Omissões
Introdução
Ações e omissões parecem ser dois lados de uma mesma moeda, de tal forma que
quase tudo que se aplica a uma ação deve poder se aplicar igualmente à omissão
correspondente; além disso, o fato de que algumas coisas se aplicam somente às
omissões e não às ações deve poder ser inteiramente explicado pelo caráter
negativo das omissões (assim como tudo o que se atribui somente às proposições
negativas, e não às afirmativas correspondentes, deve poder ser inteiramente
explicado pela natureza da negação, uma vez que, colocando à parte essa
característica, ambas são proposições no mesmo sentido e, portanto,
compartilham as mesmas propriedades). Deixando de lado por ora a caracterização
detalhada do que seria a omissão "correspondente" a uma certa ação, e aceitando
que um critério para explicar essa "correspondência" seria afirmar que uma
omissão corresponde a uma ação se ambas produzem os mesmos resultados,1 devemos
constatar que algumas vezes podemos duvidar da possibilidade de manter a
simetria entre as atribuições de propriedades a ações e a omissões. Pensemos em
uma propriedade que a princípio parece poder ser atribuída indiferentemente
tanto às ações quanto às omissões intencionais, a saber: a liberdade, entendida
como a capacidade de um agente de se comportar diferentemente do modo como de
fato se comportou. Apesar de tal capacidade poder ser comum a ações e a
omissões, também parece ser possível pensar que um agente poderia não a
possuir, no caso das suas ações, sem perder seu estatuto de autor daquelas
ações e, portanto, sem perder a responsabilidade moral que tem sobre elas,
embora, no caso das omissões, a capacidade de se comportar diferentemente,
expressa em contrafactuais relativos ao que não foi feito, pareça ser essencial
para preservar a autoria e, portanto, a responsabilidade moral das pessoas.2
Parece estranho, porém, que haja uma tal assimetria entre ações e omissões ' o
ideal seria encontrar uma teoria que explicasse ambas de maneira uniforme, ou
pelo menos, caso isso não fosse possível, que explicasse por que ocorre essa
assimetria, usando em sua explicação apenas o caráter negativo das omissões.
Tentarei mostrar que a única diferença entre ações e omissões consiste no modo
como a natureza negativa das omissões interfere na caracterização das mesmas
propriedades básicas que são atribuídas às ações positivas. Por convenção,
chamo aqui de "propriedades básicas" aquelas que caracterizam a natureza
essencial de ações e omissões entendidas como estados de coisas,
respectivamente, positivos e negativos correspondentes. É claro que, se houver
alguma diferença entre ações e omissões, algumas propriedades não básicas que
se aplicam a ações não se aplicarão às omissões, e/ou vice-versa. Quanto às
propriedades básicas, porém, veremos que todas elas são compartilhadas
igualmente por ações e omissões e, particularmente no que diz respeito a uma
dessas propriedades básicas, a causalidade, que tanto as ações quanto as
omissões devem ser explicadas em termos de uma influência causal do agente
sobre um certo estado de coisas, embora a causalidade das omissões tenha
algumas peculiaridades frente à causalidade envolvida nas ações.
1. Argumentos a favor da existência de uma assimetria entre ações e omissões
Comecemos por examinar os argumentos a favor da tese de que há uma assimetria
e, portanto, uma diferença radical de natureza entre ações e omissões. Há três
propriedades principais que pertencem essencialmente, à primeira vista, tanto a
ações quanto a omissões, a saber: a intencionalidade, a liberdade e a
causalidade.3 Os que defendem a tese de que há uma diferença radical de
natureza entre ações e omissões deveriam, pois, ser capazes de assinalar essa
diferença em pelo menos uma dessas propriedades. A primeira propriedade, a
intencionalidade, pode ser caracterizada, de um modo bem geral, como o
conhecimento, por parte do sujeito, daquilo que ele está (ou não está) fazendo.
Nesse sentido técnico, o termo "intencionalidade" deve ser distinguido do
sentido usual que a palavra "intenção" e seus derivados têm na linguagem comum:
no último caso, o termo designa o propósito das ações, enquanto, no primeiro, o
que é significado é o fato de que o pensamento sempre visa a um objeto (é claro
que os dois sentidos têm uma relação: toda ação intencional na primeira acepção
do termo é também intencional na segunda acepção do termo).4 Ora, tanto as
ações quanto as omissões são, no mesmo sentido (a saber, na primeira acepção do
termo), intencionais, e essa propriedade não pode ser o que indica uma
diferença de sua natureza (ainda assim, voltarei, ao final do artigo, a
mencionar um ponto relativo à intencionalidade, tomada na sua segunda acepção,
aplicado especialmente às omissões, sem, no entanto, introduzir nenhuma
assimetria essencial entre ações e omissões). Já mencionei a segunda
propriedade, a liberdade, ao chamar a atenção para a capacidade de a pessoa se
comportar de modo diferente do que de fato se comportou. Não creio, porém, que
a liberdade deva ser atribuída de modo assimétrico às ações e às omissões.5
Resta a causalidade como possível fonte de diferença entre ações e omissões.
Nesse caso, parece haver argumentos mais promissores envolvidos na consideração
do papel causal diferenciado dos sujeitos na produção de conseqüências a partir
de ações e de omissões e, portanto, na justificação de uma eventual diferença
radical de natureza entre as ações e as omissões.
Um desses argumentos a favor da diferença radical entre omissões e ações seria
o de que, enquanto as ações podem ser descritas como a realização de relações
causais genuínas entre um agente e o resultado de suas ações, as omissões
relacionam-se com seus resultados de maneira ao mesmo tempo intencional e não
causal. Um exemplo de defensor dessa tese seria Chappell;6 segundo ele, quando
uma pessoa se omite, podemos dizer que ela permitiu que algo ocorresse por não
causar um certo estado de coisas. A pessoa visava ao estado de coisas
resultante como desejável, e, portanto, sua omissão seria intencional. Por
outro lado, não haveria causalidade: o que haveria seria a mera possibilidade
de causalidade genuína.7 Poderíamos dizer, assim, que um estado de coisas
negativo ~A engendrou de forma não causal um estado de coisas positivo B se e
somente se havia algo positivo C tal que ~A é o caso, C causou B e, se A
tivesse ocorrido, então A teria evitado B devido a sua interação com C.8 Eis um
exemplo: uma pessoa percebe que alguém está se afogando e, apesar de saber
nadar, apenas observa o afogamento; nesse caso, um estado de coisas negativo
(não nadar até o afogado) engendrou de forma não causal um estado de coisas
positivo (a morte daquela pessoa) por não ter impedido que algo positivo (o
afogamento) causasse a morte.9
A diferença no modo como são produzidos os resultados das ações e das omissões
estaria ligada a uma diferença igualmente significativa no estatuto ontológico
das próprias conseqüências ou resultados das ações e das omissões. Chappell
afirma que não devemos presumir sem mais que um enunciado causal verdadeiro
corresponda a cada contrafactual verdadeiro. Segundo ele, não há
necessariamente tal correspondência porque as conseqüências das omissões são
(ou podem ser) abstratas e vagas, enquanto as conseqüências das ações são (ou
devem ser) concretas e particulares. Essa característica, por sua vez, estaria
ligada ao fato de que as omissões não deveriam ser caracterizadas como um tipo
especial de causalidade, mas justamente como a ausência de influências
causais.10 Entre outras marcas que distinguiriam o comportamento lógico das
ações do das omissões, Chappell assinala especialmente uma propriedade que os
resultados das ações têm e os das omissões não teriam, a saber: seu caráter
aditivo.11 No caso das ações, se X causa A e se X causa B, X causa (A e B). No
caso das omissões, se X se omite e permite que A ocorra e se X se omite e
permite que B ocorra, não se seguiria daí que X se omite e permite que (A e B)
ocorram; nesse último caso, a aditividade não ocorreria justamente porque não
se seguiria, do fato de X se omitir de causar algo, que o estado de coisas
visado por tal omissão será causado e exista, já que é preciso que outra causa
(no trecho acima, C) cause o estado de coisas A e/ou o estado de coisas B
(enquanto, ao contrário, se segue, do fato de X produzir A, que A ocorra e, do
fato de X produzir B, que B ocorra e, portanto, que (A e B) ocorram). Uma outra
propriedade das conseqüências das omissões, segundo Chappell, é que elas podem
ser (embora isso não seja necessário) "estados de coisas disjuntivos", enquanto
as conseqüências das ações não poderiam ser (necessariamente não seriam)
"estados de coisas disjuntivos".12 Isso fica mais claro com um exemplo:13 dados
dois estados de coisas E1 e E2, se E1 = <exatamente R$200,00 foram desviados de
minha conta bancária> e se E2 = <exatamente R$1.000,00 foram desviados de minha
conta bancária>, e se um funcionário do banco, por sua omissão, tiver permitido
que algum dinheiro tenha sido desviado de minha conta bancária, seu descuido
pode ser caracterizado como sendo tal que ele permitiu E1 e E2; entretanto, não
se segue daí que ele tenha podido causar que <exatamente R$200,00 tenham sido
desviados de minha conta bancária e exatamente R$1.000,00 tenham sido desviados
de minha conta bancária>, pois esse é um estado de coisas impossível. Como a
causalidade genuína envolve aditividade, seguir-se-ia daí que as omissões não
são exemplos de causalidade genuína, mas exprimiriam contrafactualmente
possibilidades de causalidade genuína. Além disso, no exemplo acima, o que o
funcionário do banco permitiu que acontecesse por sua omissão não foi um evento
concreto e particular <que R$200,00 fossem desviados de minha conta bancária ou
que R$1.000,00 fossem desviados de minha conta bancária>, mas antes que alguma
quantidade qualquer de dinheiro fosse desviada de minha conta bancária; mas
"alguma quantidade" não é nenhuma quantidade específica; daí se seguiria que o
resultado das omissões é (ou pode ser) abstrato e vago, enquanto o resultado
das ações é (ou deve ser) concreto e particular (quando o ladrão desviou
dinheiro de minha conta bancária, ele desviou exatamente R$200,00 ou R$1.000,00
etc.).14
2. Argumentos a favor da existência de uma simetria entre ações e omissões
Contra essa tese, pretendo mostrar que as omissões e as ações são igualmente
caracterizadas como o estabelecimento de relações causais genuínas entre certos
comportamentos e suas conseqüências e que os resultados das ações e das
omissões têm o mesmo estatuto ontológico. Minha estratégia aqui será dupla. 1)
Em primeiro lugar, mostrarei que, em certo sentido, nem toda causalidade
envolve aditividade e que, portanto, podemos afirmar que as omissões
relacionam-se causalmente com suas conseqüências, embora a aditividade possa
não ocorrer. 2) Em segundo lugar, mostrarei que as omissões, em outro sentido,
de fato envolvem aditividade e que, portanto, não é preciso separar os
conceitos de causalidade e aditividade para afirmar que as omissões se
relacionam causalmente com suas conseqüências. Ou seja, nessa segunda
estratégia, mostrarei que, mesmo que aceitemos a premissa de Chappell, segundo
a qual a causalidade envolve a aditividade, será possível refutar sua tese
central. 1 e 2 parecem contraditórias, mas veremos, na verdade, que elas são
duas maneiras de exprimir a mesma idéia básica acerca de um aspecto importante
da causalidade.
Examinemos um exemplo,15 que nos ajudará a expor as duas refutações à tese de
que omissões são assimétricas com relação a ações no que se refere à
causalidade. João pode causar por uma ação o estado de coisas descrito pela
expressão "seu pai estar morto" da seguinte forma: ele entra sorrateiramente na
casa de seu pai, que se banha em sua banheira, e o empurra com força para baixo
d'água, até que ele se afogue. Um mês depois, ele age da mesma forma com
relação a sua mãe. Alternativamente, João pode causar por uma omissão
correspondente16 o estado de coisas descrito pela expressão "seu pai estar
morto" da seguinte forma: ele observa seu pai, que se banha em sua banheira;
João nota que seu pai desmaiou e deslizou lentamente para baixo d'água; João vê
calmamente o que ocorre sem nada fazer, até que seu pai se afogue. Um mês
depois, ele se omite da mesma forma com relação a sua mãe.
2.1 Falha na aditividade
Mostrarei, em primeiro lugar, que nem toda causalidade envolve aditividade. É
certo que há uma diferença importante separando ações e omissões em relação a
suas respectivas conseqüências: enquanto a existência das conseqüências das
ações é tal que ela pode ser inferida apenas a partir da descrição da atividade
realizada pelo agente (assim, o fato de a mãe de João morrer segue-se
diretamente da ação de João de matar sua mãe), a existência das conseqüências
das omissões não é diretamente inferida a partir apenas da descrição da
atividade não realizada pelo agente (assim, o fato de a mãe de João morrer não
se segue diretamente da ação de João de não socorrer sua mãe). No caso das
omissões, o comportamento da pessoa que se omite é apenas uma condição para que
a conseqüência visada ocorra. Nesse sentido, há uma independência lógica entre
a omissão e a existência de sua conseqüência, de tal modo que X pode se omitir
de fazer A sem que a conseqüência dessa omissão seja existente, embora, no caso
das ações, X não possa fazer A sem que a conseqüência dessa ação seja
existente. (É por essa mesma razão, aliás, que a atribuição de responsabilidade
pelas omissões envolve essencialmente contrafactuais.17) Em outras palavras, o
comportamento de João no caso das omissões é apenas uma causa parcial dos
efeitos que se produzem, pois um evento positivo, apropriadamente relacionado à
omissão, tem de ocorrer para que o efeito seja produzido.
Mas o fato de a omissão de João ser uma causa apenas parcial da morte de seu
pai não deve obscurecer o fato de que causalidade parcial é causalidade tout
court. Por serem causas apenas parciais de seus resultados, as omissões podem
ocorrer mesmo que seus resultados visados não ocorram, sem que seja necessário,
devido a esse fracasso, redescrever as omissões envolvidas, justamente porque a
não-ocorrência dos resultados pode ser devida às outras causas parciais
envolvidas em sua produção (assim, João, quer consiga ou não causar a morte de
sua mãe por omissão, pode, em ambos os casos, descrever seu comportamento como
"não salvar sua mãe do afogamento"). Já no caso das ações, justamente porque
elas são causas totais de seus efeitos,18 a não ocorrência desses últimos gera
a necessidade de redescrever a ação visada em termos dos resultados
efetivamente alcançados (assim, o comportamento de João deve ser descrito como
"matar sua mãe" ou "tentar matar sua mãe", de acordo com a existência ou a não-
existência da conseqüência visada, a saber, a morte de sua mãe). Mesmo levando
em conta essa diferença, devemos admitir que, no caso de os resultados visados
pelas omissões serem existentes, segue-se daí que eles só puderam existir
porque o estado de coisas negativo que corresponde à omissão é o caso. Não há
por que evitar o vocabulário causal para explicar a relação entre estados de
coisas negativos e certos fatos. Haveria uma razão para tal recusa se toda
causalidade genuína tivesse de envolver aditividade. Mas isso não é verdade:
dada uma causa parcial de um certo fato, essa causa parcial contribui
causalmente para a ocorrência desse fato sem garantir, isoladamente, a
aditividade. Só há aditividade quando os efeitos são considerados como
existentes. Mesmo quando as causas parciais em questão não envolverem estados
de coisas negativos, mas apenas fatos positivos, devemos afirmar que nenhuma
delas isoladamente envolve aditividade, o que mostra que a ausência de
aditividade não se deve a uma peculiaridade das omissões, mas apenas ao fato de
as omissões serem causas parciais de seus efeitos.
Na verdade, como vimos anteriormente, a simetria entre ações e omissões só se
rompe em um único ponto, devido à independência lógica das omissões em relação
a suas conseqüências existentes, pois, enquanto o fracasso no caso das ações
gera necessariamente uma redescrição, por parte do agente, da ação que ele
visava fazer em comparação com a ação efetivamente realizada, no caso das
omissões seu fracasso não gera necessariamente tal redescrição. Mas essa
diferença pontual é explicada apenas pelo caráter negativo das omissões, na
medida em que é esse último que explica por que toda omissão é tal que ela é
necessariamente causa parcial dos efeitos que produz, enquanto as ações podem
ser causas parciais ou totais de seus efeitos (e, enquanto causas parciais,
também as ações demandam redescrições em caso de fracasso na geração da
conseqüência visada). Como nem toda causalidade envolve aditividade, podemos
manter que as omissões estabelecem relações causais com suas conseqüências.
2.2 Ocorrência de aditividade
Mas a simetria entre ações e omissões pode ser provada de modo ainda mais forte
se, aceitando a tese de que causalidade pressupõe aditividade, mostrarmos que
as omissões, sendo conectadas a suas conseqüências por relações causais,
envolvem aditividade, tanto quanto as ações correspondentes. O raciocínio geral
aqui é o seguinte: se A e B são causas parciais de C, A só é propriamente uma
causa (i.e., só exerce efetivamente seu papel causal) quando, em conjunção com
B, produz C; enquanto C não é produzido, A é apenas potencialmente uma causa.19
Ou seja, a aditividade vale sempre que uma causa total (seja ela simples ou
composta de causas parciais) produz efetivamente seu efeito. Isso ocorre tanto
no caso das ações, que não envolvem necessariamente causalidade parcial, quanto
no caso das omissões, que são essencialmente causas parciais de seus efeitos.
Logo, ações e omissões são estritamente simétricas no que diz respeito à
aditividade, pois essa última ocorre sempre que as conseqüências de ambas forem
existentes, isto é, sempre que uma causalidade total operar, de tal modo que
cada causa parcial seja efetivamente uma causa de algo.
Para mostrar isso mais detalhadamente, devemos distinguir, no que diz respeito
à caracterização de ações e de omissões, entre o que as pessoas visam ao
realizá-las e as conseqüências reais que derivam delas. Só a existência efetiva
das conseqüências permitirá caracterizar omissões como causas parciais.
Como vimos, há aparentemente uma assimetria entre ações e omissões, tal como
propõe Chappell: se João mata seu pai e se João mata sua mãe, segue-se daí que
João causou a morte de seu pai e de sua mãe; por outro lado, se João se omite
de socorrer seu pai e se João se omite de socorrer sua mãe, não se seguiria
necessariamente daí que João tenha causado a morte de seu pai e de sua mãe (a
mãe de João pode ter recobrado a consciência pouco antes de se afogar,
permanecendo viva). Como a omissão envolve cadeias causais externas àquelas que
estão sob o controle de João, se tais cadeias causais não operarem, o estado de
coisas visado não ocorre, e, portanto, a aditividade falha. Por que então,
apesar dessa diferença entre ações e omissões, podemos manter que a aditividade
não falha no caso das omissões?
Para responder a essa questão, notemos, em primeiro lugar, que a aditividade
não decorre apenas de uma opção descritiva mais ou menos arbitrária: apesar de,
na caracterização de ações e omissões, sempre haver espaço para descrições
alternativas comportando certo grau de arbitrariedade, há um nível em que a
descrição das ações e das omissões faz parte de sua individuação, i.e., de sua
natureza. Isso é verdade pelo menos no que diz respeito a ações e a omissões
intencionais, uma vez que a natureza mesma dessas últimas é tal que sua
identificação, pela pessoa que a produz, como sendo uma ação ou uma omissão de
um certo tipo é essencial para que ela seja de fato uma ação ou omissão
pertencente àquele tipo. E isso é verdade mesmo quando a ação ou a omissão que
são o resultado de deliberações ' por exemplo, a ação de João de empurrar sua
mãe para baixo d'água ' não se realiza por alguma razão ' por exemplo, porque o
irmão de João chega inesperadamente à cena do crime e impede que ele seja
consumado. Antes e durante o tempo em que realizou a ação de empurrar sua mãe
para baixo d'água, João pode se referir mentalmente ao que ele está fazendo
como sendo a ação de "matar sua mãe", mas a rigor essa descrição só seria
correta se o crime tivesse sido consumado. Como João não pode prever o futuro,
ele não pode estar certo do modo como sua ação deve ser caracterizada a partir
de suas conseqüências, a não ser depois do momento em que tais conseqüências
visadas foram (ou não) produzidas. Caso a intenção original fracassasse, o mais
correto seria dizer que João estava "empurrando sua mãe para baixo d'água" ou
"tentando matar sua mãe". Se João tivesse afogado seu pai e sua mãe, diríamos
que ele é moralmente responsável tanto por suas ações quanto pelas
conseqüências de suas ações (por matar seu pai e sua mãe e pela morte de seu
pai e de sua mãe); porém, se ele tivesse afogado seu pai, mas não tivesse
conseguido fazer o mesmo com sua mãe, apesar de ter tentado fazê-lo, diríamos,
relativamente a sua mãe, que ele é moralmente responsável apenas pela tentativa
de agir de certo modo (pela tentativa de afogá-la).20
De um modo geral, um comportamento só pode ser caracterizado como uma ação ou
como uma omissão relativamente a uma dada conseqüência A se a ação de fazer A e
a omissão que permite que A ocorra são tais que A é existente. Se João causou
por omissão a morte de seu pai e se João causou por omissão a morte de sua mãe,
então se segue daí (por aditividade da causalidade) que João causou por omissão
a morte de seu pai e de sua mãe. Para todas as ações identificadas a partir de
suas conseqüências, segue-se, trivialmente, que suas conseqüências são
existentes (se X fez A, então A existe) ', mas o mesmo princípio vale, também
trivialmente, para a individuação das omissões a partir de suas conseqüências.
Caso as conseqüências não fossem existentes, não seria possível individuar as
ações e as omissões a partir delas, e nem afirmar que as causas potenciais que
são as omissões são efetivamente causas de algo. No caso em que João causou por
omissão a morte de seu pai e a morte de sua mãe, ele é moralmente responsável
tanto pelas suas omissões quanto por suas conseqüências, enquanto, no caso em
que ele causou por omissão a morte de seu pai, mas não a morte de sua mãe,
apesar de ter tentado, diríamos, relativamente a sua mãe, que ele é moralmente
responsável apenas pela abstenção de agir de certo modo (pela abstenção da ação
de tentar salvá-la). Se a ação correspondente a uma dada omissão é aquela na
qual as conseqüências de ambas são as mesmas, então a ação correspondente à
omissão envolvida na tentativa de João causar, sem o conseguir, o estado de
coisas descrito pela expressão "sua mãe estar morta" ao se abster de tentar
salvá-la é a tentativa fracassada de João causar por uma ação positiva o estado
de coisas descrito pela expressão "sua mãe estar morta" ' mas, sendo assim, a
aditividade falha nos dois casos, simplesmente porque a conseqüência visada
(que é a mesma nos dois casos) não ocorreu. E a simetria entre os dois casos é
perfeita, justamente porque tanto nas ações quanto nas omissões há causalidade
genuína.21
O mesmo ponto pode ser expresso em termos de acesso cognitivo a mundos
possíveis. Vimos que a omissão, entendida como causa parcial, depende que um
evento positivo complementar cause efetivamente um estado de coisas. No exemplo
do bancário, ele não sabia quais outras causas atuariam, de tal forma que ou
E1: <exatamente R$200,00 tenham sido desviados de minha conta bancária> ou E2:
<exatamente R$1.000,00 tenham sido desviados de minha conta bancária>. Ao se
omitir, ele permitiu que E1 ou E2 ocorresse. Do ponto de vista de um observador
onisciente, porém, já seria conhecido, no momento da omissão do bancário, qual
dos dois ocorreria no mundo atual, de tal modo que tal observador poderia
afirmar, no momento da omissão, que o bancário se omitiu ao permitir que o
evento E1 ocorresse (supondo que E1, e não E2, seja o caso). Chappell argumenta
que sua tese não depende da restrição expressa pela palavra "exatamente" na
expressão "exatamente <...> tenham sido desviados de minha conta bancária", uma
vez que, segundo ele, em qualquer nó de escolha há "infinitamente muitas
alternativas que eu posso omitir tomar... A aditividade falha para omissões
sempre".22 Esse argumento, porém, não é convincente: há igualmente infinitas
ações que geram resultados incompatíveis entre si e que estão abertas como
possibilidades para mim em qualquer nó de escolha, mas as que estão
efetivamente abertas para que eu possa gerar conseqüências aditivas são apenas
aquelas que não geram resultados incompatíveis. Da mesma forma, as causas que
atuam efetivamente no caso das omissões geram conseqüências aditivas quando não
houver incompatibilidade entre elas. Ou seja, a ausência de aditividade,
presente nos exemplos de Chappell, deriva não de uma peculiaridade das omissões
frente às ações (a suposta ausência de causalidade genuína das primeiras), mas
apenas da natureza das conseqüências presentes nos exemplos escolhidos (que são
conseqüências incompatíveis entre si). Da mesma maneira, poderia pensar em duas
ações A e B, tais que A = "colocar meu copo à minha esquerda" e B = "colocar
meu copo à minha direita", e tal que eu não posso causar A e B simultaneamente,
não porque haja "falha" na aditividade, mas simplesmente porque A e B são
incompatíveis. Além disso, devemos ter em mente que as omissões e as ações
pelas quais somos moralmente responsáveis são as omissões e ações intencionais;
no caso das omissões, isso significa que eu sei (ou ao menos creio saber) quais
são as causas que atuarão para produzir as conseqüências que viso caso eu me
omita. Para essa classe de omissões (e não para o caso vago em que muitas
coisas se seguem de forma não intencional do fato de que não fiz certas
ações23), a aditividade vale (e, caso ela não valha, isso se deve apenas ao
fato de que eu apenas acreditava erradamente conhecer as causas atuantes no
pano de fundo, sem que eu as conhecesse verdadeiramente). Em suma, se eu me
omito de fazer A para que B ocorra, e se B não ocorreu neste mundo (porque as
cadeias causais externas a mim neste mundo não produziram B), então se segue
que não me omiti realmente de fazer que B ocorra, mas apenas que me omiti de
tentar fazer que B ocorra ' ou, caso B tenha ocorrido independentemente de
minha omissão (por exemplo, no caso em que B ocorreria quer eu me omitisse ou
não), segue-se daí, no máximo, que eu acredito erradamente ter me omitido de
fazer que B fosse o caso;24 mas, se o determinismo for verdadeiro, e se B
ocorrer necessariamente, de forma independente do que eu (não) fizer, por mais
que tal situação coloque alguns problemas para a atribuição de responsabilidade
moral, ela não afeta em nada a aditivididade da causalidade ' ao contrário, se
A ocorre necessariamente e se B ocorre necessariamente, então ipso facto A e B
ocorrem. A identificação das omissões é sensível a descrições alternativas do
que (não) é o caso (ainda que a diferença não seja meramente descritiva, mas
seja uma distinção in re). Dito de outra forma: as conseqüências das omissões
são abstratas e vagas apenas a partir de uma perspectiva epistêmica, e não de
uma perspectiva ontológica.
As estratégias expostas nos itens 2.1 e 2.2 procuraram elucidar o sentido em
que uma causa parcial envolve e o sentido em que uma causa parcial não envolve
a aditividade; esses dois sentidos estão relacionados a duas condições
distintas para identificar um certo estado de coisas como sendo uma causa. Os
dois sentidos não são contraditórios, mas apenas chamam a atenção para a
diferença entre considerar algo como uma causa potencial ou atual. Concluo,
portanto, que Chappell está errado ao negar que haja causalidade estrita no
caso das omissões, tanto quanto há no caso das ações. Ainda assim, posso manter
que há uma diferença no modo como a causalidade opera nas ações e nas omissões.
Vejamos qual é essa diferença.
3. A distinção entre ações e omissões no que diz respeito ao exercício da
causalidade
Apesar de negar que haja uma diferença na atribuição da propriedade da
causalidade no caso das ações e no das omissões, é preciso admitir que a
natureza negativa dessas últimas, que faz com que elas sejam necessariamente
causas parciais de seus efeitos, gera uma diferença no modo como a causalidade
opera nos dois casos. Para ter clara essa diferença, é preciso formular um
modelo geral da causalidade por omissão. Mais acima, referi-me livremente tanto
às ações e omissões quanto a suas conseqüências, ora como se fossem estados de
coisas, ora como se fossem eventos. Cabe agora refinar esse vocabulário, e
precisar mais cuidadosamente o estatuto ontológico de cada um desses itens.
3.1 Um modelo causal comum para ações e omissões: estados de coisas positivos e
negativos
Usarei para isso o modelo proposto por Thomson. Creio que ela está certa ao
defender a tese de que há causalidade legítima no caso das omissões. Não
reproduzirei aqui seus argumentos a favor dessa tese, pois não teria nada de
novo a acrescentar a eles, e apenas remeto o leitor a seu texto para maiores
esclarecimentos.25 Limito-me aqui a apresentar de forma resumida suas
conclusões principais, e depois a examinar alguns de seus pontos mais
problemáticos, procurando solucioná-los.
Para Thomson, é preciso distinguir o papel causal exercido por eventos e o
exercido por estados de coisas. Proponho aqui definições mínimas desses dois
termos (aceitando que eles designam tipos diferentes de entidade26): por
"estados de coisas", entendo situações possíveis e atuais, representadas por
nominalizações de proposições declarativas, e por "eventos" entendo um
particular concreto, a saber: a modificação das propriedades de uma coisa. Toda
causalidade, segundo Thomson, ocorre por intermédio de eventos. Ora, uma ação
envolve ao mesmo tempo um evento (por exemplo, o movimento corporal de João ao
empurrar seu pai para baixo d'água) e um estado de coisas positivo (o fato de
João estar empurrando seu pai para baixo d'água).27 Já uma omissão é um estado
de coisas negativo, mas não há eventos negativos (embora isso não implique que
não haja propriedades negativas). Certamente, há estados de coisas negativos: o
fato de João não socorrer seu pai é um estado de coisas negativo perfeitamente
compreensível. Mas afirmamos acima que há causalidade nas omissões, que toda
causalidade é mediada por eventos, e que não há eventos negativos. Como, então,
podemos defender a tese de que, nos casos de omissão, há causalidade genuína?
Thomson propõe que adotemos a seguinte convenção: supondo que a relação causal
entre eventos é a forma mais fundamental de causalidade e que todas as outras
formas (por exemplo, quando um estado de coisas causa um outro estado de
coisas) são derivadas, grafemos como CAUSA essa forma mais fundamental. Dessa
maneira, podemos definir a causalidade própria da omissão assim:
Se nem x nem y são eventos, então, para x causar y, é preciso que
algum evento apropriadamente relacionado com x CAUSE algum evento
apropriadamente relacionado com y.
Dada essa definição, podemos tomar x e y como estados de coisas (positivos ou
negativos), e estabelecer relações causais indiretas entre eles. No caso da
ação, como ela envolve um evento e um estado de coisas positivos, sua forma
poderia ser descrita mais simplesmente da seguinte maneira (eliminando o estado
de coisas positivo que desempenha o papel causal):
Se x é um evento e y não é um evento, então, para x causar y, é
preciso que x CAUSE algum evento apropriadamente relacionado com y.
Como exemplo de um evento "apropriadamente relacionado" com o estado de coisas
y (quando y é um estado de coisas positivo), temos o evento que poderia ser
descrito como: "o começar de y ser o caso" ' por exemplo, para o estado de
coisas que consiste em Pedro estar em processo de dançar, um evento
"apropriadamente relacionado" a ele, e que poderia estar relacionado a um
evento anterior pela relação de causa e efeito, seria Pedro começar a dançar
(cuja CAUSA poderia ser, por exemplo, o evento que consiste no pedido de Maria
para Pedro dançar com ela). O próprio evento x deve estar "apropriadamente
relacionado" ao estado de coisas positivo que é a causa de y (por exemplo, o
fato de Maria pedir para Pedro dançar com ela).28
Como descrever a causalidade quando um dos estados de coisas envolvidos for
negativo, como é o caso das omissões, nas quais não há um evento envolvido
diretamente em sua descrição? Pelo que foi dito anteriormente, sua forma seria
a seguinte:
Se x não é um evento e y é um evento, então, para x causar y é
preciso que um evento apropriadamente relacionado com x CAUSE y.
y, por sua vez, pode estar "apropriadamente relacionado" a um estado de coisas
(suponhamos, por comodidade, que se trata de um estado de coisas positivo). Se
x é um estado de coisas negativo, x causa y se um evento z, apropriadamente
relacionado a x, CAUSA y, e y está apropriadamente relacionado a um certo
estado de coisas, por exemplo, pela mesma relação que o evento de Pedro começar
a dançar está relacionado com o estado de coisas que consiste em Pedro estar em
processo de dançar, ou seja, pelo fato de tal evento ser o começo da
instanciação desse estado de coisas. Mas como x está relacionado a z? A idéia
aqui é a de que, se o estado de coisas negativo x não fosse o caso, o estado de
coisas positivo do qual x é a negação estaria "apropriadamente relacionado" a
um evento w que não permitiria que z CAUSASSE y.29 Como não nos interessam aqui
os estados de coisas negativos em geral, mas sobretudo a subclasse dos estados
de coisas negativos intencionais (i.e., as omissões intencionais), podemos
dizer que z pode ser tanto uma ação do sujeito quanto um evento (intencional ou
não) que ele prevê que ocorrerá; se z for um evento não intencional (por
exemplo, um fenômeno natural), ainda assim está garantida a intencionalidade da
omissão, na medida em que o sujeito antecipou a ocorrência de z. Da mesma
forma, é preciso que w seja um evento que é ou bem uma ação intencional desse
sujeito ou bem um evento natural previsto por esse mesmo sujeito.
3.2 Objeções ao modelo proposto: fatos negativos, mundos possíveis, estados de
coisas permanentes e estados de coisas temporários
Como vimos, as omissões são causas parciais de seus efeitos. Dada a relação
proposta entre estados de coisas e eventos, podemos dizer que, no caso das
omissões, entendidas como estados de coisas negativos, a causa30 complementar
que garante a suficiência da causalidade são os eventos "apropriadamente
relacionados" a esses estados de coisas negativos. Nesse caso, a expressão
"estar apropriadamente relacionado a" indica que o estado de coisas em questão
é uma condição que permite que determinado evento ocorra (sem que ela tenha de
ser uma condição nem necessária nem suficiente das conseqüências desses
eventos). Mas esse modelo não é isento de problemas, ligados à caracterização
adequada do tipo de ente designado pela expressão "estados de coisas
negativos". Vejamos se, usando apenas os elementos constitutivos desse modelo,
é possível oferecer respostas a algumas objeções que poderiam ser feitas contra
ele.
Mostrarei, primeiramente, que a relação, proposta pelo modelo de Thomson, entre
estados de coisas (positivos ou negativos) e eventos nos permite evitar o
compromisso problemático com a existência de fatos negativos. (Entendamos aqui
por "fato" o arranjo de coisas existentes que torna verdadeira a proposição que
descreve um certo estado de coisas.31) Aparentemente, ao propor que existe uma
relação causal entre um estado de coisas negativo e um resultado qualquer,
estaríamos admitindo a existência de fatos negativos, se aceitarmos que apenas
itens existentes entram em relação causal. Ora, a tese de que há fatos
negativos gera vários e conhecidos problemas. Assim, por exemplo, o que
tornaria verdadeira uma proposição negativa seria a existência de um fato
negativo correspondente; se admitirmos que proposições atômicas são aquelas que
correspondem a fatos elementares, e são logicamente independentes de qualquer
proposição, a relação entre a proposição negativa e a proposição afirmativa da
qual ela é uma negação permaneceria inexplicada ' não entenderíamos claramente
a inversão do valor de verdade que caracteriza a negação. O melhor, para evitar
tais dificuldades, é manter que a verdade de uma proposição negativa deve ser
analisada em termos da falsidade da proposição afirmativa que ela nega, o que
nos levaria a admitir apenas a existência de fatos positivos. Nesse caso, a
ausência de um fato no mundo não seria ela mesma um fato do mundo (um fato
negativo), mas seria caracterizada através da falsidade da proposição
afirmativa negada (a negação seria somente o operador proposicional que
introduz a inversão do valor de verdade da proposição afirmativa). Da mesma
forma, um mapa que figura erradamente uma certa região não representa "não-
regiões" do espaço, mas apenas representa falsamente tal região (i.e., não
corresponde a nenhuma região representada positivamente no mapa).32
Felizmente, como disse acima, não é necessário admitir a existência de fatos
negativos no modelo proposto para explicar a causalidade por omissão (embora
não seja tampouco necessário excluir essa tese; caso ela seja mantida, porém,
seria preciso, provavelmente, alterar também o modelo ora proposto,
especialmente no que diz respeito à relação entre estados de coisas e eventos,
e ao papel causal primário atribuído a esses últimos). Basta, para o modelo
funcionar, admitir que a ausência de certos fatos no mundo está
"apropriadamente relacionada" a eventos que causam outros eventos. Isso
significa que basta interpretar os estados de coisas negativos como sendo a
situação descrita por uma proposição negativa que é verdadeira porque os fatos
positivos do mundo não a incluem; em vez de dizer que o mundo instancia certos
fatos negativos, diríamos que a não-instanciação de um estado de coisas
qualquer é o que torna esse estado de coisas um estado de coisas negativo. A
exclusão de um fato positivo por um outro fato positivo daria, assim, o
conteúdo dos estados de coisas negativos; quando um estado de coisas negativo
~A fosse localizado em um ponto preciso do espaço e do tempo, haveria em seu
lugar um fato positivo B tal que B seria o caso e B excluiria A da existência.
No caso da explicação causal das omissões, diríamos que, se A existisse, o fato
positivo B não teria produzido o efeito C que ele realmente produziu.
No entanto, se isso é assim, poderíamos novamente duvidar da necessidade e
mesmo da possibilidade de introduzir estados de coisas negativos no contexto de
explicações causais genuínas. Se somente coisas existentes produzem efeitos
existentes, então poderíamos (deveríamos) explicar a totalidade dos
acontecimentos do mundo apenas através de fatos positivos e dos eventos a eles
associados ' no esquema anterior, apenas B apareceria em uma explicação de por
que C ocorre; ~A não seria mencionado.
Se, porém, pudermos identificar: a) um evento "apropriadamente relacionado" a
um estado de coisas negativo, ou seja, relacionado a ele de tal forma que, sem
ele, a explicação da ocorrência desse evento não seria possível e b) uma
conseqüência existente que inequivocamente se seguiu de tal evento; então
parece que poderíamos (deveríamos?) incluir tal estado de coisas negativo na
explicação da ocorrência dessa conseqüência. Não argumentarei a favor dessa
tese aqui, quando ela é aplicada a estados de coisas negativos em geral;
gostaria apenas de assinalar que, no caso específico das omissões intencionais,
é relevante introduzir estados de coisas negativos na explicação de certas
conseqüências. No caso de omissões intencionais, um sujeito X faz com que o
estado de coisas negativo ~A seja o caso ao tornar verdadeira a proposição
negativa ~p que o expressa. Mas X poderia ter tornado p verdadeira (se, por
exemplo, em vez de realizar o fato positivo que consiste em "estar parado
diante de seu pai", João tivesse se movido em direção à banheira para salvá-lo,
o ato de salvar seu pai teria sido o caso). Se o determinismo não for
verdadeiro, A e ~A são possibilidades reais ao alcance de X, e a menção ao que
não aconteceu no caso de uma omissão intencional (ou seja, a menção ao estado
de coisas negativo ~A) é relevante para entendermos o que aconteceu naquela
situação, pois a escolha de X por ~A é ela mesma um evento real do mundo, que
causou efeitos reais no mundo, e essa escolha é explicada em termos de um
estado de coisas negativo visado como desejável. Se a liberdade for um fenômeno
real, ao menos no caso das omissões intencionais há relevância na inclusão de
estados de coisas negativos. Suponhamos, para efeitos de comparação, que, no
domínio dos fatos naturais não intencionais, também haja indeterminismo: se ~A
é o caso, então B é o caso, e B exclui que A ocorra, mas poderia ter sido o
caso que (A e ~B). No entanto, nesse domínio, não há escolha nem
intencionalidade; logo, B não é um meio para que ~A seja o caso, como o é nas
omissões intencionais: B é simplesmente um fato real que exclui A, e ~A não
precisa (não deve?) ser mencionado.
Uma outra objeção ao modelo proposto diria respeito não à existência de fatos
negativos, mas a um apelo à realidade de mundos possíveis. Felizmente, tampouco
é preciso nos comprometermos, ao adotar tal modelo, com uma interpretação
especial sobre o estatuto ontológico dos mundos possíveis, pois basta que
usemos contrafactuais do modo usual para relacionar a ausência de certos fatos
com a existência de eventos que não ocorreriam se tais ausências não fossem o
caso. Em um artigo conhecido, Lewis afirma33 que há uma dificuldade na terceira
estratégia lá sugerida por ele para interpretar contrafactualmente a
causalidade por omissão, a saber: seria preciso pensar em eventos qua omissões,
e não em eventos simpliciter (como é o caso dos contrafactuais "normais"). Ora,
isso equivaleria a pensar em eventos "qua satisfazendo uma certa especificação
acidental", o que pode não ser impossível, mas é ao menos problemático, pois
não é claro como enunciar tais contrafactuais especiais. No modelo de Thomson,
porém, não é preciso qualificar os eventos envolvidos, pois basta que eles
sejam eventos simpliciter (entes concretos positivos), "apropriadamente
relacionados" a estados de coisas negativos, os quais, por sua vez, podem ser
caracterizados apenas através da falsidade da proposição afirmativa que eles
negam. Sendo assim, tudo o que precisaríamos dizer é que um dado evento só
ocorreria se um estado de coisas negativo "apropriadamente relacionado" a ele
fosse o caso, e que tais eventos geram efeitos (outros eventos), que são as
conseqüências indiretas dos estados de coisas negativos iniciais.
Porém, mesmo admitindo que há um modelo de causalidade comum às ações e às
omissões, e que as duas objeções propostas acima podem ser eliminadas, é
preciso assinalar pelo menos duas diferenças importantes entre estados de
coisas positivos e negativos no que diz respeito ao exercício da causalidade.
Para entender essas diferenças, consideremos, em primeiro lugar, que há dois
tipos de estados de coisas, os temporários e os permanentes.34 Os estados de
coisas permanentes são o caso sempre (por exemplo, o estado de coisas que
consiste em João estar em processo de afogar seu pai às 17:30h do dia 12/04/
2005); já os estados de coisas temporários só são o caso de tempos em tempos
(ou, eventualmente, nunca), por exemplo, o estado de coisas que consiste em
João estar em processo de afogar seu pai. Tanto os estados de coisas positivos
quanto os negativos podem ser permanentes ou temporários. Ora, a causalidade
ocorre, em sentido próprio, entre estados de coisas permanentes, mediados por
eventos, pois as relações causais entre os eventos "apropriadamente
relacionados" com os estados de coisas em questão são regidas por leis causais
e, portanto, são tais que, sempre que o evento relacionado com um certo tipo de
estado de coisas x ocorrer, o evento relacionado com um certo tipo de estado de
coisas y ocorrerá. Isso significa que vários estados de coisas permanentes
alternativos poderiam estar "apropriadamente relacionados" com evento-causa
(por exemplo, em vez de o estado de coisas permanente que consiste em João
estar em processo de afogar seu pai às 17:30h do dia 12/04/2005, poderia ser o
caso que o estado de coisas em questão consistisse em seu irmão Pedro estar em
processo de afogar seu pai às 17:30h do dia 12/04/2005, sendo esse o estado de
coisas que estaria "apropriadamente relacionado" com o evento de empurrar seu
pai para baixo d'água, o que causaria seu afogamento). Ora, a relação causal
entre estados de coisas, porque precisa da mediação de eventos, que são
entidades concretas particulares, que instanciam leis causais, precisam ser
estados de coisas determinados no espaço e tempo, de modo que aquela relação
causal precisa seja explicada e individualizada corretamente, distinguido-a de
outras relações causais possíveis entre estados de coisas. Em outras palavras,
se o enunciado de leis causais parece supor estados de coisas temporários, que
indicam tipos de estados de coisas, as realizações concretas dessas leis supõem
estados de coisas permanentes, que são instâncias desses tipos. Além disso, do
ponto de vista do comportamento humano, se queremos determinar a
responsabilidade moral das pessoas que fazem parte dos estados de coisas que
causam outros estados de coisas, temos de atribuir-lhes responsabilidade causal
pelos estados de coisas datados, ou seja, pelos estados de coisas permanentes.
Da mesma forma, os estados de coisas que causam esses estados de coisas
permanentes devem ser eles mesmos datados, i.e., permanentes, pois, de outra
forma, não poderíamos individuar precisamente a ação ou omissão pela qual a
pessoa em questão é responsável.
Ora, ao aceitarmos tudo isso, deveremos reconhecer também que há duas
diferenças notáveis entre estados de coisas positivos e negativos. Em primeiro
lugar, os estados de coisas positivos são em geral mais claramente
circunscritos no tempo: para a ação de João afogar seu pai, é possível atribuir
claramente um começo e um fim precisos. Já no caso da omissão de João de salvar
seu pai, seu começo parece ser determinado pelos eventos "apropriadamente
relacionados" a ela (o desmaio de seu pai e a imobilidade de João) e seu fim
parece ser determinado pelo evento "apropriadamente relacionado" ao estado de
coisas que ela causou (a morte de seu pai) ' no entanto, antes e depois desses
eventos demarcatórios, João tampouco estava realizando a ação de salvar seu
pai, o que faz com que a noção de começo de uma ação negativa seja um tanto
arbitrária. Ou seja, as omissões parecem, nesse sentido, ser muito mais
sensíveis às descrições que as individuam do que as ações (podemos talvez
tornar os limites temporais da omissão em questão mais nítidos se, em vez de a
descrevermos como "a omissão de salvar seu pai", a descrevermos como "a omissão
de socorrer seu pai do afogamento", introduzindo na descrição uma referência ao
evento que marca seu início). De um modo geral, diferentemente das ações, que,
pensadas como estados de coisas temporários, não são instanciadas sempre, os
estados de coisas negativos podem ocorrer, não sempre, mas freqüentemente, sem
gerar os efeitos que geram quando são pensados na sua "versão" permanente, em
conexão com as causas complementares apropriadamente relacionadas com elas.
Como vimos, não é tão claro determinar o que ocorre quando um estado de coisas
negativo "começa" em certo momento. Talvez o que "comece" nesse caso seja um
estado de coisas positivo correspondente (por exemplo, João estar sentado em
sua cadeira enquanto seu pai se afoga, na medida em que o estado de coisas de
não se mover pode ser descrito, em certo sentido, como uma ação peculiar,
envolvendo controle muscular35), sem que isso signifique dizer que não há um
estado de coisas negativo.
Essa primeira diferença entre ações e omissões, porém, não é decisiva, pois há
igualmente ações que se estendem por períodos extremamente longos (por exemplo,
a ação de cursar o ensino médio em uma escola) e com limites não claramente
definidos (por exemplo, a ação de aprender a ler) e há omissões que, com ajuda
dos eventos a ela apropriadamente relacionados, podem ser circunscritas
claramente no tempo e com limites claramente definidos (por exemplo, a omissão
de João de salvar seu pai).
Mas a segunda diferença entre ações e omissões poderia nos levar novamente a
duvidar da atribuição de causalidade a essa última, se aceitarmos que
causalidade pressupõe a aditividade de suas conseqüências. De fato, tomando
ações e omissões na medida em que elas envolvem estados de coisas permanentes,
há um número limitado de ações que realizo em certo momento,36 mas há um número
indefinidamente grande de omissões ocorrendo ao mesmo tempo em cada momento de
minha vida. Daí poderíamos concluir que a aditividade falha, se não sempre,
pelo menos na maioria esmagadora de casos de omissões, o que indicaria um
problema com nosso modelo de causalidade. Outra maneira de formular essa mesma
objeção seria a seguinte: a causalidade só pode ser uma relação entre entidades
existentes, pois, caso contrário, infinitas coisas que não fiz poderiam ser
causas de infinitas coisas que ocorrem em seguida no mundo, inclusive de
conseqüências que seriam, elas mesmas, estados de coisas negativos, o que me
levaria a afirmar que infinitas coisas que não fiz causam infinitas coisas que
não existem, e que tudo o que não existe causa todos os estados de coisas
futuros que existem e os que não existem, superpovoando a face total do mundo
com uma multidão de fatos negativos. Ora, isso trivializaria de tal forma o
conceito de causalidade que ele se tornaria inaplicável (justamente porque, em
certo sentido, ele seria aplicado a tudo). No campo da responsabilidade moral,
haveria igualmente esse risco de trivialização, pois eu poderia ser responsável
por tudo (ou por muita coisa) que ocorreria após uma omissão, quer seja ela
intencional ou não; assim, por exemplo, se eu visse uma enorme pedra de uma
tonelada rolando em direção a alguém, e se eu não tentasse impedir o
deslizamento da pedra com minhas próprias mãos (o que, obviamente, só
produziria como resultado duas mortes, em vez de apenas uma), então eu seria
causalmente (e moralmente) responsável pela morte daquela pessoa. E mais ainda:
se eu não tentasse impedir o percurso da pedra porque simplesmente estava
olhando para o lado oposto desse evento, eu também causaria, por minha omissão
não intencional, a morte daquela pessoa.
Contra essa objeção, eu diria, em primeiro lugar, que a causalidade não
pressupõe, como vimos, a aditividade, ou, alternativamente, como também já
vimos, que uma causa parcial só é caracterizada como uma causa quando entra em
conjunção com as demais causas parciais que são suficientes para produzir certo
efeito. Ou seja, devemos restringir a aditividade para os casos em que as
conseqüências das omissões forem existentes. Ora, dada uma certa omissão não
intencional, ela se conjuga com inúmeros eventos do mundo de formas não
previstas pela pessoa que faz com que ela seja o caso, gerando aditivamente
indefinidas conseqüências (e não gerando nada, quando nenhum evento estiver
"apropriadamente relacionado" a ela). Além disso, no caso da atribuição de
responsabilidade moral a pessoas, devemos restringir aos comportamentos
intencionais o domínio das ações e omissões a serem comparadas. É verdade que,
do ponto de vista ontológico, ações e omissões não intencionais são tão reais
quanto ações e omissões intencionais. Mas, do ponto de vista prático, o que nos
interessa são as ações e as omissões intencionais; ora, nesse caso, as ações e
as omissões intencionais instanciadas a cada momento por determinada pessoa
ocorrem em quantidades semelhantes.37 No caso das omissões intencionais, dados
os eventos que as tornam eficazes, a aditividade vale no mesmo sentido em que
vale para as ações, e nenhuma suspeita, derivada de um número
incomensuravelmente maior de omissões relativamente a ações, poderia ser
alegada para contestar tal afirmação.
Além disso, o modelo proposto da relação entre estados de coisas negativos e
eventos evita essa objeção, pois, além de existentes, as conseqüências de uma
omissão têm de ser tais que elas não existiriam se a omissão não fosse o caso,
e essa dependência contrafactual é explicada pela relação causal legítima entre
eventos, que são, como vimos, entidades concretas e positivas do mundo. Não
basta que a conseqüência seja existente, pois, no exemplo da pedra de uma
tonelada, a morte da pessoa é um evento existente e, no entanto, não há relação
causal entre minha omissão e tal evento. É preciso que as conseqüências em
questão, além de existentes, sejam dependentes contrafactualmente da minha
omissão. Finalmente, como já vimos anteriormente, não é preciso superpovoar o
mundo com fatos negativos, mas basta que um estado de coisas negativo esteja
"apropriadamente relacionado" com um evento que é tal que ele produz um outro
evento como seu efeito, e que esse último esteja "apropriadamente relacionado"
com um estado de coisas negativo ou positivo (por exemplo, na relação de "ser o
começo de tal estado de coisas").38 O conceito de causalidade aplicado a
omissões pode, dessa forma, evitar a trivialização temida, tanto no campo
ontológico quanto no moral (os quais, nesse caso, colapsam em um mesmo conjunto
de condições de atribuição de responsabilidade causal e moral).
Conclusão
Muitas conseqüências poderiam ser retiradas do que foi dito no que diz respeito
à atribuição de responsabilidade moral. Uma delas (se aceitássemos a tese de
Chappell) seria a de que nem toda atribuição de responsabilidade moral depende
da atribuição de responsabilidade causal, uma vez que somos moralmente
responsáveis por todas as nossas omissões intencionais. Outra conclusão (se
aceitarmos a tese de Thomson) seria a de que o modo indireto como a causalidade
se dá no caso das omissões poderia, pelo menos em alguns casos, diminuir ou
atenuar a responsabilidade moral dos indivíduos que se omitem relativamente à
situação em que a conseqüência engendrada seria causada positivamente por sua
ação. Poder-se-ia argumentar, nos dois casos, que somos menos responsáveis por
nossas omissões do que por nossas ações.39 Mas, se ações e omissões envolvem
igualmente liberdade, intencionalidade e causalidade (com a única diferença, no
caso dessa última propriedade, no modo como a causalidade é exercida), por que
uma omissão é, geralmente, menos condenável (se não moralmente, pelo menos
juridicamente) do que uma ação correspondente? No início deste texto, afirmei
que voltaria à atribuição de intenções para explicar uma diferença entre ações
e omissões que, embora não gere nenhuma assimetria relevante entre elas, é, no
entanto, notável (trata-se aqui de intenções entendidas como o propósito de
certo comportamento40). Trata-se justamente dessa diferença nos graus de culpa
atribuídos intersubjetivamente nos casos de ações e omissões. A explicação
dessa diferença me parece simples: é mais fácil determinar a intenção que anima
certa ação do que a que anima certa omissão correspondente (essa comparação é
possível desde que todas as demais variáveis relevantes para a interpretação
desses dois comportamentos "correspondentes" permaneçam as mesmas), uma vez que
a intenção exprime-se mais diretamente na ação41 do que na omissão. Nessa
última, é preciso supor mais crenças e desejos não manifestos para poder
atribuir a uma pessoa uma determinada intenção (pensemos no caso de alguém que
se omite de salvar outra pessoa que está se afogando em uma piscina à sua
frente: ela deixou de agir porque queria ver essa pessoa morta ou porque teve
receio de se afogar juntamente com ela?). Do ponto de vista intersubjetivo, o
que não é o caso não torna manifesto de forma tão clara quanto o que é o caso
qual foi a intenção da pessoa que o produziu.