ARTE E CIDADE. CONSIDERAÇÕES CRÍTICAS SOBRE ARTE E VALOR NA SOCIEDADE DE
CLASSES
La ciencia se orienta a refigurar el ser como tal, en su forma más
depurad, dentro de lo posible, de todo anadido subjetivo; mientras
que el ser mentado por la posición estética es siempre el mundo del
hombre (Lukács,_1967, p. 306)
Parte o presente ensaio de um recorte dos estudos realizados entre 2013 e 2014,
no âmbito do nosso estágio sênior na Faculdade de Filosofia e Letras da
Universidade de Buenos Aires como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento do
Pessoal do Ensino Superior (CAPES). Considerando a centralidade da cidade na
conformação do valor da arte numa sociedade de classes, o texto foi
desenvolvido em quatro tópicos de temáticas complementares nos quais são
analisadas as seguintes relações: a) o estatuto da cidade e o valor da arte; b)
a metamorfose da cidade: dinheiro e a mercadoria arte; c) utopias, autonomia e
alienação; d) distopias do presente e banalização da criatividade. A esses
tópicos segue-se um breve apontamento conclusivo.
Justifica-se a correspondência desse conjunto de questões dadas as dimensões
econômico-política, estético-ideológica e moral-educativa da arte que se
encontram engendradas historicamente na totalidade das relações sociais de
produção configuradas na cidade. Portanto, de um lado, o nosso esforço aqui
será o de expor a gênese das características gerais das dimensões sociais
examinadas que se apresentam nas relações de produção, e, por outro lado,
examinar de que forma a exploração do trabalho do artista no sistema
capitalista e os atritos gerados no interior desse processo engendram a
transformação do valor artístico de uso em mercadoria e reificam o saber da
arte.
Estatuto da cidade e valor da arte
Na "Introdução a uma estética marxista", Lukács_(1978) toma por base o conjunto
da obra de Marx, em especial seus apontamentos sobre arte, para aprofundar a
ideia da "arte como autoconsciência do desenvolvimento da humanidade" (pp. 282-
298). Nesse sentido, ele compõe um percurso crítico do pensamento estético
moderno a partir do que entende ser o seu marco inaugural, a revolução
copernicana de Kant, cujo desenrolar impactará a filosofia alemã "[...] que
nessa grande crise de crescimento do pensamento, principiou a colocar o
problema da dialética e a buscar-lhe a solução" (idem, p. 8). Seu ponto de
chegada e fulcro daquela obra e posteriormente da "Estética" (1967) é o exame
da categoria da particularidade por ele considerada central da estética. Para o
filósofo húngaro, por constituírem "um antigo problema do pensamento humano", é
imperioso que se faça a distinção das categorias contidas nas "relações entre a
universalidade, a particularidade e a singularidade" (op. cit, 1978, p. 5).
Todavia, bem mais além do esforço fundador estabelecido na "Introdução" (op.
cit, 1978), será no derradeiro capítulo da "Estética" que o filósofo húngaro
irá expor as etapas principais da luta libertadora da arte (1967; vol. IV, cap.
16, pp. 368-576). Decerto que não é nosso propósito no momento, nem haveria
espaço neste ensaio para nos estendermos na apreciação do percurso lukacsiano,
dos seus desdobramentos e conclusões se não como inspiração e referência
teórico-metodológica para que o nosso próprio percurso possa atingir o objetivo
anunciado mais acima ao final da apresentação do presente trabalho.
Desde o seu aparecimento a polis tem sido identificada pela atividade singular
na história da humanidade que é a luta travada no seu interior em torno da
hegemonia pela condução da vida social. Por essa atividade entenda-se singular
a condução das coisas espirituais, dos negócios comerciais e dos negócios da
guerra e da morte.1 Dada a sua condição estrutural no modo como a comunidade
humana se relaciona para produzir a sua existência e da totalidade da
sociedade, desde logo temos a dimensão econômica e política como essencial - no
sentido que a ontologia crítica confere a esse termo - em todo o processo. A
conquista pública da lei e do saber significou na vida social da polis grega
uma evolução de tal ordem cuja consequência mais visível foi a criação de um
estatuto próprio da cidade. Base daquilo que ficaria conhecido como democracia
ateniense, a unidade fundada nas ideias do múltiplo-semelhante e do diverso-
igual orientaria doravante a episteme grega. Entretanto, se aquela evolução
resultou da renúncia da unicidade do poder ditado pelos segredos das seitas que
detinham a autoridade sagrada e o poder de regência sobre a cidade, a criação
do estatuto da cidade trouxe implicações éticas que acabariam por acrescentar
àquela episteme uma dimensão moral e educativa.
Ao estender a disputa para o terreno ético, a cidade passaria a recusar e mesmo
condenar os discursos ambíguos, dualistas, apaixonados, e todos os sentimentos
subjetivos que inspiram o homem e o empurram sem direção ao acaso. Na defesa da
sua unidade da cidade, o homem grego apreende negativamente a atitude
subjetiva, os desvios da paixão e da imaginação -o sentimento trágico por assim
dizer - pois nelas enxerga uma ameaça ao seu sentido e por isso o condena. Com
essa postura moral, o homem grego desenharia um projeto teleológico para a
cidade a fim de construir uma nova episteme cujo objetivo último seria o de
educar o olhar do homem. O que propunha era dirigir o olhar para o alto
libertando-o das dores profundas causadas pela escravidão do trágico. É,
portanto, no marco da recusa do sentimento trágico que a filosofia propõe a
educação do olhar como um instrumento para o homem ascender ao plano da
verdade. Foi caminhando nesse terreno ético que a metafísica acabaria se
impondo com Platão, sendo no decorrer do tempo absorvida muito menos como uma
proposição filosófica para se tornar um axioma do senso comum. Por tudo isso, o
valor da arte se tornaria um risco, uma ameaça ao estatuto da cidade. Com
efeito, de acordo com Lukács_(1967), ao exigir da arte um critério de cientifi
cidade para refletir a realidade de modo a corresponder "exatamente, sob
qualquer ponto de vista, à relação entre a essência e a aparência, o conteúdo e
a forma etc." (p. 379), Platão afirmava, nesse sentido, que os poetas
inspirados nada sabem do que dizem a respeito da realidade:
[...] esa actitud última de Platón muestra la tendencia básica de su
estimación del arte: el arte tal como se ha desarrollado realmente en
Grecia, como una desplegada imposición de la sustantividad de lo
estético, tiene consecuentemente que desterrarse de la polis
platónica (Lukács,_1967, p. 378).
Mais além da importância que a posição platônica de "anular mentalmente tudo o
que específico da positividade estética" adquiriria com o tempo no corpo da
história da filosofia (ibidem, p. 380), cabe dizer que ela foi determinante
para que a cidade operasse mudanças no seu estatuto. De fato, na polis grega a
condenação da arte e dos artistas não se faria sem debates apaixonados, sem o
aparecimento de tensões, paradoxos e contrapartidas, por vezes incontornáveis e
apreendidas como perigosamente desastrosas para a cidade. Entre aqueles que
defendiam a tese de serem buscadas formas de integrar a arte na vida social se
encontrava Aristóteles. Segundo Lukács_(1967), a descoberta do filósofo da
diferença entre o reflexo estético da realidade e a realidade ela mesma, assim
como a relação daquele reflexo com a ética, teria sido decisiva para que ele
considerasse o potencial político da arte numa sociedade já complexa como a
grega. Entendia Aristóteles que ao refletir a realidade atribuindo qualidades
humanas aos personagens, ao contexto, enfim à totalidade da obra de arte, o
artista oferecia à polis a possibilidade de refletir sobre o seu éthos, isto é,
seus valores, ideias e crenças, seja no sentido crítico (de ruptura) seja no
sentido emancipatório. Assim convencido da função social da arte, Aristóteles
tomaria para si a dupla tarefa de, por um lado, levar o artista a reconhecer a
importância da dimensão ética do que produzia, e, por outro, buscar um novo
significado para a educação dos sentidos da sociedade mediante a politização da
arte. Para Aristóteles, tão fundamental quanto o reconhecimento da polis da
importância epistemológica da arte no combate à "transcendência da doutrina
platônica das ideias e toda doutrina teológica na ética" era que o artista
elevasse o teatro, a poesia, a música à condição de despertar as "forças
próprias de cada homem, para com a sua ajuda - e somente com ela - este possa
mover-se no sentido do seu aperfeiçoamento" (ibidem, p. 380). A este propósito
Lukács destacará que
La concepción aristotélica del arte puesta sobre esa base [la
catarsis] no es menos social - menos nacida de la sociedad, menos
capaz de desembocar en ella - que la de Platón; tampoco ella
contrapone abstractamente el individuo a la sociedad, como tan a
menudo ocurre en la estética moderna; pero en el pensamiento de
Aristóteles la fuerza pedagógica social del arte nace de su propia
consumación estética, y no, como en el pensamiento platónico, de la
momificación o la simple supresión de los principios propiamente
estéticos (1967, pp. 380-381).
A concepção de arte de Aristóteles inaugura um ideal educacional cuja
finalidade seria a de estetizar a moral, e nessa perspectiva ideológica caberia
ao artista a função educativa de elevar a tensão produtiva entre a estética e a
política com o objetivo de se alcançar uma cultura reformada e a subjetividade
revolucionada. Não por acaso essa concepção se entranharia na Antiguidade e
ultrapassaria os seus limites históricos, acrescentando ao sentido e ao destino
da polis uma nova dimensão social, a estética, de resto flagrantemente
referenciada num projeto teleológico-educativo.
Metamorfose da cidade: dinheiro e mercadoria arte
A reinvenção da cidade pelo dinheiro é também a reinvenção do seu sentido e
destino, enfim, das dimensões sociais nela engendradas pela totalidade das
relações de produção. O chocante contraste entre a opulência burguesa e a crua
indigência do proletariado no espaço da cidade expõe uma vida social marcada
pela indiferença e pelo isolamento. Engels, em 1844, diria se tratar de uma
visão "[... ] chocante e perturbadora na medida em que esses indivíduos estão
amalgamados em espaços cada vez menores" (apudKonder,_2000, p. 64). As
revoluções de 1848, precedidas por levantes urbanos que se acumulavam por mais
de duas décadas em diversas cidades europeias, explicitavam a crise estrutural
da sociedade urbanizada e acabariam precipitando aquela que viria a se
constituir na primeira e mais importante experiência burguesa de modernização
de uma cidade: a reforma de Paris. Iniciada em 1852, a reforma urbana e
arquitetônica da cidade foi dada por concluída em 1870, tendo como uma de suas
finalidades facilitar as manobras militares após os conflitos de 1848.
Entretanto, contribuiu ainda decisivamente para a reforma da cidade a
combinação de interesses do Estado e dos rentistas desejosos de especular com
os terrenos no centro urbano ocupados por trabalhadores, o desejo da burguesia
de se manter longe do proletariado e da indigência2 Cumulativamente, a despeito
do pertencimento de classe conformar a sua ideologia no âmbito mais geral do
seu projeto teleológico, a burguesia tinha claro para si o seu fracionamento,
fato que tornava ainda mais dura a luta política pelo controle e a direção do
sentido e do destino da sociedade. É, portanto, em meio a relações sociais cada
vez complexas que a filosofia e a arte irão se debater, ora juntas ora
separadamente, à procura de uma episteme capaz de dar conta de um novo estatuto
para uma sociedade ameaçada pela entropia.3
Do ponto de vista filosófico, a criação de uma nova cidade sobre as mesmas
bases da anterior tinha por finalidade cumprir algo mais do que uma função
modernizadora ao aterrar o seu passado medieval. Sua criação deveria expressar
idealmente um valor. Sem embargo, a cidade seria então apresentada não como
algo que foi reformado, mas sim como uma nova cidade cujo conceito de modelo
universal expressava uma verdade histórica. Para um político esclarecido como
Haussmann, encarregado por Luis Napoleão de conceber e levar adiante as obras
de Paris, havia a percepção de que as ações humanas eram interdependentes e que
estavam condicionadas dialeticamente pelas múltiplas determinações dos seus
respectivos desenvolvimentos. É de se notar, nesse sentido, que no arcabouço
das reformas das cidades e das instituições europeias se apresentava a ideia
hegeliana de totalidade. Com efeito, quer como conteúdo da história,
contraditório, tenso, permanentemente relacional, vincado na contradição de
toda ordem, quer como um continuum civilizatório a atravessar a história
triunfalmente perpassa a ação modernizadora da cidade e de boa parte das
instituições europeias no decorrer do século XIX, aquela ideia estava presente.
Por conseguinte, a nova cidade deveria ser para futuras e sucessivas gerações
um valor civilizatório que expressasse o éthos da uma sociedade orientada pela
racionalidade. Correspondendo a esse telos ético o neoclassicismo e suas
variantes estilísticas no âmbito da Academia emergiram como orientação estética
oficial nas principais atividades que formavam o conjunto central da construção
da nova cidade: o urbanismo, a arquitetura e o paisagismo.
Considerando a questão sob esse aspecto, a arte e a filosofia se alinhavam no
esforço de erigir um modelo universal e secular na forma de uma cidade
neoclássica tal como se apresentava. Cabe notar, entretanto, que o que se passa
no ambiente da cidade reinventada pelo dinheiro é de uma ordem diferente do que
se passou no ambiente da polis, mesmo depois do advento filosófico de
Aristóteles. Nesta última o artista não tinha um lugar social formalmente
definido, e a arte de um modo geral carecia de conceituações consagradas e de
um sistema que a ordenasse e lhe permitisse um abrigo institucional. Já na
cidade dividida socialmente pelo trabalho o artista não apenas conquistara um
lugar social reconhecido, como a totalidade das relações de produção da arte já
tinha engendrado um Sistema particular como uma das instâncias de acumulação de
capital.4 Ora, na medida em que o desenvolvimento da arte em meio às relações
de produção capitalista impôs condições distintas do que para a filosofia, o
seu alinhamento com esta última resultaria ser pontual, durando o tempo
necessário para que a nova cidade fosse absorvida na sua capacidade de
impressionar e que se esgotasse o interesse especulativo dos negócios
burgueses. Na cidade do dinheiro, o valor da arte abrigado no valor da cidade
adquirira a forma transitória da mercadoria. Sob o modo de produção
capitalista, o saber da arte tende à destruição e à autodestruição, e tanto
maior será o poder de destruição e de autodestruição desse saber quanto mais
aceleradas forem "as trocas entre o adquirido e o espontâneo" (Lefebvre,_2001,
p. 170). Menos de um século depois de concluídas as reformas das grandes
cidades europeias, a metrópole universal e secular conceitualmente erigida como
modelo para o futuro "desmanchou-se no ar" (Marx,_Engels,_2001).
A crítica humanista clássica ao atual abandono do Iluminismo fundador pelo
homem moderno e dos valores que engendraram a sociedade burguesa, a liberdade,
a igualdade e a solidariedade, não desconsidera certamente as próprias
contradições e os desvios daquele humanismo que fizeram do presente o que hoje
tanto criticam. No caso da arte, tal como foi apropriado daquele pensamento, o
modelo estético de um saber cuja culminância devia ser refletida na cidade, nas
instituições sociais, no Estado, pôs fim ao passado medieval sem ter se
constituído num valor para a humanidade no presente e no seu desenvolvimento
futuro.5 Nesse sentido, o modelo estético limitou-se à representação de si
mesmo como modelo, e sua precária durabilidade durou o tempo necessário para
ser contestado por tudo aquilo que na primeira metade do século XX foi chamado
de vanguarda.
É verdade que, do ponto de vista da evolução da linguagem artística,
rigorosamente em todos os campos da arte - Literatura, Artes Visuais, Música,
Teatro etc. -, a burguesia logrou alcançar um modo próprio de expressão, bem
distinto de tudo quanto antes fora produzido até algum tempo depois de a sua
classe conquistar a hegemonia política na sociedade. De fato, numa sociedade
orientada pela racionalidade em todos os seus meios, nada restaria dos dogmas
religiosos e dos excessos frívolos de influência aristocrática que permearam
toda arte desde o Renascimento. Conforme apontamos anteriormente, na segunda
metade do século XIX as Academias de arte mantidas pelo Estado compunham parte
do Sistema de Arte com o objetivo de avalizar, formar e reproduzir os valores
estéticos da sociedade burguesa. A despeito disso e contra isso, no limiar do
século XX, uma extraordinária quantidade de tendências estéticas modernizantes
irromperia de forma mais ou menos organizada na vida social.
Em termos do prestígio das Academias e dos valores estéticos que avalizavam
esse fato não significou muita coisa, de resto porque, como notam Argan_(1993)
e Hobsbawm_(1995), o gosto pelo academicismo seguiria sendo para o burguês
vulgar e para a classe trabalhadora a principal referência estética da
verdadeira arte. Todavia, o que tornou possível a progressiva assimilação das
novas linguagens artísticas pelo grande público deveu-se ao fato de os
artífices e os artistas daquelas tendências modernas estarem no seio mesmo da
produção manufatureira e industrial. Nesse sentido, provocariam uma revolução
silenciosa mediante a espacialização de estilos artísticos na vida cotidiana
que faziam avançar, paulatinamente, a gramática da arte compondo um novo
conjunto linguístico. Acrescente-se a isso o fato de que a forma mercadoria
subsumida nos edifícios, lojas e casas, nos talheres, louças, móveis,
ferramentas e equipamentos urbanos, no vestuário, nos cartazes, jornais e
revistas, enfim, por qualquer objeto produzido industrialmente ou mesmo
artesanalmente, trazia as marcas linguísticas dos estilos modernistas e os
massificava no cotidiano das pessoas.
A partir desse fenômeno de gradativa absorção social dos estilos modernistas -
vale dizer, por baixo ou à revelia da autoridade da Academia -, eu deveria
concluir este ensaio examinando, ainda que de modo mais breve do que o
necessário, três aspectos relacionais que me parecem determinantes no exame do
valor da arte no mundo capitalista: a relação entre a busca da autonomia da
arte e o aprofundamento da tendência à destruição e à autodestruição do saber
da arte; a relação entre a exploração do trabalho do artista/artífice e a
subsunção total do objeto artístico à forma mercadoria; a relação entre a
banalização da criatividade e o "alívio do pós-moderno" (Jameson,_1996, p.
317). Entretanto, penso que tendo analisado exaustivamente o segundo aspecto
relacional em trabalhos mais e menos recentes, não faria sentido retomá-lo
aqui.6 Sem embargo, sempre que o exame dos outros dois aspectos assim exigir,
alguns elementos daquela análise serão incorporados.
Utopias, autonomia e alienação
Em pouco mais de vinte e cinco anos, aproximadamente, uma quantidade jamais
vista de movimentos, tendências, impulsos artísticos de vanguarda destruiu
praticamente tudo o que lhes parecia externo à esfera própria da arte. Seja
para garantir a sua autonomia e identidade, seja para livrar o objeto da arte
do que consideravam, por assim dizer, "impurezas" de toda ordem: literárias,
filosóficas, psicológicas etc. O que eles perseguiam era um novo sistema
linguístico, autônomo, que servisse aos meios e aos fins da arte. Contudo,
faltaria a esses movimentos vanguardistas a percepção das contradições
inerentes à sua própria condição de vanguarda, e nesse sentido esses movimentos
seriam levados à sua autodestruição ao se voltarem uns contra os outros.
Na já mencionada "Estética", Lukács_(1967) aborda essa tendência destrutiva e
autodestrutiva das vanguardas à luz da categoria estética da alegoria, cuja
essência é o aniquilamento da realidade imediata, da realidade sensível
(ibidem, pp. 423-474). Na sua dimensão mais ampla a alegoria está associada a
"necessidades religiosas", bem entendidas como "expressão artística de um
individualismo anarquista e niilista" (ibidem, p. 457).7 Para o filósofo
húngaro,
[...] esos síntomas, que no carecen de importancia ni son tampoco
meramente superficiales, no deben escondernos el hecho básico de que
las vivencias subyacentes a la mayoría de los grandes y
característicos productos del arte de vanguardia proceden de
necesidades religiosas, por lo que también su configuración está
determinada por el contenido de dichas vivencias (idem).
Lukács_(1967) observa que sendo a dualidade entre forma e conteúdo a principal
característica da alegoria, sobressai entre as vanguardas uma concepção de
autonomia limítrofe designada pela ideia da arte pela arte. Para ele decorre
disso um formalismo estético cujo efeito é imanente, meramente espiritual e
esvaziado de sentido em face da realidade imediata. De fato, o formalismo
estético foi talvez a característica principal das mais importantes tendências
vanguardistas, adotassem elas a representação figurativa ou não figurativa, e
impôs a arte moderna uma forte característica decorativa, fato que não passaria
despercebido do filósofo húngaro.8 Seu interesse por isso decorre do seu
entendimento da proximidade entre a alegoria e o decorativo como categorias
estéticas pertencentes à estrutura mesma da arte. Tentarei abordar o assunto de
forma resumida.
De acordo com Lukács_(1967), dado o fato de o aparecimento do princípio
decorativo na arte ter ocorrido de forma espontânea muito antes do objeto ou da
figura autônoma - nas pinturas rupestres, por exemplo -, teria dado ao
decorativo, mais amplitude e abrangência do que coube à alegoria.9 Contudo,
sublinha Lukács que o limite da transcendência do decorativo (como processo
mediador da realidade) é a sua não cristalização em um conteúdo, fato que o
levaria necessariamente a produzir algo alegórico (ibidem, p. 434). Cabe
ressaltar que a característica específica do conteúdo a que o filósofo faz aqui
referência criticamente é aquela que ao buscar dar uma nova configuração ao
mundo acaba desfigurando a realidade, tornando o objeto artístico vazio de
sentido. Nesse sentido, o filósofo dirá que contrariamente à transcendência
religiosa da "velha alegoria" estudada por Walter Benjamin (ibidem, p. 468), a
religiosidade da alegoria das vanguardas modernistas se volta tão somente para
a destruição da realidade imediata. Por conseguinte, na extensão do seu exame
do problema das vanguardas, Lukács dirá que é nessa medida da contradição entre
a destruição do mundo e a sua recriação pela arte que o formalismo estético das
suas propostas se mostra inócuo. Para ele se trata de uma reconfiguração do
mundo sem mundo, "uma articulação abstrata da singularidade privada e
generalidade abstrata, que se chega a ter uma eficácia duradoura, isso somente
ocorre ao nível do decorativo vazio de conteúdo" (ibidem, p. 443).10 Reforçando
essa análise, Argan_(1992) escreveria que
[...] como parte de um sistema cultural fundado na racionalidade, na
consciência dos seus limites e na complementaridade natural da
imaginação ou fantasia [...], trazia o signo de uma dedução final e
constituía o documento desesperador de uma civilização em crise (p.
507).
A intenção de revolucionar de forma permanente a linguagem artística levou a
vanguarda a uma dupla operação que geraria uma contradição incontornável. De um
lado, submeteu a arte a uma ideologia estética pensando em destruir a própria
arte e, com ela, o âmago do Sistema. De outro, querendo inserir a arte no seio
da vida social alienou o trabalho de arte na produção de artefatos. A arte se
manteve viva, porém no sentido oposto do pretendido. O caráter alegórico da
nova produção artística acentuou a tendência anti-humanista que preside as
relações sociais no capitalismo, o Sistema de Arte absorveu o golpe e ajustou a
sua tábua de valores metamorfoseando o seu telos e, desde então, na medida em
que as oportunidades se apresentam, a exploração da mais-valia do trabalho de
arte o deslocou da categoria improdutiva tout court. Desde então, consolidada a
ideia de que arte é mercadoria, temos naturalizado o valor de troca como
determinante principal do valor da obra de arte.
Distopias do presente e banalização da criatividade
Em 1981, o artista alemão Martin Kippenberger expôs numa bienal de arte uma de
suas mais conhecidas e controvertidas obras, "Dialog mit der jungend" ("Diálogo
com a juventude"). Desde então a peça vem sendo exibida regularmente em
galerias, museus, bienais e feiras de arte em todo o mundo. Trata-se de uma
reprodução fotográfica em tamanho natural do rosto espancado de Kippenberger, o
objeto fotografado. A imagem mostra uma espessa ligadura na cabeça a esconder
os cortes sofridos pelo artista, sem ocultar, entretanto, as marcas da
violência em seus olhos, nariz, orelhas e boca. Segundo Kippenberger informou
na ocasião, o trabalho fazia parte de um projeto amplo no qual ele se propunha
a desenvolver um "programa lúdico para desmascarar as aparências enganadoras
que, como uma névoa ilusória e impenetrável, envolve a existência humana"
(Honnef,_1988, p. 122). A despeito do fraseado sem sentido, mas de forte apelo
publicitário, a origem da fotografia e da sua apresentação como trabalho
artístico foi por muitos anos alvo de inúmeras controvérsias, o que de resto
inflou a publicidade em torno da obra e a mitificação do artista.11 Com efeito,
desde a sua morte em 1997, suas obras têm sido expostas regularmente, tendo a
cidade de Berlim abrigado, em 2013, uma exposição retrospectiva do artista com
mais de três centenas de suas obras incluindo "Diálogo". Como tem sido habitual
nesse tipo de evento, adiante da sua própria obra, Kippenberger é apresentado
pelos curadores da mostra e pelo jornalismo de entretenimento como um enfant
terrible do Sistema, categoria máxima consignada na atualidade a um artista no
sistema de arte. Dado que a cotação dos seus trabalhos na renomada empresa de
leilões Christie está situada na faixa de U$ 1.600.000, tendo o seu retrato
espancado alcançado a cifra acima dos dois milhões de dólares, o mérito de
Kippenberger está plenamente justificado.
Decerto que o breve exemplo que utilizei aqui como ilustração não chega a ser
suficiente para dar conta da totalidade da arte na atualidade, contudo, não
resta dúvida de que ele representa e sintetiza o amplo conjunto de experiências
estéticas que tem estendido as práticas vanguardistas até os dias de hoje.
Note-se aqui que, do ponto de vista histórico, a materialidade da performance
do artista está constituída numa dimensão em que o meio social dela se apropria
mediada pela indústria do entretenimento, e o seu valor passou a ser
determinado pela escala de produção de bens de consumo agregados.12
Nesse sentido, cabe aqui recordar as palavras de Lukács_(1967) a propósito da
natureza conformista da arte de vanguarda:
[...] con la ayuda de la publicidad, del comercio de arte y de un
verdadero terror periodístico han conseguido dominar la llamada
opinión pública de la intelectualidad, muestra claramente cuál es la
componente de su misión social: producir un atractivo confort para la
sociedad capitalista de nuestros días. En un anterior contexto hemos
hablado de la contradicción entre el inconformismo superficial y el
conformismo de la actitud básica y última. En el merecido y masivo
éxito de principios decorativos de ese tipo se manifiesta con toda
claridad la esencia conformista como núcleo social de esas tendencias
(p. 474).
Teríamos muito mais a dizer acerca do papel mediador da cadeia produtiva da
indústria do entretenimento, incluindo, principalmente, os meios de
comunicação. Todavia, a fim de concluir este trabalho, penso ser importante
retomar a indagação inicial sobre o sentido e o destino da arte examinando
algumas das implicações principais das experiências estéticas vanguardistas no
presente.
Não deixa de ser verdadeiro que submetidos a um exame detalhado da
particularidade dos movimentos vanguardistas revela que a sua negatividade
estética em relação à arte potencializou ideias libertadoras nos mais variados
setores da cultura burguesa. Em contrapartida, no reino da necessidade, aquela
negatividade acabaria sendo transformada em positividade na medida do interesse
que seus artefatos despertavam para atividades mundanas, e nesse sentido seriam
incorporadas à produção industrial. Percebe-se aí uma dupla operação no
processo de mediação social, a partir do que resulta, resumidamente, a ideia de
que as vanguardas não tomaram consciência da inoperância política das suas
ideologias estéticas revolucionárias, nem perceberam que ao insistirem nelas
alimentavam as suas contradições internas. Dessa forma, no cotidiano das
relações sociais, a penetração do reino simbólico pelo imperativo do lucro à
exigência do Novo e da novidade se fez combinadamente na perspectiva
programática de uma cultura da obsolescência visando à intensificação do
consumo de objetos. Já no campo artístico, o reflexo da negatividade estética
inaugural se aprofundou a ponto de banalizar a exigência permanente do Novo e
da novidade. Por extensão lógica, em ambos os casos, fica evidente a
banalização de tudo aquilo que um dia foi chamado de criatividade. É um mundo
em que os objetos assumem a condição de um daemon ex machina a ditar o seu
sentido e destino (Fischer,_1983, p. 96).
Poderia mencionar uma quantidade extraordinária de experiências estéticas cuja
criatividade banalizada segue a linha de "Diálogos", mas me fixarei num breve
exemplo doméstico que ganhou notoriedade na década de 1960 com o título de "Do
porco empalhado ou dos critérios da crítica", escrito pelo crítico de arte
Mário Pedrosa (2007). Em seu relato, Pedrosa descreve a situação de um artista
paulista que havia submetido uma obra ao júri de uma importante exposição em
Brasília. Tendo sido aprovada a obra, um porco empalhado dentro de um engradado
de madeira, o artista então publicou nos jornais de São Paulo uma carta contra
o júri condenando este último pela aprovação. Na carta, o artista criticava a
ignorância do corpo de jurados por não ter conseguido distinguir aquilo que se
tratava de um teste, uma brincadeira, de uma obra verdadeira. Em nome do corpo
de jurados, Mário Pedrosa responderia ao artista publicando um longo artigo no
qual ele esclarecia que, no seu modo de ver, a ideia de testar o júri e a
publicação da carta tinha tanta importância quanto o próprio porco empalhado.
Destacava o crítico que a espacialização da criatividade, demonstrada pelo
artista na sua intenção (ou projeto) de testar o júri, estava compreendida no
contexto libertário da negatividade estética das vanguardas artísticas no
século XX, sendo este, para Pedrosa, um critério decisivo para a aceitação do
porco empalhado. Sendo ou não cinismo a palavra-chave para definir esse
conjunto de atitudes - na verdade para o contexto geral isso pouco importaria
-, certo é que, em oposição a essa perspectiva, devemos considerar que, ao
repetir indefinidamente a negatividade estética da atitude inaugural das
vanguardas modernistas, as experiências estéticas mais recentes não fazem mais
do que revelar uma trágica evolução da arte moderna e expressar a ausência de
limites para o processo de desumanização da arte (Eagleton,_1993).
Conclusões
Fosse isso tudo a ser dito a propósito do valor da arte na atualidade,
possivelmente ficaria aberto um flanco para se pensar que toda crítica à
atitude das vanguardas se faz a partir das mesmas referências aqui dispostas e
com o mesmo propósito reflexivo. Muito pelo contrário, houve um tempo, há pouco
mais de 30 anos, em que diversos setores conservadores da crítica de arte
reagiram contra a influência do darwinismo linguístico que, diziam, estava na
base do pensamento das vanguardas artísticas da primeira metade do século XX.
Traziam a crença de que a sua oposição ao modernismo resultaria num avanço do
sentido e do destino da arte. Com efeito, tomando por referência teórica mais
próxima a recusa pós-estruturalista à categoria da totalidade que preside o
conjunto de metanarrativas - de Hegel a Marx e a Freud -passaram a divulgar que
a reação ao pensamento vanguardista começaria pela condenação da história para
preservar a arte (Oliva apudDe_Fusco,_1988). Defendiam a necessidade de colocar
um termo no racionalismo que impregnara a arte moderna e propunham que o
artista adotasse uma atitude nômade diante da história da arte, significando
isso, na prática, um retorno ao ecletismo. Segundo um dos líderes dessa reação,
o artista deve "abandonar os cânones do moderno em favor do clássico e repudiar
os anos efervescentes de sua anarquia para inscreverem-se numa nova academia
[...], o artista [deve] deixar de viver dentro da história para viver dentro da
arte" (Tomassoni apudDe_Fusco,_1988).
Ao fundo da extraordinária produção teorética conservadora que buscava
justificar o redirecionamento do sentido da produção artística a fim de ajustá-
la às concepções de mundo anti-historicistas então emergentes, vislumbrava-se a
necessidade de recuperação do mercado de arte, duplamente afetado no início dos
anos de 1970. De fato, por um lado, desde o final da Segunda Guerra Mundial,
quando então o acervo geral da arte moderna pode ser enfim catalogado -
incluindo um significativo conjunto de registros documentais de obras efêmeras
do vanguardismo mais radical -, a estrutura do mercado de arte pouco se
alterara. Do ponto de vista do espaço físico as galerias de arte mantinham-se
relativamente modestas e o investimento em museus públicos ou não era limitado
para abrigar propostas de instalações, performances etc. Além disso, dadas as
características de grande porte e/ou efêmeras das obras, o conhecimento sobre
como lidar comercialmente com essa nova complexidade era igualmente limitado.
Por outro lado, a crise estrutural global experimentada no início dos anos 1970
havia levado os investidores habituais no mercado de arte a refrearem as suas
transações. Desse modo, a reação conservadora ao modernismo visava, sobretudo,
garantir ganhos ao capital ganhando tempo para o mercado realizar os ajustes
necessários e recuperar investidores. Por esse ângulo a proposta de retomada
ganharia a força de um slogan publicitário, pretendendo-se de um só golpe
retomar as formas de expressão e seus suportes tradicionais: a pintura, o
desenho, a escultura. Enfim, o que se apresentava como francamente antitético
acabaria se mostrando desonestamente reativo.
Se utilizei o exemplo acima foi apenas para reforçar a ideia de que no
capitalismo o valor da arte é o que advém da exploração do trabalho do artista
e da forma mercadoria da sua produção. Dessa forma, qualquer mudança operada no
sentido e no destino da arte é para mantê-la do mesmo jeito. Por conseguinte,
enquanto esse regime se mantiver, foge ao escopo de uma atitude crítica de
oposição imaginar a humanidade resgatando a arte do labirinto em que foi
encerrada, e muito menos a arte salvando a humanidade. Isso não significa,
decerto, um impedimento ao artista para que ele busque no exercício contra-
hegemônico um valor mais alto para a arte que é a luta pela liberdade. Nos
termos de uma sociedade obcecada por mercadoria, a pergunta que se impõe é como
ela pode fazer isso sem resvalar no proselitismo anódino dos discursos
pedagógicos redundantes, ou na propaganda política de apelo emocional e
ineficaz, de resto formas alegóricas que mais revelam o sintoma do desespero
sem, contudo, elevar o espírito do indivíduo. Em regra, as experiências
estéticas que examinamos e criticamos em boa parte deste trabalho caminharam no
sentido inverso da arte que verdadeiramente conta - como Lukács se referia à
"arte realmente grande" (1978, p. 291). Em verdade ao reduzirem tudo aquilo que
é particular do estético ao Eu individual produziram uma arte em que o excesso
formalista modernista e/ou o mero apelo hedonista da arte mais recente se
mostra absolutamente ineficaz para se tornar algo essencial à vida e para a
existência individual. Para manter viva a luta da arte pela emancipação humana
sem os desvios românticos, e longe do cinismo que marca a atitude estética de
boa parte dos artistas na atualidade, torna-se necessário e urgente que o
artista do presente busque mediar na experiência estética a tensão entre a
realidade vivida e a vida social.
1De acordo com Bornhein, "para os gregos, a morte era principalmente um
fenômeno natural. Eles viviam da guerra, e a guerra provocava a morte. Eles
viviam literalmente com a morte" (2003, p. 14).
2Walter Benjamin (2006), em "Passagens (1927-1940)", e Victor Hugo (2012), em
1862, em "Os miseráveis", descreveriam com acuidade, respectivamente, a Paris
dos especuladores e a dos indigentes.
3Note-se aqui, conforme a exposição que fizemos no início desta parte do texto,
a correspondência entre a luta burguesa pela superação da crise estrutural da
sociedade e a luta da filosofia diante da crise de crescimento do pensamento,
marco que propiciará a Lukács uma tomada de reflexão sobre a centralidade da
categoria da particularidade na estética.
4Em mais de um trabalho examinei a gênese do sistema de arte na transição do
século XVIII para o XIX a partir das determinantes sociopolíticas, econômicas e
culturais que se apresentavam. Da mesma forma, analisei criticamente a
influência desse sistema na formação profissional do artista e seu reflexo no
campo educacional em geral. VideReis_(2010).
5 Lukács_(1978) identifica a permanência de uma determinada arte pela sua
eficácia em fazer os homens reviverem os fatos reais "como algo essencial à
própria vida, como momento importante também para a própria existência
individual" (p. 290).
6Ver Reis_(2010).
7Embora fora do escopo deste ensaio, não posso me furtar em dizer que é
tentador o exercício comparativo entre a ação das vanguardas artísticas e a
estética da violência performática dos atuais grupos anarquistas, como os Black
blocs.
8A propósito do decorativo na pintura, consta do anedotário da arte moderna a
resposta que Matisse teria dado a uma reclamação sobre a cor verde pintada como
pele de uma figura feminina num dos seus quadros: "não é uma mulher, é uma
pintura", teria dito o artista.
9O filósofo aqui faz referência à questão da mimese autêntica, isto é, como
processo de antropomorfização que no decorativo comparece espontaneamente
evocando a representação e a sensação de realidade (ibidem, p. 431).
10Cabe esclarecer que Lukács toma como objeto central da sua análise o conjunto
geral das propostas e da produção dos movimentos vanguardistas. De certo modo
ele desconfia da necessidade de os estetas marxistas levarem adiante a tarefa
de examinar amiúde a produção, entre outros, de artistas "tão talentosos e
potentes como Matisse e Picasso", segundo o filósofo "tão frequentemente presos
em uma experimentação problemática" (ibidem, p. 472).
11Fonte: O Globo, segundo caderno, 19 maio 2013.
12De fato, desde que Kippenberger alcançou o píncaro no Sistema, seu rosto
mutilado, juntamente com o restante de suas obras, agregou valor e está
reproduzido à exaustão em livros, cartazes, blocos de notas, canecas,
camisetas, chaveiros etc. à venda no mercado dos museus e salas de exposição.