Demasiadamente pós-humano: entrevista com Laymert Garcia dos Santos
Quando se trata de refletir sobre as implicações sociológicas da tecnologia,
Laymert Garcia dos Santos é um dos poucos pensadores brasileiros a ir além da
mera repetição daquilo que já se sabe sobre o assunto. A radicalidade de suas
idéias e a maneira direta com que as expõe em debates, palestras, aulas e
entrevistas muitas vezes fazem com que seja classificado como "catastrofista"
uma injustiça, dada a evidente positividade de seu pensamento. Suas idéias têm
o poder de incomodar, principalmente pela sua capacidade de apontar tendências
cuja existência muitos prefeririam não admitir. E se o incômodo é o primeiro
passo para a mudança, talvez seja justamente por isso que Laymert vem
alcançando um reconhecimento cada vez maior por parte de jovens pesquisadores
no Brasil e no exterior.
Voz ativa em discussões que extrapolam os limites da universidade, Laymert
dedica-se a temas que vão das recombinações artísticas dos irmãos Chapman à
jurisprudência brasileira sobre biotecnologia e propriedade intelectual. Como
problemática transversal, tem sempre a tecnologia e suas implicações sociais,
foco que se formou durante seus estudos de pós-graduação na França nos anos
1970, quando freqüentou cursos de Michel Foucault e Gilles Deleuze e entrou em
contato com a obra de Gilbert Simondon. "Sempre tive grande dificuldade para
dizer o que fazia", diz Laymert. "Um belo dia, quando cheguei na Inglaterra
como professor visitante em 1992, [o sociólogo] Hermínio Martins falou: 'o que
você faz é Sociologia da Tecnologia'. A partir daí, adotei este rótulo."
Além de lecionar, como professor titular, no Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Estadual de Campinas, Laymert desenvolve uma pesquisa
sem paralelos no Brasil sobre aquilo que ele chamaria de "o futuro do humano".
Parte dessa pesquisa já pode ser conhecida nos últimos capítulos de seu mais
recente livro, Politizar as novas tecnologias: O impacto sócio-técnico da
informação digital e genética(São Paulo: Editora 34, 2003), que traz também uma
boa amostra de sua produção ao longo da década de 1990.
Laymert concedeu esta entrevista ao grupo de pesquisa "Conhecimento, Tecnologia
e Mercado", CTeMe, que ele lidera, logo após retornar de um período de seis
meses na Europa, onde deu continuidade a sua pesquisa atual e dividiu, com
Cynthia Morrison-Bell, a curadoria da exposição coletiva Citizens, em Londres.
Cecília ' O objetivo central do seu último livro é discutir o desenvolvimento
tecnocientífico. Mas, em alguns âmbitos, pelo menos no Brasil, não é possível
sequer abordar a questão. Que tipo de reação provoca uma proposta como essa?
Eu concordo plenamente. É por isso que algo que parece óbvio, como politizar as
tecnologias e politizar a questão da tecnociência, aparece como uma provocação.
Eu acho que é óbvio porque não existe, no meu entender, nenhum setor da
sociedade que possa se colocar acima dela; e é o que acontece aqui. O simples
fato de trazer a questão à tona incomoda, e eu vejo isso pela reação de
cientistas quando participo de seminários. A simples menção à possibilidade de
questionar o que eles estão fazendo é tomada como uma tentativa inaceitável de
imposição de limites, e somos imediatamente catalogados como fundamentalistas,
arcaicos, anacrônicos.
Acho que praticamente não existe essa discussão no Brasil. Quando se trata de
questionar o estatuto da tecnologia, o máximo que as pessoas conseguem é
discutir políticas tecnológicas. Mas há uma questão anterior, muito maior. E
essa questão, na verdade, é uma "não-questão".
Aqui, o problema da tecnologia soma-se ao fato de que o país é pobre. Em país
pobre, tecnologia é fetiche. Em que sentido é fetiche? Se você pode aceder à
tecnologia, isso faz uma diferença, e é uma diferença de status, de prestígio.
A tecnologia faz uma diferença social. Então, o entendimento de que se está
dentro do progresso ou da evolução tecnológica é feito pela via do consumo, e
não pela via da produção ou da inovação. As elites pensam que basta aceder ao
uso para se alcançar a modernidade. É por isso que considero a discussão muito
limitada: o máximo que se consegue é o acesso a ela através do uso, e não a sua
produção.
Percebi isso de uma maneira muito tosca quando voltei da França em 1980 e fui,
com minha mulher, fazer fotografia para documentos numa galeria na rua Augusta.
Ao lado da máquina que, a princípio, deveria fazer automaticamente a
fotografia , havia uma mulher uniformizada com uma tesourinha na mão.
Comprava-se uma ficha dessa mulher, ela botava a ficha na máquina, ajustava o
banco e fazia todas as operações como se estivéssemos num estúdio fotográfico.
Quer dizer, havia uma espécie de acoplamento entre uma tecnologia automática e
a figura arcaica dessa mulher, que mostrava uma inadequação e um engate
bastante complicado. Eu nem acho que esse engate seja apenas negativo. Temos aí
o Christian Kasper1, que estuda em seu doutorado questões de tecnologia no meio
dos moradores de rua, pensando tecnologia como desvio de função.
O Félix Guattari achava que o barato do Brasil era esse. Numa certa época,
durante os anos 80, ele viajava anualmente para o Brasil ou para o Japão,
alternando os destinos. Ele achava isso interessante porque podia comparar como
a tecnologia se inseria socialmente na Europa (ele vivia em Paris) e em outros
lugares. Ele gostava de ver, por exemplo, como uma jovem baiana negra que se
vestia de Pombagira no Candomblé, quando saía do ritual pegava seu walkman, se
acoplava naquela máquina e saía rebolando. Era um tipo de ligação com a
tecnologia que, segundo ele, só podia acontecer por causa das diferenças de
temporalidade. Portanto, essa história tem um lado positivo e um lado negativo.
Acho que precisamos, no Brasil, de um estudo aprofundado sobre a questão da
tecnologia como fetiche, de como ela é apropriada como uso suntuário e
ostentação.
Martha ' O desenvolvimento da ciência e da tecnologia se faz através de
consórcios que ultrapassam as fronteiras nacionais. No Brasil, há uma
biodiversidade enorme não só nos recursos naturais, mas também humanos. No caso
da reprodução assistida, por exemplo, o Brasil fornece o material humano para
fazer pesquisa. Nesse sentido, não haveria um imaginário de que o Brasil está
participando na produção e na inovação dessas pesquisas?
Acho que sim, mas por um lado que considero negativo, pois ele fornece matéria
prima. O fato de essa matéria ser "gente" não se restringe à reprodução
assistida. Meu filho, que trabalha no Hospital das Clínicas, em São Paulo,
comenta o interesse de laboratórios e de pesquisadores estrangeiros pelas
patologias que se apresentam lá. São Paulo é uma megalópole com todo tipo de
problema: tem uma diversidade cultural e humana enorme, mas uma legislação que
nem sempre funciona, permitindo que certas patologias possam ser estudadas como
num campo de provas. Os países onde a legislação é mais frouxa são
transformados em lugares para testes e pesquisas. O Brasil participa desse
processo de pesquisa de ponta pelo lado ruim justamente porque não existe
regulação das atividades e, quando existe, pode ser burlada. Bom seria se
tivéssemos a possibilidade de, por exemplo, transformar em patenteamento
pesquisas feitas pela força do desenvolvimento tecnológico local. Ora, quando
se comparam as estatísticas de desenvolvimento de patentes, nota-se que a
participação do Brasil é irrisória. Portanto, estamos na corrida de um modo
problemático.
Osvaldo ' O que você entende por pós-humano e qual é a relação entre o pós-
humano e o humanismo?
Eu acredito que há uma crise com relação às categorias do humanismo, e a
questão do pós-humano está ligada a isso. Existem várias perspectivas para ler
o que está acontecendo. Hermínio Martins qualificou duas perspectivas
fundamentais: uma é a via da singularidade, que é a mais radical porque entende
o pós-humano como uma superação do humano que literalmente o deixa para trás.
Pertence a essa via a aposta que é feita na inteligência artificial e no
desenvolvimento daquilo que seria a abertura de um outro tipo de evolução, que
viria com os robôs. O humano seria superado porque, tal como existe hoje, ele
estaria obsoleto. Essa é uma via radical e otimista, pois acha que, se seu
corpo é um hardware falho e ultrapassado, você pode fazer um download de sua
mente num corpo que seja melhor. Mas a obsolescência do corpo estaria se dando
aos poucos, e não de uma só vez. Ela ocorre, por um lado, através de uma
necessidade aparentemente crescente de modificar o organismo mediante a
incorporação de próteses para lidar com a velocidade da transformação; e, por
outro, através da formulação de uma "exigência" cada vez maior de que o homem
precisa poder viver em ambientes que não são o seu habitat natural como as
viagens espaciais. Alguns cosmólogos, por exemplo, chegam a pensar que a vida
inteligente precisa continuar no espaço, caso uma catástrofe elimine todas as
condições de sobrevivência da espécie humana na terra, tentando antecipar este
fim.
Existe um segundo grupo, que é o da transformação biotecnológica ou
biogenética. Para eles, não há uma superação do humano, mas sim a sua
transformação. O pós-humano seria a possibilidade de se conceber a abertura de
uma segunda linha de evolução do humano através da sua transformação genética.
Essa segunda linha é menos radical do que a primeira, pois não postula
necessariamente uma obsolescência do humano, mas inaugura aquilo que alguns
estão chamando de um novo tipo de eugenia. Na eugenia negativa havia a
purificação da raça através da eliminação daqueles caracterizados como "humanos
deficientes". Na eugenia positiva, existe a possibilidade de se melhorar o
patrimônio genético por meio de transformações nas células germinativas que,
acumulando-se ao longo de muitas gerações, dariam origem a uma segunda linha de
evolução do humano. No futuro haveria uma diferença grande entre aqueles que
ainda evoluem de acordo com a seleção natural e aqueles que evoluem de acordo
com essa transformação genética.
Há ainda uma terceira linha de pensamento, que eu acho a mais interessante, que
considera que essas duas linhas constroem, ao lado da aceleração
tecnocientífica e econômica, uma espécie de grande narrativa da obsolescência
do humano e do futuro pós-humano. O capitalismo e a tecnociência estão
apresentando a obsolescência e a passagem para o pós-humano dessa maneira.
Mas podemos pensar isso de outra forma, levando em consideração não a técnica,
mas sim a máquina, ou seja, as maquinações. Em que medida os humanos são
maquinados também, em que medida eles pertencem ao mesmo terreno do pré-
individual, quais relações existem entre o humano e o não-humano, no sentido do
animal, no sentido da máquina? Que tipo de transformações ainda poderiam ser
atualizadas no humano? Partimos, portanto, do pressuposto de que não há
obsolescência do humano. Existe muita virtualidade, nem se sabe quanta, e nem é
o caso de quantificar. Supor que o humano está obsoleto é fechar uma
possibilidade aberta para construir a via que a tecnociência e o capital querem
colocar para nós. Então esse é um problema político. Essa linha representada
por Ansell Pearson, Brian Massumi, gente inspirada em Deleuze e Guattari, o
pessoal que pensa a biopolítica em termos foucaultianos até usa uma outra
palavra para se referir à questão do pós-humano. Eles falam em "transumano",
porque pensam essa questão tomando como referência o "para além do humano" de
Nietzsche, que não significa a morte do "homem", mas a morte do "Homem"
consagrado pelo humanismo e pelo Iluminismo. É claro que deve haver outras
tendências, mas o que eu conheço do campo é delimitado mais ou menos por aí.
Essa última linha é diferente da vertente religiosa ou da heideggeriana. A
religiosa percebe isso e tenta segurar, botar limites agarrados ao humanismo, a
referenciais que não se aplicam mais à situação. A heideggeriana, muito
diferentemente dos deleuzianos, está preocupada não com o devir, mas com a
essência, e por isso preocupa-se mais com a questão da técnica do que com a da
maquinação. O principal problema que tenho notado nesse grupo é uma valorização
do humano no que ele tem de animal, como se houvesse uma espécie de terreno a
salvaguardar. Esse problema é quente, pois um recuo para o animal implica a
tentativa de segurar uma espécie de "essência do humano" que já não tem
sentido. Essa posição não me interessa. A meu ver, o pensamento que tem futuro
é um pensamento que briga com a tendência dominante à construção da grande
narrativa e que, ao mesmo tempo, não tenta segurar a "essência do humano",
mesmo porque esse pensamento não a considera uma essência e nem que valha a
pena segurá-la.
Márcio ' É comum as pessoas dizerem que o corpo humano é uma máquina. Não
dizemos, por exemplo, que o coração parece uma bomba, mas que ele é uma bomba.
Por que, em sua opinião, não dizemos mais freqüentemente o contrário, ou seja,
que a máquina se assemelha ao corpo ou que a bomba parece um coração?
Mais interessante do que essa oposição é, justamente, a diferença. Porque o
importante é a diferença entre o humano e a máquina e em que nível podemos
pensá-la. O que me interessa, sobretudo no Simondon (acho que ele vai exercer
uma influência grande daqui para a frente, pois a sua importância está sendo
crescentemente reconhecida), é pensar a tecnologia como um processo de
individuação. Em que ponto nos encontramos e nos diferenciamos da máquina? No
que ele chama de "realidade pré-individual". Apesar das diferenças, existem
pontos de contato ou níveis de correspondência grandes entre nossa maneira de
individuar e o processo de individuação das máquinas. Por exemplo: a máquina é,
digamos, pensamento congelado, matéria concretizada. Ela já tem o humano
embutido. E nós, por outro lado, também temos muito de maquínico, pelo tipo de
agenciamento que fazemos em nossa relação com o lado de fora. Por esse motivo,
pensar a questão em termos de oposição é muito ruim: ou se antropomorfiza a
máquina, ou se mecaniza o humano. Como diz Simondon, todo pensamento que se dá
em termos de oposição acaba considerando a máquina um estrangeiro, um escravo.
Não é isso que interessa, mas saber em que medida podemos ter um tipo de
individuação que se dá junto com o processo de individuação das máquinas. Em
outros termos: de que maneira, ao nos individuarmos, atualizamos uma potência
virtual com as máquinas, que então também atualizam virtualidades que
pertenciam ao terreno do pré-individual.
A esse respeito, o pensamento de Deleuze e Guattari é interessante. A economia
libidinal, tal como proposta no Anti-Édipo 2, é um desejo maquínico que opera
junto de uma grande maquinação social, na qual a tecnologia e as máquinas são
um vetor. Mas elas só podem fazer o que fazem porque estão conectadas, de um
lado, ao desejo, e de outro, ao socius portanto, de um lado à economia
política, de outro à economia libidinal. A maquinação faz parte do humano.
Maquinação é agenciamento, ou agenciamentos moleculares a partir desse terreno
pré-individual onde nos encontramos com as máquinas, assim como com os animais
e o inanimado. Simondon, em sua trilogia,3 começa escrevendo sobre o modo de
existência dos objetos técnicos, mas depois passa aos processos de individuação
do físico, depois do ser vivo, depois do humano, até chegar ao coletivo. Quer
dizer, temos aí todo o processo de individuação naquilo que costumamos pensar
separadamente: o ser vivo, a máquina, o humano e o ser inanimado.
Emerson '
Em entrevista recente, Bernard Stiegler afirma que Deleuze "não pensou
verdadeiramente a técnica", pois "estava demasiadamente ligado a uma forma
bergsoniana de pensar" 4. Você concorda com essa afirmação, inclusive lembrando
que Deleuze também era um leitor de Simondon?
Acho uma grande bobagem o que o Stiegler diz nessa entrevista. É um comentário
tipicamente francês. O problema dos filósofos hoje na França é a sombra de
Deleuze e Foucault. Todos que são proeminentes hoje sabem que o são porque os
outros estão mortos, e isso faz diferença. Não estou falando só do Stiegler,
mas de outros também, como Badiou e até outros, melhores que o Stiegler. De
certa maneira, eles têm que matar os pais.
A afirmação é completamente injusta, porque se há alguém que pensou a
tecnologia na sociedade contemporânea, esse alguém é Deleuze; Deleuze e
Guattari, juntos (embora eu esteja indevidamente deixando de lado o Simondon).
Tenho a impressão de que se alguém fez a relação, pela maquinação, entre
economia política e economia libidinal (esse era o nome do curso de Deleuze em
Vincennes, na época em que todo mundo queria juntar Marx e Freud), foi
justamente Deleuze, com Guattari. É uma tremenda injustiça. Enfim, o Stiegler
diz isso porque precisa puxar para ele o cobertor.
Emerson ' De alguns anos para cá houve um aumento, no Brasil, de uma literatura
relacionada ao pós-humano, ao futuro do humano, inclusive nas artes, muitas
vezes com discursos simplistas e sem aprofundamento teórico e político. Como
você vê esse fenômeno?
Desde o início dos anos 90 eu acompanhava a discussão dos recursos genéticos e,
em função disso, comecei a me interessar por uma bibliografia que pudesse me
ajudar a entender a chamada "virada cibernética" e o conceito de "informação".
Resgatei então o que havia lido de Simondon, no final da década de 70, para
minha tese de doutorado. Apoiei-me bastante nele para pensar a questão política
da tecnologia. Simondon pretendia elaborar uma filosofia das máquinas diferente
da filosofia autocrática que se tinha até então e que via a máquina como servo
ou como senhor. Quando quis entender melhor essa questão da informação
genética, voltei ao Simondon e vi que sua filosofia sobre a informação era
muito mais do que uma leitura crítica da cibernética. Notei que ele me permitia
entender a transformação contemporânea. E foi porque eu entendi a virada
cibernética que acabei chegando à questão da incidência que isso tinha sobre o
humano, principalmente a partir da leitura da Donna Haraway, mas também porque
o Simondon me permitiu reler Deleuze e Guattari já em uma chave diferente,
agora pensando a informação dentro da questão do molecular.
Desde que estudei Simondon, sabia que só seria possível pensar a questão da
relação homem-máquina, mesmo num país de Terceiro Mundo, de maneira não-
autocrática. No Brasil, quando se estuda tecnologia (principalmente tecnologias
avançadas), é comum ouvir que "isso é assunto para Primeiro Mundo", que "aqui
tem gente morrendo de fome, populações excluídas da tecnologia". Eu não
concordo com isso: daí justamente a questão de politizar as novas tecnologias.
Primeiro porque Marx nos ensinou que, se é para estudar o capitalismo,
interessam não as suas formas mais atrasadas, mas o capitalismo de ponta, para
saber em que direção ele está caminhando. Por isso ele foi para a Inglaterra e
estudou o que havia de mais avançado naquele tempo. Portanto, se é para estudar
tecnologia, que seja tecnologia de ponta.
Não acho que estudar tecnologia de ponta em um país que não a tem ou não a
produz seja alienação, pois ninguém escapa desse processo global de aceleração
tecnocientífica, nem os Yanomami. Sem esse estudo, as opções tecnológicas serão
feitas sem que se tenha a mínima condição de discutir. O exemplo do acesso aos
recursos genéticos é um caso claro. Mesmo tentando discutir, vemos que existe
uma grande dificuldade de perceber o cerne da questão. Mas se não se tentar ao
menos discutir, só uma determinada maneira de implementação de opções
tecnológicas será feita e, quando as pessoas acordarem, já será tarde.
É preciso pelo menos tentar colocar a questão. Não para chegarmos lá, pois já
sabemos que não chegaremos, mas para não fazermos o papel de idiota completo
que recebe tudo pronto, depois que as opções já foram feitas e não há mais nada
a dizer. Aprendi muito com Vandana Shiva, que também vem de um país sem
tecnologia, a Índia, mas que tem uma cultura tradicional de três mil anos. Ela
estudou Física Nuclear pois sabia que era através da ponta do processo que se
podia ter a inteligibilidade do que caía na Índia como seus efeitos. Portanto,
não acho que seja uma questão de alienação. Ao contrário, é porque tem pouca
discussão que somos o tempo todo engrupidos.
Emerson ' Como você vê, hoje, sua produção sobre o campo das artes?
Meu interesse por arte é, primeiro, por fruição. E também porque é uma maneira
de captar o que está acontecendo não pela via do entendimento, mas pela da
sensação. Quando isso começa a cruzar, para mim existe um problema importante.
Vou dar um exemplo, até para dizer por que acredito que a arte esteja em um
buraco complicado.
Abriu agora em Paris uma exposição chamada "Dionisíaco". Por definição,
dionisíaco é o excesso, mas ele não estava presente. Digamos, havia uma
representação do excesso, uma ilustração do que poderia ser entendido como
excesso. Mas onde ele estava? Na minha opinião, o excesso está no próprio
movimento do capitalismo e no atraso da nossa cabeça em lidar com esse
movimento quando o motor do capitalismo passou a ser a tecnociência. E, se o
excesso está aí, acho que a arte começa a ter pouco a dizer a respeito, porque
falta radicalidade nos trabalhos.
Nos últimos anos, andei escrevendo sobre arte em várias circunstâncias, um
pouco para testar, para mim mesmo, minha capacidade de percepção, para ver o
que seria possível perceber se houvesse o desafio de ter que escrever sobre
algum trabalho. Mas acho que é um capítulo que estou encerrando, porque apesar
de ser uma via de conhecimento interessantíssima (por ser pela via da sensação
e não da intelecção, o que favorece a percepção de muitas coisas), esse não é
um objeto de atenção privilegiado em meu trabalho. É quase um efeito colateral,
uma coisa que faço mais por gosto do que para avançar do ponto de vista
intelectual.
Osvaldo '
Mas e seu texto sobre os irmãos Chapman5, por exemplo?
Aí sim, pois vi no trabalho a aplicação e a discussão de princípios
tecnocientíficos. Era um trabalho de recombinação no campo da arte, e não
apenas uma ilustração ou uma representação artística da discussão que se dá no
campo da ciência.
A maioria dos trabalhos que se pretendem de arte transgênica, que se misturam
com ciência, na verdade são mera ilustração de questões científicas. No caso
dos Chapman, não era isso. Eles fizeram, no campo artístico, a mesma operação
que é feita no campo tecnocientífico, para mostrar que existe um vaso
comunicante, uma correlação, porque isso tudo faz parte do contemporâneo de um
modo agudo. O recurso usado no trabalho era a própria noção de valor. O recurso
eram as gravuras do Goya. Mas por que é um escândalo fazer uma recombinação
desse recurso e não é um escândalo fazer uma recombinação do patrimônio
genético humano? É o valor de mercado do trabalho do Goya?
O interessante, no caso, é que eram originais da primeira tiragem do Goya, mas
eram gravuras. Quer dizer, existiam nessa tiragem outras séries das mesmas
gravuras, de modo que eles estavam fazendo uma modificação, uma recombinação,
que, na verdade, ainda mantinha séries originais. Mas no caso do patrimônio
genético humano, quando se faz uma transformação em células germinativas, as
gerações futuras ficam comprometidas. Os Chapman estavam discutindo a questão
do valor. Eles fizeram a mesma operação que os biotecnólogos, mas achei
relevante porque a discussão se dava no próprio campo estético.
Osvaldo '
No ano passado, você mencionou numa palestra, cujo título era muito sugestivo,
"Educação desculturalizada"6, o problema da "ausência do cultivo do espírito"
na universidade. Como deveríamos pensar essa ausência hoje, tanto no Brasil
quanto no mundo?
No Brasil é mais grave, pois o processo de decomposição é mais acelerado. Mas
eu acho que é um problema geral. O problema da universidade, para mim, começa
antes da universidade brasileira existir. Mais precisamente, em 1870, com as
quatro conferências do Nietzsche sobre o futuro dos estabelecimentos de ensino
é nessa ocasião que ele arranja um jeito de ser aposentado por invalidez, se
não me engano, e sai da universidade. Ele já começava a ver que a importância
crescente do jornalismo e da imprensa como instrumento para fazer a cabeça das
pessoas colocava a universidade em crise. Em termos de detecção do problema,
ele começa lá. O que vemos atualmente seria o final desse processo. E a
aceleração é ainda maior quando a universidade começa a ter que adotar cada vez
mais critérios de empresa para produzir e avaliar conhecimento. Aí, no meu
entender, dançou mesmo.
Esse processo é curioso porque, no mesmo momento em que a universidade parece
não ser mais capaz de fornecer largueza de espírito, flexibilidade mental e
capacidade de lidar com situações e problemas complexos (que seria a cultura),
o capital vai considerar que essa é a coisa mais valiosa que temos. É uma
situação paradoxal, mas vemos uma incapacidade total das universidades de
reconhecer em que mundo estão. Há uma defasagem tão grande entre as velocidades
de transformação do mundo e da universidade, uma incapacidade da universidade
de reconhecer a sua inadequação com relação a esse mundo, que eu acho que ela é
uma instituição terminal mesmo. O que virá depois como maneira de transmissão
de saber, eu não sei. Mas acho que, em termos de dominação, o desaparecimento
da universidade tem um papel importante, porque a possibilidade de se ter um
pensamento crítico (inclusive necessário para a própria ponta do sistema) fica
bastante reduzida sem a universidade.
Luiz ' Há dois ou três anos o cineasta russo Aleksadr Sokúrov, em visita a São
Paulo, afirmou que a Europa preparava-se para uma guerra e recomendou aos
brasileiros que ficassem longe dos países europeus. Nesta sua temporada
européia, você percebeu algum sinal nesse sentido?
Eu não me lembrei do Sokúrov na Europa, mas acho que, se tivesse lembrado,
teria sido até bom... Mas depende do que você poderia chamar de "estado de
guerra". Muita gente hoje estuda aquilo que Carl Schmitt chamava de "Estado de
exceção", em várias perspectivas diferentes, para caracterizar a situação atual
nos países industrializados, mas também no mundo em geral. Estado de exceção no
sentido de que não há mais uma normalidade: o que existe é uma situação de
incerteza, uma indeterminação, um grande questionamento do modo como eram
conduzidos os conflitos antes do Estado de exceção. Portanto, há uma situação
nova. Alguns vão chamar isso de "pós-11 de setembro", de "luta contra o
terrorismo internacional", de aprofundamento do neoliberalismo casado com o
agravamento da crise e com a luta pelos recursos naturais, etc. De todo modo,
seja qual for o nome que se dê para isso, isso pesa. No mundo intelectual e
artístico, pesa como ausência de perspectiva. Há muito mais clareza na Europa,
em comparação com o Brasil, de que não há perspectiva. Aqui a gente é inocente,
infantil mesmo. Basta o UOL ou a Globo dizer que a economia cresceu 4% que logo
achamos que tiramos o pé da lama. Nós estamos com lama pelo pescoço e ainda
achamos que está melhorando. Isso é infantilidade. Nesse ponto, os europeus são
mais calejados. Eles sentem um clima, que poderíamos chamar de "perplexidade"
pelo lado mais positivo ou de "depressão" pelo lado mais hard. Isso aparece
nitidamente na dança, no cinema, na conversa, na bibliografia, nas discussões.
Existe uma combinação de agravamento da perda de direitos (em função do
aprofundamento do neoliberalismo) com esse clima de instabilidade e essa
questão da incerteza e da segurança. E, por outro lado, aquilo que Foucault e
Deleuze chamaram de "sociedade do controle" vem vindo mesmo para valer.
Martha ' Poderíamos pensar, a partir de suas respostas, que não existem
alternativas. Você se considera um pessimista?
Não. Eu diria que sou um realista, com relação à questão do horizonte negativo.
Acho que nós nos encontramos efetivamente num momento do andar da carruagem da
história que se apresenta como um horizonte negativo. Acho infantil denegarmos
isso no sentido psicanalítico do termo: está na nossa cara e fingimos não
ver, ou arranjamos todas as estratégias possíveis para não ver. Acho que só
encontraremos critérios para reconhecer os sinais que aparecem na direção de
saídas (o que é diferente de encontrar saídas) se assumirmos o tamanho da
encrenca. Se ficarmos brincando de Polyana, não vai dar. Então, do ponto de
vista coletivo, sinceramente não acredito que existam, no momento, forças
capazes de responder a essa estratégia de aceleração total econômica e
tecnocientífica do capital. Pode ser que exista, mas eu ainda não encontrei. As
formas que me apresentaram como novas possibilidades de emancipação são
incipientes demais para ser consideradas respostas efetivas. Pode ser um
problema meu, que não tenho critérios para saber ver na leitura das forças o
que existe de positivo. Ou pode ser que as forças em campo ainda sejam
incipientes demais para se configurarem como uma construção diferente desse
rumo pelo qual estamos indo.
Martha ' É notório seu cansaço e sua decepção com o tema do conhecimento
tradicional. O que causou isso?
A questão entre biodiversidade e biotecnologia começou a aparecer pra mim nos
anos 1990. E não foi pelo lado da tecnologia, mas por meu interesse por povos
indígenas. Um dia eu estava assistindo na TV uma entrevista do Washington
Novaes com Ailton Krenak (na época, líder da União das Nações Indígenas), e
aquilo me encantou. Fui então procurar o Krenak e acompanhei o trabalho dele
por mais ou menos três anos a partir da sede dos Povos da Floresta em São
Paulo. Eles tentavam mudar a mentalidade dos brasileiros com relação aos povos
indígenas, como dizia o próprio Krenak na época. Aquilo me interessou e eu
passei a freqüentar o local.
Quando apareceu a oportunidade de ir para a Inglaterra, em 1992, eu achei que
poderia ser interessante aproveitar para estudar seriamente algo que estava
começando a aparecer no Brasil (principalmente devido à Rio-92) e que eu ainda
desconhecia: a questão da relação entre biodiversidade e biotecnologia. Lá, fui
a um seminário que considero decisivo: era um encontro em Oxford sobre
biodiversidade, patentes, direitos de propriedade intelectual e conhecimento
tradicional. Quando entrei na sala, vi que lá estavam grandes advogados,
representantes das grandes farmacêuticas e scholars do mais alto nível de
Oxford e Cambridge. Foi dito então que os países de megadiversidade teriam de
dez a quinze anos para obter o controle de seus recursos genéticos. Se eles não
o fizessem dentro deste prazo, quando acordassem, os recursos não seriam mais
deles. Saí do seminário com a impressão de que aquele grupo, formado pela nata
das grandes empresas, da universidade e de advogados, estava discutindo algo
que, para nós, o país número um em megadiversidade, ainda não era uma questão.
Então resolvi estudar isso.
Em razão desse estudo e de minha conexão com o Krenak, fui convidado pela ONG
Gaia, de Londres, para entrar no circuito internacional das discussões sobre o
acesso aos recursos genéticos e conhecimento tradicional associado. Passei
praticamente a década de 1990 inteira acompanhando esse dossiê: fui à
Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, acompanhei
reuniões internacionais promovidas pelos povos indígenas, viajei muito pelos
países andinos... Nesse processo, foi decisiva uma viagem que fiz para a
Malásia, em 1994. Lá eu tive acesso à Vandana Shiva, aos advogados, a
cientistas que estavam começando a se interessar pelo assunto como Mae-Wan Ho
(que depois iria escrever um livro interessantíssimo sobre genética)7 e Brian
Goodwin e, enfim, a um nível interessante dessa discussão.
Mais tarde, acabei me desconectando desse tema. O problema é que a relação
entre o Norte e o Sul é muito mais complicada do que parece e é reproduzida
no interior das ONGs. Acabei entrando em conflito com ONGs do Norte por não
concordar com pressões para a minha adesão a certos acordos que eram feitos com
as indústrias de biotecnologia. Esses conflitos chegaram a um ponto de ruptura
em 1996, quando fui impedido de entrar numa reunião de latino-americanos, mesmo
sendo representante de uma ONG brasileira. As ONGs do Sul não me deixaram
entrar por pressão das ONGs do Norte (que estavam financiando o lado pobre da
história, como sempre acontece), porque numa conferência anterior eu não havia
concordado com as opções feitas por elas. Descobri então que era inútil
continuar tentando trabalhar, pois no interior mesmo das delegações e dos
governos havia duas velocidades: uma ultra-rápida, para a inserção e o
reconhecimento cada vez maiores do papel da biotecnologia na biodiversidade
pelos países do Norte; e outra hiper-lenta, esta para a adoção dos direitos de
proteção para os povos indígenas e populações tradicionais. Percebi que
estávamos lá apenas para encenar uma preocupação com a proteção do conhecimento
tradicional. Na verdade, esse discurso era uma espécie de biombo para a
verdadeira questão: a inserção da biodiversidade no chamado biomercado que
vinha se constituindo durante a década de 1990, inclusive através da
transformação dos acordos GATT-Trips, posteriormente incluídos na legislação da
Organização Mundial de Comércio sobre propriedade intelectual8.
No plano interno, desanimei quando vi que a briga se arrastava. O movimento
ambientalista era incapaz de entender que o conhecimento tradicional, por ser
não-moderno, não pode ser regido por um sistema de proteção que visa proteger o
conhecimento tecnocientífico moderno contra os outros conhecimentos e tipos de
inovação. As ONGs não eram capazes de entender que a adoção desse sistema para
o conhecimento tradicional (ou as chamadas patentes coletivas ou propriedade
intelectual coletiva) era, na verdade, uma maneira de dourar a pílula. No
fundo, não passava de um modo de associar esse conhecimento ao processo
jurídico que interessa à inovação científica e que, em troca dos recursos
genéticos, apenas distribui migalhas como repartição de benefício para os povos
tradicionais. Quando percebi que os nossos próprios aliados não conseguiam
avançar nessa discussão, achei que era bobagem insistir. Então desisti, parei
de acompanhar esse dossiê.
Pedro '
Você tem textos que tratam da relação entre xamanismo e tecnologia, o mais
recente deles escrito há dez anos9. Como você pensa essa relação hoje?
Da mesma maneira. Quem me abriu os olhos para isso foi o Simondon, para quem o
primeiro tecnólogo é o xamã. Examinando as linhagens tecnológicas, ele mostrou
que a nossa idéia iluminista de progresso tecnológico (no sentido de que a
evolução tecnológica significaria uma melhora com relação a um momento
anterior) era completamente ilusória. Ao fazer essa crítica, Simondon mostrou
algo fundamental e que o Elias Canetti também viu, mas por uma via
completamente diferente. Canetti dizia que todas as realizações tecnológicas do
mundo moderno foram pensadas primeiro nos mitos. Portanto, a tecnologia moderna
é a concretização do que foi pensado e imaginado através deles. O nosso
problema, diz Canetti, é que não conseguimos mais imaginar ou inventar mito
nenhum. Se estamos, na verdade, concretizando aquilo que a humanidade já
imaginou há muito tempo, e se não conseguimos ter nenhum mito novo, temos um
problema para o futuro.
A partir dessas leituras, revi meu preconceito com relação ao chamado
conhecimento tradicional. Revi porque, por duas vezes, ouvi mais ou menos a
seguinte frase, uma vez de um pajé Xavante e outra de um pajé Kaiapó: "nós é
que inventamos toda essa tecnologia que vocês têm, só que não nos interessamos
em desenvolvê-la". O senso comum do brasileiro ouve isso pensando assim: "ele
está dizendo isso porque tem inveja da nossa tecnologia; ele diz que inventou
mas na verdade isto demonstra a pobreza de espírito destes povos". Eu aprendi
com Canetti e Simondon a ouvir de outro modo, pensando: "mas então aquilo que
estes autores estavam dizendo era correto e eu realmente tenho que levar a
sério o que os índios estão falando e reconhecer o xamã como inventor". Isso
sempre me interessou no meu contato com os povos indígenas. Toda vez que eles
diziam alguma coisa, eu sabia que devia ouvir aquilo literalmente, que devia
acreditar no que estava sendo dito. E se não conseguia entender, era porque
tinha algum problema para encontrar a faixa de onda e obter aquela ressonância.
Depois, achei muito interessante quando vi, no livro do antropólogo Jeremy
Narby10, que ele tomou ayahuasca no Peru porque queria acreditar nos pajés
quando diziam para ele que seus conhecimentos lhes eram transmitidos pelas
plantas. Se não temos este canal, mas eles têm, porque vou considerar que o meu
mundo tecnológico é mais avançado que o deles? Talvez seja justamente minha
incapacidade de alcançar o seu conhecimento que me faça pensar que aquilo é
tudo primitivo. Se considerarmos, por exemplo, a quantidade de coisas de que
precisamos para viver, do ponto de vista material, e aquilo de que os índios
precisam, pode ser que eles sejam até mais sofisticados do que nós.
É curioso que, um mês atrás, vi na vitrina da Prada em Paris uma saia feita
metade de penas de cocar e metade de um tecido totalmente geométrico, jogando
de uma maneira absolutamente contemporânea com a confrontação entre o primitivo
e o moderno. Percebe-se então que até na alta costura essa relação é
reconhecida como positiva. Eu acho até que a biotecnologia já sabe disso, mas
quer predar esse conhecimento (o que eu chamo de "predação high tech"). Estou,
enfim, convencido de que existe uma possibilidade de uma ponte
interessantíssima, e acho que o trabalho do Eduardo Viveiros de Castro está aí
para mostrar que existe um mundo a ser descoberto a respeito do modo como os
povos indígenas da América trabalham o virtual.
Martha ' Isso é um retorno ao tradicional?
Não, de jeito nenhum. Sabemos de nossa diferença com relação a ele e não
queremos uma volta para trás, mas uma conexão nova com processos e
temporalidades diferentes que até hoje estão aí.
Um exemplo: há dois anos eu fui a Delfos (Grécia) num congresso anual onde
helenistas e o pessoal de teatro se reúnem para discutir a tragédia grega. O
que me impressionou foi a percepção de que existe uma parcela da cultura
ocidental que fica alucinada correndo atrás do tempo do mito e tentando
descobri-lo através do que ficou como o seu vestígio, que são os escritos, a
arte que foi produzida naquele tempo etc. Mas, ao mesmo tempo, com os povos
tradicionais do mundo, nós temos o mito vivo não aquele específico da Grécia,
mas o pensamento mítico vivo. Por que essa obsessão em reencontrar esse mito
apenas através de um movimento arqueológico? Por que não tentar olhar para o
lado e, se conseguirmos diminuir nossa arrogância, perceber que poderíamos
fazer pontes positivas, conexões interessantíssimas e novas relações com os
conhecimentos de todos esses povos de culturas tradicionais que ainda existem e
são tesouros vivos da humanidade? E como fazer isso se fazemos genocídio com
eles (que vai desde a aculturação até a dizimação mesmo), se tiramos deles as
condições para continuarem se desenvolvendo? Não podemos pensar que só nós nos
desenvolvemos tecnologicamente e que um índio Yanomami é igualzinho a seu
ancestral de três mil anos, que ele não se modificou nada neste período, como
se não tivesse nenhuma inteligência. É claro que, se ele evoluiu, foi numa
outra chave, e o interessante é justamente a relação entre as diferentes
temporalidades e entre as diferentes chaves. É interessante perguntar: se não
somos mais capazes de inventar nenhum mito e se o pensamento mítico hoje só
pode ser concebido por um pensamento não-mítico (por especialistas que sabem
tudo do mito mas não têm, eles mesmos, um pensamento mítico), por que acabar
com aqueles que têm o pensamento mítico? Até egoisticamente é cretino
liqüidarmos com eles, porque estaremos destruindo possibilidades de construção
de mundos possíveis.
Ailton Krenak me contou uma história fantástica do dia em que ele e Davi
Kopenawa Yanomami foram até Atenas receber um prêmio da Fundação Onassis pela
preservação do meio ambiente. Recepcionados com limusine na porta do avião,
banquetes, aquela loucura toda, eles receberam o prêmio e, enfim, foram levados
para uma visita à Acrópole junto com o embaixador brasileiro. Quando a visita
acabou, o embaixador perguntou para Davi: "Então Davi, o que você acha?" E ele
respondeu: "Ah! Agora eu entendi, a casa do avô do garimpeiro é aqui". "Onde
estão as florestas de vocês?", ele perguntou. "Aqui nunca teve floresta?" E
responderam: "sim, há muito tempo, mas depois...". Eu achei fantástico, porque
ele trazia, agora, o antes! É o pré-socrático chegando! Ele diz: "Entendi,
vocês são construtores de ruínas!" Numa outra chave, pode-se dizer: "que
cretino, não soube ver a beleza da Acrópole". Mas a relação que ele fazia era
entre a ruína da Acrópole e a floresta. Num tipo de pensamento destes, o que
interessa é a origem, é o "antes", então ele vai pra trás. Acho isso muito
interessante como situação.
[*] Esta entrevista foi realizada pelo grupo de pesquisa "Conhecimento,
Tecnologia e Mercado" (CteMe), em 30 de março de 2005. Participaram da conversa
os seguintes pesquisadores: Cecilia Diaz-Isenrath, Emerson Freire, Luiz Cintra,
Márcio Barreto, Marta Kanashiro, Martha Celia Ramírez-Gálvez, Osvaldo López-
Ruiz e Pedro Ferreira.
[1] Doutorando em Ciências Sociais no IFCH-Unicamp e integrante do CTeMe.
[2] Deleuze, Gilles e Guattari, Félix. O Anti-Édipo. Capitalismo e
esquizofrenia. Lisboa: Assírio & Alvim, 1972[ STANDARDIZEDENDPARAG]
[3] Simondon, Gilbert. Du mode d'existence des objets techniques, Paris:
Aubier-Montaigne, 1969; L'Individu et sa génèse physico-
biologique, Paris: PUF, 1964; L'Individuation psychique et
collective, Paris: Aubier, 1989.
[4] Cf. R. Silva, F. Duarte e J. Urbano, "A gramatização do vivo: entrevista a
Bernard Stiegler", in: Nada4:16-27.
[5] L. Garcia dos Santos, "As Fronteiras do Conhecimento nas Ciências
Contemporâneas", in: Nada 3:32-7.
[6] Palestra proferida no "Colóquio Internacional Cultura Século XXI" em 29 de
junho de 2004 no Goethe-Institut São Paulo.
Disponível na Internetem: <http://www.goethe.de/br/sap/kultur/cs21/pr_lgs.pdf
>.
[7] M.-W. Ho, Genetic engineering, dream or nightmare?, New Delhi: Research
Foundation for Science/The Third World Network, 1997.
[8] TRIPS (Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights), um dos
acordos mundiais sobre propriedade intelectual que surgiu em 1994 durante a
chamada "Rodada do Uruguai", encontro histórico para a revisão dos acordos
comerciais mundiais ligados ao acordo GATT (General Agreement of Tariffs and
Trade) da Organização Mundial do Comércio. Com o TRIPS, todos os países da OMC
se comprometeram a uniformizar, em prazos estabelecidos, suas próprias leis
sobre propriedade intelectual.
[9] L. Garcia dos Santos, "Bill Viola, xamã eletrônico", in: Politizar as novas
tecnologias, São Paulo: Ed.34, 2003, pp.185-96.
[10] J. Narby, The Cosmic Serpent, London: Phoenix, 1999.