Internismo sem intelectualismo e sem reflexividade
1 Introdução
Em 1956, Wilfrid Sellars desferiu um duro golpe à suposta posição que ele mesmo
batizou de "mito do dado". Seu alvo era a teoria dos dados dos sentidos, nas
suas mais variadas versões, e reunidas pela tese central de que a mera sensação
implica uma cognição. Na verdade, a posição seria mítica, pois, segundo o seu
parecer, quando articulada precisamente, ela envolveria a adoção de teses
inconsistentes. Deste modo, ao contrário do que pensavam seus defensores, não
havia posição alguma a ser defendida. No lugar do dado, Sellars propôs a ideia
de que episódios de conhecimentos precisam se inserir no espaço lógico das
razões, isto é, o conhecimento é constituído no seio da nossa atividade de
justificação e racionalização. Posteriormente, sua ideia foi refinada e
desenvolvida por outros filósofos, especialmente John McDowell. Entre outras
coisas, ele cuidou para que a rejeição do mito do dado não fosse interpretada
como uma volta ao véu das representações, à ideia de que não tivéssemos pela
percepção acesso direto aos objetos do ambiente circundante. Em 2011, McDowell
publicou "Perception as a Capacity for Knowledge", onde apresenta essas
elaborações e tenta mostrar como a racionalidade coopera com a percepção para
produzir conhecimento perceptivo de índole internista acerca dos objetos
externos. McDowell se defende aí também das acusações de que a concepção
internista do conhecimento que ele herdara de Sellars é muito intelectualista
e, assim, não explicaria o conhecimento que a maioria dos mortais possui. Neste
artigo, examinamos criticamente a posição de McDowell no livro citado. A
crítica de intelectualismo McDowell enfrenta com o apoio do disjuntivismo
epistemológico. A tese do disjuntivismo sustenta que o suporte epistêmico
acessível ao sujeito em um caso genuíno de visão não é o mesmo que em um caso
de ilusão/alucinação, ainda que os estados perceptivos envolvidos sejam
indistinguíveis introspectivamente. Acredito que este é um caminho acertado.
Porém, o internismo de McDowell ainda tem demandas de reflexividade, o que o
torna suscetível ao argumento do regresso conceitual se a sua posição é
encarada como uma caracterização das condições de posse de conhecimento. Ao
final, proponho um internismo sem intelectualismo e sem reflexividade.
2 Sellars e o mito do dado
Sellars atribui ao defensor do dado uma tríade de teses inconsistentes, que são
as seguintes:
A. X sente o conteúdo dos sentidos s implica que X sabe não-
inferencialmente que s é vermelho.
B. A habilidade de sentir conteúdos dos sentidos é não-adquirida.
C. A habilidade de saber fatos da forma x é Φ é adquirida. (2008, p.
29, grifos do autor)
Como salienta Sellars, A e B implicam não C; B e C implicam não A e A e C
implicam não B. Como o abandono de B e C é caro,1 Sellars conclui que o
defensor do dado terá de abandonar A e se conformar com o fato de que a
sensação não tem qualquer estatuto cognitivo ou epistêmico. Contudo, esta
conclusão de Sellars carece de uma qualificação: a sensação não tem qualquer
estatuto cognitivo ou epistêmico em virtude da sua demanda de que um episódio
mental ocupe uma posição no espaço lógico das razões para constituir-se como um
episódio epistêmico. O reconhecimento de um particular como sendo de um
determinado tipo de coisa, isto é, o conhecimento de x como sendo Φou o
conhecimento de que x é Φ parece envolver a capacidade de defender a alegação
de conhecimento de razões contrárias à aplicação de Φa x. Sem esta capacidade
de dar razões, há apenas a sensação x, mas não o conhecimento de que x é Φ.E
sem um acesso mínimo às condições de correção e incorreção da aplicação de Φ, o
sujeito seria incapaz de defender a alegação de que x é Φ,caso fosse
interpelado a fazê-lo. O que nos leva a um ponto crucial da perspectiva
internista de Sellars: "ao caracterizar um episódio ou um estado com aquele de
saber, não estamos dando uma descrição empírica de tal episódio ou estado; nós
o estamos situando no espaço lógico das razões, do justificar se ser capaz de
justificar o que se diz" (2008, p. 81).
Embora seja claro que a legitimidade da alegação de "sei que x é Φ" envolva
situar ou ser capaz de situar "x é Φ"no espaço lógico das razões, não é
evidente que o conhecimento de x é Φenvolva esta capacidade. A conclusão de
Sellars parece tirar proveito da ambiguidade de "sabe" em A, pois não é claro
se se tem em mente a alegação de conhecimento ou a posse de conhecimento. De
qualquer modo, sem pretender avançar a ideia de que podemos ter conhecimento de
fatos que não envolva a capacidade de situar este episódio cognitivo no espaço
lógico das razões, parece ser um pouco menos controverso sugerir que podemos
ter conhecimento de objetos ou conhecimento por contato direto (acquaintance)
que não envolva tal capacidade. Por exemplo, o defensor do dado poderia
sustentar a seguinte tríade consistente de teses:
A'. O fato de X sentir o conteúdo dos sentidos s implica que X
conhece não inferencialmente a vermelhidão de s.
B. A habilidade de sentir conteúdos dos sentidos é não adquirida.
C'. A habilidade de conhecer diretamente propriedades de certos tipos
de objetos é não adquirida.
Entretanto, Sellars poderia persistir com a sua queixa: o conhecimento da
vermelhidão de s não tem qualquer relevância epistêmica para "sei que s é
vermelho" enquanto este episódio de contato direto com a vermelhidão de s não
for posicionado no espaço lógico das razões. Mas esta conclusão parece
novamente tirar proveito da ambiguidade de "sei".2 Se não estamos falando da
alegação de um conhecimento, por que o sujeito não poderia ter o conhecimento
de que s é vermelho quando estiver em contato direto com a vermelhidão de s? No
final do artigo, retomaremos esta questão.
3 Tyler Burge, intelectualismo e a falibilidade do conhecimento perceptivo
Logo no início do seu livro, McDowell (2011) discute as críticas que Tyler
Burge lançou à perspectiva internista de Sellars acerca do conhecimento
perceptivo. A principal crítica de Burge é que este internismo implicaria uma
forma de intelectualismo, isto é, para que o sujeito tivesse um conhecimento
perceptivo particular ele teria que determinar se certas possibilidades sobre o
seu aparato perceptivo e as condições em que ele se encontra são o caso ou não.
E isto exigiria do sujeito muito mais recursos cognitivos do que é razoável
esperarmos encontrar na maioria das pessoas. Ou seja, posicionar o estado
perceptivo no espaço lógico das razões seria intelectualmente oneroso. Vejamos
o seu argumento. Seu ponto de partida é que os nossos estados perceptivos são
falíveis. Eles são falíveis pelo fato de que a mesma experiência perceptiva
pode ser tanto um caso de experiência verídica quanto um caso de experiência
ilusória e, assim, a garantia que a experiência perceptiva fornece para uma
crença não implica a sua verdade. Deste modo, está em questão saber em que
condições a experiência perceptiva fornece garantia suficiente para suportar
uma crença perceptiva ou uma alegação como "há uma maçã verde sobre a mesa".
Na leitura de Burge do princípio de Sellars, se um episódio perceptivo precisa
ser colocado no espaço lógico das razõescomoum episódio verídico para suportar
uma alegação perceptiva, então é necessário ser capaz de sustentar que o
episódio presente não é ilusório. Já que a garantia dada pela percepção é
falível, é preciso ser capaz de eliminar a possibilidade de que ela tenha
falhado no caso presente. Nesta leitura, esta capacidade demandaria do sujeito
saber, por exemplo, (1) que ele se encontra em condições normais de observação,
(2) que determinados fatores podem afetar a correção do seu estado perceptivo e
(3) que, no momento atual, eles não afetam a correção negativamente. E não
resta dúvida de que demandar conhecimento de (1)-(3) para que o episódio
perceptivo atual legitime uma alegação perceptiva priva a maioria dos adultos
humanos de alegar proposições perceptivas. A demanda, como reclama Burge,
parece ser muito intelectualista e superestima até as capacidades que
encontramos em humanos adultos (2003, p. 529).
4 John McDowell e a percepção como capacidade de conhecimento racional
A resposta de McDowell, em parte, consiste na rejeição da premissa de que
estados perceptivos fornecem garantias falíveis para os relatos perceptivos. Ao
contrário, entendidos adequadamente, os episódios perceptivos são garantias
infalíveis para os relatos perceptivos. Como veremos, para McDowell, a razão
contribui para que a percepção forneça este tipo de garantia. A combinação da
razão e da percepção nos confere o que McDowell chama de capacidade perceptiva
racional.
A ideia central é que, quando tudo ocorre bem no exercício da capacidade
perceptiva racional, não há a possibilidade de que a característica do ambiente
apresentada perceptivamente ao sujeito não esteja lá efetivamente. E, se é
assim, a crença que simplesmente registra a presença desta característica está
infalivelmente garantida (McDowell, 2011, p. 31). Se a garantia perceptiva é
infalível, não há mais a necessidade de sofisticação intelectual para
transformar uma garantia falível em uma garantia adequada para o relato
perceptivo. A garantia dada por um estado perceptivo já é adequada. Se o
sujeito vê uma maçã verde, então ele está justificado a crer que há algo verde
diante dele. O objetivo de McDowell é defender que a percepção racional não só
nos dá a garantia infalível para crenças perceptivas, mas também atende a
condição de Sellars, o que significa que também teremos conhecimento de que
chegamos a saber algo perceptivamente.
Vejamos mais de perto o caso do sujeito que tem diante de si uma maçã verde e
ela é visualmente apresentada ao sujeito pelo exercício da capacidade
perceptiva racional. Em primeiro lugar, é necessário que ele tenha uma
capacidade confiável de discriminação de coisas verdes. Porém, a mera posse
desta faculdade ainda não é suficiente para que os seus episódios perceptivos
sejam casos genuínos de ver. E a este respeito intervém a concepção de
conhecimento internista. Como McDowell alerta, seu ponto é articular uma
espécie de conhecimento perceptivo em que a racionalidade tem um papel
fundamental. Por ser uma espécie de conhecimento, ela não precisa ser
compartilhada por animais e crianças sem racionalidade minimamente
desenvolvida. McDowell diz que está apenas defendendo uma espécie do gênero
conhecimento, própria de sujeitos com racionalidade. Ao mesmo tempo, ele
concede que animais, crianças sem racionalidade e adultos com racionalidade
compartilhem o gênero de conhecimento defendido por externistas (McDowell,
2011, p. 21). Ele especifica da seguinte maneira o internismo defendido:
A garantia em virtude da qual uma crença conta como conhecível é
acessível ao conhecedor, ela é potencialmente conhecida por ele.
Alguém que tenha um item de conhecimento do tipo relevante está
autoconsciente das credenciais de seu conhecimento. (McDowell, 2011,
p. 17)3
Deste modo, a mera posse de uma capacidade de discriminação de coisas verdes
não torna os episódios perceptivos diante de coisas verdes casos de ver em
sentido internista. O que falta às crianças e aos animais é a capacidade de
posicionar estes episódios perceptivos no espaço lógico das razões, a condição
de Sellars. E este posicionamento é justamente a contribuição da razão no
processo perceptivo. Somente neste estágio se pode dizer do sujeito que ele tem
uma capacidade perceptiva racional.
A capacidade perceptiva é responsável por dar acesso a uma característica do
ambiente que realmente está lá, mas o sujeito só toma ciência deste acesso e,
assim, apoia-se nele para obter conhecimento perceptivo internista do seu
entorno, quando toma ciência da própria capacidade perceptiva. Antes disto, o
acesso não está disponível para a atividade reflexiva do sujeito. A capacidade
perceptiva racional é, assim, composta por duas outras capacidades: a
capacidade de discriminação perceptiva, nas suas várias modalidades, e a
capacidade de posicionar os estados perceptivos resultantes da discriminação no
espaço lógico das razões. A ideia de McDowell é que, pelo exercício adequado da
capacidade perceptiva racional, o sujeito não só tem a garantia infalível para
a crença de que algo é verde quando vê algo verde, mas também sabe que adquire
este conhecimento (ibidem, p. 44). E, para posicionar o seu episódio perceptivo
no espaço lógico das razões, fazendo dele, então, um episódio genuíno de visão,
na acepção internista de conhecimento, o sujeito deve ser capaz de se
autoatribuir a capacidade de discriminar coisas verdes (ibidem, p. 32).
5 A crítica intelectualista e a rejeição do fator comum
Se, quando tudo vai bem no exercício da capacidade perceptiva racional, não há
a possibilidade de que a característica do ambiente apresentada perceptivamente
ao sujeito não esteja lá, então McDowell toma a capacidade perceptiva como
infalível? Não. Mas se ela não é infalível, então por que não deveríamos
aumentar as exigências intelectualistas para assegurar que o episódio
perceptivo presente é realmente um caso de ver, por exemplo, exigindo do
sujeito o conhecimento de (1)-(3)? Como a condição de Sellars pode ser atendida
sem isto? O que McDowell fundamentalmente nega desta posição é a tese do fator
comum. Os estados perceptivos são falíveis se considerarmos que eles nos dão
acesso à mesma coisa, seja lá que tipo de coisa for, em casos verídicos e em
casos de ilusão. E é por esta razão que precisaríamos nos assegurar de que o
estado perceptivo presente é um caso de percepção verídica. McDowell rejeita
que a percepção nos apresente o mesmo em ambas as situações. A falibilidade,
para ele, não é uma característica dos estados perceptivos, mas sim da nossa
capacidade perceptiva (McDowell, 2011, p. 37). Ela sim produz ou estados que
apresentam uma característica do ambiente que realmente está lá, ou que não
apresentam. Mas o estado perceptivo ele mesmo não pode falhar, ou ele já é
falho e não nos apresenta nada, ou ele é verídico e nos apresenta o que
realmente está lá no ambiente.
Contudo, se, por um lado, a rejeição do fator comum permite que McDowell
sustente que o estado perceptivo, quando tudo vai bem, garante a verdade da
crença que registra o que perceptivamente nos é apresentado, por outro, não é
óbvio que, tomando o seu estado perceptivo presente, o sujeito saiba que o
exercício da sua capacidade perceptiva racional foi bem-sucedido. A condição
defendida por McDowell de que o sujeito deve ser capaz de se autoatribuir a
capacidade perceptiva para que seus episódios perceptivos bem-sucedidos sejam
episódios de conhecimento internista, posicionados no espaço lógico das razões,
visa ao enfrentamento desta dificuldade. Quando tudo vai bem no exercício da
capacidade perceptiva racional, o sujeito não só, por exemplo, sabe que há algo
verde diante dele, mas também sabe como veio a saber tal coisa: pela
experiência visual da maçã verde sobre a mesa. Ele só sabe como veio a saber
tal coisa porque justificadamente se autoatribui uma capacidade perceptiva
confiável.
McDowell está ciente de que isso apenas não é suficiente. Se aqueles que
consideram os estados perceptivos falíveis precisam compensar esta falibilidade
com conhecimentos que eliminem a possibilidade de o estado ser ilusório, por
que McDowell não deveria compensar a falibilidade da capacidade perceptiva para
que o sujeito tenha conhecimento de que o seu estado perceptivo presente foi o
resultado de um exercício bem-sucedido desta capacidade? A dificuldade aqui não
está em conceder que a garantia é infalível quando tudo vai bem, mas em
conceder que o sujeito sabe posicionar o estado perceptivo no espaço lógico das
razões, que ele sabe que esta garantia está disponível. E, sem este
conhecimento, o sujeito seria incapaz de defender justificadamente as suas
alegações perceptivas, como, por exemplo, "vejo algo verde". O que a
falibilidade da capacidade perceptiva coloca em xeque é o conhecimento de como
chegamos a conhecer algo. Mas, para um internista como McDowell, isto implica
colocar em xeque este último conhecimento também. O risco que McDowell corre
aqui é o de ter de recorrer a alguma forma exagerada de intelectualismo, como o
discutido por Burge, para salvar o internismo.
Se o sujeito não consegue discriminar um exercício bem-sucedido da capacidade
perceptiva racional de outro malsucedido, e isto pode ocorrer, por exemplo,
quando, sem a sua ciência, as condições de iluminação do ambiente não são
adequadas, então parece que teríamos de reconhecer que o sujeito não sabe se o
exercício foi bem-sucedido e, portanto, não sabe se a garantia perceptiva
infalível está lá disponível. Sem eliminar a possibilidade lógica de que as
condições de iluminação são inadequadas, o sujeito não teria conhecimento
perceptivo racional. Entretanto, se esta for uma condição para ter conhecimento
perceptivo racional, então o intelectualismo não foi afastado. Poucos teriam
esta espécie de conhecimento perceptivo.
A resposta de McDowell a esta dificuldade envolve dois movimentos: (a) a recusa
da tese do fator comum também no conhecimento de segundo nível a respeito dos
nossos estados perceptivos e (b) uma consideração de quais possibilidades
contrárias a este conhecimento de segundo nível realmente ameaçam a
legitimidade da sua alegação. Vejamos cada um destes movimentos. A falibilidade
foi usada no último parágrafo para minar o conhecimento de segundo nível do
sujeito de que o seu estado perceptivo presente é um caso genuíno de ver, por
exemplo, algo verde. Mas isto só foi possível na assunção da tese do fator
comum. Dado tudo o que o sujeito sabe, seu conhecimento é compatível com as
condições de iluminação não serem adequadas. Sendo assim, qualquer que seja a
situação com respeito às condições de iluminação, se adequadas ou inadequadas,
os estados perceptivos deste sujeito fornecem a mesma garantia. Eis a tese do
fator comum. Contudo, se quando as condições de iluminação são inadequadas, ele
não sabe se o seu estado perceptivo é um caso genuíno de visão, então, quando
as condições de iluminação são adequadas, ele também não tem este conhecimento,
uma vez que o seu conhecimento total é insensível à diferença entre estas
situações. Justamente esta última afirmação McDowell (2011, p. 42) pretende
negar ao se apoiar na rejeição do fator comum. O fato de o sujeito não saber
que o seu estado perceptivo presente não é um caso genuíno de visão quando as
condições de iluminação são inadequadas não implica que o sujeito não possa
saber tal coisa quando as condições de iluminação são adequadas (ibidem, p.
43).
Conforme varie a situação em que o sujeito se encontra, o mesmo episódio
perceptivo poderá ser um caso de visão genuína ou um caso de ilusão. E há uma
razão simples para isso. Quando as condições de iluminação são adequadas, a
capacidade perceptiva do sujeito se encontra em condições favoráveis para
exercícios bem-sucedidos. A capacidade de discriminação apresentará visualmente
o objeto verde que realmente está lá e o sujeito saberá que este é um caso
genuíno de visão, uma vez que se autoatribua justificadamente a posse desta
capacidade de discriminação. É um erro pensar que o sujeito não tenha este
último conhecimento nas situações em que as condições de iluminação são
adequadas. Logo veremos que a sustentação deste ponto depende do movimento (b),
a consideração de quais possibilidades contrárias ameaçam o conhecimento de que
o estado perceptivo é um caso genuíno de visão. Por ora, o ponto de McDowell
pode ser colocado da seguinte maneira: o fato de as condições de iluminação
serem efetivamente inadequadas impede que o sujeito veja algo verde, pois
impossibilita que a verdidão do objeto lhe seja dada, e impede também que ele
venha a saber que o seu estado perceptivo não é um caso genuíno de visão, uma
vez que lhe passe despercebido que as condições de iluminação não são
adequadas; e o fato de as condições de iluminação serem efetivamente adequadas
permite que o sujeito veja algo verde quando há algo verde diante dele e saiba
que se trata de um caso genuíno de visão se ele é capaz de alegar
justificadamente algo como: "eu discrimino coisas verdes quando as vejo". O
fator comum é, assim, rejeitado em todos os níveis.4 Conforme a contribuição da
natureza,5 isto é, conforme as condições de iluminação estejam ou não
adequadas, o mesmo estado perceptivo de um sujeito será um caso genuíno de
visão ou um caso de ilusão/alucinação.6
Algumas versões do externismo não teriam dificuldade em concordar com McDowell
que, quando as condições de iluminação são adequadas, nossas capacidades
visuais discriminam as cores de objetos confiavelmente, e, portanto, nossos
estados perceptivos no que diz respeito à cor dos objetos vistos são casos de
visão genuína. Porém, muitos externistas não demandariam do sujeito a
capacidade de posicionar estes estados perceptivos no espaço lógico das razões
para que sejam considerados casos genuínos de visão, para que o sujeito tenha
um episódio de conhecimento perceptivo. E a este respeito, como já vimos,
McDowell se distancia dos externistas. Sem esta capacidade racional, os estados
perceptivos não são casos genuínos de ver na concepção internista de
conhecimento racional. Mas então a dificuldade que McDowell precisa enfrentar é
a seguinte: embora condições adequadas de iluminação sejam necessárias para o
correto exercício da capacidade visual de discriminação de cores e, portanto,
sejam necessárias para que os episódios perceptivos sejam casos genuínos de
visão das cores dos objetos, elas não são suficientes para que estes episódios
sejam casos genuínos de visão na concepção internista de conhecimento racional.
A racionalidade precisa cumprir a sua parte posicionando estes episódios no
espaço lógico das razões e a dúvida que persiste é se, para fazer isto, ela
precisa eliminar a possibilidade lógica de que as condições de iluminação não
sejam adequadas. Que esta possibilidade deva ser eliminada é corroborado pelo
fato de que a autoatribuição da capacidade confiável de discriminação das cores
dos objetos envolve a compreensão de que o exercício bem-sucedido desta
capacidade depende de determinadas condições de iluminação (McDowell, 2011, p.
44). Além disso, "a luz pode ser inadequada para conhecer a cor dos objetos
pela visão sem que haja qualquer pista para este fato" (ibidem, p. 45). Há aqui
uma real ameaça intelectualista.
McDowell discute uma série de situações imaginadas para sugerir que a
possibilidade de que as condições de iluminação não são adequadas deva ser
eliminada apenas se, dado o que o sujeito julga saber, ela não está excluída
(ibidem, p. 48). McDowell tem aí em mente uma possibilidade epistêmica. Em uma
dessas situações, ele nos convida a imaginar um sujeito em um contexto de teste
psicológico cuja tarefa é classificar os objetos que lhe são apresentados
quanto à cor. O experimentador diz ao sujeito que as condições de iluminação
não serão adequadas na metade dos testes. O sujeito recebe esta alegação do
experimentador como um testemunho confiável. A pergunta é se o sujeito pode, em
qualquer um dos testes, alegar saber a cor do objeto. McDowell diz que não,
pois nestes casos a eliminação da possibilidade de que as condições de
iluminação são inadequadas é necessária para posicionar os episódios
perceptivos no espaço lógico das razões. Neste contexto, esta possibilidade é
relevante porque foi introduzida ao sujeito com autoridade (ibidem, p. 50),
isto é, com estatuto epistêmico. Mas como o sujeito não é capaz de eliminar
esta possibilidade, ele não tem como sustentar que o seu episódio perceptivo é
um caso de ver genuíno.
É importante frisar que McDowell não está, neste caso, vetando apenas o
conhecimento de segundo nível de que o estado perceptivo é um caso genuíno de
visão ou o conhecimento de que o seu estado perceptivo lhe fornece uma garantia
infalível. Mesmo nos testes em que as condições de iluminação são adequadas,
mas o sujeito não tem ciência disto, seus estados perceptivos não são episódios
de visão genuína: "não devemos concluir que, em nenhum dos casos, a verdidão da
coisa está visualmente presente para ele no sentido relevante" (ibidem, p. 47).
E, para entender esta alegação de McDowell, temos de distinguir entre episódios
de visão que atendam a sua concepção internista de conhecimento e episódios de
visão que não atendam. Pela definição de McDowell do internismo, os episódios
perceptivos não são casos genuínos de visão mesmo quando as condições de
iluminação são adequadas se o sujeito não é capaz de eliminar a possibilidade
epistêmicacontrária que lhe foi introduzida, pois sem isso ele não garante o
conhecimento potencial do acesso que o estado visual lhe dá à verdidão da
coisa. Ou seja, segundo o internismo de McDowell, para ver genuinamente, o
sujeito tem de ser capaz ao menos de saber que vê.
Faria alguma diferença se o experimentador tivesse mentido e, na verdade, todos
os testes fossem realizados em condições normais de iluminação (ibidem, p. 51)?
Não, mesmo neste caso, o sujeito igualmente não veria a cor dos objetos que lhe
são apresentados, como também não saberia se seus estados perceptivos são casos
genuínos de visão ou não. Dado tudo o que o sujeito sabe, e entre o que ele
sabe está a alegação testemunhada pelo experimentador de que em metade dos
testes as condições de iluminação não serão adequadas, esta é uma possibilidade
epistêmica. Para McDowell, não faria diferença nem mesmo se o experimentador
dissesse para o sujeito que de cada cem testes apenas um teria condições
inadequadas de iluminação (ibidem, p. 51). Se o sujeito não consegue eliminar
esta possibilidade epistêmica, ele não pode ter episódios genuínos de visão. E,
novamente, não faria diferença se também neste caso o experimentador tivesse
mentido.
Para McDowell, estas situações ilustram o ponto que favorece o seu internismo
sem intelectualismo: a possibilidade de que as condições de iluminação não
sejam adequadas só precisa ser eliminada pelo sujeito quando ele tem uma razão
específica para pensar que ela é o caso na situação em que ele se encontra. Na
ausência desta razão, a mera possibilidade lógica de que as condições de
iluminação não são adequadas não depõe contra a sua capacidade de posicionar os
seus estados perceptivos no espaço lógico das razões, obtendo assim não só o
conhecimento da cor de um objeto, mas o conhecimento de como sabe isso (ibidem,
p. 50). Assim, nos contextos habituais, fora da situação de experimentação
imaginada, a alegação "eu discrimino coisas verdes quando as vejo" é
justificada, mesmo que o sujeito não seja capaz de eliminar a possibilidade
lógica de que as condições de iluminação não são adequadas e mesmo que ele
corra o risco de dizer algo falso e, portanto, sem conhecimento. A falibilidade
da capacidade de discriminação não é um impedimento para o conhecimento
perceptivo racional.
6 Falibilidade, possibilidades contrárias e a autoatribuição de capacidades de
discriminação
É importante para McDowell garantir que a falibilidade de nossas capacidades de
discriminação não ameace a legitimidade da autoatribuição da posse destas
faculdades. E garantir isso sem ter de recorrer a uma versão intelectualizada
do internismo. Para reforçar este ponto, McDowell nos convida a supor que
estatísticos quantificaram a probabilidade de errarmos, em contextos habituais,
a identificação das cores de objetos. Suponhamos que eles descobriram que em
cada cem identificações uma é incorreta. A probabilidade de erro é a mesma da
situação imaginada em que o experimentador diz ao sujeito que em cada cem
testes um terá condições inadequadas de iluminação. Contudo, McDowell sustenta
que os casos são diferentes no que tange à legitimidade da alegação de
conhecimento perceptivo. A possibilidade determinada de que as condições de
iluminação não são adequadas, ao ser introduzida com autoridade, na situação de
teste, é uma que o sujeito tem de eliminar para ter conhecimento perceptivo
racional. Mas o fato mesmo da falibilidade da capacidade perceptiva, expresso
na mera possibilidade lógica de errar, ainda que quantificado
probabilisticamente como tendo a chance de um em cem, não afeta o conhecimento
do sujeito quando, em contextos habituais, o exercício da sua capacidade
perceptiva é bem-sucedido: "quando tudo vai bem no exercício de uma capacidade
perceptiva falível, seu possuidor está em uma posição que conclusivamente o
garante crer em algo" (McDowell, 2011, p. 52).
Neste ponto, o argumento de McDowell não é muito claro. Ele introduz esta
possibilidade da quantificação probabilística da falibilidade de nossas
capacidades cognitivas, mas não é explícito quanto ao sujeito ter ciência desta
quantificação. E assim não fica claro se o motivo pelo qual a falibilidade não
afeta o conhecimento do sujeito se deve ao mero fato de ele não ter
conhecimento da probabilidade efetiva de errar de suas capacidades perceptivas.
Se o que estava em questão era apenas a possibilidade de erro ser ou não
epistêmica, bastaria o sujeito ter o conhecimento probabilístico da
falibilidade da sua capacidade cognitiva para que ele perdesse,7 então, o
conhecimento de que, por exemplo, algo é verde e o conhecimento de que sabe
isso. A dificuldade desta posição é que o sujeito não poderia vir a saber muito
sobre a falibilidade de suas capacidades perceptivas a ponto de este
conhecimento implicar possibilidades epistêmicas que minam as suas alegações de
conhecimento perceptivo.
Para reforçar as suas considerações sobre a falibilidade, McDowell recorre a
outra distinção, entre possibilidade determinada e não determinada (ibidem, p.
52). Seu ponto assim é que a falibilidade de nossas capacidades perceptivas
implica apenas uma possibilidade não determinada de errar. O estudo estatístico
das identificações equivocadas apenas indica a probabilidade de erro, que,
quando ocorre, pode ser ocasionado pelas mais diferentes razões e não só pelas
condições inadequadas de iluminação. Uma possibilidade indeterminada não é uma
que o sujeito tenha de eliminar, mesmo que esteja ciente dela e ela tenha sido
introduzida com autoridade. Esta é uma consideração razoável, já que seria
completamente ilegítimo exigir do sujeito a eliminação de uma possibilidade que
ele não sabe determinadamente qual é.8 Assim, o que McDowell teria a dizer
sobre (b) é que uma possibilidade contrária a uma alegação de conhecimento só
deve ser eliminada se ela for epistêmica e determinada. Como a falibilidade de
nossas capacidades perceptivas implica apenas uma possibilidade indeterminada
de errar, ela não ameaça o nosso conhecimento perceptivo, quer tenhamos o
conhecimento estatístico da probabilidade de errar das nossas capacidades
perceptivas, quer não tenhamos este conhecimento.
Como vejo a questão, exigir que a possibilidade seja epistêmica para que ela
tenha o direito de ameaçar o conhecimento não é gratuito. Stroud (1984, p. 64)
reclamaria de uma passagem ilegítima das condições de asserção da alegação de
conhecimento para as condições de verdade desta alegação. Mesmo reconhecendo
que só uma possibilidade epistêmica poderia ameaçar a legitimidade de asserir
"eu discrimino coisas verdes quando as vejo", disto não se segue, argumentaria
Stroud, que uma possibilidade lógica contrária a esta alegação não ameace a sua
verdade. Porém, a razoabilidade desta passagem funda-se na rejeição do fator
comum, uma possibilidade desconsiderada por Stroud. Como esta rejeição se
aplica a todos os níveis de conhecimento, e, por isso, nos casos em que há
conhecimento, a possibilidade contrária está excluída, não há qualquer razão
para o que o sujeito a exclua a não ser que ele tenha uma razão para pensar que
ela é o caso.
Assim, com os movimentos (a) e (b), McDowell teria mostrado como podemos ter
internismo sem intelectualismo. Um sujeito minimamente capaz, por exemplo, de
se autoatribuir a capacidade de discriminação de coisas verdes pode ver coisas
verdes na presença de coisas verdes e saber que vê coisas verdes. Se as
condições de iluminação são adequadas, o sujeito pode realizar um exercício
bem-sucedido de suas capacidades perceptivas e vir a ter um estado genuíno de
visão, por exemplo, a visão de algo verde. Se, além disso, ele legitimamente é
capaz de afirmar "eu discrimino coisas verdes quando as vejo", o que facilmente
ele estará apto a fazer nos contextos em que não há a necessidade de eliminar a
possibilidade epistêmica e determinada de que as condições de iluminação não
são adequadas, então o sujeito sabe também que a sua percepção visual é um caso
genuíno de visão. A visão de algo verde é a garantia infalível para a sua
crença de que há algo verde e, ao ser capaz de posicionar este episódio de
visão no espaço lógico das razões, ele é capaz de saber que tem esta garantia
para a sua crença, o que satisfaz a compreensão que McDowell tem do internismo:
"a garantia em virtude da qual uma crença conta como conhecível é acessível ao
conhecedor, ela é potencialmente conhecida por ele" (2011, p. 17).
7 Regresso conceitual?
Fumerton chama a atenção para um tipo de regresso no qual internistas de acesso
correm o risco de cair. Este tipo de regresso é chamado de conceitualpor ser
engendrado pela própria definição de um termo epistêmico. Por exemplo, caso
alguém proponha que além de a condição X ser constitutiva da justificação, é
ainda necessário que o sujeito tenha acesso à satisfação da condição X, então a
própria definição nos leva recursivamente a um regresso. Chamemos esta condição
ulterior, S tem acesso à satisfação da condição X, de A.A presença de X e Aé
agora suficiente para a justificação? Não, pois, se qualquer que seja a
condição de justificação, ela precisar ser fortificada com a condição de que o
sujeito tem acesso à sua satisfação, então agora o sujeito tem de ter acesso à
satisfação deX e A(Fumerton, 2006, p. 68). E assim prossegue o regresso e a
justificação só se constitui por uma quantidade infinita de condições. A
solução para tal dificuldade, sugere Fumerton, é distinguir o que é necessário
do que é constitutivo da justificação. O acesso não pode ser uma condição
constitutiva da justificação. E as condições X, constitutivas da justificação,
devem ser arranjadas de tal forma que elas também impliquem que o sujeito tenha
acesso atual ou potencial a estas condições.
Conforme vejamos a colaboração da racionalidade na atividade perceptiva, a
posição de McDowell pode estar comprometida com um tipo de regresso conceitual.
Vimos que, para McDowell, se o sujeito não for capaz de posicionar o seu
episódio perceptivo no espaço lógico das razões, então mesmo que seu estado
perceptivo seja o resultado bem-sucedido de um exercício da capacidade
perceptiva em condições adequadas de iluminação, ele não será um episódio de
conhecimento. Sem a primeira capacidade, a segunda não produz estados
perceptivos que são conhecimento. O exercício da primeira capacidade pode não
ser necessário, mas a posse atual desta capacidade sim, para que os produtos do
exercício da segunda capacidade sejam episódios de conhecimento. Talvez seja
isto que McDowell tenha em mente quando diz que uma condição para o
conhecimento é conhecer potencialmente a garantia daquele conhecimento. Ainda
assim, o conhecimento potencial de segundo nível é constitutivo do conhecimento
de primeiro nível. O sujeito tem de efetivamente possuir a capacidade que lhe
permite conhecer esta garantia para que ela seja a garantia de alguma crença.
E, se para conhecer que p, o sujeito tem de estar em condições de conhecer
potencialmente a garantia para p, então, para conhecer potencialmente a
garantia para p,o sujeito tem de estar em condições de conhecer potencialmente
a garantia para o conhecimento potencial da garantia para p, e assim
sucessivamente. Há aqui uma espécie de regresso conceitual com respeito à
definição de conhecimento.
Mas será correto ver a posição de McDowell comprometida com o regresso
conceitual? Não é absolutamente claro se McDowell, ao defender o conhecimento
perceptivo racional como uma espécie de conhecimento, está sustentando uma
posição que especifica condições constitutivas para a possede conhecimento
perceptivo ou uma posição que especifica condições necessárias para a
alegaçãode conhecimento perceptivo. Apenas no primeiro caso a posição de
McDowell estaria comprometida com o regresso conceitual. Há algumas razões para
pensar que ele caminhou nesta direção. Quando McDowell discute a situação de
teste em que o experimentador mente para o sujeito que as condições de
iluminação não serão adequadas, ele sustenta que o sujeito não veria a cor dos
objetos em virtude de não conseguir eliminar a possibilidade de que as
condições de iluminação são inadequadas. E não se trata, ao que tudo indica,
apenas do fato de o sujeito não estar em condições de alegar que sabe que há
algo verde em virtude de não conseguir eliminar tal possibilidade. McDowell
afirma que, nesta situação, não "devemos concluir [...] que a verdidão da coisa
está visualmente presente para ela" (McDowell, 2011, p. 47). De modo similar,
na situação de teste em que o experimentador não mente, as condições de
iluminação são adequadas, mas o sujeito não é capaz eliminar a possibilidade
contrária introduzida com autoridade, McDowell nega que o sujeito esteja vendo
algo verde: "Devemos concluir que a verdidão da coisa está visualmente presente
para ela? Se o fizéssemos, o caso seria um contraexemplo à posição que estive
recomendando" (McDowell, 2011, p. 46). Ao negar, na terceira pessoa, que a
verdidão do objeto esteja visualmente presente ao sujeito do teste nestes
casos, McDowell não parece querer dizer apenas que o sujeito não está em
condições de defender o seu estado perceptivo como um episódio de visão; mais
do que isso, ele parece sustentar que o estado perceptivo não é um episódio de
visão.
Nem mesmo os movimentos (a) e (b) parecem aqui ajudar McDowell. A dificuldade é
a seguinte: se, para saber que p, temos de ao menos potencialmente saber que
sabemos que p, o que precisamos para garantir este último saber potencial? No
mínimo, ele precisaria ser amparado por outro saber potencial. Por exemplo, o
conhecimento potencial de que discrimino coisas verdes poderia ser amparado
pelo conhecimento potencial de que detecto confiavelmente as minhas próprias
capacidades de discriminação, quaisquer que sejam. E assim sucessivamente. Isto
poderia não ser um problema, já que não se exige do sujeito que ele
efetivamente tenha estes conhecimentos dos quais o conhecimento alegado, por
exemplo, "há algo verde", depende. Mas é exigida do sujeito a posse da
capacidade para obter estes conhecimentos todos. Convidado indesejado de
McDowell, o intelectualismo entra pela porta dos fundos. E é difícil imaginar
que algum sujeito finito possa ter esta capacidade. Notemos que o movimento
(b), cujo propósito era barrar a demanda intelectualista, não tem aqui qualquer
efeito. A alegação "discrimino coisas verdes quando as vejo" pode ser
justificada sem que seja um episódio de conhecimento. A dificuldade aqui não é
dar conta de quais possibilidades devem ser eliminadas para garantir a
legitimidade de uma alegação de conhecimento em particular, mas garantir que o
sujeito tenha a capacidade de obtertodoo conhecimento que é necessário para a
posse de um conhecimento em particular. A exigência para conhecimento parece
ser infinita, já que não há nenhuma trava para o regresso na definição de
conhecimento internista de McDowell.
Não julgo ter mostrado que McDowell pretendeu especificar condições
constitutivas para a posse de conhecimento perceptivo, embora tenha apresentado
razões em favor desta leitura. Em outro momento do texto, ele dá a entender que
visa apenas condições necessárias para a alegação de conhecimento perceptivo.
Considerando uma daquelas pessoas submetidas à situação de teste e a
possibilidade das condições de iluminação serem inadequadas, McDowell afirma:
"dado tudo o que ela sabe, a possibilidade se obtém, e dada a sua ciência de
como a sua capacidade depende das condições de iluminação, segue-se que nestas
circunstâncias ela não pode alegar saber as cores do objeto pela visão" (2011,
p. 51). Mas, se for assim, McDowell parece não relevar de modo adequado a
distinção entre condições de posse e condições de alegação de conhecimento. Se
a sua posição diz respeito apenas às condições de alegação de conhecimento
perceptivo, ele não deveria ter dito, na terceira pessoa, que a verdidão do
objeto não está visualmente presente para o sujeito na situação de teste em
virtude do fato de o sujeito não conseguir eliminar a possibilidade epistêmica
de iluminação inadequada. E a verdidão não estaria presente visualmente mesmo
que as condições de iluminação fossem adequadas. Porém, a verdidão do objeto
está presente, o sujeito tem um episódio de visão, se de fato as condições de
iluminação são adequadas. Ele apenas não está em condições de alegar que o seu
episódio perceptivo é um caso de visão genuína. Estas considerações nos
remetem, então, à necessidade de explicitar o que considero ser condições para
a posse de conhecimento, em um sentido que seja ainda minimamente internista.
8 Internismo sem intelectualismo e sem reflexividade
Retomemos a caracterização do internismo feita por McDowell: "a garantia em
virtude da qual uma crença conta como conhecível é acessível ao conhecedor, ela
é potencialmente conhecida por ele" (2011, p. 17). Esta caracterização contém
dois compromissos distintos que geralmente são rejeitados pelos externistas
como condições necessárias para a posse de conhecimento: (1) o acesso à
garantia que torna a crença conhecimento e (2) também o conhecimento, ao menos
potencial, desta garantia. Minha sugestão é reter apenas (1) e deitar fora (2).
A posição resultante ainda é minimamente internista, pois requer o acesso à
garantia que torna a crença conhecimento. Mas ela dispensa a reflexividade que
traz consigo o problema do regresso conceitual. Outra vantagem desta posição
sobre a de McDowell é que ela requer intelectualmente ainda menos do sujeito
para que ele possa obter algum conhecimento perceptivo do mundo. O sujeito não
precisa se autoatribuir a capacidade de discriminar coisas verdes para que o
exercício da sua capacidade perceptiva resulte em episódios de conhecimento. No
caso do sujeito que está em condições adequadas de iluminação, mas pensa que
não está porque o experimentador mente para ele, ele não deixa de ver coisas
verdes pelo fato de não conseguir eliminar a possibilidade epistêmica de que as
condições de iluminação são inadequadas. Ele deixa apenas de saber que o seu
episódio perceptivo é um caso de visão genuína. A capacidade de posicionar
reflexivamente o episódio perceptivo no espaço lógico das razões não é uma
condição para a visão genuína.
A rejeição da tese do fator comum continua necessária para a constituição do
acesso. O acesso à verdidão do objeto não é obra apenas das capacidades
de discriminação do sujeito, ele depende da contribuição do mundo também. Sobre
a contribuição da razão na operação da percepção, podemos conceber dois casos:
a percepção de objetos e a percepção de fatos.9 Para que o sujeito tenha acesso
visual à verdidão do objeto, nada mais é necessário além do exercício da sua
capacidade de discriminação de cores em condições adequadas de iluminação.
Contudo, para que o sujeito tenha acesso visual ao fato de que
o objeto é verde, ele precisa ter também as capacidades conceituais que figuram
em uma alegação do tipo "há algo verde adiante" e, neste caso, talvez algum
mínimo de razão tenha de estar em operação, embora nenhuma reflexividade seja
ainda necessária. Possuindo ambas as capacidades, a perceptiva e a conceitual,
e exercendo-as nas condições adequadas, o sujeito tem acesso visual ao fato de
que algo é verde, o que garante infalivelmente a sua crença. Assim, "há algo
verde adiante" seria um episódio de conhecimento mesmo que o sujeito não fosse
capaz de se autoatribuir a capacidade confiável de discriminar coisas verdes.
Notemos que a infalibilidade apontada acima não é da capacidade perceptiva.
Esta é falível. Mas se adotamos o disjuntivismo epistêmico, então o estado
perceptivo resultante do exercício bem-sucedido da capacidade perceptiva é um
caso genuíno de visão e, portanto, a garantia fornecida por tal estado é
infalível.
Se McDowell está mais interessado nas condições de alegação, um dos seus pontos
permanece: se o sujeito pretende alegar a posse de conhecimento, a saber, "sei
que há algo verde adiante", ele terá de ser capaz de atender demandas mais
robustas sobre o seu intelecto e a reflexão, como, por exemplo, a
autoatribuição da capacidade de discriminar coisas verdes e, se introduzida com
autoridade, a eliminação da possibilidade de iluminação inadequada. Mas a posse
de conhecimento não pode ser confundida com a capacidade de alegar que sabe ter
este conhecimento, e nem a pressupõe. E, assim, o sujeito enganado pelo
experimentador acessa a verdidão do objeto visualmente presente e, portanto,
tem um episódio genuíno de visão, ele vê algo verde, muito embora não esteja em
condições de alegar "sei que há algo verde adiante". O sujeito pode ter um
episódio genuíno de visão sem estar em condições de saber e alegar que sabe.
Uma vez apreciada a distinção entre condições de posse e condições de alegação,
parece que não há uma boa razão para insistirmos na condição de reflexividade
como uma condição para a posse de conhecimento.