O transcendental encarnado: Merleau-Ponty e a Nouvelle Ontologie
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Qual é o estatuto da relação entre o transcendental e o empírico? Um pode
sobrepor-se ao outro? Em que medida um tal inventário, desde já, enseja uma
reformulação da teoria clássica do conhecimento e, portanto, da própria
subjetividade?
Como se sabe, esse estado de questão passa a assumir, desde a modernidade
metafísica (sobretudo com Kant), uma enunciação decisiva, reanimando-se, no
debate filosófico contemporâneo, sob um giro crítico de inflexão absolutamente
radical. A obra de Merleau-Ponty é um dos esforços que protagoniza,
substancialmente, essa intrépida reviravolta ao pautar uma nova agenda
transcendental que vemos pôr-se a caminho desde La Structure du Comportementem
que as relações entre a consciência e a natureza2 se tornam um estado de
questão privilegiado. Será, então, necessário, tanto para além do naturalismo
quanto do criticismo, compreender a estrutura mais profunda entre o fato e a
essência, o a priorie o a posteriorisem se condicionarem absolutamente. Entre
essas ordens não há subsunção ou justaposição. Ambas se compreendem, antes, sob
outra lógica: a de um movimento dialético pelo qual se correlacionam sem se
desprender ou desintegrar da existência mais profunda que nos define, isto é,
da "realidade carnal das coisas"3. É por isso que Merleau-Ponty, já no contexto
de sua obra inaugural de 1942, reconfigura, partindo do idealismo
fenomenológico transcendental de Husserl, a "ideia de uma filosofia
transcendental, ou seja, a da consciência como constituindo o universo diante
dela e apreendendo os próprios objetos numa experiência externa indubitável"4.
Essa ideia radicalmente nova ' admite o filósofo ' se torna, pois, nesse
momento, uma aquisição definitiva enquanto primeira fase da reflexão. Ora, na
contramão do idealismo crítico, observa ele, "a consciência transcendental, a
plena consciência de si não está inteiramente feita, está por fazer, ou seja,
por realizar na existência"5, já que "o sujeito não vive num mundo de estados
de consciência ou de representações a partir do qual acreditaria poder, por uma
espécie de milagre, agir sobre as coisas exteriores ou conhecê-las. Vive num
universo de experiência, num meio neutro relativamente às distinções
substanciais entre o organismo, o pensamento e a extensão; vive num comércio
direto com os seres, com as coisas e com seu próprio corpo"6.
É fundamentalmente esse projeto idealizado sob um novo escopo transcendental
que vai se maturando no contexto dos escritos subsequentes de Merleau-Ponty.
Projeto que passa a ser concebido nos termos de uma "redefinição da situação
humana para melhor ver as tarefas da razão"7. É essa "tomada de consciência
mais radical"8, reitera o filósofo, que deve orientar o sentido último da
racionalidade para além de todo abismo intransponível entre "sujeito" e
"objeto", "razão" e "experiência". Tais planos não se circunscrevem mais sob
uma mera "relação de conhecimento" conforme imputava o idealismo clássico, mas
uma "relação de ser". Como vemos, o que Merleau-Ponty pauta nesse momento
programático de sua pesquisa é uma nova gramática, um novo discurso
ontologicamente exequível no sentido de que há outra "teoria do conhecimento
por recomeçar"9, teoria, a bem dizer, explicitamente ontológica. Por meio desse
"recomeço", o discurso filosófico passa a enunciar outro referente; um
referente não mais extramundano, isto é, conceitualmente abstraído numa etérea
análise transcendental. Trata-se, agora, de um discurso que não se transporta
mais para a "atmosfera rarefeita da introspecção ou para um domínio
numericamente distinto daquele da ciência"10. ele passa a figurar, a bem da
verdade, outra feição: é um discurso que fala "do mundo, dos homens e do
espírito"11, cuja enunciação transcendental exprimirá uma ordem de experiência
bem mais efetiva e íntima: a interrogação ontológica de nossa encarnação. Nessa
projeção, o estatuto da nova filosofia transcendental posta aqui em curso
fixará outra exigência da qual toda "procura das condições de possibilidade é,
por princípio, posterior a uma experiência atual e concreta do mundo"12;
experiência que, originariamente, constitui o coração de toda transcendência
desde onde pulsam nossas operações cognitivas ou coagulam nossas representações
mais verossímeis.
É mediante o retorno a essa experiência-matriz que o discurso filosófico
prepara, conforme acompanhamos, um imprescindível recomeço: a questão
transcendental se reinventa numa nova densidade especulativa que viria,
semanticamente, subverter a própria agenda fenomenológica inaugurada por
Husserl no momento em que ele daria audiência à empresa de um idealismo
fenomenológico transcendental com todo o vigor que uma filosofia de
rigorpoderia comportar.
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Parece incorrer, irremediavelmente, numa grave heresia fenomenológica... Como
transpor, para além dos marcos fixados por Husserl ou até mesmo por Heidegger,
a fronteira entre o transcendental e o empírico? Merleau-Ponty não estaria se
tornando mais uma vítima da ilusão retrospectiva do naturalismo ou, ainda, quem
sabe, prestes a afundar seu novo programa filosófico na areia movediça ou no
pântano do irracionalismo?
Ora, tais suspeitas tendem a se dissipar quando se adentra, mais
meticulosamente, nos escritos merleau-pontyanos, buscando compreender o
estatuto ou a semântica mais profunda, pela qual Merleau-Ponty torna legível a
expressão de seu projeto filosófico. A retomada do tema da diferença ontológica
é reconstruída criticamente pelo filósofo, por flagrar-se, ainda, como signo
recalcitrante de um limite cartesiano: "não há nenhuma diferença absoluta" '
assevera ele ' "entre o transcendental e o empírico, o ontológico e o
ôntico"13. Por meio dessa enfática e curiosa asserção esboçada numa nota de Le
Visible et l'Invisible, Merleau-Ponty adverte que não existe fala filosófica
absolutamente pura. Afinal, "não atingimos o universal abandonando nossa
particularidade, mas fazendo dela um meio para alcançar os outros, em virtude
de uma afinidade misteriosa que faz com que as situações se compreendam entre
si"14. Merleau-Ponty, desde logo, põe as cartas na mesa: "não somos obrigados a
prioria investir o mundo das condições sem as quais ele não poderia ser
pensado"15. A questão inicial é que, para que o próprio mundo possa ser
pensado, jamais devemos ignorá-lo, uma vez que ele se torna antes de qualquer
pensamento o dado fundamental pelo qual ele ganha alguma existência para mim.
Sob esse critério, não se vê em que sentido caberia fixar as condições de uma
experiência se antes "a operação que a torna atual ou pela qual ela se
constitui"16 não venha à tona em sua efetividade ou gratuidade mais plena.
Postas tais condições,
O verdadeiro transcendental não é o conjunto das operações
constitutivas pelas quais um mundo transparente sem sombras e sem
opacidade se exporia diante de um espectador imparcial, mas a vida
ambígua em que se faz a origem (Ursprung) das transcendências, que,
por uma contradição fundamental, me põe em comunicação com elas e,
sobre esse fundo, torna possível o conhecimento17.
Não resta a menor dúvida de que o que temos agora à nossa frente é a emergência
de uma nova gramática transcendental. A filosofia não pode mais se restringir
aos limites de um discurso especulativamente dualista entre a razão e a
experiência, o fato e a essência ' discurso, caricatura Merleau-Ponty ' de "uma
filosofia em parte dupla, notável em toda doutrina do entendimento em que se
salta de uma visão naturalista (aquela que exprime nossa condição de fato) para
uma dimensão transcendental em que todas as servidões estão revogadas de
direito"18. Ora, o que explica esse aspecto sintomaticamente bipolar do
pensamento moderno da subjetividade?
A questão nevrálgica é que "a análise reflexiva se encontra inteiramente
repousada numa ideia dogmática do ser"19, quer dizer, "a reflexão não acredita
ter de fazer uma genealogia do ser, ao contentar-se, apenas, em investigar as
condições que o tornam possível"20. Desse modo, observa Merleau-Ponty, a
própria análise reflexiva termina por "ocultar o nó vital da consciência
perceptiva na medida em que tão somente investiga as condições de possibilidade
do ser absolutamente determinado, deixando-se tentar por essa pseudo-evidência
da teologia de que o nada não é coisa alguma. Os filósofos que a praticaram
sempre sentiram, pois, que havia algo a procurar abaixoda consciência
absoluta"21. "Eis então a razão", atesta Merleau-Ponty, "porque a fenomenologia
é a única entre todas as filosofias a falar de um campotranscendental [...]. É
notório ver como as filosofias transcendentais do tipo clássico nunca se
interrogam sobre a possibilidade de efetuar a explicitação total que elas
sempre supõem feita em algum lugar"22. Elas renunciam, a rigor, a uma
verdadeira interrogação ontológica de suas premissas no momento em que não se
dão conta de que "a distinção entre o uso empírico e o uso transcendental mais
mascara a dificuldade do que a resolve"23. Ora, pois, "na medida em que nos
ocupamos com estruturas mais integradas, percebemos que cada vez menos as
condições dão conta do condicionado"24. Esse flagrante fracasso do projeto
clássico transcendental evidencia que há, na verdade, entre o a priorie o a
posteriori25 uma trama comum, já que a "idealidade pura não existe sem carne e
nem liberada das estruturas de horizonte"26. Aí, um novo "campo transcendental
é aberto"27, enquanto dimensão estruturante, cuja base de apoio põe a nu o fato
de que a condição e o condicionado perfazem um só círculo, uma só relação
recíproca, fazendo entrever uma circularidade entre a reflexão e o
irrefletido28. Ora, todo sistema de condições a priorijamais pode, de direito,
elevar-se ao fato e, desse modo, suspender o domínio mais efetivo desde onde,
ele próprio, se constrói: a facticidade. É que essa última deixou, há tempo, de
ser um mundo à parte; uma espécie, digamos, de submundo, um meio impuro
filosoficamente injustificável. Tudo agora consiste em compreender em que
sentido as filosofias reflexivas terminam por escamotear a verdadeira natureza
do transcendental. Sendo assim, como então o âmbito da facticidade parece
transtornar, por completo, a exigência transcendental em sua motivação
clássica?
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Em tal contexto ao qual Merleau-Ponty aqui nos transporta, um dos caminhos a
ser perseguidos nessa destinação do argumento transcendental é a via
privilegiada concernente ao estatuto último da ideia de subjetividade. Essa
instigante pista já abre, de passagem, um contundente diagnóstico crítico a
duas figuras paradigmáticas da noção clássica de sujeito, a saber, o empirismo
e o intelectualismo. Conforme avalia Merleau-Ponty, o que falta
ao empirismo é a conexão interna entre o objeto e o ato que ele
desencadeia. O que falta ao intelectualismo é a contingência das
ocasiões de pensar. No primeiro caso, a consciência é muito pobre; no
segundo, é rica demais para que algum fenômeno possa solicitá-la
[...]. O empirismo permanece na crença absoluta no mundo enquanto
totalidade dos acontecimentos espaço-temporais vindo a tratar a
consciência como um cantão desse mundo. Por outro, a análise
reflexiva rompe com o mundo em si, já que ela o constitui pela
operação da consciência29.
Essa dupla carência, aqui diagnosticada, não é o registro de apenas um momento
ou de um período exclusivo da história do pensamento. No âmbito do próprio
circuito fenomenológico, ela somatiza um mesmo sintoma do qual não só Husserl,
mas, inclusive, Sartre viria a se tornar, retrospectivamente, vítimas. Na
contramão de Husserl, Merleau-Ponty sentencia:
O centro da filosofia não é mais uma subjetividade transcendental
autônoma situada em todas as partes e em parte alguma. Tal centro se
encontra no começo perpétuo da reflexão, ou seja, naquele ponto em
que uma vida individual se põe a refletir sobre si mesma. A reflexão
só é verdadeiramente reflexão se não se arrebatar para fora de si
mesma; se, ainda, se reconhecer como reflexão-sobre-um-irrefletido e,
por conseguinte, como uma mudança de estrutura de nossa existência30.
No que cabe a Sartre, será preciso também rejeitar o ideal de uma subjetividade
que assume a forma de um saber reflexionante puramente negativo fundado na
ideia do "nada" '"que vem ao mundo', bebe o mundo, precisa do mundo para ser o
que quer que seja, mesmo nada, e que, no seu autosacrifício ao ser, permanece
estranho ao mundo"31. No fundo, Merleau-Ponty remodela cada uma dessas imagens
da subjetividade, como ícones de uma só cosmovisão teórica: o "pensamento de
sobrevoo". Pensamento tipificado na figura do filósofo ou do cientista enquanto
kosmothéoros, isto é, enquanto sábio que eleva sua atividade a um poder
absoluto e imparcial de contemplação, pairando sobre o mundo e, sob essa
medida, mantendo-se impermeável a ele e às coisas sem, contudo, habitá-las.
Tudo se passa ' observa Merleau-Ponty ' "como se o senso comum e os filósofos
tivessem durante muito tempo tomado por modelo e ideal de conhecimento humano
nossa contemplação dos objetos inanimados, das coisas indiferentes de tal modo
que não nos tocassem"32. ora, se é assim, a partir de qual fonte podemos haurir
a verdadeira subjetividade, sem apelo a alguma figura do kosmothéoros?
A alternativa trilhada por Merleau-Ponty é a de uma nova aposta transcendental
explorada, num primeiro momento, pela ideia de que o Cogitotraduz outra
experiência de transcendência: ele se revela como uma "estrutura global,
total"33. Quer dizer, ele se insurge como uma "nova forma de unidade"34, já que
"o homem não é um animal racional"35 ou um espírito puro, mas, em sua revelação
última, espírito encarnado, corpo. Por isso, "ser uma consciência, ou, antes,
ser uma experiência, é comunicar interiormente com o mundo, com o corpo e com
os outros, ser com eles em lugar de estar ao lado deles"36. Experiência que
deflagra um movimento de coexistência pondo à prova o ideal de um Eu penso
universal transcendentalmente desencarnado. Nessa perspectiva, a distinção
entre o factual (ôntico) e o estrutural (ontológico) não se impõe mais enquanto
critério absoluto de justificação, já que o transcendental não pode manter-se
indiferente ao seu coeficiente de facticidade. Tal coeficiente se torna, desde
então, uma exigência ontológica inalienável, pois a "simples transposição do
sujeito encarnado em sujeito transcendental"37, tal qual promovia o idealismo,
é uma abstração que esquece e perde a concretude da experiência efetiva do
mundo. O mundo que aqui redescobrimos, mostra Merleau-Ponty, não constitui
aquilo que eu penso ou possuo, mas aquilo que eu vivo; horizonte desde onde me
abro e me comunico incessantemente38. Não há mais "evidência absoluta liberada
de toda facticidade"39, pois o que se redescobre, agora, é que a operação
transcendental já pressupõe um movimento de engajamento, uma práxis subjacente
ao seu próprio exercício. Ela está envolta naquele movimento de circularidade
ou simetria entre a condição e o condicionado. Por isso, ela jamais poderá
manter-se, a priori, indiferente à abertura e à comunhão com o mundo. Se a
subjetividade não se condiciona mais a uma investigação puramente cognitiva no
sentido clássico de uma teoria do conhecimento, é porque, a essa altura,
Merleau-Ponty visa, naturalmente, qualificar outra ideia de subjetividade.
Trata-se, aqui, não mais de um "sujeito" absolutamente "puro", mas, antes,
consagrado, uma vez que ele é uma "consciência que vive nas coisas"40, um "modo
de consciência mais originário"41 e inscrito, portanto no mundo enquanto
"estrutura concreta e encarnada"42. Noutros termos, se "a posse de si, a
coincidência consigo não é a definição do pensamento"43, se, não há, ainda,
"atrás da linguagem um pensamento transcendente"44, é porque já nos encarnamos
num horizonte de mundo, atestado pela experiência do corpo. Ao mesmo tempo, se
a subjetividade não se reduz a uma mera "série de atos psíquicos" ou não se
conforma numa unidade sintética, é porque ela é a experiência de uma única
"'coesão de vida', uma única temporalidade que se explicita a partir de seu
nascimento e o confirma em cada presente. É esse advento ou, ainda, esse
acontecimento transcendental, que o Cogitoreencontra"45.
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A esta altura, já é visível ao leitor o quanto Merleau-Ponty confere atenção a
dois temas fundamentais mediante os quais a experiência transcendental do
cogitoé reelaborada, sob o horizonte, é claro, de uma filosofia da carnalidade.
O primeiro nível temático é a experiência do "tempo" e o segundo, a experiência
do "corpo". Trata-se de dois campos temáticos que se entrecruzam na audiência
que recebem, particularmente, na Phénoménologie de la Perception, cujos limites
teóricos não demarcaremos aqui. O que, por ora, se discutirá é a devida
procedência dessa constelação temática e a fecundidade especulativa que ela
promove no contexto da obra tardia do filósofo. Merleau-Ponty projetará o
advento do tempo para além de sua figuração clássica seja enquanto um conceito
seja enquanto, em sentido kantiano, uma estrutura a priori. Que papel
transcendental o tempo, aqui, cumpre? Ele se revela como uma experiência
privilegiada de nossa relação de princípio com o mundo. Nessa medida, uma
verdadeira filosofia transcendental, reconhece Merleau-Ponty, será aquela que
jamais prescindirá de "atribuir à finitude uma significação positiva"46, quer
dizer, "nenhuma filosofia pode ignorar o problema da finitude, sob pena de
ignorar-se a si mesma enquanto filosofia"47. essa tese apenas endossa,
significativamente, aquele grau de coeficiente inerente a toda facticidade: o
de que "eu não sou o autor do tempo, assim como não sou autor dos batimentos de
meu coração. Ora, não sou eu quem toma a iniciativa da temporalização; eu não
escolhi nascer e, uma vez nascido, o tempo funde-se através de mim, o que quer
que eu faça"48. A temporalidade se torna, originariamente, o "fundamento e a
medida de nossa espontaneidade, isto é, a potência de ir além e de 'niilizar'
que nos habita [...] uma vez que somos o surgimento do tempo"49.
O argumento de que se vale Merleau-Ponty é o de que é preciso "compreender o
tempo como sujeito e o sujeito como tempo [...] já que a subjetividade não está
no tempo, mas vive o tempo"50. "Sujeito" e "tempo" exprimem um só fenômeno,
perfazem uma só dialética, inscrevem-se numa só coesão, fundação de toda
síntese perceptiva. O que vislumbramos, portanto, é uma carne do tempo capaz de
subverter a própria ideia de "reflexão". Ao tecer a trama da experiência, ele '
o tempo ' se torna, em sentido próprio, o "sujeito transcendental" a que se
buscava, ou seja, aquilo que nos permite "compreender exatamente a pertença do
mundo ao sujeito e do sujeito a si mesmo: uma cogitatioque torna possível a
experiência"51. É ele ' o tempo ' a experiência-matriz com a qual o "sistema
eu-outrem-mundo" compõe um todo único, desconstruindo, de um só golpe, o ideal
de subjetividade como ser eternitário, psicológico ou constituinte. Mais do que
isso: se o tempo não se dobra a um espectador absoluto, é porque enuncia, em
última análise, uma experiência de "anonimato": a rigor, inominável ou
representável, o tempo não é "para" alguém, mas "é" alguém. Só assim, descreve
Merleau-Ponty, teremos "o tempo por inteiro e estaremos presentes a nós mesmos
porque estamos presentes no mundo"52. É esse acordo entre o transcendental e o
mundo53 assegurado pela "passagem do tempo" que permite compreender a
"existência" como "encarnação". É essa a "tese subentendida", mediante a qual
se pode, agora, considerar que "a existência efetiva de meu corpo é
indispensável à de minha consciência"54. É a experiência do corpo que agora
entra em cena, em meio a esse novo domínio transcendental perspectivado, como
vimos, pela experiência da finitude.
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Merleau-Ponty retoma e aprofunda, no contexto de um novo debate transcendental,
o peso ontológico da experiência da corporeidade no momento em que visa dar
corpo àquela "teoria do cogitoe da reflexão" anunciada, como vimos, na
Phénoménologie da Perception' teoria que passa a radicalizar, na segundo metade
dos anos 1950, uma decisiva tônica programática: o projeto de uma "reabilitação
ontológica do sensível"55. A noção fenomenológicoexistencial de um
"cogitosituado" e encarnado temporalmente já presumia, na verdade, o surgimento
de "um sujeito abaixo de mim, para quem existe um mundo antes que ali eu
estivesse, e que marcava lá o meu lugar"56. esse "sujeito" é o "corpo",
circunscrito em toda a sua radicalidade ontológica, isto é, como um fenômeno
manifesto "em pessoa", "em carne e osso (leibhaft)"57. Assim, na experiência
tátil "não sou eu que toco, é meu corpo; quando toco, não penso um diverso,
minhas mãos encontram um certo estilo que faz parte de suas possibilidades
motoras, e é isso que se pode dizer quando se fala de um campo perceptivo: só
posso tocar eficazmente se o fenômeno encontra um eco em mim"58. a partir de
Signes, essa ilustração se radicaliza ainda mais: de sua abstrata desfiguração
(no pensamento clássico) à expressiva transfiguração, o "corpo" que agora entra
em cena se revela sob a forma de um enigma fundamental, segundo o qual meu
corpo é, simultaneamente, vidente e visível, quer dizer, "ele se vê vendo,
toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo"59. Essa metamorfose ou
paradoxo constitutivo deflagrado na experiência do corpo apenas atesta que a
reflexão não se consome num puro ato intelectual. A reflexão deixa, por assim
dizer, de ser um apanágio da consciência para, enfim, propagar-se
estesiologicamente, corporalmente. O corpo se transfigura, admiravelmente, como
uma espécie de "'coisa senciente', 'sujeito-objeto'"60. Trata-se, na verdade,
de uma transfiguração que transcende os limites de todo solipsismo:
Se, ao apertar a mão de outro homem, tenho a evidência de seu ser-aí,
é porque ela se coloca no lugar de minha mão esquerda: meu corpo se
anexa ao corpo do outro nesta 'espécie de reflexão' da qual ele é
paradoxalmente a sede. Minhas duas mãos são 'co-presentes' ou
'coexistem' porque são as mãos de um só corpo: o outro aparece por
extensão dessa co-presença. Ele e eu somos como os órgãos de uma só
intercorporeidade61.
Como vemos, o que o enigma do corpo prefigura é uma percepção mais abrangente,
quer dizer, a experiência dos "outros em seu aparecimento na carne do mundo"62.
Como descreve Merleau-Ponty, os outros antes de serem submetidos às minhas
condições de possibilidade e reconstruídos à minha imagem, é preciso que
estejam lá (na própria carne do mundo) como relevos ou desvios, isto é, como
variantes de uma única Visão da qual também participo63. Nessa extensão, aquele
paradoxo se amplifica consideravelmente: se a corporeidade se desliza para um
"meio" que ela não ocupa sozinha, é porque se encontra co-presente com outros
corpos, aclimatada às próprias coisas. A minha carne e a carne do outro fundam
uma só estrutura, isto é, refazem e prolongam aquela coesão de princípio tecida
umbilicalmente pela Carne do Mundo. Assim, a experiência do corpo anuncia, a
bem da verdade, outra experiência mais ampla da qual ele se torna uma variante
exemplar: a Carne. Em meio a essa perspectiva, a partir de agora, por meio da
reconfiguração da experiência do corpo, a noção de carne parece cumprir, cada
vez mais, uma significação inédita do ponto de vista desse novo empreendimento
transcendental que Merleau-Ponty eleva sob uma exigência ontologicamente
radical.
É desse modo que chegamos, então, ao nervo de nossa questão condutora: ' Que
estatuto é esse, de um transcendental imerso numa experiência mais integral, um
"transcendental", por assim dizer, "encarnado"?
6
Como vemos, a destinação do argumento transcendental conduzida até aqui por
Merleau-Ponty se inscreve, decididamente, nos termos de uma nova teoria do ser
cujo emblema é a noção de Carne. Ora, qual é a originalidade dessa noção e em
que medida ela cumpre ou satisfaz aquela pretendida exigência transcendental?
A noção de carne, perspectiva Merleau-Ponty, é o tema nuclear que o século XX
restaura e aprofunda64. Por isso, ela se projeta como "um tema totalmente
diverso"65, quer dizer, é o "inventário de uma experiência"66 jamais traçada,
pela tradição filosófica como uma linha de força decisiva. Merleau-Ponty passa
a figurá-la como uma espécie de "massa opaca"67, ou seja, uma "massa
interiormente trabalhada [...] constituindo, portanto, o meio formador do
objeto e do sujeito"68. Ela é o "Ser de entremeio ou entre-dois, um
interser"69, o Ser de indivisão, a intersensorialidade mais geral pela qual o
visível e o invisível, o dizível e o indizível se mesclam solidariamente. Ela é
o sistema de inervação, cujo grau estesiológico, intensivamente mais amplo,
traz à tona não uma essência inteligível, mas a forma de um sensível exemplar
que reveste toda idealidade, cujas estruturas não residem mais numa consciência
constituinte, mas em nossa comunhão corporalmente irrefletida e, por isso
mesmo, consanguínea com o mundo. Tudo isso só é possível porque "trazemos em
nosso ser encarnado o alfabeto e a gramática da vida, mas que nem em nós, nem
nela supõe sentido algum definitivo"70. Trata-se de uma gramática imperiosa do
Ser, exprimirá Merleau-Ponty, não traduzida em sua significação última pelo
vocabulário clássico da metafísica. Gramática verdadeiramente transcendental,
já que ela se torna a origem de toda transcendência, sem abstenção alguma à
nossa relação de princípio com o mundo. Ora, em que pese seu mérito, a
consciência não é tudo, não pode tudo; não abarca a totalidade do real,
ignorando, conforme os termos de Husserl, a "presença sensível e carnal do
mundo em nós-mesmos"71. Nessa perspectiva, a verdadeira filosofia
transcendental só pode encontrar a sua radicalização máxima aí, isto é, em meio
a essa adesão íntima e originariamente carnal de nossa experiência mais
efetiva. Pensar a Carne como Ser de transcendência é refazer, mais
propriamente, esse círculo de nossa conaturalidade com o mundo, com o outro,
com as coisas. É interrogar o sentido mais profundo de "nossa encarnação numa
natureza"72.
Eis, então, em linhas gerais, o sentido desse recomeço de uma nova teoria
transcendental: o caráter irrevogável pelo qual a vida ambígua se faz corpo ou,
se se quiser, se faz carne. Ora, é exatamente essa projeção anticartesiana que
a noção merleau-pontyana de Carne viria explicitar enquanto reconquista de uma
nova significação da subjetividade e, portanto, do sentido último da tarefa
transcendental. Nas palavras de Dupond:
O cogitonão é o fundamento transcendental da luz do mundo: ele tenta
recolher e expressar em palavra a essência da verdade assim como ela
se anuncia na luz do mundo. além disso, o cogitoé, sobretudo, um
outro nome, uma outra expressão dessa luz do fenômeno cujo nome é, do
lado do ser, a carne. O pensamento do cogitoe o pensamento da carne
são inseparáveis. E é, por isso, que é impossível saber o que
Merleau-Ponty entende por cogitosem explicitar também o que ele chama
de carne73.
Dessa maneira, se toda reflexão, conforme ilustra Merleau-Ponty, tem por modelo
a mão palpante através da mão palpada, é porque precisamente aí já nos
encontramos circunscritos num novo domínio transcendental, cuja base é
manifestamente ontológica. Assistimos à deflagração de uma generalidade aberta,
prolongamento do volante do corpo, já que a experiência do corpo testemunha o
caráter de unidade de nós mesmos, aprofundando nossa inserção no mundo em face
de Outrem. O corpo se transfigura enquanto "totalidade aberta"74, cuja "carne
nos faz compreender a carne do mundo"75. É sob tal condição que há "abertura de
nossa carne imediatamente preenchida pela carne universal do mundo"76 enquanto
campo privilegiado de transcendência. Como diz Merleau-Ponty, a Carne prefigura
esse "enigma do sensível, essa tele-visão, que, no mais privado de nossa vida,
nos torna simultâneos com os outros e com o mundo"77. É esse caráter de
simultaneidade que vem transformar, por completo, o estatuto das relações entre
o transcendental e o empírico. Por isso, problematiza Merleau-Ponty acerca do
caro tema husserliano: "se o transcendental é intersubjetividade, como evitar
que as fronteiras do transcendental e do empírico se entrelaçam?"78. Ora, como
já vimos, não há absolutamente como desintegrar a subjetividade da facticidade.
Sob esse prisma, é preciso reconhecer que "o transcendental desce à história,
ou, se preferir, o histórico deixa de ser relação exterior de dois ou vários
sujeitos absolutamente autônomos"79.
Merleau-Ponty exibe aqui, em plena luz, o caráter intersubjetivo do
transcendental. Ora, se o sujeito é, concretamente, projeto e "inerência ao
mundo"80, é porque o próprio Mundo se transfigura, em carne e osso, como o
"verdadeiro transcendental"81. É a partir desse coeficiente de facticidade que
o Outro se revela enquanto aquela extensão irrecusável de mim mesmo. Assim, a
situação histórica e intersubjetiva jamais encerra este pacto com o mundo. Ela
confirma apenas a anuência de que o mundo é, desde sempre, seu princípio de
transcendência. O transcendental transfigurado agora carnalmente dá a conhecer
uma alteridade radical que, em sua mais genuína aparição, se revela como carne
de minha carne. Razão pela qual aquela metamorfose que presenciávamos entre o
vidente e o visível, entre meu corpo e o corpo do outro, minha carne e a carne
do mundo, se torna, significativamente, nesse momento, o gesto ou a expressão
mais originária do enigma da subjetividade. Se a reflexão toma de empréstimo
todas essas estruturas, é porque, a essa altura, "minha encarnação não é mais
uma 'dificuldade', ou seja, um defeito no diamante transparente da filosofia,
mas o fato típico, a articulação essencial de minha transcendência
constitutiva"82. Ambos, visível e invisível perfazem um só círculo,
circunscrevem um só campo de transcendência, ensaiam e prolongam o enigma
perpétuo de uma só dublagem ontológica. Aqui, não há mais "espiritualismo, mas
filosofia da carne e do intercorporal como direito e avesso do mesmo Ser"83.
De sua obra inicial à sua obra tardia, Merleau-Ponty jamais perde de vista,
pelo menos, um claro propósito filosófico: o de que a encarnação e a
transcendência perspectivam uma só "experiência integral, ou seja, a inerência
de si ao mundo ou do mundo a si, de si ao outro e do outro a si"84. É esse
"entrelaçamento de minha vida com as outras vidas, de meu corpo com as coisas
visíveis, pela confrontação de meu campo perceptivo com aquele dos outros, pela
mistura de minha duração com as outras durações"85 que se torna a condição sine
qua non, inabdicável. A consciência abdica de ser uma "operação cognitiva e
desinteressada"86 para fulgurar-se numa nova ordem de relação na qual Merleau-
Ponty sempre persistira: "a relação do sujeito e do objeto não é mais esta
relação de conhecimentode que falava o idealismo clássico e no qual o objeto
aparece sempre como construído pelo sujeito, mas uma relação de sersegundo a
qual, paradoxalmente, o sujeito éseu corpo, seu mundo e sua situação, vindo, de
certa forma, a se permutar"87. Ora, era justamente essa "resistência à
passividade que o criticismo não concedia, em última análise, nenhuma
importância [...] uma vez que ele subentendia que o pensamento do filósofo não
está submetido, pois, a nenhuma situação"88. Por isso, não se trata mais de
"explicar o mundo ou dele descobrir as 'condições de possibilidade', mas de
formular uma experiência do mundo, um contato com o mundo que precede todo
pensamento sobreo mundo"
89
. Nessa direção, a tarefa transcendental esboçará outro condicionamento, dessa
vez, decididamente ontológico: não se orientará mais pelas "condições de
possibilidade, mas pelas condições de realidade"90 em que "existe um sentido
autóctone do mundo que se constitui no comércio de nossa existência encarnada
com ele vindo a formar o solo de toda doação de sentido (Sinngebung)
decisória"91.
Nesse entremeio, se "estamos misturados ao mundo e aos outros numa confusão
inextricável"92, é porque já nos movemos noutro terreno especulativo: estamos
bem longe de uma ideia dogmática do ser que se contenta em investigar tão
somente as condições que o tornam possível. Por essa razão, se há um ato
transcendental por excelência, esse será aquele que consiste em "retornar ao
mundo vivido aquém do mundo objetivo [...] restituindo à coisa sua fisionomia
concreta"93. Nessa medida,
Uma filosofia se torna transcendental, ou seja, radical, na medida em
que não se instala numa consciência absoluta sem mencionar os passos
que conduzem a ela, mas considerando-se a si mesma como um problema.
Na medida ainda em que não postular a explicitação total do saber,
mas reconhecendo como problema filosófico fundamental, esta presunção
da razão94.
A Carne é o que metaforiza essa radicalidade transcendental do acontecimento,
fazendo compreender que o "ontológico" e o "ôntico" não são exatamente
contraditórios, mas coesos. Entre ambos não há cisão, colisão; mas coesão,
contrapartida secreta que os anima num só regime de promiscuidade. Aqui, o
percurso do transcendental se confunde com o percurso, como diz Merleau-Ponty,
das "sinuosidades do real". Não mais paralelismo: a essência não se separa do
fato; ela o acompanha em sua multiplicidade e em seu envolver mais íntimo. Em
sentido heraclitiano, banham-se no mesmo rio, num só fulgor do acontecimento,
num só devir perpétuo. Um não exclui o outro; mesclam-se solidariamente,
perfazendo, conforme a expressão de Kant, uma "coesão sem conceito". Ora, o que
significa dizer que a consciência filosófica supõe um horizonte que a precede
ou que só surge no interior de um campo prévio? Significa, sobretudo, admitir
que o entendimento não retira de si mesmo a substância que tece sua cadeia de
verdades, como faz a aranha com a sua teia. O mesmo Espírito-Aranha a que, por
ironia, Sartre se reportara criticamente, mas de que ele próprio se tornaria
uma vítima a mais da ilusão retrospectiva de um pensamento que sobrevoa. Agora,
vemos melhor em que medida a Razão perde sua jurisprudência; não pode mais
estabelecer-se enquanto tribunal face à Experiência, reconstruída agora,
transcendentalmente, em sua significação ontológica. Que experiência então é
essa, evocada em novo regime transcendental? Ora, uma ordem sensível e primeira
de nosso experimentar simultâneo com o Ser, dirá Merleau-Ponty, e, portanto,
irredutível egoicamente. É uma experiência de textura, de imbricação, de
promiscuidade, nervura comum ou aderência mais íntima, na qual a reflexão com
todas as suas estruturas requeridas se efetiva indivisivelmente. Trata-se, mais
uma vez, de um gênero de experiência global, aquém de todo juízo ou operação
intelectual ' experiência cuja interrogação transcendental terá o seu recomeço
realocando-se na concretude do humano, demasiadamente humano, para além de
qualquer cosmovisão teísta, antropológica, naturalista ou humanista. É dela que
nasce o impulso vital no qual o tempo e a corporeidade se fundem carnalmente,
circunscrevendo uma só estrutura do acontecimento.
Desse modo, o mistério da encarnação95 deixa de ser um absurdo, um escândalo a
mais para a razão, ou ainda, um enigma imperscrutável, incompreensível. O
transcendental reconhece, aqui, seu verdadeiro "DNA": a Carne, enquanto esse
interminável "ciclo completo"96, "tecido comum de que somos feitos"97, de cujo
cordão umbilical, jamais somos cortados.