Será o neopragmatismo pragmatista? Interpelando Richard Rorty
Após seu período áureo nas primeiras décadas do século XX, quando se irradiou
dos Estados Unidos para a Europa, o pragmatismo foi paulatinamente eclipsado
pela filosofia analítica compreendida aqui num sentido amplo, que abrange
diversos movimentos filosóficos surgidos a partir de Bertrand Russell, como o
positivismo lógico, o atomismo e a filosofia da linguagem. É certo que
determinadas ramificações do pragmatismo ainda desfrutaram de alguma sobrevida,
como foi o caso do interacionismo simbólico, mas o pragmatismo original parece
ter perdido definitivamente seu espaço nos departamentos de filosofia norte-
americanos, inclusive na Escola de Chicago, a partir de onde John Dewey e
seus colegas o apresentaram ao mundo2.
Em 1979, no entanto, Richard Rorty publica Philosophy and the mirror of nature,
livro que constitui um marco, a um só tempo, da desconstrução da filosofia
analítica e do ressurgimento do pragmatismo. Como o próprio autor esclarece na
Introdução da obra, tratava-se ali de
enfraquecer a confiança do leitor na "mente" como algo sobre o que as
pessoas deveriam ter uma visão "filosófica", no "conhecimento" como
algo sobre o que deveria haver uma "teoria", ou que deveria possuir
fundações, e na "filosofia" tal como ela vem sendo concebida desde
Kant.
Rorty desejava solapar a corrente filosófica que por tanto tempo se fizera
hegemônica, esperando
convencer o leitor de que a dialética no interior da filosofia
analítica, a qual havia carregado em si a filosofia da mente [...] e
a filosofia da ciência [...], precisa ser conduzida alguns passos
adiante. Esses passos irão, acredito, nos colocar em posição de
criticar a própria noção de "filosofia analítica" e, naturalmente, a
noção de "filosofia"3.
Embora o livro atacasse com veemência a filosofia analítica e sinalizasse a
necessidade de um novo paradigma o pragmatismo , este só seria efetivamente
delineado a partir das obras subseqüentes de Rorty, nas quais ele se engajaria
simultaneamente no âmbito da literatura, da teoria crítica e do pensamento
político e social a fim de prover uma abordagem definitiva sobre o que seria o
seu próprio pragmatismo. Essa empreitada interdisciplinar se justificava na
crença do autor de que o pragmatismo não deve ser exposto na forma de uma
teoria, quanto menos de um sistema filosófico. Mas foi justamente por meio da
filosofia que essas investidas de Rorty ganharam nome e passaram a ser vistas
como o prenúncio de um novo movimento filosófico: o neopragmatismo. Na verdade,
o próprio Rorty se intitulou como um "neopragmatista", o que constituiu o ponto
de partida para que diversos outros autores não apenas do campo da filosofia
também o fizessem, dando início nas últimas duas décadas, a uma extensa
produção acadêmica e intelectual que pode ser propriamente chamada de
"neopragmatista".
Ocorre porém que entre o pragmatismo de Charles S. Peirce, William James e John
Dewey e o neopragmatismo de Richard Rorty há pelo menos duas importantes
diferenças de perspectiva. Em primeiro lugar, o pragmatismo original4 se mostra
claramente como uma filosofia compatível com o realismo, enquanto o
neopragmatismo rortyano é eminentemente anti-realista. Em segundo lugar, para o
pragmatismo clássico a experiência é um conceito que ultrapassa a esfera da
linguagem, podendo até mesmo atingir formas pré-lingüísticas ou não-
lingüísticas, ao passo que Rorty, ao se engajar na virada lingüística, de fato
opera a substituição de um conceito pelo outro, fazendo a linguagem ocupar no
neopragmatismo a posição que a experiência dantes ocupava no pragmatismo.
A começar por essas duas diferenças basilares, permanece a questão de saber
quão pragmatista é o neopragmatismo rortyano. Em outras palavras: pode-se falar
em univocidade ou linearidade entre os pensamentos de Peirce, James e Dewey, de
um lado, e o de Rorty, de outro? Ou ainda: pode-se se falar em continuidade
entre os elementos que caracterizam o pragmatismo em sua origem (os quais,
conforme mostraremos, são constituídos pelo antifundacionalismo, o
conseqüencialismo e o contextualismo) e o pensamento neopragmatista? O objetivo
deste artigo é caminhar na direção das respostas a essas questões.
REALISMO OU ANTI-REALISMO?
Se há de fato um ponto de tensão entre o pragmatismo e o realismo, tal ponto
diz respeito à teoria da verdade: o pragmatismo de Peirce, James e Dewey
rejeita a noção de verdade como correspondência postulada pelo realismo. Com
efeito, a crítica a essa noção é inerente à concepção de verdade compartilhada
por esses três autores, embora se encontre de forma mais explícita e vigorosa
em Dewey. E se em Peirce o pragmatismo parecia se circunscrever filosoficamente
a uma teoria da significação, em James e Dewey também começa a assumir a forma
de uma teoria da verdade.
Na teoria da significação de Peirce, o pragmatismo tem por função propiciar o
esclarecimento de idéias obscuras, ou que são claras mas difíceis de ser
entendidas. A chave para resolver confusões conceituais consiste no método de
relacionar o significado dos conceitos às suas conseqüências: se o significado
das proposições reside no seu futuro, também os raciocínios devem dirigir-se ao
futuro, pois seu significado se refere à conduta prática e a única conduta
passível de controle é a conduta futura. Na origem dessa concepção
instrumentalista, em que o significado apenas se conhece por meio do propósito
(purpose), certamente há a influência do darwinismo. Para Peirce, a mente
consiste num mecanismo prático, já que é instrumental para a sobrevivência do
homem: assim como o significado se adapta ao seu propósito, o sujeito se adapta
ao seu fim e a mente lhe serve como um mecanismo adaptativo para enfrentar o
ambiente externo.
Na concepção de verdade elaborada por James, uma idéia é verdadeira na medida
em que acreditar nela é proveitoso para a vida de uma pessoa. Nessa concepção
instrumental, a verdade é uma espécie de bem em si e não meramente uma
categoria correlata ou mesmo distinta dele: "a verdade é o nome de tudo o que
prove ser bom em matéria de crença". Não é possível separar o que é melhor para
as pessoas daquilo que é verdadeiro para elas, de modo que a verdade pode ser
definida como "o que é melhor para acreditarmos"5. Conseqüentemente, o teste da
verdade consiste em encontrar aquilo que melhor nos direciona a vida, no
sentido de adaptar continuamente nossa experiência.
Assim, a questão que o pragmatismo de Peirce e de James se coloca é se os
acréscimos de experiências que fazemos àquelas já existentes aumentam ou não o
valor de nossa experiência geral. Esse tipo de conseqüencialismo é visto por
James como uma espécie de criatividade inerente ao pragmatismo. Constituindo-se
como uma filosofia eminentemente prospectiva, voltada para o futuro, o
pragmatismo encara não apenas a verdade, mas também a realidade, o mundo, como
algo inteiramente maleável, à espera de receber sua forma final por nossas
próprias mãos. Afinal, quando somos nós mesmos a dar forma à nossa verdade e à
nossa realidade, essa forma sempre nos é benéfica.
Se a teoria da verdade de James o afasta de Peirce ao transgredir os limites da
lógica e da ciência, aproxima-o de Dewey. Este, assim como James, busca
encontrar um terceiro caminho entre a definição de verdade como consistência
(ou acordo) defendida pelo idealismo e a definição de verdade como
correspondência postulada pelo realismo. De acordo com Dewey, tanto os
idealistas quanto os realistas supõem que uma proposição (statement) implica
por natureza uma asserção (assertion) de sua própria verdade. Em contraposição,
o pragmatista afirma que uma proposição, na exata medida em que possui uma
genuína qualidade intelectual, implica uma dúvida e uma investigação quanto à
sua própria verdade. Para Dewey, a proposição que assevera ou assume sua
própria verdade, nos moldes realistas e/ou idealistas, nada mais é que um
dogmatismo absoluto. Se há uma proposição, isso não significa que há uma
verdade nela contida, mas apenas que há razões plausíveis para que dela se
infira a verdade mediante investigações suscitadas pela dúvida e não pela
verdade inerente à proposição6.
Assim, Dewey propõe que o primeiro passo da crítica pragmatista à noção de
verdade do idealismo e do realismo se dirija à idéia de que toda proposição
implica uma asserção de sua própria verdade. Para ele, a proposição é uma
hipótese relativa a algum estado de coisas e é de sua natureza ser duvidosa,
incerta quanto à sua verdade. A assertiva que a proposição faz de sua própria
verdade é condicional, pois consiste meramente num meio de iniciar atividades
de investigação que testarão o valor de sua reivindicação. Assim é que a
verdade somente pode existir mediante o teste da reivindicação e os atos
subseqüentes que ele prescrever. A teoria pragmatista da verdade pretende desse
modo representar fielmente o método da ciência, o qual, de acordo com Dewey,
considera todas as proposições como provisórias ou hipotéticas até que sejam
submetidas a testes experimentais, empenha-se em organizar essas proposições em
termos que indiquem os procedimentos necessários para testá-las e nunca se
esquece que mesmo proposições asseguradas são apenas sumários de investigações
e testes anteriores, de modo que estão sujeitas a revisões que venham a ser
requeridas por novas investigações7.
O segundo passo da crítica ao conceito de verdade realista e/ou idealista
consiste, segundo Dewey, em reconhecer que nele as proposições sempre se
referem a condições antecedentes, enquanto no pragmatismo ganham uma
perspectiva de futuro. Tanto para o realista como para o idealista a verdade é
uma propriedade que já existe previamente nas proposições, tornando-se assim
irrelevante conhecer o que se faz com a proposição, o que deriva do seu uso, as
diferenças que ela acarreta na experiência futura8. Já para Dewey as
proposições têm caráter hipotético e experimental, e por isso são provisórias:
apenas serão verdadeiras se tal for o resultado do processo de investigação que
busca aferir a sua verdade. Em outras palavras, as proposições só podem ser
tidas como verdadeiras se as conseqüências futuras do processo de investigação
de sua verdade assim indicarem.
Para o pragmatismo, enfim, todas as proposições contêm intrínseca e
necessariamente uma referência ao futuro, de modo que sua verdade ou falsidade
depende do sucesso ou do fracasso de sua finalidade. Assim, o maior rompimento
do pragmatismo com o realismo e o idealismo consiste em mostrar que o conceito
de verdade não pode ser dado em si mesmo e tampouco aprioristicamente, isto é,
não pode referir-se a um significado prévio ou antecedente9. No entanto,
Richard Rorty parece ver nesse ponto de tensão concernente à teoria da verdade
um motivo suficiente para afirmar que o pragmatismo é uma filosofia anti-
realista. Ora, se o conceito de verdade do pragmatismo difere daquele do
realismo, isso não quer dizer que a teoria pragmatista como um todo seja anti-
realista.
Com efeito, o que nos parece é que Rorty se escora nesse argumento a fim de
sustentar que a sua própria teoria caracteristicamente anti-realista é
pragmatista. Em outras palavras, ele quer fazer de sua diferença com o
pragmatismo original justamente o motivo de uma semelhança e portanto de uma
razão para que seus pensamentos possam ser abrigados sob o mesmo nome. Ocorre
porém que o único ponto de contraste entre o pragmatismo de Peirce, James e
Dewey e o realismo se dá em torno do conceito de verdade, e isso não pode ser
razão suficiente para se afirmar que o pragmatismo é uma filosofia anti-
realista, pois não o é. No entanto, a insistência de Rorty em afirmar que o
pragmatismo original é anti-realista e ao mesmo tempo situá-lo na base de sua
própria filosofia parece ser suficiente para que possamos acreditar que apenas
o neopragmatismo que ele representa, esse sim, é anti-realista.
Outro ponto importante a destacar e esclarecer no quadro dessa discussão é
que para chegar à conclusão de que o pragmatismo é anti-realista Rorty se
baseia numa classificação, que ele mesmo propõe, de autores que supostamente
seriam realistas e conseqüentemente críticos do pragmatismo. De acordo ele,
haveria dois tipos de realismo: o realismo técnico, representado principalmente
por Saul Kripke e Michael Dummett, e o realismo intuitivo, representado
sobretudo por Stanley Cavell e Thomas Nagel10. Ora, esses autores são todos
posteriores a Peirce, James e Dewey, o que torna o argumento de Rorty, no
mínimo, um tanto forçado.
É evidente pois que o tipo de realismo no qual Rorty se estriba para afirmar
que o pragmatismo é anti-realista não é o mesmo com que os três primeiros
pragmatistas se identificavam (por exemplo, o realismo escolástico no caso de
Peirce e o realismo direto no caso de James)11, não obstante as divergências em
torno do conceito de verdade12. Em suma, parece-nos que tão-somente o
neopragmatismo de Richard Rorty à diferença daquele de Hilary Putnam, por
exemplo pode ser considerado caracteristicamente anti-realista.
EXPERIÊNCIA OU LINGUAGEM?
A segunda variação relevante entre o pragmatismo original e a sua nova versão
se dá em torno da idéia de linguagem. O neopragmatismo de Rorty de certa forma
substitui o conceito pragmatista de experiência pelo de linguagem, ou realça
este em detrimento daquele. Isso talvez se explique pelo fato de que Rorty é
influenciado pelo pragmatismo na mesma proporção em que o é por Wittgenstein, e
como muitos filósofos de seu tempo não teria conseguido escapar à chamada
"virada lingüística".
O pragmatismo de Peirce, James e Dewey chama de "experiência" o corpo de
crenças presentes na cultura de uma sociedade e as relações que este mantém com
as instituições e práticas sociais. Sendo a crença aquilo que prepara um homem
para agir, ela não é um modo transitório da consciência, mas um hábito mental
duradouro e inconsciente. Ao passo que a crença consiste no estabelecimento de
um hábito, a dúvida é uma privação do mesmo. No embate entre crenças e dúvidas
tem lugar aquilo que o pragmatismo chama de "investigação": a investigação visa
fazer cessar o estado de dúvida e instalar a crença, ou seja, estabelecer uma
opinião. Essa é a essência do conceito pragmatista de comunidade lingüística ou
semiótica, a "comunidade de investigação". A investigação é sempre comunitária,
pois no final do processo investigativo as crenças e opiniões individuais
necessariamente convergirão para as crenças e opiniões gerais da comunidade.
O conceito pragmatista de comunicação se desdobra justamente em função dessa
idéia de comunidade de investigação. O problema é que tal idéia não pode
sobreviver ilesa à chamada "virada lingüística", pois com esta a experiência é
substituída pela linguagem. Ora, se a experiência é o nome que recebe o
conjunto de crenças de uma comunidade, e se é justamente o embate entre essas
crenças que dá origem à investigação, como garantir que um processo
comunicativo baseado puramente na linguagem seja responsável pelo
estabelecimento da opinião de uma comunidade- entendendo-se aqui por
opinião algo bem diferente do consenso que a virada lingüística também logrou
impor em seu lugar?
Para o pragmatismo clássico, especialmente para Peirce, a comunicação é o
processo pelo qual uma coisa adquire significado, aproximando-se então da
verdade e da realidade. Ademais, é a comunicação que possibilita que o conceito
de comunidade de investigação implique o falibilismo que lhe é característico.
Em outras palavras, é a comunicação que possibilita a perenidade da
investigação, sua incessante manutenção mediante a produção inesgotável de
respostas provisórias que a realimentam ao gerar outras respostas provisórias.
O que permite que essas respostas não sejam avaliadas por seu erro ou acerto, o
que as torna provisórias, é justamente a comunicação; o que permite que as
respostas encontradas no percurso da investigação sejam incessantemente
testadas e possivelmente substituídas por outras é a comunicação.
James confere uma dimensão ainda mais ampla àquilo que Peirce delineou como o
acordo resultante do processo de investigação que leva à definição da realidade
e da verdade. Segundo ele, a própria palavra "acordo" deve ser interpretada
pragmaticamente, de modo que não seja tão essencial na formação do conceito de
verdade. O que é essencial para James é o processo que conduz à realidade e
àquilo que é útil nessa realidade13. Para Peirce, a verdade e a realidade só
podem ser atingidas ao final de um longo processo de investigação, quando as
opiniões de todos os participantes desse processo necessariamente convergem,
como conseqüência natural dele; para James, a realidade e a verdade se
constituem e se reconstituem a todo momento que um novo fato é adicionado à
experiência. Dessa forma, a verdade e a realidade não são para James, como em
Peirce, um resultado final, mas uma espécie de "resultado provisório", que se
encontra em constante mutação14. Assim como os fatos da vida estão em mutação,
a experiência também está: quando os fatos mudam, a experiência de quem os
vivencia também se modifica. E o acréscimo de novos fatos à experiência
preexistente resulta numa mutação daquilo que se entende como verdade. Uma vez
que a verdade simplesmente é, ela constitui a realidade, que por conseguinte
também se caracteriza pela mutabilidade incessante.
Essa noção de mutabilidade tão presente no pragmatismo de James nos remete à
idéia de adaptação ou adequação. Ao entrar em contato com a experiência, o novo
fato se adéqua a ela e forma uma nova versão da verdade, agora adaptada à
mudança que se sucedeu. A essa nova verdade se adapta a realidade e vice-versa.
A mutabilidade latente no pragmatismo sugere um processo de constante
adequação. Daí a afirmação de James de que todas as teorias e concepções nada
mais são que modos mentais de adaptação à realidade15. E é por isso que o
primeiro pragmatismo requer que estejamos o tempo todo atentos aos fatos e à
experiência que eles constituem16.
Ao prosseguir na elaboração da idéia de comunidade de investigação formulada
originalmente por Peirce , Dewey oferece a seguinte definição para esse
conceito: "Investigação é a transformação dirigida e controlada de uma situação
indeterminada em uma outra situação de tal modo determinada em suas distinções
e relações constituintes que converte os elementos da situação original em um
todo unificado"17. De acordo com Dewey, durante o processo de investigação são
sugeridas soluções possíveis pela determinação das condições fáticas que são
asseguradas pela observação. Uma solução possível se apresenta porém na forma
de uma idéia, assim como os fatos que constituem o problema inicial da
investigação são instituídos pela observação. E o que são idéias? São
conseqüências antecipadas, previsões daquilo que ocorrerá quando certas
operações forem executadas sob certas condições. As idéias, bem como os
significados propostos e a observação dos fatos, constituem processos
simultâneos, ou melhor, etapas simultâneas de um mesmo processo. Cada
observação gera uma nova ordem de fatos, que por sua vez sugere uma nova idéia
a ser verificada e assim consecutivamente, até que se constitua uma ordem
unificada e completa18.
Além de implicar o falibilismo do processo investigatório, e justamente por
isso, o conceito pragmatista de comunicação adquire outras duas características
que irão marcá-lo até a "virada lingüística": a responsividade e a
reflexividade. Sabemos que é a comunicação que possibilita que a comunidade de
investigação permanentemente revise e corrija suas respostas provisórias, suas
tentativas de conclusão. Mais do que meramente responsiva, porém, a comunicação
pragmatista é autocorretiva: ela não apenas possibilita a revisão e a correção
daquilo que está em jogo, mas também as sinaliza e executa. O papel da
comunicação na investigação é portanto o de corrigir, possibilitando assim sua
falibilidade e inesgotabilidade. A comunicação não se encontra nos pontos de
partida nem nos pontos de chegada: seu objetivo não é levar à convergência dos
investigadores, já que esta ocorre naturalmente.
É nesse ponto que a teoria da comunicação elaborada por algumas versões
pragmatistas contemporâneas se mostra irreconciliável com os pressupostos do
pragmatismo original acerca da comunicação. Para o pragmatismo, a comunicação é
apenas um meio que propicia algo maior que é a investigação , e não um fim,
seja um fim da ação ou um fim em si mesmo, como sugerem algumas abordagens
contemporâneas. A comunicação pragmatista almeja uma convergência que é a um só
tempo falível e autocorretiva, e não um consenso irrefutável e transcendente.
Além disso, como vimos, o pragmatismo apóia sua noção de investigação
fundamentalmente na idéia de crença, argumentando que as crenças são
constitutivas de uma idéia maior, que é a de experiência justamente a idéia
de experiência que o neopragmatismo vem solapando em nome da linguagem.
Será que a "virada lingüística" impõe substituir a noção de experiência pela de
linguagem? Para Rorty, a resposta a essa pergunta certamente seria positiva. De
acordo com ele, porém, essa mudança paradigmática não deve ser vista como a
vêem os positivistas lógicos, ou seja, como algo que permitiu que questões
kantianas pudessem ser postas sem contrariar a aposta dos teóricos da
psicologia em falar kantianamente de temas como a experiência e a consciência.
Segundo Rorty, isso constituiu apenas o motivo inicial para que se desse a
virada lingüística: seria preciso transcender esse motivo kantiano para assumir
uma atitude naturalista ou comportamental acerca da linguagem. E essa virada
seria facultada à filosofia analítica pelo neopragmatismo19.
De acordo com Rorty, o neopragmatismo busca encontrar meios de colocar questões
antifilosóficas numa linguagem não-filosófica. Nesse sentido, o melhor para a
filosofia seria justamente não praticar filosofia, pois não adianta tentar
dizer algo verdadeiro sobre a verdade, nem agir bem em relação ao Bem, nem ser
racional para pensar sobre a racionalidade. Assim, o neopragmatismo rortyano
assevera que nem a verdade, nem o bem, nem a racionalidade são coisas que
comportem um interesse filosófico suficiente para se teorizar a respeito20. Em
outras palavras, o pragmatismo de Rorty não tem a ambição de ser uma teoria,
mas uma antiteoria ou uma teoria sobre como se fazer teoria.
A pragmatização da filosofia analítica, conforme sustenta Rorty, levou à
compreensão de que são vãs as tentativas de fazer a linguagem se fundar sobre,
se adequar a ou expressar algo previamente determinado. De acordo com ele, a
ubiqüidade da linguagem é uma questão de vê-la se movendo nas lacunas deixadas
pela falência de todos os vários candidatos à posição de "pontos de partida
naturais" do pensamento, os quais se caracterizavam por sua pretensão de
anterioridade e independência em relação ao modo como alguma cultura se
comunica ou se comunicou um dia21.
O antiessencialismo de Rorty o leva a insistir na necessidade de romper a
distinção entre o intrínseco e o extrínseco, de modo que qualquer objeto deve
ser compreendido e descrito a partir de suas relações especialmente com as
necessidades humanas, com a consciência e com a linguagem. Nada pode ser
descrito intrinsecamente, como realmente seria em sua essência ou natureza, mas
apenas relacionalmente; nada pode ser conhecido sobre um objeto a não ser na
rede de relações aberta e infinitamente expansível que ele mantém com outros
objetos e o que intermedeia as relações entre os objetos e as pessoas é
invariavelmente a linguagem. Assim como os objetos não podem ser descritos em
si mesmos, pois não possuem uma natureza intrínseca, também os seres humanos,
segundo Rorty, só podem ser descritos e compreendidos a partir das relações que
estabelecem com as outras pessoas e com os objetos. Mas há uma diferença,
evidentemente muito relevante, na medida em que os seres humanos são únicos em
um aspecto que torna singular o seu padrão de relações: o uso da linguagem.
Para que seu antiessencialismo se sustente, Rorty precisa acreditar na
compreensão da linguagem propiciada pelo darwinismo, ou seja, a linguagem como
provedora de ferramentas para lidar com objetos e não com a representação deles
e como provedora de diferentes conjuntos de ferramentas para lidar com
propósitos distintos. Assim, seria a linguagem afinal, e não a mente ou a
consciência, o aspecto distintivo da espécie humana22. Ora, isso afasta Rorty
irremediavelmente do pragmatismo clássico, já que para Peirce, James e Dewey a
linguagem constitui apenas uma parte de um conjunto muito mais amplo de formas
de experiência, que podem ser até mesmo pré-lingüísticas ou não-lingüísticas23.
ANTIFUNDACIONALISMO, CONTEXTUALISMO E CONSEQÜENCIALISMO
A teoria da significação e a teoria da verdade são os principais eixos
filosóficos a partir dos quais se desenvolve a matriz teórica do pragmatismo
clássico. Conforme argumentamos alhures, essa matriz é caracterizada por três
aspectos: o antifundacionalismo, o contextualismo e o conseqüencialismo24.
O antifundacionalismo consiste numa permanente rejeição de quaisquer entidades
metafísicas, conceitos abstratos, categorias apriorísticas, princípios
perpétuos, instâncias últimas, entes transcendentais, dogmas etc. Trata-se
assim de negar que o pensamento seja passível de fundações estáticas,
perpétuas, imutáveis. O antifundacionalismo pragmatista se exerce também na
recusa à idéia de certeza e aos tradicionais conceitos filosóficos de verdade e
realidade. Apresenta-se ainda sob a forma de uma crítica incessante: não se
trata de uma crítica direcionada a um objeto determinado, mas de um desejo
permanente de crítica, de crítica como método de pensamento.
O conseqüencialismo se pauta pela insistência em olhar para o futuro, e não
para o passado. A referência ao passado não é um dever para o pragmatista: deve
ser feita apenas quando for metodologicamente interessante para o próprio
estabelecimento do futuro. Disso decorre que tanto a teoria da significação
como a teoria da verdade elaboradas pelo pragmatismo se caracterizam pela
permanente aplicação do "teste" conseqüencialista: o significado de uma
proposição, bem como a sua verdade, apenas podem ser conhecidos a partir do
teste de suas conseqüências. É aqui que entra em jogo a famosa questão
pragmatista, aquela que não cessa sua indagação: quais as diferenças que as
conseqüências disto ou daquilo podem acarretar? É portanto antecipando
conseqüências futuras que se produz conhecimento no âmbito do pragmatismo. E
essas conseqüências futuras devem ser permanentemente antecipadas para que se
possa conhecer qual delas é melhor, a mais satisfatória, útil e benéfica.
O contextualismo, por fim, postula que as investigações filosóficas devem estar
atentas ao papel do contexto em seu desenvolvimento, levando em consideração as
crenças políticas, religiosas, científicas, enfim, a cultura de uma sociedade e
as suas relações com as instituições e práticas sociais. A esse corpo de
crenças, como já dissemos, o pragmatismo dá o nome de "experiência", que é um
conceito essencial para a idéia de contexto, podendo-se mesmo dizer que a
experiência é o mais abrangente dos contextos. Ao conceito de experiência
associa-se por sua vez o conceito de prática: a prática que o pragmatismo quer
sobrepor à teoria e que remete diretamente à formulação do conceito pragmatista
de ação. No centro do contextualismo pragmatista está ainda o conceito de
investigação mais especificamente o de "comunidade de investigação" , que
está associado a importantes noções contextualistas, tais como a ênfase nos
fatos (o método pragmatista, experimental em sua essência, se baseia sobretudo
nos fatos inquestionáveis da experiência cotidiana e naquilo que pode ser
deduzido deles), a relevância da concretude, a importância do social (para o
pragmatismo o pensamento está sempre incrustado em um contexto de prática
social), o papel da comunidade e a idéia de adaptação.
Se essas três características conformam a matriz teórica do pragmatismo, cabe
então verificar em que medida se refletem no pensamento de Rorty a fim de que
possamos avaliar a extensão da sua fidelidade aos três fundadores da doutrina
cujo nome ele empresta. Desse modo, examinamos a seguir como o
antifundacionalismo, o conseqüencialismo e o contextualismo se apresentam no
neopragmatismo rortyano.
O antifundacionalismo certamente é a característica do pragmatismo original que
melhor se expressa em Rorty, e isso ocorre particularmente nos desdobramentos
de seu conceito de "cultura pós-filosófica". Sabe-se que para Rorty tudo o que
a filosofia pode ser hoje é uma cultura pós-filosófica, na qual os pontos de
partida são substituídos por "resting-places" construídos para atender a fins
utilitários específicos. Assim, os critérios seriam constituídos como tais
porque alguma prática social particular necessita obstruir a estrada da
investigação, fazer parar a regressão de interpretações a fim de que se obtenha
alguma realização. Desse modo, a argumentação rigorosa de "stopping-places", a
prática que se torna possível pelo acordo em torno de critérios, não seria mais
desejável do que o é obstruir a estrada da investigação25.
O pragmatismo de Rorty enfatiza que não há nada sob nós que não tenha sido ali
colocado pelas nossas próprias mãos:
não existem critérios que não tenham sido criados no curso de criação
de uma prática; não existem padrões de racionalidade que não
constituam um apelo a um tal critério; não existe uma argumentação
rigorosa que não se traduza em obediência às nossas próprias
convicções26.
A cultura pós-filosófica marca a finitude dos homens e a sua imanência: a
ausência de liames com o transcendente, com tudo aquilo que está além da
experiência cotidiana, das práticas sociais. De acordo com Rorty, o positivismo
ficou a meio-caminho no desenvolvimento de uma tal cultura ao buscar uma
filosofia sem Deus. O erro que impediu que os positivistas atingissem o estágio
final dessa empreitada foi colocar no lugar de Deus a ciência. Já o
pragmatismo, ao contrário, não erigiu a ciência como um ídolo a preencher o
lugar outrora ocupado por Deus na história da filosofia. Para o neopragmatismo
rortyano a ciência é um gênero literário, ao passo que a literatura e as artes
não são campos menos investigativos que o da ciência; a ética tampouco seria
mais subjetiva ou relativa que a teoria científica, nem necessitaria ser mais
científica em si.
A melhor amostra do antifundacionalismo de Rorty talvez esteja em seu livro
Philosophy and social hope, em que ele reúne o substrato de suas inovações
teóricas perante o pragmatismo original e estabelece os marcos que distinguem
seu pensamento da filosofia em geral27. Esses marcos distintivos podem ser
enumerados da seguinte forma: rejeição da distinção de origem grega entre o
modo como as coisas são em si mesmas e as relações que elas possuem com outras
coisas, em particular as necessidades e os interesses humanos; rejeição do
projeto filosófico tradicional de encontrar algo estável que sirva de critério
para julgar os produtos transitórios dos interesses e das necessidades humanas,
também transitórias; rejeição do platonismo; rejeição da metafísica
tradicional; rejeição da filosofia kantiana; rejeição dos dualismos
filosóficos, tais como absoluto/relativo, encontrado/produzido, sujeito/objeto,
natureza/convenção, realidade/aparência.
De acordo com Rorty, quando os dualismos platônicos forem finalmente superados
a distinção tradicional entre a filosofia e o resto da cultura perderá sentido.
Ressalte-se que a quebra de fronteiras entre as disciplinas é um traço do
antifundacionalismo rortyano que encontra ressonância nos primeiros
pragmatistas. À diferença destes, porém, o neopragmatismo não faz uma distinção
nítida entre as ciências naturais e as ciências sociais, entre a ciência social
e a política ou entre a política, a filosofia e a literatura afinal, todas as
áreas da "cultura pós-filosófica" fariam parte de um mesmo esforço por uma vida
melhor.
No que concerne ao conseqüencialismo, as relações entre Rorty e o pragmatismo
original são mais complexas. Enquanto o pragmatismo de Peirce, James e Dewey é
primordialmente conseqüencialista e subsidiariamente instrumentalista, o
neopragmatismo de Rorty é primordialmente instrumentalista e apenas
subsidiariamente conseqüencialista. Embora os termos "conseqüencialismo" e
"instrumentalismo" sejam normalmente empregados como sinônimos, insistimos em
demarcar essa tênue distinção em virtude do fato de que na versão de Rorty a
idéia de conseqüência do pragmatismo se dilui a ponto de quase se perder. O
famoso teste pragmatista, por exemplo a questão de conhecer os significados,
as teorias e a verdade pelo teste de suas conseqüências , não se coloca para
Rorty como se apresenta em Peirce, James e Dewey. Por outro lado, o recurso ao
futuro é tão presente em Rorty quanto nos pragmatistas clássicos, remetendo
àquilo que Rorty denomina "apoteose do futuro"28.
Um outro aspecto que faz Rorty parecer mais instrumentalista do que
propriamente conseqüencialista é o adoção de um tom mais próximo do
utilitarismo do que aquele adotado pelo pragmatismo clássico. A noção de
utilidade ganha mais visibilidade em Rorty do que em seus predecessores, assim
como a noção de felicidade humana. De acordo com Rorty, o neopragmatismo visa
substituir as noções filosóficas tradicionais de realidade, razão e natureza
pela noção de futuro, mais especificamente a noção de um futuro humano melhor.
A relação de Rorty com os pragmatistas clássicos também se afigura bastante
complexa no que diz respeito ao contextualismo. Por um lado, como já afirmamos,
a noção de experiência, que define prioritariamente a idéia de contexto no
pragmatismo clássico, é mitigada por Rorty em favor do conceito de linguagem.
Além disso, o conceito de contexto do primeiro pragmatismo parece ser em certa
medida substituído pelo conceito rortyano de "cultura pós-filosófica". Por
outro lado, é preciso considerar a persistência em Rorty do conceito de
investigação e da teoria da verdade do primeiro pragmatismo.
Apesar de tomar a teoria da verdade do pragmatismo clássico como motivo
suficiente para caracterizá-lo como uma filosofia anti-realista, Rorty
apresenta uma concepção de verdade de certa forma semelhante àquela elaborada
no começo do século XX pelos fundadores do pragmatismo. Nesse sentido, afirma
que a verdade não pode ser buscada em si mesma, não pode constituir-se no
objetivo da investigação. Contudo, há uma variação no que diz respeito a esse
objetivo. Para Rorty, trata-se de lograr um consenso acerca dos fins a serem
alcançados e dos meios a serem utilizados para alcançar tais fins. Em outras
palavras, o objetivo da investigação se pautaria pela utilidade, considerando-
se que há tantos propósitos a serem perseguidos quanto meios para obtê-los29.
Já no âmbito do pragmatismo original, como já apontamos, não há que se falar em
consenso, mas em convergência, e nem tanto em utilidade, mas em conseqüências
melhores. Mas Rorty enfatiza assim como Pierce que a principal questão colocada
ao processo de investigação é descobrir como os meios disponíveis devem ser
utilizados de modo a se obter progresso, seja este tecnológico ou político30.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É indubitável a crucial importância do papel desempenhado por Richard Rorty no
processo de resgate do pensamento pragmatista levado a cabo nas duas últimas
décadas do século XX. Sua liderança vem sendo vital no contexto do surgimento e
encorajamento do movimento neopragmatista e dos novos autores que o constituem.
Do mesmo modo, ele ocupa posição central no desenvolvimento de novas aplicações
do método pragmatista, e não apenas no âmbito da filosofia, mas também em
várias outras áreas do pensamento. Pode-se dizer que Rorty é um pragmatista
justamente nesse sentido no sentido de revitalizar o estudo do pragmatismo e
"pragmatizar" suas aplicações. Mas apenas nesse sentido.
No sentido de estabelecer uma continuidade do pragmatismo com base nos três
elementos que o caracterizam em sua origem o antifundacionalismo, o
conseqüencialismo e o contextualismo , Rorty não pode ser considerado de fato
um pragmatista. Como vimos, isso se faz perceber particularmente na exacerbação
de seu antifundacionalismo em detrimento das duas outras características que
definem o pragmatismo clássico. Exemplos concretos disso são a substituição da
idéia de experiência pela de linguagem e a formulação de uma abordagem anti-
realista que nega uma importante faceta do pragmatismo original.
Na verdade, o próprio Rorty afirma que a sua nova versão do pragmatismo não tem
a pretensão de ser estritamente fiel aos pensamentos de Peirce, James e Dewey
sobretudo os de Peirce, que ele raramente menciona de forma direta. Assim,
talvez não seja exagerado afirmar que a sua filosofia (ou antifilosofia, como
ele mesmo parece preferir) se apresenta simplesmente como uma reformulação
idiossincrática de alguns dos temas levantados no começo do século XX por James
e Dewey, de modo que Rorty seria menos um pragmatista que um pós-modernista31.
[1] Gostaria de agradecer ao parecerista anônimo de Novos Estudos as valiosas
contribuições à elaboração da versão final do artigo.
[2] Há porém quem sustente que, além do interacionismo simbólico, a filosofia
da linguagem apresenta traços da subsistência do pragmatismo, o qual muitas
vezes é associado a nomes como Wittgenstein, Searle e Austin.
[3] Rorty, Richard. Philosophy and the mirror of nature. Princeton: Princeton
University Press, 1979, pp. 7-8.
[4] Ao fazer referência ao pragmatismo de Peirce, James e Dewey, usaremos aqui
as nomenclaturas "pragmatismo original", "pragmatismo clássico" ou "primeiro
pragmatismo".
[5] James, William. "What Pragmatism means". In: Pragmatism and other writings.
Ed. por Giles Gunn. Nova York: Penguin Books, 2000.
[6] Dewey, John. "The problem of truth". In: The essential Dewey, vol. II:
Ethics, logic, psychology. Ed. por Larry Hickman e Thomas Alexander.
Bloomington: Indiana University Press, 1998, pp. 113-14.
[7] Ibidem, p. 114.
[8] Ibidem, p. 114.
[9] Cf. ibidem, p. 118.
[10] Rorty, Richard. Consequences of Pragmatism. Minneapolis: University of
Minnesota Press, 1982, pp. xxii ss.
[11] É ilustrativo dessa nossa afirmação que o Cambridge Dictionary of
Philosophy enumere onze tipos de realismo, cada qual associado a diferentes
autores e épocas históricas, e que Hilary Putnam (Pragmatism: an open question.
Oxford, UK/Cambridge, MA: Blackwell, 1995, cap. 1) afirme que James foi o
primeiro autor a enunciar publicamente o realismo direto na história da
filosofia.
[12] Rorty crê que a questão principal entre realistas e pragmatistas se dá em
torno do conceito de intuição (cf. ibidem, pp. xxix-xxxvii), mas uma exposição
aprofundada desse tópico excederia o escopo deste artigo.
[13] James, William. "Pragmatism's conception of truth". In: Pragmatism and
other writings, op. cit., pp. 94-95.
[14] Ibidem, p. 99.
[15] James, Willian. "Pragmatism and commom sense". In:Pragmatism and other
writings, op. cit., p.86.
[16] Ibidem, p. 74.
[17] Dewey, John. "The pattern of inquiry". In: The essential Dewey, op. cit.,
vol. II, p. 171.
[18] Ibidem, pp. 173-76
[19] Rorty, Consequence of Pagmatism, op. cit., p. xxi.
[20] Ibidem, pp. xiii-xv.
[21] Ibidem, p. xx.
[22] Rorty, Richard. Philosophy and social hope. Londres: Penguin Books, 1999,
pp. 63-65 e 68.
[23] Vale acrescentar que o neopragmatismo apresenta uma outra distinção
importante em relação ao pragmatismo original. Trata-se da redução da
importância daquilo que os pragmatistas chamavam de "método científico", o qual
aumentaria a possibilidade de se constatar a verdade de uma crença. Isso levou
Howard Mounce (The two pragmatisms. Londres: Routledge, 1997) a sustentar a
existência de dois tipos distintos de pragmatismo não como fazemos aqui em
relação ao pragmatismo clássico e ao neopragmatismo, na esteira da imensa
maioria da literatura sobre o tema -, que teriam sua linha divisória
demarcada a partir de Peirce. Segundo Mounce, há um "primeiro pragmatismo",
justamente o de Peirce, marcado por um cientificismo que se opõe ao
positivismo, ao materialismo e ao racionalismo científico do século XIX, e um
"segundo pragmatismo", que é aquele resultante da "má compreensão do pensamento
de Peirce" por parte de James, subseqüentemente cultivado por Dewey e
desabrochado em Rorty. Esse segundo pragmatismo consistiria justamente numa
versão daquelas formas de cientificismo às quais Peirce se opunha. Desse modo,
não haveria continuidade nem complementaridade entre esses dois tipos de
pragmatismo, mas descontinuidade e antagonismo. Mounce é bastante radical em
sua visão de que não há absolutamente nada em comum, além do nome, entre o
pragmatismo de Peirce e o de seus supostos seguidores. Mais do que isso, ele
afirma que a partir de James o que se tem não é uma nova filosofia, mas uma
variação do positivismo, uma forma extrema de empirismo.
[24] Pogrebinschi, Thamy. Pragmatismo: teoria política e social. Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 2005.
[25] Evidentemente, Rorty se norteia aqui de acordo com a primeira regra da
razão de Peirce: não obstruir o caminho da investigação.
[26] Rorty, Consequences of Pragmatism, op. cit., p. xlii.
[27] Rorty, Philosophy and social hope, op. cit.
[28] Nesse ponto, vale ressaltar que Rorty oferece um aporte interessante ao
pensamento pragmatista com seu conceito de esperança. Ao substituir a noção
filosófica tradicional de conhecimento pela idéia de esperança, assim como ao
propor a substituição da busca por certeza pela esperança (e pela imaginação
nela contida), Rorty quer fazer da filosofia um instrumento de mudança, e não
de conservação. Ele está correto ao afirmar que o pragmatismo é o pensamento
que pela primeira vez na história da filosofia trata a teoria como um auxílio
para a prática e deixa de ver esta como uma degradação da teoria. Cf. Rorty,
Philosophy and social hope, op. cit., p. 30.
[29] Nos termos do antiessencialismo rortyano, a palavra "objetivo" se define
pela referência à relativa facilidade de obter consenso entre investigadores
(cf. ibidem, pp. 50-54).
[30] Ibidem, p. xxv.
[31] Essa idiossincrasia do pragmatismo de Rorty é responsável por muitas das
críticas que lhe são feitas. De acordo com algumas delas, Rorty não pode ser
considerado um pragmatista, mas um pós-modernista ou um relativista. Para
Nicholas Rescher (Realistic Pragmatism. Albany: State University of New York
Press, 2000, pp. 58 ss), por exemplo, o pragmatismo de Rorty é decisivamente
pós-moderno ao tender a um relativismo subjetivista e ao apresentar uma versão
negativa e desconstrutiva do pragmatismo. O autor chega mesmo a afirmar que o
neopragmatismo (pelo menos em sua vertente filosófica, pois ele parece ser
igualmente forte em outros campos do conhecimento) não é uma versão aprimorada
do pensamento pragmatista original, mas, ao contrário, um "produto inferior".
Outra crítica interessante é feita por James Kloppenberg ("Pragmatism: an old
name for some new ways of thinking?". In: Dickstein, Morris (org.). The revival
of Pragmatism: new essays on social thought, law and culture. Durham: Duke
University Press, 1998), que caracteriza a abordagem rortyana como
"insuficientemente pragmática". Segundo ele, Rorty veicula uma versão do
pragmatismo como um discurso pós-modernista que nega a possibilidade de escapar
das convenções e contingências da linguagem a fim de estabelecer contato com um
mundo de experiência fora dos textos.