A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e alforrias,
séculos XVII a XIX
O ENIGMA DE PALMARES
A Guerra dos Palmares foi um dos episódios de resistência escrava mais notáveis
na história da escravidão do Novo Mundo. Ainda que as estimativas das fontes
coevas e dos historiadores sobre o número total de habitantes divirjam bastante
de um mínimo de 6 mil a um máximo de 30 mil pessoas -, não há como negar
que as comunidades palmarinas, dada a extensão territorial e a quantidade de
escravos fugitivos que acolheram, tornaram-se o maior quilombo na história da
América portuguesa. Suas origens datam do início do século XVII, mas sua
formação como grande núcleo quilombola se deu apenas no contexto da invasão
holandesa de Pernambuco, quando diversos escravos se aproveitaram das desordens
militares e fugiram para o sul da capitania. As comunidades rebeldes que então
se organizaram resistiram a diversas incursões da Companhia das Índias
Ocidentais e, após a expulsão dos holandeses, a ataques das tropas luso-
brasileiras.
Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes alojados em
Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas como "holandeses de outra
cor", por conta da ameaça que representavam à ordem colonial portuguesa na
América. Sua derrota pela força das armas só ocorreu em meados da década
seguinte, após um conflito secular com dois dos maiores poderes coloniais
europeus do mundo moderno. Antes da revolução escrava de São Domingos (1791-
1804) e das grandes revoltas abolicionistas do Caribe inglês no primeiro terço
do século XIX, o episódio de Palmares só teve equivalente na I Guerra Maroon da
Jamaica (1655-1739) e na Guerra dos Saramaca no Suriname (1685-1762). Nesses
dois casos, entretanto, os quilombolas conseguiram vencer as tropas
repressoras, forçando autoridades e senhores a reconhecerem a liberdade dos
grupos revoltosos2.
A história da derrota do grande quilombo palmarino deu origem a um enigma que
há certo tempo chama a atenção dos especialistas em escravidão brasileira: por
que não houve outros Palmares na história do Brasil? O ponto é importante, pois
a atividade quilombola se ampliou no século XVIII, com o aumento do volume do
tráfico negreiro transatlântico e a formação dos núcleos mineratórios no
interior do território, assumindo diferentes modalidades de norte a sul da
América portuguesa. Afora as numerosas comunidades quilombolas, de dimensões e
duração variáveis, o Brasil viu aparecer no início do século XIX outra forma de
resistência escrava coletiva, presente no Caribe inglês havia bom tempo: o
ciclo de revoltas africanas que agitou o Recôncavo Baiano entre 1807 e 18353.
A resposta que os historiadores forneceram ao enigma aponta para a mudança na
legislação escravista portuguesa. Após Palmares, dizem eles, houve uma
progressiva especificação das funções do capitão-do-mato responsável legal
nas diferentes localidades da América portuguesa pela captura de escravos
fugitivos e delimitação, nas letras da lei, do que seria uma comunidade
quilombola. A institucionalização da figura do capitão-do-mato e a definição de
quilombo como qualquer ajuntamento composto de alguns poucos escravos fugitivos
teriam tolhido, já no nascedouro, a formação de comunidades rebeldes com as
proporções de Palmares4. Creio, no entanto, ser possível avançar outra
explicação, que sem negar a fornecida pelos historiadores que trataram do
assunto recorre à configuração que o escravismo brasileiro adquiriu a partir
do final do século XVII.
O objetivo deste ensaio é justamente entender por que não houve outros Palmares
na história do Brasil. Para tanto, concentrarei minha atenção nas relações
entre tráfico negreiro transatlântico, alforrias e criação de oportunidades
para a resistência escrava coletiva (como a formação de quilombos e as revoltas
em larga escala), do final do século XVII à primeira metade do século XIX. A
idéia é de que eventos como Palmares, a Guerra Maroon jamaicana ou a campanha
dos Saramaca estiveram diretamente ligados à configuração de determinado tipo
de sistema escravista, que denominarei "escravismo de plantation". Nesse
sistema, a produção econômica se concentrava em um único produto e o quadro
social era marcado por desbalanço demográfico entre brancos livres e escravos
negros, amplo predomínio de africanos nas escravarias, poucas oportunidades
para a obtenção de alforria e altas taxas de absenteísmo senhorial.
Um sistema escravista dessa natureza, típico das colônias caribenhas inglesas e
francesas do século XVIII, e cujas características básicas tiveram
desenvolvimento apenas parcial na América portuguesa da primeira metade do
século XVII, não mais encontrou espaço nos dois séculos subseqüentes da
história do Brasil. Com a mineração, essa mudança de fundo no caráter do
escravismo brasileiro apenas se acentuou. A instituição se difundiu social e
espacialmente, com a disseminação da posse de escravos pelo tecido social e a
criação de hierarquias étnicas e culturais bastante complexas. Antigas áreas de
plantation, como a Zona da Mata pernambucana e o Recôncavo Baiano, mesmo
mantendo a produção escravista açucareira, verificaram igualmente essas
transformações5.
A partir de fim do século XVII, o sistema escravista brasileiro passou a
escorar-se em uma estreita articulação entre tráfico transatlântico de escravos
bastante volumoso e número constante de alforrias. Nessa equação, era possível
aumentar a intensidade do tráfico, com a introdução de grandes quantidades de
africanos escravizados, sem colocar em risco a ordem social escravista. Logo
após a derrota de Palmares, reduziram-se substancialmente as oportunidades de
sucesso para as revoltas escravas e os grandes quilombos no Brasil. Não por
acaso, com exceção de uma breve ocasião na década de 1670, ainda no curso da
Guerra dos Palmares, as autoridades coloniais portuguesas e os representantes
imperiais brasileiros sempre se recusaram a negociar com revoltosos e
quilombolas. Essa posição política, que traduzia o quadro das relações de força
entre senhores e escravos no Brasil, teve como contraponto a atitude de
ingleses e holandeses, forçados a reconhecer em tratados de paz as conquistas
que Maroon e Saramaca obtiveram em campo de batalha.
É importante salientar que faz pelo menos três décadas os historiadores têm
anotado a relação estreita que houve na história do Brasil entre o volume do
tráfico negreiro transatlântico e as altas taxas de alforrias6. O que falta,
acredito, é fornecer um enquadramento teórico mais substantivo para essa
articulação, relacionando-a ao limitado campo de possibilidades de sucesso para
a resistência escrava coletiva no Brasil.
Valendo-me dos estudos disponíveis, procurarei ler os resultados à luz das
proposições teóricas de Orlando Patterson e Igor Kopytoff, que não secionam a
experiência do escravo da experiência do forro; ambos encaram a escravização, a
situação de escravidão e a manumissão como partes de um mesmo processo
institucional. De acordo com a sugestiva formulação de Kopytoff,
a escravidão não deve ser definida como um status, mas sim como um
processo de transformação de status que pode prolongar-se uma vida
inteira e inclusive estender-se para as gerações seguintes. O escravo
começa como um estrangeiro [outsider] social e passa por um processo
para se tornar um membro [insider]. Um indivíduo, despido de sua
identidade social prévia, é colocado à margem de um novo grupo social
que lhe dá uma nova identidade social. A estraneidade [outsidedness],
então, é sociológica e não étnica7.
Com base nessa proposição, tentarei sugerir um esquema interpretativo para o
sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa duração, sem dissociar a
condição escrava da condição liberta e o tráfico negreiro das alforrias. Como
em todo ensaio, há sempre o risco derivado do alto grau de generalização, afora
o fato de esse sentido sistêmico não ter sido de todo claro aos contemporâneos.
A tomada de consciência do processo institucional do escravismo brasileiro
ocorreu apenas no início do século XIX, mais especificamente no contexto da
independência, tanto pelos viajantes estrangeiros que então percorriam o
território brasileiro como, sobretudo, pelos construtores do Império do Brasil.
Tal é meu ponto de chegada. Noutros termos, pretendo demonstrar que a percepção
da experiência histórica colonial, que combinava tráfico negreiro e alforrias,
teve papel importante para definir o porvir da escravidão nos quadros do Estado
nacional brasileiro.
ESCRAVISMO DE PLANTATION
Nos séculos que se seguiram ao colapso do Império romano, a escravidão não
desapareceu por completo na Europa ocidental e mediterrânea. No entanto, no
decorrer da Baixa Idade Média, a escravidão como sistema de trabalho deixou de
existir no Ocidente europeu, excetuando-se os países do Mediterrâneo, isto é,
das penínsulas Ibérica e Itálica. Mesmo aí, ela foi, nos séculos XIV e XV, tão-
somente uma instituição urbana, com importância limitada no conjunto da
economia; o emprego em larga escala de cativos na produção agrícola havia se
tornado residual nestas últimas regiões. A recriação do escravismo, com o
emprego massivo de escravos nas tarefas agrícolas, seria realizada por
portugueses e espanhóis só após a segunda metade do século XV, com a introdução
da produção açucareira nas ilhas atlânticas orientais (Canárias, Madeira, São
Tomé), e, no século XVI, com a colonização da América8.
Baseada na experiência acumulada com o fabrico do produto nas ilhas da Madeira
e de São Tomé, a Coroa portuguesa procurou estimular a construção de unidades
açucareiras no Brasil desde a década de 1530. Mas, até os anos 1570, os colonos
encontraram grandes dificuldades para fundar em bases sólidas uma rede de
engenhos no litoral, como problemas com o recrutamento da mão-de-obra e falta
de capitais para financiar a montagem dos engenhos. Ao serem superadas tais
dificuldades, com atrelamento da produção brasileira aos centros mercantis do
Norte da Europa e articulação do tráfico de escravos entre África e Brasil,
tornou-se viável o arranque definitivo da indústria de açúcar escravista da
América portuguesa, o que ocorreu entre 1580 e 1620, quando o crescimento
acelerado da produção brasileira ultrapassou todas as outras regiões
abastecedoras do mercado europeu.
Cabem aqui algumas palavras sobre o papel que o tráfico transatlântico de
africanos desempenhou no deslanche da produção açucareira brasileira. A mão-de-
obra empregada na montagem dos engenhos de açúcar no Brasil foi
predominantemente indígena. Uma parte dos índios (recrutados em aldeamentos
jesuíticos no litoral) trabalhava sob regime de assalariamento, mas a maioria
era submetida à escravidão. Os primeiros escravos africanos começaram a ser
importados em meados do século XVI; seu emprego nos engenhos brasileiros,
contudo, ocorria basicamente nas atividades especializadas. Por esse motivo,
eram bem mais caros que os indígenas: um escravo africano custava, na segunda
metade do século XVI, cerca de três vezes mais que um escravo índio. Após 1560,
com a ocorrência de várias epidemias no litoral brasileiro (como sarampo e
varíola), os escravos índios passaram a morrer em proporções alarmantes, o que
exigia reposição constante da força de trabalho nos engenhos. Na década
seguinte, em resposta à pressão dos jesuítas, a Coroa portuguesa promulgou leis
que coibiam de forma parcial a escravização de índios. Ao mesmo tempo, os
portugueses aprimoravam o funcionamento do tráfico negreiro transatlântico,
sobretudo após a conquista definitiva de Angola em fins do século XVI. Os
números do tráfico bem o demonstram: entre 1576 e 1600, desembarcaram em portos
brasileiros cerca de 40 mil africanos escravizados; no quarto de século
seguinte (1601-1625), esse volume mais que triplicou, passando para cerca de
150 mil os africanos aportados como escravos na América portuguesa, a maior
parte deles destinada a trabalhos em canaviais e engenhos de açúcar9.
O sucesso da produção escravista de açúcar da América portuguesa logo atraiu a
atenção dos demais poderes coloniais europeus. Já em fim do século XVI, era
crescente o envolvimento de negociantes ingleses e holandeses no comércio
açucareiro entre Brasil e Europa. As invasões holandesas da Bahia (1624) e
Pernambuco (1630) foram em grande parte motivadas pelo dinamismo da economia
açucareira dessas capitanias. Os membros e acionistas da Companhia das Índias
Ocidentais holandesa (WIC), contudo, na época em que comandaram a invasão das
regiões produtoras de açúcar no Brasil, desconheciam por completo os segredos
da produção do artigo, que se resumiam basicamente a três aspectos: as técnicas
de processamento da cana-de-açúcar, as técnicas de administração dos escravos e
a organização do tráfico negreiro transatlântico. Cedo os invasores perceberam
a estreita relação geoeconômica que havia entre a África e as regiões de
plantation escravista na América. De nada valeriam as possessões brasileiras se
não se conquistassem os pontos que forneciam escravos do outro lado do
Atlântico. Por esse motivo, sob o comando de Maurício de Nassau, a WIC promoveu
em 1638 a conquista do entreposto português de São Jorge da Mina e em 1641 a
invasão de Angola10.
O domínio holandês em Pernambuco durou pouco. Em 1645, eclodiu a revolta dos
colonos luso-brasileiros, que levaria à expulsão definitiva dos holandeses da
América portuguesa em 1654; antes disso, em 1648, os colonos luso-brasileiros
do Rio de Janeiro se responsabilizaram diretamente pela expulsão dos holandeses
de Angola. Com o fracasso da experiência brasileira e angolana, a WIC deixou de
priorizar a produção de açúcar e passou a direcionar-se para a compra do
produto obtido em regiões que não estavam sob seu comando direto. Nesse
sentido, os comerciantes holandeses procuraram estimular os colonos ingleses e
franceses do Caribe a produzir açúcar. Ainda durante a ocupação do Brasil, na
segunda metade da década de 1640, os mercadores holandeses transmitiram as
técnicas dos engenhos brasileiros aos colonos ingleses de Barbados e aos
franceses da Martinica e Guadalupe, além de abastecê-los com escravos trazidos
dos entrepostos da WIC no golfo da Guiné. A partir da década de 1660, a
produção de açúcar com mão-de-obra escrava nas ilhas inglesas e francesas
verificou crescimento notável, além de os mercadores desses dois países
passarem a envolver-se diretamente no tráfico negreiro transatlântico. No
começo do século XVIII, a paisagem física e humana do Caribe havia se
modificado completamente: as ilhas converteram-se em imensos canaviais e a
população tornou-se esmagadoramente negra, quase toda ela escravizada11.
No curso das guerras contra os holandeses no Atlântico Sul, o abastecimento de
escravos aos engenhos brasileiros diminuiu de forma sensível. Se, entre 1601 e
1625, haviam sido introduzidos cerca de 150 mil africanos escravizados na
América portuguesa, no quarto de século seguinte esse volume se reduziu para
apenas 50 mil. De todo modo, a invasão holandesa de Pernambuco e os conflitos
que se seguiram contra os colonos luso-brasileiros abriram boas oportunidades
de resistência aos escravos que haviam desembarcado em grande número no
primeiro quarto do século XVII. Não por acaso, o aporte cultural decisivo para
a configuração política do reino "neoafricano" de Palmares foi fornecido pelos
grupos humanos originários do Centro-Sul da África, exatamente a zona em que os
traficantes portugueses mais operaram a partir de fim do século XVI12.
A dimensão e a força do quilombo de Palmares se explicam não apenas pela
conjuntura do conflito imperial entre portugueses e holandeses, mas pela
própria demografia da região das plantations açucareiras pernambucanas.
Qualquer assertiva categórica sobre a composição da população colonial antes do
século XVIII é perigosa, mas creio que não há riscos em afirmar que quando os
holandeses invadiram a capitania de Pernambuco, os escravos negros predominavam
em termos numéricos sobre a população branca e mesmo sobre os indígenas
"domesticados". Pode-se afirmar também, com base nos poucos dados disponíveis,
que a população negra livre era relativamente diminuta. Tratava-se, enfim, de
um quadro demográfico bastante propício à eclosão de movimentos coletivos de
resistência escrava, como a experiência posterior do Caribe inglês bem o
demonstraria.
Após a expulsão dos holandeses, as tropas luso-brasileiras se encarregaram do
combate sem trégua aos palmarinos. O grande problema a ser enfrentado pelos
colonos, no entanto, encontrava-se na esfera econômica. A rápida montagem do
complexo açucareiro escravista nas Antilhas a partir da década de 1650 logo
trouxe forte impacto negativo para a economia açucareira na América portuguesa.
O crescimento das produções inglesa e francesa no Caribe derrubou o preço do
açúcar nos mercados europeus, ao mesmo tempo que a demanda por trabalhadores
negros nas plantations antilhanas aumentou os preços dos escravos no litoral
africano. Além disso, os senhores de engenho luso-brasileiros tiveram que
enfrentar outros dois problemas. Em primeiro lugar, devido às políticas
mercantilistas adotadas pela Inglaterra e pela França na segunda metade do
século XVII, que procuravam estimular a produção antilhana garantindo-lhe
proteções monopolistas, o açúcar brasileiro foi praticamente excluído desses
dois mercados europeus. Em segundo lugar, entre 1640 e 1668, Portugal travou
uma dura guerra contra a Espanha em prol da independência, no exato momento em
que o "Império da Pimenta" oriental entrava em colapso. Na segunda metade do
século XVII, as possessões do Novo Mundo se tornaram o sustentáculo econômico
de Portugal. Uma tributação pesada sobre o açúcar brasileiro foi criada então
para dar conta dos gastos com a diplomacia e a defesa do Reino.
Tais atribulações não impediram a sobrevivência da economia açucareira na
América portuguesa. Em que pesem a desorganização trazida pelas guerras do
Atlântico Sul entre as décadas de 1620 e 1650, a elevada taxação pós-1650, a
concorrência antilhana e a restrição do acesso a certos mercados europeus, os
senhores de engenho luso-brasileiros conseguiram manter a produção de açúcar em
patamares estáveis. Para tanto, foi vital a consolidação do sistema atlântico
bipolar unindo a África aos portos brasileiros, assegurada pela reconquista de
Angola em 1648. Na segunda metade do século XVII, foram introduzidos cerca de
360 mil africanos escravizados no Brasil. Tal sistema, ao garantir um fluxo
contínuo de escravos a baixo custo para os engenhos brasileiros, viabilizou a
atividade econômica açucareira da Colônia em uma conjuntura internacional
bastante adversa.
Algumas evidências sugerem que, naquele período conturbado da economia
açucareira, as alforrias ganharam impulso. É certo que a manumissão de escravos
se fez presente na Colônia desde os primeiros anos. No entanto, a existência de
documentação seriada da prática apenas na segunda metade do século XVII talvez
indique que ela tenha se disseminado só após essa época. Na historiografia da
escravidão brasileira, um dos primeiros estudos feitos sobre o tema tratou
exatamente da Bahia ao lado de Pernambuco, o centro da economia açucareira
colonial entre 1684 e 1745. O pesquisador Stuart Schwartz registrou e
analisou uma série de práticas relacionadas à manumissão, as quais depois se
repetiriam em diferentes tempos e espaços na América portuguesa e no Império do
Brasil. Dentre as mais de mil cartas de alforrias examinadas pelo autor, houve
uma proporção constante de duas mulheres libertadas para cada homem. Dado o
amplo predomínio numérico de homens no tráfico transatlântico e na própria
composição das escravarias, escreve Schwartz, "as mulheres obtinham liberdade
numa proporção muito maior do que as expectativas estatísticas". Igualmente
privilegiados do ponto de vista estatístico foram os escravos nascidos no
Brasil, isto é, os crioulos e, sobretudo, os pardos: este grupo constituiu 69%
do universo das alforrias, contra apenas 31% de africanos libertados. Houve,
por fim, grande proporção de crianças e adolescentes menores de 14 anos entre
os alforriados. A tendência predominante de alforriar mulheres escravas em
idade fértil, conclui Schwartz, comprometeu as possibilidades de reprodução
demográfica auto-sustentável da escravidão brasileira, o que acabou por
acentuar o papel estrutural do tráfico negreiro transatlântico para repor a
força de trabalho escrava13.
MINERAÇÃO
Esse padrão demográfico se consolidou com as descobertas auríferas na virada do
século XVII para o XVIII, ampliando-se geograficamente. A atração que a
possibilidade de enriquecimento rápido exerceu sobre a população metropolitana
e colonial foi imensa, levando grandes contingentes humanos a se transferirem
para a nova região das minas. Esse afluxo constituiu, nos termos de uma
especialista, "a primeira grande migração maciça na história demográfica
brasileira"14. Afora o deslocamento interno na Colônia, as minas atraíram para
o Brasil um quantidade ainda maior de imigrantes portugueses, calculada em
cerca de 400 mil indivíduos durante todo o século XVIII. A grande onda
migratória para a região, contudo, foi compulsória. O volume do tráfico
transatlântico de escravos para a América portuguesa, que já era o maior do
Novo Mundo, duplicou na primeira metade do Setecentos. Entre 1701 e 1720,
desembarcaram nos portos brasileiros cerca de 292 mil africanos escravizados,
em sua maioria destinados às minas de ouro. Entre 1720 e 1741, novo aumento:
312,4 mil indivíduos. Nas duas décadas seguintes, o tráfico atingiu seu pico
máximo: 354 mil africanos escravizados foram introduzidos na América portuguesa
entre 1741 e 1760.
O enorme avanço territorial e demográfico da colonização portuguesa na América
ocorrido no século XVIII se fez acompanhar por um aumento correspondente das
tensões econômicas, sociais e políticas. No caso específico de Minas Gerais,
capitania criada em 1720, o processo tumultuário de ocupação de seu território
se traduziu no aguçamento dos conflitos: carência alimentar, que provocou fomes
terríveis nos primeiros anos e a que se sucederam ações especulativas no
abastecimento de gêneros de primeira necessidade para a região; embates entre
os primeiros descobridores-povoadores (paulistas) e os adventícios, tanto da
Colônia como do Reino, que explodiram na Guerra dos Emboabas; esforços da Coroa
para impor seu poder na região, com a criação de vilas e a instalação de um
aparato burocrático, acompanhados em contrapartida por resistência aguda dos
colonos a tal política de normatização15. Para nossos fins, no entanto,
interessa ressaltar outro tipo de conflito social, expresso nas fugas, na
formação de quilombos e em planos mais amplos de levante escravo.
Com efeito, diversos autores apontam que, dadas as condições particulares da
atividade mineratória, os escravos tiveram aí maiores oportunidades para
exercer sua autonomia e resistir ao controle senhorial. A dispersão espacial
das lavras auríferas, a possibilidade de os trabalhadores se apropriarem de
parte dos resultados da extração ou o próprio controle que detinham sobre o
processo de trabalho (como no caso notório dos pretos-minas, reputados como
grande mineradores no período) ampliaram sobremaneira a autonomia escrava. Por
essas razões, os senhores recorreram com freqüência a meios não coercitivos
para garantir a regularidade da extração, o que, por sua vez, facilitou o
acúmulo de numerário e a compra da alforria pelos cativos16.
A existência de canais para o exercício da autonomia escrava não significou tão
somente acomodação com os poderes senhoriais, mas também maiores possibilidades
para a resistência. Quanto ao último ponto, os historiadores registram a
presença de um grande número de quilombos em Minas Gerais, os quais, repetidas
vezes, mantiveram intensas trocas econômicas com a sociedade que os circundava.
João José Reis indica que essa multiplicação da atividade quilombola pode ter
sido decorrência da própria sanha repressora da metrópole, pois a "definição
mesquinha" de quilombo
como o ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em
sítios despovoados [...], concebida para melhor controlar as fugas,
terminou por agigantar o fenômeno aos olhos de seus contemporâneos e
de estudiosos posteriores17.
Correta ou não a avaliação, o certo é que, dentre a miríade de pequenos
ajuntamentos de fugitivos, houve pelo menos dois grandes quilombos em Minas
Gerais, cuja população atingiu a casa do milhar: o Quilombo do Ambrósio,
derrotado em 1746, e o Quilombo Grande, vencido em 1759. Afora esses dois
exemplos, os pesquisadores identificaram ainda três planos de levante escravos
(1711, 1719 e 1756), todos desbaratados antes que eclodissem.
A questão formulada no início do ensaio volta aqui: diante desse quadro social
explosivo, com amplo predomínio numérico da população negra sobre a população
branca, por que não houve nada similar a Palmares em Minas Gerais? A pergunta é
ainda mais intrigante se lembrarmos que o exemplo dos palmarinos rondou a
cabeça das autoridades públicas mineiras por toda a primeira metade do século
XVIII. As advertências feitas em 1718 pelo conde de Assumar ao rei d. João V
são famosas: segundo o governador da então capitania de São Paulo e Minas do
Ouro, o combate aos quilombolas era assunto de fundamental relevância, pois
dele poderia "depender a conservação ou ruína deste país [...] porque vejo mui
inclinada a negraria deste governo a termos aqui algo semelhante aos Palmares
de Pernambuco"18.
Como já vimos, a resposta corrente é de que uma dura legislação repressiva,
somada à institucionalização da figura do capitão-do-mato, impediu a eclosão de
novos Palmares na América portuguesa. Alguns historiadores, no entanto,
apresentam explicação alternativa. Donald Ramos, por exemplo, sugere que a
própria proliferação de pequenas comunidades fugitivas em Minas Gerais serviu
para esvaziar o poder de contestação ao sistema escravista. O comércio ativo
que muitos desses pequenos quilombos estabeleceram com a sociedade mineratória
indicaria que eles representaram antes uma "válvula de escape" do que uma
oposição frontal ao sistema escravista19. O que mais nos interessa na
argumentação de Ramos, contudo, é sua lembrança de que as alforrias
desempenharam papel análogo como esteio da ordem social escravista.
De fato, a prática da manumissão encontrou enorme difusão na América portuguesa
a partir do século XVIII. Não por acaso, uma parcela substantiva dos estudos
sobre o assunto tratam de Minas Gerais nesse período. Diante da impossibilidade
de passar em revista todos os trabalhos disponíveis ou mesmo os mais
relevantes, o sumário dos resultados apresentado recentemente por John Russell-
Wood é bastante útil. Dois pontos particularizaram a experiência mineira no
conjunto da América portuguesa: em primeiro lugar, a tendência a libertar-se
mais no período de apogeu (primeira metade do século XVIII) do que no período
de retração da atividade aurífera; em segundo lugar, a presença mais freqüente
da coartação como mecanismo de libertação dos escravos, isto é, do pagamento da
carta de alforria pelo escravo em parcelas periódicas. Em tudo o mais que diz
respeito à prática da manumissão, resume Russell-Wood, os estudos sobre as
minas setecentistas
concordam que as mulheres eram preferidas aos homens, os mulatos aos
negros, os nascidos no Brasil aos nascidos na África, os escravos
urbanos aos das regiões rurais e que muitos senhores preferiam
alforriar bebês em vez de adultos20.
As alforrias em Minas Gerais, enfim, em linhas gerais reiteraram o modelo que
Stuart Schwartz encontrou para a Bahia já em fim do século XVII. Esse padrão
obedeceu a uma norma básica: quanto mais afastados da experiência do tráfico
negreiro transatlântico, maiores seriam as possibilidades de os escravos e as
escravas ganharem alforria; o homem africano, predominante nos tumbeiros,
dificilmente a obteria, mas seus descendentes, em uma ou mais gerações, sim.
O SISTEMA BRASILEIRO
No fim do século XVIII e início do XIX, a América portuguesa contava com uma
configuração demográfica ímpar no quadro das sociedades coloniais do Novo
Mundo. Para compreendê-la devidamente, vale dar uma olhada a vôo de pássaro nas
demais colônias européias de então.
As diversas ilhas açucareiras do Caribe inglês e francês, em que pesem as
variações, apresentaram durante todo o século XVIII desbalanço enorme entre a
quantidade de brancos e escravos negros. O predomínio numérico dos últimos foi
esmagador, mesmo em colônias com maior número relativo de colonos de origem
européia. Esse foi o caso de Barbados, que, durante o Setecentos, teve sempre
cerca de quatro escravos negros para cada branco. Já em colônias como São
Domingos, às vésperas da revolução a proporção era de quinze escravos para cada
branco. Tampouco o número de negros e mulatos livres chegou a equipar-se com o
de escravos. Em São Domingos, esses grupos que seriam decisivos para o início
da revolução que acabou por levar ao término da escravidão e do domínio francês
não somavam mais do que 30 mil indivíduos, número equivalente ao da população
branca. Na Jamaica, a proporção era ainda menor21.
As colônias do Sul da América inglesa continental e, posteriomente, os estados
do Sul da República norte-americana, constituíram a outra sociedade escravista
do Novo Mundo que teve caráter birracial. Se lá a quantidade de negros e
mulatos livres era tão reduzida em termos relativos como no Caribe inglês e
francês, havia porém equilíbrio demográfico entre a comunidade branca e a
comunidade negra escravizada.
Por fim, a América espanhola exibia a maior variedade demográfica entre as
colônias européias, contando no entanto com o aporte decisivo, nas colônias
continentais, do elemento indígena. A concentração da escravidão negra em
cidades ou enclaves (como a região de Caracas, a região de Chocó, a costa de
Lima) não permite caracterizar a sociedade colonial espanhola como genuinamente
escravista22.
A América portuguesa, pelo contrário, constituía uma sociedade desse tipo, mas
algo distinta do que se observava no Caribe inglês e francês e no Sul dos
Estados Unidos. O que a diferenciava era justamente uma considerável população
livre negra ou mestiça descendente de africanos, a qual vivia lado a lado com
uma quantidade substantiva de brancos, e uma maioria escravizada, composta em
sua maioria de africanos e um número menor de crioulos e pardos nascidos na
América. Em que pesem as variações de capitania a capitania (no extremo norte e
no extremo sul, por exemplo, havia predomínio indígena) e as imprecisões dos
dados demográficos disponíveis, a população colonial brasileira no início do
século XIX guardava as seguintes proporções: 28% de brancos, 27,8% de negros e
mulatos livres, 38,5% de negros e mulatos escravizados, 5,7% de índios23.
A gênese dessa grande população livre negra e mulata se deu, fundamentalmente,
pela dinâmica do tráfico transatlântico de escravos acoplada à dinâmica da
alforria. A escravização dos africanos, seu transporte para o Brasil, as
atividades que aqui desempenharam como escravos (em geral, nas tarefas rurais e
urbanas que não exigiam qualificação), a recomposição dos laços familiares e
culturais, a produção de descendentes, que, em uma ou mais geração, certamente
obteriam a liberdade via manumissão: todos esses movimentos e outros mais podem
ser tidos como parte de um processo institucional em larga escala de
transformação de status, tal como propuseram Patterson e Kopytoff.
Luiz Felipe de Alencastro percebeu com rara felicidade esse movimento na
conclusão de seu O trato dos viventes, ao examinar o que denomina de a
"invenção do mulato". Segundo ele, as práticas de favorecimento dos mulatos na
América portuguesa podem ser observadas em medidas como: emprego mais freqüente
desse grupo em trabalhos qualificados, uso militar em tropas auxiliares, e
sobretudo, privilegiamento no ato da manumissão. A esse quadro, Alencastro
contrapõe a situação na África portuguesa, onde os mulatos foram desde cedo
equiparados aos negros. Em seus termos,
houve no Brasil um processo específico que transformou a miscigenação
simples resultado demográfico de uma relação de dominação e de
exploração na mestiçagem, processo social complexo dando lugar a
uma sociedade plurirracial. O fato de esse processo ter se
estratificado e, eventualmente, ter sido ideologizado, e até
sensualizado, não se resolve na ocultação de sua violência
intrínseca, parte consubstancial da sociedade brasileira: em última
instância, há mulatos no Brasil e não há mulatos em Angola porque
aqui havia a opressão sistêmica do escravismo colonial, e lá não24.
Resumindo: para garantir a reprodução da sociedade escravista brasileira no
tempo, fundada na introdução incessante de estrangeiros, era fundamental criar
mecanismos de segurança que pudessem evitar um quadro social tenso como o do
Caribe inglês e francês ou mesmo o de Pernambuco no século XVII. A libertação
gradativa dos descendentes dos africanos escravizados não mais estrangeiros,
mas sim brasileiros constituiu o principal desses meios. A prova definitiva
da validade dessa equação é a associação de negros e mulatos libertos e livres
com o sistema escravista: o grande anseio econômico e social desses grupos era
exatamente a aquisição de escravos, ou seja, tornar-se senhor.
Diversos trabalhos recentes documentam a prática bastante comum de negros e
mulatos livres, libertos e mesmos escravos serem donos de escravos. Por conta
da dinâmica do tráfico para o Brasil, o mais volumoso na história do comércio
negreiro transatlântico, o africano escravizado era uma mercadoria socialmente
barata25. Foi isso que permitiu odisseminar da escravidão pelo tecido social
brasileiro, marcando a particularidade desse sistema escravista. Essa mecânica,
por sua vez, teve peso decisivo para a configuração econômica igualmente ímpar
da América portuguesa.
Como há muito é consenso na historiografia brasileira, a partir do século
XVIII, com o impacto da mineração, houve grande diversificação na economia
colonial. Antes de mais nada, pelo aparecimento de uma produção ativa voltada
ao abastecimento do mercado interno, como a pecuária no Rio Grande do Sul e no
vale do São Francisco, ou a produção de mantimentos na própria capitania de
Minas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O surgimento de vários núcleos urbanos
em Minas Gerais, e mesmo o crescimento de antigas cidades como Rio de Janeiro e
Salvador, também ativaram a economia interna. A produção de tabaco, no
Recôncavo Baiano, foi outra atividade que recebeu impulso, pois se tratava de
uma mercadoria central para a aquisição de cativos na Costa da Mina,
especialmente valorizados nas zonas mineradoras. E, por último, não se pode
esquecer que os enclaves de plantations açucareiras no Recôncavo Baiano, na
Zona da Mata pernambucana e em Campos dos Goitacazes mantiveram sua vitalidade
ao longo do século, a despeito da competição antilhana, que havia excluído seus
produtores dos mercados inglês e francês.
O que importa para esta análise é o fato de todas essas atividades rurais e
urbanas terem se baseado na escravidão, com uma estrutura de posse dos
escravos que os distribuía por diferentes faixas de riqueza, sem concentrá-los
apenas nas mãos dos senhores mais capitalizados ou mesmo dos proprietários
brancos. A América portuguesa, portanto, combinava com essas diferentes
operações econômicas o leque das formas de exploração do trabalho escravo
presentes no Novo Mundo: a mineração e a escravidão urbana da América
espanhola, as plantations escravistas do Caribe, a produção de mantimentos da
região de Chesapeake.
Poder-se-ia argumentar que era igualmente essa a configuração econômica da
América espanhola, que tinha na região de Caracas, por exemplo, um escravismo
de plantation. Há que se lembrar, contudo, três diferenças básicas entre uma e
outra. Em primeiro lugar, o peso econômico decisivo da população indígena nas
áreas centrais da América espanhola, contraposto à generalização do trabalho
escravo na América portuguesa. Em segundo lugar, a ausência de integração
econômica entre as colônias da América espanhola: a despeito da profunda cisão
entre o vale Amazônico e o restante da Colônia, a mineração permitiu, na
América portuguesa, uma integração econômica nada desprezível ante os meios
de transporte do período -, do Rio Grande do Sul a Pernambuco. Terceiro, e
mais importante, para a reprodução ampliada da economia, o tráfico negreiro
transatlântico teve papel crucial na América portuguesa. Há, neste ponto, uma
distinção substantiva em relação às colônias inglesas e francesas: lá, o
tráfico negreiro sempre foi controlado a partir das respectivas metrópoles; na
América portuguesa, pelo contrário, desde o século XVII, o tráfico foi gerido
diretamente a partir dos portos brasileiros, isto é, os grandes traficantes que
garantiam a reprodução do sistema escravista estavam sediados em Recife,
Salvador e Rio de Janeiro, e não em Lisboa.
A crise da mineração e a expansão da agroexportação escravista na passagem do
século XVIII para o XIX com o surgimento de novas áreas produtoras, como
Maranhão (com o algodão) e o oeste de São Paulo (com o açúcar) e a
recuperação de antigas áreas produtoras, como Pernambuco, Bahia e Rio de
Janeiro, não romperam com o sentido sistêmico que o escravismo brasileiro
adquirira no século precedente. Muito pelo contrário, pois foi exatamente
aquela configuração social e econômica que forneceu as bases para a pronta
resposta dos produtores escravistas da América portuguesa às novas condições
favoráveis do mercado mundial.
Para os fins deste ensaio, interessa examinar o caso da resposta dos baianos,
de grande relevo para a linha central de sua argumentação. A revolução escrava
de São Domingos na década de 1790 trouxe modificações profundas nos quadros da
produção de açúcar nas Américas. Antes dessa data, a colônia francesa respondia
por cerca de 30% da produção mundial total de açúcar e era a maior produtora
mundial de café. Com o levante dos escravos, a partir de 1791, a produção
açucareira e cafeeira de São Domingos entrou em colapso, abrindo enormes
possibilidades para a produção desses gêneros em outras colônias nas Américas,
a que se deve somar o aumento da demanda por gêneros tropicais nos países em
processo de industrialização. Em vista dessa nova conjuntura, o tráfico
negreiro transatlântico para a Bahia se acelerou para atender à demanda do
setor açucareiro por novos trabalhadores. A reativação da agroexportação no
Recôncavo Baiano se fez acompanhar pela ampliação do cultivo de mantimentos nas
paróquias que não eram adequadas ao plantio da cana e que também empregavam em
larga escala a mão-de-obra escrava. A própria cidade de Salvador viu sua
população ampliar, com o conseqüente aumento no número de cativos26.
Desde fim do século XVII, a zona de eleição do tráfico transatlântico de
escravos para Bahia era a Costa da Mina, ainda que parte dos traficantes
operasse também em Angola. Na virada do século XVIII para o XIX, aumentou muito
a oferta de cativos na Costa da Mina aos comerciantes baianos, por duas razões:
primeiro, os traficantes ingleses e franceses deixaram de operar na área,
devido ao fim do tráfico para suas colônias; segundo, as guerras intestinas na
região, derivadas da jihad promovida por Usman dan Fodio, produziram grande
quantidade de cativos, dos quais parte substancial foi direcionada à Bahia.
Esses grupos egressos da Costa da Mina, sob diferentes identidades (Nagô,
Hauçá, Jeje, Tapa), promoveram o maior ciclo de revoltas escravas africanas de
que se tem notícia na história do Brasil. O caráter de resistência sistêmica à
escravidão só teve equivalente, antes, na Guerra dos Palmares e, depois, no
movimento abolicionista da década de 1880. Com efeito, entre 1807 e 1835, a
Bahia viveu um período de rebeliões contínuas dos escravos africanos, cujo
ápice foi a Revolta dos Malês, "levante de escravos urbanos mais sério ocorrido
nas Américas"27.
No que resultou todo esse movimento de resistência? O ciclo de revoltas
africanas que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835 não teve nenhum efeito
cumulativo para colocar em xeque a ordem escravista brasileira; ao contrário,
portanto, do ciclo de levantes escravos ocorrido no mesmo período no Caribe
inglês. O contexto atlântico mais amplo ajuda a compreender a dimensão real dos
levantes baianos. As revoltas de 1816 (Barbados), 1823 (Demerara) e 1831
(Jamaica) foram decisivas para impulsionar a campanha contra a escravidão negra
no Império inglês. Por sua vez, a resistência escrava na década de 1880,
fundamental para o processo de abolição do cativeiro no Império do Brasil, não
se valeu da experiência histórica da onda de levantes africanos que a Bahia
vivenciou entre 1807 e 1835. Em uma frase: essas revoltas, apesar de sérias e
violentas, não abalaram a ordem escravista brasileira.
A chave para compreender esse fracasso reside exatamente nas clivagens que
separavam de forma radical os africanos escravizados de seus descendentes
negros e mulatos nascidos no Brasil. Não houve participação destes últimos
grupos nos levantes comandados pelos africanos escravizados na Bahia. Muito
pelo contrário, como esclarece João José Reis:
mulatos, cabras e crioulos forneciam o grosso dos homens empregados
no controle e repressão aos africanos. Eram eles que faziam o
trabalho sujo dos brancos de manter a ordem nas fontes, praças e ruas
de Salvador, invadir e destruir terreiros religiosos nos subúrbios,
perseguir escravos fugitivos através da província e debelar rebeliões
escravas onde quer que aparecessem28.
O comprometimento social dos crioulos e mulatos sobretudo quando livres e
libertos com a instituição da escravidão, e não apenas o comprometimento dos
senhores brancos, foi o elemento decisivo que garantiu a segurança do sistema
escravista brasileiro.
IDEOLOGIA E ESTADO NACIONAL
A blindagem criada por tal configuração sistêmica impediu não só a repetição de
Palmares, mas, acima de tudo, qualquer chance de uma revolução escrava como a
de São Domingos vir a ocorrer no Brasil. No século XIX, já no período do Estado
nacional, esse quadro social escravista interno altamente estável permitiu a
expansão inaudita do tráfico negreiro transatlântico nas letras da lei,
proibido desde 1831 e do próprio escravismo brasileiro. No período de
quarenta anos compreendido entre a vinda da família real para o Brasil (1808) e
o fim definitivo do tráfico, em 1850, foi introduzido mais de 1,4 milhão de
cativos no Império, ou seja, cerca de 40% de todos os africanos desembarcados
como escravos em três séculos da história do Brasil. Nesse sentido, as mudanças
que se operaram no escravismo brasileiro oitocentista, em especial o incrível
arranque da cafeicultura no vale do Paraíba, que rapidamente converteu o Brasil
no maior produtor mundial do artigo, contou com práticas arraigadas de longa
duração, que possibilitavam introduzir enormes massas de estrangeiros
escravizados sem colocar em risco a segurança interna dessa sociedade.
No século XIX, a maior ameaça ao escravismo brasileiro veio de fora, ou seja,
da pressão antiescravista inglesa29. Não por acaso, a resposta ideológica que
os senhores e políticos brasileiros deram à ação diplomática e militar inglesa
recorreu, entre outros pontos, à própria lógica de funcionamento sistêmico da
escravidão brasileira. Ao fazê-lo, inverteram a visão ideológica que foi
predominante na Colônia. Com efeito, salvo um ou outro caso, as autoridades
metropolitanas sediadas na América portuguesa sempre entenderam que o setor de
homens negros e mulatos livres representava mais risco do que segurança à ordem
colonial30. Em outras palavras, a maioria dos dirigentes metropolitanos não
tinha consciência do processo institucional do escravismo brasileiro.
Essa visão começou a modificar-se no início do século XIX, de início pela pena
dos viajantes europeus que então passaram a percorrer ou morar no Brasil. O
inglês Henry Koster, por exemplo, senhor de escravos em Pernambuco na segunda
década do Oitocentos, não deixou de observar a facilidade com que escravos
crioulos e mulatos obtinham a alforria no Brasil, contrastando-a com as
dificuldades encontradas pelos escravos do Caribe inglês31. Reside aí, nos
relatos de viajantes europeus, a origem da imagem da escravidão brasileira e
mesmo ibérica como mais "benigna" do que a escravidão anglo-saxônica.
Rapidamente o tema foi instrumentalizado pelos construtores do Estado nacional
brasileiro. A visão de que os libertos e seus descendentes eram aliados, e não
inimigos dos senhores de escravos brasileiros, apareceu em 1822, nos debates
das Cortes de Lisboa, quando se definiu o caminho da independência do Brasil.
Naquela ocasião, ao discutir com parlamentares portugueses os critérios de
cidadania e participação política a serem adotados pela futura Constituição, o
deputado pelo Rio de Janeiro Custódio Gonçalves Ledo afirmou:
não há razão alguma para privar os libertos deste direito [de voto].
Há muitos libertos no Brasil, que hoje interessam muito à sociedade,
e têm grandes ramos de indústria; muitos têm famílias; por isso seria
a maior injustiça privar estes cidadãos de poderem votar, e até
poderia dizer que é agravar muito o mal da escravidão32.
A definição de cidadania defendida por Custódio Ledo em Portugal cristalizou-se
na Constituição Política do Império do Brasil. Conforme o artigo 6, parágrafo 1
da Constituição de 1824, os libertos, desde que nascidos no Brasil, eram
considerados cidadãos brasileiros. Portanto, apenas os libertos africanos eram
excluídos do corpo social da nação. Essa norma constitucional, por sua vez,
franqueava aos libertos brasileiros a participação no processo eleitoral: de
acordo com os artigos 90 a 95, desde que possuíssem renda líquida anual de cem
mil-réis, esses ex-escravos poderiam votar nas eleições primárias, que
escolhiam os membros dos colégios eleitorais provinciais, mas não poderiam
participar destes últimos; já os ingênuos, isto é, os filhos dos libertos
(tanto dos africanos como dos brasileiros), poderiam igualmente votar e ser
votados nos colégios eleitorais provinciais, desde que cumprissem os critérios
censitários.
Tratava-se, enfim, de uma definição de cidadania bastante inclusiva. O
parágrafo constitucional acabou virando peça da propaganda de defesa do tráfico
negreiro transatlântico para o Brasil, no contexto do acirramento das pressões
inglesas. Em 1838, José Carneiro da Silva, futuro visconde de Araruama,
destacado político conservador, defendeu a anulação da lei de 1831 e a
legalização do tráfico negreiro com base justamente na experiência histórica do
escravismo brasileiro:
Tenho visto escravos senhores de escravos, com plantações, criações
de gado vacum e cavalar, e finalmente com um pecúlio vasto e rendoso.
Tenho visto muitos escravos libertarem-se, tornarem-se grandes
proprietários, serem soldados, chegarem a oficiais de patente, e
servirem outros empregos públicos que são tão úteis ao Estado.
Quantos e quantos oficiais de ofícios e mesmo de outras ordens mais
superiores que, noutro tempo, foram escravos e hoje vivem com suas
famílias, cooperando para o bem do Estado nas obras e empregos em que
são ocupados, aumentando a população e o esplendor da nação, que os
tem naturalizado!33
No século XX, essa experiência se tornou tema caro à historiografia. Basta
lembrar as teses de Gilberto Freyre e Frank Tannenbaum sobre o caráter
supostamente benigno da escravidão brasileira, que logo se converteram em
ideologia da democracia racial. Não cabe aqui jogar mais terra sobre esse
caixão. O que não se pode nunca esquecer, entretanto, é que toda essa equação
deitou raízes na maior migração compulsória do mundo moderno um verdadeiro
crime contra a humanidade, apesar das reticências atuais de países como
Portugal, Inglaterra e Holanda em classificá-la como tal.
[1] Texto originalmente apresentado ao I Encontro entre Historiadores
Colombianos e Brasileiros, promovido pelo Ibraco em Bogotá, Colômbia, em agosto
de 2005.
[2] Sobre Palmares, ver, de Décio Freitas: Palmares, a guerra dos escravos. Rio
de Janeiro: Graal, 1990 (1a ed. 1971) e República de Palmares.
Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. Maceió: Editora
da Ufal, 2004. Sobre a resistência escrava no Caribe inglês e francês e no
Suriname, ver Patterson, Orlando. "Slavery and slave revolts: a socio-
historical analysis of the First Maroon War, 1655-1740". Social and Economic
Studies, vol. 19, no 3, set. 1970; Craton, Michael. Testing
the chains. Resistance to slavery in the British West Indies. Ithaca: Cornell
University Press, 1982; Price, Richard. First-Time. The
historical vision of an Afro-American people. Baltimore: The Johns Hopkins
University Press, 1983; Dubois, Laurent. Avengers of the New
World. The story of the Haitian revolution. Cambridge, MA: Belknap Press, 2004.
[3] Sobre a atividade quilombola em Minas Gerais, ver Guimarães, Carlos Magno.
Uma negação da ordem escravista. Quilombos em Minas Gerais no século XVIII. São
Paulo: Ícone, 1988; sobre o ciclo de revoltas na Bahia, ver
Reis, João José. Rebelião escrava no brasil. A história do levante dos malês em
1835. Ed. revista. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
[4] Essa é a explicação proposta por Stuart Schwartz, que encontrou largo
desenvolvimento no trabalho de Silvia Lara. Ver, respectivamente desses dois
historiadores, os ensaios "Repensando Palmares: resistência escrava na
Colônia". In: Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru: Edusc, 2001, e "Do singular
ao plural: Palmares, capitães-do-mato e o governo dos escravos". In: Reis, João
José & Gomes, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio. História dos
quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
[5] A idéia que subjaz a essa diferenciação deriva em parte da proposta de
Robin Blackburn para a contraposição entre "escravidão barroca" e "escravidão
moderna". Ver The making of New World slavery. From the Baroque to the Modern,
1492-1800. Londres: Verso, 1997. Blackburn, no entanto, não levou em devida
conta a inserção das regiões de "escravismo barroco" na modernidade, dentro da
lógica do mercado mundial. Ver, a respeito, as críticas pertinentes de Stuart
Schwartz em "Review of the Making of New World Slavery: From the Baroque to the
Modern, 1492-1800, by Robin Blackburn". In: William and Mary Quarterly, série
3, vol. LV, no 3, jul. 1998.
[6] Ver, a respeito, os seguintes trabalhos: Schwartz, Stuart. "Alforria na
Bahia, 1684-1745". In: Escravos, roceiros e rebeldes, pp. 165-212; Slenes, Robert. The demography and economics of Brazilian slavery:
1850-1888. Tese de doutorado em História. Stanford: Stanford University, 1976; Alencastro, Luiz Felipe de. "La traite négrière et l'unité
nationale brésilienne". Revue Française d'Histoire d'Outre-Mer, nos 244-245,
1979; Eisenberg, Peter. "Ficando livre: as alforrias em
Campinas no século XIX". In: Homens esquecidos. Escravos e trabalhadores livres
no Brasil, séculos XVIII e XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 1989; Karash, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000; Mattos, Hebe Maria. "A
escravidão moderna nos quadros do Império português: o Antigo Regime em
perspectiva atlântica". In: Bicalho, M. F.; Gouvêa, M. de F. & Fragoso,
João (orgs.) Antigo Regime nos Trópicos. A dinâmica imperial portuguesa
(séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; Florentino, Manolo. "De escravos, forros e fujões no Rio de Janeiro
Imperial". Revista USP. Dossiê Brasil Imperial, no 58, jul.-ago. 2003.
[7] Kopytoff, Igor. "Slavery". Annual Review of Anthropology, vol.11, 1982, pp.
221-22. Ver também Patterson, Orlando. Slavery and social
death. A comparative study. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1982.
[8] Cf. Miller, Joseph C. "O Atlântico escravista: açúcar, escravos e
engenhos". Afro-Ásia, nos 19-20, 1997.
[9] Cf. Schwartz, Stuart. Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade
colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, pp. 22-73; Alencastro, Luiz Felipe de. O trato dos viventes. Formação do Brasil
no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.
69. Todos os dados sobre o tráfico transatlântico de africanos
para o Brasil doravante citados foram retirados dessa fonte.
[10] Cf. Alencastro, O trato dos viventes, pp.188-246; Marquese, Rafael de
Bivar. Administração & escravidão. Idéias sobre a gestão da agricultura
escravista brasileira. São Paulo: Hucitec, 1999, pp. 42-49; Puntoni, Pedro. A mísera sorte. A escravidão africana no Brasil
holandês e as guerras do tráfico no Atlântico Sul, 1621-1648. São Paulo:
Hucitec, 1999.
[11] Cf. Emmer, P. C. "The Dutch and the making of the second atlantic system".
In: Solow, B. (org.). Slavery and the rise of the Atlantic System. Cambridge:
Cambridge University Press, 1991.
[12] Cf. Schwartz, "Repensando Palmares", pp. 244-55.
[13] Cf. Schwartz, "Alforria na Bahia, 1684-1745", pp. 165-212.
[14] Marcílio, Maria Luiza. "A população do Brasil colonial". In: Bethell,
Leslie (org.). História da América Latina. Vol. 2: América Latina Colonial. São
Paulo: Edusp/Funag, 1999, p. 321.
[15] Para uma visão de conjunto, ver o trabalho de síntese de Souza, Laura de
Mello & Bicalho, Maria Fernanda. 1680-1720. O império deste mundo. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000.
[16] Dentre esses estudos, veja-se com proveito Vallejos, Julio Pinto. "Slave
control and slave resistance in colonial Minas Gerais, 1700-1750". Journal of
Latin American Studies, vol.17, no 1, maio 1985.
[17] Reis, João José. "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". Revista USP.
Dossiê Povo Negro 300 anos. no 28, dez. 1995-fev. 1996, p.18.
[18] Apud Lara, Silvia. "Do singular ao plural: Palmares, capitães-do-mato e o
governo dos escravos", p. 90.
[19] Cf. Ramos, Donald. "O quilombo e o sistema escravista em Minas Gerais do
século XVIII". In: Reis, João José & Gomes, Flávio dos Santos (orgs.).
Liberdade por um fio. História dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia
das Letras, 1996.
[20] Russell-Wood, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 315.
[21] Cf. Watts, David. Las Indias Occidentales. Modalidades de desarrollo,
cultura y cambio medioambiental desde 1492. Madri: Alianza Editoral, 1992, pp.
355-70.
[22] Sobre a escravidão na América inglesa continental e na América espanhola,
ver Blackburn, The making of New World slavery, pp. 457-508.
[23] Cf. Marcílio, "A população do Brasil colonial".
[24] Alencastro, O trato dos viventes, p. 353.
[25] Cf. Florentino, Manolo. Em costas negras. Uma história do tráfico
atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVII e XIX).
Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
[26] Cf. Barickman, B. J. Um contraponto baiano. Açúcar, fumo, mandioca e
escravidão no Recôncavo, 1780-1860. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003.
[27] Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil, p. 9.
[28] Reis, op cit., p. 322.
[29] Cf. Needell, Jeffrey. "The abolition of the Brazilian slave trade in 1850:
historiography, slave agency and statesmanship". Journal of Latin American
Studies, vol. 33, no 4, nov. 2001.
[30] Para esta visão ideológica, ver os trabalhos de Sousa, Laura de Mello.
Desclassificados do ouro. A pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro:
Graal, 1983, e Lara, Silvia H. Fragmentos setecentistas.
Escravidão, cultura e poder na América portuguesa. Tese de livre-docência.
Campinas: IFCH/ Unicamp, 2004.
[31] Cf. Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Recife: Fundação Joaquim
Nabuco/Editora Massangana, 2002, capítulos XVIII e XIX, 2 vols. (1a ed. 1816).
[32] Apud Berbel, Márcia Regina & Marquese, Rafael de Bivar. "A escravidão
nas experiências constitucionais ibéricas, 1810-1824". Texto apresentado ao
Seminário Internacional Brasil, de um Império a Outro (1750-1850) (Departamento de História, USP, set. 2005). Disponível em
www.estadonacional.usp.br.
[33] Cf. Marquese, Rafael de Bivar & Parron, Tâmis Peixoto. "Azeredo
Coutinho, Visconde de Araruama e a Memória sobre o comércio dos escravos de
1838". Revista de História, vol.152, 1o semestre 2005, p. 122.