MORALIDADE, JUSTIFICAÇÃO E COERÊNCIA
I
Imaginemos dois amigos, Beto e Augusto, discutindo sobre a moralidade das
relações homoafetivas, sobretudo, discutindo sobre a pertinência de suas uniões
estáveis e da possibilidade da adoção de filhos para a constituição de uma
família. Nessa discussão, Beto defende que as relações homoafetivas são
corretas do ponto de vista moral. Augusto, por sua vez, discorda, alegando que
essas relações afetivas são imorais e, portanto, não seria adequado que o
Estado permitisse a sua união estável e nem permitisse que casais desse tipo
pudessem adotar filhos para constituírem uma família. Augusto alega que esse
tipo de relação contraria uma orientação natural e que uma família é composta
por um casal e seus respectivos filhos, sendo um casal formado exclusivamente
por um homem e uma mulher. É isso que ele aprendeu com seus pais, está escrito
na Bíblia e, inclusive, está amparado pela Constituição brasileira, conforme
lembra ter lido a respeito no jornal. Beto, por outro lado, busca justificar a
correção moral das relações homoafetivas apontando para uma coerência desse
juízo com os princípios constitucionais que garantem a igualdade e a liberdade
de todos. O artigo 5º da Carta constitucional brasileira, ao elencar os
direitos e garantias fundamentais, proclama: "todos são iguais perante a lei,
sem distinção de qualquer natureza". Também, o preâmbulo da Declaração
Universal dos Direitos Humanos reconhece que a "dignidade inerente a todos os
membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o
fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo". Além da coerência desse
juízo moral com esses princípios identificados na Constituição do Brasil e na
Declaração Universal dos Direitos Humanos, Beto procura esclarecer que as
evidências dadas hoje pela medicina e pela psicologia apontam que há uma
orientação natural homoafetiva, não se tratando propriamente de uma escolha
voluntária do agente. O ponto central do argumento de Beto é que, dado que
Augusto aceite os princípios de igualdade e liberdade contidos na Constituição
e na Declaração Universal e, dado que ele pode se atualizar em relação aos
fatos científicos em questão, ele deveria aceitar a moralidade das relações
homoafetivas. Como Augusto realmente aceita esses princípios que garantem a
liberdade e igualdade de todos e consegue compreender as novas evidências dadas
pela ciência, ele aceita o argumento de Beto e passa a ter dúvidas do seu juízo
anteriormente proferido.
Mais tarde, não conformado em ter tido que abandonar tão facilmente o seu
julgamento moral, Augusto se matricula em um curso intensivo de epistemologia a
fim de melhor compreender como se dá o processo do conhecimento científico, sua
natureza e limites. Aprende sobre os diversos modelos de justificação de
crenças, tais como o coerentista, o fundacionista, o contextualista e o
fundacionista moderado etc. Estuda com especial atenção as fraquezas do modelo
coerentista e no próximo encontro com Beto retoma a discussão anterior.
Pergunta para Beto se a sua afirmação de que "as relações homoafetivas são
corretas moralmente" não refletiria apenas o próprio preconceito de Beto, uma
vez que um sistema coerente de crenças poderia ser somente uma ficção e não
guardar nenhuma semelhança como mundo externo? Faz notar que o artigo 226 da
Constituição brasileira, em seu §3º, define a família como uma "união estável
entre o homem e a mulher", da mesma forma que o faz o artigo 16 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos e que, além disso, existiriam evidências de que
casais homoafetivos não poderiam constituir família uma vez que não poderiam
procriar. Também, pergunta para Beto como fazer para escolher entre sistemas
coerentes alternativos, pois, ressalta, que também parece haver coerência entre
a crença que diz que "relações homoafetivas são imorais", o artigo
constitucional que define a família como uma união formada por um homem e uma
mulher, além do artigo da Declaração Universal que também define a família da
mesma maneira, e a crença religiosa que proíbe "deitar-se com um homem como se
faz com uma mulher", que se pode encontrar no Antigo Testamento (Levítico, 18,
22). Essa escolha não seria arbitrária? Por fim, pergunta para Beto se seu
argumento não seria circular, uma vez que a justificação da crença moral se
daria apenas por sua coerência com um princípio e com uma crença não moral.
Onde estaria realmente o fundamento normativo desse juízo? Ele não teria que
ser verdadeiro para estar justificado? E essa verdade não deveria estar
ancorada em um fato com certas características apropriadas?
O exemplo acima procurou ilustrar as dificuldades que encontramos quando nos
perguntamos sobre a maneira de justificar adequadamente certas crenças morais
em nossos discursos comuns. Cotidianamente ouvimos e proferimos juízos morais
que afirmam ou negam a moralidade de certos atos, tais como o aborto,
eutanásia, casamento homoafetivo, distribuição de riquezas etc. O problema se
dá, sobretudo, quando tentamos justificar nossas crenças aos outros que
discordam de nós ou até para nós mesmos quando estamos em dúvida. O que faria
um ato ser tomado como certo ou errado? Precisaríamos necessariamente
justificar uma crença moral a partir de certos princípios morais que seriam
correspondentes a alguma propriedade moral como a "correção" ou o "erro"? Ou,
alternativamente, bastaria que pudéssemos apontar para a coerência entre juízos
morais, princípios e outras crenças não morais para termos a justificação?
Seriam essas crenças e princípios morais revisáveis ou eles teriam a sua
objetividade garantida especificamente pelo seu caráter fixo?
Embora já reconhecendo que não conseguiremos responder a todas essas questões
anteriormente formuladas, o objetivo central deste texto é procurar mostrar a
força do coerentismo para o âmbito moral. Especificamente, queremos ressaltar
como o coerentismo, quando aplicado ao caso moral, pode oportunizar um modelo
mais eficiente para a justificação de crenças ao evitar os problemas
epistemológicos do fundacionismo, tais como o dualismo, o dogmatismo e
principalmente a assimetria entre fatos e princípios morais, de um lado, em
contraposição às crenças morais asseguradas pelos agentes, de outro. Também,
procuraremos apontar que o coerentismo de tipo holístico consegue evitar o
regresso epistêmico e apresentar uma solução ao problema da dicotomia entre os
fatos e os valores ao estabelecer uma relação de reciprocidade na direção entre
as regras e os casos, e que isso parece ser relevante ao observarmos o
pluralismo moral de sociedades contemporâneas. Para tal finalidade,
procuraremos responder às principais críticas endereçadas ao coerentismo, a
saber, a crítica ao isolamento, aos sistemas coerentes alternativos e à
circularidade, a fim de verificar se o coerentismo seria um modelo
epistemológico adequado para se pensar a respeito da justificação de crenças
morais ou se ele deveria ser integralmente abandonado em razão de suas supostas
fraquezas.
II
Antes de procurarmos responder a essas três importantes críticas endereçadas ao
coerentismo, pensamos ser importante esclarecer o que estamos compreendendo por
um modelo coerentista de justificação e sua aplicação ao universo moral. Uma
definição ampla que se pode estabelecer incialmente e que parece se acomodar
com as diversas posições coerentistas poderia ser a seguinte: para o
coerentismo, uma crença estará justificada se ela estiver em harmonia ou for
coerente com um sistema coerente de crenças ou com um sistema coerente de
crenças, proposições, testemunhos e memórias. Por exemplo, a minha crença de
que hoje "vai chover" e, então, que eu "devo levar o guarda-chuva", estaria
justificada por sua harmonia com a previsão do tempo que li no jornal e que
anunciava chuva para a tarde e, também, com a constatação do tempo nublado
quando olhei pela janela, e isso em conexão com minha lembrança que geralmente
chove quando está nublado. Mas o que isso significaria especificamente se
considerarmos apenas o âmbito moral e não o universo de crenças sobre o mundo
exterior?
No âmbito da moralidade, o coerentismo parece defender que uma crença moral
estará justificada se ela estiver em harmonia ou for coerente com um sistema
coerente de crenças, e isso implicaria apontar para a coerência da crença moral
com algum padrão normativo, tal como um princípio moral ou uma virtude, além de
uma harmonia com crenças factuais que procuram descrever o mundo objetivamente.
Um conhecido exemplo de aplicação do coerentismo na filosofia moral pode ser
encontrado na teoria da justiça como equidade de John Rawls, dado o importante
papel que o método do equilíbrio reflexivo desempenha para a obtenção da
justificação de crenças morais. As crenças de que "a intolerância religiosa" e
a "discriminação racial são injustas" estariam justificadas por sua coerência
com princípios morais-políticos de liberdade, igualdade e bem comum que seriam
escolhidos pelas partes em uma posição de simetria, além de serem coerentes com
crenças factuais a respeito das pessoas serem morais e a sociedade ser um
empreendimento cooperativo. De forma similar, um agente poderia estar
justificado em assegurar a crença de que "a intolerância religiosa é injusta"
apelando para a coerência dessa crença moral com um sistema coerente de
crenças.1
Dois esclarecimentos se fazem necessários antes de avançarmos na tentativa de
elucidar as características centrais do coerentismo no âmbito moral. O primeiro
é que a verdade não precisará ser tomada como uma condição necessária para a
justificação da crença, e o segundo é que estamos entendendo o coerentismo como
holístico e não como linear. Comecemos por esse último. No caso do coerentismo
linear, a justificação de uma crença p se daria em razão de sua coerência com
outra crença q, que, por sua vez, estaria justificada por sua coerência com
outra crença r, e assim sucessivamente. A insuficiência desse modelo linear é
que ele não resolve de maneira adequada o problema regresso ao infinito, uma
vez que o processo justificacional se daria em uma cadeia infinita de crenças,
o que inviabilizaria a identificação de objetividade para a justificação. Isso
parece não ocorrer no modelo holístico de coerentismo, uma vez que a crença se
justificará por sua harmonização com um sistema coerente como um todo, sendo um
sistema coerente de crenças um conjunto de crenças que possui consistência
lógica. Dessa forma, não haveria um regresso ad infinitum no processo de
justificação da crença, bem como o sistema consistente de crenças poderia ser
tomado como o fundamento para essa justificação da crença, o que parece
garantir a sua objetividade.
O segundo esclarecimento importante é que em uma teoria coerentista de
justificação o que importa é ver o que pode justificar uma crença p ou ver o
que seria para um agente S estar justificado em assegurar uma crença p ou um
conjunto de crenças. Por exemplo, o que poderia justificar a crença de que "a
tolerância religiosa é boa" e "a tortura é má" ou, alternativamente, de que
forma um agente S poderia estar justificado em assegurar que a "tolerância
religiosa é boa" e "a tortura é má"? Uma teoria moral coerentista poderia
explicar que o agente estaria justificado em assegurar a bondade ou correção da
tolerância religiosa e a maldade ou erro da tortura em razão da harmonia dessas
crenças com os princípios morais da dignidade humana e autonomia que, por sua
vez, estariam harmonizados com crenças genéricas sobre o valor da liberdade e
igualdade das pessoas que constam em um modelo político liberal professado
pelos cidadãos em democracias contemporâneas, por exemplo. De outro lado, para
uma teoria coerentista da verdade importaria mostrar o que significa para uma
crença p ser verdadeira ou, alternativamente, mostrar de que forma um agente S
saberia que tal crença p é verdadeira.
Há uma distinção importante aqui, uma vez que, para uma teoria coerentista da
verdade, a justificação seria obtida pela verdade da crença, ao passo que, para
uma teoria coerentista da justificação, poderíamos obter a justificação para as
crenças de forma independente de sua verdade. Vejamos um interessante exemplo
dado por Russell a esse respeito: "Otelo acredita que Desdêmona ama Cássio". A
crença de Otelo que "Desdêmona ama Cássio" é coerente, mas não é verdadeira,
pois não haveria algo como "o amor de Desdêmona por Cássio". A coerência aqui é
insuficiente para o estabelecimento da verdade; entretanto, pode auxiliar para
se obter conhecimento.2 Por exemplo, em razão das evidências observadas, como a
do lenço de Desdêmona ter sido encontrado com Cássio e de Iago ter insinuado
que Desdêmona o estava traindo, Otelo estaria justificado em desconfiar da
traição e buscar esclarecimentos. Entretanto, não estaria justificado em matá-
la, uma vez que também seria coerente atribuir o ocorrido à inveja de Iago. No
âmbito deste trabalho, iremos tomar o coerentismo apenas no domínio de uma
teoria da justificação e não no domínio de uma teoria da verdade, e isso em
razão de tomarmos o conhecimento, no âmbito moral, como um conjunto coerente de
crenças morais justificadas preferencialmente do que entendê-lo como o conjunto
de crenças verdadeiras e justificadas.
Dito isso, podemos identificar que uma epistemologia moral coerentista
holística assegura que uma crença moral é justificada na medida em que o
conjunto de crenças do qual ela faz parte é coerente. Assim, cada crença moral
é avaliada pelo papel que ela desempenha no conjunto coerente das crenças,
evitando o problema do regresso epistêmico. Se a coerência do conjunto for
fortalecida pela exclusão de uma crença ou mesmo pela substituição de uma
crença oposta, a crença em questão não será justificada. Entretanto, se o
conjunto for mais coerente com a presença de uma crença preferencialmente a
qualquer outra crença alternativa, então, essa primeira crença estará
justificada. Nesta forma de conceber a justificação coerentista de maneira
holística, não haverá a presença de pontos fixos dos quais outras crenças
seriam inferidas. Cada crença é avaliada pela consideração do efeito de sua
presença no sistema coerente, sendo testada por sua efetividade no sistema3 e,
também, de forma a contar como uma razão em uma situação específica.4 Assim, a
justificação da crença moral não seria uma questão de correspondência a um fato
moral ou uma dedução de premissas autoevidentes, mas seria uma questão de apoio
mútuo entre juízos, virtudes e princípios morais no interior de um sistema
coerente de crenças, isto é, no interior de um sistema consistente de crenças
morais e não morais.5
A partir das características identificadas acima, creio que podemos apresentar
o modelo de justificação moral coerentista por meio da seguinte formulação:
Uma crença moral p estará justificada para um agente S em um tempo t e em
circunstâncias C se e somente se ela for coerente com um sistema consistente de
crenças CS.6
III
Na seção anterior, procuramos definir o que estamos compreendendo por
coerentismo holístico e, também, buscamos identificar as características
específicas de uma epistemologia moral coerentista, ressaltando os principais
problemas que poderiam ser resolvidos com esse modelo epistemológico aplicado
ao âmbito moral. Mas faltou refletir de maneira mais cuidadosa a respeito das
possíveis fraquezas dessa abordagem. Nesta seção, buscaremos apontar para as
principais objeções que são feitas ao coerentismo em geral e ao coerentismo
moral em particular, a fim de analisar mais detalhadamente o seu alcance.
Uma primeira objeção que comumente é endereçada ao coerentismo é a respeito de
como um sistema internamente coerente se relaciona com o mundo externo. Veja-se
que uma ficção é um sistema coerente, mas pode não guardar muita semelhança com
o mundo externo, permanecendo apenas como uma ficção. Um livro ou filme que
retrata uma situação planetária futura pós-hecatombe nuclear, em que uma
civilização de macacos oprime seres humanos, pode ser coerente, mas isso não
traz por consequência, necessariamente, que encontraremos macacos tratando os
seres humanos como animais e governando o nosso mundo presente. Essa crítica é
conhecida como o problema do isolamento ou a objeção ao input. Essa objeção
aponta que uma concepção de justificação que dependa inteiramente da coerência
teria a consequência absurda de tomar as crenças factuais como justificadas na
ausência de qualquer tipo de dado empírico e, assim, essa justificação se
basearia em uma relação acidental com o mundo.7 No caso moral, isso poderia
significar que as crenças usadas no sistema coerente poderiam apenas refletir
nossos próprios preconceitos, não mantendo uma relação de proximidade com o
mundo externo. Quer dizer, até que ponto se poderia atribuir credibilidade
inicial para as crenças morais que serão usadas na construção do sistema?8
Essa objeção ao isolamento (input) aplicada ao caso moral parece questionar se
o ponto de partida para uma teoria moral seria apropriado ou não. Em outras
palavras, essa crítica parece revelar que o ponto inicial de uma teoria seria
inapropriado em razão de estar conectado apenas com o mundo interno do agente.
Quer dizer, os juízos morais com que se inicia o processo poderiam ser vistos
apenas como um espelhamento de nossos preconceitos. Por exemplo, o juízo moral
que afirma "a imoralidade do aborto" poderia ser apenas uma extensão do
preconceito de tomar a vida humana como sagrada. Ou, alternativamente, o juízo
que afirma que "a tortura é correta", no caso de ser aplicado ao contexto de
detentos em um presídio, poderia não passar de uma projeção do preconceito em
tomar o indivíduo como livre, isto é, como tendo livre-arbítrio e, em razão de
sua escolha livre em cometer uma má ação, como matar, por exemplo, esse agente
mereceria o sofrimento e, então, deveria ser exemplarmente punido.
Creio que o ponto central da crítica seja a respeito da credibilidade inicial
de certas crenças que são usadas no desenvolvimento de uma teoria moral. Por
que elas deveriam contar como credíveis? Apenas por sua coerência com o sistema
como um todo, de forma que as convicções, princípios morais e, também, crenças
não morais estariam em harmonia? O problema é que esse sistema coerente, por
exemplo, uma teoria moral, poderia não guardar nenhuma relação com o mundo
externo e, assim, por que deveríamos dar credibilidade a essas crenças
iniciais? Veja-se o caso de uma teoria indeterminista da responsabilidade
moral. A defesa da responsabilidade moral do agente estaria fundada na crença
do livre-arbítrio do indivíduo, o que implicaria a crença de uma ação
indeterminada ou até mesmo não causada, tal como a escolha livre e, isso, por
sua vez, se harmonizaria com uma crença na punição retributivista. O todo é
coerente, mas pode ser o caso de não existir algo no mundo como o livre-
arbítrio. Seria essa crença no livre-arbítrio verdadeira ou estaria ela
justificada apenas por sua coerência com o sistema coerente? O problema então
é: por que deveríamos atribuir alguma credibilidade especial a essas convicções
particulares se não se pode levar em conta nenhum tipo de fundamento ou prova
que seja independente da coerência?9
Outra crítica bem conhecida é a respeito dos sistemas coerentes alternativos,
isto é, dada a existência de diversos sistemas coerentes alternativos ou até
mesmo incompatíveis entre si, como escolher entre eles? Tomando como referência
que um sistema coerente é consistente logicamente, mas que existem diversos
sistemas que são igualmente consistentes, como fazer uma escolha sem recair em
algum tipo de arbitrariedade? Veja-se que as partes (crenças) consistentes de
cada um desses sistemas serão tomadas como critérios para a justificação, isto
é, serão tomadas como normas, uma vez que uma crença será justificada em razão
de sua coerência com um sistema coerente de crenças. O problema é que isto
parece resultar em um absurdo, especialmente porque cada crença relevante a uma
área específica que não seja internamente incoerente pode aparentar pertencer a
um ou mais sistemas, de forma que o coerentismo deveria dizer que tais crenças
seriam justificadas como quaisquer outras.10
O mais grave da objeção é a pergunta sobre o que se deve fazer quando nos
deparamos com um vasto número de sistemas de crenças igualmente coerentes que
são incompatíveis entre si, de forma que, se um sistema for tomado como padrão,
o outro será visto como problemático. Isso parece significar que algo
forçosamente iria além da coerência para a justificação. A questão poderia ser
particularmente preocupante quando se percebe que uma mesma pessoa poderia
possuir dois sistemas de crenças igualmente coerentes, mas em tempos
diferentes, podendo diferir não apenas sobre um ponto, mas sobre cada ponto
específico, de forma que cada crença em um sistema poderia estar em oposição a
uma crença incompatível em outro.11
No caso moral é fácil ver esse problema. Existem diversas teorias morais que
conhecemos pela história da filosofia, por exemplo, a ética das virtudes, o
kantismo ou ética deontológica, o consequencialismo, o contratualismo etc.
Todas essas concepções morais são coerentes internamente, mas, quando aplicadas
em situações específicas, podem ser percebidas como incompatíveis entre si. Por
exemplo, se quero saber se é correto ou não mentir para salvar a vida de um
inocente, eu terei uma resposta diferente se tomar como referência o
consequencialismo ou a ética kantiana. A resposta será afirmativa se eu usar a
teoria consequencialista como padrão, mas será negativa se eu fizer uso de um
modelo deontológico kantiano. Mas, então, como escolher entre essas duas
teorias levando em consideração apenas o critério de coerência? Vejamos outra
situação similar. Queremos saber se devemos agir de forma solidária ou mesmo de
forma caridosa em relação aos sem-teto, a ponto de pensar a respeito de nossa
obrigação em destinar o valor de dez por cento de nossa renda para esse
auxílio. Se tomarmos a ética das virtudes como padrão, parece que teríamos uma
obrigação perfeita em sermos solidários, lembrando que a virtude é uma
disposição interna do agente que implica querer saber como se deve viver. Mas,
alternativamente, se usarmos o contratualismo como teoria moral de base, parece
que nossa obrigação à solidariedade/caridade seria apenas imperfeita, o que não
geraria direitos. Mas o problema parece ser: ou essa escolha se basearia em
algum critério que vai além da coerência ou ela parece ser arbitrária, sendo
que ambas as alternativas evidenciariam um problema para a coerência ser
estipulada como suficiente para a justificação de uma crença.
A terceira e última objeção a que faremos referência é a da circularidade
viciosa. Essa crítica postula que existiria uma circularidade entre
determinadas crenças que seriam tomadas como práticas e os princípios. Se
perguntarmos como os princípios são justificados, teríamos que olhar para as
crenças que são assumidas. Mas, alternativamente, se perguntarmos como podemos
encontrar um critério para a justificação dessas crenças ponderadas, então,
teríamos que apontar para os princípios morais. Essa objeção conhecida como a
da circularidade viciosa parece-nos a mais vigorosa crítica feita ao
coerentismo, uma vez que haveria uma estrutura circular para a justificação e
que essa estrutura seria viciosa por não apresentar nenhum outro critério além
dos anteriormente mencionados, a saber, crenças ponderadas e princípios em um
certo nível de generalidade.
Essa crítica de circularidade viciosa é feita de forma emblemática por Harvey
Siegel ao analisar o alcance justificacional do método do equilíbrio reflexivo,
como utilizado por Nelson Goodman em "Fact, Fiction, and Forecast". O problema
identificado é que os princípios inferenciais seriam justificados na medida em
que eles se harmonizassem com nossas práticas inferenciais. De outro lado, uma
prática inferencial seria justificada na medida em que ela se harmonizasse com
nossos princípios inferenciais, havendo uma acomodação mútua entre juízos e
princípios (Goodman,_1983, p. 64). O problema apontado por Siegel é que essa
circularidade não seria virtuosa, assim como pretendida por Goodman, mas,
antes, seria viciosa, uma vez que não ofereceria nenhum outro elemento além
daqueles que se justificariam intersubjetivamente. É por isso que, no seu
entender, o método do equilíbrio reflexivo falha como uma concepção plausível
de justificação dos nossos juízos concernentes com esses princípios
inferenciais.12
IV
Nestas últimas seções do texto, tentaremos esboçar respostas a essas três
objeções feitas ao coerentismo moral holístico, procurando apontar tanto para
as suas vantagens como para os seus limites. Iniciamos respondendo à primeira
objeção endereçada ao coerentismo, a saber, a objeção ao isolamento, que tem
como foco central o questionamento a respeito da credibilidade inicial dada aos
juízos morais ponderados, que serviriam de base para o desenvolvimento de
teorias morais. Pensamos que uma forma interessante de responder a essa crítica
seja apontando para o importante papel do reconhecimento social para a
justificação no modelo holístico de teoria moral, de forma a levar em
consideração um elemento coletivo para a validação desses juízos ponderados. Em
outras palavras, faremos uso de um holismo social que estará pressuposto no
coerentismo moral.
Iniciamos fazendo referência ao argumento central de um holismo social tal como
defendido por Philip Pettit em "The Common Mind" e por Michael Esfeld em
"Holism and analytic philosophy". O holismo aqui é tomado como social e
compreendido a partir de um sistema de crenças, de forma que uma crença ou
regra será justificada ou aprovada se ela for coerente com um sistema integrado
de crenças, sendo que esse sistema integrado de crenças é pertencente a uma
dada comunidade social. Isso já antecipa a resposta de que a justificação da
crença ou regra se dará em um âmbito de convergência social.
Esfeld apresenta uma fórmula de um sistema holístico que é bastante
esclarecedora, uma vez que ressalta as características de dependência
ontológica genérica das partes do sistema e, também, que essas partes
instanciam certas famílias de propriedades. Vejamos:
Considere um sistema de tipo S e suas partes constituintes. Para cada
constituinte de S, existe uma família de propriedades qualitativas
que faz algo uma parte constituinte de um S em caso de existir um
arranjo adequado. Um S é holístico se e somente se a seguinte
condição for satisfeita por todas as coisas que são seus
constituintes: com respeito a instanciação de algumas das
propriedades que pertencem a tal família de propriedades, uma coisa é
ontologicamente dependente de uma forma genérica se realmente existir
em outras coisas em conjunto com as quais é arranjada de tal forma
que exista um S (Esfeld,_1998, p. 375).
Assim, a condição necessária para algo ser parte do sistema é ter todas ou
quase todas as propriedades que pertencem a tal família de propriedades e a
condição suficiente é o arranjo adequado da parte no sistema. É importante
ressaltar que Esfeld está pensando em um sistema holístico como um sistema de
crenças dentro de uma comunidade social, de forma a estipular que uma crença p,
por exemplo, terá certas propriedades, tais como significado e conteúdo
conceitual, sendo confirmada ou não, justificada ou não apenas se existir
outras crenças em conjunto constituindo um sistema de crenças que é coerente.
Ele está falando de um holismo social, uma vez que compreende o seguir uma
regra como circunscrito às relações sociais (Esfeld,_1998, p. 366).
Essa dimensão social de um sistema holístico também é ressaltada por Pettit. A
primeira premissa defendida por ele é a de que seguir regras é um
empreendimento de relação interpessoal, o que trará por resultado uma tese
interativa. Essa premissa se conectará com a segunda que afirma que as regras
do pensamento humano são comuns, sendo regras que outros podem afirmar como uma
posse comum. Vejamos o argumento apresentado:
1. Um ser humano pode seguir uma regra apenas sob uma base de
interação interpessoal ou intertemporal.
2. As regras seguidas por um ser humano que pensa são comuns. Elas
são regras que outros podem afirmar como uma posse comum.
3. Se um ser humano segue uma regra apenas sob a base de uma
interação intertemporal consigo mesmo, então esta regra não é comum.
Conclusão: As regras seguidas por um ser humano pensante não são
seguidas sob a base de tal interação intrapessoal apenas; elas devem
ser seguidas sob uma base envolvendo interação com os outros (Pettit,
1993, pp. 180-181).
Pettit está defendendo, acertadamente em nosso entender, que uma concepção
holística não implicará nenhuma forma de relativismo, uma vez que se baseará em
uma concepção de sistemas de pensamento comum, de forma a identificar que a
capacidade de pensamento dos agentes requer o estabelecimento de uma comunidade
com os outros. Isso significa dizer que o processo de pensamento é visto como
um processo de seguir uma regra, o que implicará ver o pensamento como um
empreendimento cooperativo. Aqui está a chave para se entender o ponto central
do argumento: seguir uma regra é uma ação eminentemente social e pensar é um
processo de seguir regras; logo, pensar é um ato eminentemente social, o que
parece exigir uma convergência intersubjetiva em algum nível para se obter a
justificação da crença.13
De posse disso, podemos apontar quais as razões que teríamos para creditar
maior credibilidade inicial a essas crenças morais ponderadas, tais como as que
afirmam que "a discriminação racial é injusta" ou que "devemos levar em
consideração o sofrimento alheio": elas compartilhariam uma propriedade
qualitativa comum a um sistema coerente de crenças, o liberal, por exemplo, que
conta com princípios que defendem a igualdade, liberdade e dignidade da pessoa,
bem como com crenças factuais que demonstram que a discriminação racial é
ineficiente do ponto de vista econômico e que seres sencientes sentem dor e
procuram evitá-la sempre que possível.
A crítica central endereçada ao coerentismo era a de que crenças factuais
seriam justificadas na ausência de qualquer dado empírico e, dessa forma, a
justificação se basearia numa relação acidental com o mundo, sendo que, no caso
moral, as crenças poderiam apenas refletir nossos próprios preconceitos, tendo
uma conexão apenas com o mundo interno do agente. Será esse o caso? Veja-se que
a crença que diz que "a discriminação racial é injusta" pode ser justificada ao
se mostrar a sua coerência a um sistema coerente de crenças, como o liberal,
sistema esse formado por crenças e princípios morais e crenças factuais que
procuram descrever o mundo objetivamente. O ponto central aqui seria reconhecer
que há crenças factuais dentro desse sistema coerente, por exemplo, que
identifica a ineficiência econômica da discriminação racial e a igualdade
genética dos seres humanos independentemente de sua etnia, e que essas crenças
factuais possuem uma ampla aceitação. É claro que alguém poderia objetar e
dizer: Então, o que garantiria a justificação da crença moral não seria a
verdade da crença factual?
O coerentista não precisa admitir isso. Ele poderia contra-argumentar e dizer
que o que justifica a crença moral não é a verdade da crença factual, mas a
existência de uma concordância intersubjetiva a respeito dessas crenças tanto
morais como não morais, uma vez que o conhecimento é um empreendimento
cooperativo e não um processo que se daria de forma isolada pelos agentes. E,
estando a crença justificada para um agente moral, ela poderia ser tomada como
uma razão para a sua ação. Por exemplo, estando justificada a crença que diz
que "a discriminação racial é injusta" para um certo agente, essa crença
poderia ser tomada como um fato para condenar as práticas de escravidão. Parece
importante levar em consideração que sempre estamos justificando uma crença
moral no interior mesmo de uma comunidade moral e, assim, a objetividade da
esfera moral não seria garantida por nenhum tipo de referência puramente
externa ao mundo humano.14 É claro que isso ainda não responde ao problema de
se uma teoria moral, que é um sistema coerente de crenças, poderia não ter
nenhuma relação com o mundo externo. Mas deixaremos para enfrentar essa questão
ao tentar responder à segunda objeção.
Atualizando a formulação da justificação moral coerentista apresentada
anteriormente, de maneira a incluir essa resposta à primeira objeção, teríamos
que uma crença moral p estará justificada para um agente S em um tempo t e em
circunstâncias C se e somente se ela for coerente com um sistema consistente de
crenças CS, sistema caracterizado pela convergência intersubjetiva e, assim, p
poderá contar como um fato F para S fazer uma ação A.
V
O próximo passo será procurar responder à objeção dos sistemas coerentes
alternativos, objeção que questiona a respeito do critério que seria usado pelo
agente para escolher entre sistemas de crenças consistentes que são diferentes
e até mesmo contraditórios entre si. Vejamos que, no caso moral, o problema se
daria pela existência de várias teorias que são consistentes, por exemplo, o
consequencialismo, a deontologia, a ética das virtudes etc., que dão respostas
bastante diferentes às situações dilemáticas, como no caso de o agente se
perguntar pelo seu dever de auxiliar aos sem-teto. Seria esse dever perfeito ou
imperfeito? O problema parece ficar ainda mais dramático se observarmos que o
mesmo agente poderia possuir dois sistemas coerentes de crenças em tempos
diferentes, de forma a cada crença em um sistema poder estar em oposição a uma
crença em outro. Imaginemos alguém que sempre adotou o modelo consequencialista
de raciocínio moral até uma certa altura da vida e depois teve como que uma
espécie de conversão ao kantismo. Não seriam todas as crenças desses dois
sistemas incompatíveis ente si, ou quase todas? Isso não nos apontaria para um
limite em tomar o critério de coerência como sendo suficiente para a
justificação da crença moral?
Pensamos que uma forma inicial de resposta a essa objeção seria identificar que
a escolha de um sistema tem uma relação direta com a função que o sistema
cumpre. No caso de uma teoria moral, qual seria a sua função? É claro que não
há uma resposta unânime a essa pergunta, mas, de forma geral, poderíamos dizer
que uma teoria moral teria a função de nos mostrar como nós deveríamos agir em
certos casos ou que tipo de pessoa nós deveríamos ser, quer dizer, ela teria o
papel de auxiliar-nos em enfrentar problemas específicos, apresentando um certo
tipo de raciocínio, por exemplo, para auxiliar a nossa escolha. Nosso ponto
inicial é chamar a atenção de que a tese da funcionalidade da teoria moral será
usada para tentar identificar como se daria a escolha entre sistemas
alternativos.
Dito isso, podemos iniciar apontando para o critério de consistência para a
escolha dos diferentes sistemas coerentes. O sistema de crenças mais
consistente deve ser escolhido em contraposição a outro sistema menos
consistente. Com isso, parece que já conseguiríamos excluir algumas teorias que
não apresentam consistência lógica entre as suas crenças ou que poderíamos
identificar, talvez, uma mais baixa consistência. Um exemplo de uma teoria com
mais baixa consistência poderia ser um certo tipo de marxismo revolucionário
que defenderia "a moralidade do assassinato" a partir de premissas que defendem
"a igualdade de todas as pessoas". É claro que a crença na "necessidade da
mudança estrutural" e na "luta de classes" poderia fundamentar a dedução da
defesa da "moralidade do assassinato", mas não seria consistente com a crença
na "igualdade de todas as pessoas" que faz parte desse mesmo sistema. De forma
similar, talvez já pudéssemos excluir algumas teorias de cunho relativista,
mostrando, por exemplo, que a existência de diferentes costumes sociais não
implicaria necessariamente a existência de diferentes valores morais, de forma
que mostrar os hábitos de infanticídio na Grécia antiga ou entre os esquimós
não provaria que esses povos não valorizam a vida e segurança de seus filhos e
demais familiares. Mas, é claro, isso não nos auxiliará na escolha entre as
teorias que são consistentes, mas antagônicas em muitos aspectos.15
Uma conhecida estratégia para identificar as razões de escolha entre teorias
morais consistentes é tentar apontar para a teoria que seria verdadeira, no
sentido em que as suas crenças corresponderiam a uma propriedade moral como a
"correção" ou o "erro". O problema dessa estratégia fundacionista é que ela
parece não se harmonizar a uma sociedade contemporânea com diversidade moral.
Apontar para a verdade de uma teoria moral teria por implicação ter de
reconhecer a falsidade de algumas outras. Isso não seria dogmático? E mais,
isso não estabeleceria uma assimetria entre as crenças morais dos agentes e os
critérios normativos que seriam correspondentes aos fatos morais? Em
contrapartida, uma estratégia coerentista moral não precisa fazer uso do
critério da verdade, necessariamente, para tentar identificar as razões de
escolha entre as teorias morais igualmente consistentes. Ela pode, por exemplo,
perguntar se alguma dessas teorias seria mais aceitável para os agentes morais
e o que poderia caracterizar adequadamente as condições dessa aceitabilidade.
Vejamos um exemplo disso. Como escolher entre o liberalismo e o nazismo sem
tentar identificar qual dessas teorias seria a verdadeira? Poder-se-ia
perguntar aos agentes morais qual teoria seria a mais aceitável. A resposta,
provavelmente, diria que o liberalismo seria mais aceitável para os envolvidos,
isto é, para nós que vivemos em sociedades contemporâneas com pluralismo moral.
Mas por que seria mais aceitável? Talvez pela razão de o liberalismo ser mais
razoável do que o nazismo, considerando o senso moral de comunidades políticas
democráticas contemporâneas. Veja-se que um liberalismo igualitário, por
exemplo, defende os princípios de liberdade, igualdade e bem comum, e esses
princípios morais parecem estar em sintonia com os juízos morais dos cidadãos
de sociedades contemporâneas que valoram positivamente a liberdade, a dignidade
e a igualdade das pessoas. No caso do nazismo, parece que esses valores
professados pelos agentes não estariam sintonizados com o princípio da
discriminação racial, por exemplo, provavelmente implicando a rejeição a esse
sistema. Mas o que se entenderia por razoabilidade aqui? Inicialmente, podemos
explicar esse critério da seguinte maneira: a razoabilidade de um sistema
implicará um conjunto de crenças que não poderiam ser rejeitadas ou derrotadas
por um sistema alternativo de crença. Mas vejamos como podemos explicar o
conceito de razoabilidade de uma forma mais detalhada. Para tal fim, faremos
uso da concepção coerentista de Lehrer e do neocontratualismo de Scanlon.
Tomando como referência o coerentismo defendido por Keith Lehrer, temos que uma
pessoa estaria justificada em aceitar uma proposição ou crença apenas no caso
de tal proposição ou crença ser coerente com a parte relevante de seu sistema
cognitivo. Dessa forma, o que possibilitaria a justificação seria a aceitação
que se dá ao sistema, o que é o mesmo que dizer que a justificação se daria por
coerência entre a crença ou a proposição com o sistema do qual a crença ou a
proposição fazem parte. Assim, uma crença é justificada apenas se ela for mais
razoável que as crenças alternativas em termos de um sistema de crenças de
fundo, ou que as crenças alternativas possam ser neutralizadas em termos desse
sistema. Em suas palavras:
S está pessoalmente justificado em aceitar que p em t se e somente se
S está justificado em aceitar que p sobre a base de aceitação do
sistema de S em t. E, assim, S sabe que p em t se e somente se S está
justificado em aceitar p em t de uma forma que p não seja derrotada
(undefeated) (Lehrer,_1988, pp. 129-131).
O ponto central do argumento de Lehrer é vincular a aceitabilidade da crença
com a sua razoabilidade e essa com a condição de essa crença não poder ser
derrotada. Em outras palavras, podemos entender que a escolha seria dada pela
aceitabilidade das crenças do sistema, o que significaria reconhecer quais
crenças são mais razoáveis para o agente, sendo que a razoabilidade de um
conjunto de crenças implicaria que elas não seriam derrotadas pelas crenças de
um sistema alternativo. Importante notar que estamos falando do que faria um
agente estar pessoalmente justificado em aceitar uma certa crença que p e não
do que apenas justificaria uma crença p de um ponto de vista intersubjetivo.16
Outra maneira de apontar para a força do critério de razoabilidade é ver qual
papel ele desempenha no interior de uma teoria moral. Tomando o
neocontratualismo de Scanlon como referência, o que faz uma ação ser tomada
como errada é que ela não seria aprovada por algum princípio que possuiria a
característica de não poder ser razoavelmente rejeitado. Veja-se que a
importância do critério de razoabilidade é distinguir entre o que é aceitável
para todos os envolvidos e o que é inaceitável. Isso quer dizer que os
princípios morais seriam válidos quando passam no teste da não rejeitabilidade,
isto é, quando não são rejeitados razoavelmente pelos outros. Princípios de
ajuda mútua, fidelidade à promessa e liberdade de expressão passariam no teste
da não rejeitabilidade porque são razoáveis dada a cultura pública das
sociedades contemporâneas. Parece que esse não seria o caso com o princípio da
discriminação racial como adotado pelo nazismo, ou mesmo com um princípio que
requeresse estrita neutralidade entre amigos e estranhos, uma vez que eles
seriam incompatíveis com as atitudes e valores da igualdade e amizade, atitudes
e valores que são prezados socialmente.17
Mas como entender mesmo o critério de razoabilidade para os nossos propósitos
específicos? A partir do que vimos, podemos entender a razoabilidade tanto como
um critério epistemológico quanto moral, isto é, como uma capacidade do sujeito
em reconhecer qual crença passaria no teste de não ser derrotada, bem como uma
capacidade do agente em dar um peso apropriado às reivindicações morais das
pessoas. Com isso, estamos entendendo a razoabilidade como uma virtude tanto
intelectual quanto moral e como uma condição necessária para a justificação.18
Atualizando a formulação do que contaria como uma crença justificada nesse
modelo coerentista de forma a tentar responder a essa segunda objeção, teríamos
que p estará justificada para S em t e C se p for coerente com CS, sistema
caracterizado pela convergência intersubjetiva e razoabilidade e, assim, p
poderá contar como um F para S fazer A.
Mas notemos que isso não é tão simples como poderíamos supor, ao pensar que a
coerência dada pelo critério de razoabilidade nos apontaria claramente para um
dos sistemas coerentes alternativos como o vencedor. Como decidir no caso de
nos depararmos com dois sistemas de crenças que são consistentes e sua
coerência dada pela razoabilidade em ambos os casos? Vejamos um exemplo dessa
situação, recorrendo novamente ao caso dos dois amigos, agora em uma nova
discussão. Augusto acredita que o aborto é imoral e isto em razão de ele
acreditar que não devemos matar seres humanos inocentes e, também, que a vida
possui um caráter sagrado, absoluto. Por sua vez, Beto acredita na moralidade
do aborto e isto em consequência de sua crença em que devemos respeitar a
autonomia dos indivíduos e, também, que a vida possui apenas um valor sensível,
relativo. Agora, imaginemos que Augusto e Beto estejam discutindo sobre a
questão da descriminalização do aborto e ambos apresentassem as suas razões
para defenderem as suas crenças antagônicas. Ninguém poderá apontar para uma
contradição na argumentação e isso porque tanto Augusto como Beto poderão
perceber uma consistência do argumento utilizado pelo outro em razão da
harmonização entre a crença moral, o princípio moral e a crença não moral.
Também, poderão aceitar que as crenças apresentadas consistentemente são
razoáveis, além de possuírem convergência intersubjetiva. Quais as alternativas
restantes, então? Uma primeira possibilidade parece ser a de Augusto ou Beto
modificarem os seus juízos morais ponderados por identificarem uma maior
consistência no argumento do outro. Isso parece difícil nesse caso específico,
uma vez que a real divergência não parece recair sobre os princípios morais
defendidos, mas sobre as crenças não morais de vida sagrada em contraposição à
vida sensível. A não ser que haja uma conversão de uma posição religiosa para
laica ou vice-versa, não parece que seria o caso de um deles mudar suas
convicções morais. A segunda possibilidade, então, poderia ser a de ambos
assumirem uma posição de suspensão do juízo. A terceira poderia ser a de
aceitar um pluralismo moral sobre a questão. Estas duas últimas alternativas
parecem mais plausíveis nesse caso, uma vez que não haveria evidências
suficientes para a confirmação das crenças não morais assumidas pelos
envolvidos. Nessa circunstância, por exemplo, pensamos que Augusto estaria
justificado em recusar a moralidade do aborto e não o praticar em situações
particulares, mas não teria legitimação para defender a sua criminalização, uma
vez que pôde reconhecer a coerência do argumento de Beto. Mesmo que isso não
seja razão para ele mudar a sua crença moral, poderia ser suficiente para
aceitar como legítima uma crença moral diferente.19
O que o método do equilíbrio reflexivo parece mostrar é que a justificação de
crenças morais não precisa ser vista como um processo de encontrar a
correspondência para certos fatos morais absolutos, o que implicaria dualismo,
dogmatismo e, sobretudo, assimetria entre os juízos morais e esses mesmos
fatos. Como não há o uso de fatos morais para a justificação e nem se faz uso
da noção de correspondência, a justificação oportunizada pelo equilíbrio
reflexivo se daria por um processo de reciprocidade entre os princípios e as
crenças morais e não morais. O processo não quer mostrar a verdade da regra em
primeiro lugar para saber qual será a resposta dada ao caso em questão. Antes,
a regra poderia ser estipulada a partir de sua convergência com crenças morais
e não morais. Isso parece significar que o equilíbrio reflexivo possibilitaria
uma pluridirecionalidade entre as regras e os casos, o que implicaria uma
posição de simetria entre os juízos ponderados, os princípios morais e as
crenças genéricas, oportunizando uma saudável e desejada superação da dicotomia
entre os fatos e os valores. É claro que ele não parece suficiente para
determinar como escolher entre sistemas consistentes razoáveis, mas parece
possibilitar, ao menos, um procedimento para orientar a discussão moral de
forma mais racional possível.20
VI
A última objeção que tentaremos responder é a de se a justificação coerentista
não implicaria uma circularidade viciosa. A acusação feita ao coerentismo moral
é que sua forma de justificação recairia em uma circularidade viciosa, uma vez
que só haveria crenças ponderadas tomadas como práticas e princípios morais
nesse processo justificatório, não existindo nada além disso. Essa crítica tem
quase sempre o equilíbrio reflexivo como seu alvo predileto. O problema
específico aponta que uma crença moral, tal como a que afirma que "a tolerância
religiosa é boa", estaria justificada por sua credibilidade do sistema como um
todo, por exemplo, o sistema liberal e, assim, a justificação teria por base a
confiança do que tomamos como justificado. Vejamos que a crítica ressalta que a
nossa medida de credibilidade não poderia ser apenas uma questão de nossa
confiança do que tomamos por estar justificado, uma vez que podemos estar
enganados sobre os nossos juízos que algo está justificado ou é credível. Por
exemplo, poderíamos estar enganados a respeito de nossa razoabilidade ou mesmo
racionalidade e, assim, nossa confiança em um sistema razoável poderia ser um
erro que colocaria em risco a credibilidade atribuída às nossas crenças morais
ponderadas.
Em primeiro lugar, seria importante apontar que a circularidade pode ser tomada
como boa no caso moral em razão de ela possibilitar a superação da dicotomia
radical entre fatos empíricos e valores morais, ou entre crenças e princípios
morais ou mesmo virtudes. No momento que a justificação se daria pela coerência
da crença ao sistema consistente de crenças, que possui crenças morais,
princípios morais e crenças empíricas, parece não haver uma reivindicação de
uma barreira intransponível entre as esferas factual e normativa, pois as
crenças factuais teriam um papel relevante para a justificação de crenças
morais. Mas não seria essa circularidade viciosa e isso não colocaria em risco
toda a justificação? Pensamos que não, e isso em razão de tomarmos o
conhecimento moral objetivo a partir de um entendimento social e não a partir
de um processo inferencial entre crenças básicas e não básicas. Por exemplo, a
aprovação histórica e social teria um papel relevante para a identificação da
razoabilidade de certas convicções morais ou critérios normativos.
Mas isso não responderia à crítica de circularidade, pois mesmo sendo virtuoso
o círculo, ainda haveria a circularidade como problema epistemológico. Outra
forma de tentar responder a essa objeção seria buscar identificar se haveria
algum elemento externo ao sistema coerente de crenças que poderia servir de
critério para confirmar a justificação de tipo coerentista. Retomemos o
argumento da funcionalidade da teoria, observando que a escolha de um sistema
parece ter uma relação direta com a função que o sistema cumpre. Iniciamos
apontando que um dos papéis que parecem relevantes em uma teoria moral seja o
de dizer como deveríamos agir ou mesmo como deveríamos ser com o objetivo de
procurar resolver nossos problemas de convivência social. Para uma teoria moral
poder cumprir com esse papel parece necessário, então, que os agentes da
comunidade agissem de fato segundo os critérios normativos propostos pela
teoria e isso parece trazer por consequência a garantiria da estabilidade
social, uma vez que teríamos agentes agindo moralmente de forma efetiva. Essa
estabilidade seria dada internamente e não externamente, o que implicaria ver a
estabilidade alcançada pela motivação apropriada dos agentes e não por algum
tipo de coerção. Quer dizer, estamos falando de uma estabilidade pelas razões
corretas.
Com isso posto, podemos argumentar que, dado que uma teoria moral teria o papel
de oportunizar a estabilidade social, a teoria que melhor cumprir com essa
função deveria ser a escolhida. Por exemplo, se devemos escolher entre um
liberalismo igualitário que pode ser identificado na justiça como equidade
rawlsiana e o utilitarismo e olharmos para a funcionalidade da teoria, a
escolha pela justiça como equidade não parecerá arbitrária, uma vez que seus
princípios de igual liberdade, igualdade equitativa de oportunidades e
diferença parecem melhor se harmonizarem com as crenças morais dos cidadãos de
democracias liberais contemporâneas a respeito da igualdade e liberdade das
pessoas, bem como a respeito do papel primordial do bem comum. Adotar o
liberalismo igualitário parece trazer por consequência ter uma sociedade mais
estável do que adotando um modelo moral alternativo, como o utilitarista, em
que o princípio do sacrifício seria efetivo nas relações entre os indivíduos. A
questão relevante aqui é chamar a atenção para a dificuldade que pessoas como
nós teríamos em agir conforme o princípio da utilidade em todas as dimensões de
nossa vida social, uma vez que nossas crenças morais ponderadas não aprovariam
alguns de seus efeitos sociais excludentes e isso poderia abalar a estabilidade
no interior mesmo da comunidade.
Isso quer dizer que um princípio moral seria aprovado por sua função de
garantia de estabilidade social e não apenas por sua coerência interna com uma
crença moral. Por exemplo, o princípio da liberdade seria aprovado por garantir
mais estabilidade social do que o princípio da utilidade e não apenas em razão
de sua coerência com a crença na tolerância religiosa. Isso parece implicar que
a escolha por um princípio dentro de um sistema moral não se daria apenas por
sua convergência intersubjetiva e razoabilidade, mas, também, pela
possibilidade de garantir a estabilidade desejada. Importante frisar que a
revisibilidade dos juízos ponderados e princípios morais é uma marca
fundamental do coerentismo holístico. Assim, um princípio seria justificado por
uma prática, da mesma forma que juízos morais seriam justificados por sua
coerência com princípios que seriam justificados por uma prática. E o que faria
uma prática ser justificada? A possibilidade de garantir a estabilidade social.
E isso parece querer dizer que determinadas crenças morais possuiriam uma
credibilidade maior em razão de sua função, o que poderia ser explicado pela
confiança no sistema inteiro do qual a crença faz parte em conseguir cumprir a
sua função de possibilitar a estabilidade social.
Atualizando a nossa formulação a fim de incluir a nossa resposta à objeção de
circularidade, teríamos que p estará justificada para S em t e C se ela for
coerente com SC, sistema caracterizado pela convergência intersubjetiva,
razoabilidade e que garante estabilidade social correta e, assim, p poderá
contar como um F para S fazer A.
Mas alguém poderia perguntar: Por que a estabilidade social seria desejável?
Não seria esse desejo explicado pelas nossas próprias características de
razoabilidade e racionalidade? Não nos encontraríamos aqui novamente em uma
situação circular, em que princípios seriam escolhidos por garantirem aquilo a
que nós próprios já creditamos grande confiança? Temos que reconhecer que sim,
uma vez que parece ser a nossa confiança em nossa própria racionalidade e
razoabilidade que explicaria a desejabilidade da estabilidade. Parece que nos
encontramos novamente com um sistema circular para a justificação. Entretanto,
é possível que essa circularidade possa ser tomada com virtuosa e não viciosa,
uma vez que as crenças podem ser sempre revisáveis a partir de sua função
específica nesse caso moral. A revisibilidade das crenças nesse modelo tem um
importante papel em garantir que não justifiquemos sempre os nossos próprios
preconceitos.
Com isso dito, podemos refletir que uma concepção moral coerentista de tipo
holístico é inegavelmente circular, mas isso não significaria, necessariamente,
tomar essa circularidade como um irremediável problema epistêmico quando
olhamos especificamente para o âmbito da moralidade. Dado que estamos sempre
inseridos em uma dada comunidade moral quando pensamos na justificação de
critérios normativos, a coerência pode e deve ser vista como uma virtude, ao
menos para aqueles que não querem cair novamente nos problemas relacionados ao
fundacionismo, tais como dogmatismo, dualismo e assimetria, problemas que
estariam presentes em uma concepção tradicional de intuicionismo moral, por
exemplo, e estão empenhados na defesa de um modelo moral que aposta na
pluridirecionalidade entre a regra e o caso para a justificação das crenças
morais.
Entretanto, poderia ser o caso de ser preferível adotar uma posição híbrida
entre fundacionismo e coerentismo, como o funderentismo (foundherentism)
proposto por Susan Haack, por exemplo, considerando que a coerência do sistema
seria parte integrante para a justificação, mas que isso não impediria de se
tomar certas crenças como justificadas a partir de suas evidências empíricas ou
a partir da experiência. Dito de outra forma, a justificação não seria apenas
unidirecional, mas envolveria relações permanentes de apoio mútuo entre as
crenças.21 Com esse modelo, cremos que conseguiríamos resolver o problema da
circularidade de uma forma mais eficiente, sem, entretanto, ter de abandonar o
relevante papel da coerência para a justificação de crenças morais. O problema
seria tentar precisar o que contaria mesmo como experiência em se tratando de
crenças morais e não de crenças empíricas. Infelizmente, não poderemos realizar
essa investigação aqui, pois isso ultrapassaria e muito os propósitos deste
artigo que teve apenas por objetivo central procurar ressaltar as virtudes do
coerentismo para o âmbito moral a partir do enfrentamento com as suas mais
conhecidas objeções.
1Veja-se que a coerência seria encontrada entre (i) os juízos morais
ponderados, como os que afirmam que a escravidão e a intolerância religiosa são
injustas, (ii) os princípios de justiça que afirmam a liberdade igual, a
igualdade equitativa de oportunidade e a diferença específica e entre (iii) as
teorias de fundo relevantes, particularmente a teoria da pessoa como moral, a
teoria da justiça procedimental, a teoria social geral e a teoria do papel da
moralidade na sociedade, incluindo a ideia de sociedade bem ordenada. É o nível
III (Teorias) que persuadiria o agente a adotar o aparato contratual com suas
restrições (Nível II). Também, os princípios escolhidos no Nível II teriam duas
restrições: (a) devem ser coerentes com os nossos juízos ponderados em
equilíbrio reflexivo parcial e (b) devem garantir uma sociedade estável. Ver:
Daniels,_1979, p. 260. Rawls explica o equilíbrio reflexivo como um método de
investigação das concepções morais substantivas asseguradas pelas pessoas. Em
suas palavras: "Para fazer isso, se tenta encontrar um esquema de princípios
que se harmonizem com os juízos ponderados e as convicções gerais das pessoas
em equilíbrio reflexivo" (Rawls,_1999a, p. 288). Ver, também, Rawls,_1999b, pp.
15-19.
2Importante frisar que Russell está tomando o conhecimento não como o conjunto
de crenças verdadeiras e justificadas, mas como o conjunto de opiniões
prováveis. Dessa forma, a coerência, embora insuficiente para possibilitar a
verdade, pode auxiliar no processo para se obter conhecimento. Ver: Russell,
1912, pp. 186-219. A respeito de esse problema da coerência ser insuficiente
para verdade, é interessante fazer referência à posição de Olsson, que
identifica que as principais críticas ao coerentismo são mal fundadas, pois têm
por foco uma concepção proposicional de verdade e não uma concepção doxástica
ou testemunhal. Com esta última forma de compreensão, a coerência poderia ser
vista como um melhor condutor à verdade em um sentido mais fraco. Ver: Olsson,
2002, pp. 247-248, 272.
3Essa forma de justificação está associada ao holismo semântico de Quine, que
busca superar a dicotomia entre as proposições analíticas e sintéticas,
contrapondo-se ao atomismo e ao empirismo reducionista. Dessa forma, não
haveria um fundo experiencial próprio para cada sentença, uma vez que apenas
teorias abrangentes possuiriam significância. Assim, nenhum enunciado, tomado
isoladamente de seus pares, admitiria confirmação. Para Quine, nossos
enunciados comparecem ao tribunal da experiência sensível como um corpo
integrado e não de forma isolada (Quine,_1953, p. 41). Ver, também, Quine,
1969, pp. 69-90.
4Outra forma de ver o holismo é associá-lo a uma concepção moral
particularista, de forma que uma determinada característica que seria uma razão
em um caso poderia não ser uma razão em outro. Aqui o holismo está se
contrapondo igualmente ao atomismo, além de estar se contrapondo ao
generalismo. Ver: Dancy,_2004, pp. 1-12. Entretanto, essa vinculação do holismo
ao particularismo não é obrigatória, uma vez que encontramos concepções
holistas que estariam conectadas ao generalismo. Ver a posição de Luke
Robinson, por exemplo. Para ele, o holismo moral pode ser visto como uma forma
de generalismo moral que toma os fatos sobre o correto para explicar certos
fatos morais particulares, a saber, a correção e o erro das ações particulares.
A regra é: O peso e a valência de um fato F em circunstâncias C pode ser
afetado por outros fatos que F ele mesmo. Ver: Robinson,_2006, pp. 332-335.
5Para Bonjour, a tese central do coerentismo holístico é (i) a da não
existência de crenças fundacionais ou básicas e (ii) que a base para a
justificação se funda no fato de que as crenças se harmonizam em conjunto e
apoiam-se mutuamente, formando um sistema coerente de crenças. Assim, a
justificação coerentista possuiria as seguintes características: (a) essa
justificação não é linear, (b) ela deve ter consistência, (c) estar fundada na
observação e (d) não possuir uma metacrença (Bonjour,_2008, pp. 42-53). Sobre a
dependência de uma ontologia genérica que seria característica de qualquer
modelo coerentista holístico, ver: Esfeld,_1998, pp. 367-371. Voltaremos a esse
ponto posteriormente.
6Keith Lehrer apresenta a seguinte fórmula de uma teoria coerentista de
justificação: "S está inteiramente justificado em aceitar que p se e somente se
a crença que p for coerente com outras crenças que pertencem a um sistema C de
crenças de tipo k" (Lehrer,_1990, p. 87).
7Lawrence Bonjour reconstrói essa objeção padrão ao coerentismo (input
objection) e oferece uma interessante resposta ao apontar para o relevante
papel que crenças observacionais podem desempenhar para a justificação empírica
no interior de um sistema coerentista. Ver: Bonjour,_2008, p. 53. Também, ver:
Bonjour,_1985, pp. 139-140.
8Richard Brandt faz uma objeção nesse sentido ao criticar o método do
equilíbrio reflexivo de John Rawls, uma vez que ficções coerentes ainda
continuam sendo ficções e, no caso moral, parecem apenas refletir nossos
próprios preconceitos. Ver: Brandt,_1979, pp. 16-22.
9Brandt faz uma crítica nesses moldes, questionando a respeito da credibilidade
que se deve reconhecer a essas crenças morais iniciais em um modelo
coerentista. Sua acusação é que o coerentismo acaba fazendo uso de um tipo de
intuicionismo, mas não ofereceria nenhuma distinção epistemológica para
creditar mais credibilidade a certas convicções morais. O ponto central é que
essa abordagem implicaria conservadorismo epistêmico. Ver: Brandt,_1990, pp.
265-272. Peter Singer faz críticas semelhantes ao apontar para o perigo em se
atribuir um peso excessivo para os juízos particulares intuitivos, referindo-se
aos juízos ponderados no método de equilíbrio reflexivo. A esse respeito, ver:
Singer,_2002, pp. 46-48.
10Essa crítica foi apontada por Bonjour e ele também a responde fazendo uso do
argumento das crenças observacionais para uma justificação empírica dentro de
um quadro coerentista. Ver: Bonjour,_2008, pp. 53-54. Ver, também, Bonjour,
1985, pp. 143-146.
11Robert Audi faz essa crítica ao coerentismo a respeito dos múltiplos sistemas
coerentes de crenças que são mutuamente incompatíveis. Para Audi, o problema
está em identificar que, se a coerência for a única fonte de justificação, não
ficaria claro como a percepção, memória ou introspecção contribuiriam para a
justificação. Audi também aponta que um grande problema para o coerentismo é
explicar qual é o papel da experiência e da razão como fonte de justificação.
Ver: Audi,_2003, pp. 199-201.
12O problema central do coerentismo que está sendo apontado por Siegel é que a
justificação coerentista se basearia na ideia de credibilidade e, assim, uma
crença estaria justificada pela credibilidade que se poderia atribuir ao
sistema como um todo. A crítica endereçada é que nossa medida de credibilidade
não pode ser apenas uma questão de nossa confiança do que tomamos por estar
justificado. Como podemos estar enganados sobre os nossos juízos de que algo
está justificado ou é credível, nossa confiança pode ser um erro. A falácia do
jogador (gambler's fallacy) mostra que podemos estar errados em nossos juízos,
como é o caso dos juízos probabilísticos que se fazem em certos jogos de azar,
tal como no jogo de roleta, quando se vai contra a probabilidade de cinquenta
por cento cair a cor vermelha ou preta em cada lance. Ver: Siegel,_1992, pp.
43-44.
13Este requisito social do pensamento não é de tipo causal, mas é de uma
dependência superveniente que se dá pela condição de publicidade. É por isso
que, para Pettit, apenas existe uma regra que se está tentando seguir se
existir uma convergência negociável nas nossas respostas (negociable
convergence). Ver: Pettit,_1993, pp. 177-188.
14Em direção similar, John Searle faz uma distinção interessante entre fatos
brutos e fatos institucionais. Os primeiros seriam fatos do tipo que o Monte
Everest tem neve e gelo próximo ao seu cume ou que átomos de hidrogênio têm um
elétron. São fatos totalmente independentes das opiniões humanas. Em contraste
com os fatos brutos, os fatos institucionais são inteiramente dependentes do
acordo humano, tais como o são o dinheiro, a propriedade, o governo e o
casamento. Sobre a construção da realidade social, ver: Searle,_1995, pp. 1-4.
15Parece que um niilismo de tipo nietzschiano também já poderia ser excluído
por inconsistência, uma vez que a conclusão da não existência de valores morais
objetivos não seguiria das premissas que apontam uma historicidade dos valores
morais. Não é porque povos diferentes em épocas diversas atribuem diferentes
valores morais que não poderiam existir valores morais absolutos ainda não
conhecidos por esses povos. Ou não é porque existe diversidade moral que isso
necessariamente implicaria subjetivismo, pois poderia ser o caso de termos
diversidade moral e objetividade, como é o caso defendido pelas éticas
neocontratualistas ao fazer uso do procedimentalismo. Sobre o relativismo
moral, ver: Blackburn,_2000, pp. 38-48.
16Lehrer define uma justificação pessoal da seguinte maneira: "p é coerente com
o sistema aceito de S em t se e somente se é mais razoável para S aceitar p que
aceitar qualquer outra reivindicação alternativa sobre a base do sistema aceito
de S em t". E, "S está pessoalmente justificado em aceitar que p em t se e
somente se p derrota tudo que compete com p sob a base do sistema aceito de S
em p" (Lehrer,_1990, pp. 117 e 118).
17Scanlon formula de seguinte maneira o seu critério moral contratualista: "
[...] pensar sobre o certo e errado é, no seu nível mais básico, pensar sobre o
que seria justificado aos outros sobre os fundamentos que eles, se motivados de
forma apropriada, não rejeitariam razoavelmente" (Scanlon,_1998, p. 5).
18Essa também é a maneira que John Rawls compreende a razoabilidade, isto é
como uma virtude moral e intelectual, uma vez que ela é uma "disposição do
agente em propor e cumprir os termos da cooperação, bem como é uma disposição
para reconhecer os limites da razão e do juízo e aceitar as suas consequências
no uso público da razão para determinar a legitimidade do poder político"
(Rawls,_1996, p. 54).
19Esse exemplo segue a interpretação de Scanlon a respeito do equilíbrio
reflexivo, que seria um método que um indivíduo deveria usar para decidir o que
pensar sobre uma questão moral específica. Assim, os juízos ponderados poderiam
ser considerados como crenças que serviriam como razões para uma dada ação,
isto é, seriam tomados como fatos que obrigariam a uma certa ação. O ponto
central de Scanlon é chamar a atenção que não bastaria assegurar com confiança
um juízo ponderado, pois ele deveria parecer claramente verdadeiro sob
condições corretas de pensamento. Além disso, também seria apropriado tratar
dessas crenças como juízos ponderados em um processo de equilíbrio reflexivo se
não tivermos uma razão aparente para duvidar delas. O pequeno truque seria
tratar o juízo ponderado como provisoriamente verdadeiro. A esse respeito, ver:
Scanlon,_2014, pp. 82-83.
20Creio que a força desse método interpretado de maneira coerentista esteja em
sua defesa da superação de uma forte dicotomia que é bem conhecida na filosofia
moral, que é a dicotomia entre fatos e valores, seja no modelo platônico, seja
em uma concepção positivista, por exemplo. O equilíbrio reflexivo parece
pressupor uma relação de certo tipo entre essas duas diferentes esferas. Sobre
a história da dicotomia entre fatos e valores e seu colapso, ver: Putnam,_2004,
pp. 7-45.
21Nas palavras de Susan Haack: "Uma experiência é relevante para a justificação
de suas crenças empíricas, mas não é preciso nenhuma classe privilegiada de
crenças empíricas justificadas exclusivamente pelo apoio da experiência,
independentemente do apoio de outras crenças" (Haack,_2009, p. 57).