Amor e liberdade em Heidegger
Wem sonst als dir.
A quem senão a ti.
Hölderlin
1. Introdução
Heidegger é criticado pelo seu silêncio em relação ao amor. Em Ser e Tempo, sua
obra mais divulgada, encontramos apenas uma referência sobre o amor através de
uma nota que contém citações de Pascal e de Santo Agostinho.1 Depois desta obra
temos alguma discussão sobre o amor em Nietzsche I e nos Seminários de
Zollikon. "Graças a publicação das últimas lições de Marburgo do semestre de
verão de 1928, sabemos que a referência ao papel fundamental do amor provém das
conversas com Max Scheler sobre o problema da intencionalidade."2 No entanto, a
pouca dedicação ao tema do amor não implica em que Heidegger desconsiderava a
importância deste para a filosofia. Esta observação nos parece suficiente e
justificável para nos ocuparmos com a questão do amor. Antes, faz-se necessário
ressaltar que, em 1987, Giorgio Agamben proferiu, em Paris, uma conferência
intitulada La passion de la facticité; nela ele afirmou que o amor é uma paixão
da facticidade do Dasein (presença)3, através da qual a presença experimenta a
liberdade como impotência. Do nosso ponto de vista, o amor concerne mais
propriamente a estrutura ser-no-mundo, visto que esta modalidade estrutural
pressupõe a abertura da presença para os demais entes que compartilham o mundo
com ela. "Deste modo, é fundamentando-nos na analítica existencial, e não
procurando 'completa-la', que podemos elaborar uma 'fenomenologia do amor'."4
Podemos acrescentar, em consonância com Agamben, que os temas do amor e da
liberdade encontram-se subentendidos aos existenciais que estruturam e
constituem as aberturas da presença em sua relação com o ser e com os demais
entes. Considerando-se que amor e liberdade se fundamentam nas estruturas
existenciais da presença podemos, neste primeiro momento, afirmar que a
liberdade e o amor são aberturas ontológico-existenciais do serno-mundo. Esta
nossa afirmação, que inicialmente pode parecer precipitada e leviana, sustenta-
se em uma passagem dos Seminários de Zollikon, segundo a qual o amor se funda
na compreensão de ser.5 sendo assim podemos dizer, com segurança, que o amor se
fundamenta em um existencial. Qual o aporte teórico que assegura tal
inferência? A existencialidade da presença, que consiste na copertinência dos
existenciais e das aberturas igualmente originárias que determinam, a cada vez
e genuinamente, os modos de ser da presença. De acordo com o parágrafo 31 de
Ser e Tempo o existencial do compreender se afina com o existencial da
disposição e este possui sempre a sua compreensão de ser.6 Estas referências
teóricas específicas que fizemos dos Seminários de Zollikon e de Ser e Tempo
nos permitem correlacionar o amor ao existencial da disposição e,
consequentemente, defini-lo como uma afinação (Stimmung).7 Pois, "o que
indicamos ontologicamente com o termo disposição é, onticamente, o mais
conhecido e o mais cotidiano, a saber, o humor, o estar afinado num humor."8
Na conferência supracitada Giorgio Agamben afirma que o amor é uma Stimmung
ausente em Ser e Tempo. Esta afirmação é importantíssima e decisiva para nossa
reflexão sobre o amor em Heidegger, porque ela nos apóia e nos autoriza a
defendermos a tese de que o amor é um modo de afinação. "Se Heidegger, mesmo
reconhecendo a ordem fundamental do amor, não trata tematicamente deste
problema, é precisamente porque o modo de ser da abertura mais original do que
todo conhecimento (este que segundo Agostinho e Scheler tem lugar no amor) é,
em certo sentido, o problema central de Ser e Tempo."9 A abertura mais original
a que Agamben se refere é a estrutura ser-no-mundo, pois ela fundamenta a
presença como um ente que sendo já se encontra aberto e lançado junto ao mundo.
Esta característica da presença Heidegger denomina de facticidade: "o caráter
de fatualidade do fato da presença em que, como tal, cada presença é."10 Cabe
sublinhar que a facticidade da presença expõe um duplo caráter de factualidade:
de que a presença seja, de que ela esteja lançada no mundo neste ou naquele
modo de ser. Este duplo caráter da facticidade é a condição de possibilidade
para a constituição do caráter de abertura da presença. Sendo facticidade, a
estrutura ser-no-mundo é a abertura mais original da presença, por isto esta
estrutura será a base para a nossa reflexão sobre o amor e liberdade em
Heidegger.
Apesar de concordarmos com Agamben que amor e liberdade são copertencentes na
filosofia heideggeriana, seguimos uma trajetória de exposição do tema bastante
diversa desta que ele apresentou em La passion de la facticité, especialmente,
a referência ao amor como uma paixão da facticidade11 e a liberdade como uma
experiência de impotência12. o fato de considerarmos o amor como uma afinação,
em vez de uma paixão, exige uma elaboração do conceito de amor completamente
diferente desta de Agamben. Por quê? Enquanto paixão da facticidade, o amor se
fundamenta no existencial da decadência, enquanto afinação ele se fundamenta no
existencial da disposição. Isto porque, em Ser e Tempo, a facticidade é o
caráter do existencial da decadência e a afinação é uma modificação do
existencial da disposição. Por que deslocamos a fundamentação do amor para o
existencial da disposição? Por um motivo muito simples: qualquer modalidade de
amor implica em uma sintonia ou uma afinação da presença com a co-presença.
Qual é a consequência oriunda deste deslocamento? A facticidade deixa de ser o
pilar que suporta e estrutura o conceito de amor em Heidegger. Assim, em vez de
relacionarmos a facticidade às noções de impotência radical13, irredutível
impropriedade14, eternidade e além do ser15, entendemos que a facticidade é o
fundamento para o desvelamento do modo próprio de ser da presença. Como? Na
decadência a presença fática está no modo de ser da impropriedade, ou seja, ela
se desvela no modo de ser dos outros. Sendo assim, a dissimulação de si nos
outros é o modo de desvelamento da presença. Isto significa que o modo próprio
de ser da presença encontra-se latente em seu modo impróprio de ser. Quer
dizer, velamento e desvelamento formam uma duplicidade inerente ao existencial
da decadência. Esta duplicidade é a condição de possibilidade que consente a
presença fática a dissuadir-se da latência e a desvelar-se propriamente. Porque
a decadência, existencialmente, se expressa como facticidade, podemos
acrescentar que a duplicidade velamento/desvelamento se expressa na facticidade
como a duplicidade propriedade/impropriedade. Qual a função destas
duplicidades? Elas nos permitem inferir que a facticidade, mediante o seu
caráter de impropriedade, é a condição de possibilidade para o desvelamento do
modo próprio de ser da presença. Embora a facticidade se caracterize pela
impropriedade não pensamos, como Agamben, que ela seja eterna e além do ser, já
que vez por outra a presença fática cai na propriedade. Para ele, o dinamismo e
reciprocidade entre propriedade e impropriedade tem o seu fim no amor, pois "os
amantes suportam até o extremo a impropriedade do amor afim de que o próprio
possa surgir como apropriação desta livre impotência que a paixão leva a seu
extremo."16 Ora, se desta apropriação da impotência surge o próprio, então, o
amor não seria a apropriação do próprio na impropriedade? Isto não diz o mesmo
que o amor concerne ao próprio? Neste caso, em vez de pensarmos o amor como uma
impotência da liberdade que nos mantém na irredutível impropriedade,
refletiremos em que medida o amor é a abertura que libera a presença e a co-
presença para seu modo próprio de ser. Nesta perspectiva, defendemos que a
copertença de amor e liberdade consiste em que a afinação da liberdade,
enquanto deixar-ser o ente, funda a afinação do amor como a afinação
fundamental para a convivência da presença em sua cotidianidade.
Em Ser e Tempo, a angústia é definida como a disposição fundamental e em
Conceitos fundamentais de metafísica: mundo, finitude, solidão, o tédio
profundo é visto como humor, afinação ou tonalidade afetiva fundamental para
filosofar. Para Heidegger "toda e qualquer tonalidade afetiva fundamental
(Grundstimmung) autêntica libera e aprofunda, ata e desata as outras. [...]
Portanto, é igualmente equivocado absolutizar uma tonalidade afetiva
fundamental como a única e relativizar todas as tonalidades afetivas
fundamentais em relação às outras."17 O mérito desta citação está em que ela
tanto nos certifica que o tédio profundo não é a única tonalidade afetiva ou
afinação fundamental sob a qual todas as outras estariam subjugadas, quanto
acentua a copertença e co-originariedade entre as afinações fundamentais. Esta
constatação nos capacita e habilita a dispormos do amor como a afinação
fundamental para a convivência da presença.
Entretanto, é oportuno perguntar-nos: como será possível tratarmos do tema do
amor com consistência e legitimidade, visto que Heidegger quase não se ocupou
dele? Pretendemos enfrentar o desafio de avançar no pensamento heideggeriano
refletindo sobre o amor, através da análise dos conceitos de sercom e
solicitude18 descritos em Ser e Tempo e do conceito de liberdade como
"disposição afetiva e deixar-ser o ente" descrito no texto Sobre a essência da
verdade. Nossa confiança neste percurso teórico advém das seguintes palavras de
Günter Figal: "podemos recorrer à riqueza descritiva de ST e desenvolver o
pensamento central do filosofar heideggeriano, na medida em que investigamos as
descrições de ST e em parte também as levamos além."19 Para mostrarmos a
consistência de nossa hipótese, qual seja, que a copertença do amor, como
abertura para o outro, e da liberdade, como deixar-ser o outro, constitui a
afinação fundamental para a convivência da presença, transcrevemos a citação
dos Seminários de Zollikon que nos remete ao instrumental teórico de Ser e
Tempo: "o cuidado (Sorge/Cura)20, compreendido corretamente, isto é, como modo
ontológico-fundamental, nunca pode ser diferenciado do 'amor', mas sim, ele é o
nome da constituição ek-stático-temporal do traço fundamental do Dasein, a
saber, como compreensão de ser."21 De acordo com a filosofia heideggeriana
podemos acrescentar que a similaridade da constituição ontológico-existencial
entre amor, cura e compreensão de ser concentra-se na abertura da presença para
o ser e para o outro, isto é, concerne a abertura mais original da presença:
ser-no-mundo. Por esta razão, a copertinência das aberturas do ser-no-mundo
constituirá o eixo propulsor para pensarmos a questão do amor e liberdade em
Heidegger.
Em seus estudos sobre o amor fati e a vontade de poder como afeto, paixão e
sentimento Heidegger recupera o pensamento nietzschiano, no qual "todos os
afetos são 'configurações' da vontade de poder. Se perguntarmos o que é a
vontade de poder, Nietzsche então responderá: ela é o afeto originário. Os
afetos são formas da vontade; a vontade é afeto."22 apesar dos temas da paixão,
da vontade, do querer e do desejar serem comuns as discussões sobre o amor, não
trataremos deles aqui, porque em Ser e Tempo a possibilidade ontológica do
querer está correlacionada aos momentos constitutivos da cura e o "desejar
pressupõe a cura."23 Portanto, querer e desejar são fenômenos da presença
enquanto cura e o amor, sob nosso olhar, é um fenômeno da presença enquanto
disposição. Metodologicamente os momentos estruturais e constitutivos da
presença na analítica existencial são tratados separadamente, mas
existencialmente e faticamente eles expressam a unidade e a circularidade
ontológica do ser-no-mundo. Na analítica existencial, o fenômeno da cura
responde pela unidade e totalidade do todo estrutural da presença,
consequentemente a disposição, o ser-com e a afinação do amor concernem à cura.
Assim, do ponto de vista ontológico querer, desejo, amor, disposição, ser-no-
mundo, ser-com, cura etc. são tratados de formas distintas, porém
existencialmente respondem pela unidade dos modos de ser da presença. Por isto
do ponto de vista ôntico querer, amor e desejo também são vistos sob
perspectivas diferentes, mas faticamente encontram-se intimamente entrelaçados
e expressam a profusão e a correlação dos modos de ser da presença cotidiana.
Porque em nosso entendimento a circularidade ontológica fundamenta a
constituição da estrutura ser-no-mundo e das aberturas da presença,
consideramos que ela é a condição de possibilidade necessária para refletirmos
sobre o amor e liberdade em Heidegger. Nosso objetivo consiste em mostrar que o
nexo ontológico das duplicidades da facticidade, ser-com, solicitude e das
duplicidades das afinações do amor, solidão e liberdade espelha e reflete a
circularidade ontológica, que estrutura a totalidade e a unidade dos diferentes
modos de ser da presença em sua cotidianidade.
2. A circularidade ontológica do ser-com e o amor como afinação
Conforme Heidegger "a 'doutrina' de um pensador é isto que, em suas palavras,
permanece informulado, mas que está aberto ao homem, 'exposto', afim de que ele
possa gasta-la sem contar. Se queremos apreender e conhecer doravante isto que
um pensador não disse, qualquer que seja a natureza, nos é necessário
considerar isto que ele disse."24 dessa forma, se queremos apreender o não dito
no pensamento de Heidegger sobre o amor: a Stimmung ausente, devemos partir dos
conceitos que ele elaborou. Como anteriormente anunciamos seria impossível
tratarmos de afinação do amor sem antes explicitarmos como se constitui a
estrutura ser-no-mundo, já que ela é o fundamento ontológico-existencial da
presença em sua relação com o mundo. Em que sentido esta estrutura nos ajuda a
refletir sobre o amor no pensamento heideggeriano? Por que através dela podemos
pensar o amor como afinação? Por que sua abertura é essencial para a afinação
do amor? Como ela se constitui?
A estrutura ser-no-mundo é constituída pela unidade dos existenciais do ser-em,
ser-junto e ser-com. Estes existenciais são igualmente primários e originários
mas inseparáveis no que diz respeito a determinação da presença como ser-no-
mundo. Enquanto ser-em a presença é e está lançada no mundo, enquanto ser-junto
ela toca e é tocada pelo mundo e enquanto ser-com ela encontra-se em uma
relação de solicitude com a outra presença. Sendo existenciais cada um deles
apresenta com igual originariedade e inseparabilidade um caráter de abertura.
Assim como o existencial da disposição se fundamenta neste do compreender e
reciprocamente, o existencial do serjunto se funda neste do ser-em e o
existencial do ser-com se fundamenta neste do ser-em e ser-junto e
reciprocamente. Como recurso metodológico, indicaremos em separado a abertura
pertinente aos existenciais que estruturam a presença enquanto ser-no-mundo:
[i] "Essa abertura prévia do mundo, que pertence ao ser-em, também se constitui
de disposição."25 [ii] A abertura do ser-junto condiz com a abertura da
significância da mundanidade do mundo. [iii] Já a abertura que diz respeito ao
existencial do ser-com é a abertura para o outro, a solicitude. Dada a
constituição ontológico-existencial da estrutura ser-no-mundo, perguntamos:
qual é o fundamento desta estrutura mais original da presença? "A afecção
(disposição) é a condição de possibilidade de um 'dirigir-se para' (Sichrichten
auf). (Portanto) onde não há afecção não poderia haver nem ser-no-mundo nem
ser-com-o-outro."26 Na medida em que o existencial da disposição é a condição
de possibilidade para que a presença se dirija ao mundo e assim ao outro,
dizemos que a disposição é o fundamento da estrutura ser-no-mundo e,
consequentemente, do existencial do ser-com. Podemos ainda acrescentar que a
disposição é o fundamento de todo e qualquer relacionar-se da presença com o
mundo, ou seja, ela é a fonte de todos os humores, afetos, emoções etc. Dessa
maneira ela é o fundamento ontológico-existencial de todas as afinações. Mas
como a disposição constitui o ser-com? Do nosso ponto de vista a disposição
fundamenta o ser-com como a afinação do amor. Por quê? Por ele ser
caracterizado pela solicitude.
Da mesma forma que a afinação é o modo como onticamente conhecemos a
disposição, entendemos que a solicitude é o modo como onticamente conhecemos o
ser-com. Considerando-se que o amor é um modo de afinação da presença com a co-
presença e que a solicitude do ser-com caracteriza a relação de abertura entre
uma presença e outra, temos condições de afirmar que a solicitude é
imprescindível para a constituição ontológico-existencial da afinação do amor,
pois o afeto do amor é impensável sem a abertura da presença para o outro.
Nesta perspectiva, a solicitude será o nosso esteio para refletirmos sobre a
afinação e abertura do amor.
A caracterização do encontro com os outros também se orienta segundo
a própria presença. [...] Os "outros" não significam todo o resto dos
demais além de mim, do qual o eu se isolaria. Os outros, ao
contrário, são aqueles dos quais, na maior parte das vezes, não se
consegue propriamente diferenciar, são aqueles entre os quais também
se está.27
Dito de outra forma, a presença é o outro de si mesma. Isto significa que a
presença compreende o seu próprio ser, na medida em que compreende também o ser
da outra presença e reciprocamente. Neste sentido, podemos indicar uma
duplicidade no existencial do ser-com no que diz respeito a compreensão de ser
da presença: ela compreende a si a partir da compreensão do outro, e compreende
o outro mediante a compreensão de si. Temos aqui uma circularidade ontológica,
da qual não temos como escapar, visto que a estrutura existencial da presença
assim como a compreensão de ser elaboradas em Ser e Tempo acontecem em uma
circularidade. A presença, "o ente em que está em jogo seu próprio ser como
ser-no-mundo possui uma estrutura de círculo ontológico."28 Por isto ela
compreende o ser, a si e ao outro em uma circularidade ontológica. Na
circularidade do ser-com, a presença se compreende como o ente que ela mesma é,
ou seja, ela se reconhece como um si que coexiste com o outro ao mesmo tempo em
que reconhece o outro também como um si que coexiste com ela e para quem ela é
o outro. A presença "pode reconhecer outros como ela mesma no mundo e entrar em
relação com eles porque seu próprio ser está aberto a ela como ser-com."29
dessa maneira, podemos dizer que o termo "com" responde pelo caráter de
abertura da presença para a compreensão do ser do outro e de sua coexistência.
Em Ser e Tempo quando a presença libera seu ser em direção aos outros, esta é
denominada de co-presença e as outras presenças que coexistem e compartilham o
mundo com a presença e a co-presença são denominadas de co-presentes. A
presença libera seu ser em direção a co-presença porque é estruturada pela
abertura para o outro que caracteriza o existencial do ser-com. Na medida em
que é estruturada pelo ser-com, a presença está aberta a estarcom a co-
presença, ou seja, ela se dirige para o encontro com a outra presença. Devemos
lembrar que a co-presença, por sua vez, é também presença que libera seu ser em
direção a outra presença (co-presença). A simultaneidade e reciprocidade da
abertura e da liberação de ser entre presença e co-presença evidenciam mais uma
duplicidade no existencial do ser-com: a liberação de ser da presença em
direção a co-presença e reciprocamente. Daí podemos afirmar que o caráter de
abertura do ser-com determina outra duplicidade concernente a circularidade
ontológica do ser-com, qual seja, a compreensão de ser do outro e a liberação
de ser em direção ao outro. Embora distintos os caracteres destas duplicidades
são inseparáveis e constituem, via copertinência, a unidade da circularidade
ontológica do ser-com. Melhor dizendo: a abertura do ser-com antecede e
fundamenta a compreensão e a liberação de ser para o outro. Desta forma, a
compreensão e a liberação de ser para o outro são cooriginárias e
copertencentes a unidade de abertura da circularidade ontológica do ser-com.
Qual a contribuição da circularidade ontológica do ser-com para a nossa
reflexão sobre o amor como afinação? Ela fundamenta e determina a convivência
cotidiana da presença, sem a qual não poderíamos falar de abertura e afinação
do amor. A coexistência, originária da circularidade ontológica do ser-com,
funda a convivência da presença, nela a presença é ser-com-para-o-outro e em
virtude do outro. Por que na convivência o ser-com pode compreender e liberar o
ser para o outro? Porque o ser-com é solicitude, a abertura que antecede a
compreensão e fundamenta a liberação de ser para o outro. O que nos permite
correlacionar o ser-com a afinação do amor? O fato de que "é nos afetos
(afinação) que o Dasein se descobre liberado e exposto ao ser."30 É no ser-com
que a presença se abre para o outro, mas é na afinação do amor que a presença
pode efetivar o encontro, o estar-com a co-presença através da compreensão e
liberação de ser para o outro. Assim o ser-com é o existencial que estrutura a
presença como abertura para o outro e o amor é a abertura da presença para o
encontro, o estar-com o outro; desta forma o amor é afinação, uma modificação
existencial da disposição que caracteriza a presença em sua relação com a co-
presença. Neste sentido, o amor é a afinação fundamental para a convivência
cotidiana da presença.
3. A solicitude do ser-com e a abertura da afinação do amor
"A abertura da co-presença dos outros, pertencente ao ser-com, significa: na
compreensão do ser da presença já subsiste uma compreensão dos outros, porque
seu ser é ser-com."31 A partir desta citação de Ser e Tempo e daquela dos
Seminários de Zollikon32 pretendemos correlacionar a abertura do ser-com à
abertura da afinação do amor; porque a primeira afirma que a abertura da
copresença implica na copertinência entre a compreensão de si e a compreensão
do outro, e a segunda afirma que o amor, por similaridade a cura, copertence a
compreensão de ser. Estas citações nos permitem inferir que na afinação do amor
a presença se coloca em virtude do outro e se compreende a partir da
compreensão de ser da co-presença. Com tal inferência não estamos justapondo,
reduzindo ou transformando a abertura do ser-com em abertura da afinação do
amor. A propósito nosso objetivo é mostrar que do existencial do ser-com é
possível fundamentarmos o modo de afinação do amor e aprofundarmos nos estudos
da filosofia heideggeriana. Conforme antecipamos do nosso ponto de vista a
solicitude, a abertura do ser-com, é a condição de possibilidade para a
constituição ontológico-existencial da afinação do amor, já que é notório que
esta afinação carece da abertura ao outro para se fundamentar. Como se
constitui a solicitude da presença?
Anteriormente afirmamos que o ser-com apresenta uma circularidade ontológica
evidenciada pelo caráter de duplicidade referente a compreensão e a liberação
de ser para o outro. Se o ser-com é o fundamento ontológicoexistencial da
solicitude, consequentemente, esta também apresentará um caráter de
duplicidade, qual seja, este da solicitude própria e da solicitude imprópria.
No entanto, se partimos do pressuposto que a abertura do sercom, a solicitude,
funda a abertura da afinação do amor, devemos igualmente pressupor que a
duplicidade da solicitude fundamenta uma duplicidade na afinação do amor. Qual
será o caráter desta duplicidade? Como interagem as duplicidades do ser-com e
da solicitude com esta da afinação do amor? O que estas duplicidades significam
para a constituição da presença enquanto ser no-mundo?
O ser-com se exprime através da solicitude. Esta estrutura
existencial fundamental admite evidentemente um grande número de
variações, tanto positivas quanto negativas. Sobre a versão negativa,
há numerosas formas de indiferença, da "não-assistência a pessoas em
perigo" que fazem parte do funcionamento efetivo da sociedade. Sobre
a versão positiva Heidegger menciona duas modalidades fundamentais:
no primeiro caso, eu me substituo ao outro para procurar para ele
isto que ele mesmo não pode procurar. [...] Ao lado desta primeira
possibilidade (desencarregar o outro de seus "cuidados" tomando-os
para si) Heidegger visa uma outra possibilidade que concerne
diretamente a existência do outro. Ela consiste em tornar o outro
suficientemente livre e autônomo para que ele possa assumir seus
cuidados.33
Quando a presença se coloca no lugar do outro, substituindo-o no cuidado
consigo mesmo dizemos que a solicitude é imprópria e quando a presença abre
para o outro a possibilidade de cuidar-se de si dizemos que a solicitude é
própria. Podemos ir além desta descrição de Ser e Tempo e acrescentar que a
solicitude própria e imprópria fundamentam a duplicidade da afinação do amor
como abertura e fechamento. Que diferença podemos estabelecer entre os pares
próprio/impróprio e abertura/fechamento? A diferença consiste em que o primeiro
par refere-se a modos de ser da presença e o segundo ao caráter dos
existenciais. Por exemplo: a solicitude, enquanto abertura, é um caráter do
existencial do ser-com. Mas a solicitude é própria quando exprime o ser-com de
modo genuíno e libertador e é imprópria quando exprime o ser-com de modo
nivelador e dominador. Na versão positiva da solicitude, a convivência da
presença é regida pela solicitude própria e imprópria. Por outro lado, podemos
falar de abertura e fechamento da afinação do amor para nos referirmos aos
caracteres que constituem ontologicamente esta afinação do existencial da
disposição porque como modalidade deste existencial a afinação do amor conserva
os mesmos caracteres. Então somente a partir do caráter de abertura ou de
fechamento podemos falar em modos de ser da afinação do amor. Isto significa
que o caráter de abertura ou de fechamento determina modos de ser próprio ou
impróprio. Qual a relevância das duplicidades do ser-com e da solicitude para a
constituição da afinação do amor?
A duplicidade do ser-com, caracterizada pela circularidade ontológica da
compreensão e da liberação de ser para o outro, e a duplicidade da solicitude
própria e imprópria fundam a duplicidade da afinação do amor (abertura e
fechamento), na medida em que convergem a afinação do amor para a compreensão,
liberação e solicitude com o outro. Desta convergência é possível afirmar que
na afinação do amor a presença pode abrir-se para o outro e compreender-se a
si, assumindo o seu próprio poder-ser ao mesmo tempo em que libera o outro para
compreender-se, libertando-o para assumir a responsabilidade de ser si-mesmo.
No caráter de abertura da afinação do amor a presença e a co-presença são
livres para ser e assumir o que elas têm de ser. De outro lado, da convergência
destas duplicidades é possível também afirmar que na afinação do amor a
presença pode fechar-se para o outro obnubilando a si e a ele a compreensão e a
liberação de ser que diz respeito a cada um. Nesta obnubilação de compreensão e
liberação de ser tanto a presença quanto a co-presença se eximem da
responsabilidade de assumir o seu poder-ser. Em consonância com o pensamento
heideggeriano em Ser e Tempo e além dele, diremos que o caráter de abertura da
afinação do amor funda o modo próprio de ser do amor, ao passo que o caráter de
fechamento funda o modo impróprio de ser do amor. Enquanto na solicitude
imprópria a presença se coloca no lugar do outro para cuidar daquilo que lhe
concerne, desencarregando e desincumbindo-o de assumir o cuidado consigo mesmo,
substituindo-lhe, portanto neste cuidado; no fechamento da afinação do amor a
presença se compreende no modo de ser que a co-presença lhe confere, assumindo
para si um modo de ser que não é seu, identificando-se com ele e fechando-se
para suas próprias possibilidades de ser. Qual a diferença entre o modo da
solicitude imprópria e este do fechamento da afinação do amor? A diferença está
em que na solicitude imprópria a presença substitui o outro no cuidado consigo
e no fechamento da afinação do amor a presença assume como sua a compreensão de
ser que o outro tem dela, afastando-se e perdendo-se de si mesma. Apesar desta
diferença que apontamos, podemos dizer que a solicitude imprópria e o
fechamento da afinação do amor desembocam no mesmo lugar, qual seja, no
retraimento da liberação de ser. Desta maneira torna-se evidente a
copertinência e co-originariedade da solicitude imprópria e do fechamento da
afinação do amor na circularidade ontológica do ser-com. Esta evidência
esclarece ainda que a solicitude imprópria e o fechamento da afinação do amor
nivelam o modo de ser da co-presença ao da presença. Concomitantemente, na
solicitude própria a presença libera o outro para cuidar-se de si, para ser
autônomo e livre. Já na abertura da afinação do amor, a presença libera o outro
para assumir o seu próprio ser, tornando-se transparente para si e para a
copresença, ao mesmo tempo em que deixa que a co-presença seja isto que ela tem
de ser. Com isto a presença libera a co-presença para o seu poder-ser, para
compreender-se a si mesma e, reciprocamente, se compreende como ser livre e
transparente para o seu próprio poder-ser. A solicitude própria e a abertura da
afinação do amor copertencem e são co-originárias na circularidade ontológica
do ser-com, a saber, a compreensão e a liberação de ser da presença e da
copresença.
4. O estar-só do ser-com e a afinação da solidão
"O ser-com determina existencialmente a presença, mesmo quando um outro não é,
de fato, dado ou percebido. Mesmo o estar-só da presença é sercom no mundo.
Somente num ser-com e para um ser-com é que o outro pode faltar. O estar-só é
um modo deficiente de ser-com, e sua possibilidade é a prova disso."34Mas em
que sentido a presença pode estar-só, se existencialmente ela é ser-em, ser-
junto ao mundo e ser-com a co-presença? Por que o estarsó é um modo deficiente
do ser-com? Qual a afinação correspondente a este modo de ser da presença? Qual
a relação entre o estar-só e a afinação do amor? A deficiência do estar-só não
se refere a um fator negativo da estrutura existencial do ser-no-mundo, ao
contrário, o estar-só denuncia a falta da copresença para o ser-no-mundo. Esta
falta denunciadora, em vez de ocultar ou enfraquecer o ser-com, o desmascara e
o fortalece, pois evidencia que se de fato a co-presença pode faltar ao ser-no-
mundo é "porque a presença, enquanto ser-com, permite o encontro de muitos em
seu mundo."35
Dizemos que quando a presença se sente só ela está solitária, por isto podemos
referir o termo "solidão" ao estar-só do ser-com. No entanto, a solidão não é
um modo deficiente da presença, antes ela é uma afinação da presença com o
outro no modo do estar-só. Mas se o estar-só é um modo deficiente do ser-com
por que negamos que a solidão seja um modo deficiente da presença? Porque o
estar-só, por um lado, é um modo do ser-com e, por outro, é um caráter da
afinação que expõe a presença no modo de ser sozinha. Fazemos esta afirmação,
respaldados no fato de que na analítica existencial a presença está sempre em
uma afinação, quer dizer, ela está sempre afinada a uma situação "a partir do
mundo compartilhado nas ocupações do mundo circundante."36 Esta consideração
implica em que a presença, enquanto estruturada pelo modo deficiente do ser-
com, está na afinação da solidão. Desta maneira, podemos então afirmar que o
existencial do ser-com fundamenta a afinação da solidão. Entretanto,
anteriormente afirmamos que o existencial do ser-com fundamenta a afinação do
amor. Há uma contradição latente nestas afirmações? Não, nosso intuito com tais
inferências é mostrar que o existencial do ser-com, através do modo de ser do
estar-com fundamenta a afinação do amor, e mediante o modo de ser do estar-só
fundamenta a afinação da solidão. Conforme já indicamos, o ser-com é
caracterizado por uma circularidade ontológica estrutural, que caracteriza a
duplicidade da solicitude e da afinação do amor. Ora, se a solidão, assim como
o amor, é uma afinação fundamentada pelo ser-com, então ela também será
caracterizada por uma duplicidade. Como se constitui a duplicidade da solidão?
Vimos que um par desta duplicidade é o estar-só que marca a falta da co-
presença. Qual será o outro par? O estar-só que singulariza a presença. "O que
é esta solidão, na qual o homem sempre e a cada vez vem a ser como único? O que
é isto ' a singularização?"37
A duplicidade que caracteriza a solidão consiste, por um lado, no fato de a
presença sentir-se só e abandonada pela co-presença encontrando-se em uma
situação de afastamento de si e, por outro, no fato de a presença sentir-se só
e abandonada a si-mesma, encontrando-se em uma situação de proximidade consigo
mesma. A diferença destes modos de estar-só, característicos da afinação da
solidão, está em que no primeiro caso o outro se faz presença (Dasein) no modo
da falta, ou seja, a co-presença faltante determina o modo de ser da presença
como perda e vazio de si. Este modo de afinação da solidão concerne ao abandono
e a dispersão do ser da presença ao outro, pois, enquanto afinação, a solidão
se fundamenta no existencial da disposição e esta "é o modo de ser existencial
em que a presença permanentemente se abandona ao 'mundo' e por ele se deixa
tocar de maneira a se esquivar de si mesma."38 O outro modo de estar-só da
solidão desmascara a presença para si mesma singularizando-a. No modo da falta,
a presença conta com a copresença para preencher o seu vazio de ser, neste modo
a presença confia que a co-presença pode decidir-se sobre o poder-ser que ela
mesma tem de ser, assim a presença se dispersa na espera de decisão da co-
presença, afastandose de si mesma. Já no modo da singularização a presença se
recusa a prenderse na falta do outro e na espera de decisão da co-presença e
assume o seu poder-ser próprio tornando-se singular e única. Neste caso temos
"um ficar só no qual cada um se encontra a partir de si mesmo como um singular
diante da totalidade."39 Portanto a solidão, no modo da singularização, em vez
de exibir a perda e distanciamento da presença de si mesma, diz respeito a
proximidade e conquista do poder-ser que ela mesma é. Neste sentido, a solidão
singulariza a presença porque possibilita que ela seja transparente para si ao
realizar um modo próprio de ser que a caracteriza como única diante da co-
presença no mundo compartilhado. Como podemos correlacionar a afinação da
solidão à afinação do amor? Elas são copertencentes e co-originárias na
circularidade ontológica do ser-com, na qual a presença compreende e libera ser
para o outro. "O ser para o outro não é apenas uma remissão ontológica
irredutível e autônoma. Ele já está sendo, enquanto ser-com, o ser da
presença."40 Quer dizer, o caráter de abertura para o outro que exprime o ser-
com como solicitude fundamenta a afinação da solidão e a afinação do amor. A
copertinência e co-originariedade da solicitude, afinação da solidão e afinação
do amor se constitui na circularidade ontológica do ser-com.
5. A ressonância das afinações do amor e da liberdade
Em Nietzsche I, Heidegger afirma que "o amor precisa ser entendido como
vontade, como a vontade que quer que o amado seja, em sua essência, o que ele
é."41 Vimos, anteriormente, que para Nietzsche vontade é afeto, então a frase
"o amor entendido como vontade" pode ser lida da seguinte maneira: o amor
entendido como afeto. Em Ser e Tempo, afeto corresponde a disposição e se
concretiza como afinação. Então, se o amor é afeto, logo, ele é afinação: uma
modificação do existencial da disposição. Esta argumentação comprova a tese
principal de nossa reflexão, qual seja, o amor é uma afinação fundamental para
a convivência da presença. Na medida em que o amor é uma afinação ele é também
um "comportamento", ou seja, um encontro da abertura da presença com a abertura
da co-presença, um portar-se conjunta e abertamente, visto que "na disposição,
o comportamento encontra a cada vez um começo."42 A abertura recíproca da
presença e da co-presença é a condição necessária e originária para o
comportamento, para o encontro e o retorno do ser-no-mundo a suas
possibilidades de ser. Na disposição, retorno e começo constituem o momento
inaugural e fundador dos modos de ser da presença. "Este poder-voltar-a-começar
também poderia denominar-se, simplesmente, liberdade."43 Entendida como deixar-
ser o outro naquilo que ele é, a liberdade é o fundamento para o desvelamento
do modo próprio de ser da presença. Em Sobre a essência da verdade, a liberdade
enquanto deixar-ser o ente é considerada uma "disposição de humor ou uma
disposição afetiva [afinação] na qual a presença já está abandonada sem
pressentir. Enquanto tal, a liberdade penetra e precede todo o comportamento
aberto que nela se desvela."44 Paralelamente a interpretação de Heidegger sobre
o amor fati podemos dizer que na afinação do amor a presença libera ser para o
outro, ou seja, deixa a co-presença ser isto que ela é. Assim a afinação do
amor e a afinação da liberdade são igualmente co-originárias e copertencentes
ao comportamento aberto da presença. Pois, "toda relação de abertura, pela qual
se instaura a abertura para algo, é um comportamento. [...] A liberdade em face
do que se revela no seio do aberto deixa que cada ente seja o ente que é.
(Desta maneira) A liberdade é o abandono ao desvelamento do ente como tal."45
Na medida em que na afinação do amor a presença e a co-presença podem ser o que
são, dizemos que a afinação do amor copertence a afinação da liberdade. Porque
a afinação da liberdade articula as aberturas para ser da presença e da co-
presença e deixa que elas sejam o ente que são, podemos declarar que a afinação
da liberdade é a condição de possibilidade para a afinação do amor. Isto
significa que a afinação da liberdade precede e penetra a afinação do amor.
Melhor: a articulação das aberturas para ser da presença e co-presença na
afinação da liberdade possibilita o encontro, o comportamento, das aberturas da
compreensão e liberação de ser para o outro na afinação do amor. Tal
articulação torna evidente que na afinação do amor "a liberdade é a mais alta
necessidade."46 Devido a articulação entre as aberturas para ser da presença e
co-presença e das aberturas para a compreensão e liberação de ser para o outro,
que permitem que a presença e a co-presença assumam o poder-ser que elas têm de
ser, pensamos que a afinação do amor se funda na afinação da liberdade como
deixar-ser e que esta ressoa naquela. Entendemos assim porque no modo próprio
da afinação do amor a presença deixa que a co-presença seja isto que ela tem de
ser, liberando a si e a co-presença para a singularização e reciprocamente.
Desta forma, constatamos a co-originariedade e a copertença entre a afinação da
liberdade e a afinação do amor.
A convivência recíproca daqueles que se empenham na mesma coisa
alimenta-se, muitas vezes, somente de desconfiança. Inversamente, o
empenhar-se em comum pela mesma coisa determina-se a partir da
presença apreendida, cada vez, propriamente. É essa ligação própria
que possibilita a justa isenção, que libera o outro em sua liberdade
para si mesmo.47
O modo da desconfiança que rege muitas vezes a convivência recíproca da
presença exprime o caráter de fechamento da afinação da liberdade e,
concomitantemente, o caráter de fechamento da afinação do amor. Estes
caracteres determinam a presença em modos impróprios de ser. Do fechamento da
presença para o acolhimento da abertura de ser da co-presença e recusa da
presença em deixar que a co-presença seja ela mesma, temos o modo impróprio da
afinação da liberdade. E do fechamento da presença para o acolhimento da
abertura e compreensão para o outro ou na recusa da presença em liberar o ser
para o outro, concedendo a co-presença que assuma o ser que ela mesma é, temos
o modo impróprio da afinação do amor. Da mesma forma que a afinação do amor e a
afinação da liberdade, os caracteres de fechamento e modos impróprios destas
afinações são co-originárias e copertencentes.
Podemos ainda acrescentar que no modo impróprio da afinação do amor parece que
a presença toma a co-presença como se ela fosse um simplesmente dado, apesar de
que "não se pode de forma alguma compreender o que é propriamente si-mesmo como
algo simplesmente dado."48 Na impropriedade, a presença desencarrega a co-
presença de ser o que ela é (solicitude imprópria) ao mesmo tempo em que
determina o modo de ser que ela deve assumir como seu [afinação imprópria do
amor]. Nesta medida dizemos que há um encontro do caráter de fechamento da
presença e da co-presença para as possibilidades próprias de ser de cada uma.
Por isto afirmamos que na afinação imprópria do amor há uma afinação imprópria
da liberdade, visto que na afinação imprópria do amor a co-presença coexiste
com o fechamento da presença para a liberação do poder-ser que lhe é próprio.
Portanto, no fechamento e impropriedade das afinações da liberdade e do amor a
presença e a co-presença se exprimem através do modo da dissimulação e do
desvio de si-mesma, o qual nivela e massifica a convivência cotidiana, pois aí
cada um se exime da responsabilidade de ser si-mesmo e joga para o outro a
necessidade de assumir a liberdade de ser.
Encarregar-se de uma 'coisa' ou de uma 'pessoa' em sua essência
significa: ama-la, quere-la. Este querer significa, quando pensado
mais originariamente: gratificar a essência. Tal querer é a essência
propriamente dita do poder, o qual não é apenas capaz de produzir
isto ou aquilo, mas é capaz de deixar que algo desdobre seu ser em
sua pro-veniência, isto significa, que é capaz de deixar-ser.49
Encarregar-se de alguém não significa ser em seu lugar, assumir os seus
cuidados ou conservar este alguém para si, antes significa doação de ser, ou
seja, gratuidade em desdobramentos de liberação de possibilidades de ser e
generosidade para abandonar-se ao desvelamento do ente e para conceder a
proveniência do ser outro de si mesmo. Isto significa empenhar-se conjuntamente
para que cada um seja livre para ser o que propriamente se é. O empenhar-se da
presença em compreender e assumir o poder-ser que ela é e em compreender e
liberar a co-presença para assumir o poder-ser que ela é, expressa o caráter de
abertura da presença para o outro como deixar-ser a co-presença. Neste tipo de
empenho fica em suspenso os modos impróprios da afinação do amor, melhor, neste
empenho está suspenso o controle sobre o modo de ser do outro, a cobrança que o
outro seja deste ou daquele modo e a barganha ou o comércio de possibilidades
de ser. Com esta suspensão temos o encarregar-se de alguém no modo do empenho
livre para ser o que se é, ou seja, temos o modo próprio da afinação do amor.
Consideramos que este modo de afinação que cuida, compreende e libera o outro
para ser si-mesmo seja necessário e fundamental para a convivência livre e
recíproca da presença e da co-presença. Nesta perspectiva, pensamos que, em
Heidegger, a afinação do amor requer a co-originariedade e a copertença com a
afinação da liberdade. Portanto, a liberdade enquanto deixar-ser o que se é,
"ressoa necessariamente em todo amor." 50