relações,
desarrumando de algum modo a continuidade da antiga geografia das comunidades
já constituídas. Com isso, está claro que, mesmo sem referência explícita, ele
coloca sua sociologia da religião na contramão da de Durkheim.
Pois a religião, assim falou Durkheim, "é antes de tudo um sistema de noções
por meio das quais os indivíduos se representam a sociedade da qual são
membros"30. Notar bem: Durkheim escreve com todas as letras, sem deixar margem
a dúvidas: "la société dont ils sont membres".
Basta abrir de novo o estudo sistemático que Weber dedica à "Sociologia da
religião", e esse é o título do capítulo V da parte I de Economia e sociedade,
para ver que seu subtítulo se esmera na explicitação literal do objeto formal
do que deve ser uma sociologia específica da religião, e não uma sociologia da
sociedade como religião. É difícil configurar em nossa língua portuguesa um
termo suficientemente processual e suficientemente sintético como religiöse
Vergemeinschaftung ("comunalização" religiosa) para nomear sociologicamente o
processo de construção de comunidades religiosas novas com finalidades e
motivos puramente religiosos. Para Weber, o mais relevante não é,
diferentemente do que faz Durkheim, associar a idéia de religião a
coletividades já constituídas a celebrarem com entusiasmos rituais totais,
arrebatadores e extracotidianos, a força supra-individual consagradora de uma
coesão vital adscrita, que, por isso mesmo, só pode ser genericamente religiosa
porquanto social, e não, nem nunca, como propõe Weber movido por uma exigência
lógica de cientificidade conceitual, especificamente religiosa.
A conversão religiosa individual como ruptura individualizante de laços outrora
consolidados é o próprio avesso daquela religião que tanto impactou Durkheim na
fase final de sua produção sociológica, a saber: uma religião que consagra
ritualmente e, nisso, re-atualiza psicologicamente a antiga coesão de um grupo
humano dado.
Sei que para melhor explorar esse efeito de contraste entre os dois clássicos,
eu deveria vasculhar um pouco mais o universo conceitual durkheimiano (para
além, ressalto, de seu universo mental, em demasia seduzido pelo dinamismo
socialmente coesor da religião tribal ou nacional), mas o tempo que tenho aqui
não me permite uma lavragem desse porte. Devo contentar-me, por ora, em apontar
mais uma vez que o contraste existe e que, mormente nesse particular, é muito
forte. Mas não sem antes trazer em meu apoio duas críticas bastante judiciosas
dirigidas a Durkheim por cientistas sociais respeitabilíssimos, cada qual
atacando um flanco de sua concepção oversocialized (remember Dennis Wrong) de
religião.
Uma primeira crítica, mais antiga, vem de Raymond Aron (1967), que em passagem
algo malvada de seu muito lido compêndio sobre As etapas do pensamento
sociológico, legou-nos o seguinte a propósito de Durkheim:
Durkheim diz que a sociedade é criadora de religião quando está em
efervescência.[...]Os indivíduos são postos num estado psíquico tal,
que sentem forças impessoais ao mesmo tempo imanentes e
transcendentes, e uma explicação da religião como essa embute uma
explicação causal segundo a qual a efervescência social é favorável
ao surgimento da religião.[...]Ora, a partir do momento em que o
culto é dirigido à sociedade, não existem senão religiões tribais ou
nacionais. Com isso, a essência da religião seria a de inspirar aos
homens um apego fanático a grupos parciais e a de consagrar a um só
tempo o apego de cada um a uma coletividade e a hostilidade a outras.
Definitivamente, parece-me inconcebível definir a essência da
religião pela adoração que o indivíduo devota ao grupo, porquanto,
pelo menos aos meus olhos, a adoração de uma ordem social seria
precisamente a essência da impiedade. Afirmar que os sentimentos
religiosos têm por objeto a sociedade transfigurada não é salvar, é
degradar essa experiência humana da qual a sociologia[da
religião]pretende dar conta.31
A outra crítica, recentíssima, vem de Clifford Geertz, em texto que deveria ser
apresentado no colóquio Les Sciences Sociales en Mutation, programado para este
ano em Paris pelo Centre d'Analyse et d'Intervention Sociologiques (Cadis) em
parceria com o Le Monde. A certa altura do breve texto, que leva o título "La
religion, sujet d'avenir", o insuspeito Geertz traz à baila o nome de Durkheim
apenas para apontar o descompasso de sua concepção de religião com os
liqüescentes tempos atuais:
Ainda que muitas vezes tenha sido, historicamente, a estrutura
cultural mais enraizada na localidade de origem e a mais marcada, em
sua expressão, pelas condições locais, a religião tornou-se cada vez
mais torna-se cada vez mais um objeto flutuante, desprovido de
toda ancoragem social em uma tradição pregnante ou em instituições
estabelecidas. Em lugar e no lugar da comunidade solidária agregada
por representações coletivas (o sonho de Durkheim), apareceu a rede
simmeliana, difusa e privada de centro, conectada por afiliações
genéricas, multidirecional e abstrata. A religião não se enfraqueceu
enquanto força social, pelo contrário. Parece ter-se reforçado no
período recente, só que mudou e muda cada vez mais de forma.32
Aproveitando essa esteira assim sumária em que Geertz estende seu adeus à
religião à la Durkheim, modestamente eu acrescentaria que, pelo menos no Brasil
atual, um dos aspectos mais salientes da "força social" que ainda tem a
religião (não toda e qualquer religião, notar bem, mas sim um tipo determinado
de religião) está justamente nessa sua capacidade estatisticamente comprovada
de dissolver antigas pertenças e dilapidar linhagens religiosas estabelecidas.
Bye-bye, Brasil!
AMARRA FINAL
De tanto pensar nos números falantes da conversão religiosa tal como
escrutinada pelos censos brasileiros e outras pesquisas quantitativas, de
repente me ocorreu vejam vocês as voltas que o mundo dá dar uma nova
espiada na famosa tese que Althusser formulou quanto ao funcionamento da
ideologia em seu famoso ensaio de 1970, "A ideologia e os aparelhos ideológicos
do Estado": "A ideologia interpela os indivíduos como sujeitos".
Inesperadamente convidativa, a tese althusseriana sobre a ideologia teve o
efeito imediato de me predispor a confabular comigo mesmo à cata de uma
formulação similar que descrevesse o modus operandi nada durkheimiano de uma
forma religiosa que pudesse ser considerada como a forma elementar da
modernidade religiosa, noutras palavras, como antecipação milenar, ainda que só
seminal, do espírito da modernidade em religião. Bastou trocar de posição o
termo "indivíduos", de ponto de partida na tese althusseriana para ponto de
chegada na minha, para chegar à seguinte formulação, em eco:
"A religião universal interpela as pessoas como indivíduos."
(Enunciado 2)
Quer dizer, assim como a ideologia em geral, ela exige de si endereçar-se ao
indivíduo ("ei, você!"), não ao grupo como um todo. Tampouco ao membro do
grupo, pelo contrário, pois fabrica, do membro do grupo, um indivíduo. Que
agora sai, por religião, da religião em que nasceu para fazer parte de uma
outra, na qual o valor dos laços não falará mais de herança, linhagem,
procedência, e a salvação que ela oferece não é mais a redenção de uma
coletividade de uma situação de peste, guerra ou falta d'água, mas a libertação
do indivíduo, como indivíduo, de um status quo grupal.
A religião universal de salvação individual, forma religiosa que no
desenvolvimento geral da cultura tende a predominar sobre as demais, funciona
como um dispositivo de Vergemeinchaftung, de comunidade in fieri, que
entretanto e para tanto des-liga as pessoas de sua cultura-mãe, de um contexto
cultural que antes lhes parecia natural e, portanto, congenial. Destribaliza o
índio e des-territorializa (melhor: des-localiza) o vizinho, fazendo do
estranho o verdadeiro próximo, o verdadeiro irmão num laço de fé outro que o
protende e projeta numa outra relação com a temporalidade de seus laços
sociais, que remove o mais próximo para o passado enquanto projeta no estranho
o doravante-próximo.
Depois de escarafunchar a obra de Weber em busca de uma chave teórica para
desenvolver meu insight berlinense, acabei encontrando em outro clássico
alemão, Georg Simmel, uma outra chave para dissolver notem que evito aqui o
verbo resolver o enigma durkheimiano da religião como religação dinamogênica
do indivíduo com a sociedade a que pertence. A chave, se não abre todas as
portas, abre ao menos uma janela bem grande para a idéia de modernidade
religiosa. É que, segundo Simmel, a ligação que a religião representa e
reapresenta não é com a sociedade, écom a espécie, horizonte universalíssimo
que a idéia particularista de uma sociedade "da qual somos membros", algo assim
como "o nosso grupo", não dá conta. Ouçamos Simmel, então, para encerrar:
É o caso de considerar o sentimento de dependência que tem sido
encarado como a essência de toda religião. O indivíduo se sente
ligado a um universal, a algo superior, do qual ele veio e para o
qual há de retornar, do qual ele difere e ao qual, não obstante, é
idêntico. Todas essas emoções, que convergem como que para um ponto
focal na idéia de Deus, remetem à relação que o indivíduo mantém com
a espécie.
33
Com a espécie humana, entendeu Simmel. Com a humanidade, e não com a sociedade-
tribo ou sociedade-nação "da qual se é membro", como pensava Durkheim.
Quer um solvente cultural universal? Pegue uma religião de tipo soteriológico
congregacional, receita Weber. "Pegue e pague", hão de acrescentar nossos
neopentecostais.
[1] Aula ministrada como prova de erudição no concurso para Professor Titular
em Sociologia da Religião do Departamento de Sociologia da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em 20 de abril de 2006.
[2] Na terminologia de Weber, religiöse Entwicklung, cf. WEBER, Max. "Die
Wirtschaftsethik der Weltreligionen: Einleitung'". In: WEBER, M. Gesalmmelte
Aufsåtze zur Religionssoziologie, I (GARS I). Tübingen: Mohr, 1988 [1920], p.
245.
[3] Prandi, Reginaldo. "O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado
religioso". Estudos Avançados, nº 52, vol. 18, set.-dez. 2004, p. 226.
[4] Umbanda, uma religião brasileira (São Paulo: CER-FFLCH/USP, 1987 [col.
Religião e Sociedade Brasileira, vol. 4]) é o título de um célebre trabalho da
antropóloga paulista Maria Helena Villas Boas Concone.
[5] Pierucci, Flávio. "Bye, bye, Brasil': O declínio das religiões
tradicionais no Censo 2000". Estudos Avançados, nº 52, vol. 18, set.-dez. 2004,
pp. 17-28.
[6] Mauss, Marcel. Sociologie et anthropologie. Paris: PUF, 1950, p. 335 [Trad.
bras. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 371.]
2003: 371.
[7] O mais intrigante é que dados de confissão religiosa registrados pelo censo
demográficos são dados coletados por autodeclaração, o que significa que a
perda de adeptos pela umbanda é uma perda de adeptos declarados apesar da
atmosfera político-cultural de liberdade religiosa crescente no mesmo período
de vinte anos. Tamanha liberalização político-religiosa deveria supostamente
fazer bem às diferentes religiões, não o contrário. Não obstante, o número de
brasileiros que se confessam religiosamente afro-brasileiros diante do
recenseador do IBGE é decrescente.
[8] Camargo, Candido Procopio F. de et al. Católicos, protestantes, espíritas.
Petrópolis: Vozes, 1973, p. 23, grifo meu.
[9] Hervieu-Léger, Danièle. Le pélerin et le converti: La religion en
mouvement. Paris: Flammarion, 1999.
[10] Totalmente dispensável, por conseguinte, é o alerta que Candido Procopio
faz ao precisar, por excesso de cautela empírica e modéstia teórica, que "a
aplicação concreta desse critério de distinção só é significativo no contexto
sócio-cultural brasileiro" (Camargo, C. P. F., op. cit). Não deixa de ser
curioso que, ao fazer tal ressalva, ele tinha em mente o caso do budismo "no
Brasil", religião universal que nos anos 1960 ainda era, entre nós, uma
"religião de imigração", noutras palavras, uma religião fechada, particular,
restrita a colonos japoneses e seus primeiros descendentes. "O budismo
constitui, no Brasil, expressivo exemplo do modo pelo qual uma grande religião
universal seleciona funções de preservar o patrimônio étnico-cultural dos
imigrantes japoneses e seus descendentes" (Idem, p. 23).
[11] Idem.
[12] Idem, p. 22.
[13] Cf. Prandi, R. "Raça e religião". In: Prandi, R. Herdeiras do axé:
Sociologia das religiões afro-brasileiras. São Paulo: Hucitec, 1996.
[14] The Umbanda is for all of usé o título de uma tese de mestrado defendida
em 1967 na Universidade de Wisconsin pela demógrafa e socióloga paulista Maria
Stella Ferreira Levy.
[15] Prandi, R., op. cit., p. 64.
[16] "O candomblé iorubano ou nagô (com suas variantes rituais, as nações de
queto, efã e mais tarde o nagô pernambucano) e o candomblé angola virão se
instalar em São Paulo não mais como religião de preservação de um patrimônio
cultural do negro, religião étnica, mas sim como religião universal, isto é,
aberta a todos, independente de cor, origem e extração social". Prandi, R. Os
candomblés de São Paulo. São Paulo, Hucitec, 1991, p. 20, grifo meu.
[17] No momento mesmo em que se elaborava essa dupla listagem, seu mentor houve
por bem lembrar, especificamente quanto ao luteranismo, que essa religião havia
cumprido, em solo brasileiro, "funções de preservar o patrimônio étnico-
cultural do contingente alemão e seus descendentes" (Camargo et al, 1973). No
início dos anos 1970, o luteranismo "no Brasil" já havia passado para o rol das
religiões universais.
[18] O universo dessa pesquisa do Datafolha estava constituído pelo eleitorado
brasileiro, não pelo total da população. Não obstante isso, em função do voto
obrigatório e da valorização do título de eleitor em nossa cultura política,
praticamente 90% dos brasileiros para quem o voto é obrigatório ou facultativo
acham-se inscritos no colégio eleitoral. Por conta disso (cf. Berquó, Elza
& Alencastro, Luiz Felipe de. "A emergência do voto negro". Novos Estudos
Cebrap, nº 33, junho 1992, pp. 77-88), a amostra da pesquisa eleitoral que
utilizamos aproxima-se bastante de uma amostra de toda a população jovem e
adulta do país.
[19] O grupo de cor com menos evangélicos é o dos amarelos (8,3%, dos quais
6,3% são de pentecostais e 2,0% de protestantes históricos). Em compensação,
entre eles o segundo maior contingente religioso depois do catolicismo é o de
seguidores de outras religiões (10,0%).
[20] Cf. Bruce, Steve. "Religion, Ethnicity, and Social Change". In: Bruce,
Steve. Religion in the Modern World: From Cathedrals to Cults. Oxford/New York:
Oxford University Press, 1996, pp. 96-128.
[21] Cf. Weber, Max. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo. Trad.
José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, pp. 230-
231 (Edição Antônio Flávio Pierucci).
[22] Weber, Max. "Zwischenbetrachtung [Consideração intermediária]: Theorie der
Stufen und Richtungen religiöser Weltablehnung". In: Weber, M. Gesammelte
Aufsåtze zur Religionssoziologie, I (GARS I). Tübingen: Mohr, 1988 [1920], pp.
536-573. [ Trad. bras.: "Rejeições religiosas do mundo e suas
direções". In: Weber, M. Max Weber: Textos selecionados. São Paulo: Abril
Cultural, 1980, pp. 237-268 (Coleção Os pensadores)].
[23] Weber, Max. "Religionssoziologie". In: Weber, M. Wirtschaft und
Gesellschaft. Tübingen: Mohr, 1985 [1922], p. 350. [Trad. bras.: "Sociologia da
religião". In: Weber, M. Economia e sociedade. vol. I. Brasília: Editora da
UnB, 1991, p. 386.]
[24] Introduzo aqui no título do clássico durkheimiano o adjetivo nova,
inspirando-me descaradamente no título de um livro de Roy Wallis, que,
justamente no estudo assim evocado, procurava destrinchar a questão da
conversão aos Novos Movimentos Religiosos, examinando-a à luz de uma nova
categoria criada por ele e Steve Bruce, a saber: a "disponibilidade estrutural"
[structural availability] do convertido (cf. Wallis, R. Elementary Forms of the
New Religious Life. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1984).
[25] Tradução: exclusivamente religioso (Weber, M. "Religionssoziologie", p.
276).
[26] Turner, Bryan S. Max Weber: From History to Modernity. Londres & New
York: Routledge, 1992, p. 34.
[27] Cf. o glossário da nova edição de A ética protestante e o "espírito" do
capitalismo, onde se pode ler: "À palavra seita se atribui dupla origem
etimológica: os verbos latinos sequi seguir, ir atrás de, obedecer', e secare
cortar, separar cortando, dividir'. Mediante processo seletivo altamente
excludente, a seita separa, desencaixa os indivíduos de suas comunidades
naturais, das redes sociais e valorativas de sua existência prévia e os
mergulha num novo contexto grupal que demanda de cada membro adesão total e
controle sobre os demais" (2004, pp. 289-290).
[28] O que há de mais sagrado que o sangue humano? Não é assim que o mostra
também Durkheim?
[29] Parsons, Talcott. "Introduction to Max Weber". In: Weber, Max. The
Sociology of Religion. Londres: Methuen, 1965, p. xxx.
[30] Durkheim, E.. Les formes élémentaires de la vie religieuse. Paris,
Quadrige/PUF, 1998.
[31] Aron, Raymond. Les Etapes de la pensée sociologique. Paris: Gallimard,
1967, p. 361.
[32] Geertz, Clifford. "La Religion, sujet d'avenir". Le Monde, 04/05/06.
[33] Simmel, Georg. "A Contribution to the Sociology of Religion". In: Simmel,
G. Essays on Religion. New Haven & Londres: Yale University Press, 1997, p.
115, grifos meus.