Experiência da transitoriedade: Walter Benjamin e a modernidade de Baudelaire
Em O pintor da vida moderna, texto escrito a partir de desenhos de Constantin
Guys, Charles Baudelaire elabora uma noção de beleza vinculada à realidade
histórica do artista, nomeada por ele de modernidade. A busca pelo belo
abandona os modelos antigos e se volta para a atualidade que se apresenta ao
artista capaz de apreendê-lo na fugacidade do momento presente. "Ele buscou por
toda a parte a beleza passageira e fugaz da vida presente, o caráter daquilo
que o leitor nos permitiu chamar de modernidade" (BAUDELAIRE, 1976b, p. 724).
Baudelaire, porém, não diz apenas que os artistas modernos devem ater-se ao
presente para retirar dele a sua beleza, como também que os artistas do passado
só foram grandes porque fizeram o mesmo. Não só o belo é interessante, mas
também o presente que o produz. Pode-se dizer assim que o belo funde-se com o
histórico: "O passado é interessante não somente pela beleza que dele souberam
extrair os artistas para quem ele era o presente, mas também como passado, pelo
seu valor histórico. O mesmo ocorre com o presente. O prazer que obtemos com a
representação do presente deve-se não apenas à beleza de que ele pode estar
revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente" (BAUDELAIRE,
1976b, p. 684).
Definindo a modernidade como uma busca pelo atual, bem como por um olhar capaz
de percebê-lo na sua apresentação passageira, Baudelaire opera uma forte
alteração no que se entendia tradicionalmente pela oposição entre modernidade e
antiguidade. Se até então os limites entre esses dois termos pareciam certos ao
indicar épocas que se contrapunham, com Baudelaire eles se tornam mais fluidos.
Eles não correspondem mais a épocas distintas, e passam a designar uma relação
entre o momento presente e aquele que acabou de passar. Dito de outra maneira,
a oposição entre modernidade e antiguidade indica a partir de então a oposição
entre o novo e o velho, entre o moderno e o antigo, inexistente antes da
vinculação da modernidade ao presente transitório.
Num texto da década de 1960, o historiador da literatura Hans Robert Jauss
investiga, num contexto particularmente relevante para a questão discutida
aqui, a historicidade da palavra "modernidade". Segundo ele, o uso que é feito
deste termo nos dias de hoje, especialmente na estética e na compreensão
histórica do mundo, deriva diretamente do uso que Baudelaire fez dela em sua
crítica de arte, mais explicitamente em O pintor da vida moderna. Jauss
salienta, no entanto, que a palavra cunhada por Baudelaire para expressar a
transformação da arte no seu tempo, bem como a consciência de historicidade
dessa mesma arte, é fruto de um longo desenvolvimento do adjetivo "moderno" que
remonta ao século V (JAUSS, 1970, p. 12). Durante o transcorrer desse tempo,
duas transformações se destacam: segundo a primeira, ao longo dos séculos houve
um processo de separação entre a arte de um determinado período e a força que
os padrões artísticos da Antiguidade representavam para ela na forma de uma
exemplaridade a ser seguida; e pela segunda, correlata à primeira, o sentido de
moderno desenvolve-se no interior de um processo relacionado às transformações
históricas da autocompreensão de uma determinada época (JAUSS, 1970, p. 14).
Jauss aponta que a problematização da modernidade deriva de uma antiga oposição
que ocorria em termos "antigo" e "moderno". O termo moderno, nesse caso, possui
um uso semântico que remete à ideia de tempo presente ou de atualidade. Trata-
se, porém, mais de uma oposição cronológica de uma época que se descobre em
relação com a Antiguidade clássica do que a consciência de uma experiência
genuinamente nova que diferenciará ou mesmo romperá a relação entre presente e
passado. Mesmo em períodos como a Renascença, que apresenta uma elevada
consciência de época, a distinção com relação ao período anterior só é cumprida
no âmbito de uma nova relação com a Antiguidade, que continuará fornecendo as
regras que a regularão, seja no plano científico ou no plano artístico. Se se
pode usar o termo "modernidade" para essas épocas, é possível dizer que havia
uma modernidade para cada período que se contrapunha ao anterior por uma
relação diferenciada com a Antiguidade.
Em janeiro de 1687, a Querela dos antigos e modernos, realizada na Academia
Francesa e introduzida por Charles Perrault, produziu uma mudança sensível
nessa situação, abrindo a possibilidade ao Iluminismo francês de se inscrever
como um novo começo histórico. Jauss afirma, todavia, que os modernos,
mobilizados pelos avanços na filosofia e na ciência moderna desde Descartes e
Copérnico, não reivindicavam para si, de modo algum, o estabelecimento de um
corte temporal que daria origem a uma nova época. O que estava em causa era um
novo relacionamento com a Antiguidade, que, no entanto, mantinha o paradigma da
Antiguidade como referência para a produção artística. Os modernos reclamaram
para si a categoria de verdadeiros antigos, pois se viam como a etapa final de
um grande processo de realizações, do qual a Antiguidade seria apenas a
infância, e o Renascimento, sua idade madura. Embora as regras que devessem
governar as artes e as ciências surgissem de seu próprio tempo, a definição de
moderno continuava presa a uma relação particular com a Antiguidade, vista
agora na forma de uma negação. Mas nem por isso a querela fica diminuída aos
olhos de Jauss. A descoberta das diferenças entre os antigos e os modernos no
plano das belas artes durante o Iluminismo francês é uma das experiências
marcantes das ideias de aprimoramento e progresso que dominam o período (JAUSS,
1970, p. 29-35).
No final do século XVIII, uma nova forma de consciência de época aparece
transformando a utilização da relação antigo/moderno. O romantismo, que Jauss
identifica em Chateaubriand, Madame de Staël e nos irmãos Schlegel, substitui o
termo de oposição "antigo" pelo "clássico" e revaloriza a Idade Média o
início do mundo cristão em oposição à Antiguidade. Essa redescoberta não se
coloca contraditoriamente ao Iluminismo, na interpretação de Jauss, mas é por
ele mesmo introduzida a partir da Querelle no exame das especificidades que
diferenciam o mundo moderno do mundo antigo (JAUSS, 1970, p. 40). Ao lado de
considerações sobre a peculiaridade da redescoberta da Idade Média na
construção de um passado nacional e sobre a manipulação do adjetivo "romântico"
pela literatura na descrição de situações particulares, Jauss expõe uma nova
relação com a história e também com a natureza, ambas vistas por um olhar
nostálgico que salienta no passado algo que foi perdido. O que se coloca na
distância temporal é a verdade de uma natureza à qual o homem romântico não tem
mais acesso e que guarda a infância da humanidade. A história e a paisagem
correspondem-se, assim, em uma relação recíproca: "a paisagem como natureza sob
a forma do passado, como sensação de uma harmonia perdida com a totalidade do
mundo" (JAUSS, 1970, p. 49).
Entre o Iluminismo e o Romantismo, de um lado, e a Modernidade de Baudelaire,
de outro, Jauss situa a cesura temporal representada pela Revolução Francesa.
Esse corte já havia sido sentido por Stendhal que, no ensaio Racine e
Shakespeare, colocara a história até 1789 em forte contraste com a que lhe
sucedia. Tal experiência, de que a história mudara completamente, coloca-se no
início de uma consciência de época que percebeu o passo dado do velho ao novo
como uma ruptura no tempo. A revolução havia cortado a linha entre presente e
passado. A partir de então, o romântico deixa de ser a relação com um passado
perdido e passa a ser, na definição de Stendhal, o atual, o que traz prazer às
pessoas do tempo presente. Stendhal abandona o uso de romântico como conceito
de época, abandonando também a antítese histórica com o classicismo. O conceito
de romântico retoma a função latina originária do termo "moderno", e passa a
designar o agora histórico do presente, dando ao moderno o valor mais alto e
vendo no clássico apenas um valor funcional. Desta maneira, o romântico, ou o
moderno, deixa de contrapor-se a um passado autoritário na forma da Antiguidade
(JAUSS, 1970, p. 53).
Pode-se dizer que Stendhal colocou a questão, mas só com Baudelaire o problema
apresentou-se configurado na sua amplitude: foi somente com a alteração de
sentido do par antigo/moderno para velho/novo que a autocompreensão de uma
certa época pôde determinar completamente as leis pelas quais se rege, ou seja,
a modernidade somente pôde fundar-se como época própria e distinta das demais
quando expulsou da dicotomia antigo/ moderno qualquer referência à Antiguidade.
Esse tema é o que Jauss procura realçar na modernidade de Baudelaire tendo como
texto-base O pintor da vida moderna. Ali, Baudelaire realizou o que se pode
chamar de um programa para a estética moderna.
Onze anos antes, contudo, no Salão de 1846, Baudelaire já esboçava uma teoria
da arte moderna ao remeter ao sentido da oposição entre antigo e moderno tal
como fora transformada por Stendhal. O moderno é concebido como o atual, como o
novo, como algo que diz respeito exclusivamente ao tempo presente. Em outras
palavras, Baudelaire está procurando a identificação do belo com o efêmero. A
dualidade do belo a ser desenvolvida n'O pintor da vida moderna encontra sua
primeira formulação: "Toda beleza contém, como todo fenômeno possível, algo de
eterno e algo de transitório de absoluto e de particular. A beleza absoluta e
eterna não existe, ou não é mais que uma abstração extraída da superfície geral
das belezas diversas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e
como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza" (BAUDELAIRE, 1976b,
p. 493). Segundo essa colocação, cada época teria a sua beleza moderna. Mais do
que designar um período que se contrapõe a outro, e se define por essa
contraposição, Baudelaire salienta o caráter de novidade desse moderno como a
expressão de sua época, a qual seria melhor representada no romantismo: "Para
mim, o romantismo é a expressão mais recente, mais atual do belo" (BAUDELAIRE,
1976b, p. 420), e "Quem diz romantismo diz arte moderna" (BAUDELAIRE, 1976b, p.
421).
Apesar desses apontamentos, que indicam a elaboração de uma estética moderna, é
n'O pintor da vida moderna que Baudelaire desenvolve o programa com mais
acabamento. Aí é possível encontrar, no radical aprofundamento no presente
transitório, uma resposta à questão de Stendhal sobre a permanência da obra
moderna. Em torno de comentários sobre os desenhos de Constantin Guys,
Baudelaire coloca-se contra os adeptos da arte eterna e imutável, representados
pelo classicismo, formulando o que ele denomina de "teoria racional e histórica
do belo": "Essa é uma bela ocasião, na verdade, para estabelecer uma teoria
racional e histórica do belo, em oposição à teoria do belo único e absoluto;
para mostrar que o belo apresenta sempre, inevitavelmente, uma dupla
composição, ainda que a impressão que ele produza seja una" (BAUDELAIRE, 1976b,
p. 685). A seguir vem a definição do belo: "O belo é feito de um elemento
eterno, invariável, cuja quantidade é excessivamente difícil de determinar, e
de um elemento relativo, circunstancial, que será, caso se queira, cada um a
sua vez ou todos em conjunto, a época, a moda, a moral, a paixão" (Idem).
Baudelaire funda a modernidade como uma ruptura com os padrões da antiguidade.
A beleza da modernidade não se opõe à beleza antiga. O que ocorre é que a
beleza antiga, o eterno e imutável, está presente na beleza moderna na forma de
seu devir. Isso significa que a fugacidade da beleza moderna só poderá tornar-
se eterna, e a obra de arte ser autenticamente moderna, se o artista moderno
for capaz de retirar de sua época justamente aquilo que é transitório e
fugidio, que é passível de tornar-se antigo e obsoleto. O transitório é o que
constitui a obra como moderna e, ao mesmo tempo, o que lhe assegura a
possibilidade de tornar-se eterna. Em outras palavras, o belo moderno está
presente na efemeridade de um momento sujeito à ação destruidora do tempo e que
tem sua única chance de sobrevivência na sua transfiguração pela obra do
artista. A tensão do histórico com o eterno torna-se o tema da reflexão da
estética moderna. Trata-se de autoconsciência de época radical, porque, ao
identificar-se pelo novo, que no instante seguinte estará superado, a
modernidade passa a reger-se por um tempo que se autoconsome. Ao mesmo tempo
que a consciência da temporalidade engendra essa época, ela a ameaça, tornando
os limites da separação entre antigo e moderno cada vez mais fluidos e
incertos. Esse caráter até então inexistente do moderno está presente, com
maior ou menor negatividade, tanto na poesia como na crítica de arte de
Baudelaire.
Em seus ensaios sobre Baudelaire, escritos no final dos anos 1930, Walter
Benjamin destaca esta negatividade constitutiva da temporalidade moderna,
tomando-a como critério para uma avaliação do modo como Baudelaire a apresenta
no conjunto de sua obra. Em outras palavras, Benjamin retoma a oposição entre
antigo e novo com o intuito de apontar certa insuficiência da teoria da arte
apresentada por Baudelaire em O pintor da vida moderna. A cisão apontada na
noção de belo entre um elemento eterno e outro transitório não daria conta,
afirma Benjamin, da forte alteração que a necessidade da busca do novo insere
na apreensão do tempo. Sua conclusão a respeito da definição do belo é
cortante: "Não se pode dizer que isso vá fundo na questão" (BENJAMIN, 1991b, p.
81; 1999, p. 585). Na sua interpretação, tal definição seria estática demais
diante da força com que a noção de novo dissolve a separação entre modernidade
e antiguidade.
Esta censura de Benjamin à teoria da modernidade de Baudelaire já foi objeto
das ressalvas de comentadores. Jauss, particularmente, salienta a incompreensão
por Benjamin do caráter eminentemente positivo da modernidade descoberta por
Baudelaire. Jeanne Marie Gagnebin retoma esta crítica de Jauss e a resume:
segundo Jauss, Benjamin "não entende a dialética entre antigo e moderno, em
particular o fato de que 'antigo' não remete mais, em Baudelaire, ao paradigma
da Antiguidade mas, sim, ao par obsoleto-novo; por isso Benjamin criticaria a
ausência em Baudelaire de uma confrontação teórica mais apurada com a arte da
Antiguidade, enquanto tal ausência é devida a uma mudança de paradigmas
teóricos, segundo Jauss. Nas suas análises, Benjamin sublinharia o apego de
Baudelaire a uma imagem idealizada de natureza e sua aversão pela grande
cidade, insistindo na crueldade da modernidade sem perceber os traços positivos
desse conceito em Baudelaire. Curiosamente, Jauss deduz esse mal-entendido da
postura marxista de Benjamin, que queria ler a obra de Baudelaire como uma
denúncia do capitalismo e não como uma descrição positiva da emergência da
modernidade" (GAGNEBIN, 1997, p. 148).
Seguindo a sugestão de Gagnebin, seria possível afirmar, contra Jauss, a
descoberta por Benjamin de uma modernidade mais multifacetada em Baudelaire.
Ele não censura a teoria da modernidade em nome de uma crítica marxista do
capitalismo moderno, mas por sustentar que o moderno não diz respeito apenas ao
louvor das descrições da cidade moderna, mas também a um registro mais agudo da
busca do novo como a temporalidade ameaçadora que rege esta época. "A
modernidade assinala uma época; designa, ao mesmo tempo, a força que age nessa
época e que a aproxima da antigüidade" (BENJAMIN, 1991b, p. 80; 1999, p. 585).
O novo é essa força que, ao mesmo tempo que configura a modernidade, dando-lhe
um caráter único diante do existente, transforma-a imediatamente no seu oposto,
a antiguidade. Benjamin tem em mente uma certa apreensão aguda do tempo que
transforma cada vez mais rapidamente o moderno em antigo e o novo em velho. O
tempo torna-se assim a experiência fundamental de tal arte que se rege pela
busca do novo. Não é na crítica, porém, que o novo é apreendido na sua mais
forte relação com antiguidade: "Nenhuma das reflexões estéticas da teoria
baudelairiana expõe a modernidade em sua interpenetração com a antigüidade como
ocorre em certos trechos de As Flores do Mal" (BENJAMIN, 1991b, p. 81; 1999a,
p. 585). É nesses poemas que ambas se cruzam pela marca do novo: é na
transitoriedade que a modernidade se apresenta mais intimamente ligada à
antiguidade. Nas Flores do mal, tal consciência do tempo recebe o nome de
spleen, marca da busca do novo e da contradição envolvida em tal busca: "O
spleen interpõeséculos entre o momento presente e o que acabou de passar. É o
spleen que incansavelmente gera 'antigüidade'. E, de fato, em Baudelaire, a
modernidade não é outra coisa que a 'mais nova antigüidade'" (BENJAMIN, 1999c,
p. 423).
De acordo com estas indicações, é possível então reconhecer a interpenetração
mais íntima da modernidade com a antiguidade em poemas como "O cisne", em que
Baudelaire faz o registro do exílio no interior de uma Paris em reconstrução
sob os auspícios do projeto de reurbanização efetuado pelo Barão Haussmann. O
crescimento urbano e econômico havia colocado a antiga Paris sob tal pressão
que as ruas tortas e estreitas se colocavam como obstáculo ao desenvolvimento.
Além disso, em revoltas populares, essas ruelas eram facilmente obstruídas por
barricadas, como a lembrança recente dos conflitos de 1848 ainda testemunhava.
Sob o eufemismo de embelezamento estratégico, bairros inteiros desapareceram e
antigos pardieiros foram substituídos por amplas praças, jardins e alamedas,
num violento processo de modernização que terminaria por reformular
inteiramente a cidade. No momento em que Baudelaire inicia o poema, imagens da
antiga Paris acompanham o poeta que passeia pelos novos quarteirões.
I
Andrômaca, eu penso em você! Esse pequeno rio,
Pobre e triste espelho onde outrora resplendia
A imensa majestade de suas dores de viúva,
Esse Simeonte mentiroso que aumenta com teu pranto,
Fecundou subitamente minha memória fértil,
Quando eu atravessava o novo Carrossel.
A velha Paris não existe mais (a forma de uma cidade
Muda mais rápido, ah! que o coração de um mortal);
Só em espírito vejo todo esse campo de barracos,
Essas pilhas de capitéis esboçados e de cornijas,
Os gramados, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,
E, brilhando no ladrilho, a confusão de quinquilharias.
Lá era exposta outrora uma feira de animais;
Lá eu vi, numa manhã, quando sob o céu
Frio e claro o Trabalho acorda, onde a sujeira
Impele um furacão sombrio no ar silencioso,
Um cisne que escapara de sua jaula,
E, esfregando seus pés espalmados sobre o pavimento seco,
Sob o sol áspero arrastava sua plumagem branca.
Junto a regato sem água, o animal abrindo o bico
Banhava nervosamente suas asas na poeira,
E dizia, com o coração cheio de seu belo lago natal:
"Água, quando cairás? quando soarás, raio?"
Eu vejo esse infeliz, mito estranho e fatal,
Em direção ao céu às vezes, como o homem de Ovídio,
Em direção ao céu irônico e cruelmente belo,
Sobre seu pescoço convulsivo esticando seu rosto ávido,
Como se lançasse uma censura a Deus!
(BAUDELAIRE, 1976a, p. 85-86)
A região atravessada pelo poeta, do Jardim das Tulherias ao Louvre, era
antigamente coberta por casebres e pardieiros, e ponto de reunião de barracas
de vendedores ambulantes e de mercadores de pássaros. Durante as reformas, esse
enorme quarteirão foi inteiramente demolido e cedeu lugar à imponente esplanada
dos dias de hoje. Cruzando esses espaços recém-inaugurados, Baudelaire não os
descreve, mas os torna visíveis na justaposição das duas marcas da cidade
moderna, o exílio e a transitoriedade. A presença da nova cidade pode ser lida
na característica das figuras evocadas, seja a exilada Andrômaca da
antiguidade, seja a imagem da decadência dos antigos quarteirões, seja a figura
do cisne. Os três elementos lhe dão o fundamento de uma crítica que incide
diretamente sobre as forças que agem no presente da cidade: não apenas a
transformação, mas a sugestão de que essa transformação é um movimento de
autodissolução. Assim, sob a constatação de que a antiga feição da cidade
desapareceu A velha Paris não existe mais , surge o desvendamento da lei
dessa transformação (a forma de uma cidade/muda mais rápido, ah! que o
coração de um mortal) colocada entre parênteses, tanto para salientar que tal
descoberta é incisiva demais para ser expressa abertamente, quanto porque a
transformação triunfante da cidade, sua aparência moderna, procura esconder a
relação subterrânea a transitoriedade que ela mantém com a antiga cidade. O
caráter sólido e inabalável da cidade é duplamente afetado pela sua equiparação
metafórica. A cidade torna-se fluida e volúvel, sujeita a transformações e
influências sem previsão, e, mais incisivamente, abre mão de uma existência
eterna. O mortal indica aqui a descoberta de que a Paris triunfante do império
de Napoleão III está tão próxima da decadência e do desaparecimento quanto a
velha Paris. Pode-se dizer que Paris continuaria a existir, mas que numa
sucessividade de formas transitórias e de movimentos de destruição e
construção. Baudelaire transporta assim para a transformação da cidade o mesmo
paradoxo da produção do moderno, que nasce sob o signo de sua própria
caducidade.
Essa descoberta da dissolução da cidade nos versos 7-12 funciona como uma
articulação para a evocação das duas figuras do exílio. Andrômaca e o cisne
reúnem-se no poema a partir de um ponto preciso, a memória do poeta solitário
situado na nova Paris. A disparidade entre as duas figuras torna-se plausível
pelo caráter destrutivo da cidade. Se os dois são registrados sob o ângulo do
exílio é porque a nova cidade, ou o movimento de transformação que a produziu,
é incapaz de acolher qualquer um dos dois. Assim, o movimento de produção do
novo, direcionado ao futuro, tem como único passado os destroços que o poema
recupera como ruínas da cidade antiga em processo de ser substituída pela nova.
No processo de produção de uma modernidade já destinada à extinção, não há
espaço para qualquer reflexão e retomada do passado. Assim, o exílio de
Andrômaca pode ser lido como o exílio de uma tradição histórica e literária que
ela representa e que não pode ser acolhida no espaço da cidade. A mesma
expulsão ocorre com o cisne. Ele indica tanto a expulsão da vida orgânica pelo
processo de urbanização e transformação em concreto de todo o ambiente como é
uma alegoria de todos os exilados sem lugar na cidade. Sua figura indicadora de
graça e delicadeza é incompatível com a agressividade do ambiente urbano. Como
representação do exílio ele é a imagem da inadequação a uma cidade que se
mostra como abandono e isolamento.
Na segunda parte do poema, há uma retomada dos elementos dispersos da primeira;
articulando seus elementos, Baudelaire insiste na transformação poética
daqueles dados apreendidos pela memória. A alegoria, de que o poeta é
consciente, é uma indicação do sentido de perda e alienação que se instaura
entre o poeta e as imagens da cidade.
II
Paris muda! mas nada na minha melancolia
Mudou! palácios novos, andaimes, blocos,
Velhas alamedas, tudo para mim se torna alegoria,
E minhas caras lembranças são mais pesadas que rochas.
Também diante do Louvre uma imagem me oprime:
Eu penso em meu grande cisne, com seus gestos loucos,
Como os exilados, ridículo e sublime,
E roído por um desejo sem trégua! e a seguir em você,
Andrômaca, derrubada dos braços de um grande esposo,
Gado vil, sob a mão do soberbo Pirro,
Ao pé de um túmulo vazio em êxtase curvada;
Viúva de Hector, ah! e mulher de Heleno!
Eu penso na negra, emagrecida e tísica,
Pisando na lama, e procurando, com o olhar alucinado,
Os coqueiros ausentes da soberba África
Atrás da imensa muralha do nevoeiro;
Naqueles que perderam o que não se pode reencontrar
Jamais, jamais! naqueles que bebem das lágrimas
E mamam da Dor como uma boa loba!
Nos magros órfãos que secam como uma flor!
Assim na floresta em que meu espírito se exila
Uma velha Lembrança soa como o pleno sopro de uma trompa!
Eu penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,
Nos prisioneiros, nos vencidos!... e em muitos outros ainda!
(BAUDELAIRE, 1976a, p. 86-87)
A sucessividade das lembranças da primeira parte cede seu lugar ao congelamento
da realidade pelo olhar alegórico. Como colocou Jean Starobinski em sua
interpretação do poema, há um espelhamento entre os versos 7-12 da primeira
parte e a primeira estrofe da segunda por meio da autorreflexão do poeta
melancólico (STAROBINSKI, 1989, p. 61). Se antes se indicava o movimento
vertiginoso da transformação de Paris na contraposição entre a percepção
imediata do poeta e as imagens que ela evocava, na segunda parte, há a
imobilização desse movimento na justaposição da nova e da velha Paris sob a
figura da ruína. Não é de outra forma que Paris surge no poema. Os novos
palácios e as velhas alamedas convivem lado a lado em meio a blocos de pedra e
andaimes que servem tanto à destruição quanto à construção da cidade. Como
Benjamin afirma em seu livro sobre o barroco alemão, "como ruína, a história se
fundiu sensorialmente no cenário. Sob essa forma a história não constitui um
processo de vida eterna, mas de inevitável declínio" (BENJAMIN, 1984, p. 200;
1999a, p. 353). Qualquer sentimento de estabilidade cede sob a representação da
ruína. Nela, o significado da cidade não surge como um monumento à eternidade,
mas como aprofundamento da transitoriedade e da sujeição ao perecimento.
A figuração do novo como ruína ocorre no contexto da reabilitação da alegoria
por Baudelaire, a qual permite que a nova Paris seja transposta para o poema
como uma alegoria da transitoriedade. Os leitores de Benjamin reconhecem aí uma
retomada de suas reflexões sobre a alegoria no drama barroco alemão. Ele
reconhece, contudo, que os motivos da reabilitação da alegoria por Baudelaire
são bem distintos daqueles que se impunham aos dramaturgos barrocos. Susan
Buck-Morss, em seu estudo sobre o "projeto das passagens" de Benjamin, aponta
esta diferença. "No estudo sobre o Drama Barroco, Benjamin havia argumentado
que a alegoria barroca era a forma de percepção própria de uma época de ruptura
social e guerra prolongada, em que o sofrimento humano e a ruína material eram
matéria e forma da experiência histórica. Daí que o retorno da alegoria poderia
ser interpretado como uma resposta à horrenda destruição da Primeira Guerra
Mundial. Mas a experiência história que deu origem a Les fleurs du mal não era
comparável. Em meados do século XIX, Paris, tempo e lugar em que os poemas de
Baudelaire haviam sido escritos, estava no ponto mais alto de um
desenvolvimento material sem precedentes. (...) Com certeza, os dias sangrentos
da revolução de 1949 proporcionavam uma imagem diferente. Mas esse momento de
violência política não era o conteúdo dos poemas de Baudelaire. Ao contrário,
precisamente o esplendor da fantasmagoria urbana recém-construída, com sua
promessa de mudança-progresso despertava nele a resposta alegórica mais
tipicamente melancólica" (BUCK-MORSS, 2002, p. 220). Não é necessário,
entretanto, como faz a autora, recorrer à relação entre alegoria e mercadoria
para explicar o uso da alegoria por Baudelaire. Se Benjamin deixou, no livro
das passagens, indicações instigantes, porém inacabadas, a esse respeito, o
esforço dos comentadores em reconstruí-las ainda não produziu um resultado
satisfatório. Diante disso, a estratégia aqui é a de explorar as formulações
disponíveis nos próprios ensaios sobre Baudelaire. Segundo a hipótese deste
artigo, suas colocações associam o uso da alegoria por Baudelaire ao
aprofundamento da percepção da transitoriedade que marca a modernidade dos
poemas de As flores do mal. Seria ainda este emprego da alegoria como uma forma
de percepção do tempo que singulariza tais poemas diante dos escritos teóricos
do poeta.
A imobilização alegórica do tempo na imagem da ruína é, neste contexto, a exata
antítese da busca incessante do novo que move o artista de O pintor da vida
moderna. É a maneira encontrada por Baudelaire para registrar a destruição e o
perecimento que caracterizam as forças que agem nessa transformação, ou seja, a
força de envelhecimento de uma modernidade que se engendra a todo momento como
busca da novidade. Como disse Benjamin, "Aquilo que sabemos que, em breve, já
não teremos diante de nós torna-se imagem. Provavelmente isso ocorreu com as
ruas de Paris daquele tempo" (BENJAMIN, 1991b, p. 85; 1999, p. 590). Diante da
inevitável caducidade que permeia todas as coisas, os objetos perdem seu valor
próprio e se tornam matéria-prima para a transformação alegórica. Baudelaire
registra nessa primeira estrofe a própria ilustração de apreensão pela poesia
de uma realidade colocada sob o signo do declínio. Ao interpretar o poema,
Benjamin escreve: "Não é à toa que se trata de um poema alegórico. Essa cidade
tomada por constante movimentação se paralisa. Torna-se quebradiça como o
vidro, mas, também como o vidro, transparente ou seja, transparente em seu
significado. '(A forma de uma cidade/Muda mais rápido, ah! que o coração de um
mortal.)'. A estatura de Paris é frágil; está cercada por símbolos da
fragilidade. Símbolos de criaturas vivas (a negra e o cisne); e símbolos
históricos (Andrômaca, 'viúva de Heitor e... mulher de Heleno.') O traço comum
aos dois é a tristeza pelo que foi e a desesperança pelo que virá. Nessa
caducidade, por último e mais profundamente, a modernidade se alia à
antigüidade. Sempre que aparece em As Flores do Mal, Paris carrega essa marca"
(BENJAMIN, 1991b, p. 81; 1999, p. 585-586).
A força de destruição do desenvolvimento urbano moderno foi representada várias
vezes como o desejo de ver as grandes cidades modernas tais como ruínas da
antiguidade. Alguns testemunhos, que Benjamin recolhe na sua afinidade com o
projeto de Baudelaire de revelar a antiguidade no interior da modernidade,
revelam o pressentimento de uma ameaça que paira sobre a cidade moderna, e que
poderia, de um golpe, reduzi-la em ruínas comparáveis àquelas em que se
transformaram as cidades antigas. Benjamin registra as declarações de Léon
Daudet, que, ao contemplar Paris de um ponto elevado, teve consciência da
ameaça e da destrutividade que pairava sobre grandes aglomerações urbanas como
Paris, ao mesmo tempo que se surpreendia que tais cidades, apesar disso, ainda
continuam a existir; e de maneira mais explícita, Benjamin reproduz a
descoberta por Maxime du Camp da lei da inevitável decadência de todas as
coisas humanas ao imaginar a moderna Paris subitamente transformada nos
destroços de uma cidade antiga. A ideia de apresentar Paris como sujeita a essa
inevitável destruição foi levada a termo pelas águas-fortes de Meryon, sobre o
qual Baudelaire escreveu um entusiasmado texto. Suas vistas de Paris em águas-
fortes foram feitas antes da reurbanização. Seu talento consistiu em ter
mostrado o lado antigo desse presente figurado, como se, sob o seu olhar,
surgisse já a Paris vítima da destruição a que estava destinada. "Ninguém se
impressionou tanto com elas quanto Baudelaire. Não era a visão arqueológica da
catástrofe, base dos sonhos de Hugo, aquilo que realmente o movia. Para ele a
antigüidade deveria surgir de um só golpe de uma modernidade intacta, tal qual
uma Atena da cabeça de um Zeus intacto. Meryon fez brotar a imagem antiga da
cidade sem desprezar um só paralelepípedo. Era essa visão da coisa à qual
Baudelaire continuamente se entregara na idéia de modernidade" (BENJAMIN,
1991b, p. 85; 1999, p. 590).
No poema "O cisne", Baudelaire reconhece o seu tema na força destrutiva da
modernidade ao mesmo tempo que protesta contra ele. Como percebeu Starobinski,
a constatação melancólica "Paris muda", como toda experiência melancólica, é
acompanhada por uma acusação. Dessa forma, as contínuas destruições e
reconstruções do urbanismo de meados do século XIX, com sua mistura de
monumentalidade e função repressiva, encontram-se entre as causas do spleen e
do sentimento de exílio que caracteriza o poema (STAROBINSKI, 1989, p. 64). A
solidariedade do poeta com os exilados é o mais forte argumento a favor do
protesto histórico-social. A recorrência do "eu penso" da segunda metade do
poema põe a seu serviço uma consideração sobre a situação daqueles que o poeta
retrata. Desde sua primeira aparição, na evocação da exilada Andrômaca logo na
primeira estrofe, ele não é um "eu penso" absolutizado, a-histórico e isolado,
que pudesse, por si mesmo, instaurar o tempo do poema, mas uma consideração
pensativa e atormentada sobre o sofrimento dos exilados compartilhado pelo
poeta. O movimento do pensamento não se limita à atribuição de um sentido
alegórico às figuras visíveis, mas procura, sobretudo, reuni-los no conjunto de
exilados que permanece em aberto (STAROBINSKI, 1989, p. 76). As últimas
estrofes não procedem apenas por uma enumeração de figuras homólogas. Há, sim,
uma justaposição de figuras exemplares a negra, os órfãos, os vencidos, os
esquecidos abarcadas pelo sentimento de fraternidade do poeta. A abertura
final não fecha a lista dos exilados, mas indica que muitos ainda se encontram
sob esse signo fatal operado pela modernidade.
Como indicam os últimos versos do poema, o poeta não foge à caracterização de
exilado. Assim, ele faz parte da figura do cisne que alegoriza a série sem fim
dos exilados (da modernização, do progresso, das esperanças malogradas de
1848). O cisne que empoeira suas asas e se bate nas pedras da cidade é uma
alegoria de todos os exilados, e dessa forma também do próprio poeta. A imagem
do pássaro privado do vôo era cara a Baudelaire para representar a inadequação
do artista na sociedade que envolve e sustenta a transformação de Paris. A
contradição é a sua própria definição na caracterização antitética de ridículo
e sublime. Nesse mundo, não há espaço para a satisfação e apaziguamento de seus
desejos ("Roído por um desejo sem trégua"). O mesmo tema do pássaro exilado
está num dos primeiros poemas de As flores do mal. Em "O albatroz", a
incompatibilidade entre o poeta e o mundo está registrada na contraposição
entre a majestade do pássaro durante o voo e a situação degradante ao descer
para junto dos marinheiros do navio que ele acompanhava do alto. O paradoxo é o
próprio modo de expressão dessa situação contraditória.
Tão logo os colocam sobre o assoalho,
Esses reis do azul, desajeitados e envergonhados,
Deixam lamentavelmente suas grandes asas brancas
Arrastar como remos ao lado deles.
Esse viajante alado, como é desajeitado e fraco!
Ele, outrora tão belo, como é cômico e feio.
(BAUDELAIRE, 1976a, p. 9-10)
A mesma contradição atravessa o poeta no momento em que se infiltra na
multidão. A alegoria da inadequação do artista é explicitada na última estrofe:
O Poeta é semelhante ao príncipe das nuvens
Que enfrenta a tempestade e se ri do arqueiro;
Exilado sob o sol em meio a vaias,
Suas asas de gigante o impedem de andar.
(Idem)
A imagem do exílio em Baudelaire é tão mais contundente quanto mais ela se
insere no contexto da vida urbana. Como representação da alienação urbana, o
exílio é a figura da destrutividade presente nas forças históricas que
configuram a modernidade de Baudelaire.
Estes elementos permitem ainda a Benjamin compreender a obra de Baudelaire como
a exposição de uma mudança decisiva na composição da experiência histórica.
Segundo as reflexões de seu ensaio "Sobre alguns temas em Baudelaire", o que
estrutura a verdadeira experiência (Erfahrung) é uma especial conjunção, na
memória, entre traços do passado individual e do passado coletivo. A
experiência está condicionada à atividade de rememoração que instaura a
possibilidade de que o passado individual se insira no contexto mais amplo da
comunicação entre gerações sucessivas que formam a tradição. A rememoração,
para estabelecer essa conjunção, necessita, por sua vez, de uma noção plena de
tempo capaz de estruturar uma concepção decisiva de presente que se descubra na
sua possibilidade de entrar em contato com o passado e retomar experiências que
esse passado lhe transmite. Mas essa retomada só é possível caso o presente
reflita sobre essa distância fundamental que o separa e o torna diferente do
passado. Somente assim se pode entender a noção de atualização do passado no
presente, que reelabora a experiência passada, mas não anula a diferença do
presente em relação a ela. A constituição da experiência pela atualização do
passado remete a uma noção complexa de tempo presente. Sendo uma tarefa do
presente constituir uma relação produtiva com o passado, a experiência não é
assim um tempo pleno que se desenrola do passado ao futuro, formando uma
continuidade. Ela é, isso sim, uma descontinuidade, uma atividade que tem que
ser reiterada a cada momento, uma retomada que não ocorre automaticamente. Tal
contato está sempre sujeito ao perigo e ao risco envolvidos no processo de
transmissão da cultura. A rememoração é, portanto, uma atividade de reencontro
de passado e presente enquanto articulação deuma diferença produzida pelo
distanciamento. É a reiteração desse reencontro que estrutura a experiência.
O poema "O cisne", analisado a partir das considerações de Benjamin no ensaio A
modernidade, fornece um registro do declínio desta concepção forte de
experiência. A cidade não é o espaço de sociabilidade capaz de integrar seus
habitantes em uma experiência comum. Ela também não permite o contato com a
tradição, como se pôde perceber pela figura de Andrômaca. Por fim, o
instrumento de reunião da tradição com a memória dos exilados, ou seja, a
memória do poeta, também não é capaz de registrar uma experiência comum. Muito
pelo contrário, o curso acelerado do tempo, que consome rapidamente o presente
e impede que ele atualize o passado, e o exílio do poeta, sinal do
reconhecimento de sua própria alienação frente à cidade, são índices da
insuficiência de sua atividade rememorativa. Além disso, sua memória não é
suficiente para estabelecer uma correspondência entre os elementos recordados;
eles permanecem sujeitos à recordação aleatória do poeta que se desenrola num
movimento aparentemente sem fim. O único vínculo que o poeta consegue
estabelecer entre eles é negativo: é o exílio em face de uma situação
historicamente configurada, ou, em outras palavras, a impossibilidade de
construir uma experiência nas condições históricas da produção incessante do
novo que sustenta a modernidade.
Diante da modernização violenta, o poeta assume a tarefa de problematizar sua
inserção histórica. Ao mesmo tempo que lamenta o infortúnio daqueles que
considera seus irmãos, faz o registro mais agudo das forças históricas
produtoras da alienação. Sob o olhar do spleen, o progresso triunfante mostra
sua face decadente. Como um dos exilados, o poeta consegue, por um
estranhamento da percepção habitual, registrar na imobilização de um momento a
última novidade em seu estado de ruína. A ruína é concretização dessa
justaposição de antigo e moderno, identificada por Benjamin como o desejo de
Baudelaire em revelar a face antiga da modernidade. "Baudelaire quer ser lido
como um escritor da antigüidade. Essa pretensão foi satisfeita espantosamente
rápido. Pois o distante futuro, as 'époques lointaines' (...) chegaram; e
tantos decênios após sua morte quanto Baudelaire imaginaria séculos. Decerto
Paris ainda está de pé; e as grandes tendências do desenvolvimento social ainda
são as mesmas. Porém o fato de terem permanecido estáveis torna mais frágil, em
sua experiência, tudo que esteve sob o signo do 'verdadeiramente novo'. A
modernidade é o que fica menos parecido consigo mesmo; e a antigüidade que
deveria estar nela inserida apresenta, em realidade, a imagem do antiquado"
(BENJAMIN, 1991, p. 88; 1999b, p. 593).
Em função desse quadro, é possível salientar a diferença de Benjamin em relação
a interpretações mais recentes da poesia de Baudelaire, muitas das quais
reivindicam a continuidade de seu trabalho. Um caso exemplar é o de Dolf
Oehler, que em diversos livros Quadros parisienses, O velho mundo desce aos
infernos e Terrenos vulcânicos realizou um trabalho singular de crítica
materialista dos escritos de Baudelaire, ao destacar o papel da Revolução de
1848 na obra do poeta. Não é o caso de retomar sua análise em detalhes, mas
apenas de ressaltar um ponto específico com o intuito de marcar sua diferença
em relação a Benjamin. Esta estratégia permitirá desenvolver a hipótese segundo
a qual o conceito de experiência de Benjamin, desenvolvido a partir da relação
entre spleen e ideal, fornece uma conexão mais eficaz entre modernidade e
crítica social do que aquela proposta por Oehler. Espera-se assim ressaltar a
especificidade da leitura de Benjamin tanto diante daqueles que o criticam pelo
"marxismo" de sua análise (Jauss), quanto em função de leituras de cunho
explicitamente marxista, como a de Oehler.
Oehler retoma a definição de Benjamin de experiência "Onde há experiência no
sentido estrito do termo, entram em conjunção, na memória, certos conteúdos do
passado individual com outros do passado coletivo" (BENJAMIN, 1991a, p. 107;
1999b, p. 611) para explicitar o teor social da poesia de Baudelaire. Sua
tese central é a de que tal experiência poderia ser recuperada pela rememoração
coletiva dos massacres de junho de 1848. O trabalho sobre o recalque que marca
a conjunção da vida individual com o passado coletivo assinalaria a
possibilidade de produção da verdadeira experiência no presente do Segundo
Império. Com isso, ele transforma a relação proposta por Benjamin entre spleen
e ideal. Se em Benjamin o spleen se refere à dissolução da experiência nas
condições de vida do XIX e o ideal à rememoração dessa experiência perdida, em
Oehler essa dualidade entre spleen e ideal é reorganizada da seguinte forma: os
poemas spleen se dedicariam ao trabalho de crítica de uma sociedade que
recalcou um passado incômodo, sendo que a rememoração do massacre seria
condição decisiva para a possibilidade da crítica. Já o ideal, que em Benjamin
se refere, sobretudo, à rememoração de algo irremediavelmente perdido,
transforma-se em utopia, em possibilidade futura de uma reconciliação final
entre homem e natureza (OEHLER, 1997, p. 98-99 e 190-193).
Como se vê, Oehler inverte a maneira como Benjamin trabalha a dualidade
fundamental de Baudelaire, a partir da consideração de 1848 como o centro dessa
poesia. Mas isso ao preço de uma extensão da importância de 1848 para todos os
âmbitos das transformações ocorridas em Paris, bem como pela diminuição da
importância de outros aspectos que se envolveriam em tais circunstâncias
históricas. Não há como negar que 1848 tenha um papel decisivo também para a
leitura de Benjamin. Muitas passagens de seus textos o comprovam. Apesar disso,
1848 não esgota sua análise da modernidade parisiense, e nem se constitui a
única chave para a interpretação de Baudelaire. Em Benjamin, essa data é um dos
elementos de uma abordagem que procura entender Baudelaire, e a experiência
fundamental da oposição entre spleen e ideal, no contexto mais amplo da
transformação da vida urbana e da cultura sob o impacto do desenvolvimento do
capitalismo em meados do século XIX.
Ao remeter a experiência do ideal para o futuro, Oehler enfraquece a oposição
com o spleen. Como foi dito, ele remete ao spleen tanto a crítica social ao
Segundo Império como o esforço de rememorar 1848. Caso o recalque da revolução
fracassada fosse superado, seria possível estabelecer uma experiência no
sentido estrito do termo. É à literatura que Oehler confere essa tarefa como
autorreflexão da época e reação à substituição da memória dos massacres de 1848
pela crença no progresso econômico do império de Napoleão III. Em Benjamin, a
experiência também se funda na rememoração, mas essa está situada no ideal e
não no spleen, o que traz consequências decisivas para a tarefa de rememorar o
passado. Se no ideal há a tentativa de representar traços de uma experiência
original, no spleen há o registro da impossibilidade de sucesso de tal esforço
diante das condições de vida do capitalismo do século XIX. Há uma relação de
tal forma intrínseca entre esses dois termos que cada um fornece a crítica do
outro, sendo que os dois são maneiras antitéticas de revolta contra uma mesma
temporalidade destruidora. Se, no spleen, há uma consciência aguda na percepção
do tempo como algo destruidor, algo que é revelador tanto das circunstâncias
históricas que dão forma a esse sentimento como dos paradoxos que envolvem uma
poesia que passa a se reger pela busca do novo, no ideal, há uma negação
crítica dessas condições na forma da rememoração de uma experiência que não é
mais possível numa grande cidade europeia do século XIX. Isso torna
indissolúvel o vínculo entre a rememoração da experiência do ideal e as
condições históricas do spleen. A inseparabilidade entre ambos significa não só
que é o empobrecimento da experiência sob determinadas condições históricas que
gera a busca por uma experiência plena e irrealizável, mas também que é somente
no momento de crise de tal experiência que seus traços fundamentais tornam-se
perceptíveis.
Por fim, o fundamento da crítica que Baudelaire dirige à modernidade deve ser
investigado na própria relação estabelecida por Benjamin entre o spleen e os
termos constitutivos da experiência, ou seja, memória e distanciamento. No
spleen, a memória individual não possui uma contrapartida na experiência
coletiva, e o tempo dissolve o presente na sua capacidade de refletir sobre a
distância que o separa do passado, inviabilizando a construção de uma
experiência a partir da contraposição entre passado e presente. Mas, num
contexto de busca incessante do novo, no qual toda a atenção está voltada ao
instante seguinte, a contraposição entre passado e presente assume uma outra
função. Essa função é aquela assumida pelo spleen em "O cisne". O olhar
alegórico do poeta não atualiza o passado na realização de uma experiência no
presente, mas se vale da memória do passado para imobilizar a temporalidade que
consome o presente.
O resultado desse trabalho é a apreensão da cidade na imagem de uma ruína, que
explicita a força de destruição responsável por transformar cada vez mais
rapidamente o presente em passado. A imobilização do tempo em uma imagem
alegórica historiciza a aparência de eternidade que a crença no progresso
confere à cidade. O spleen possibilita ao poeta a reflexão sobre a dissolução
histórica do distanciamento entre passado e presente e do enfraquecimento da
memória no sentido da rememoração. Sob esse viés, o spleenreconhece a
impossibilidade da experiência por meio do empobrecimento da memória e do
distanciamento. Isso não significa, portanto, o abandono das questões
concernentes a esses dois termos, mas a sua problematização sob o viés de uma
realidade histórica marcada pela crise da experiência. A tensão com essas duas
condições da experiência torna-se responsável pela consciência histórica do
spleen. O que pauta o passeio pela cidade em "O cisne", e que transparece na
consciência aguda do curso do tempo, é a reflexão sobre a historicidade da
experiência e de sua impossibilidade no momento histórico de constituição da
modernidade. A imagem da modernidade que se expõe no spleen é, assim, tanto a
do declínio da experiência quanto a da profunda consciência histórica desse
momento de crise.
Benjamin chamou a atenção para o fato de que, no spleen, Baudelaire ainda
dispõe de estilhaços da verdadeira experiência histórica (BENJAMIN, 1991a, p.
137; 1999b, p. 643). É a consciência histórica do declínio da experiência que
lhe garante apanhar esses fragmentos. Na experiência, o sujeito que atualiza no
presente o passado reflete antes de tudo sobre sua própria situação histórica;
o passado com o qual ele se comunica na rememoração lhe vem à presença trazendo
as marcas da distância que os afasta. Essas marcas indicama importância do
passado para a constituição do presente que o recorda. É do significado do
passado para o presente que se origina a reflexão histórica do sujeito da
experiência. O distanciamento é, portanto, o que possibilita a consciência
histórica na experiência. Como reflexão sobre o próprio presente, o
distanciamento é algo que se interpõe também entre o sujeito e seu presente.
Isso ocorre uma vez que o presente não é apreendido em uma imediatez entre o
sujeito e a experiência coletiva. A relação com o presente é mediada pela
reflexão do sujeito sobre o seu próprio passado, pela relação desse passado com
um passado coletivo, e pela possibilidade de atualização da relação entre
passado individual e passado coletivo no presente. Em outros termos, a relação
do indivíduo com seu tempo presente é mediada pela tradição. Nenhum outro termo
define melhor a compreensão de Benjamin de uma experiência coletiva. Como algo
que se atualiza no presente, a tradição não é um monumento ao qual o presente
presta reverência, mas a transmissão de uma experiência entre passado e
presente. Na modernidade, o contato com a tradição está atrofiado. Mas, se a
reflexão sobre o próprio presente não é capaz de atualizar a tradição, ela
ainda é possível como consciência histórica dessa impossibilidade. E aqui se
mantém um aspecto da noção forte de distanciamento que caracteriza a
experiência. Como reflexão sobre a sua inserção histórica no contexto da
modernidade parisiense e sobre a impossibilidade da realização da experiência
nessas circunstâncias, o poeta de "O cisne" retém os estilhaços da verdadeira
experiência histórica a que se refere Benjamin. No spleen, o distanciamento se
traduz na perspectiva crítica que o poeta mantém frente ao declínio da
experiência.