Assimetria e descompasso: as condições sociais na metrópole de São Paulo na
década de 1990
O presente trabalho analisa as mudanças ocorridas nas condições sociais na
cidade de São Paulo na década de 1990 a partir de indicadores dos Censos de
1991 e 2000.2 Essa década foi marcada por resultados econômicos pouco
expressivos e um saldo evidentemente negativo no mercado de trabalho, tanto sob
o ponto de vista do desemprego quanto das formas de proteção e rigidez do
trabalho. Apesar disso, os indicadores existentes sugerem que não ocorreu
deterioração social, exceto pelas questões do trabalho e da violência, não
tratadas aqui. Na verdade, os indicadores nos mostram, ao contrário, a
ocorrência de melhoria das condições sociais em termos materiais para o
conjunto da metrópole, embora seja possível sustentar também um aumento das
desigualdades de renda entre áreas. De forma similar, a observação desta
dinâmica em nível intra-urbano sugere que a grande maioria das áreas da cidade
acompanhou a média da região ao longo da década. A análise das poucas áreas que
pioraram ou melhoraram em relação à média indica que as suas mudanças de
condição são explicadas principalmente por processos locais ligados à produção
do espaço em si. Se por um lado isso nos leva a sustentar a melhora da situação
social, por outro lado indica que a distribuição das desigualdades sociais no
tecido metropolitano permaneceu praticamente inalterada nos anos 1990. O
objetivo do presente trabalho é apresentar e discutir essas dinâmicas.
O trabalho se estrutura da seguinte forma: em primeiro lugar, situamos o debate
mais geral sobre a situação social na cidade. Em seguida, realizamos a
comparação dos conteúdos sociais presentes na metrópole em 1991 e 2000,
apontando a melhora disseminada nos vários indicadores, mas destacando o
aumento das desigualdades de renda. Como a melhora encontrada poderia ser
explicada pela presença de mudanças intensas, mas muito concentradas,
detalhamos a análise para a escala intra-urbana na terceira seção, utilizando
dados no nível das áreas de ponderação3. Na última seção, discutimos os padrões
espaciais das situações de melhora ou piora social, mostrando que a sua
ocorrência se deve, na maior parte das vezes, a dinâmicas locais e específicas.
O trabalho se insere em um esforço analítico desenvolvido recentemente no
Centro de Estudos da Metrópole sobre pobreza e segregação espacial4.
O DEBATE SOBRE A DÉCADA PERDIDA
Os anos 1980 foram marcados por uma dinâmica econômica bastante instável,
caracterizada por surtos inflacionários de vulto, programas de estabilização
econômica frustrados e episódios recessivos. Apesar dos avanços significativos
no campo político marcando o início da consolidação da democracia5, o resultado
geral da década sob o ponto de vista econômico foi bastante negativo. A
divulgação das informações sociodemográficas no início dos anos 1990, em
especial do Censo de 1991, por outro lado, mostraram uma substancial melhora
nos indicadores sociais da década6 e uma razoável estabilidade nos patamares de
pobreza7. Para inúmeros analistas estaria montado um paradoxo, visto que as
péssimas condições econômicas não teriam se refletido intensamente sobre o
social. Esse paradoxo veio a ser conhecido como o debate sobre a década
perdida8. No interior das análises desenvolvidas, havia basicamente duas
explicações (não excludentes) para a melhora dos indicadores em um momento de
deterioração das condições econômicas ação dos movimentos sociais urbanos ao
longo da década e a inércia das políticas estatais constituídas nos anos 1970 e
ainda operantes nos anos 19809.
Sob um certo ponto de vista, os anos 1990 reproduzem um paradoxo similar. Isso
porque, em primeiro lugar, tivemos resultados econômicos bastante tímidos sob o
ponto de vista do crescimento, assim como experimentamos importantes
transformações no mercado de trabalho, não apenas com a expansão da
precarização e do desemprego10, mas também com o enfraquecimento da fronteira
entre emprego e desemprego11. Além disso, a desagregação territorial do
desemprego na década indica dois processos negativos. Por um lado, a década foi
marcada por uma elevação paulatina das taxas em todas as regiões da cidade, o
que já seria negativo por si só. Por outro lado, entretanto, as taxas tenderam
a se elevar a um ritmo muito maior nas áreas periféricas, indicando que os mais
pobres foram mais atingidos pela dinâmica12.
O único elemento econômico positivo da década diz respeito à estabilização
econômica, que tendeu a produzir impactos positivos sobre as condições de
pobreza e destituição social, embora o efeito desses tenha se esgotado em
período curto de tempo13. Sob o ponto de vista dos rendimentos, o saldo desses
processos tendeu a ser negativo na década, em especial nas grandes metrópoles.
No caso de São Paulo, as informações obtidas da pesquisa de Rocha14,
trabalhando com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios),
sugerem a existência de 39% de pobres na população metropolitana, ou 6,4
milhões de indivíduos, em 1999. Dados da mesma fonte indicam que a proporção
das famílias com renda muito baixa tendeu a se elevar substancialmente nos
últimos anos na cidade, passando de 8,8 para 14,0% a proporção dos indivíduos
que morava em famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo
entre 1995 e 200315. Vale lembrar que tudo isto ocorreu mesmo se observando uma
diminuição do tamanho das famílias16, e um aumento significativo da inserção
dos membros das famílias no mercado de trabalho, em especial das mulheres17.
Por fim, os efeitos dessa degradação do trabalho e da renda sobre o consumo das
famílias já não são tão evidentes. A comparação entre os Censos sugere que o
acesso a bens de consumo durável parece ter se elevado substancialmente, mesmo
entre os mais pobres18.
Apesar de tal cenário econômico, as informações existentes sugerem a presença
de importantes processos de melhora nos indicadores ao longo da década de 1990,
ao menos na cidade de São Paulo. Esse fenômeno pode ser observado nos
indicadores de escolaridade e saúde19, assim como nas condições habitacionais
em geral20 e na situação dos moradores de favelas em particular21, embora
possam persistir locais com condições extremamente precárias como foi descrito
por Torres e Marques22. A única exceção generalizada neste quadro de melhora
está concentrada na dinâmica da violência urbana, que se agravou em
praticamente todas as suas dimensões23. A vinculação entre a violência urbana e
a questão social em sentido mais amplo, entretanto, ainda permanece em grande
parte como um tema em aberto.
De forma similar, também é bastante complexa a associação entre as condições
materiais de vida e as percepções subjetivas que têm delas os moradores da
cidade. Embora estas sejam extremamente importantes, e em parte se relacionem
com a situação objetiva, são mediadas por inúmeras dimensões externas aos
elementos que analisamos neste trabalho. É possível, portanto, que se observem
importantes melhoras nas condições materiais, e que ao mesmo tempo a percepção
dominante em uma dada região da cidade seja de degradação. A sensação de
insegurança, por exemplo, parece ter produzido um efeito importante na
construção de uma certa percepção negativa sobre a situação da cidade e sobre o
que significa viver nela recentemente24.
Essa situação parece ainda mais paradoxal do que a dos anos 1980, se
considerarmos que os dois principais atores mobilizados pela literatura para
explicar a dinâmica social desse período enfrentaram importantes restrições na
década seguinte, com o refluxo dos movimentos sociais e a existência de fortes
restrições orçamentárias à ação do Estado.
Embora não esteja entre os objetivos deste artigo testar as razões do aparente
paradoxo, consideramos que talvez o problema não esteja nos processos concretos
que vêm ocorrendo, mas nos modelos explicativos que tendem a associar de forma
determinante os processos econômicos (e do mercado de trabalho) com as
condições sociais. Esses elementos são de vital importância e talvez expliquem
a dinâmica de elevação da desigualdade de renda entre áreas, como veremos.
Entretanto, outras dimensões também têm grande relevância na determinação das
condições sociais, como a estrutura da família e a integração dos seus membros
no mercado de trabalho, a oferta de políticas públicas, a vida social e
associativa nas comunidades de baixa renda e as transformações que são operadas
no espaço (e em especial nos processos de segregação)25, assim como o acúmulo
do esforço dos próprios indivíduos e famílias em suas trajetórias ao longo de
décadas26. Em um sentido mais geral, todos estes elementos se inserem em um
quadro mais amplo e de longo prazo ligado à mudança nos padrões de provimento
de políticas pelo Estado no período democrático recente, elemento absolutamente
central para a determinação das condições sociais27.
Este artigo não pretende analisar a influência desses processos sobre as
situações sociais, mas executar uma tarefa mais simples. O que propomos é
apresentar e discutir, de forma empiricamente embasada, o que ocorreu com as
condições sociais na década de 1990 no conjunto da Região Metropolitana de São
Paulo e em seus espaços.
Observemos essa dinâmica.
A SITUAÇÃO SOCIAL DA METRÓPOLE NA DÉCADA DE 1990
Para compararmos as condições sociais nos dois extremos da década, tabulamos um
conjunto de indicadores escolhidos dos Censos de 1991 e 2000, tendo como
unidade de análise as áreas de ponderação e incluindo indicadores que fossem
equivalentes e comparáveis nos dois Censos. A tabela a seguir apresenta tais
indicadores. Optamos por trabalhar com informações geradas a partir das áreas
de ponderação, e não com dados produzidos diretamente a partir dos microdados,
para podermos analisar a dinâmica da desigualdade entre áreas da cidade. Esta,
na verdade, é uma particularidade do presente artigo que deve ficar clara desde
já para os leitores. Nossos resultados estarão quase sempre relacionados a
áreas, e não a indivíduos e famílias. Se por um lado essa decisão analítica nos
permite discutir a dinâmica das condições e das desigualdades entre regiões da
cidade, por outro nos leva a limitações com relação à interpretação dos
resultados para as famílias e indivíduos que habitam cada espaço específico.
Por essa razão, atemo-nos a discutir as informações no nível analítico em que
foram gerados.
Como podemos ver, de uma forma geral os indicadores sugerem uma melhora das
condições sociais básicas28.
Em primeiro lugar, podemos observar uma elevação bastante significativa da
renda média do responsável por domicílio entre 1991 e 200029. Essa informação
deve ser considerada com certa cautela, visto que o poder de compra do salário
mínimo mudou substancialmente no período, assim como a cesta de bens e serviços
públicos consumidos, em especial pelos mais pobres, alterando o significado do
salário mínimo, como já nos referimos na seção anterior. Por outro lado, essa
elevação foi acompanhada de um grande aumento da dispersão dos salários, visto
que o desvio padrão dos salários cresceu bastante, inclusive como proporção da
média. A análise das distribuições nos dois extremos da década indica que esse
aumento se deve principalmente ao afastamento das rendas dos responsáveis de
maior poder aquisitivo da média, sugerindo que o aumento da renda pode se dever
mais a um efeito de concentração dos rendimentos nos grupos de renda mais alta
do que de melhora disseminada.
Considerando as dificuldades envolvidas com as comparações intertemporais desse
tipo de dado, resolvemos calcular para cada área de ponderação os quocientes de
renda (também incluídos na Tabela_1), definidos como a razão entre salário
médio na área de ponderação e o salário médio no conjunto da região, ambos
referidos a uma data específica. A utilização desse indicador resolve o
complicado problema analítico de atualização dos valores dos salários
considerando não apenas a inflação, mas também as alterações do poder de
compra. O seu valor médio é obviamente igual à unidade, visto que para o
conjunto da cidade dividimos a média pela média em uma data específica.
Entretanto, podemos observar que o desvio dos quocientes se eleva na década,
indicando mais uma vez a elevação da dispersão dos rendimentos entre áreas.
Com relação aos rendimentos, portanto, podemos afirmar com certeza o aumento da
desigualdade, mas não podemos sustentar de forma conclusiva a presença de uma
melhora generalizada nos rendimentos, embora na média tenha havido uma melhora.
Dadas as limitações da variável, não consideramos apropriado desagregar os
dados e analisar os valores individuais dos rendimentos nas áreas de
ponderação, a exemplo do procedimento adotado no restante desta seção para as
demais informações.
A tabela indica também que a escolaridade na região melhorou muito, confirmando
as informações já amplamente presentes no debate acadêmico30. Isso é visível na
média dos anos de estudo dos responsáveis por domicílio, que passou de 6,69
para 7,30 anos, mas também no desvio médio dessa mesma variável, que se reduziu
relativamente, sugerindo uma maior convergência em direção à média. A
participação relativa de pessoas alfabetizadas e a proporção de mulheres
responsáveis por domicílio alfabetizadas também aumentaram, com quedas
correspondentes dos desvios padrão entre áreas de ponderação. Em termos gerais,
portanto, não apenas as condições médias de escolaridade melhoraram, como as
desigualdades em relação à escolaridade tenderam a se reduzir.
A princípio, a melhora dos indicadores sugerida pela Tabela_1 poderia ser
causada pela elevação das condições de forma concentrada, mesmo com a presença
de declínio da situação social em outras partes da cidade. A observação dos
gráficos que se seguem afasta essa possibilidade.
O Gráfico_1 a seguir apresenta a comparação de um indicador de escolaridade
para as áreas de ponderação no início e no final da década. Se não houvesse
melhora, a nuvem de pontos se distribuiria ao longo de uma reta com uma
inclinação de 45º passando pela origem. Como podemos ver, a melhora é bastante
generalizada e se concentra em especial nos grupos de escolaridade mais baixa.
Os demais indicadores de escolaridade seguem o mesmo padrão.
Com relação às condições habitacionais em geral, observamos em primeiro lugar
um aumento do percentual da população que habita setores subnormais. Este
crescimento relativo foi acompanhado de uma elevação do desvio padrão desta
variável, evidenciando que a população subnormal passou a estar mais
desigualmente distribuída entre as áreas31. Contudo, o aumento da proporção da
população em setores subnormais deve ser visto com cautela, pois pode expressar
uma atualização da classificação desses setores para o censo de 2000,
considerando que a base de 1991 apresentava deficiências já conhecidas32. Na
verdade, embora a presença relativa de favelas tenha aumentado, os indicadores
médios dos moradores de tais núcleos não apenas melhoraram, mas o fizeram em um
ritmo mais intenso que o conjunto da cidade, tornando a informação difícil de
analisar sob o ponto de vista da dinâmica social da cidade33. De qualquer
forma, como podemos ver no Gráfico_2, a região apresenta situações muito
diversas, com a população em setores subnormais aumentando em muitas áreas de
ponderação e se reduzindo em muitas outras. Assim como no gráfico anterior,
áreas de ponderação acima da reta (que neste caso tem aproximadamente 45º e se
inicia na origem) tiveram elevada a proporção de seus moradores que habitam
setores subnormais, ao contrário das áreas localizadas abaixo da reta.
Os demais indicadores associados à condição das habitações também sugerem
melhora social significativa. Há uma queda importante dos domicílios sem
esgotamento sanitário, o que indica avanços expressivos na cobertura desse
serviço no conjunto da cidade, embora a elevação da dispersão relativa desta
variável sugira que o serviço ainda não alcançou as piores regiões da cidade,
mas avançou bastante em áreas periféricas de melhores condições34. Por outro
lado, podemos observar a elevação do número de cômodos e banheiros por
habitantes e a redução de habitantes por domicílio. Porém, se no caso da
densidade domiciliar o desvio padrão diminui e a melhora é amplamente
generalizada (ver Gráfico_3 a seguir), os desvios padrão do número de cômodos e
banheiros por habitante aumentam, sugerindo que a melhora média ocorre com
aumento da dispersão, talvez associada à elevação do padrão das habitações da
população mais rica e já bem equipada. Essa informação é consistente com o
aumento da média e do desvio dos rendimentos dos responsáveis por domicílio que
já analisamos. No caso específico das condições habitacionais, isto pode ser
confirmado pela elevada dispersão na área superior do Gráfico_4. O gráfico de
banheiros por habitante tem comportamento similar.
Por fim, e também seguindo as indicações da literatura35, os dados relativos à
estrutura etária sugerem um significativo envelhecimento da população no
período, com a queda da proporção dos habitantes nas faixas etárias entre 0 e
14 anos e aumento da participação das faixas a partir de 15 anos. Observa-se
ainda elevação relativa da população idosa com idade superior a 65 anos.
De uma forma geral, portanto, os indicadores sociais sugerem melhora
substancial e disseminada nas condições sociais, exceto pela proporção da
população que mora em favelas. Por outro lado, o aumento da dispersão da renda
pode estar apontando para um aumento das já grandes desigualdades de riqueza na
metrópole.
OS GRUPOS SOCIAIS E A SUA DINÂMICA NA DÉCADA
Após a observação da dinâmica no conjunto da cidade, analisamos os espaços da
metrópole de forma desagregada, mas investigando conjuntamente os vários
indicadores das condições sociais. Para tal, utilizamos uma base espacial
comparável entre os censos produzida pelo Centro de Estudos da Metrópole (Cem/
Cebrap) mediante a agregação dos setores censitários de 1991 nos limites
espaciais das áreas de ponderação do Censo de 2000. Nossa estratégia de
comparação envolveu: i) a produção de uma classificação das condições sociais
em relação à média de 1991; ii) a produção de uma classificação das condições
sociais em relação à média de 2000, comparável com a anterior; iii) o
cruzamento das classificações, delimitando as áreas que se deslocaram com a
média, que pioraram ou que melhoraram relativamente. Observemos os resultados.
Em primeiro lugar, procedemos a uma análise fatorial dos indicadores sociais
relativos ao Censo de 1991 nas áreas de ponderação de 2000, para gerar uma
síntese da situação social no início da década. Esta análise incluiu treze
variáveis relativas a rendimento, escolaridade, estrutura etária e condições
habitacionais e urbanas, considerando as variáveis incluídas na Tabela_1 exceto
"% dos habitantes em setores subnormais". Esta variável apresentava
comportamento muito específico, sendo correlacionada com um segundo fator com
baixíssima capacidade explicativa (autovalor inferior a 1) e baixa
comunalidade, razão pela qual não foi considerada na análise final. Como vimos
anteriormente, esta é a única dimensão na qual pudemos encontrar piora das
condições médias. Optamos por analisar o comportamento desta variável
separadamente e de forma descritiva, e na próxima seção cruzaremos a sua
dinâmica com os processos de melhora ou piora social nas áreas de ponderação.
A análise resultou em um único fator que explica 81,1% da variância das
variáveis originais. A tabela a seguir apresenta a matriz dos componentes, com
as correlações entre o fator e as variáveis originais. Como podemos ver, o
fator pode ser interpretado como de riqueza e condições de vida, sendo mais
alto para as melhores condições sociais.
De maneira a construir um padrão diretamente comparável, introduzimos as mesmas
variáveis do Censo IBGE para o ano de 2000 na mesma estrutura obtida pela
análise com os dados de 1991. Desse exercício resultou um novo fator, agora
expressando a situação social em 2000. Esse fator mantém a organização das
informações referentes a 1991 e pode ser comparado de forma direta com o
anterior. Os dois fatores se apresentam fortemente correlacionados, como seria
de se esperar36.
Os gráficos a seguir apresentam os histogramas dos dois fatores. Como podemos
ver, os gráficos confirmam a informação já apresentada referente à melhora
social de uma parte expressiva da região, representada aqui por um deslocamento
de uma parte significativa do histograma para valores mais altos, à direita37.
Entretanto, também podemos observar um aumento da cauda esquerda da curva em
2000, assim como da amplitude do histograma, reforçando as evidências
anteriores de que a melhora das condições médias foi acompanhada de elevação da
desigualdade38.
Por fim, para permitir a comparação, os dois fatores foram categorizados em
intervalos de desvio padrão, resultando em: muito baixo (inferior a 1,5),
baixo (entre 1,5 e 0,5), médio (entre 0,5 e 0,5), alto (entre 0,5 e 1,5) e
muito alto (superior a 1,5). Cada área de ponderação foi então classificada
segundo a posição que ocupou nos dois fatores categorizados. As posições
relativas das áreas em cada classificação expressam as suas condições sociais
em relação ao conjunto das áreas no início e no final da década.
A Tabela_3 a seguir apresenta o resultado do exercício. Se todas as áreas se
mantivessem relativamente na mesma posição em relação à média (que, como já
vimos, melhorou), a tabela estaria preenchida apenas na diagonal. As áreas
classificadas acima da diagonal melhoraram de situação (hachura mais clara) e
as abaixo (hachura mais escura), pioraram de situação social.
Como podemos ver, a grande maioria das áreas de ponderação, 643 ou 85% do
total, apresenta estabilidade relativa ao longo da década. Apesar disso,
encontramos 54 áreas que apresentaram piora e 60 que apresentaram melhora,
todas em relação à média metropolitana. Em 2000, esses dois grupos abrigavam
1.255.604 e 1.205.070 habitantes, respectivamente. Isso representava apenas 7,1
e 7,9% das áreas ou 7,6 e 7,3% da população total, o que nos permite sustentar
que a dinâmica amplamente predominante na década foi de estabilidade nos
diferenciais intra-metropolitanos de condições sociais e de vida. Vale
novamente acrescentar que a única dimensão que não apresentou esse
comportamento diz respeito à população moradora de setores subnormais, sobre a
qual discutiremos mais adiante.
A DINÂMICA SOCIAL NOS ESPAÇOS DA METRÓPOLE
Iniciamos esta seção enfrentando um problema implícito no estudo da dinâmica
social com dados espaciais a possível confusão entre a ocorrência de
transformações sociais e a existência de processos de mudança populacional de
vulto em certos espaços ao longo de um período estudado. Esse problema poderia
nos levar, por exemplo, a considerar equivocadamente como melhora social a
mudança de indicadores de uma dada região onde tenha ocorrido importante
atividade imobiliária de alto padrão que tenha provocado a substituição de
grupos populacionais. De forma similar, locais sob processo intenso de
favelização podem apresentar piora de indicadores pela presença de uma
população ao final do período diferente da existente no início. Porém, em ambos
os casos as condições sociais se alteraram, menos por alteração das condições
da população original da região, e mais pelo surgimento de novos grupos
populacionais.
Na verdade, para além de representar apenas um problema metodológico, essa
questão aponta para a possível importância, nas dinâmicas mais gerais das
condições sociais na metrópole, de processos locais e específicos, ligados à
produção do espaço urbano em si. Como nosso objetivo central é analisar a
transformação das condições sociais na metrópole, investigaremos nesta seção se
há dinâmicas mais abrangentes explicando as situações de melhora e piora
relativa, ou se estas se devem a processos específicos.
Para testar a presença de tais fenômenos, iniciamos essa seção nos perguntando
qual a influência sobre os nossos resultados de quatro indicadores que apontam
para dinâmicas populacionais importantes: crescimento demográfico, migração
recente, favelização, e atividade imobiliária de alto padrão. Para testar as
três primeiras hipóteses, analisamos a relação entre a situação das áreas de
ponderação e: i) o crescimento demográfico 91/2000; ii) a proporção em 2000 de
chefes de migrantes recentes da Região Nordeste; e iii) o aumento percentual da
população moradora em setores subnormais entre 1991 e 2000 em cada uma das
áreas de ponderação39. A discussão mais pormenorizada da condição de áreas
específicas é feita mais adiante, ao final desta seção.
Com relação ao crescimento demográfico, os resultados de testes de médias entre
áreas nas três condições da Tabela_3 nos permitem sustentar que as áreas cujas
condições sociais pioraram apresentam taxas de crescimento demográfico
sistematicamente mais altas do que as áreas que ficaram nas mesmas condições ou
que as que obtiveram melhora40. Entretanto, há um subgrupo específico de áreas
que pioraram e que apresentam crescimento demográfico fortemente negativo.
A relação entre piora e crescimento demográfico é reforçada pela análise da
migração recente. A realização de testes de médias entre áreas que pioraram e
que ficaram estáveis permite sustentar a presença de uma proporção
substancialmente mais elevada de chefes migrados do Nordeste nos últimos dez
anos, tendo por referência o ano de 200041. Vale observar que nessas áreas a
presença de chefes não naturais do estado de São Paulo, uma outra informação
fornecida pelo Censo e que aponta para o "estoque" de migrantes, também se
mostra sistematicamente mais elevada do que nas áreas que não tiveram alteração
em sua situação social ou que melhoram na década42. Outros indicadores para o
ano de 2000 das áreas de ponderação que pioraram indicam que estas abrigam
população substancialmente mais preta e parda do que as áreas que ficaram na
mesma situação43.
Um resultado aparentemente similar se encontra no que diz respeito às favelas.
Nesse caso, testes de médias do aumento de população em setores subnormais
entre as áreas que pioraram e as outras duas situações nos permitem afirmar que
o aumento de setores subnormais está relacionado com as situações de piora44.
Entretanto, tal resultado depende de um conjunto específico de áreas de
ponderação que apresentaram incremento na presença percentual da população em
setores subnormais superior a 10%. Sem essas áreas, não há diferenças
estatisticamente significativas entre as áreas que pioraram e as demais.
Voltaremos a esse conjunto específico de áreas mais adiante.
Tais resultados nos levam a sustentar que dentre as áreas que pioraram se
encontram majoritariamente espaços com elevado crescimento demográfico
associado à migração nordestina recente e que alojam proporções mais elevadas
de pretos e pardos, com características similares ao que Torres45denominou de
fronteira urbana. A exceção em termos demográficos fica por conta de algumas
poucas áreas em regiões de esvaziamento urbano no centro de São Paulo. Por
outro lado, não podemos afirmar que essa piora esteja relacionada de forma
disseminada com processos de favelização, embora em um subconjunto das áreas
que pioraram este processo se mostre presente e significativo.
Para testar se as transformações observadas, e em especial a melhora, estaria
relacionada com a atividade imobiliária, realizamos um outro cruzamento com os
volumes de lançamentos imobiliários de alto e médio padrão (separadamente) na
região metropolitana entre 1993 e 200346. Considerando que as áreas diferem
muito em termos populacionais, dividimos os valores dos lançamentos em cada
área de ponderação pelo número de domicílios particulares permanentes de cada
uma delas em 2000, gerando uma densidade de investimento imobiliário.
Testes de médias entre as diversas situações e as densidades de investimento
não se mostraram significativas para o conjunto das áreas de ponderação.
Entretanto, dentre as sessenta áreas com melhora temos duas situações distintas
socialmente, dependendo da classificação em 2000: melhora para as condições
baixa e média (38 áreas) e melhora para as condições alta e muito alta (22
áreas). Quando analisamos cada uma dessas situações separadamente, obtemos
resultados interessantes.
As áreas que mudaram para as classificações alta e muito alta em 2000
apresentaram densidades de investimento superiores e estatisticamente
significativas, tanto em lançamentos de alto padrão quanto de médio padrão47,
sugerindo que a ação do setor imobiliário nessas regiões tende a ser muito mais
elevada também para este submercado. O mais interessante, entretanto, é que
essas áreas tiveram investimentos muito mais expressivos já no período anterior
a 1992 (1985/1992)48. Essa informação nos sugere que o processo de
transformação dessas áreas já estava em andamento e que se trata de uma
dinâmica relativamente gradual de transformação socioespacial.
Vale acrescentar, entretanto, os resultados das comparações dos investimentos
com as áreas de ponderação em outras situações. Em primeiro lugar, como é
intuitivo pensar, as densidades de investimento em áreas que melhoraram para
situações alto e muito alto são sistematicamente superiores quando comparadas
às das áreas que pioraram. Por outro lado, entretanto, os lançamentos nas áreas
que se tornaram alto e muito alto não são sistematicamente superiores aos
experimentados pelas áreas que permaneceram em situação estável. De fato,
quando observamos a dinâmica dos lançamentos, o que mais se associa à presença
de investimentos elevados é o fato de uma dada área ser classificada como alto
ou muito alto padrão já em 1991. A maior parte dessas áreas manteve a sua
condição ao longo da década e envolve áreas de bairros como Moema, Perdizes,
Jardins e Vila Mariana, por exemplo. Interpretamos esse resultado como parte da
inércia da própria produção imobiliária, que investe em novas áreas, mas
continua a agir maciçamente nas áreas já ocupadas pelos grupos sociais mais
ricos. Esse resultado, entretanto, não nos interessa centralmente, visto que
tentamos entender o significado das transformações ocorridas em certas áreas, e
não a dinâmica imobiliária em si.
Assim, sob o ponto de vista das preocupações deste artigo, podemos dizer que há
dois subgrupos dentre as áreas que melhoraram: i) locais cujas condições
permitem classificá-los como médio e baixo e ii) locais classificados como alto
e muito alto. Embora nada possamos afirmar com relação aos processos que levam
à produção dos primeiros, é possível sustentar que a ocorrência dos últimos
está fortemente correlacionada com a presença de investimentos imobiliários
expressivos, tanto para alta, quanto para média renda. Tais processos ocorreram
fortemente nos anos 1990, mas já estavam presentes com intensidade equivalente
na década anterior.
Observemos agora a distribuição espacial das áreas de ponderação que
apresentaram melhora ou piora expressiva na década, tentando descobrir a
existência de certas concentrações ou padrões territoriais específicos. Para
tal, associamos as informações das áreas de ponderação discutidas anteriormente
à base cartográfica de áreas de ponderação desenvolvida pelo Centro de Estudos
da Metrópole (Cem/Cebrap). O Mapa a seguir apresenta a informação, sendo as
letras nele incluídas indicativas das várias condições e referenciadas no texto
a seguir.
A primeira dimensão a destacar diz respeito à estabilidade da maior parte das
áreas. Considerando o que observamos no início da segunda seção, essa
estabilidade representa uma melhora geograficamente disseminada das condições
sociais, tendo em vista a elevação do patamar médio já descrita. Essa dimensão
deve ser encarada de forma evidentemente positiva.
Por outro lado, há um elemento negativo nessa estabilidade. Como destacado de
inúmeras formas por Marques e Torres49, a cidade de São Paulo continua sendo
marcada por enormes desigualdades sociais, que geram conseqüências de várias
naturezas em termos de perspectivas de vida, bem estar e vulnerabilidade
social. Sob esse ponto de vista, portanto, a dinâmica da década parece ter
contribuído muito pouco para a redução das desigualdades existentes, e para a
qual o Estado deveria ter contribuído de forma bem mais efetiva.
Outra observação geral diz respeito às áreas que pioraram ou que melhoraram.
Como podemos ver, a sua distribuição no tecido metropolitano é muito grande,
havendo poucos casos de concentração de áreas de uma dada condição, exceto pelo
processo de piora com decréscimo populacional no centro expandido do Município
de São Paulo. Na verdade, a ausência de fortes padrões expressa a importância,
na explicação dessas condições, de fatores e processos locais específicos
ligados aos próprios processos de produção do espaço urbano. Observemos algumas
dessas situações.
Com relação à distribuição das 54 áreas que pioraram, constatamos que 27 delas
tiveram taxas de crescimento demográfico na década superior a 3% ao ano. Estas
áreas se fazem presentes predominantemente em áreas localizadas na fronteira do
Município de São Paulo e em municípios adjacentes. Estão indicadas no Mapa como
"a", e assim se dispersam pelo território: no extremo norte do Município de São
Paulo temos Perus e Jaraguá; na porção sul, próximo à região dos mananciais,
engloba áreas nos distritos de Campo Limpo, Grajaú e uma área no município de
Santo André; na Zona Leste, inclui Vila Jacuí, Sapopemba e Cidade Tiradentes,
além de áreas nos municípios de Mauá, Suzano e Itaquaquecetuba; e, por fim, a
oeste, duas áreas no município de Osasco.
Como vimos, esse crescimento não está diretamente relacionado ao aumento da
população em setores subnormais, embora haja um subconjunto dessas áreas que
aliaram os dois processos (indicadas no Mapa como "b"). Elas se encontram
próximas às represas ao sul do Município de São Paulo, São Bernardo e Diadema,
e também na Zona Sul da capital, no distrito de Vila Andrade, uma área que
engloba a segunda maior favela do município, Paraisópolis; ao norte da região
metropolitana, representam uma porção significativa do território de Guarulhos;
assim como áreas dispersas, a oeste em Osasco; e, no Ipiranga, uma área
contígua ao complexo de favelas Heliópolis/São João Clímaco. Desse subconjunto,
apenas uma área no Jardim Helena, a leste da capital na divisa com Guarulhos;
uma área ao sul, no Jardim São Luís, e uma das áreas de Osasco não apresentou
elevada taxa de crescimento demográfico acompanhando o aumento de população em
setores subnormais. Por outro lado, um pequeno grupo de áreas localizadas no
Jaguaré, na Vila Maria, em Santana, no Limão, na Vila Jacuí, no Grajaú e em
Santo André sofreu piora das condições sociais e redução da população em
setores subnormais.
Vale mencionar uma região onde ocorreu melhora acompanhada de redução de
favelas. Trata-se de uma área no vetor sudoeste da cidade, no entorno da
avenida Águas Espraiadas (indicada no Mapa como "C"), cuja construção, que
envolveu grande volume de recursos através de uma Operação Urbana, removeu a
maior parte das favelas que se localizavam ao longo do córrego de mesmo nome.
Como relatou Fix50, grande parte das famílias expulsas dessa região se deslocou
para áreas próximas aos mananciais da Região Sul e para os conjuntos
habitacionais do extremo leste do município. Trata-se, neste caso, de uma ação
direta do Estado aumentando a segregação socioespacial.
Também constatamos a existência de áreas que pioraram e apresentaram perda de
população. Estão em bairros da área central da capital, como Santa Cecília,
República, Bela Vista e Cambuci; e outras, próximas ao centro, nos bairros da
Mooca, Belém e Tatuapé. Outra área da capital tem características similares e
encontra-se em Santana, junto ao Campo de Marte e ao Anhembi, logo a norte da
área central. Essas áreas, indicadas no Mapa como "d", localizam-se
predominantemente no núcleo de origem da cidade e em áreas contíguas a ele,
onde no início do século passado se instalaram as indústrias ao longo do eixo
ferroviário, e há duas décadas vêm passando por um processo de esvaziamento
populacional51.
Como vimos, as sessenta áreas que obtiveram melhora social relativa podem ser
divididas em dois subgrupos distintos, dependendo dos conteúdos sociais
resultantes. As áreas que apresentaram melhora para condições alta e muito alta
foram objetos de produção imobiliária de vulto para alta e média renda e
localizam-se em especial na Vila Andrade e na Vila Sônia, e em Barueri e
Santana do Parnaíba (indicados no Mapa como "E"). Esses espaços alojam muitos
condomínios fechados e concentram grande parte dos chamados enclaves
fortificados produzidos recentemente na cidade52.
Um último conjunto merece destaque, por incluir casos de melhora de áreas com
fator muito baixo para baixo e médio. Essas áreas (indicadas no Mapa como "F")
incluem espaços nos municípios de Carapicuíba e Poá, assim como em algumas
áreas da Zona Leste de São Paulo, em área intermediária entre as adjacências do
centro expandido e o extremo do município como Artur Alvim, Parque do Carmo,
José Bonifácio, e São Miguel. Os conteúdos sociais de tais áreas sugerem
tratar-se de periferias em processo de consolidação.
RESUMINDO AS TENDÊNCIAS
As informações apresentadas ao longo deste artigo sugerem que na década de 1990
a Região Metropolitana de São Paulo vivenciou de uma forma geral uma melhora
das condições sociais e de vida, embora a estrutura das desigualdades espaciais
tenha ficado praticamente inalterada. Isso ocorreu apesar das possíveis
percepções negativas dos moradores, do aumento da violência urbana e do cenário
econômico negativo vivido pela região ao longo da década, em especial no que
diz respeito ao mercado de trabalho. Este parece ter afetado mais fortemente a
renda, que melhorou em termos médios, mas se tornou ainda mais desigual.
Ao longo do artigo, analisamos o fenômeno em dois planos analíticos. O primeiro
deles explorou informações para o conjunto da cidade. Os indicadores analisados
apontaram a elevação da renda, mas combinada com um aumento da dispersão entre
as rendas médias nas áreas, o que sugere um crescimento das já enormes
desigualdades de rendimento presentes na cidade. No caso da escolaridade, ao
contrário, pudemos observar melhora generalizada acompanhada de redução das
desigualdades, produzida em especial por uma importante elevação da
escolaridade dentre os mais pobres. As informações relativas à infra-estrutura
urbana e habitação também indicaram uma melhora generalizada, envolvendo uma
elevação das coberturas de esgotos sanitários (que representava em São Paulo o
único serviço urbano ainda bastante desigual socialmente no início da década),
assim como uma melhora nos indicadores relativos a cômodos e banheiros por
habitante e densidades domiciliares. A estrutura etária tendeu a ficar mais
velha, com a redução da presença relativa de crianças e jovens e a elevação da
presença de indivíduos nas faixas etárias mais velhas.
A única informação que pode sugerir uma piora da situação social é a associada
aos setores subnormais. Para o conjunto da cidade pudemos observar uma elevação
relativa da presença da população em tais núcleos, o que pode apontar para uma
piora da situação social sob o ponto de vista habitacional. Entretanto, estudos
anteriores mostraram uma melhora na situação social dos moradores desses
núcleos nos anos 1990, tornando difícil a interpretação geral da informação
para a dinâmica social na década.
Em um segundo plano de análise, desagregamos a dinâmica das condições sociais
nas áreas de ponderação. As informações obtidas indicaram que a situação geral
é de estabilidade em relação à média metropolitana, embora possamos observar
regiões que sofreram melhora e piora social na década. Dentre as áreas onde a
situação social piorou, pudemos encontrar regiões em intenso processo de
crescimento demográfico e que continuaram recebendo migrantes em grandes
proporções. Nestes locais, que representam 7,6% da população em 2000 (ou 1,26
milhões de pessoas), as condições de vida se deterioraram na década quando
comparadas com a média metropolitana. Algumas dessas áreas foram ainda objeto
de processos importantes de favelização.
Por outro lado, as áreas que melhoraram com relação à média metropolitana
7,3% (ou 1,21 milhão em 2000) podem ser divididas em duas situações: regiões
que mudaram para condições baixa ou média; e outras que mudaram para alta ou
muito alta. No caso das primeiras (cerca de 798 mil habitantes), não
encontramos relação com processos intensos de crescimento demográfico ou com
atividades imobiliárias. Com relação às segundas (407 mil moradores),
entretanto, as informações indicam que se trata de áreas sob intensa atividade
imobiliária, não apenas do mercado para alta renda, mas também da produção
imobiliária para média renda. Na verdade, as informações indicam que essas
áreas já vinham sendo objeto de maciços investimentos imobiliários nos anos
1980, sugerindo a ocorrência de processos paulatinos de transformação
socioespacial.
Em termos territoriais, os dados analisados sugerem uma grande estabilidade nas
condições relativas da quase totalidade das áreas de ponderação. Como a média
tendeu a se deslocar para cima, podemos dizer que a maioria das áreas tendeu a
melhorar. O padrão de localização das áreas que pioraram sugere a presença de
processos localizados e heterogêneos de produção dos espaços periféricos. De
forma similar, as áreas que melhoraram, tanto aquelas que foram alvo de
produção expressiva do mercado imobiliário quanto as que melhoraram para
condições baixas e médias se localizam de forma bastante dispersa. Isso sugere
que tais mudanças de condição estão associadas a processos específicos de
produção do território e não a dinâmicas abrangentes.
O arquivo disponível sofreu correções conforme ERRATA publicada no Número 74 da
revista.
[1] Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada no XI Encontro da ANPUR.
Os autores agradecem a Haroldo Torres e Renata Bichir pelas leituras atentas e
diversas sugestões à versão original do artigo, as quais ajudaram a torná-lo
mais claro e focado.
[2] O estudo cobre a mancha urbana conurbada, incluindo os 21 municípios mais
significativos demograficamente e que abrigavam 91,4% da população total da
região em 2000.
[3] Para o IBGE, a Área de Ponderação define-se como sendo a menor unidade
geográfica para divulgação dos resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000,
formada por um agrupamento de setores censitários.
[4] E, nesse sentido, retoma argumentos presentes in Marques, E. & Torres,
H. São Paulo: segregação, pobreza urbana e desigualdades sociais. São Paulo:
Ed. Senac, 2005.
[5] Cf. Fiori, J. e Kornis, G. "Além da queda: economia e política numa década
enviesada". In: Guimarães, R. e Tavares, R. Saúde e sociedade no Brasil dos
anos 80. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.
[6] Cf. Reichenheim, M. e Werneck, G. "Adoecer e morrer no Brasil dos anos 80:
perspectivas de novas abordagens". In: Guimarães, R. e Tavares, R., op. cit.;
Tavares, R. e Monteiro, M. "População e condições de vida". In: Guimarães, R. e
Tavares, R., op. cit.; Simões, C. "Novas estimativas de mortalidade infantil,
(1980/87)". In: Perfil estatístico de crianças e mães no Brasil ' Mortalidade
infantil e saúde na década de 1980. Rio de Janeiro: IBGE, 1989.
[7] Cf. Rocha, S. "Pobreza metropolitana e os ciclos de curto prazo: um balanço
dos anos 80". Boletim Conjuntural. IPEA, nº 12, 1991.
[8] Cf. Silva, L. C. (coord.). O que mostram os indicadores sociais sobre a
pobreza na Década Perdida. Relatório de pesquisa IPEA, 1992; e
Rocha, S., op. cit.
[9] Cf. Faria, V. "A Conjuntura Social Brasileira: Dilemas e Perspectivas".
Novos Estudos, nº 33, 1992.
[10] Cf. Baltar, P. Mercado de trabalho na região metropolitana de São Paulo:
modificações na estrutura ocupacional. Trabalho apresentado no XIII Encontro
Nacional da ABEP, Caxambu, 2002.
[11] Cf. Guimarães, N. Transições ocupacionais e formas de desemprego em São
Paulo e Paris. Trabalho apresentado no Seminário Estrutura Social e Segregação
' São Paulo, Rio de Janeiro e Paris. Cem/Cebrap, 2004.
[12] Cf. Gomes, S. & Armitrano, C. "Local de moradia na metrópole e
vulnerabilidade ao (emprego e) desemprego". In: Marques, E. & Torres, H.
(orgs.), op. cit.
[13] Cf. Rocha, S. Pobreza no Brasil: afinal, do que se trata? São Paulo: Ed.
FGV, 2003; e idem, "As metrópoles brasileiras às vésperas do
terceiro milênio". Econômica, n. 4, 2000. Obtido no site: http://www.uff.br/
cpgeconomia/v2n2/2-soniarocha.pdf.
[14] Pobreza no Brasil: afinal, do que se trata? São Paulo: Ed. FGV, 2003.
[15] Cf. Cem/Cebrap. Mapas da vulnerabilidade sociais de São Paulo, Rio de
Janeiro e Salvador. Relatório parcial de pesquisa. Cem/Cebrap/FINEP, 2005
(mimeo).
[16] Ver Ramos, D. & Lazo, A. A vulnerabilidade econômica das famílias
residentes na região metropolitana do Rio de Janeiro no período 1991-2000.
Trabalho apresentado no XIV Encontro da ABEP, Caxambu, 2004, para o caso do Rio de Janeiro.
[17] Gonçalves, M.; Peres, E. & Wajman, S. Taxas de participação (formal e
informal) feminina no mercado e trabalho das regiões Sudeste e Nordeste: uma
análise a partir das PNAD's: 1992-2000. Trabalho apresentado no XVI Encontro da
ABEP, Caxambu, 2004.
[18] Para isto também contribuiu a alteração dos preços relativos na década.
Enquanto os preços dos alimentos básicos tenderam a cair, a cesta de bens se
expandiu, e as tarifas públicas se elevaram muito. Como os sinais dos dois
processos são trocados, é difícil determinar a direção predominante, para além
dos problemas técnicos da atualização dos valores na década. Outra possível
explicação para o aumento do consumo destaca a significativa elevação do
crédito disponível para os grupos sociais de menor renda em anos recentes.
[19] Seade. Cadernos do Fórum São Paulo Século XXI. São Paulo: Imprensa
Oficial, 2000.
[20] Kowarick, L. Vulnerabilidade sócio-econômica e civil em bairros populares.
Trabalho apresentado no Seminário Estrutura Social e Segregação ' São Paulo,
Rio de Janeiro e Paris. Cem/Cebrap, 2004.
[21] Saraiva, C. & Marques, E. "A condição social dos habitantes de
Favelas". In: Marques, E. e Torres, H. (orgs.), op. cit.
[22] Torres, H. & Marques, E. "Reflexões sobre a hiperferiferia: novas e
velhas faces da pobreza no entorno metropolitano". Revista Brasileira de
Estudos Urbanos e Regionais, nº 4, 2001.
[23] Como se vê, por exemplo, no trabalho de Maia, P.; Cardoso, G. & Silva,
D. Mortalidade por agressão: um exercício com informações do atestado de óbito
georeferenciadas para o município de São Paulo. Trabalho apresentado no XIV
Encontro da ABEP, Caxambu, 2004.
[24] Caldeira, T. A cidade dos muros. São Paulo: 34 Letras/Fapesp, 2000.
[25] A agenda de pesquisa na qual este artigo está inserido tenta enfrentar a
análise do impacto de tais processos.
[26] Kowarick, L. O centro de São Paulo e seus cortiços: sociologia, história e
etnografia. São Paulo, 2005 (manuscrito não publicado); idem,As favelas em São
Paulo: sociologia, história e etnografia. São Paulo, 2005 (manuscrito não
publicado).
[27] Ver, por exemplo, as evidências apresentadas por M. H. Almeida ("A
política social do governo Lula". Novos Estudos, nº 70, 2004) sobre a melhora de inúmeros indicadores em nível nacional nos anos
1990. Discordamos da autora, entretanto, que tal quadro possa ser explicado
especificamente pelas políticas implementadas nos governos FHC. Parece-nos que
grande parte do que aconteceu ao longo da última década foi resultado das
mudanças que vinham acontecendo e sendo maturadas em diversos setores de
políticas desde os anos 1980.
[28] Os coeficientes de correlação simples entre as variáveis de 1991 e 2000
são: anos médios de estudo do responsável por dom.: 0,986; % pessoas
alfabetizadas: 0,936; % mulheres responsáveis por dom. alfabetizadas: 0,937; %
população 0 a 14 anos: 0,941; % população 65 anos e mais: 0,978; Habitantes/
dom.: 0,964; Cômodos/habitante: 0,956. Todas as correlações são positivas e
significativas a 99% de significância.
[29] Para 1991, construímos uma proxi da renda a partir dos pontos médios dos
intervalos correspondentes às faixas de renda, visto que a variável rendimento
total em si apresentava muitos dados perdidos. Essa proxi apresenta um
comportamento estatístico que se pode considerar como bastante consistente. O
coeficiente de correlação entre ela e os anos médios de estudo do chefe é de
0,97 (significativo a 99 %), enquanto para 2000 essa relação é de 0,89
(significativo a 99 %).
[30] Seade. Cadernos do Fórum São Paulo Século XXI. São Paulo: Imprensa
Oficial, 2000.
[31] Apesar disso, a relação entre o desvio padrão e a média se reduziu. Para o
IBGE, são Setores Especiais de Aglomerado Subnormal os conjuntos constituídos
por um mínimo de 51 domicílios, ocupando ou tendo ocupado até período recente
terreno de propriedade alheia (pública ou particular), dispostos, em geral, de
forma desordenada e densa, e carentes, em sua maioria, de serviços públicos
essenciais. Na prática, trata-se de uma definição administrativa do campo do
Censo e que por isso não substituir informações relativas às favelas. Sobre as
diferenças das definições e suas conseqüências ver, de Marques, E.; Torres, H.
& Saraiva, C., "Favelas no Município de São Paulo: estimando a sua presença
para os anos de 1991, 1996 e 2000" (Revista Brasileira de Estudos Urbanos, v.
5, nº 1, 2003). Na ausência de outras informações comparáveis
para o conjunto da região, utilizamos a informação do Censo.
[32] Como já se discutiu em Marques, E.; Torres, H. & Saraiva, C., op. cit.
[33] Cf. Saraiva, C. e Marques, E., op. cit.
[34] Como vimos na nota 29, esta variável apresenta problemas para um conjunto
grande de áreas de ponderação, o que nos levou a não comparar graficamente a
informação nas áreas de ponderação individuais.
[35] Seade. 20 anos no ano 2000: Estudos sociodemográficos sobre a juventude
paulista. São Paulo: Fundação Seade, 1998.
[36] Inicialmente, produzimos os z-scores das mesmas variáveis para 2000. Em
seguida, multiplicamos cada variável padronizada pelo coeficiente do score do
componente de 1991 e somamos a contribuição de cada variável. Por fim, o fator
resultante foi padronizado, de forma a permitir a comparação com o referente a
1991. O coeficiente de correlação de Pierson entre os fatores é de 0,977
significativo a 99% de significância.
[37] As médias e desvios padrão são iguais pela própria construção da análise,
pois as distribuições foram padronizadas. As diferenças nas distribuições
aparecem então como variação do formato dos histogramas.
[38] Uma área de ponderação apresentava dados com problemas em 2000 e não foi
incluída na comparação, reduzindo nosso universo comparativo para 757 áreas.
[39] Todas estas informações são originárias dos censos demográficos. Como não
dispúnhamos de dados individuais, mas de informações já agrupadas nas áreas de
ponderação, optamos por não aplicar um modelo estatístico preditivo (como uma
regressão logística, por exemplo), mas explorar a vinculação entre os processos
utilizando testes de médias e correlações simples na unidade de análise do
próprio dado (as áreas de ponderação).
[40] As áreas que pioraram tiveram crescimento médio de 4,6% aa, contra 1,7% aa
das que se mantiveram iguais e 0,9% aa das que melhoraram. A diferença entre as
primeiras e as demais é significativa a 95% de significância. Dentro do
subgrupo que apresentou piora e crescimento negativo há seis áreas com
crescimento negativo superior a 3%.
[41] As áreas que pioraram apresentavam proporção de chefes migrantes recentes
de 11,4%, contra 6,4 % das que se mantiveram iguais e 5,4% das que melhoraram.
A diferença entre as primeiras e as demais é significativa a 95% de
significância.
[42] Neste caso, as áreas que pioraram tinham proporção de chefes não naturais
de 39,0%, contra 30,8% das que se mantiveram iguais e 30,4% das que melhoraram.
A diferença entre as primeiras e as demais é significativa a 95%.
[43] As áreas que pioraram apresentavam proporção de pretos e pardos de 35,6%
em média, contra 29,7% das que se mantiveram iguais e 30,1% das que melhoraram.
As diferenças entre as que pioraram e as demais são significativas a 95% de
significância.
[44] As áreas que pioraram apresentavam incremento na presença de moradores em
setores subnormais de 4,5% em média, contra 1,5% das que se mantiveram iguais e
0,07% das que melhoraram. As diferenças são significativas a 95% de
significância.
[45] Torres, H. "A fronteira paulistana". In: Marques, E. & Torres, H.
(orgs.), op. cit.
[46] Os dados têm origem em informações da Empresa Brasileira de Estudos de
Patrimônio (Embraesp), analisados por Marques em "A dinâmica imobiliária em São
Paulo" (In: Marques, E. e Torres, H. (orgs.), op. cit.). Esta empresa mantém um
banco de dados com informações dos lançamentos divulgados em anúncios de
jornais e distribuição de folhetos nas ruas. Os dados desse banco tiveram seus
valores financeiros tratados e foram georeferenciados. Para maiores detalhes,
ver Marques (idem). Utilizamos a periodização 1985/1992 e 1993/2000 definida em
Marques (idem) a partir da dinâmica da produção imobiliária.
[47] A média das densidades de investimento de alto padrão no período 1993-2003
nas áreas que melhoraram para alto e muito alto foi de 9.600,00 R$/dom., contra
1.000,00 R$/dom. nas áreas que melhoraram para baixo e médio (significativo a
95% de significância). No caso dos lançamentos de médio padrão, as densidades
de investimento foram de 7.600,00 R$/dom. e 1.600,00 R$/dom. respectivamente.
[48] A média das densidades de investimento em alto e médio padrão no período
1985-1992 nas áreas que melhoraram para alto e muito alto foi de 11.900,00 R$/
dom., contra 2.300,00 R$/dom. nas áreas que melhoraram para baixo e médio
(significativo a 95% de significância).
[49] Op. cit.
[50] Parceiros da exclusão. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001.
[51] Cf. Januzzi, P. & Januzzi, N. "Crescimento urbano, saldos migratórios
e atratividade residencial dos distritos da cidade de São Paulo". Revista
Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 4, nº 1 e 2, 2002.
[52] Caldeira, T., op. cit.